Genesis
Cr�dito: Sinfonia Sideral
A trajetória do legendário Genesis tem início na Charterhouse Public School, uma escola p�blica secundária freqüentada pela alta classe média de Londres, que fica perto de Godalming, Surrey. Em 1963, os garotos Peter Gabriel e Anthony Banks ali ingressaram para cursar o ginasial. Em 1964 e 1965, chegaram a Charterhouse, respectivamente, Mike Rutherford e Anthony Phillips.
Os quatro estavam divididos em dois grupos: The Anon, constituído por Phillips (ex-The Spiders, guitarra solo), Rutherford (guitarra base), Rob Tyrrel (bateria), Richard McPhail (vocal) e Rivers Job (ex-The Spiders, baixo); o outro era o Garden Wall, formado por Gabriel (vocal), Banks (piano) e Chris Stewart (bateria).
Após um concerto escolar, em julho de 1966, Job e McPhail deixaram Charterhouse e o The Anon se tornou um trio.
Pouco tempo depois, o Garden Wall se apresentava em outro concerto escolar, contando com Job no baixo e Phillips na guitarra. Nesse concerto, para causar um certo impacto, Peter Gabriel atirou sobre o p�blico uma boa quantidade de p�talas de rosas que ele havia colhido pela vizinhan�a.
Depois de algum tempo, Phillips e Rutherford convidaram Banks para auxiliá-los nos teclados. Este, por sua vez, os persuadiu a deixarem Gabriel fazer os vocais. Assim, eles começaram a se concentrar em suas composições.
De acordo com duas fontes que encontrei, a id�ia inicial deles era fazer, deste grupo rec�m-formado, uma esp�cie de espa�o para compositores, no caso eles mesmos, mostrarem seus talentos. Em outras palavras, compor juntos, tocando apenas para divulgar suas can��es.
Mike Rutherford comenta: "Na verdade, somos compositores que fazem um pouco de tudo. Escrev�amos m�sica, mas nada acontecia. N�o quer�amos tocar ao vivo. Quando ningu�m mais se interessou pela nossa m�sica, formamos a banda".
A forma��o musical do grupo n�o derivou da psicodelia vigente nem do rock'n'roll. "Todos gostavam dos Beatles e do Family, mas o plano era criar acordes complexos, escrever coisas diferentes, muito pr�prias e buscar novas concep��es", diz Banks.
A primeira fita-demo -de demonstração- gravada pelos garotos chegou às mãos de Jonathan King, um ex-aluno de Charterhouse, assistente de Edward Lewis, presidente da Decca Records, em Londres. Foi Jonathan King quem batizou a banda como Genesis, numa pretensiosa inten��o de dizer que se tratava de algo novo.
Depois de mais duas fitas-demo e dois compactos (The Silent Sun/That's Me e A Winter's Tale/One Eyed Hound, ambos de 1968), apresentando composições próprias e influências de Otis Redding, Beatles, Stones e Bee Gees, o grupo lança seu primeiro disco, From Genesis to Revelation (13 faixas), em 1969, cujo tema era a Bíblia. Chris Stewart - que havia sido o baterista nos dois compactos - não participou do trabalho, pois em seu lugar havia entrado John Silver.
From Genesis to Revelation foi mais tarde reeditado em 1974, com o t�tulo In the Beginning. Este primeiro �lbum foi lan�ado na mais total obscuridade. Foi um fracasso, passando despercebido pelo p�blico, tamb�m gra�as � p�ssima mixagem. Segundo uma fonte, vendeu apenas 650 c�pias.
Apesar de pouco relacionado ao Progressivo, por conter apenas simples can��es, este debut possui diversas faixas de grande beleza, com direito a se��o de cordas e tudo. A maior parte deste material era m�stico, falando de coisas como a aurora do homem e sua evolu��o atrav�s dos tempos. Segundo Jeferson Ara�jo Pereira, no seu livro As Obras-Primas do Rock Progressivo, juntando todas as capas (vinil e CD) j� s�o - at� agora - oito capas diferentes! Numa delas aparece o Steve Hackett, que ainda nem estava no grupo.
Naquela época, o grupo passou por uma certa crise de identidade, pois na América havia um outro Genesis. Quase mudam o nome para Revelation, contudo também havia um outro Revelation. Para completar, acabaram sendo dispensados pela Decca, a gravadora que nunca se livrou da pecha de ser "aquela que disse que os Beatles n�o tinham futuro", al�m de ter deixado escapar o Giles, Giles & Fripp (semente do King Crimson). Apesar das adversidades, não desistiram.
Ap�s esta desastrosa experi�ncia com a Decca, reaparece a figura de Richard McPhail, ex-The Anon, o qual se torna empres�rio deles.
Passaram algum tempo fazendo pequenas apresenta��es em festinhas caseiras, clubes e boates obscuras e "esquisitas" do sub�rbio de Londres, "�timas para nossas estranhas letras", como disse certa vez Mike Rutherford.
Conseguiram chamar a atenção de outras pessoas, entre elas do grupo igualmente progressivo Moody Blues -conhecidos na época como "os favoritos de Paul McCartney"-, que os queria para a sua gravadora, a Threshold. Todavia, a partir de indicações de uns amigos de Gabriel e Banks, do grupo Rare Bird, o Genesis fecha contrato com o iniciante selo Charisma Records, de Tony Stratton-Smith, cujo logotipo, com figuras de Lewis Caroll, de "Alice no País das Maravilhas", como o Chapeleiro Maluco, casou perfeitamente com as loucas letras que a banda produziria a partir de então. Também gravaram pela Charisma, o Van der Graaf Generator, outra importante banda progressiva, e o Lindisfarne, banda folk.
