Título: Longitude Devoção
Ficwriter: Kaline Bogard
Classificação: yaoi, angust, crossover com Glühen
Pares: AyaxYohji
Resumo: Quando é preciso enfrentar a dura realidade e se descobre que não existe meio termo.

 

Longitude Devoção
Kaline Bogard

 

 

<<CAPÍTULO – 01: A beira do abismo>>

 

Como um caçador a espreita, Aya vigiava aquele galpão aparentemente abandonado.  Estava no meio de uma arriscada missão: a Weiss invadia o esconderijo de alguns traficantes de drogas.

As ordens eram as mesmas.  Entrar, matar os inimigos, destruir todos os entorpecentes e sair.

Os justiceiros se separaram de acordo com o plano pré-concebido e estudado detalhadamente, e esperavam apenas que os quatro estivessem em posição para iniciar o ataque.

(Omi) Abyssinian... estou em posição.

(Aya) Entendido.

(Ken) Também estou pronto.

Faltava apenas Yohji.

(Aya) Balinese, está preparado?

Silêncio.

(Omi) Balinese...?

Novamente a única resposta foi o silêncio.

Imediatamente os três ficaram tensos.  Aquela falta de pronunciamento devia ser um sintoma indicando que algo acontecera...

Tentando não deixar se dominar pelo nervosismo, o líder dos assassinos organizou seus pensamentos de maneira lógica.  Deviam continuar com a missão, e descobrir assim, se algo realmente acontecera com o ex-detetive.

(Aya) Bombay, Siberian... prosseguir com o plano.

(Omi) Mas... entendido...

(Ken) Ok!

Os quatro avançaram.  Invadir o galpão foi fácil.  Em pouco tempo haviam dominado o local, e eliminado todos os inimigos, que estavam despreparados para uma investida daquelas.  Na verdade eram bandidos pé rapados, que tentavam aumentar sua área de atuação e só agora chamavam a atenção da Kritiker, devido o modo desordenado que agiam.  E graças aos Weiss, não conseguiriam realizar sua intenção.

Apesar da facilidade da vitória, os justiceiros não se sentiram nem um pouco satisfeitos.  Ali dentro não havia nem sinal do playboy.

(Aya) Siberian, vá olhar do lado de fora.

(Ken) Certo!

O jogador saiu apressado, indo cumprir as ordens do líder.  Enquanto Aya e Omi vistoriavam cada repartição do grande galpão abandonado.

(Omi pensativo) Não há sinais de luta...

(Aya) Hn...

(Omi) Nós os pegamos de surpresa, ou seja, Balinese não os alertou... estranho.

(Aya) É óbvio que ele não entrou aqui.

(Omi) O que faremos?

O ruivo não respondeu.  Deu as costas ao loirinho, e afastou-se com intenção de ir atrás do jogador moreno.

Lá fora, Ken revistava as proximidades, parecendo desanimado.

(Ken) Nada.  Nem sombra dele... e o carro não está no local que combinamos...

Interrompendo a frase, Ken ficou sério.  Concluiu a mesma coisa que Aya e Omi: se não havia sinal do ex-detetive nem dentro, nem fora do galpão, e seu carro sumira... só podia significar uma coisa: Yohji se fora.  Abandonara uma missão antes do fim, e sem comunicar seus parceiros!

(Aya)...

Muito irritado, o ruivo apertou o cabo da katana entre os dedos usando mais força do que seria necessário, sua face estava lívida, e os olhos violeta brilharam intensamente.  Como Yohji tivera tamanha coragem?

Ken e Omi se entreolharam sem dizer nada.  Com certeza o playboy estava enrascado... e não era pra menos...

oOo

Yohji acordou sobressaltado com o barulho da porta sendo batida.  Deu um pequeno pulo de susto, sentindo-se tonto por causa do cochilo.

(Yohji) Quem é o engraçadinho que...

Calou-se ao dar de cara com seus três companheiros.  E os três pareciam muito irritados... o olhar de Aya sobre ele era no mínimo intimidador.

(Ken) Yohji, seu folgado!  Não acredito que você está aí, babando no sofá!  Deixou a gente preocupado!

(Yohji)...

(Omi) Abandonar uma missão pela metade é muito grave!  Você nos largou na mão dessa vez.

