f i l o s o f i a

: : v i c t o r . n a i n e . e s t é t i c a
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prof . v i c t o r . n a i n e
petrópolis, 31 de outubro de 2006

Relações entre a Estética e a Filosofia da cultura

Devemos, logo de início, entender o que significa o termo estética. A etimologia nos remete ao vocábulo grego aisthesis, que pode denotar percepção sensorial ou conhecimento à luz dos sentidos. No lato senso, poderíamos dizer que denomina qualquer conhecimento empírico. Mas o termo ganhou a conotação de ciência (ou filosofia) do belo (ou da beleza), depois da interpretação e juízo do esteta Alexander Gottlieb Baumgarten (1714-1762).

Cabe-nos, agora, estabelecer as principais relações que podem haver – e que na verdade há – entre a Estética e a Filosofia da cultura, ou melhor, as relações entre a arte e a cultura do ponto de vista filosófico. Por isso, desde já, restringiremos o nosso objeto estético apenas à arte ou o belo artístico, excluindo de nosso estudo o belo natural; e por isso, nesse sentido, podemos chamar Estética a nossa disciplina, desde que a entendamos como Filosofia da arte.

Diversos estetas são também sociólogos ou filósofos da história e da cultura, pois reconhecem o papel fundamental da arte para o desenvolvimento da cultura de determinado povo ou nação.

Marx, por exemplo, tem toda uma teoria não muito bem elaborada por ele, mas por marxistas posteriores sobre a arte e a sua relação com a cultura socialista e prática, pois, mesmo que entendamos arte como técnica apenas, podemos tratar do desenvolvimento da autoconsciência (termo hegeliano) dos homens através do trabalho, do processo de a própria criação e procedimento que faz os homens reconhecerem-se a si mesmos e orgulharem-se do que fazem perdurar em nome da nação e da cultura que deve permanecer.

Antes, seu mestre Hegel, tem uma teoria peculiar a esse respeito. Tomando emprestado de Kant, para o seu desenvolvimento dialético, o termo gênio, Hegel vai dizer que este é mais que um talento específico para determinada façanha artística, como para bem tocar um violino ou bem traçar belas formas com um pincel, mas algo de inato que poucos expoentes da humanidade têm em seu espírito subjetivo (subjekt Geist). O gênio é aquela capacidade do espírito desses determinados homens de poder não apenas conceber e expor as regras de conduta estética, mas gerar novas regras. Ou seja, o gênio cria o que o povo, o que homens não possuidores desse gênio precisam: um caminho reto e moralizador de paixões através da contemplação da beleza nas artes, pois os espíritos desses homens se reconhecem nas obras desses homens, porque compartilham de uma mesma fonte ideal – o Espírito Absoluto. Essa teoria de reconhecimento tem base no pensamento de Plotino, mas Hegel vai alem no desenvolvimento histórico-espiritual e dialético. A cultura, portanto, sempre está fadada a destruição por esses gênios, ou melhor, uma nação está sempre fadada a superação da cultura toda vez que nasce e floresce o gênio de um artista, pois dando novo meio de conduta para um povo, este não se reconhece mais no antigo, tendendo assim a buscar esse novo, o que vai gerar nova postura intelectual e sentimental e conseqüentemente nova cultura.

Hoje, a cultura estética tornou-se ainda mais vigorante filosoficamente. A arte foi elevada a determinado patamar filosófico, até certo ponto onde a redação de amor à sabedoria tornou-se poética. O pensamento pós-nietzscheano deu muito valor ao discurso das alegorias e metáforas, o que é importante para uma era ausente de fundamentos objetivistas. Gerou-se, devido a isso, uma nova cultura onde se confundem os termos e os conceitos poesia e filosofia. Nessa gênese interpretativa, Merleau-Ponty chega a afirmar: “O ser é o que exige de nós criação, para que dele tenhamos experiência”; ou seja, para o filósofo da ambigüidade, do subjetivismo-objetivo, é através da arte que o homem vem a conhecer o ser da coisa, ainda mais na arte pós-impressionista de Cézanne, que faz circundar o objeto da pintura até que se ache a cor perfeita, o tom perfeito, que revele para o sujeito o que é mais objetivo na coisa, e assim o homem faz se conhecer também, tomando consciência de si na sua relação com o outro ou outras coisa.

Estabelece-se, pois, uma nova cultura filosófica, onde o gênio do artista confunde-se com o do filósofo. Inclusive diz Voltaire que “a verdade é o que nos fazem crer”, e se considerarmos a frase à luz de uma analogia com os pensamentos de Hegel e Merleau-Ponty, podemos conceber a verdade como aquela arte filosófica que se faz entender por um conjunto de homens, que em sua consciência coletiva passa a contemplar tais verdades, tratar tais argumentos e mostras ou demonstrações como conduta de contemplação estético e intelectual.

Essa são algumas possíveis interpretações ainda bem pessoais, mas que podem ser consideradas com mais aprofundamento rigoroso, para estabelecer mais considerações a respeito de perspectivas entre a arte e a cultura. Trabalho árduo, pois, que não nos cabe explorar aqui.

: : b i b l i o g r a f i a
CHAUÍ, Marilena. Experiência do pensamento: ensaios sobre a obra de Merleau-Ponty. Martins Fontes: São Paulo, 2002
HEGEL. Estética
HUISMAN, Denis. Dicionário dos filósofos. Tradução de Claudia Berliner, Eduardo Brandão, Ivone Castilho Benedetti, Maria Ermantina Galvão. São Paulo, 2004: Martins Fontes
NAINE, Victor. Da universalidade da arte e sua conduta moralizadora: reflexões à luz de fundamentos hegelianos


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