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* Sob o Olhar da Esfinge *
Eles imaginavam se aquilo era algum tipo de sonho, ou mesmo alguma miragem produzida por Toth, ou se era realidade. Ninguém conseguia se mover, muito menos falar coisa alguma. Shaka sorria calmamente, feliz por revê-los após tanto tempo. Já Seiya não conseguiu se conter. Correu em direção a eles, movimentando os braços e gritando:
- Ei, amigos! Amigos! Que bom vê-los!
Seiya estava visivelmente feliz em encontrá-los, e abraçava um e depois o outro, e tentava levantar um outro. Shiryu e os outros demoraram um pouco para conseguir responder.
Shiryu:
- Seiya... é mesmo você, Seiya?
Seiya:
- Mas que história é essa? É claro que sou eu, será que não me reconhece mais, amigo?
Hyoga mal conseguia pronunciar as palavras:
- Mas... mas... você... como pode?
Shun:
- Será mesmo verdade?
Ikky:
- Eu... não sei o que dizer... Conheço ilusões, e isto não me parece com uma. Pelo contrário, eu sinto a presença de Seiya.
Seiya:
- É porque eu estou aqui, dããã... O que há com vocês? Esperava uma recepção mais alegre de vocês...
Shiryu:
- É que... é que... não acreditávamos que você ainda estivesse vivo depois... depois que você morreu... Quero dizer...
Seiya:
- Ah, isso! Então vocês estavam certos, eu acho... Shaka...?
Shaka:
- É muito bom ver todos vocês reunidos novamente. Gostaria de pedir que não façam este tipo de pergunta ao Seiya, porque ele sabe ainda menos que vocês sobre o que aconteceu. Já que estão todos aqui, poderei explicar os acontecimentos na medida do que eu sei. Vamos procurar um bom lugar para nos sentar!
Após se sentarem, Shaka pediu que todos o ouvissem procurando interromper o mínimo possível, pois o tempo era curto. Sem dúvida Shaka era uma pessoa que impunha bastante respeito, de forma que os cavaleiros ficaram ao seu redor prontos para ouvir o que ele tinha a lhes falar.
- Bem, realmente vocês têm motivos para estarem se sentindo confusos e desorientados com tudo isso. Afinal, ninguém poderia esperar que Seiya, Mu e eu ressuscitássemos, enquanto vocês quatro morressem. Mas saibam que tudo isto está sendo controlado por alguém superior, e que realmente tudo isto era necessário para que a Terra pudesse ser salva mais uma vez.
- Como vocês todos sabem, eu sou a reencarnação atual de Buda (Buddah), e por isso sou uma das pessoas com o espírito mais elevado que existem. Graças a isso, quando eu e os demais cavaleiros de Ouro nos sacrificamos diante do Muro das Lamentações, meu espírito não se extinguiu completamente. Logicamente eu não possuía mais um corpo nem minha consciência era mais a mesma. Mas naquele estado, digamos, superior de consciência, eu pude crescer bastante em espírito, em eterna meditação. Há algum tempo, no entanto, alguma coisa na Terra chamou a minha atenção e perturbou a meu estado de tranqüilidade. De alguma forma, fui capaz de perceber a terrível ameaça que estava a ponto de surgir. Então, na forma de espírito, pude solicitar diretamente a Zeus, o pai dos deuses, que me permitisse voltar temporariamente à vida para ajudar no que fosse necessário.
Seiya:
- Você conversou com Zeus?
Os outros:
- Pssst!
Shaka:
- Tudo bem. É bastante difícil explicar a vocês a realidade que se experimenta na forma de alma. Sugiro uma comparação: digamos que, em oração e meditação, eu podia entrar em sintonia mais facilmente com as esferas superiores. Agora imagine a seguinte situação: eu precisava renascer, mas para ajudá-los de verdade eu precisava observar os nossos adversários, o que só me seria possível fazer estando aqui, no mundo espiritual. Além disso, havia o detalhe das armaduras de vocês, que seriam indispensáveis para a batalha. Então, pedi a Zeus que Mu de Áries fosse revivido para que, com seus poderes paranormais, o que havia sobrado das armaduras fosse levado até vocês. Uma vez juntos, nos esforçamos em busca das armaduras de vocês.
Lembranças de Shaka...
