G E O M O R F O L O G I A S
 
A paisagem é um discurso.
Mas qual discurso? Não somente
a escrita cursiva,
a caligrafia visível
do contorno mais distante
ou de silhuetas mais próximas
num palimpsesto de horizontes
em nosso campo visual.
(Confusão que resulta, note-se,
de se tentar apreender
uma dada superfície
enquanto se está sobre ela.)
Nem se reduz, tampouco,
esse possível discurso
à caligrafia analítica
(mais ordenada e precisa)
de umas curvas de nível.
Não. O discurso que buscamos
é subjacente a esses dois.
Esse texto invisível,
escrevem-no sobre a terra
a água (ou gelo) e o ar.
Nesse discurso, com efeito,
'sem linguagem e sem fala
ouvem-se as suas vozes'. Que dizem?
Fala-se de gradientes
e energias potenciais.
Reiterado o princípio
de mínima ação. Fractais
comparecem, recorrentes:
fluviais, de terreno ou costais.
(Faz-se contínua menção
a coesões e solventes.)
O discurso é direto: erosão.
Atrito, fratura e impacto,
escavação e transporte,
nivelamento e depósito
são artefatos de escrita
sobre uma página antiga.
Com rasuras sucessivas,
em variações infinitas
desenvolve-se o discurso
ao longo de eras. Assim
(cremos) se escreve a paisagem.
 

meus textos/ my texts
poesia/ poetry
joão cabral
home

Hosted by www.Geocities.ws

1