Joaquim Costa: O Elvis de Campolide


Por: Pedro Neves in Correio da Manh�, fotografia de S�rgio Lemos

Senhoras e senhores, eis a hist�ria do primeiro homem a gravar rock'n'roll em Portugal. Um "bon vivant" de 69 anos que hoje ainda toca... em casa

Em 1959, Portugal alimentava a alma com a f�rmula encontrada por Salazar para alienar o povo: F�tima, futebol e fado. No meio de um marasmo sem fim � vista, uma franja mais jovem da sociedade come�ava a aborrecer-se com tamanha monotonia. Do outro lado do Atl�ntico sopravam os ventos de mudan�a, atrav�s um som que mexia com a juventude: o rock'n'roll.

Pouco dado a politiquices, sem a m�nima vontade de arranjar sarilhos e pernoitar na pris�o, Joaquim Rodrigues Costa era ent�o um rapaz entregue � paix�o pela bola e consequentes jornadas vitoriosas do seu Benfica. Meia d�zia de anos antes tivera at� a agrad�vel experi�ncia de ajudar os juniores do Cascalheira a conquistarem o campeonato da II Divis�o. J� a� mostrava dotes para a cantoria: "A malta estava sempre com aquelas discuss�es de quem tinha jogado pior e melhor, mas quando eu come�ava a trautear qualquer coisa paravam com aquilo tudo. Ficavam em sil�ncio e at� diziam que eu cantava melhor do que jogava".

Problemas de sa�de afastaram-no dos relvados. Na tentativa de escapar a trabalhos for�ados ou extensos compromissos laborais, Joaquim Costa passou a saltitar de emprego em emprego, a matar o tempo com deambula��es pela cidade e a viver da boa vontade dos pais.

Aguentava-se com pouco, feliz e descomprometido. "Talvez por influ�ncia dos filmes, levei sempre uma vida muito libertina, pouco ligada ao trabalho. Tentei ser futebolista, tentei cantar, ver cinema, arranjar mulher, fazer filhos (tem tr�s raparigas) e aguentar- me livre como um pardal."

Certa manh�, ao entrar no Parque Mayer, onde parava com regularidade para conversar com indiv�duos de expediente duvidoso � ainda hoje desconfia que fossem amigos do alheio � ouviu "uma coisa esquisita". Era um som diferente, vindo de uma "jukebox" colocada numa casinha que o tempo se encarregou de eliminar: "Dirigi-me ao local e vi dois gajos com uma viola a meterem moedas de dez tost�es na m�quina. Comecei a ouvir aquilo e fiquei pregado. Foi como uma injec��o de adrenalina que me entrou pelo corpo a dentro."

A "overdose" sonora foi t�o forte que Joaquim n�o resistiu a indagar os rapazes: "Quem � este tipo?". A resposta demorou dois segundos: "Bill Haley & His Comets".

Ele, at� ent�o pouco ou nada interessado por m�sica, ficou louco com a descoberta. J� s� via rock'n'roll � frente. As "jukeboxes" transformaram-se num abrir e fechar de olhos em locais de culto onde se acostava grande parte do tempo: "O Bill Haley mudou a minha vida. Eu at� andava a tentar sair daqui, ir para a Legi�o Estrangeira, fazer coisas doidas, e cheguei a dirigir-me � Embaixada de Espanha para saber o que era necess�rio, mas o salto seria dado dentro de barris. Aquilo n�o era para mim".


Uma Estrela na feira

Sem conhecimentos de ingl�s, Joaquim Costa decidiu ficar por c� e esfor�ar-se por levar mais longe a paix�o pelo novo estilo musical importado dos Estados Unidos. Qual rebelde sem causa, deixou crescer a popa e as patilhas, e iniciou-se na arte de cantar � sua maneira, numa cacofonia de ingl�s ainda hoje pouco percept�vel.

Apesar da trapalhice, o timbre colocado ajudou-o, enquanto as engenhosas vocaliza��es davam para desenrascar e fazer boa figura. "Como estudei s� at� � quarta classe n�o sabia ingl�s, cantava de ouvido, imitava o que os outros diziam e ficava parecido. At� soava afinadinho."

As primeiras demonstra��es p�blicas do talento escondido n�o tardaram a aparecer. Um conhecido que tocava em conjuntos de baile acedeu a alinhar numas sess�es de improviso no Jardim da Estrela. Juntavam-se ao p� de uma m�quina de discos e passavam o tempo a bebericar uns caf�s, entremeados por batuques nas mesas e uns temas dos "States".

