: : v i c t o r . n a i n e . e s t é t i c a
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prof . v i c t o r . n a i n e
6 de setembro de 2008

"A tarefa da filosofia é fazer com que reaprendamos a ver o mundo!"
(Merleau-Ponty)


"It's a hat! It's a hat! It's a kind of a sort of a hat!"
[Isso é um chapéu! Isso é um chapéu! Isso é uma espécie de um tipo de chapéu!]
O Pequeno Príncipe de Antoine de Saint-Exupéry

Antes de iniciarmos nossos estudos sobre Estética (Filosofia do Belo), podemos buscar contemporaneamente observar o que julgamos ser ou não belo a nossa volta.

Por forte influência da Teoria da Relatividade de Einstein ou das perspectivas filosóficas subjetivistas, nascemos em meio a um paradigma (um dentre muitos modos de se pensar algo) onde tudo é relativo, subjetivo e pessoal.

Um dos jargões mais populares de nosso tempo quando falamos de arte, por exemplo, é o famoso "gosto não se discute". Acredita-se nisso, porque hoje nos parece que realmente não há nem Verdade Absoluta, nem Belo em Si, nem Bem Supremo algum... Mas devemos tomar consciência de que essas opiniões são facilmente refutáveis quando não estão embasadas em fortes argumentos.

É por isso que muitos artistas de hoje usufruem uma ação artística que podemos chamar "quebra de paradigma" para que suas artes possam ser ajuizadas pelos apreciadores como sendo ou não belo, como sendo ou não verdadeira arte.

Se os homens "comuns" (não filósofos) não crêem mais no Belo e nos Universais e, além disso, não buscam sair da própria condição de subjetividade, cabe ao artista provocar sentimentos diferentes no espectador, provocar um choque na sensibilidade artistica de quem vê a arte, com a intenção de romper o seu "mundinho", que é muitas vezes limitado pela circularidade dos seus preconceitos. A cantora Björk é uma pessoa que aqui podemos usar de exemplo, pois ela própria numa entrevista já deixou clara esta sua postura: fazer com que as pessoas sintam coisas que nunca sentiram, transformando e expandindo suas percepções, seus sonhos e seus mundos.

A Estética (genericamente) e a Filosofia da Arte são disciplinas filosóficas que, não apenas tentando buscar e compreender o Belo Universal, nos ensinam a ver o mundo de maneira diferente ou "fazer com que reaprendamos a ver o mundo". Neste quesito a Estética se aproxima da boa moralidade prevista pela Ética: se a Estética faz alargar nosso mundos, nos auxilia a tornarmos mais e mais livres e consequentemente felizes!

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23 de outubro de 2006

A origem etimológica do termo estética vem do grego aisthesis e significa aproximadamente sentido ou percepção sensorial. Portanto, até aqui, poderíamos dizer que a estética enquanto ciência ou filosofia é o estudo dos sentidos ou do conhecimento empírico.

Mas temos nós, enquanto estudantes de filosofia, que estabelecer a natureza conceitual e precisa do termo para decorrer sem equívocos: foi o pensador Alexandre Gottlieb Baumgarten (1714-1762) quem denominou de Estética a ciência das sensações, esta teoria do belo (como disse Hegel) e daí em diante passou a ser chamada assim, a Filosofia do Belo.

Devemos, pois, compreender que a disciplina filosófica chamada Estética não significa exatamente o mesmo que Filosofia da Arte, pois a Estética, dependendo do autor, pode vir a tratar da beleza natural ou da beleza artificial, enquanto a Filosofia da Arte, como o nome já diz, virá a tratar apenas da beleza nas obras de arte. Além disso, devemos saber que historicamente os estetas (filósofos da Estética, como Merleau-Ponty) discordam sobre o ponto de vista do que exprime realmente o Belo – se é a natureza ou se é a arte.

A Estética é concebida de quatro formas básicas: como ciência da beleza; como ciência do belo; como filosofia da beleza; como filosofia do belo. Sabendo em geral o que significa ciência podemos entender que a ciência do belo é aquele ponto de vista da Estética que se baseia em fatos concretos e existentes para, de forma contingente, com critérios de experimentação científica apontar e dizer o que é mais ou menos belo com relação a algum pressuposto ou ponto de partida; baseado geralmente na harmonia das formas ou num juízo de gosto mais ou menos e aparentemente universal. Enquanto filosofia (e é aqui o que mais nos interessa) não deve partir de pressupostos que não sejam prévia e rigorosamente demonstrados. Ou seja, enquanto a ciência mostra este ou aquele fato e universaliza de acordo com a maioria, a filosofia demonstra de forma ainda mais universal. A filosofia quer saber o que é O Belo, a ciência apenas coisas belas.

O nosso famoso teatrólogo brasileiro Ariano Suassuna, no seu livro Iniciação à Estética, também faz distinção entre beleza e belo, apesar de etimologicamente significar o mesmo: o estudo da beleza envolve também o estudo do feio e do sublime, além do estudo do belo. Cabe a filosofia dizer o que é belo e o que não o é referente ao verdadeiro Belo.

Baumgarten assinala como a finalidade da estética: o conhecimento sensorial como tal, no qual reside a beleza.

