Imagens de uma época


Guerra do Vietnã - 50 mil soldados norte-americanos e mais de 2 milhões de vietnamitas mortos na maior tragédia do sudeste asiático.

Martin Luther King, pastor e líder pacifista negro é assassinado em um hotel no Tenesse - Abril.

Robert Kennedy, senador e candidato democrata a presidência da república é assassinado na Califórnia. - Junho

 

Fim da "Primavera de Praga" - Tropas do Pacto de Varsóvia invadem a Tchecoslováquia e derrubam o governo reformista de Alexandre Dubcek. - Agosto.

 

Este texto originalmente foi publicado em um caderno especial no JORNAL DO BRASIL.
                             

    FRANÇA - MAIO                                                    BRASIL - JUNHO

Coloque num mesmo ano a guerra do Vietnam, protestos pacifistas, invasão da Tcheco-Eslováquia, contracultura, assassinatos de Bob Kennedy e Martin Luther King, movimentos pela liberação sexual, racial, artística, cultural e política, manifestações estudantis, viagens espaciais, ditadura militar, ecologia, festivais da Record, Jimi Hendrix, Bob Dylan, Jim Morrison, Janis Joplin, Beatles, Joe Cocker, Caetano, Gilberto Gil, Geraldo Vandré, Grateful Dead, hippies, Comando de Caça aos Comunistas (CCC), paz e amor, drogas, Bonnie and Clyde, Tropicalismo, Roberto Carlos, Roda Viva. Tudo isso ao som de guitarras eletrificadas, tiros, gritos de guerra, canções de protesto, bombas de gás e de napalm. O resultado é um ano especial, que marcou o século 20. Daqueles que entram para a história e ficam gravados para sempre na memória dos que o viveram. Assim foi 1968.

Na noite de 31 de dezembro de 1967 não havia nenhum sinal de tormenta no ar. O mundo respirava euforia. A lógica da Guerra Fria mantinha a bipolaridade mundial entre russos e americanos, que garantia a paz. Os pequenos conflitos em áreas distantes do planeta não eram vistos como ameaças para um holocausto nuclear. As economias dos países ocidentais estavam no auge e viviam o mais forte período de prosperidade e crescimento de toda a história do mundo industrializado. O império soviético parecia ter total controle sobre tudo o que acontecia atrás da cortina de ferro. Os Estados Unidos, a mais rica e poderosa nação do planeta, nadavam em abundância e pensavam em como se livrar do Vietnam, um desses pequenos conflitos.

Mil novecentos e sessenta e oito entrou no ar recebido pelo espocar das rolhas de champanha e clima de muito otimismo. Não havia espaço para pessimismo e nenhum dos surpreendentes acontecimentos que nos próximos 365 dias iriam abalar as estruturas deste mundo cor-de-rosa e fazer de 1968 um dos anos chaves do século 20 foi previsto.

A ofensiva do Têt (fevereiro) dos patriotas vietnamitas desarticulou todo o esquema americano no Vietnam e mostrou que uma solução militar era impossível. Enquanto os Estados Unidos enviavam apressadamente milhares de jovens para tentar recompor suas forças, o Vietnam invadia os lares americanos através da televisão. Os pais começaram então a questionar o sentido de mandar seus filhos para uma morte horrível nos pântanos e arrozais de um país distante, pobre e onde os EUA não tinham grandes interesses comerciais.

Muito rapidamente o distante Vietnam viria a mudar a história dos Estados Unidos. Violentos protestos contra a guerra tomaram conta dos campi das universidades americanas, jogaram para o espaço a candidatura de Lyndon Johnson à presidência e abriram caminho para a eleição de Richard Nixon. A guerra no Vietnam dividiu profunda e irremediavelmente a sociedade americana.

A brutal invasão da Tcheco-Eslováquia (agosto) confirmou que havia muitas coisas podres no império soviético. As chocantes imagens dos tanques soviéticos esmagando a primavera de liberdade que floria em Praga abalariam gravemente os alicerces do comunismo. Milhares de comunistas em todo o mundo queimaram suas carteirinhas e romperam indignados com o partido. Num ano em que os jovens defendiam o amor livre, a encíclica Humanae Vitae do papa Paulo VI, condenando a pílula e todos anticoncepcionais, colocaria a Igreja na contramão da história. A pílula era, afinal, a grande conquista feminina.

O ano de 1968, como resume Eric Hobsbawm em A era dos extremos, encerrou a era do general De Gaulle na França, dos presidentes democratas nos EUA, as esperanças do comunismo liberal na Europa Central e assinalou o início de uma nova fase na política mexicana, depois do massacre de estudantes de Tlatelolco.

A revolta dos estudantes em praticamente todos os países do mundo resultaria num profundo questionamento da política tradicional, dos costumes, do autoritarismo, e introduziria no cotidiano valores como pacifismo, feminismo, ecologia, contracultura, música de protesto, som pop e drogas. Como poucas vezes aconteceu no passado, o mundo mudou radicalmente no espaço de um ano.

Paz e amor. É proibido proibir. A imaginação no poder. Seja realista, peça o impossível. Faça amor, não faça a guerra. Essas curtas palavras de ordem definem melhor do que qualquer estudo sociológico o espírito de 1968, um ano especial, talvez o mais carregado de simbolismos do século 20.

  

 França - Maio de 1968 - Passeata estudantil.         Brasil - Junho de 1968 - sexta-feira sangrenta.

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