Os toscos ensaios ao ar livre deram frutos. A banda, composta por seis elementos, soube da realiza��o naquele local de uma feira cultural e dirigiu-se aos escrit�rios de Leit�o de Barros, programador do espa�o, para saber se podia participar. Como Joaquim cantava de ouvido, pediu a S�rgio e a Arm�nio, dois dos companheiros mais instru�dos, que soltassem a voz. Nada feito, fugiram com o rabo � seringa e ele pressentiu que iam ficar mal vistos. Sem hesitar, arriscou a sorte e vai disto que amanh� n�o h�: "Tutti Frutti" cheio de garra e improviso.

O grupo acabou por ser contratado. Ganhava 50 escudos por noite, uma fortuna para a altura, embora o acidental her�i do rock se tenha aborrecido depressa. "A princ�pio foi muito bonito, mas sou muito rebelde, n�o gosto das coisas durante muito tempo, e n�s t�nhamos de estar ali todas as noites durante tr�s horas, em cinco palcos. �s vezes, quando me sentia com energia, era fant�stico, outras cansativo e ma�ador."

Ainda assim, Joaquim arranjou popularidade. Uma noite, recebeu mesmo um convite para rumar aos Estados Unidos, feito por um homem vestido de branco, tipo Al Capone, que o chamou depois de mais uma actua��o na Feira da Estrela: "Queres vir para a Am�rica?", perguntou em surdina, como medo de ser ouvido por elementos da PIDE.

Joaquim n�o gostava de experi�ncias radicais, agradeceu e rejeitou a proposta. Em Portugal vivia com afli��es econ�micas mas estava seguro, era idolatrado, na rua os transeuntes chamavam-lhe "O Elvis de Campolide", apontavam-lhe o dedo e exclamavam baixinho: "Olha, aquele � o tipo que anda a cantar na Feira da Estrela". Os marinheiros americanos riam-se, maravilhados com as engenhocas vocais. "Eu era um super naquele tempo", sublinha vaidoso antes de completar, estilo lenda da guitarra, que "at� recebia cartas de f�s".

Quando o pai morreu, Joaquim Costa fez um interregno de tr�s dias nas actua��es. Encontrara o motivo ideal para deixar o local; a aventura chegava ao fim pouco depois, embora ele jamais tenha esquecido aqueles tr�s meses. Os outros elementos criaram uma banda, mas Joaquim j� n�o alinhou, preferindo continuar sozinho a carreira.

Ainda em 1959 cantou na Mitra, inclu�do no lote de artistas convocados para o Natal dos Hospitais, e n�o fecharia um dos anos de ouro da sua vida sem gravar um disco de 78 rota��es no antigo R�dio Gra�a, objecto de culto eternizado por apenas 200 escudos.


O disco que vale ouro

� excep��o de dois ou tr�s recortes da extinta revista "Plateia" � entre os quais uma p�gina inteira sobre o concurso "Do C�u Caiu Uma Estrela", do qual, para n�o variar, tamb�m desistiu � e de uns quantos folhetos religiosamente guardados, o �lbum gravado h� 45 anos, com edi��o limitad�ssima de dois exemplares, � a �nica prova em como Joaquim Costa tem direito a figurar na galeria dos primeiros "rockers" portugueses. Descuidado, sempre de cabe�a no ar, chegou a perder um dos registos n�o sabe bem onde � cr� que tenha sido levado pelas chamas que consumiram os est�dios da Valentim de Carvalho, local visitado quando lhe deu para tentar lan�ar um �lbum comercial.

"Fui � Valentim, mostrei o disco e disseram-me para deix�-lo ali e fazer uma vers�o em portugu�s de um tema famoso. Um amigo ajudou-me a traduzir a letra, mas detestei aquilo. Sou um tipo desconfiado, tenho sempre um p� atr�s, e achei que por interm�dio da can��o estavam a despachar-me, a dizer aquilo que n�o tiveram coragem de afirmar na cara."

O outro exemplar da grava��o ficara perdido no arquivo do R�dio Gra�a, que acabaria por fechar as portas. De um momento para o outro, Joaquim Costa via escaparem-se por entre os dedos os dois discos.

Qual Indiana Jones � procura da arca perdida, deu in�cio a uma busca desenfreada, mas sem sucesso. Perseverante, veio a encontrar um deles trinta anos ap�s a grava��o, na Feira da Ladra, local onde at� h� pouco tempo marcava o ponto todas as ter�as-feiras e s�bados, para vasculhar preciosidades do rock'n'roll. "Ainda me lembro desse dia de 1989. Foi o mais feliz da minha vida, acho que j� tinha perdido as esperan�as de encontrar o disco. Nunca mais o larguei."


