Caro Sr. Secretário,
Através desta carta coletiva, os moradores do Cosme Velho vêm expressar sua grande preocupação diante dos avanços de um projeto urbanístico que consideramos equivocado para o bairro: o projeto de construção de um estacionamento coberto no local atual da praça São Judas Tadeu.
O projeto - apresentado recentemente à prefeitura para aprovação - é aparentemente oriundo do projeeto Rio Cidade, nunca realizado no bairro. Foi porém modificado pela empresa ESFECO - administradora da Estrada de Ferro do Corcovado - para a construção de um estacionamento para os veículos de turistas que visitam o Corcovado. A praça São Judas Tadeu seria “deslocada” para a laje da estrutura de 3,5m de altura construída para o estacionamento.
Nada temos contra o fato de a empresa citada apresentar soluções para a Praça São Judas Tadeu, que necessita de fato de remodelação. Ao contrário, estamos de acordo em alguns pontos com a solução proposta — quando promove a retirada dos ônibus de turismo da praça e do seu entorno. Acreditamos saudável a participação de empresas privadas em obras e melhorias dos bairros de nossa cidade. O que colocamos em questão é simplesmente o projeto urbanístico, que consideramos absurdo e inaceitável, de se construir uma imensa estrutura de concreto na única área de convívio do Cosme Velho. Tal construção viria a desfigurar ainda mais este bairro de grande importância histórica e cultural para nossa cidade, que já sofre desde os anos sessenta de sua transformação em corredor de acesso para o Túnel Rebouças.
Ora, todos sabemos que áreas cobertas para estacionamentos são consideradas “áreas cinza”, onde facilmente surgem problemas como mendicância e violência, além da grande poluição sonora e visual. Sabemos também que a efetividade da praça enquanto tal repousa no convívio com seus arredores, no ir e vir espontâneo das pessoas, no fácil acesso para crianças, idosos e carrinhos de bebês. Uma praça é justamente o local onde o morador do apartamento encontra um pouco de terra e de natureza, e crianças podem brincar na areia. Sustentamos que uma praça suspensa a três metros de altura sobre um estacionamento não é mais uma praça, é apenas uma laje com jardins; Além disso, arquitetos residentes no bairro nos garantem que na prática seria impossível manter as árvores da praça - algumas centenárias - pois devido ao desnível do solo há necessidade de terraplanagem para construção do estacionamento.
Concluímos que o projeto apresentado pela ESFECO teria algumas graves conseqüências negativas para os moradores, tais como aumento da violência, desfiguração do visual histórico do bairro e desvalorização de imóveis nas ruas adjacentes. Solicitamos à prefeitura a abertura de estudos que avaliem o real impacto que uma tal estrutura teria na paisagem urbana do bairro, e pedimos uma audiência com o Sr. Secretário para melhor expor as razões que nos motivam a realizar tal petição.
Esta carta é resultado de diversas reuniões entre moradores do bairro do Cosme Velho, os quais , ao contrário do que afirma reportagem no suplemento Zona Sul (O Globo de 27 fevereiro de 2003) não concordam com o projeto citado, tendo já acionado o INEPAC e o Conselho Estadual de Tombamento, pois a praça São Judas Tadeu faz parte do entorno de um bem tombado — a Estação Inicial do Corcovado.
Agradecendo sinceramente pela atenção
e aguardando uma resposta com a urgência que o assunto requer, subscrevemo-nos:
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