"Eu acho que eles contratavam qualquer um com uma id�ia esquisita, naquela �poca", comentou Tony Banks.
Para criar o disco seguinte, os garotos alugaram um cottage, um bangalô no campo, onde viveram em regime de comunidade. Aliás isso era moda; grupos como Led Zeppelin e o Traffic, na Inglaterra, e os Novos Baianos, no Brasil, seguiram esse caminho.
Segundo algumas fontes, a casa de campo, chamada "A Fazenda", pertencia a Tony Stratton-Smith. O bi�grafo Peter Herring j� diz que esta casa alugada pertencia a Richard McPhail.
Lançam seu primeiro trabalho pela Charisma, Trespass, em 1970, já com elementos progressivos, introduzidos por Phillips, e com a seguinte formação: Gabriel, Phillips, Rutherford, Banks e o baterista John Mayhew, substituindo Silver.
O fanzine Metam�sica, em seu nono n�mero, afirma que Trespass foi/� um dos mais belos e influenciadores trabalhos da hist�ria da M�sica Moderna. A minha faixa preferida � The Knife, que seria muito executada em apresenta��es ao vivo do conjunto desde ent�o (pelo menos durante o per�odo com Peter Gabriel).
Aqui temos Peter Gabriel tocando flauta, acorde�o e percuss�es (a flauta e as percuss�es ele continuaria tocando no grupo); Phillips e Rutherford trabalham com in�meros instrumentos de cordas, desde o celo at� o dulcimer (instrumento medieval, traduzido em portugu�s por salt�rio).
Parece que na capa deste disco, o grupo queria fazer quest�o que o ouvinte percebesse que as tr�s primeiras faixas t�m 7:00, para formar 777, em oposi��o a 666, o n�mero da besta. Na verdade, a dura��o destas faixas s�o: 7:06 / 6:44 / 6:52. Para alguns, Anthony Phillips foi um grande m�sico que passou pelo Genesis sem o devido reconhecimento.
Valdir Montanari comenta o seguinte sobre o Trespass: al�m da capa, "a parte musical de Trespass tamb�m era bastante diferente do primeiro disco. As faixas eram mais longas, os arranjos mais bem elaborados, mais cl�ssicos. Esse refinamento levaria o Genesis a lan�ar m�o de dois recursos que passariam � Hist�ria como marcas registradas de alguns grupos progressivos. O primeiro deles: melodrama, trag�dia. O segundo, mais s�rio e tamb�m mais question�vel: a metaf�sica."
Quando Montanari fala metaf�sica, ele est� se referindo aos temas ligados com o misticismo, esoterismo, com o sobrenatural, com o esp�rito, ou seja, com temas que transcendem as fronteiras do mundo f�sico e material.
Após Trespass, entram para o grupo, através de anúncios, Steve Hackett (ex-The Quiet World), um mestre da guitarra, e Phil Collins (bateria e vocais). Banks, Gabriel e Rutherford estavam cansados de trocar de baterista de 15 em 15 dias.
Phil Collins começou sua vida artística fazendo extras no primeiro filme dos Beatles ("A Hard Day's Night" - Os Reis do Iê-Iê-Iê), depois foi ator no West End londrino (atuando em "Oliver Twist", de Charles Dickens, e "Hábil Vigarista"). Em seguida, foi integrante da banda Flaming Youth, cujo �nico disco, Ark 2, � aclamado como o melhor do m�s pela revista Melody Maker.
Ele mesmo conta a respeito de sua entrada no Genesis: "Li um an�ncio no Melody Maker e, como eu n�o tinha mais nada a fazer na �poca, fui l�. Antes, tentei entrar no Manfred Mann's Chapter Three e Vinegar Joe, mas fui recusado!"
Os ingredientes responsáveis pelo sucesso foram as letras elaboradas e surreais, inspiradas na ficção científica, nas poesias de William Blake, nos contos de fadas de Grimm, nas histórias fantásticas de Lewis Carol e nos contos de terror de H. P. Lovercraft -entre outras inspira��es-, cantadas pela voz rouca, expressiva e encantora de Gabriel, que encontrava apoio na voz igualmente rouca de Collins; o comedimento elegante e as construções complexas do violão de 12 cordas de Rutherford; o preciosismo e os dedilhados clássicos de Steve Hackett, um dos poucos guitarristas que insistiam que "o rhythm'n'blues não era a solução"; os timbres incomuns dos teclados de Banks, que soavam tanto como miniorquestras como guitarras, pois ele, conforme reza a lenda, alterava a afinação do instrumento para conseguir tal efeito; e a bateria jazzística de Collins.
Hackett ao falar sobre o Genesis diz que "o processo de composi��o era como o de construir catedrais", al�m de frisar que os arranjos do grupo assumiam um alto grau de elabora��o, somente equiparados aos do King Crimson. Segundo eles, a m�sica do Genesis era considerada dif�cil .
Tony Banks explica: "Diziam: 'Voc�s n�o podem misturar pop com temas eruditos'. Bem, isto foi a funda��o do que se chama de rock progressivo. N�o est�vamos interessados em heavy metal, blues ou psicodelismo. N�s quer�amos fazer m�sica idiossincr�tica, sem concess�es".
