Carta dos moradores do bairro do Cosme Velho ao

Secretário de Urbanismo da Cidade do Rio de Janeiro

 

Rio de Janeiro, 10 de março de 2003


Caro Sr. Secretário,

Através desta carta coletiva, os moradores do Cosme Velho vêm expressar sua grande preocupação diante dos avanços de um projeto urbanístico que consideramos equivocado para o bairro: o projeto de construção de um estacionamento coberto no local atual da praça São Judas Tadeu.

O projeto - apresentado recentemente à prefeitura para aprovação - é aparentemente oriundo do projeeto Rio Cidade, nunca realizado no bairro. Foi porém modificado pela empresa ESFECO - administradora da Estrada de Ferro do Corcovado - para a construção de um estacionamento para os veículos de turistas que visitam o Corcovado. A praça São Judas Tadeu seria “deslocada” para a laje da estrutura de 3,5m de altura construída para o estacionamento.

Nada temos contra o fato de a empresa citada apresentar soluções para a Praça São Judas Tadeu, que necessita de fato de remodelação. Ao contrário, estamos de acordo em alguns pontos com a solução proposta — quando promove a retirada dos ônibus de turismo da praça e do seu entorno. Acreditamos saudável a participação de empresas privadas em obras e melhorias dos bairros de nossa cidade. O que colocamos em questão é simplesmente o projeto urbanístico, que consideramos absurdo e inaceitável, de se construir uma imensa estrutura de concreto na única área de convívio do Cosme Velho. Tal construção viria a desfigurar ainda mais este bairro de grande importância histórica e cultural para nossa cidade, que já sofre desde os anos sessenta de sua transformação em corredor de acesso para o Túnel Rebouças.

Ora, todos sabemos que áreas cobertas para estacionamentos são consideradas “áreas cinza”, onde facilmente surgem problemas como mendicância e violência, além da grande poluição sonora e visual. Sabemos também que a efetividade da praça enquanto tal repousa no convívio com seus arredores, no ir e vir espontâneo das pessoas, no fácil acesso para crianças, idosos e carrinhos de bebês. Uma praça é justamente o local onde o morador do apartamento encontra um pouco de terra e de natureza, e crianças podem brincar na areia. Sustentamos que uma praça suspensa a três metros de altura sobre um estacionamento não é mais uma praça, é apenas uma laje com jardins; Além disso, arquitetos residentes no bairro nos garantem que na prática seria impossível manter as árvores da praça - algumas centenárias - pois devido ao desnível do solo há necessidade de terraplanagem para construção do estacionamento.

Concluímos que o projeto apresentado pela ESFECO teria algumas graves conseqüências negativas para os moradores, tais como aumento da violência, desfiguração do visual histórico do bairro e desvalorização de imóveis nas ruas adjacentes. Solicitamos à prefeitura a abertura de estudos que avaliem o real impacto que uma tal estrutura teria na paisagem urbana do bairro, e pedimos uma audiência com o Sr. Secretário para melhor expor as razões que nos motivam a realizar tal petição.

Esta carta é resultado de diversas reuniões entre moradores do bairro do Cosme Velho, os quais , ao contrário do que afirma reportagem no suplemento Zona Sul (O Globo de 27 fevereiro de 2003) não concordam com o projeto citado, tendo já acionado o INEPAC e o Conselho Estadual de Tombamento, pois a praça São Judas Tadeu faz parte do entorno de um bem tombado — a Estação Inicial do Corcovado.

Agradecendo sinceramente pela atenção e aguardando uma resposta com a urgência que o assunto requer, subscrevemo-nos:
 

Seguem-se quarenta e uma assinaturas.
 
 

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