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(...) A gargalhada do demônio me assustava.
“Saia daqui demônio. Você não irá levá-la.” - disse o anjo
“Desde quando você se tornou amante dos humanos, Ayel? Isso não é do seu feitio.”
“Eu lhe disse Ephisto, você não irá levá-la!”
"E nem você!" . . .
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A C A R T A
MONASTÉRIO ST. PETER
21:31
A chuva caía forte sobre o monastério, os raios iluminavam a fachada de pedra do lugar. William Waldrow colocou o grande manto preto, se preparando para descer, quando um envelope foi jogado por debaixo da porta. Ele o pegou, e tirou de dentro dele uma carta. Sentou-se em sua poltrona, colocou os pés sobre a mesa e começou a lê-la.
De: Katherine Anderson
Para: William Waldrow
Olá William. Como vai?
Antes de qualquer coisa, tenho uma pergunta a fazer a você: acredita em anjos? Eu sei que você dirá que sim, mas muitos outros diriam não, do mesmo jeito que eu responderia a essa pergunta algum tempo atrás.
Até que aquilo aconteceu.
Foi a mais ou menos um mês. Eu não sei como explicar a você a sensação que tive naquela noite. A sensação de não saber de nada do que está realmente acontecendo. Ver que, diante da grandeza da criação, somos meros peões. Mas vou relatar tudo, de maneira fácil, para que possa tentar compreender o que me aconteceu. Tudo o que está em jogo.
Havia ido ao banco atrás de um empréstimo para quitar a hipoteca da casa. Havia sido despedida de meu trabalho e por isso não poderia garantir ao gerente o pagamento do empréstimo. Eu sei que pagaria. Mas ele queria algo que provasse isso, queria algo sólido e eu, infelizmente, tinha apenas minha convicção de que acertaria tudo. E assim, ele recusou o empréstimo.
Comecei a caminhar de volta para casa, mas quando percebi, havia andado muito e chegado até o parque, as primeiras luzes começaram a ser acesas, era quase noite, e eu havia caminhado o dia todo. Sentei em um banco de madeira, com a pintura branca já descascando, olhei a minha volta, havia alguns casais de namorados, lembrei-me de Mark, e do que ele me dissera naquela manhã:
"Me desculpe Katherine, mas conheci outra..."
Aquelas palavras ecoavam como trovões em minha mente. Levei minhas mãos ao rosto, e as lágrimas começaram a cair sobre minha face. Tentei contê-las com todas as minhas forças, mas a saudade e a dor da perda eram maiores, e eu nada pude fazer, foi nessa hora que a idéia me ocorreu. Olhei novamente a minha volta e não havia mais ninguém.
Caminhei até uma pequena ponte que ligava um lado do lago ao outro, senti o vento frio que soprava, e me lembro como o balé das luzes dos carros me hipnotizaram e quase me fizeram desistir. Como as luzes dos edifícios me mostraram que deveria haver alguém lá fora que seria minha outra metade, seria meu eterno amor, mas, como sempre, apostei errado, apostei no amor de um homem que apenas queria brincar comigo, pode parecer estranho para você William, mas eu realmente amo aquele homem.
Olhei para a superfície prateada do lago, vi o reflexo das estrelas, e vi meu rosto refletido nela, sorri pela primeira vez naquele dia, foi quando ouvi aquela doce voz.
"Não faça isso."
Eu me virei em direção a voz, e vi um lindo homem, alto, vestindo uma camisa preta e um longo sobretudo negro, parado ali, me observando.
"Quem é você?"
Eu não sabia quem era aquele homem, mas estranhamente sentia que podia confiar nele, talvez pelo tom de sua voz, talvez porque eu precisasse realmente tentar confiar em alguém. Mas confesso a você, aquilo me deixou com medo no início.
"Por favor, não faça isso. Ele não quer que você faça isso."
"Quem não quer? Mark? Aquele idiota?"
Eu deveria saber que Mark viria atrás de mim, mesmo me dizendo que tudo havia acabado, seus pais não deviam saber que nosso namoro havia acabado. Mas quando eu pensei ter entendido tudo, as coisas começaram a ficar realmente estranhas.
"Não Katherine, Deus não quer que você faça isso."
"Deus? Como se ele soubesse da minha existência."
Minha fé já havia ido toda embora depois de tudo que havia passado, não sabia se Deus realmente se preocupava comigo... aliás, já não sabia nem se Deus realmente existia.
Hoje, me castigo por ter tido tamanha dúvida.
"Você é importante para Ele, todos são."
"Você não me conhece."
"Eu conheço Katherine, Ele conhece. Por isso estou aqui. Para salvá-la."
"Me salvar? Do quê? De me jogar... ninguém vai me impedir!"
"Eu sei pelo que tem passado... seus problemas... você foi despedida de seu trabalho, seu namorado a deixou... e seus sonhos estão povoados por demônios."
Ele sabia sobre meus demônios, sabia meus problemas... isso até hoje me assusta William... como se pode conversar com um estranho que sabe mais sobre mim do que eu mesma?
"Quem é você?"
Foi quando ele respondeu a essa pergunta que comecei a entender o que se passava.
"Meu nome é Ayel"
"Mas como você pode saber tanto sobre mim?"
"Eu sou um Anjo."
"Por favor, não brinque comigo, eu nem o conheço, por favor..."
Nessa hora só me lembro de cair de joelhos, chorando, e aquele homem correr em minha direção e me abraçar. Eu pude sentir aqueles braços quentes me envolvendo, e o frio sair do meu corpo, acredite William, foi a primeira vez em muito tempo que me senti feliz, mesmo que por poucos segundos.
"Confie em mim Katherine, eu preciso que você confie em mim, só assim posso lhe ajudar."