A seguir vem Nursery Crime ("O Crime da Creche", de 1971), cuja principal faixa, The Musical Box, narra a estória de uma garota de nove anos, que simplesmente arranca a cabeça de seu colega, de oito anos, numa partida de Croquet. Pouco tempo depois, a garota Cinthya descobre a caixa de música de Henry, sua vítima. Ao acionar a tal caixa, o espectro (fantasma?) de Henry aparece e envelhece progressivamente em sua frente, até que uma enfermeira destrói tudo. Segundo uma fonte, The Musical Box era uma concep��o de Gabriel sobre um conto da era vitoriana.
Al�m de The Musical Box, os outros destaques de Nursery Crime s�o The Return of the Giant Hogweed (em cujo in�cio est� o primeiro registro oficial de tapping/two handed; Steve Hackett inventou a t�cnica, cuja cria��o costuma ser creditada a Eddie Van Halen) e The Fountain of Salmacis (que conta sobre o surgimento dos hermafroditas de acordo com a mitologia grega). Nursery Crime foi um �lbum imaginativo e fascinante, fazendo uso das possibilidades instrumentais do mellotron.
Em Foxtrot (de 1972), na faixa Get Them Out by Friday, Gabriel narra o drama de uma família que está sendo pressionada para desocupar um imóvel, para que uma suposta empresa poderosa possa construir um edifício. Ele retrata claramente a angústia daquelas pessoas humildes que não têm para onde ir. Destaque também para Watcher of the Skies e a clássica suíte (de 23 minutos) Supper's Ready, al�m da bela Time Table.
Watcher of the Skies parece que conta sobre a passagem de um extraterrestre por nosso planeta, ap�s sua devasta��o total e da humanidade. Um tema apocal�ptico.
Tony Banks respondeu mais tarde, em uma entrevista, que Supper's Ready foi uma das melhores coisas que fez no Genesis. Ele disse: "Era comprid�ssima, e tinha toques rudes e sofisticados, cad�ncias lentas e r�pidas, e uma letra coerente. N�s fizemos a m�sica em partes, e o resultado final nos surpreendeu muito!"
Seu som caracterizava-se pelos arranjos sofisticados e pelas letras �picas, valorizando as longas su�tes marcadas por contrastes sonoros, arranjos sintetizados e ritmos rebuscados. A f�rmula: uma introdu��o que exp�e o tema, com a voz de Gabriel � frente; os instrumentos v�o tecendo tramas em contraponto �s letras surrealistas, at� uma retomada triunfal, com a entrada majestosa da bateria.
Roberto Lazzarini, que foi tecladista do grupo progressivo nacional Terreno Baldio, nos anos 70, fala o seguinte a respeito da m�sica do Genesis: "O barato do Genesis de ent�o (anos 70), est� nas cad�ncias eruditas, na mistura techno-pop-erudita. As letras contavam uma hist�ria, era um trabalho semelhante a uma �pera. Uma coisa mais pr�-l�rica do que para o rock-pop que na �poca estava se exaurindo." Uma coisa que Lazzarini tamb�m disse foi: "O que guiava o Genesis era a guitarra de Steve Hackett." O que voc�s, internautas f�s do Genesis, acham?
Banks explica "que at� hoje n�o entende como as can��es ficaram prontas, dada a intensidade das discuss�es, a participa��o efetiva de cada um e a competi��o em criar o que parecia imposs�vel enquadrar dentro de uma determinada composi��o."
Peter Gabriel tamb�m lan�ava m�o de alguns recursos ou maneirismos, incluindo a� a inflex�o vocal (ou seja, ele moldava a voz de modo a interpretar um determinado personagem que havia na letra da can��o), o gosto pelas letras discursivas e...
De acordo com Valdir Montanari, foi durante uma s�rie de excurs�es -que os eternizariam definitivamente- reaalizadas ap�s o lan�amento de Foxtrot, que Gabriel lan�ou m�o desse travestimento, tirando o grupo de uma vez do anonimato.
Peter Gabriel passou a ser um espet�culo � parte nas apresenta��es ao vivo do grupo, pois teatralizava com requintes as hist�rias que as can��es contavam, utilizando figurinos e m�scaras bizarros e extravagantes. O engenhoso uso de ilumina��o, explos�o e efeitos ajudou a tornar todo este espet�culo ainda mais excitante.
A �nfase do espet�culo visual concentrava-se nele. H� quem diga que suas interpreta��es o transformaram no "Vincent Price do Rock". Gabriel era idolatrado pelos intelectuais ao lado de David Bowie, e sua androginia, e o Pink Floyd, e seu experimentalismo. Para Thierry Chatain, em sua Pequena hist�ria do rock'n'roll, da Hist�ria da M�sica Ocidental (de Jean & Brigitte Massin, editora Nova Fronteira), Gabriel passou a imagem de um trovador moderno.
A fama e a carreira do conjunto cresciam vertiginosamente. Em 11 de dezembro de 1972, fizeram sua primeira apresenta��o norte-americana, na Brandeis University. Dois dias depois, foi no Philarmonic Hall, em Nova Iorque. Por volta dessa �poca em diante, Stratton estaria empresariando o conjunto.
Em 1973, foi a vez do bem sucedido ao vivo Genesis Live, que foi gravado em Manchester e Leicester, com destaque para a performance de The Musical Box.
