Título:
Longitude Devoção
Ficwriter: Kaline Bogard
Classificação: yaoi, angust, crossover com Glühen
Pares:
AyaxYohji
Resumo: Quando é preciso enfrentar a dura realidade e se descobre
que não existe meio termo.
<<CAPÍTULO – 02: Abismo>>
(Aya irritado) Não diga tolices. Doença de Alzheimer atinge apenas os velhos.
O líder da Weiss foi o primeiro a sair de seu estupor, e reagiu de maneira agressiva àquilo que julgou quase uma ofensa a ele e seu amante, que alias, estava tão assombrado que havia perdido a voz.
A médica ajeitou os óculos na ponta do nariz.
(Doutora) Garotos, estou assustando vocês. Sinto muito, é o meu lado ‘médica’ que sempre fala mais altos em casos assim. Fujimiya, na natureza, água é apenas água... vento é apenas vento. Mas os dois juntos criam uma tempestade... ou um maremoto. Na medicina, esses esquecimentos insignificantes, pequenas distrações e confusões podem ser estresse, cansaço emocional, ou mesmo inicio de depressão. A falta de vitamina, como já disse, pode ser uma alimentação insuficiente. No entanto quando esses sintomas se unem...
(Aya) E o fator idade?! Yohji tem apenas 21 anos. Não acha jovem demais para desenvolver essa doença?
O ruivo ainda estava inconformado com aquele absurdo. Sabia um mínimo sobre DA pra questionar a opinião daquela profissional.
(Doutora) Alzheimer é um mal de grande incidência entre idosos. Isso é inegável. Porém não é uma doença exclusiva de ‘velhos’. Ela tem se manifestado em pessoas cada vez mais jovens. Segundo meu marido, no ano passado milhares de pessoas entre 35 e 50 anos desenvolveram a patologia. E esse ano, eu sei que meu esposo acompanha dois casos de Alzheimer que chamam a atenção: um rapaz de 32 anos, e um de 28 anos.
(Aya)...
Ruivo olhou para o amante, mas Yohji estava muito quieto, aparentemente prestando atenção nas palavras da médica.
(Doutora) Mas, como eu disse, não sou especialista. Não me formei neurologista, apenas troco impressões com meu esposo. Recomendo que façam o MEEM, se o resultado for satisfatório, vocês podem ficar despreocupados. Caso contrário... caso contrário encaminharei Yohji aos cuidados de meu marido.
Enquanto falava, a médica destacava a folha de seu bloco onde escrevera o complexo vitamínico e entregou a Aya.
Os Weiss saíram do consultório em silêncio, assim como fizeram todo o caminho de volta.
Quando chegaram em casa, Ken e Omi se aproximaram querendo saber como fora, mas acabaram se surpreendendo com a gravidade da expressão sustentada pelos justiceiros mais velhos.
(Omi) Yotan...?
(Yohji) Eu vou para o meu quarto.
Praticamente correu escada acima, sumindo das vistas dos três. Imediatamente os caçulas voltaram-se para o líder ruivo.
(Ken) O que houve, Aya? Foi tão grave assim?
Aya não respondeu. Na sua opinião era muito mais importante checar como seu amante estava, conversar com ele e trocar impressões, do que responder ao interrogatório do jovem hacker e do jogador moreno.
(Omi)...
(Ken preocupado) É... acho que foi grave...
Afirmou ao ver Aya se afastando com uma expressão sombria em sua face, segurando fortemente uma pasta azul presa com elásticos.
Ao entrar no quarto do playboy, Aya fechou a porta e encostou-se na folha de madeira, observando enquanto o loiro andava de um lado para o outro, com os braços cruzados, parecendo analisar profundamente alguma questão.
Permaneceu assim por alguns minutos, sendo apenas assistido pelo amante, que não queria quebrar o silêncio estabelecido.
Mas Yohji aparentemente cansou de ficar quieto e voltou-se para Aya.
(Yohji) Aya...?
(Aya) Hn?
(Yohji) E se for... você sabe...?
(Aya)... não é.
(Yohji) Mas e se for, porra?!
Irritado, o playboy sentou-se na cama e cruzou as mãos à frente do rosto, começando a batê-las de leve na testa.
Imediatamente Aya avançou, depositou a pasta sobre o colchão e sentou-se ao lado do amante.
(Aya) Não é.
Yohji prendeu os olhos de Aya nos seus, perscrutando-o com as íris de jade. Pela primeira vez o ruivo viu o medo toldando o brilho no olhar de quem tanto amava. Tentando não se deixar contaminar pelo pânico, o líder da Weiss passou os braços em volta do corpo de Yohji e puxou-o para um abraço apertado, quase desesperado.
(Aya) Não é, Yohji. Não é.