Aqueles grandes olhos azuis penetraram em minha alma profundamente, foi como se aquele homem... aquele anjo pudesse ver tudo que eu sentia, com apenas aquele olhar, ele conheceu a mim, como ninguém jamais conheceu antes.
"Eu confio em você."
Ele sorriu e me ajudou a levantar, foi quando vi aquilo vindo em minha direção, cerrei meus olhos e vi que se tratava de um demônio, o mesmo demônio que povoava meus sonhos estava ali, eu gritei e Ayel ficou frente-a-frente com aquele demônio que agora era real, infelizmente era muito real.
"Há quanto tempo Ayel! "
A visão daquele demônio era aterrorizante, sua pele parecia avermelhada, havia algo como dois pequenos chifres na cabeça, longas unhas, e vestia uma roupa completamente negra. Sua voz ecoava em minha cabeça, assim como as vozes que ouvia em meus sonhos.
"O que faz aqui Ephisto?"
"Eu quis saber como Katherine estava, estava sentindo falta dela essa noite."
A gargalhada dele me assustava, e ainda hoje a lembrança dela me assusta.
"Saia daqui demônio. Você não irá levá-la."
"Desde quando você se tornou amante dos humanos, Ayel? Isso não é do seu feitio."
"Eu lhe disse Ephisto, você não irá levá-la!"
"E nem você!"
Ephisto pulou em direção a Ayel e cravou suas unhas no peito dele. Esse golpe teria partido o mais bravo dos heróis ao meio William, mas meu anjo se curvou, deu dois passos para trás e se levantou, como se nada tivesse acontecido.
A luta entre os dois se estendeu por um longo tempo, golpes que tombariam qualquer pessoa eram desferidos, mas eles continuaram a lutar, até que o demônio caiu exausto, imóvel.
"Você está bem?" - o Anjo me perguntou.
Fiz que sim com a cabeça
"Você tem uma missão Katherine, uma missão muito importante. Você tem que unir quatro relíquias em um ritual que você deve realizar."
"Eu?"
"Sim."
Até hoje William, não sei porquê entregaram a mim essa tarefa.
"Um ritual para quê?"
"É preciso que você saiba, Katherine, não há tempo a perder! "
As palavras dele me causaram calafrios.
"E que relíquias são essas?"
"O espelho do Mandil, o sangue do Salvador, a Lança que perfurou o corpo do Messias e as lágrimas da Virgem."
"Mas onde eu as encontrarei?"
"Você receberá ajuda"
Eu abaixei a cabeça e fechei meus olhos, tentando pensar, mas era tudo tão irreal, tão estranho.
"E como eu acabarei com isso?"
"Você mostrará a todos que estão no céu que os humanos estão prontos para receber outra graça."
"Mas como farei esse ritual?"
"Ele foi dado há muito tempo para vocês... para um daqueles que vocês chamam de profetas."
"Não posso fazer isso..."
Você não acreditaria William, mas aquele demônio ainda estava vivo, e se levantou, com um sorriso macabro em sua face.
"Você não devia ter feito isso Ayel... Se voltar contra seus semelhantes por causa de meros humanos. Eles não são importantes. Nós é que somos."
"Tudo mudou Ephisto. Tudo mudou. Há muito em jogo."
"Vamos acabar logo com isso Ayel."
"Afaste-se Katherine."
O anjo se colocou em minha frente, me protegendo. Mas aquele demônio não atacou, ele simplesmente fechou os olhos e começou a falar em uma língua que eu desconheço, depois desapareceu.
"Para onde ele foi?"
"Eu não sei, mas preciso voltar."
Ele disse isso com uma voz fraca, havia algo de errado com ele.
"Você está bem?"
"Sim, mas preciso voltar. Guarde esse espelho, tudo depende dele."
Ele caminhou até algumas árvores que se encontravam ali e desapareceu.
Ainda levei um tempo para entender tudo que havia acontecido ali. Para dizer a verdade William, até agora não sei se realmente entendi.
Por isso peço sua ajuda, sei que você não queria mais se envolver com esse tipo de assunto, mas você deve possuir amigos, então, por favor, me ajude. Sinto que aquele demônio logo voltará. Preciso encontrar logo as relíquias.
Aguardo sua resposta.
Katherine
William Waldrow dobrou a carta e a guardou em uma das gavetas, se recostou na poltrona e se pôs a pensar.
- Ajude-a William.
Ele se virou e viu um homem parado ao lado de sua cama.
- Ela não sabe de nada Ayel. Por que a meteu nisso?
- Ela é a escolhida.
- Escolhida de quem?
- Ele a escolheu, ela será importante na luta final, mas precisa de ajuda.
- Por que você não a ajuda?
- Antes de desaparecer, Ephisto jogou sobre mim algum tipo de energia demoníaca.
- Do que está falando?
- Eu não posso me aproximar dela. Não posso descer à Terra por muito tempo. Logo, não poderei descer nunca mais.
- E desde quando você se importa com os humanos, Ayel?
- Tudo está em jogo. Não só os humanos.
- Então é por isso que está ajudando-a? Por que isso atingirá você?
- Eu preciso da sua ajuda, porque esse ritual foi tentado antes, mas todas as escolhidas pereceram.
- Certo. Eu a ajudarei, mas não farei isso por você ou por Ele, mas farei por ela.
- Você irá sozinho?
- Não, outros me ajudarão. O que é muito mais do que você fez.
- Eu... - Ayel olhou para a janela, para a chuva que escorria lá fora - Que Deus esteja com você.
- Ele sempre está.
O anjo caminhou até a janela, uma forte rajada de vento a abriu, um raio cortou os céus e ele desapareceu.
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