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Cota para negros vira projeto de lei A Ufes ainda não se definiu e aguarda a determinação do MEC para tomar uma posição sobre a medida.
O projeto não obriga as universidades federais a adotarem o sistema de cota, porém oferece incentivos financeiros e técnicos para as instituições que acatarem a medida. A Ufes ainda não definiu sobre a implantação do sistema. “O Ministério da Educação ainda está discutindo a medida, por isso ainda não podemos tomar nenhuma posição”, informa o assessor de Imprensa da Ufes, Luiz Vital. O projeto não esclarece pontos importantes: o primeiro é a porcentagem de vagas “justa” que as universidades públicas devem separar para os negros; o segundo é o processo de identificação, já que a população brasileira é bastante miscigenada; e um terceiro item pretende dar autonomia para as universidades desenvolverem o seu próprio modelo de identificação. Apesar desses pontos ainda não estarem esclarecidos, o fato é que os negros são vítimas de exclusão social, principalmente em se tratando de acesso à educação. Nas universidades brasileiras mais de 80% dos estudantes são brancos. O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, relembrou bem essa segregação durante a cerimônia em comemoração ao dia da consciência negra e lançamento de uma Política Nacional de Promoção da Igualdade Racial, na Serra da Barriga, em Alagoas. Em seu discurso, declarou que 46% da população brasileira são negros. Apenas 6,5% desses brasileiros assumem fazer parte da etnia. Afirmou ainda que no país existem 85 milhões de pobres. De cada 10 desses pobres, seis são negros. Atualmente, o País possui 743 remanescentes de quilombos. Desse total, apenas 36 tiveram sua área titulada.
Ainda pouco debatida na sociedade, a questão divide opiniões. Alunos e professores de diversos cursos da Ufes questionam o assunto e mantêm opiniões diferentes. Para a coordenadora geral do Centro Acadêmico de Direito, Bianca Ventorim Comarela, o sistema de cotas para negros não deixa de ser uma forma de segregação. “Sou totalmente contra. É verdade que, devido à escravidão, temos uma dívida social com a classe. Porém, acho que essa dívida não pode ser paga dessa maneira, onerando pessoas que não têm nada a ver com isso. E as outras etnias? Como fica a situação delas? Também deve criar cotas para cada uma? Outro problema é como classificar quem é negro ou não. O governo deveria investir desde o Ensino Fundamental, afinal não é só o negro que não entra na universidade; o branco também.” Já o professor de Sociologia e Antropologia Marcos Ricardo Santos acredita que o sistema decotas, além de favorecer a classe, é um primeiro passo para a mudança. “A cota para negros deveria ser implantada da mesma maneira que aconteceu na política com as cotas para mulheres. Essa é uma forma de minimizar os grandes transtornos da abolição da escravatura. Com a marginalização do negro, a classe ficou desempregada, assumiu cargos inadequados e teve o acesso à educação desqualificado. Somente na década de 50 o negro começa a ter carteira assinada. Quem vai ganhar com as cotas é a sociedade e não somente o negro. Com isso, a classe passaria a se identificar e valorizar a raça”, conclui Marcos Ricardo. Andréa Lima de Cristo, estudante de Serviço Social e membro da chapa única que concorre ao Centro Acadêmico do curso, apesar de ser a favor, acredita que a medida traz aspectos negativos e positivos. “É difícil ter uma posição. Por um lado, a sociedade tem uma dívida com os negros, mas, por outro, as cotas seriam uma forma de exclusão: o negro só entrou na universidade por causa da medida. Isso aconteceu na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Estudantes negros que entraram lá não conseguiam nem pagar passagem e sofriam exclusão, por isso formaram guetos. Apesar dos prós e contras, sou a favor, assim os negros formariam uma classe média.” Landoaldo dos Santos, membro da Educafro, núcleo
que prepara alunos carentes para o vestibular e debate questões
socias, também é a favor do sistema, mas acredita que
a medida deveria ser mais abrangente. “Não são só
negros que não têm acesso à universidade, mas as
pessoas carentes em geral”, avalia Landoaldo. |