Com alívio quase urgente, o ex-detetive correspondeu ao abraço. Ficou feliz de poder sentir o calor de Aya, que muito mais que uma carícia, era a certeza de que não estava sozinho.
oOo
Os dias seguintes vieram cheios de expectativa e leve receio. Ken e Omi não haviam perguntado mais sobre o que Yohji poderia estar sofrendo, decidiram ser mais conveniente deixar o companheiro se abrir quando achasse melhor.
Yohji, por sua vez, parecia ter se recuperado dos pequenos esquecimentos. A verdade é que ele se policiava com vigilância canina, temendo cometer alguma gafe, e porque sabia que Aya também controlava cada um de seus passos.
O tal teste MEEM estava guardado na cômoda do ruivo, que apenas esperava que Yohji relaxasse, antes de poder aplicar. As palavras da médica estavam gravadas em sua mente, e ele sabia que não adiantava nada aplicá-lo quando seu amante estava em estado total de atenção, e na defensiva contra os sintomas citados por Ame Shiroyama.
Se por um lado, Yohji parecia menos esquecido, por outro seus reflexos se mostravam bem lentos. Já havia quebrado uma quantidade considerável de copos e pratos. E estava naquele exato momento recolhendo os cacos do que um dia fora a caneca preferida de Omi.
Yohji a derrubara enquanto terminava de lavar a louça do jantar.
(Yohji) Sinto muito chibi. Ela me escapou da mão.
(Omi) Tudo bem, Yotan. Só vou querer outra pra compensar.
(Yohji sorrindo) Certo!
(Ken) Desse jeito vamos precisar comprar pratos e copos de plástico.
(Yohji) Vá a merda, Ken!
O moreninho riu um bocado, pela chance de provocar o mais velho. Aya apenas acompanhava a cena sem comentar nada. Porém registrava mentalmente tudo o que acontecia, para depois relatar a médica.
Nesse momento a campainha tocou.
(Ken) Deve ser Manx.
E foi atender a porta.
Preocupado, Yohji engoliu em seco e olhou para Aya. Seria seguro aceitar uma missão naquela situação? Ele não tinha certeza de nada... e não queria colocar o amante e seus companheiros em risco.
Aya entendeu perfeitamente aquele olhar tão significativo. E sabia que enquanto não tirassem todas as dúvidas, Yohji não devia fazer parte de nenhuma ação.
(Aya) Você está fora dessa, Kudou.
(Yohji suspirando) Certo.
(Aya) Eu não farei a missão também.
(Omi)!!
(Yohji) De jeito nenhum! Você tem que aceitar, Aya. Pela sua irmã, e por mim também. Como acha que vou me sentir se recusar uma missão por minha causa?
(Aya) Kudou...
(Yohji suspirando) Vou sair para beber alguma coisa. Faz muito tempo que não tenho ânimo para isso. Preciso relaxar um pouco.
O líder da Weiss pensou por um segundo. Yohji parecia um tanto desastrado, mas isso não queria dizer nada. Talvez a falta de atenção fosse resultado da tensão... sim, talvez Kudou estivesse certo: uma noite de descontração poderia aliviar a tensão.
(Aya) Entendo. Mas tome cuidado.
(Yohji) Claro.
(Omi)...
Sem saber o porquê, Omi acabou se preocupando bastante com o quadro que se desenhava a sua frente. Ignorar os fatos fazia com que o loirinho se sentisse meio excluído, e deduzisse corretamente que somente algo muito grave faria os assassinos mais velhos agirem daquela maneira...
oOo
Depois de se despedir do amante e ouvir várias recomendações, Yohji pegou o carro e dirigiu para uma boate qualquer, onde se sentou ao balcão e pediu um duplo sem gelo, de qualquer coisa bem forte, apesar de não sentir vontade de beber.
Depois acendeu um cigarro e tragou profundamente.
Era muito bom estar longe da vigilância de Aya. Apesar de fazê-lo se sentir mais seguro, era ao mesmo tempo cansativo e estressante.
A cada dia se tornava mais difícil lembrar-se de pequenos detalhes como onde ficava seu quarto... qual das portas fechadas era o banheiro... às vezes até mesmo o nome de Omi e Ken lhe escapava da mente...
E mais difícil ainda era tentar camuflar isso de Aya, porque os sintomas eram assustadores... faziam com que Yohji temesse por sua sanidade... tendo dia após dia a certeza esmagadora de que não estava bem.
Pela primeira vez em muito tempo, o loiro estava com medo do futuro. Ainda mais agora que estava bem com Aya. Que descobrira o lado caloroso que o amante fazia questão de esconder do mundo...
Aquele lado que conquistara definitivamente o coração do ex-detetive.
