Editorial (18 de março de 2007)
Sobre a Violência:
Enterramos Nietzsche - já que fizemos nascer o cálculo estatístico do
sucesso e felicidade - no alvorecer da modernidade!
Tenho a impressão que por muito tempo vamos nos recusar a aceitar o óbvio e o provado (comprovado e vivido): existe uma razão violenta na racionalidade do mundo contemporâneo. Michel Foucault dedicou-se a estudar essa racionalidade, para além das determinações sociopolíticas e estruturais que determinam a violência. Mais uma vez, esta semana fui questionado por uma aluna sobre a questão da violência como fenômeno "normal", se se quiser usar a tipologia de Durkheim. A Escola de Frankfurt através da sua Teoria Crítica, desde os anos 30 do século passado, já denunciava a racionalidade instrumental, que embora permeie modernamente os acontecimentos cotidianos, encontra respaldo maior nos exemplos da violência oficial do Estado. Desde o século XIX, as razões de Estado são as grandes incentivadoras da violência; desde que governar se tornou administrar o Estado e fazê-lo subsistir política e economicamente, é dele que demanda o grande exemplo de uma razão que faz da violência "banalidade" e "normalidade". Evidentemente colocar a violência como fenômeno excepcional, de indivíduos excepcionais, excluídos e doentes, é descartar essa racionalidade estatal moderna violenta e remeter insistentemente as causas da violência moderna às questões de estrutura socioeconômica e às patologias dos agentes sociais. Difícil é, como sempre foi, aceitar que a causa maior é a racionalidade estatal moderna e os mecanismos capilares de disciplina e saúde social: eles fomentam e dão exemplos das formas tecnocratas de obter sucesso e sobrevida em um mundo desencantado. Não há dúvidas que as promessas não cumpridas da revolução burguesa e industrial do século XVIII, ainda não realizadas para gigantescos contingentes de massas humanas falidas, são incentivadoras e jogam lenha permanente na fornalha que aquece os caldeirões da banalidade do mal. Aliás, essa tese é mais de Merton do que do próprio Durkheim: o que Merton soube levar adiante foi a conseqüência da falência da solidariedade proveniente da moderna divisão social do trabalho, como Durkheim conceituou. A divisão social do trabalho integra os indivíduos ao corpo social pelo papel produtivo útil que podem desempenhar de forma especializada no âmbito da produção industrial moderna - a Solidariedade Orgânica de Durkheim. Assim, aquele que não obtiver um papel de utilidade nos mecanismos tecno-industriais modernos já se encontra excluído socialmente, porque esse individuo não terá condições de receber pagamento pela troca do produto de seu trabalho. Este tipo de exclusão é estrutural, por assim dizer, e só se intensificou nos séculos XIX e XX, pois faz parte daquilo que Marx chamou de transformação de "trabalho vivo" em "trabalho morto" como lógica do sistema de mercado. Acontece que a mesma falência de solidariedade e os mesmos problemas de desemprego estrutural se verificaram nos países de economia planejada; podemos dizer que nesses países também a falência econômica se instaurou fortemente e que a mesma deficiência na inclusão produtiva motiva a violência em sociedades que não adotavam as leis de mercado. Mas então, entre as classes média e rica dos paises capitalistas, a violência praticada, desde as mais cruéis práticas de assassinato e extorsão até uma série de outros comportamentos doentios, não deveria se verificar em índices tão altos, compatíveis com os indicados nas camadas mais baixas da população. Não é isso o que acontece. A verdade é que pobreza não é sinônimo de bandidagem, e riqueza e oportunidades sociais, como escola, não são por si só garantidoras de boas ações. Aliás Aristóteles já dizia que o conhecimento era fundamental para enriquecer o espírito humano, mas que a opção pela verdade e pelo bem sempre seriam a última palavra livre de cada cidadão. E o pior cidadão era aquele que tendo tido essas oportunidades não se dedicava ao bem e a compartilhá-lo com os demais cidadãos. Minha aluna era isto que defendia com muita propriedade. O que acontece, porém, é que ninguém parece querer mais fazer essa opção pela decência! Sem querer me estender demais, a verdade é que ninguém é mais livre o suficiente para fazer opções, menos ainda a que recusa a violência (o plebiscito sobre as armas que o diga...)! Por isso precisamos aprofundar nossa atual razão de ser: existe algo mais sutil e mais precioso nesta questão da violência "normalizada" e "normatizada". Existe algo que em última instância alimenta a racionalidade do mal e a violência oficial e não oficial: o fracasso da solidariedade humana (algo que é mais forte entre os vírus e os micróbios, justiça seja feita a Nelson Rodrigues). A solidariedade é tanto mais profícua e efetiva quanto mais existe a responsabilidade coletiva e individual, pública e privada, de chamar a tarefa de se importar com os outros e lhes imprimir a marca da moral e da decência. Como fazer isto? Dar de comida e assistir os excluídos? Infelizmente não é fácil assim! Se fosse não teríamos chegado ao estágio de banalidade do mal em que estamos mergulhados! Por exemplo, as sociedades pré-industriais exerciam uma coerção forte sobre seus agentes sociais através das tradicionais instituições de controle como a família, a igreja e a escola. Na sociedade industrial moderna essas instituições perderam poder, e o saber da integração social passou para a racionalização economicamente planejada do Estado. Então, este não só passou a exercer seu poder disciplinador em suas instituições a autarquias, nos departamentos de serviços públicos, escolas, hospitais, prisões, casas de correção, etc, como invadiu o domínio do privado, e em troca de benefícios financeiros e de prestigio, lhes oferece uma racionalidade tecnocrata disciplinar. Este tipo de violência moderna é que sutilmente, imperceptivelmente, acaba por dar o exemplo de uma sobrevivência sem valores éticos submetendo todos e tudo à lógica da sobrevivência e conseqüente banalidade do mal. Obviamente - e isto é que escapa às grandes massas e aos especialistas tecnocratas -, ninguém quer voltar para as condições educacionais e de inclusão social pré-industriais (a Solidariedade mecânica de Durkheim)! Como não existe saída nesta lógica do mundo tecnocientífico da modernidade e pós-modernidade, as pessoas, ao se sentirem sem vida e sem liberdade tendem mais e mais a reforçarem as atribuições do Estado e suas pretensas responsabilidades; isto é o que o poder e as linhas de comando precisam para se fortalecerem sempre mais em nome de uma pseudo-segurança e pseudo-felicidade que jamais chegará. A razão moderna de viver pela tecnociência burocrática das instituições públicas e privadas, onde de fato a desconsideração da vida humana reduz-nos a corpos produtivos-consumistas, é que reelabora permanentemente a violência como fato social normal; o fracasso da solidariedade humana e as estruturas de trabalho modernas não deixam de sustentar essa pérfida realidade!
jmsr/
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