Mu está bastante suado, em frente ao buraco aberto no Muro das Lamentações, procurando mentalmente pela armaduras. Após muitas horas de esforço, ele ainda não desistiu, pois sabe que o destino de todo o mundo depende dele naquele instante.
- Droga... É impossível!
- Não desista, Mu! Temos que continuar tentando!
Dentre todos os cavaleiros de ouro, Mu seria o único que teria alguma chance de conseguir. Suas habilidades de teletransporte e telecinésia combinadas ao poder de um cavaleiro dourado eram a única esperança de se superar a distância entre o Inferno e o Paraíso. Mesmo auxiliado por Shaka, seu poder era insuficiente. Conforme havia sido dito, apenas com a ajuda divina essa travessia poderia ser feita.
- Não adianta... Shaka! Precisamos... da ajuda de... Athena!
- Tudo bem, Mu... Vou entrar em contato com ela agora mesmo. Por favor, descanse agora.
Shaka concentra-se e consegue atingir a mente de Saori por alguns segundos.
- "Saori... Vá até o Santuário!..."
O esforço era muito grande para ele, que caiu desmaiado. Agora só restava aguardar...
No dia seguinte, eles perceberam que Saori estava no Santuário, em oração. Era preciso tentar agora. E então, usando de toda sua concentração, Shaka tentou mais uma vez o contato telepático...
Ikky:
- E aí vocês, com a ajuda de Saori, transportaram as armaduras até Saori.
Shaka:
- Exatamente. Esperamos que Athena estivesse no Santuário, uma vez que naquele lugar está concentrada a energia dos cavaleiros e dos deuses desde tempos mitológicos, e toda a ajuda seria necessária para aquela tarefa. Solicitamos a Athena que enviasse todo seu cosmo divino para a alma de Mu, e desta forma ele conseguiu alcançar as armaduras de bronze. Mas algo ainda estava errado. Com o enorme estrago provocado por Hades, as armaduras estavam novamente mortas, apesar de terem estado hibernando por mais de um ano. Confiante de que Kiki seria capaz de consertar as armaduras desde que elas estivessem vivas, Mu sacrificou sua energia vital para trazer as armaduras de volta à vida antes de enviá-las até Saori. Felizmente ele estava certo, e vocês puderam ter suas armaduras de volta.
Hyoga:
- Mas ao que parece todo esse esforço foi em vão. As armaduras não impediram que fracassássemos.
Shaka:
- Engano seu, Hyoga. Vocês não foram derrotados ainda. Na verdade, era seu destino, era preciso que vocês viessem até aqui. A verdadeira batalha de vocês foi planejada para começar aqui.
Todos:
- Como assim, Shaka?
Shaka:
- Bem, da mesma forma que eu me referi ao meu Eu Superior como o mesmo de Buda, todos nós temos essa ligação espiritual com nossas verdadeiras identidades espirituais. Isso inclui até mesmo os deuses, o que explica a variedade de deuses existentes nas mais diversas culturas espalhadas pelo mundo através dos tempos, e que contêm fortes semelhanças. Alguns de seus adversários, os deuses do Egito Antigo, também coexistem na forma de outros deuses.
Shiryu:
- Isto é incrível!
Shaka:
- Logo vocês poderão compreender mais completamente, assim que experimentarem por si mesmos a multi-existência. Antes, deixem-me falar agora sobre esses deuses. Vocês devem saber alguma coisa sobre a antiga civilização egípcia. Apesar de ser um povo que viveu há muito tempo, conseguiram realizar proezas notáveis. A construção das grandes pirâmides, visto a precária tecnologia existente na época, permanece um mistério até hoje. Muitas coisas interessantes foram descobertas estudando-se aquelas construções do ponto de vista das mais diversas ciências, como Matemática, Geometria, Numerologia, Astronomia, dentre outras. Eles eram um povo politeísta, ou seja, assim como os gregos, eles acreditavam em vários deuses. Na verdade, muitos faraós chegaram a ser considerados verdadeiros deuses na Terra. Embora a lenda moderna dos Cavaleiros do Zodíaco tenha surgido na Grécia, hoje considerada o berço dos cavaleiros, sabe-se que eles existiram desde o início da humanidade. Assim, no antigo Egito, haviam também os deuses, e seus respectivos cavaleiros.
Shiryu:
- Então esses deuses...