Que vida injusta! Yohji não queria perder o amor de Aya... não agora! Não se importava com o resto, nem mesmo com sua vida... apenas o sentimento que nutria pelo namorado era forte o bastante para fazê-lo maldizer sua falta de sorte.
Sentindo-se desanimado, o Weiss jogou algum dinheiro sobre o balcão e foi embora sem ter dado nem mesmo um gole na bebida. Era melhor voltar pra casa...
Assim que se sentou atrás do volante, Yohji praguejou baixinho, ao mesmo tempo em que sentia seu sangue gelar.
Pra que lado ficava sua casa mesmo? Para esquerda ou para a direita? Devia seguir reto ou dar marcha à ré?
Não conseguia visualizar o caminho em sua mente, nem mesmo se lembrar o nome da rua, para perguntar pra alguém... céus, estava total e completamente perdido.
Respirando fundo, o Weiss abaixou a cabeça e encostou a testa no volante. O que faria agora? Como voltaria para sua casa? Deveria esperar que a lembrança voltasse? A lembrança voltaria?
Sem ter respostas para perguntas tão simples, o loiro fechou os olhos e fez a única coisa que achou que poderia numa situação daquela...
Desistiu de tentar parecer forte, e chorou.
oOo
A missão fora fácil e bem sucedida, apesar de executada por apenas três dos Weiss.
Quando retornaram, Ken e Omi foram direto para a cama, afirmando estarem muito cansados e felizes por que o dia seguinte era domingo, logo poderiam descasar bastante.
Aya deu uma passada pelo quarto de Yohji. Não estranhou que ele não estivesse voltado, apesar de ser madrugada, geralmente o amante chegava bem tarde mesmo.
Porém quando amanheceu, e Yohji não havia voltado, o líder da Weiss começou a se inquietar.
A primeira coisa que fez foi discar para o celular do namorado. Caiu na caixa de mensagens. Discou mais uma vez, obtendo igual resultado.
Impaciente, desceu para a cozinha, onde encontrou os companheiros já despertos, tomando café da manhã.
(Omi) Bom dia, Aya.
O ruivo não respondeu. Olhou em seu relógio de pulso e saiu pela porta dos fundos, antes mesmo de tomar café.
(Ken) Ele parece irritado...
(Omi) Estou preocupado com esses dois. Alguma coisa está acontecendo, e eles estão escondendo da gente, Ken.
(Ken pensativo) O que pode ser?
(Omi) Não sei... mas parece grave.
(Ken) Eles não têm que esconder nada da gente! Se o Yohji está doente, eu quero saber!
Nesse momento Aya voltou para a cozinha. Fora verificar se o carro de Yohji estava na garagem, ou se havia algum sinal dele, mas o resultado negativo o deixara ainda mais inquieto.
(Ken) Ei, Aya! O que está acontecendo?
O ruivo fez de conta que não ouviu a pergunta. Ia passando pela cozinha, pensando em ligar outra vez para Yohji, quando ouviu o som de cadeira sendo arrastada com força pelo chão. Como um passe de mágica, Ken surgiu em sua frente, cortando-lhe a passagem.
(Aya)...
(Ken) Eu fiz uma pergunta, Aya. O que está acontecendo?
(Aya) Saia da frente, Hidaka.
(Ken) Não!
(Omi) Pessoal, calma...
(Ken) Detesto que escondam uma coisa importante de mim, e a saúde de Yohji é MUITO importante! Quero saber o que é que ele tem!
Impaciente Aya suspirou. Olhou pensativo de Ken para Omi e acabou dando de ombros. Era melhor contar as suspeitas de uma vez, e acabar com o suspense. E talvez ajudasse a se sentir menos apreensivo poder compartilhar aquela angústia com outras pessoas.
Com poucas palavras resumiu a visita à médica.
A cada palavra o assombro era visível nas expressões de Omi e Ken. Logo o moreninho estava tão chocado, que precisou sentar-se novamente.
(Ken) Só pode ser brincadeira...
(Omi) Oh, Aya...
(Ken) Onde ele está?
(Aya) Não sei. Não voltou desde ontem.
(Omi) Liga no celular.
(Aya suspirando) Já tentei. Está desligado.
(Ken) Será que aconteceu alguma coisa grave?
Aya não respondeu a pergunta, deu as costas e foi para a sala pensando em tentar ligar mais uma vez para o celular do amante.
Ken levantou-se de um salto e o seguiu.
(Ken) Vou dar uma volta de moto por aí. Talvez o encontre em algum lugar. Tem alguma boate ou clube em particular que ele possa estar?
(Aya) Não.
Pelo que Aya sabia, Yohji poderia ter ido a qualquer local...