Candidatos ao trono

A dedica��o e carinho com que trata aquele registo tem a sua explica��o: s� ele poder� comprovar que Joaquim � um dos "rockers" mais velhos do nosso pa�s.

O assunto d� pano para mangas, com v�rias pessoas a reivindicar o t�tulo. � que na segunda metade dos anos 50 apareceram muitos grupos a apostar no "rock'n'roll", como os Babies, de Coimbra, onde alinhava uma figura mais tarde bem conhecida do panorama musical lusitano: Jos� Cid.

Joaquim discorda da tese, sacando de um �lbum de fotos para comprovar ter sido ele um dos pioneiros: "O Jos� Cid est� aqui ao piano, diz que foi o primeiro cantor de rock'n'roll de Portugal, mas eu nunca o conheci", solta entre risos, para logo em seguida disparar: "Conheci o (Daniel) Bacelar, os Conchas, Zeca do Rock, mas sinceramente nunca vi o Jos� Cid como "rocker" dessa altura. Onde � que ele tocou?", pergunta em jeito de provoca��o.


�guas de bacalhau

O "fabuloso Costa", outro dos ep�tetos inventados para o descrever, passou parte das d�cadas de 60 e 70 a meio g�s, com concertos nas mais variadas colectividades, casas de recreio ou de amigos. Esteve nos Jotas do Rock, duo com o qual ainda gravou � experi�ncia na R�dio Renascen�a, embora o tema tenha acabado por passar l� pela uma da manh� e "s� os taxistas � que ouviram". Teimoso, voltou � Valentim de Carvalho para mais uma grava��o nuns est�dios situados na Costa do Castelo. Gostou do resultado final, mas o certo � que acabou tudo em �guas de bacalhau.


Entre os grandes

Em 1964 d�-se um dos epis�dios mais curiosos da passagem de Joaquim Costa pelo "showbiz" portugu�s: vai tocar ao Cinema Monumental, ganhar 100 escudos � pala do "Festival de Ritmos Modernos".

Estavam l� os maiores da d�cada, era preciso ser profissional, pelo que ainda guarda a carteira dessa altura, na qual � inclu�do na categoria dos can�onetistas � orgulhosamente, como se tivesse realizado um feito louv�vel, afian�a nunca ter pago as quotas.

Henrique Mendes apresentava a gala, na qual Joaquim teve uma entrada no m�nimo aparatosa. Alinhou suportado pelo Conjunto Capri, e, ao preparar-se para romper triunfal pelo palco deu um pontap� no baixo, que se desligou, provocando um barulho ensurdecedor.

"A malta at� se passou. J� estava tudo ali a olhar para o conjunto, h� muito tempo � espera, a gritar "velhada, velhada", e pior ficou com essa cena." O "rocker" n�o se foi abaixo, avan�ou de alma e cora��o e no fim passou com distin��o aquele Cabo das Tormentas.

Vasco Morgado at� lhe disse que podia l� ficar, bastava para isso arranjar um grupo de malta mais nova para o acompanhar. Parecia a realiza��o de um sonho, mas o bom do Costa desligou-se da ideia. "Eu era assim, t�o depressa queria como n�o queria. Fa�o sempre aquilo que quero e que me apetece, e se vejo que a coisa incomoda muito acabo logo com ela."

Nesse 7 de Mar�o de boa mem�ria, V�tor Gomes, vocalistas dos Gatos Negros, foi ter com ele depois da actua��o: "Ah, � voc� que vem para aqui cantar mais do que eu?". Joaquim pegou na mod�stia para responder: "Eu n�o quero chatear ningu�m, venho para aqui procurar a minha vida". A intempestiva estrela dos palcos ouviu mas n�o se ficou pelas palavrinhas mansas: "Ent�o fique sabendo de uma coisa: se voc� se atirar contra uma parede eu atiro-me contra um comboio".

Hoje, V�tor recorda-se vagamente do epis�dio: "Esses eram os bons velhos tempos. Eu dizia muito essas coisas, tinha aquela rebeldia da juventude, do rock'n'roll. Mas n�o era nada contra os outros cantores".

Joaquim n�o arranjou parceiros para dar seguimento � aventura pelo mundo da m�sica e a partir de ent�o, os concertos tornaram-se mais espor�dicos do que nunca.

Em 1978 tocou no Bar Zod�aco, na Rua de Santana � Lapa, e apanhou uma constipa��o que lhe estragou a garganta. Nunca mais recuperou, e garante ter perdido as cordas vocais de outros tempos.

