Por Darcy Ribeiro |
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Vargas - Presidente da República de 03/11/1930 até 28/10/1945 e depois de 15/01/1951 até o dia 24/08/1954, quando suicidou-se em um dos mais dramáticos acontecimentos da História do Brasil.
Os presidentes Getúlio Vargas do Brasil e Franklin Delano Roosevelt dos EUA em cerimônia no Brasil em 1940.
Vargas preside uma reunião do Conselho de Segurança na época da II Guerra Mundial.
Postais vendidos na época da II Guerra Mundial, que procuravam exaltar a figura de Getúlio como o grande líder de massas.
Movimento popular pela continuidade de Vargas no poder, batizado pela imprensa da época de " Queremismo".
Cartaz de propaganda de Vargas nas eleições para a Assembléia Nacional Constituinte, quando foi eleito deputado por 14 estados e senador por outros 3 estados.
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Getúlio Dornelles Vargas - Governou o Brasil por mais de 18 anos, sendo até hoje o mais polêmico de todos os políticos brasileiros. "Getúlio
Vargas (1883-1954) foi o maior dos estadistas brasileiros. Foi também o
mais amado pelo povo e o mais detestado pelas elites. Tinha que ser assim.
Getúlio obrigou nosso empresariado urbano de descendentes de senhores de
escravos a reconhecer os direitos dos trabalhadores. Os politicões
tradicionais, coniventes, senão autores da velha ordem, banidos por ele
do cenário político, nunca o perdoaram. Os
intelectuais esquerdistas e os comunistas, não se consolam de terem
perdido para Getúlio a admiração e o apoio da classe operária. Com
eles, o estamento gerencial das multinacionais. Getúlio foi o líder
inconteste da Revolução de 1930. Tendo exercido antes importantes
cargos, Getúlio pôde se pôr à frente do punhado de jovens gaúchos
que, aliados a jovens oficiais do Exército - os tenentistas -,
desencadearam a Revolução de Trinta. A única que tivemos digna desse
nome, pela profunda transformação social modernizadora que operou sobre
o Brasil. No plano
político, a Revolução de 30, proscreveu do poder os coronéis-fazendeiros
com seus currais eleitorais e destitiuiu os cartolas do pacto "café-com-leite",
que faziam da República uma coisa deles. Institucionalizou e
profissionalizou o Exército, afastando-o das rebeliões e encerrando-o
dentro dos quartéis. No plano
social, legalizou a luta de classes, vista até então como um caso de polícia.
Organizou os trabalhadores urbanos em sindicatos estáveis, pró-governamentais,
mas anti-patronais. No plano
cultural, renovou a educação e dinamizou a cultura brasileira. Getúlio
governou o Brasil durante quinze anos sob a legitimação revolucionária,
foi deposto, retornou, pelo voto popular, para cinco anos mais de governo.
Enfrentou os poderosos testas-de-ferro das empresas estrangeiras, que se
opunham à criação da Petrobrás e da Eletrobrás, e os venceu pelo suicídio,
deixando uma carta-testamento que é o mais alto e o mais nobre documento
político da história do Brasil. Vejamos,
por partes, os feitos de Getúlio. Logo após a vitória, estruturou o
Governo Federal com seus companheiros de luta, como Oswaldo Aranha e
Lindolfo Collor, aos quais se juntaram mais tarde Francisco Campos,
Gustavo Capanema, Pedro Ernesto e outros. Colocou no governo, também,
seus aliados militares - Juarez Távora, João Allberto, Estilac Leal,
Juracy Magalhães, entregando a eles, na qualidade de interventores, o
governo de vários estados e importantes funções civis. Só faltaram
dois heróis do tenentismo: Luís Carlos Prestes, porque havia aderido,
meses antes, ao marxismo soviético, e Siqueira Campos, que morreu num
acidente durante a conspiração. O Governo
Revolucionário criou o Ministério da Educação e Saúde, entregue a
Chico Campos, fundou a Universidade do Brasil e regulamentou o ensino médio,
em bases que duraram décadas. Criou, simultaneamente, o Ministério do
Trabalho, entregue a Lindolfo Collor, que promulga, nos anos seguintes, a
legislação trabalhista de base, unificada depois na CLT, até hoje
vigente. O direito de sindicalizar-se e de fazer greve, o sindicato único
e o imposto sindical que o manteria. As férias pagas. O salário mínimo.
