Barulho no Corcovado
 

(em resposta a Sávio Neves Jr.)


Carta coletiva, enviada pelos moradores à seção de cartas do Jornal do Brasil em 23/08/2002. Não publicada.
 
 

Nós, abaixo assinados, moradores e vizinhos da estação da Estrada de Ferro do Corcovado, queremos afirmar que:

1 – Acreditamos que o silêncio é um bem em extinção e desaprovamos o uso de alto-falantes pela Estação do Corcovado.

2 – Consideramos que, em sua resposta ao comentário crítico feito pelo jornalista Joaquim Ferreira dos Santos, a atual administração daquele complexo turística, foi prepotente — ao afirmar que as mudanças são irreversíveis —, e diversionista — ao responder com uma prestação de contas dos feitos da atual administração — como se houvesse alguém a fim de demolir o Cristo ou acabar com a Estação, e, ainda, como se tais feitos lhe dessem direito de perturbar a vizinhança.

Ora, nós, vizinhos da Estação, que de nossas janelas vemos o Corcovado e achamos lindo, queremos paz. E silêncio… E gostaríamos que esta carta fosse lida não apenas na presença visual do Redentor — uma entidade plácida e silenciosa — mas também tendo em mente os seus princípios como, por exemplo: "Não faças ao próximo o que não queres que façam a ti mesmo".
Quanto à prestação de contas, nós, vizinhos, podemos adiantar que, sem sombra de dúvida, os senhores estão de parabéns, pois estão prestando bem uma série de serviços para o qual são pagos. Serviços estes que ninguém está contestando — ninguém pode ser contra a idéia do espaço cultural, etc. O que está sendo questionado é o barulho, a poluição sonora, o uso de alto-falantes — palavra estratégicamente omitida na resposta da Estrada de Ferro. Tom, o mais carioca dos compositores, desaprovaria o uso que está sendo feito de suas canções. João Gilberto, então, nem se fala.
O que está sendo questionado é a absurda tentativa de transformar uma atração genuinamente visual (e olfativa e tátil, se quiserem) como o passeio ao Corcovado, numa atração audio-visual. Deixem os sons para os passarinhos! Será que estão pensando em colocar alto-falantes lá no alto, também?
Sugerimos aos administradores da Estrada de Ferro que visitem, lá na General Glicério, o "Chorinho na Feira", que é, de longe, a mais significativa novidade cultural da vizinhança. Ali, todos os sábados, uma dúzia de grandes instrumentistas executam a nata do nosso repertório instrumental, sem utilizar alto-falantes. Ali, o público tem que ir ao encontro do som, tem que se aproximar dele, em silêncio, para usufruí-lo — ao contrário deste som que atravessa a rua e invade nossas casas. Da mesma forma que o caminhão de frutas ou de pamonhas. Visitem a feira, senhores, para — quem sabe? — aprender que a música é a mais invasiva das artes. Abaixo os alto-falantes!
 
 

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