(Yohji) Do que estão falando?

(Aya) Não se faça de bobo, Kudou.

O loiro endireitou-se na poltrona sentindo-se extremamente ofendido.

(Yohji) Vocês estão falando daquela missão que eu RECUSEI?  Porque se for, acho que vocês tiveram um encontro não programado com Schuldig.

(Aya)...

(Omi)...?

(Ken)...!

(Yohji) He, eu sabia.  Vocês estavam caçando traficantes, não é?  Que eu me lembre, descartei essa missão... imagina se o papai aqui ia ficar correndo atrás desses iniciantes?

O playboy foi tão veemente na afirmação que fez os acusadores se entreolharem.  Poderiam ter caído num truque dos Schwarz?  Isso explicaria muitas coisas... mas nesse caso, qual seria o objetivo dos inimigos?

Talvez jogar uns contra os outros.

(Omi) Acho que... julgamos apressadamente...

(Yohji) Ah, tá... e o loiro que paga o pato.

(Ken) Qualé, Yohji.  Se foi um truque de Schuldig, somos tão vítimas quanto você...

(Yohji) Ok, Ken.  Não se justifique.

(Omi) Mas Yohji merece nossas desculpas, Ken.  Devíamos perguntar antes de acusar...

Ken fez uma careta e resolveu sair dali.  Se insistisse no assunto, os quatro acabariam brigando mais a sério.

O chibi resolveu seguir o exemplo do jogador.  Lançou um olhar indecifrável ao ex-detetive e afastou-se, preocupado com o que escreveria em seu relatório a Kritiker.  Colocaria aquele incidente como um erro do Weiss mais velho ou deveria descrever uma artimanha dos Schwarz?

Realmente Omi não sabia...

Assim que ficaram sozinhos, os amantes trocaram um olhar cheio de significado.

(Aya)...

Bem que o ruivo queria pedir desculpas, por ter agido de forma tão precipitada, julgando antecipadamente que Yohji era culpado de algo que se mostrava confuso e duvidoso.  Mas quem disse que era fácil enfrentar aquelas belas íris esmeralda, tingidas de reprovação?

(Yohji) Ah, entendi.  O seu ‘sinto muito, Kudou’ entrou pra história, né?

(Aya suspirando) Yohji...

(Yohji) Quer saber?  Pega as suas desculpas e enfia... mas enfia bem fundo.  E contente-se em dormir sozinho hoje.

O playboy saltou do sofá e tomou a direção das escadas.  Pretendia trancar-se no próprio quarto e amargar aquelas acusações injustas fumando alguns cigarros...

Aya apenas acompanhou aquela fuga com os olhos ametista brilhando de confusão e dúvida.  Seu amante vestia uma calça azul de flanela, que sempre usava para dormir... parecia realmente estar cochilando... mas então, nesse caso...

Os olhos desviaram-se para o chão, onde ao lado do sofá, estava caído o inseparável óculos de sol do playboy... claro que aquilo não queria dizer nada, porém Aya sentiu que algo não se encaixava naquela história.  Seu instinto gritou, alertando-o para alguma coisa inexplicável...

E o ruivo jurou a si mesmo que se manteria atento.

Suspirando, conformou-se em ter de passar aquela noite sozinho...

oOo

No outro dia, Yohji não parecia mais tão chateado.  De vez em quando fazia um bico irritado, ao se lembrar da noite anterior, e era só.

Ken acabara por se desculpar com o Weiss mais velho, assim como Omi, que relatara o incidente da missão como um confronto inesperado com Schuldig.

Aya também pensara em se desculpar, mas acabara mudando de idéia.  Suas boas intenções poderiam ser erradamente interpretadas pelo amante, e com certeza o líder da Weiss não queria mais ceninhas.

Era dia de Ken fazer entregas, porém os pedidos estavam devagar e raros.  Havia apenas uma encomenda grande, para ser entregue depois do almoço.

(Ken) Esse aqui vai pra um casamento.  Vou caprichar bastante.

(Yohji) Precisa de ajuda aí?

(Ken surpreso) O que?!  VOCÊ está MESMO oferecendo sua ajuda?

(Yohji) Retiro a oferta.  Depois dessa...