(Ken) Certo. Começarei pelo centro. Depois rodo pelos bairros mais próximos. Talvez ele não tenha ido muito longe.
(Aya) Hn.
Intimamente o ruivo agradeceu a interferência do jogador. O hacker veio da cozinha e parou próximo ao telefone, vendo Ken sair apressado, e Aya discando os números do celular do amante, que sabia de cor.
(Omi) Ele vai voltar, Aya. Tenho certeza de que tudo ficará bem.
Aya olhou para o caçula e apertou os lábios. Queria acreditar naquilo... queria de verdade, mas era muito difícil.
oOo
Apesar dos esforços desmedidos dos Weiss, Yohji só foi dar sinal de vida na quarta-feira pela manhã.
A tensão na Koneko era quase insuportável. Aya parecia mais uma fera enjaulada, tal era o grau de preocupação que o dominava.
Ken não se sentia menos apreensivo. Ele se encarregara das entregas na segunda e na terça-feira, e as fizera na própria moto, usando-a também para dar mais buscas atrás do companheiro desaparecido. Omi trouxera seu laptop para a loja e sempre que tinha uma folga mínima fazia uma operação pente fino na Internet, tentando encontrar alguma pista sobre o paradeiro do ex-detetive. Se ele usasse o cartão de crédito pelo menos...
As clientes freqüentadoras assíduas da floricultura também estavam preocupadas com a ausência do playboy, e enchiam os gatinhos com as mais variadas e curiosas perguntas. E aquele era outro fator que minava a paciência do ruivo...
Aya não saia do lado do telefone, tentando a cada cinco minutos ligar para o celular de seu namorado, que ainda estava desligado.
Por volta das dez horas da manhã, o telefone tocou, e muito irritado, Aya atendeu. Detestava quando alguém ligava para a loja, afinal Yohji podia tentar entrar em contato naquele exato segundo.
(Aya) Koneko. O que quer?! Oh! Yohji!!
Para surpresa do espadachim, era o responsável por sua preocupação que estava ligando. Ao ouvir a exclamação de Aya, Omi pediu licença a uma cliente e aproximou-se do ruivo, entre aliviado e apreensivo.
(Aya) Onde você está, Kudou? Como assim...? Hn... olhe em volta, tem alguma placa que indique que bairro é esse? Não? Então descreva os prédios, diga se há algo incomum...
Por instantes Aya apenas escutou. Depois fechou os olhos, sentindo um arrepio horrível correndo por suas costas.
(Aya) Já sei, é a praça principal do distrito de Shinjuko. Não saía daí, vou buscá-lo imediatamente...
Omi arregalou os olhos. Shinjuko era o pior lugar onde alguém poderia se perder. Foi então que viu Aya franzir as sobrancelhas... em seguida deixou os ombros caírem, como se tivesse sido derrotado. Surpreso, Omi ouviu as palavras seguintes do líder da Weiss.
(Aya) Não, Yohji. Eu prometo que não vou brigar com você. Todos... estavam preocupados... apenas, me espere, está bem?
(Omi) Oh, Aya...
(Aya) Avise a Hidaka. Vou buscar Kudou agora mesmo.
Omi assentiu e não disse nada. Estava realmente feliz porque Yohji voltaria para casa.
oOo
Aya chegou a praça em Shinjuko e encontrou uma vaga para estacionar seu carro. Assim que desceu do automóvel, os olhos vistoriam o local em busca de seu amante. Não o viu.
Decidiu-se por dar uma volta, olhando com calma. Foi caminhando devagar, mas atento, pois a praça em questão era grande, mas não muito. E estava um tanto vazia àquela hora.
Quase dera uma volta completa quando o viu. Yohji estava sentado num dos bancos, meio inclinado para frente, com os braços apoiados nas pernas. Como se sentisse a presença do amante, ergueu a cabeça e descobriu Aya, passando a fitá-lo com as intensas íris de jade.
O ruivo engoliu em seco. Tinha um monde de perguntas prontas para despejar sobre o mais velho. Queria indagar onde ele estivera, se alimentara-se direito, o que havia acontecido... mas tudo desapareceu de sua mente, quando se viu preso pelos olhos esmeraldas, que refletiam um alívio tão grande, que amoleceu o coração do líder da Weiss.
Suspirando, Aya avançou e sentou-se ao lado do loiro.
(Aya) Você está bem?
(Yohji) Um pouco cansado... sujo e com fome... mas acho que sim...
(Aya) Yohji...
(Yohji sorrindo) Acredito que não bebi nada... não estou de ressaca... e meus cigarros estão todos no bolso... a não ser que eu tenha comprado um outro maço...
(Aya) Onde você esteve?