Selling England by the Pound tamb�m foi o melhor momento do tecladista Tony Banks no Genesis. Al�m disso, Gabriel toca aqui, al�m da flauta, um outro instrumento de sopro, o obo�. O duplo The Lamb Lies Down On Broadway, que foi gravado em agosto, setembro e outubro de 1974, e lan�ado em novembro deste mesmo ano, conta a estória de Rael, um portorriquenho em Nova Iorque, que vive atormentado entre o sonho americano e a opressão. As atrações dessa insólita ópera-rock são, entre outras, a angelical flauta que percorre Cuckoo Cocoon, os violentos espamos de heavy rock de Back In The N.Y.C., as etéreas passagens de mellotron de Banks, as recriações jazzy da bateria de Phil Collins e o experimentalismo de The Waiting Room. Lilywhite Lilith foi completamente composta por Phil. A faixa de maior repercuss�o � Carpet Crawlers, que se tornou uma esp�cie de hino do grupo por um bom tempo. Segundo Valdir Montanari, foi Gabriel quem distribuiu a maior parte das coordenadas neste trabalho.
Nas performances ao vivo deste trabalho, as loucas e ambiciosas representa��es de Peter atingiram o seu ponto m�ximo, ou seja, chegaram ao extremo, gra�as aos truques e efeitos apresentados.
A monstruosa turn� de The Lamb, que durou seis meses, passou por diversos pa�ses da Europa e pelos Estados Unidos. Ao todo, foram 102 performances. Gabriel, como n�o podia deixar de ser, interpretou Rael, o personagem principal da hist�ria, que passa por uma esp�cie de experi�ncia transcendental. The Lamb envolve v�rios personagens bizarros, uma letra estranha e uma narrativa incompreens�vel. Os efeitos especiais do show inclu�ram tr�s telas de proje��o e o uso de dois Peter Gabriels - um manequim (ou fantoche) e o real - o que tornou imposs�vel distinguir um do outro.
As coisas começaram a se complicar entre Gabriel e os demais membros. Eles já não apreciavam muito aquela época do teatro, que monopolizara demais a imagem do grupo sobre Gabriel. Os outros integrantes se sentiam como meros coadjuvantes. "Nossos números foram ficando complicados", conta Banks, que prossegue, "E isso não foi bom nem pra nós nem pra ele."
Depois de uma badalada excursão pelos Estados Unidos e de um show na França, Gabriel, em 1975, se desliga do conjunto.
Na verdade, Peter havia resolvido deixar o Genesis ainda em dezembro de 74, quando o grupo se encontrava nos Estados Unidos. Tony Smith conta: "Est�vamos em Cleveland e ele veio at� mim, � noite, depois do show, e disse 'Olha, eu decidi sair depois desta turn�'. Eu fiquei arrasado. Ele estava passando por muitos problemas pessoais na �poca e, al�m disso, ele sentia que estava se tornando cada vez mais a estrela. Ele n�o gostava da situa��o." Peter Gabriel: "Havia muitas coisas" (leia-se problemas) "tanto dentro do grupo como fora do grupo."
Apesar da iminente sa�da de Peter Gabriel, o Genesis continua excursionando com The Lamb at� a �ltima apresenta��o com o vocalista, que ocorreu em St. Etienne, na Fran�a, em maio.
Talvez o próprio Peter também estivesse cansado desse estilo de apresentação, de dramatizar as músicas. Ele disse mais tarde que talvez houvesse uma facção de fãs da banda que gostavam e outra que não gostava, que achavam seu estilo muito abrasivo. Outra coisa que ele disse � que aquilo tudo j� estava se tornando muito mec�nico. Eu inclusive li em algumas fontes que, na �poca, j� haviam boatos de que Peter estaria perdendo o interesse pelo grupo. Parece que Gabriel também queria ter mais tempo para passar com a sua família. Muitos fãs ficaram bastante tristes com a sua saída, sem falar que o Genesis nunca mais seria o mesmo de antes sem ele.
Quando a sa�da de Gabriel foi anunciada na imprensa, os observadores ficaram pessimistas quanto ao futuro do Genesis. Poucos acreditaram que o grupo pudesse sobreviver sem ele.
Valdir Montanari, na revista-p�ster sobre o Genesis, escreveu: "Durante algum tempo houve uma certa falta de convic��o por parte dos f�s e da imprensa, a respeito desse desligamento. Mas por volta de agosto/setembro de 1975, a not�cia convicta j� rodava o mundo. Todos consideravam uma loucura. Imaginem, seria como o Mick Jagger deixando os Stones ou o Fred Mercury o Queen."
Mike Rutherford: "De repente, a m�dia soube tudo sobre isso e havia muitos coment�rios engra�ados sendo divulgados... O Melody Maker fez um artigo sobre a banda basicamente dizendo 'a morte do Genesis'."
Veja o que diz a revista Bizz sobre a passagem de Peter Gabriel pela banda: "Como integrante do Genesis at� 75, ele comp�s longas hist�rias mitol�gicas repletas de vis�es teatrais infantis e cru�is, registradas nos �lbuns Nursery Crime, Foxtrot (vide a su�te Supper's Ready) e The Lamb Lies Down on Broadway, que caracterizam a fase mais criativa do grupo."
Uma coisa que sempre se falou sobre o Genesis � que Banks, Hackett, Rutherford e Collins compunham as m�sicas, enquanto Gabriel se encarregava das letras. Tony Banks, contudo, j� negou que as coisas se processavam dessa maneira.
É nesse mesmo ano de 1975 - durante um recesso de dois meses, junho e julho, que se seguiram � sa�da de Peter Gabriel - que Steve Hackett grava e lança o seu primeiro trabalho solo, o excelente Voyage Of The Acolyte, que conta com as participações de Collins e de Rutherford, do flautista John Hackett, seu irmão, e da vocalista Sally Oldfield, irmã de Mike Oldfield. Também foi a partir de 1975 que Collins liderou o grupo de jazz-rock Brand X, com o qual gravou seis discos.
