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Fernanda Wendel 𓋹 𓍑 𓋴
Sobre a Rússia de Putin, algumas coisas varridas para debaixo do tapete da história:
1) a admiração que Putin tinha pelo então presidente americano George W. Bush como "líder forte e violador de regras", e de como Putin se inspirou nesse exemplo;
2) o desejo de Putin de que a Rússia fizesse parte da Otan, projeto que só foi engavetado em 2005 (fato que, por si só, desmonta a crença de que Putin seria algum tipo de heroico contraponto ao imperialismo norte-americano);
3) o compromisso que Putin mostrava, na primeira década dos anos 2000, com a integração da Rússia com a Europa (o que torna irônica e contraditória a atual postura duginista de Putin, na linha de que estaria lutando para salvar a Europa (enquanto ideal abstrato) dos próprios europeus.
Reproduzo:
"[...] Logo chegou a notícia de que George W. Bush havia vencido com 51% dos votos, contra 48% de Kerry. O resultado teve um efeito fortíssimo sobre o Kremlin: além de Bush ter sido eleito para o segundo mandato, o partido dele havia conquistado o controle total das duas câmaras do Congresso. Ele parecia o mestre absoluto do mundo - um verdadeiro 'imperador militar', como o chamavam no Kremlin. Durante muito tempo, George W. Bush representou para Putin o modelo de presidente ideal, diz Gleb Pavlovski*: 'um líder forte, que sempre quebrava as regras'. Putin olhava para Bush com inveja, respeito e medo. [...]
Gleb Pavlovski relata que, até 2005, o Kremlin adorava a ideia de entrar para a OTAN e conversava entusiasmado sobre as condições da Rússia para aceitar o convite, se um dia ele fosse feito. [...] Putin ficou irritado, pois havia se convencido de que a Rússia não tinha que esperar na fila como outros países, ao contrário: ela deveria ser convidada.
Por iniciativa de Silvio Berlusconi, primeiro-ministro italiano, o Conselho OTAN-Rússia foi criado em 2002 como etapa intermediária do processo de participação plena da Rússia na Aliança Atlântica. [...] O primeiro desafio sério foi a entrada na OTAN dos países da Europa Oriental, incluindo as repúblicas do Báltico (de cuja participação Putin só soube posteriormente). As revoluções coloridas foram o segundo. Depois, em 2005, a proclamação da 'Doutrina Bush' e a transformação do Kremlin numa fortaleza sitiada acabaram com essas esperanças de uma vez por todas.
Em abril de 2005, Putin entregou seu discurso anual à Assembleia Federal, o parlamento bicameral da Rússia. A frase mais notável, citada posteriormente pela imprensa do mundo todo, aparecia bem no início: 'O colapso da União Soviética foi a maior catástrofe geopolítica do século XX'. No entanto, o discurso não falava de revanchismo ou nostalgia. Em vez disso, Putin (lendo as palavras do responsável pela política do Kremlin, Vladislav Surkov, que havia preparado o discurso) disse que a Rússia era um país europeu, que os valores europeus eram seu 'ponto de referência' e que, durante 300 anos, a Rússia 'andou de mãos dadas com as nações europeias', inclusive na luta pelos direitos humanos. [...] 'Para a Rússia moderna, os valores da democracia não são menos importantes do que a busca por sucesso econômico e bem-estar social', explicou ele [...].
* Glev Pavlovski: cientista político e relações-públicas russo; estrategista político das campanhas eleitorais de Boris Ieltsin (1996), Vladimir Putin (2000, 2004) e Rússia Unida (2003); conselheiro presidencial da Rússia até 2011.
Fonte: ZYGAR, Mikhail. Todos os homens do Kremlin: os bastidores do poder na Rússia de Vladimir Putin. 1ª ed. São Paulo: Vestígio, 2018. p. 110-112
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