Outonos


Ás voltas, em Monserrate


No Outono de todas as explosões,

Ao murchar das páginas que transportam lendas desfeitas,

Entardecer que se quer calmo e sem desafios,

Como pode voltar ainda a cheirar a caminhos de terra por descobrir,

Saber a amoras silvestres ligeiramente amargas,

Na encosta da serra da esperança?



De repente, como se todos os actos adiados florescessem

Quando os dias são mais curtos,

E as certezas mais incertas,

No Outono,

Quando o frio húmido do medo de mudar é mais intenso,

Escrevem-se quadros, pintam-se frases de encanto,

Jogam-se sentimentos ao ar,

Sabe à doçura dos beijos que se entregam,

Ouvem-se músicas que lembram a timidez da adolescência.

É a confusão dos sentidos,

O abalar das verdades que trazem comodidade e sossego.



No Outono de todas as decepções,

Quando a ambição já se havia apeado na estação anterior,

De repente, como quem descobre o Norte após uma descida íngreme,

Estrela guia de muitas emoções criadas,

Desenham-se novas vias, auto-estradas de faixa larga,

Para que as flores do muito querer as possam percorrer a alta velocidade.



No tempo em que as certezas levantam mais dúvidas,

Em que as guias se perdem nos pinhais ameaçados pelo novo-riquismo,

Confundidas pelos senhores da terra e da situação,

Ou por artistas apaparicados pela cultura oficial,

Como pode ser possível contar estórias de fadas,

E acreditar que no Outono a luz que passa,

Quando passa,

Ainda tem força para acender chamas arco-íris

E abalar as verdades que trazem comodidade e sossego?



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