A sua �ltima apari��o em p�blico foi j� na d�cada de 80, no "Passeio dos Alegres", m�tico programa de J�lio Isidro onde se tentava descobrir o Elvis Presley portugu�s. Participou em jeito de homenagem ao "Rei", mas ficou mal nas perguntas e acabou por n�o cantar na final � acha que foi tra�do por uma quest�o mal formulada.

Depois deixou-se de ideias tresloucadas, p�s a viola no saco e s� mostra o talento em casa, onde passa quase todo o tempo: "Fa�o colec��o de fotografias de rock, construo os �lbuns e tudo. Sou um maluquinho de rock'n'roll e posso afirmar que fui o primeiro cantor deste g�nero a gravar um disco em Portugal. S� quem apresentar um mais velho do que este pode contrariar-me", afirma de peito cheio enquanto mostra o vinil.


Vida madrasta

Apesar da energia revelada quando fala sobre a tenra idade, Joaquim Costa tem atravessado um calv�rio nos �ltimos anos. A reforma por invalidez atesta os problemas de sa�de que lhe proibem uma vida mais activa � at� j� desmaiou na rua.

Para tr�s ficou em definitivo a actividade laboral errante, que como era costume come�ou bem cedo. Depois de sete longos anos para completar a quarta classe, o pai p�s-lhe � escolha: continuar a estudar � tinha talento para desenho � ou dar no duro.

Joaquim disse que estava farto dos cadernos e queria ganhar uns tost�es. Iniciou-se na oficina de serralharia da fam�lia, passou para outra de autom�veis, trabalhou na constru��o de elevadores, foi canalizador e, por �ltimo, esteve num alfarrabista.

Agora diz-se cansado. Aos 69 anos n�o espera viver muito mais, em parte devido a um problema de sopro card�aco e � v�lvula aorta danificada. Hipocondr�aco, cada vez que lhe aparece um sinal de doen�a come�a logo a pensar no pior. Mas ser operado est� fora de quest�o: "Ningu�m me corta. E se me sinto mal? E se morro na opera��o? Eu sou medricas, p�. Assim vou vivendo, sofro mas j� gozei".

Sem ter tido aulas de guitarra, arranha bem o instrumento, passa horas em casa a dedilh�-lo � tem apenas cinco cordas, uma delas partida, concedendo um som original. "A m�sica tem de soar bem, ou n�o vou l�. Mas toco coisas incr�veis, e imito vozes de gajos idosos, daquela forma sincopada. Fa�o cenas do arco da velha e fico encantado. Sou f� de mim pr�prio."


Quem foi o primeiro ?

Joaquim Costa considera que o pai do rock'n'roll em Portugal foi Jos� Manuel Silva (1939/94), tamb�m conhecido como "Elvis Silva" e "Baby Rock". N�o deixou qualquer grava��o, numa altura em que por imposi��o dos contratos era obrigat�rio faz�-lo, pelo menos parcialmente, na l�ngua de Cam�es. "Havia tipos que cantavam em portugu�s, como o (Daniel) Bacelar, os Conchas e o Zeca do Rock, a que eu at� achava piada, embora aquilo n�o fosse "rockabilly". Para mim tem de ser na l�ngua original, mesmo que um gajo n�o saiba nada de ingl�s."

Em 1984, Ant�nio Duarte editou "A Arte El�ctrica de Ser Portugu�s � 25 anos de Rock'n Portugal". O livro, sobre a hist�ria do rock em terras lusas, irritou Joaquim por omitir v�rios nomes dos prim�rdios, entre os quais o dele. "N�o est� l� o Jos� Manuel, por exemplo, ou o V�tor Gomes, que para mim foi o melhor "rocker" do Pa�s."


Jos� Cid contra-ataca

Em 1956, Jos� Cid estava nos Babies, o primeiro grupo de rock'n'roll existente em Portugal. A aventura durou tr�s anos e ficou marcada por concertos em Coimbra, da� que Joaquim Costa jamais tivesse ouvido falar deles. "Nunca grav�mos nada, �ramos uma banda de vers�es, de Chuck Berry a Fats Domino", recorda Jos� Cid.

O autor do hist�rico "Dez Mil Anos Depois Entre V�nus e Marte" adianta jamais ter tido conhecimento das cantilenas de Costa. E contra-ataca dizendo que os indiv�duos dessa onda "faziam um "rockabilly" de terceira classe. Punham umas popas a imitar o Elvis, umas botas de "cowboy", mas n�o tinham nada a ver com o rock verdadeiro. Eram uns "rockerzinhos" de bairro a imitar os americanos para engatar as mi�das l� no bar".


P�gina Principal

1
Hosted by www.Geocities.ws