(Yohji) Desculpe, Aya. Mas não me lembro... não lembro de nada na verdade. Só que de repente estava aqui... nessa praça... não sei o que eu fiz, por onde andei... mas... fiz algo muito ruim...
(Aya)...
Ao ouvir a afirmação, Aya sentiu o sangue gelar nas veias. O que poderia ser aquele ‘algo ruim’...?
(Yohji sem graça) Eu não acredito que tenha feito isso... você vai me matar quando souber...
(Aya sério) Não, Yohji, eu não vou matá-lo.
(Yohji desconfiado) Sei não... jura?
(Aya) Juro. O que você fez de errado?
(Yohji) Não lembro onde... porque ou como fiz isso... mas... fiz...
Enquanto falava, o loiro olhava meio ressabiado para os lados, como se temesse alguma coisa. Depois olhou para Aya e lentamente foi erguendo a camisa preta, segurando-a com a ponta dos dedos.
(Aya) Céus!
O ruivo arregalou os olhos ametistas, enquanto sentia a lividez dominar sua face. Observou o tórax magro, mas firme de seu amante, e descobriu que Yohji havia feito uma grande e horrível tatuagem no peito. Uma tatuagem escarlate, que tinha a forma de uma cruz, e fora pintada em sentido diagonal, cobrindo grande parte da tez branca.
Fechando os olhos e respirando fundo, Aya decidiu que era hora de marcar uma consulta com o neurologista...
oOo
(Aya) Como ele está?
A pergunta foi dirigida a Omi. O loirinho descia as escadas devagar, vindo do quarto do playboy.
(Omi) Dormindo.
(Ken) Merda. Que susto deu na gente!
Ken e Aya estavam chegando nesse exato momento. A verdade é que Aya havia largado o carro do amante em Shinjuko, já que não confiava em deixar Yohji dirigir sozinho. Voltara com o loiro no próprio carro, e depois levara o jogador ao local, para que Ken dirigisse o carro de Yohji.
Aya desviou os olhos da figura do chibi e não disse mais nada. Subiu em direção aos quartos, deixando Ken e Omi sozinhos.
(Omi) As coisas vão piorar, não é, Ken?
O moreninho estendeu a mão e tocou os fios de cabelo loiro.
(Ken) Sempre pioram, Omi. Sempre pioram antes de melhorar...
O hacker abaixou a cabeça, se questionando intimamente, como as coisas poderiam melhorar naquele caso...
Entrementes Aya chegava ao quarto do amante, e com suavidade abria a porta. Invadiu o local, satisfeito por que o carpete abafava seus passos.
Pôde comprovar o que Omi dissera: Yohji estava mesmo profundamente adormecido, vestia o pijama cinzento e estava parcialmente coberto com um edredom branco.
(Aya)...
Sentindo um nó na garganta, o ruivo aproximou-se e sentou-se com cuidado sobre o colchão. Começou a analisar a face de seu amante.
Franziu as sobrancelhas ao notar a palidez da pele perfeita. Não, não era um sintoma. Yohji já era mesmo um tanto pálido. Não tanto quanto o líder da Weiss, mas era.
Por um segundo achou que o loiro parecia mais magro que o normal... mas no instante seguinte afastava aquela idéia quase com irritação. Yohji, com certeza, era o mais magro dos quatro. Sempre fora.
Tudo aquilo devia ser reflexo da preocupação que dominava o coração de Aya. Entendia muito pouco da doença de Alzheimer, mas o pouco que sabia era suficiente para fazer seu coração doer e ficar pequenino.
Uma nova ameaça surgira em sua vida. Como uma sombra de mau agouro.
Sabia que usava uma máscara... tentara se proteger, escondendo seu verdadeiro ser por detrás de uma fachada de gelo e indiferença, julgando que seria o suficiente para manter as pessoas afastadas.
Acreditara verdadeiramente que se tornar Aya impediria um novo sofrimento. Impediria seu coração de estar exposto e vulnerável...
Como estava enganado! Aparentemente nem toda a rudeza de que era capaz se mostrara suficiente para impedir o jeito despojado e irreverente de Yohji, de chegar ao mais profundo da alma de Aya e tocá-la de uma forma que ninguém jamais fora capaz.
Yohji conseguira despertar sentimentos que um dia Aya julgara completamente exterminados de seu ser. Sentimentos que permaneciam apenas adormecidos...
Sentimentos que nunca foram confessados.
O espadachim tomara a cuidadosa providência de jamais deixar escapar uma palavra. Nunca exprimir em voz alta o amor que ameaçava sufocá-lo tamanha era sua força... seu poder.
E apesar de abster-se de criar laços... ali estava uma nova ameaça ao seu coração. Mais uma vez Aya teria de sofrer... de enfrentar a dor...