Peter lançou-se numa rica carreira-solo, que apesar de não ter nada a ver com o rock progressivo, é extremamente competente, mesclando músicas étnicas (world music), experimental, pop e progressivo. Ele mesmo disse que queria fazer algo diferente do que fazia no Genesis. E fez. Passou a trabalhar com muita gente interessante: Robert Fripp, Larry Fast (Mr. Synergy), Tony Levin, Laurie Anderson, Brian Eno, Yossou N'Dour, Kate Bush e outros. Seu maior hit é Sledgehammmer, do disco So, de 1985. Tamb�m fez as significativas trilhas sonoras de Birdy, de Alan Parker, e A �ltima Tenta��o de Cristo, de Martin Scorcese. Envolveu-se também em questões como o meio-ambiente e o apartheid da África do Sul.
Apesar da saída de Peter, no auge da carreira do Genesis, os outros integrantes procuraram não se abalar. Depois de pensar em uma substituição (foram feitas centenas de testes, nos quais n�o encontraram um substituto � altura), os quatro chegaram ao óbvio. Collins daria conta do recado, só precisando de uma ajudazinha na bateria, ao vivo. Phil, ent�o, assumiu a lideran�a vocal com surpreendente garra e confian�a. Segundo uma fonte, ap�s a sa�da de Gabriel, Hackett e Banks come�aram uma disputa pela dire��o musical do grupo.
Em 1977, � a vez de Wind and Wuthering, gravado na Holanda. Desta vez, convidaram o baterista Chester Thompson (ex-Tower of Power, ex-Frank Zappa (Mothers of Invention), ex-Weather Report e ex-Hermeto Paschoal). Este trabalho deu ao Genesis acesso �s paradas americanas com o compacto Your Own Special Way e originou rumores de uma poss�vel dissolu��o do grupo. Wind and Wuthering � outro trabalho com muita guitarra e teclados. O maior destaque � One for the Vine.
Wind and Wuthering � um dos discos favoritos de Banks, porque cont�m, segundo ele mesmo, duas de suas melhores can��es: Afterglow e One for the Vine.
Com essa formação - Collins, Banks, Rutherford, Hackett e Thompson - sa�ram em turn� por quarenta e cinco cidades nos EUA, seguida por outra s�rie de concertos no Brasil, em Paris, e em tr�s noites de lota��o esgotada na Earls Court de Londres.
O Genesis foi a única banda progressiva que veio ao Brasil ainda nos anos 70, mais precisamente em 1977. Tocaram em Porto Alegre, Rio de Janeiro e S�o Paulo. Quando estiveram por aqui, apresentaram um show de laser at� hoje lembrado.
Depois dessa excursão pela América do Sul e de mais três shows na Inglaterra, Steve Hackett cai fora do grupo, alegando que precisava de mais flexibilidade, partindo para uma modesta e produtiva carreira solo. Com isso, surgem novos boatos de um poss�vel fim do grupo. O que acontecia era que Tony Banks, o tecladista, for�ava a barra, impondo e fazendo prevalecer apenas as suas id�ias. Dessa maneira, o guitarrista Steve Hackett ficava impedido de aparecer muito no grupo. O pr�prio Banks reconheceria isso mais tarde.
Se voc� pegar o primeiro disco solo do guitarrista, Voyage Of The Acolyte, ver� que na capa tamb�m vem escrito "and his Genesis friends" mas, da forma��o daquele momento, apenas Collins e Rutherford participaram. Isto leva a crer que a rela��o entre Steve e Banks n�o ia nada bem. Talvez estivesse rolando alguma inimizade entre os dois.
Hackett é o único personagem ligado ao Genesis que ainda se preocupa em utilizar elementos progressivos em seus discos-solos, diga-se de passagem. Curiosamente, ele mant�m contatos no Brasil, e tem como amuleto uma figa da Guin�, dada por uma m�e-de-santo baiana. Ouvi dizer que tem uma casa em Angra dos Reis. Em 1977 também foi editado o duplo ao vivo Seconds Out, que reuniu as performances de Paris.
Ainda falando do Steve Hackett: as capas de Voyage Of The Acolyte e do disco seguinte, Please Don't Touch - al�m de outros que se seguiram - foram realizadas pela esposa de Hackett, Kim Poor (para quem n�o sabe, ela � brasileira), dona de uma t�cnica, apelidada por Salvador Dali, nos anos 70, de "diafanismo".
Ao contr�rio das bandas da �poca (ou seja, da d�cada de 70), o Genesis nunca tocou, nem por farra, cl�ssicos do rock'n'roll ou do rhythm'n'blues americano.
A partir de ...And Then There Were Three, de 1978, que contém a balada hit Follow You, Follow Me (s�timo lugar na Gr�-Bretanha e vig�simo terceiro lugar nos EUA e com o qual conseguiram o primeiro disco de ouro nos Estados Unidos), o som do Genesis, agora como trio (Collins, Rutherford e Banks), foi, aos poucos, cedendo lugar a m�sicas extremamente comerciais, pop padronizado para o r�dio, com melodias ágeis e programação de computador rítmico ou harmônico, um pouco mais inventiva do que a mesmice que vaza das FMs. O Rock Progressivo ficou em segundo plano em alguns discos desde ent�o, sendo que, em outros, nem sequer esteve presente.
O lado pop foi assumido de vez por Phil Collins: "Come�amos a compor baladas. �ramos muito reprimidos emocionalmente e sent�amos vergonha em dizer 'eu te amo' em uma letra. Antes, o Genesis era considerado uma banda intelectual e estranha, que s� tinha como f�s garotos cheios de espinha. De repente, o p�blico mudou e tivemos em nossas audi�ncias mulheres, o que n�o acontecia antes".