A indenização por tempo de serviço e a estabilidade no emprego. O sábado
livre. A jornada de 8 horas. Igualdade de salários para ambos os sexos
etc., etc. Getúlio
inspirou-se, para tanto, no positivismo de Comte, que já orientava a política
trabalhista dos gaúchos, do Uruguai e da Argentina. Oswaldo Aranha, à
frente do Ministério da Fazenda, reorganizou as finanças, revalorizou a
moeda nacional e negociou a velha e onerosa dívida externa com os
ingleses, em bases favoráveis ao Brasil. Guerra de ideologias - Dois anos
depois da revolução vitoriosa, Getúlio enfrentou e venceu a
contra-revolução cartola, que estourou em São Paulo, defendendo a
restauração da velha ordem em nome da democracia. Em 1934,
convocou e instalou uma Assembleia Constituinte que aprovou uma nova
Constituição, inspirada na de Weimar. Com base nela, foi eleito
Presidente Constitucional do Brasil. Getúlio teve que enfrentar, desde
então, a projeção sobre o Brasil das ideologias que se digladiavam no
mundo, preparando-se para se enfrentarem numa guerra total. De um lado, os
fascistas de Mussolini, que se apoderaram da Itália, e os nazistas de
Hitler, que reativaram a Alemanha, preparando-se para se espraiarem sobre
o mundo. Do lado oposto, os comunistas, comandados desde a União Soviética,
com iguais ambições. A direita se organizou aqui com o Partido
Integralista, que cresceu e ganhou força nas classes médias,
principalmente na jovem oficialidade das forças armadas. Os comunistas começaram a atuar nos sindicatos, estendendo sua influência nos quartéis. Ampliaram rapidamente sua ação, através da Aliança Nacional Libertadora, que atraiu toda a esquerda democrática e anti-fascista. Os comunistas conseguiram de Moscou, que apoiava uma política de aliança com todos os anti-fascistas do mundo, que abrisse uma exceção para o Brasil, na crença de que aqui seria fácil conquistar o poder, em razão do imenso prestígio popular de Prestes . Desencadearam
a intentona, em 1935, que foi um desastre. Não só desarticulou e
destroçou o Partido Comunista, mas também provocou imensa onda de
repressão sobre todos os democratas, com prisões, torturas, exílios e
assassinatos. O resultado principal da quartelada foi fortalecer
enormemente os integralistas, abrindo-lhes amplas áreas de apoio em
muitas camadas da população, o que lhes permitiu realizar grandes
manifestações públicas, marchas de camisas verdes, apelando para toda
sorte de propaganda, a fim de eleger Plínio Salgado Presidente da
República. Getúlio terminou por dissolver o Partido Integralista,
assumindo, ele próprio, o papel de Chefe de um Estado Novo, de natureza
autoritária. Quebrou o separatismo isolacionista dos estados,
centralizando o poder e ensejando o sentido de brasilidade. |
A guerra - Em 1939 estalou a guerra. Todos supunham que a propensão de Getúlio era de apoio às potências do Eixo, em função da posição dos generais . Surpreendentemente, Getúlio começou a aproximar-se da democracia, através de Oswaldo Aranha, que fez ver aos Aliados que Getúlio era propenso a apoiar as democracias. Não o fez de graça, porém. Exigiu dos Estados Unidos, como compensação pelo esforço de guerra que faria, cedendo bases em Belém e em Natal e fornecendo minério, borracha e outros gêneros, duas importantíssimas concessões. Primeiro, a criação de uma grande siderúrgica que viria a ser a Companhia Siderúrgica Nacional, a CSN, matriz de nossa industrialização. Segundo, a devolução ao Brasil das reservas de ferro e manganês de Minas Gerais e da Estrada e Ferro Vitória-Minas, em poder dos ingleses. Com elas se constituiu a Companhia Vale do Rio Doce que nas décadas seguintes teve um crescimento prodigioso. Toda essa negociação se coroou quando Getúlio consegue que Roosevelt viesse a Natal, em sua cadeira de rodas, para conversar com ele, consolidando aqueles acordos e obtendo do Brasil a remessa de uma força armada para a batalha