Não deixar Yohji saber de seus reais pensamentos não o protegera. Na verdade nunca o protegeria. Aya só começava a enxergar a fragilidade de sua máscara naquele momento. Quase podia rir de si mesmo, se tivesse um pouco mais de coragem...
Num movimento mais instintivo que planejado, Aya estendeu a mão e gentilmente afastou uns fios de cabelo que cobriam a face de Yohji, colocando-os atrás da orelha do amante.
Enquanto fazia aquilo Aya maldisse à vida, por ela ser tão injusta, amaldiçoou o destino, por lhe apunhalar tantas vezes. E amaldiçoou Yohji, por que apesar de não ter culpa, o loiro seria o responsável por tão grande sofrimento na vida do líder da Weiss.
Foi então que Yohji despertou ao sentir o toque de Aya. Os olhos verdes se prenderam nas íris ametistas, arrastando-as para a imensidão de jade.
Aya trincou os dentes e recuou a mão, como se tivesse levado um choque.
Entendeu o que fazia: culpava Yohji por sua própria covardia... jogava toda a culpa em cima do amante... apenas para se livrar da dor! Tentava colocar aquela máscara de egoísmo em sua face, porque temia ficar exposto... por que a frieza, sua então grande característica, estava se derretendo... se partindo em mil pedaços!
Mas não era justo. Não era justo com o loiro. Porque Yohji não tinha culpa. Não fazia de propósito... muito menos fora planejado.
Usando toda a sinceridade de que era capaz, Aya forçou-se a encarar a verdade: seu amante devia estar sofrendo muito também. Experimentava um tipo de angústia que Aya jamais sentiria. E agindo daquela maneira mesquinha, o ruivo tirava-lhe o único apoio...
Sim, porque sabia que o ex-detetive não tinha mais ninguém, além do namorado ruivo.
Suspirando, Aya decidiu que era hora de deixar a hipocrisia de lado. Por mais difícil que fosse se expor e abrir seu coração. Bastava de se proteger. Entendia melhor do que ninguém que não tinha necessidade de se proteger de Yohji... principalmente naquela situação.
Decidido, Aya admitiu que era a hora de enfrentar a verdade.
(Aya) Yohji... eu amo você.
A declaração soou exatamente como era: simples, mas verdadeira.
(Yohji)...
(Aya) Não está sozinho nessa. Você tem a mim.
O loiro mordeu o lábio inferior, e imediatamente os belos olhos se marejaram. Porém antes que as lágrimas rolassem, Yohji puxou o edredom e cobriu-se todo com ele, escondendo-se dos perspicazes olhos de Aya.
O ruivo virou o rosto, entendendo perfeitamente aquela reação. A emoção do outro era a resposta mais marcante que poderia obter. E apesar de sentir um nó na garganta, Aya não permitiu que seus olhos nem mesmo marejassem.
Yohji estava fraquejando...
Um dos dois precisava ser firme, e forte naquela situação. E Aya jurou pra si mesmo que seria forte. Seria forte por ele, e pelo ex-detetive.
oOo
Com total desinteresse, o Weiss mais velho folheava uma revista qualquer, correndo os olhos pelas páginas sem se prender a nada. Sentado ao seu lado, Aya permanecia de braços cruzados e olhos fechados. A pasta azul dada pela médica permanecia na poltrona, ao lado do ruivo.
Ambos estavam novamente na clínica, aguardando que o doutor Shiroyama os atendesse. Como era um encaminhamento feito pela própria esposa, o neurologista dera prioridade ao caso, e já que a consulta fora marcada de forma rápida, Aya desistira de fazer o MEEM e deixara por conta do doutor aplicá-lo.
(Recepcionista) Senhor Kudou... o médico vai recebê-lo agora. É o consultório em frente ao da doutora Shiroyama.
(Yohji sorrindo) Obrigado.
Aya olhou a cena e torceu os lábios de leve. Dentre as muitas coisas que o amante esquecera, ser charmoso era algo que com certeza não fora apagado de sua mente...
Lado a lado se encaminharam à sala onde o neurologista atendia. Depois de dar uma batida na porta fechada, Yohji entrou, seguido pelo ruivo.
A sala era quase idêntica a da clínica geral. Tinha os mesmos móveis grandes e caros, as poltronas confortáveis e escrivaninha cheia de objetos meticulosamente arrumadas.
O médico ajeitou alguns papéis sobre a mesa e fixou os olhos azuis sobre os recém chegados. Analisou-os com detalhismo quase irritante, antes de indicar que deveriam sentar-se.
(Doutor) Bem vindos. Você deve ser Yohji Kudou, não é?
(Yohji) Sim. E este é Aya Fujimiya.