Passaram a vender muito mais do que na �poca com Peter Gabriel, deixando assim de ser a banda cult que haviam sido at� aquele momento. O experimentalismo cedeu lugar ao romantismo e ao balan�o.
A partir daí os Genesis começaram a perder o respeito de roqueiros do mundo todo.
Os Genesis em Portugal - 1975
Por Fernando Magalh�es - P�blico, 4 de Mar�o de 2005
H� 30 anos, o cordeiro deixou a Broadway para vir, mais do que descansar, desatinar Cascais e o p�blico portugu�s. O DVD "Genesis Encore Cascais 75" relembra como tudo se passou, para g�udio dos que pretenderem reavivar a mem�ria do m�tico concerto de 6 de Mar�o de 1975.
Intercalados com os v�rios depoimentos, surgem imagens da �poca que recuperam o ambiente pol�tico do pa�s at� se chegar ao pr�prio pavilh�o Dram�tico de Cascais e, por fim, a imagens do concerto, captadas por elementos do p�blico.
Os entrevistados v�o desfiando mem�rias, nem sempre coincidentes com a realidade. Eram os tempos, diz algu�m, em que os discos chegavam c� com meses de atraso. N�o � verdade. As novidades, muitas delas �lbuns obscuros, chegavam por via de importa��o com relativa celeridade a discotecas como a Melodia, Universal, Valentim de Carvalho, Sassetti e Sinfonia. Eram tempos, diz outro entrevistado, em que apenas havia publica��es de m�sica em franc�s (presumivelmente estaria a pensar na "Rock & Folk" e na "Best") e em alem�o ("Bravo"). Errado. Os jornais brit�nicos "Melody Maker" e "New Musical Express" h� anos que ocupavam semanalmente os escaparates de algumas livrarias e papelarias de Lisboa.
Politicamente vivia-se o tempo do PREC (Processo Revolucion�rio em Curso"), saltam imagens de com�cios e manifesta��es de rua. O concerto dos Genesis era visto como algo difuso, "uma coisa colada � direita". A voz "off" de Jos� M�rio Branco canta versos como "abaixo a burguesia e a explora��o". O 11 de Mar�o n�o tardaria nessa "semana completamente louca" em que o jornal A Capital anunciava que a "CIA planeia golpe de estado em Portugal antes do fim de Mar�o". 20 liceus estavam em greve, era "vulgar�ssimo haver cenas de pancadaria". No meio de tudo isto o concerto dos Genesis era uma "coisa extra-terrestre".
Chegado o dia, e para n�o destoar do contexto, "foi a balb�rdia total". O DVD, realizado por Jo�o Dias a partir de um conceito idealizado por M�rio Caeiro, mostra recortes de jornal. Num deles pode ler-se "Genesis em Cascais: Um novo processo de tortura volunt�ria". As imagens paradis�acas do jardim anexo ao pavilh�o escondem a viol�ncia e a incomodidade dos que conseguiram entrar, pagando ou n�o o bilhete de 80 escudos. S�o mostradas imagens do pavilh�o, ainda em constru��o. 10 mil, 11 mil pessoas em cada um dos dias transformaram o Dram�tico de Cascais num barril de p�lvora.
Mas quando o espect�culo come�a finalmente, todo o sofrimento desaparece como por magia. Os rostos ficam "hist�ricos". Algu�m fala no chuto que sentiu quando o som irrompeu de repente das colunas. Ningu�m esqueceu o aparato c�nico. Peter Gabriel que aparece em dois locais do palco simultaneamente. "Uma projec��o". Um deles era um "boneco". "Jogo de espelhos". Ainda hoje o mist�rio permanece. Tamb�m � recordada a parte em que o vocalista dos Genesis passeia dentro de um tubo iluminado. Um "preservativo gigante" onde Gabriel fazia de "espermatoz�ide". S� no fim do DVD, sobre as imagensdo grupo em palco captadas por um amador, se ouve a m�sica de "The Lamb Lies Down on Broadway".
Os extras incluem material fotogr�fico abundante, desde imagens registadas durante os dois dias de concertos a uma fotoreportagem com fotos do grupo antes e depois dos concertos, em poses descontra�das na vila e na ba�a de Cascais. H� ainda um apanhado de reac��es da imprensa da �poca, reprodu��es das p�ginas da pr�xima edi��o da revista Cais (CasCAIS 75...) inteiramente preenchida pelo acontecimento de 1975 e excertos do espect�culo "The Lamb Lies Down on Broadway" que o grupo canadiano The Musical Box, clone dos Genesis, apresentar� em Lisboa, na Aula Magna, em Maio, comemorando os 30 anos da edi��o original do �lbum. Os The Musical Box, depois de j� terem mimado �lbuns anteriores do grupo original, como "Foxtrot" e "Selling England by the Pound", foram desta vez ao ponto de reproduzir os modelos de instrumentos originais usados pelos Genesis em "The Lamb Lies down on Broadway" e v�o socorrer-se igualmente de todos os truques de encena��o que a banda brit�nica usou em Cascais.
30 anos � muito tempo para ser concedido um "encore". Mas ao ver-se este DVD parece que foi ontem.
Mem�rias...A mem�ria dos que foram, dos que n�o foram e dos que foram e n�o se lembram de nada. � o que se pode ler na capa do DVD "Genesis Encore". As recorda��es seguintes pertencem a quem esteve l� e se lembra. Com hist�rias para contar daqueles dois dias de apertos, tiros, mas, sobrelevando tudo, um dos maiores espect�culos de rock ao vivo que teve lugar em Portugal.