(Ken)...

(Omi) Boa tarde!

O chibi chegou todo animado da escola.  Em pouco tempo estariam chegando as férias de julho, e ele precisava desse descanso.  O jovenzinho passou correndo pela floricultura, pensando em trocar de roupa e começar a preparar o almoço antes de vir ajudar na Koneko... mas então freou bruscamente e voltou-se para Yohji.

(Omi) Yotan, olha só o que estava na caixinha do correio.

(Yohji) O que é?

(Omi) Acho que é a prestação do seu carro.  A segunda via, pelo remetente...

(Yohji surpreso) Segunda via?!  Que porra!

(Ken) Você não pagou a conta?

O loiro franziu as sobrancelhas estranhando aquele fato.

(Yohji) Impossível.  Eu uso o débito automático... nunca ia esquecer de pagar!

E o playboy tomou a conta da mão do hacker, rasgando o envelope e lendo seu conteúdo avidamente.

(Aya)...

O ruivo não disse nada.  Com certeza seu amante desligado se esquecera de um outro fato importante, e foi Ken a pessoa a comentar isso.

(Ken) Yohji, você não mudou de banco?

(Yohji) É... o outro tinha umas taxas muito altas... agora é bem mais moderado.

(Omi sorrindo) E você se lembrou de ativar o débito automático...?

(Yohji)... porra...

(Ken) Acho que isso é um ‘não’...

O playboy suspirou e passou a mão pelos cabelos.

(Yohji) Preciso dar um pulo no banco.  Olha, eles vão cobrar uma taxa de inadimplência e juros de seis porcento ao dia!  Que facada!

(Ken) Ué, então aproveita pra entregar o arranjo.  Quebra esse galho pra mim.

(Yohji) Eh, ta abusando, hein?  Vai ficar me devendo uma...

(Omi sorrindo) Yotan!  Não é o Ken que vai escapar no meio do expediente...

Ao ouvir a brincadeira, o loiro mais velho deu uma espiadinha em seu amante, porém Aya não disse nada. Se Yohji concordasse em fazer a entrega, ficaria elas por elas, e o espadachim não descontaria nada do pagamento do playboy.

Podiam ser namorados, mas em assuntos profissionais, Aya era irredutível.  Jamais fazia concessões.

(Yohji) Está certo.  Me dá esse arranjo logo.

Enquanto o ex-detetive pegava a encomenda e saia, Omi corria para dentro de casa a fim de começar a preparar o almoço que, aliás, estava bem atrasado... Ken refugiou-se atrás do balcão e ficou a folheando uma revista de esportes, enquanto Aya permanecia quieto no caixa.

Em horário de almoço o movimento de clientes caia drasticamente, afinal, as fãs também precisavam comer...

(Ken pensativo) Yohji é um mané mesmo.  Agora vai pagar uma nota pelo atraso...

(Aya)...

Aya ia comentar algo, quando o telefone tocou.  E foi o moreninho quem atendeu ao segundo toque.

(Ken) Alô, Koneko no Sumu Ie... o que?  Clínica médica?

Ao ouvir a pergunta, o líder da Weiss ficou atento.  Podia ser alguma coisa a ver com sua irmã.

(Ken) Não... ele não está... podemos anotar o recado se você quiser.  Claro, eu aviso ainda hoje.

O ruivo franziu as sobrancelhas.  Que conversa intrigante era aquela?  Observou enquanto o moreninho rascunhava algo num bloco de anotações.

(Ken) Pronto.  Não foi problema algum!  Eu dou o recado... adeus.

(Aya)...

Assim que viu o justiceiro mais jovem desligar o telefone, Aya o fitou com uma interrogação nas íris ametista.  Suspirando, Ken destacou a folhinha onde escrevera e entregou ao líder da Weiss.

(Ken) Pro Yohji.

(Aya)...

(Ken) O que aconteceu, Aya?

O moreno perguntou ao ver a expressão fechada do líder da Weiss.

(Aya) Hidaka... não entendo esse seu garrancho...

(Ken)!!

(Aya) O que você rabiscou aqui?

(Ken) Merda, Aya... minha letra não é tão feia assim!

(Aya)...