O médico balançou a cabeça e rabiscou algo num papel. O rosto anguloso parecia talhado em granito e não deixava transparecer nenhum de seus pensamentos.
Calmamente o doutor abriu uma gaveta e pegou um prontuário.
(Doutor) Minha esposa me passou os autos do caso e me encaminhou sua ficha, senhor Kudou. Devo dizer que acho sua atitude preventiva extremamente importante.
Yohji balançou a cabeça concordando. Apesar do jeito formal, decidiu que gostava daquele médico.
(Doutor) Antes de mais nada, vou esclarecer o que é exatamente a DA. Alzheimer é uma patologia extremamente degenerativa, que age de forma progressiva agredindo as células cerebrais. A degeneração é tão grande e significativa que afeta a memória causando sua diminuição, obstruindo o raciocínio e alterando o comportamento do paciente.
(Yohji) Oh...
O médico voltou-se para o loiro e olhou-o com muita seriedade.
(Doutor) Gosto muito de dar um exemplo, Kudou. Veja, seu cérebro é como uma daquelas cidades do velho oeste, perdida no meio do deserto. E DA é um pistoleiro que chega na cidade pensando em assaltar o banco. Porém entre o bandido e o dinheiro, existem os cidadãos, que são suas células cerebrais. Ora, pra chegar ao alvo o pistoleiro precisa destruir um a um de seus neurônios.
Yohji afundou-se na cadeira. Apesar de meio tosco, a parábola dera uma visão bem clara do que podia estar acontecendo com ele...
(Aya) Isso tem cura? Tratamento?
(Doutor) Infelizmente não tem cura. Não é passível de operação. E o tratamento apenas atenua as seqüelas. Podemos fazer exames complementares e acompanhar passo a passo...
(Aya) DA não é uma doença de velhos?
O ruivo ainda tentava agarrar-se aquela explicação. Parecia inconcebível imaginar que o loiro tão jovem, na flor da idade fosse acometido por uma enfermidade tão terrível.
(Doutor) Essencialmente. Porém a cada ano pessoas mais e mais jovens tem sendo vitimadas por DA. O caso mais chocante foi uma progressão não documentada em uma jovem de 24 anos.
(Yohji) Jura?
(Aya) Não faça isso, Kudou.
Então o médico voltou-se para Aya, concentrando seu olhar grave no líder da Weiss.
(Doutor) Fujimiya, não faça isso.
(Aya)!!
(Doutor) Asseguro que Kudou não tem o propósito de irritar. Pelo contrário. Depois de acompanhar dezenas de casos de DA, posso afirmar que perder lembranças importantes e a própria personalidade pode ser assustador. Em muitos casos a auto defesa encontrada pelos pacientes é uma forma de ironia.
(Aya)...
(Yohji) Jura? Desculpe...
(Doutor) Os motivos que fazem Alzheimer se desenvolver são os mais diversos, e nem todos são aceitos totalmente na neuropatologia. A grande maioria dos médicos entra em desacordo quando o assunto é DA. Alguns defendem a tese do estresse e vida atribulada. Outros acham que é fator genético pré-determinado. Alguns especialistas canadenses estão estudando uma tese ligada à exposição ao alumínio... o importante nisso tudo é que idade deixou de ser o fator fundamental nos casos de DA.
(Aya) Não sabia disso.
(Yohji) Nem eu.
(Doutor) Não me surpreende. Por isso DA é chamada de “epidemia silenciosa”. Ela age nas sombras, e não causa estardalhaço com seus sintomas, pois os mais afetados, além do paciente, são as pessoas que convivem com ele.
(Yohji) Oh!
O loiro olhou para seu amante, mas Aya não disse nada.
(Doutor) Alzheimer se divide em quatro fases: inicial, intermediária, final e terminal. É fundamental, se comprovarmos o seu desenvolvimento, definirmos em qual fase o paciente se encontra, para evitarmos todos os tipos de complicação.
(Aya) Kudou fará exames?
(Doutor) Certamente. Apesar de nenhum deles ser conclusivo. Bem, qual você diria que foi o acontecimento mais marcante dos últimos dias?
Aya e Yohji se entreolharam. O ruivo respirou fundo, ele sabia que seria difícil, mas precisava contar tudo o que acontecera de domingo à quarta-feira para ajudar na determinação do quadro geral do ex-detetive.
Ao fim da narração, o doutor Shiroyama estava mais sério e mais tenso do que em qualquer outro momento. Calmamente massageou o queixo, antes de se pronunciar.
(Doutor) Uma confusão memorial tão pronunciada, dificuldades motoras e repetição de falas são características da fase intermediária...
(Yohji)!!
(Aya) Mas... como?! Como é possível que passe da fase inicial para a intermediária em tão pouco tempo?
