não faz sentido



O rio das pedras e dos sulcos de areia,

Caudal quase seco no que outrora fora beleza cristalina,

Algas frágeis que não conseguem fazer lembrar a luxúria passada,

Ilusão de tempos mais férteis,

Pede o silêncio próprio das paixões que se receiam.



Só um poeta incuravelmente perdido,

Impotente sonhador sem fogo nos olhos,

Com a rosa-dos-ventos virada de pantanas,

Diabo das mil fraquezas da alma,

Gosta de se sentar à beira das rugas da terra,

Vendo passar uma corrente que se perde,

Mãos na àgua que não corre por que outros beberam,

Amores ao vento dos beijos que se cansam.



Não faz sentido escrever na areia húmida da imaginação,

Num rio que se devora num percurso de charcos tranquilos,

Bocas quentes em corpos que têm medo.



Poeta sem tino e loucamente insatisfeito,

Cabeça a bater nas montanhas que definem o espaço da sua planície interna,

Rei de uma ilha solitária onda as ondas vêm morrer com violência,

Constrói reflexos de imagens que sugerem belas apaixonadas,

Poças de àgua que espelham primaveras radiantes,

Num fim de estação sem chuvas, em que as gretas da terra abrem crateras sem vida.



Rio de muitos ímpetos passados,

Correntes cheias de quem soube agarrar a frescura das noites quentes,

Hoje sabiamente à espera das ultimas àguas da vida,

Freixos altos a esconder uma realidade que se adivinha,

Que mistério existe em ti,

Que deixas o poeta das frases encalhadas nos bancos de areia,

Pensar que navega onde só existem pedras e timidez?



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tres tiros



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