da Itália. Com a vitória dos Aliados na guerra, cresceu o movimento de redemocratização do Brasil, que logo se configurou como incompatível com a presença de Getúlio no governo. Ele tentou conduzir o processo e para isso criou, com a mão esquerda, o PTB, para dar voz política aos trabalhadores; e com a mão direita, o PSD, para expressar os potentados da administração pública, com os quais governara. Gerando desconfiança em todos, Getúlio finalmente caiu, num golpe militar encabeçado por Góes Monteiro e Eurico Gaspar Dutra, seu Ministro da Guerra. O governo foi entregue ao Supremo Tribunal Federal, que convocou e realizou eleições, nas quais se defrontaram, representando as forças nominalmente democráticas, o Brigadeiro Eduardo Gomes e, na vertente oposta, o general Gaspar Dutra. Ganhou Dutra, graças ao apoio de Getúlio, que vivia desterrado em sua fazenda de Itu, no Rio Grande do Sul. Simultaneamente, Getúlio se elegeu Senador por São Paulo e pelo Rio Grande do Sul, e Deputado Federal pelo Distrito Federal, pelo Rio de Janeiro, por Minas Gerais, Bahia e Paraná. A volta -
Nas eleições de 1950, Getúlio se candidatou à Presidência da República,
enfrentando Eduardo Gomes, mas encontrou um estado destroçado e falido
por Dutra, que, eleito por ele, governara com a direita udenista. Getúlio,
logo depois de empossado, formulou nosso primeiro projeto de
desenvolvimento nacional autônomo, através do capitalismo de estado, e
um programa de ampliação dos direitos dos trabalhadores. Começou a lançar
os olhos para a massa rural. A característica distintiva do seu governo
foi, porém, o enfrentamento do capital estrangeiro, que ele acusava de
espoliar o Brasil, fazendo com que recursos, aqui levantados em cruzeiros,
produzissem dólares para o exterior, em remessas escandalosas de lucros.
Toda a direita, associada a essas empresas estrangeiras e por ela
financiada, entrou na conspiração, subsidiando a imprensa para criar um
ambiente de animosidade contra Getúlio, cujo governo era apresentado como
um "mar de lama". Neste ambiente, o assassinato de um major da
Aeronáutica, que era guarda-costa de Carlos Lacerda, por um membro da
guarda pessoal de Getúlio no Palácio do Catete, provocou uma onda de
revolta, assumida passionalmente pela Aeronáutica na forma de uma comissão
de inquérito, cujo objetivo era depor Getúlio. A crise se
instalou e progrediu até a última reunião ministerial, em que Getúlio
constatou que todos os seus ministros, exceto Tancredo Neves, viam como
solução a sua renúncia. Ele havia recebido, através de Leonel Brizola,
a informação de que podia contar com as forças militares do sul do país.
Mas, para tanto, seria necessário desencadear uma guerra civil. A solução
de Getúlio foi seu suicídio. Antes entregou a João Goulart a Carta
-Testamento, que passou a ser o documento essencial da história
brasileira contemporânea. Virada - O
efeito do suicídio de Getúlio foi uma revirada completa. A opinião pública,
antes anestesiada pela campanha da imprensa, percebeu, de abrupto, que se
tratava de um golpe contra os interesses nacionais e populares, que era a
direita que estava assumindo o poder e que Getúlio fora vítima de uma
vasta conspiração. Os testas-de-ferro das empresas estrangeiras e o
partido direitista, que esperavam apossar-se do poder, entraram em pavor e
refluíram. As forças armadas redefiniram sua posição, o que ensejou
condições para a eleição de Juscelino Kubitsheck. O translado
do corpo de Getúlio, do Palácio do Catete até o Aeroporto Santos Dumont
foi a maior, a mais chorosa e mais dramática manifestação pública que
se viu no Brasil. Pode-se avaliar bem o pasmo e a revolta do povo
brasileiro ante esta série de acontecimentos trágicos, que induziram seu
líder maior ao suicídio como forma extrema de reverter a seqüência política
que daria fatalmente o poder à direita".
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