Segundo Platão, a arte está três pontos afastados da verdade: a arte (imitação da natureza), a natureza (imitação da Idéia) e a Idéia (Mundo das Idéias). A verdade absoluta para Platão está apenas na relação do nosso intelecto com o Mundo das Idéias e só chegamos a ele quando intuímos o conceito puro pela dialética; desse mundo nasce a natureza como coisas mutáveis e contingentes relativas às Idéias; para daí o homem perceber sensorialmente e expressar o que vê na natureza através de escultura, pintura, música, etc.; mas o homem não consegue expressar a coisa em si de forma sensorial e isso é um problema para Platão com relação ao conhecimento verdadeiro e com a educação dos jovens para o bem e a verdade.

Para Aristóteles a arte também é imitação da natureza. Exclui a comédia da categoria de belo, pois para ele o belo é expresso através da harmonia e a comédia apenas faz os homens se desestabilizarem de uma retidão virtuosa para cair nos vícios dos prazeres momentâneos. Ao contrário disso, a tragédia, mesmo que mexendo com os nossos sentimentos, tem um valor muito grande: sua mimese (imitação) tem finalidade na catarse (purificação da alma), pois faz o homem aprender a sentir dor e não desejar este mal para si nem para nenhum outro homem, por causa da compaixão.

Para Plotino, mesmo sendo um neoplatônico, a arte tem um valor interessante, que virá a influenciar muitos pensadores ulteriores, como Schelling e Hegel: a arte é um dos maiores frutos que o homem pode gerar através do seu corpo, vindo do próprio espírito; um homem pode deleitar-se ao ver uma obra de arte feita por outro, pois isso faz ele se reconhecer no outro e reconhecer o sentido da vida. A arte é como uma expressão do Uno (que tem base teórica no Mundo das Idéias de Platão) donde todos os homens vieram e tendem a voltar.

Esses três homens foram base para muita especulação a respeito da arte e do Belo em geral. Foi Kant, já no séc. XVIII, que veio romper com essa tradição de objetividade do Belo.

Para Kant, qualquer ciência deve ter base nos chamados juízos sintéticos ‘a priori’, i.é, juízos que tem base em conhecimentos a priori e intuitivos (como o conhecimento do espaço e do tempo), mas que devem buscar conhecimento novo, através da síntese do conhecimento empírico (perceptível sensorialmente, à luz dos cinco sentidos básicos). Kant, assim, tirou o caráter científico de qualquer pretensão metafísica. A metafísica foi reduzida à lógica ou a postulados de ordem existencial (Deus, por exemplo, existe apenas para a razão prática, para que o homem tenda a fazer o bem; mas não podemos prová-lo cientificamente). Aconteceu o mesmo com o Belo! Este não pode nem mais ser chamado de Belo com letra maiúscula. Para Kant há apenas fenômeno, ou seja, a relação da coisa com um único sujeito. Se uma obra agrada os sentidos desse homem ou daquele, esta pode ser considerada bela por ele, mas não para outro. O belo para Kant é um universal sem conceito, ou seja, é sem conceito, pois o juízo feito sobre ele é apenas subjetivo, e universal porque o sujeito tende a um sentimento amigável de querer expor e compartilhar aquele deleite e sensação de liberdade com os outros homens.

Foi Schiller, esteta e poeta alemão, que ao estudar profundamente a obra de Kant sobre o juízo de gosto – Crítica do Juízo – tentou trazer de novo à cultura filosófica o caráter objetivo para o belo. Acredita que, além do juízo de conhecimento (teórico e prático), o juízo de gosto deveria estar também radicado na razão. A beleza para Schiller é objeto enquanto e porque se faz necessária à reflexão para com ele, para que possamos contemplá-la. Para Schiller, o que é desordenado e feio na natureza, passa a ter ordem, revestida de beleza, quando passa pela mão do homem. Tese que vai, sem dúvida, saltar aos olhos de Hegel.

Schelling e Hegel eram amigos e ambos tiveram algumas influências comuns: a teosofia, o neoplatonismo e o pensamento de Schiller, principalmente no que dissemos acima.
Para Schelling, o Belo (retomando o sentido metafísico) é o infinito manifestado no finito, enquanto para Hegel é o Ideal ou a Idéia objetivada sensivelmente. A diferença é que para Schelling a arte está no último patamar do conhecimento absoluto, pois trata do verdadeiro conhecimento do em si (infinito) e o para si (finito); a soma de ambos resulta no absoluto. Com base na reflexão de Schiller, Schelling afirma que o homem, por ser espiritual, não se conforma com as contingências do mundo físico e aspira o transcendente, que é explicado e resolvido no Absoluto.

Diz Hegel: “Aceitamos, pois, no seu pleno significado, as palavras de Platão: Deve-se considerar, não os objetos particulares considerados belos, mas o Belo ” . Hegel diz isso contra o caráter apenas científico que pressupõe como base os fatos e não as idéias. A novidade de Hegel está na filosofia da história da arte. Para Hegel o Espírito Absoluto se desenvolve constantemente através do homem e de sua história e o desenvolvimento da arte é relativo a isso também. A arte, aos poucos, como qualquer forma de conhecimento se desenvolve até chegar mais propriamente ao Belo objetivo. Eis aqui a originalidade do pensamento estético hegeliano: enquanto a Idéia é relativa à Verdade, pura, em si mesma considerada, porque não é sob sua forma exterior e sensível que ela existe para a razão, o Ideal é referido a Beleza, que se define como a manifestação sensível da Idéia.

: : Estética e c u l t u r a

: : b i b l i o g r a f i a
SUASSUNA. Iniciação à Estética.
HEGEL. Lições de Estética.
NAINE, Victor. Da universalidade da arte e sua conduta moralizadora: reflexões à luz de fundamentos hegelianos (monografia UCP 2006).


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