(Doutor) Ah, não é tão pouco tempo. Com certeza Kudou já vem mostrando pequenos sintomas de Alzheimer há mais tempo, há um tempo considerável. Porém pacientes com intelecto mais elevado conseguem camuflar mesmo que inconscientemente esses sintomas, o que dificulta bastante a prevenção de complicações.
(Yohji) Céus...
(Aya) Um caso não documentado de Alzheimer aos 24 anos...? O que exatamente quis dizer com ‘não documentado’?
(Doutor) Bem, não vejo por que fazer rodeios diante de um quadro como o que Kudou apresenta. Todos os médicos concordam em um ponto: quanto mais cedo a DA se manifesta, mais rápido se dá o desenvolvimento das fases.
(Yohji) Oh! Então... aquela garota...?
(Doutor) Seu cérebro se degenerou tão rápido que não foi possível documentar o caso(1).
(Yohji)!!
(Aya) Quanto tempo?
(Doutor) Esse é outro fator relativo. Cada caso é um caso, e não oferece base para o acompanhamento de...
(Aya) Quanto tempo?!
O ruivo cortou a nova explicação de maneira exasperada. Tinha que saber o que estava enfrentado, pois havia muito em jogo ali.
Ao ver a determinação endurecer as feições de Aya o doutor Shiroyama suspirou e passou a língua pelos lábios.
(Doutor) No caso dela, aproximadamente dois anos. Usando esse tempo e a idade em proporção, e aplicando ao caso de Kudou, se realmente for comprovada a patologia, eu diria que um ano e meio seria o limite para que atingisse a fase terminal. Calculando como se a DA tivesse se manifestado hoje. Se formos excluir o tempo em que ela realmente surgiu, eu diria um pouco menos de um ano e meio.
(Yohji)...!
(Aya) Impossível!
O assombro dos amantes não teve medida. Apenas um ano e meio?! De repente foi como se o céu desabasse sobre suas cabeças.
(Doutor) Eu disse que cada caso é um caso. Sei de casos de DA que se estenderam por mais de 20 anos. É impossível tomar por base fatos semelhantes. Principalmente quando se manifesta em uma pessoa tão jovem.
Totalmente desanimado, Yohji abaixou a cabeça e perdeu o interesse na conversa. Aquele médico acabara de lhe dizer que muito provavelmente morreria em menos de um ano e meio... sentia-se completamente arrasado em seu íntimo.
Não mesmo angustiado, Aya passou a mão pelos fios ruivos.
(Aya) Você diz que não tem cura?
(Doutor) Infelizmente não.
(Aya) Céus...
Então os olhos azuis de Shiroyama se fixaram na pasta que Aya segurava com a outra mão.
(Doutor) Isso é...
(Aya) A pasta que sua esposa nos deu. Não apliquei o MEEM em Kudou.
(Doutor) É uma ótima oportunidade agora.
Sem falar nada o líder da Weiss estendeu a pasta para o médico que a pegou e a abriu, retirando duas folhas de seu interior. Depois voltou-se para Yohji e suavizou sua expressão.
(Doutor) Kudou... eu gostaria de aplicar o MEEM em você agora. Tudo bem?
O loiro deu de ombros, como se aquilo não fosse importante. Ele não precisava de nenhum teste para saber que estava ferrado.
Yohji tinha uma grande cruz vermelha em seu peito, marcante o suficiente para saber que seu cérebro já não era mais confiável. Estava em estado de degeneração e logo, logo...
(Aya) Yohji...
Ouvindo o chamado do amante, o ex-detetive ergueu a cabeça e fitou o médico.
(Yohji) Está bem.
(Doutor) Ótimo...
Pegou uma folha em branco, onde anotou o nome de Yohji, e onde anotaria todas as respostas que lhe seriam dadas.
(Doutor) Em que dia, mês e ano estamos?
(Yohji sorrindo) Ora, 06 de maio.
Aya quase suspirou. Então AQUELE era o tal MEEM? Patético...
(Doutor) Ótimo. E o ano?
Yohji franziu as sobrancelhas.
(Yohji) Ano?
(Doutor) Sim. Estamos em 06 de maio de que ano?
Como se buscasse ajuda, o playboy voltou os olhos para Aya, mas o espadachim não disse nada. Vendo-se sem saída, resolveu arriscar um chute, já que não conseguia se lembrar em que maldito ano estavam.
(Yohji) 1996...?
(Aya)!!
O médico balançou a cabeça e anotou algo na folha. A situação estava pior do que imaginara...
Continua...
(1) De acordo com as pesquisas, o caso não documentado foi de uma pessoa de 28 anos. Eu apenas reduzi em 04 anos para ficar mais plausível o enredo dessa fic.