Shaka:
- Isso mesmo, Shiryu. Alguns dos deuses que vocês enfrentarão são projeções alternativas dos deuses que vocês conhecem pela mitologia grega. Por exemplo, o deus Toth era o considerado o deus da sabedoria. Vocês sabem quem é o seu correspondente na mitologia grega, não?
Ikky:
- Não me diga que ele é...
Shun:
- Athena!
Shaka:
- Exatamente. Selvnor é a reencarnação do deus Toth, assim como Saori é a de Athena. E essas duas entidades, Toth e Athena, são projeções da mesma entidade divina.
Hyoga:
- Mas eu não compreendo! Se ele e Athena são a mesma pessoa, como é que logo ele foi nos derrotar?
Shaka:
- Antes, deixe-me falar sobre os outros deuses. Ao todo, ressurgiram 12 dos principais deuses egípcios, na forma de Combatentes Divinos. Destes, 7 possuem um nível de poder especial, e se autodenominam Mestres Infinitos. São eles:
* Toth, deus da sabedoria, representado pelo pássaro íbis, que vocês já conheceram.
* Maat, deus da justiça e do julgamento.
* Sekhmet, deusa mensageira das epidemias e da morte, representada por uma leoa.
* Osíris, o rei dos deuses. Deus do renascimento, controla a terra e a vegetação, e é o mais poderoso dentre todos eles. Sua representação é o próprio sol.
* Seth, o ciumento irmão de Osíris. No passado, matou o irmão para assumir seu trono. É o deus da violência e da desordem, da guerra e da destruição. Representado por um burro, controla o deserto e suas tempestades.
* Hórus, representado pelo vigilante falcão, possui em seu cetro o símbolo da vida. É um dos filhos de Osíris.
* Anúbis, deus da morte e do outro mundo, simbolizado pelo chacal. Empunha o cetro dos reis e dos deuses. É o outro filho de Osíris.
- Os outros cinco deuses são:
* Bés, é o deus protetor dos sonhos.
* Ísis, deusa da magia, da cura, da beleza e da feminilidade. É a irmã e esposa de Osíris.
* Néftis, deusa guardiã dos túmulos, é a irmã e esposa de Seth.
* Geb, deus pacífico das terras, pai de Osíris, Seth, Néftis e Ísis. Como sabem, sacrificou sua vida para avisá-los do perigo que o planeta corria.
* Nut, deusa guerreira dos céus, esposa de Geb e mãe de Osíris e seus irmãos.
- Como vocês mesmos são capazes de observar, muitos deles possuem correspondentes na mitologia grega. Como Toth possui as mesmas origens espirituais de Athena, era de se esperar que ele defendesse a Terra com sua sabedoria. No entanto, todos os demais deuses mostraram-se firmemente dispostos a dominá-la, seguindo as ordens de Osíris. Se ele tentasse se rebelar sozinho, teria o mesmo destino de Geb, o que seria o fim de tudo. Então eu orientei Saori, e ela comunicou-se em espírito com Toth. Como ele não poderia fazer nada, seria preciso que os Cavaleiros de Athena mais uma vez lutassem pela Terra. Pressentindo a chegada de vocês ao Egito, Osíris ordenou a Anúbis que fosse destruí-los, mas Toth ofereceu-se para ir em seu lugar. Desta forma, ele pôde impedir que vocês fossem mortos e pudessem se preparar para a verdadeira batalha. Ao mesmo tempo em que lhes mostrava como é o poder que eles possuem e o quanto vocês seriam impotentes frente a eles, Toth permitiu que vocês viessem até mim por algumas horas, para que aprendessem todo o necessário para despertar novos poderes.
Shiryu:
- Espere um momento, Shaka. Você quer dizer que nós não estamos mortos de verdade?
Shaka:
- Não poderia ser de outra forma.
Seiya:
- Mas e eu, Shaka? Você não explicou como eu cheguei até aqui. Tudo o que eu sei é que perdi os sentidos após a luta contra Hades, e de repente desperto aqui, ao seu lado.
Shaka:
- Tudo bem, Seiya. Como seus amigos não sabem do início da história, vou colocá-los a par de tudo. Seiya tinha sido definitivamente morto pela espada de Hades, de forma que sua alma simplesmente foi despedaçada. Para ele, então, todo o significado de tempo deixou de existir, e para ele esses anos que se passaram não existiram. No entanto, Saori pressentiu que sua presença seria de fundamental importância na luta, e ela pediu diretamente a Zeus, pai dos deuses, que permitisse que Seiya voltasse à vida.