Z� Pedro - Xutos e Pontap�s
O primeiro concerto que vi foi o do Miles Davis, no primeiro festival de jazz de Cascais, tinha-me ficado uma boa mem�ria. Mas os Genesis foram o primeiro concerto de rock, aquele rock teatral e sinf�nico, na altura em que estava no auge. Eles vieram c� no topo de carreira. Para a minha gera��o foi o grande concerto rock. Estava fascinad�ssimo. Fui para l� com tr�s dias de anteced�ncia, s� tinha dinheiro para o bilhete de um dia, para o segundo dia falsifiquei, fiz um bilhete � m�o. S� o ambiente j� era excepcional, podemos comparar, � nossa dimens�o, a um Woodstock.Manuel Cardoso - Tantra
Fui aos dois dias. Aquilo foi um aperto desgra�ado, inacredit�vel, mas os espect�culos foram memor�veis. Impressionou-me sempre a obra em si, "The Lamb Lies Down on Broadway", embora n�o seja o meu trabalho preferido dos Genesis. Gosto mais dos dois primeiros �lbuns, a seguir vem esse e o "Trick of the Tail". Impressionou-me o espect�culo, que foi extraordin�rio, mas o concerto n�o marcou nada os Tantra. Cresci com os Genesis mas n�o, essa quest�o [da influ�ncia] foi sempre [posta] por causa das m�scaras, as pessoas colam pelo �bvio. A nossa m�sica n�o tinha nada a ver com os Genesis, ali�s era das bandas progressivas, eles e os Pink Floyd, as que menos nos influenciaram.Lena d'�gua - cantora
Fui no dia em que houve tiros l� fora. Estava tanta, tanta gente que ficou imposs�vel. Eu estava pendurada, agarrada a uma grade, como n�o sou alta, s� assim � que dava para ver. Fui com dois amigos, um era o meu namorado, futuro marido, e mais um outro da banda, os Beatnicks. Quando cheg�mos a Cascais, de comboio, estava tanta gente, havia aquelas filas que davam a volta ao quarteir�o, mais valia ir dar uma volta e voltar da� um bocado. Mas pass�mos ao p� de um porteiro a perguntar quanto tempo � que ele achava que ia demorar. Eu estava muito apaixonada, com uma tunicazinha e ele achou que eu estava gr�vida. "A senhora est� � espera de beb�, pode entrar!". E entr�mos. O mais incr�vel � que eu n�o estava gr�vida mas engravidei mesmo nesse m�s, tamb�m j� andava a pedi-las mas foi muito interessante, n�s claro agradecemos e entr�mos. O concerto em si foi um espect�culo de luzes, aquele Peter Gabriel maravilhoso, com aquela express�o corporal, o que ele fazia no palco...desaparecia de um lado, aparecia do outro...Lembro-me de um t�nel por onde ele entrava...Era tudo fant�stico para n�s, na altura o que t�nhamos por c� eram os festivais de jazz de Cascais. E a gente n�o faltava. N�o �ramos do jazz, mas era uma maneira de vermos bons m�sicos a tocar.Manuel Mouzos - realizador de cinema
Fui ao segundo dia, com bilhete, embora depois soubesse pelos meus amigos que houve gente que entrou sem rasgar o seu, por causa da confus�o � porta. Lembro-me de ver na entrada militares e isso marcou-me logo, al�m do facto de ser a banda, na altura, minha preferida. Todo o ferenesim, n�o s� meu, e depois aquela confus�o que se gerou,,,at� que um dos militares, sem querer, come�ou a disparar o que gerou ainda maior confus�o. A imagem que tenho � da entrada ficar de repente um deserto cheio de sapatos e sacolas. Depois de nova tentativa de entrada, quase ia morrendo, espezinhado, caiu uma pessoa � minha frente, depois outra, ca�ram n�o sei quantas para cima de mim, foi turbulento. Mas o facto de nos conseguirmos desembara�ar da situa��o e conseguirmos entrar, l� dentro l� anim�mos e realmente foi um concerto magn�fico, quase m�gico. Quando sa�mos s� quer�amos � que aquilo continuasse por mais tempo.
Rael na real em Cascais
Para os que estiveram presentes no Dram�tico de Cascais nas noites de 5 e 6 de Mar�o, de 1975, foi o concerto das suas vidas. T�o importante que, 30 anos depois, um grupo de carolas resolveu juntar-se para comemorar a data e promover uma s�rie de iniciativas alusivas ao concerto: um jantar-encontro (amanh�, no Centro Cultural da Gandarinha, �s 20h, com entrada a 30 euros), um n�mero da revista Cais inteiramente dedicado ao concerto e a edi��o de um DVD-document�rio [ver texto nestas p�ginas].1975 foi um ano estranho em Portugal. A ebuli��o provocada pelo 25 de Abril estava longe de se considerar extinta e saborear o gosto da liberdade era ainda algo de estonteante. Viviam-se os tempos do PREC (Processo Revolucion�rio em Curso), espantava-se o medo que a reac��o erguesse de novo o rosto monstruoso. T�o monstruoso como a m�scara de mutante que Gabriel vestiu nessas duas noites, durante a apresenta��o do tema "The colony of the slippermen", com as suas bolhas-bal�es...
