Gênesis
Por Claudio Rabello

 

 

Quero ser o rio e não o que leva a correnteza, pois  quero ser a
origem e não a conseqüência.
Quero ser o galho que é levado no bico e não o pássaro, pois
antes de ser o criador, quero ser a massa de
que é feito a criatura.
Quero ser o fruto e não a semente e menos a raiz,  pois quero
antes de sustentar , antes de procriar, adoçar e alimentar
os que serão filhos da terra.
Quero ser o que vai e não o que vem, para antes de ser a
esperança no sorriso de quem chega, ser a fé na
lágrima de quem parte.
Quero antes de ser múltiplo ser único, para antes de me conformar
com a perpetuidade da luta não esquecer de lutar
pela sobrevivência
Quero ser o que me proponho a ser e não o que gostaria de ser,
pois assim, ainda me bastará  não me tornar o que
definitivamente não sou.
Seria fácil querer ser a mão ingênua que sempre perdoa  mas
reconhecendo não ser santo,  prefiro ser o que atira a pedra
convicto, pois  me sobrará no juízo, depois do veredicto, o
papel de ao não ser perfeito, ter sido honesto com meu
sentimento  de revolta  e justiça; e por não ter
sido leviano, ter uma nova chance de me
tornar melhor.
Quero ser a pergunta e não a resposta, pra nunca perder a sede de
aprender e a humildade de reconhecer meu mais absoluto
despreparo como ser humano.
Ah! como eu queria amar e ser amado para não sofrer o revés de,
ao ser um e não ser outro, morrer por ter um amor pela metade.

Só não quero escolher entre ser o antes e o depois, pois como
Deus, não teria esse delicioso e inesgotável prazer de não
ter direito a escolha, mesmo a errada, essa que tenho
feito nos momentos mais delicados de minha
vida mas da qual, não me passa pela cabeça
qualquer arrependimento. Ou passa?
Quero ser isso e não aquilo e depois aquilo e não isso para,
conhecendo os dois lados da face da moeda, saber o
que me caberá quando ela for lançada no espaço e
não  depois que ela cair no chão.
Quero viver e morrer e renascer de novo para entender que tudo
que fiz é conseqüente e que com o tempo me devolverei à
origem de tudo, para  poder ser parte integrante da célula
inteligente, responsável por tudo aquilo que de mim
nascerá pelos milênios e milênios que jamais
deixarão de vir.

 

 

                

 

 

 

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