Mansão da família Kido, na mesma noite em que Geb morreu.
Todos já estão nos seus quartos, pois devem descansar bastante antes de partir para o Egito na manhã seguinte. Apesar disso, Saori está bastante aflita, e não consegue dormir. Seus pensamentos estão confusos com a expectativa do dia seguinte.
"Novamente eles terão que lutar...", sua própria voz insistia em lamentar.
"Faça seu cosmo entrar em sintonia com o de Toth, e fale com ele.", a voz de Shaka em sua lembrança pedia-lhe algo que ela não sabia como fazer.
Saori então procura afastar todos esses pensamentos e se concentra. Em alguém em que ela não conhece, mas que espera reconhecer o cosmo. Sem saber onde nem como, ela simplesmente tenta falar mais do que consigo mesma, ela tenta alcançar sua própria alma. Então uma voz fala muito alto em sua mente. Apesar disso, sua concentração não é abalada.
"Quem é você?"
"Sou Athena!"
"... Você !?"
"Preciso lhe pedir uma coisa..."
"Não precisa falar, eu posso sentir. Aliás, era o mesmo que eu já sentia em meu íntimo, mas não conseguia compreender. Não sei se serei capaz de trair meu senhor Osíris, mas parece que não tenho escolha. Sim, Athena, vamos ter que unir nossas forças!"
E assim o plano foi traçado para que os cavaleiros fossem ao mundo espiritual encontrar Shaka. Aparentemente estava tudo pronto, mas seu coração dizia que faltava ainda algo muito importante...
- Seiya...
Ela surpreende-se com o que acabara de ouvir de sua própria voz. Mas sabe que é apenas a verdade que ela não conseguia ocultar de si mesma. Para a luta final, os quatro cavaleiros não seriam o bastante, seria necessária a ajuda do cavaleiro de Pégaso. E além disso, seu coração lhe dizia que ela precisava revê-lo.
Após pensar um pouco, a única solução que ela encontra nesse momento de aflição é a mesma que qualquer pessoa imaginaria. Ela também é órfã, e todos precisam do consolo de um pai. Talvez seu pai pudesse ajudá-la...
"Zeus... Zeus!... Sou eu, Athena!..."
Nenhuma resposta.
"Zeus, meu pai!... Preciso de sua ajuda!... Nunca lhe pedi nada, mas desta vez só o senhor pode me ajudar!..."
Nada, nem mesmo a sensação de estar sendo ouvida. Lágrimas de desespero começam a rolar de seus olhos.
"Por favor!... Eu lhe imploro!... Traga Seiya de volta!... Por apenas esta vez!..."
"Tudo acontecerá a seu tempo..."
"Zeus!?... É o senhor?!..."
A voz que ela ouvira não mais respondeu, mas ela sabia que agora só lhe restava esperar. Em seu íntimo, ela sabia que poderia revê-lo, mesmo que apenas mais uma vez...
- Desta forma, amigos, ao mesmo tempo em que Toth disparou seu ataque final contra vocês, o espírito de Seiya ganhou uma nova vida, e ele surgiu aqui. Não se sabe se sua volta é temporária ou definitiva, mas se ele foi ressuscitado justamente agora, certamente ele viverá o bastante para lutar até o fim. Por enquanto, é tudo o que sou capaz de lhes dizer a respeito.
Seiya está com a cabeça baixa, muito pensativo.
- Entendo...
Ikky, sabiamente, resolve mudar o assunto para outro ponto que lhe incomodava desde o início da conversa:
- Shaka, acho que é hora de nos contar o que você descobriu sobre os poderes dos nossos adversários. Tudo o que nós quatro notamos é que é um poder que nossos cosmos nunca conseguirão alcançar. Não sei explicar, mas a energia deles parecia e não parecia cosmos ao mesmo tempo. Gostaria de saber se é possível que nós superemos esses adversários.
Shaka:
- É possível sim, caso contrário vocês não teriam sido trazidos aqui a tanto custo. Mas para atingir esse poder, tudo dependerá exclusivamente de vocês. Da mesma forma que o sétimo e o oitavo sentido que vocês atingiram, isto é algo que não se pode ser ensinado; cada um deve desenvolver por conta própria. Agora, procurem manter suas mentes o mais abertas possível, e prestem bastante atenção...