O concerto dos Genesis, m�tico porque catalizador de toda uma corrente est�tica - o rock progressivo - e rigorosamente centrado no esp�rito da �poca, foi uma esp�cie de sonho tornado realidade para todos os que l� estiveram. Duas noites de escape feito vis�o, com o COPCON (Comando Operacional do Continente) a tentar controlar no exterior do Dram�tico de Cascais aquilo que, por defini��o, � imposs�vel de controlar, a imagina��o. No segundo dia houve mesmo tiroteio (para o ar) a causar o pandem�nio geral. Ambiente fervilhante. L� dentro, ainda mais quente, estaria delirante.
Foram 20 mil os que assistiram � apresenta��o pelos Genesis de "The Lamb Lies Down on Broadway". Para o grupo era tamb�m o pico de uma carreira que abra�ara o rock progressivo mas que neste �lbum prenunciava j� a ruptura com um imagin�rio que o punk arrasaria (afinal n�o tanto como na altura se julgou...) e formataria em can��es de dois minutos de �dio e a ainda menor n�mero de acordes. As tens�es eram imensas mas a obra revelou-se capital. Peter Gabriel, Rael (anagrama de "Real"), na iconografia de "The Lamb Lies down on Broadway", trazia j� embrulhada nas suas hist�rias o dia-a-dia a preto e branco (como a capa do �lbum, a contrariar a profus�o crom�tica das anteriores).
A fantasia dos Genesis deixara de ser a "trip" de "Supper"s Ready" ("Foxtrot", 1972), a surrealidade suprema de "Nursery Cryme" (1971) ou a Inglaterra paradoxal de "Selling England by the Pound" (1973). Agora era a luta de Rael um porto-riquenho de cabelo curto e casaco de cabedal. De certa forma "The Lamb Lies down on Broadway" antecipa o fim do rock progressivo, num ano, 1974, que, precisamente, coincide com a agonia desta corrente musical. As longas "suites" de 20 minutos desapareceram, dando lugar a um encadeado de can��es curtas que revelam o desejo de Peter Gabriel de chegar a um outro tipo de p�blico, mais pr�ximo da pop e menos intelectual e elitista que o apreciador de Progressivo puro e duro. N�o por acaso o grupo teria a sua primeira cis�o j� no ano do concerto, 1975, sendo "The Lam Lies Down on Broadway" por muitos considerado n�o um �lbum dos Genesis mas uma obra, quase exclusiva, de Gabriel. Gabriel que encetaria a partir da� uma carreira a solo que n�o fez mais do que confirmar o abandono anunciado do rock progressivo. Quanto aos Genesis, depois de um breve per�odo de transi��o, sinalizado pelos �lbuns "A Trick of the Tail" (1976) e "Wind and Wuthering" (1976), tinham o caminho aberto para se tornarem num grupo pop "mainstream", de est�dio, para multid�es.
1975 foi pois o �ltimo ano de gl�ria do Progressivo. O ano seguinte seria o voltar da p�gina mas "The Lamb Lies Down on Broadway" ainda � por muitos considerado a obra-prima do grupo. O teatro e a inova��o que nessas duas noites em Cascais fizeram revirar os olhos � assist�ncia representaram o expoente da est�tica do grupo. Fumos, m�scaras, projec��o de "slides", ilus�es de �ptica transformaram o concerto num ritual de metamorfoses. Mas Peter Gabriel/Rael que escrevera sozinho toda a pe�a (duplo �lbum em disco, mais de duas horas de espect�culo ao vivo) estava de sa�da. Os Genesis nunca mais voltariam a ser os mesmos. Os elementos da assist�ncia tamb�m.
N�o foi o primeiro concerto de rock progressivo realizado em Portugal. Antes j� por c� tinham passado os alem�es Embryo (curiosamente, a estreia, gratuita, de um concerto deste tipo, aconteceu com um representante do krautrock), os If, os Beggars Opera e - primeiros a actuarem no Dram�tico de Cascais - os Procol Harum. Mas os Genesis vieram na altura exacta, no apogeu, no ponto mais esticado da tens�o. Ao contr�rio dos outros concertos, em que o mais excitante foi de ordem n�o-musical, os Genesis trouxeram consigo a perfei��o.
No caso dos Procol Harum, foi ver parte do p�blico a saltar para o interior do pavilh�o proveniente do telhado, ao mesmo tempo que, numa tentativa para acalmar os �nimos de um publico impaciente, a organiza��o anunciava pelos altifalantes que j� faltava pouco e que os m�sicos estavam nesse preciso momento a entrar para o avi�o que os traria de Londres para Lisboa...Com os Beggars Opera a excita��o aconteceu quando um dos assistentes, culminando um "strip tease" improvisado, pontapeou furiosamente um dos sapatos para o meio da plateia. O esmagamento contra a parede da entrada do Monumental, no concerto dos String Driven Thing, n�o conta. O concerto dos Atomic Rooster em Almada, com o tropel do p�blico a espezinhar o porteiro e este, pisado e espalmado no ch�o, continuando, num delirante excesso de zelo, a pedir que lhe fossem mostrados os bilhetes, tamb�m n�o...Era assim o rock em Portugal no anos conturbados do p�s-revolu��o.
Casos extremos foram o tiroteio da pol�cia no concerto dos Can no Pavilh�o dos Desportos, em Lisboa, e, no registo oposto, a beatitude ordeira dos que se deslocaram a Cascais para ver e ouvir os Pulsar. Com os Genesis foi tudo em grande: o p�blico em excesso (houve quem, no interior do pavilh�o, n�o visse peva do espect�culo), o visual desmesurado do grupo, a dimens�o inflacionada da pr�pria obra, escrupulosamente recriada em moldes art�sticos e t�cnicos a que Portugal nunca antes assistira.
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