(Ken) Ta bom... é meio... cursiva, mas... ah, azar o seu!  Uma moça ligou, e ela queria confirmar o retorno ao médio do Yohji.  Ta tudo certo para amanhã às dezoito horas... e ela disse que todos os exames já chegaram ao consultório da doutora...

(Aya)!!

A surpresa do ruivo não teve tamanho.  Antes que continuasse meditando, Ken prosseguiu com a enxurrada de palavras.  Parecia que o jogador estava tão surpreso quanto o espadachim.

(Ken) Que coisa... marcaram um retorno... eu não sabia que Yohji estava doente...

Aya desviou os olhos, e ficou analisando o papel que Ken lhe dera.

Apesar de correr os olhos pela pequena folha, o Weiss mais velho não estava lendo realmente.

Imediatamente sentiu-se encher de preocupação.  Ele também não sabia dessas consultas.

Pelo jeito Yohji estava lhe escondendo algo...

oOo

O ex-detetive só retornou ao final da tarde.  Mantinha uma expressão emburrada e parecia cansado.

(Yohji) Definitivamente detesto bancos.  Fique o maior tempão na fila pra poder resolver com o gerente... eita pessoal de má vontade e...

Calou-se ao ver a expressão séria do líder da Weiss.  Aya estava sozinho na floricultura, pois os justiceiros mais jovens tinham ido arrumar alguns sacos de adubo no depósito aos fundos da Koneko.

(Aya) Kudou...

(Yohji) O que foi?  Que cara é essa?  Eu não fiquei enrolando... estava no banco até agora.

(Aya) Ligaram de uma clínica pra você.  Confirmaram uma consulta para amanhã.

(Yohji animado) Jura?  Que ótimo!  Não via a hora... eles devem ter ligado para o meu celular, mas acabou a bateria...

(Aya irritado) Por que não me disse que estava se sentindo mal?

(Yohji) E quem falou que eu to me sentindo mal?

(Aya)...

O ruivo não soube o que responder, e na verdade, seu amante parecia normal... não parecia doente nem nada.

(Yohji) Sei lá.  De repente achei melhor me consultar.  Tive uma... intuição.  Apenas isso.

(Aya) Intuição?

(Yohji) É.  Talvez seja uma anemia...

(Aya) Você não está me escondendo algo?

(Yohji surpreso) E por que faria isso?  Se quiser pode vir comigo amanhã.

(Aya) Claro que vou.

O loiro sorriu e suspirou.

(Yohji) Ok, senhor ‘tenho-que-controlar-tudo’...

(Aya)...

O ruivo viu quando o amante avançou e parou bem próximo a ele e estendendo a mão, Yohji tocou a face de Aya.

(Yohji) Gosto que se preocupe.  Mas não é nada, de verdade.

Sem chance de protestar, o espadachim teve seus lábios tomados pelo mais velho que iniciou um beijo de língua profundo e molhado, debruçando-se por cima do balcão.

(Ken) Ah, não!  Ninguém merece isso... não acredito que o Aya deu essa bobeira durante o expediente...

O moreninho chegara naquele exato momento e flagrara os assassinos mais velhos naquela troca de carícias.

Apesar de pegos em cheio, Yohji não deixou que Aya se afastasse e encerrasse o beijo.  Pelo contrário, puxou-o para mais perto de si, enquanto com a outra mão fazia um gesto obsceno para o jogador.

Ken apenas riu divertido e balançou a cabeça, disposto a passar a tranca na porta e fechar a Koneko cinco minutos mais cedo, antes que algum cliente chegasse e presenciasse aquela pouca vergonha.

oOo

No outro dia, quando faltava uns dez minutos para as seis da tarde, Aya e Yohji despediram-se dos companheiros e saíram no carro do playboy, com intenção de ir à médica.

(Aya) Quer que eu dirija?

(Yohji) Não.

Por algum tempo seguiram em silêncio, com o ruivo olhando pela janela, e Yohji concentrando-se no trânsito.

Aproveitando um sinal vermelho, o ex-detetive tirou um maço de cigarros do porta luvas e separou para si, acendendo em seguida.  Ofereceu um para o amante, mas Aya recusou.  Dificilmente fumava.

(Yohji) Abre mais essa janela.  Não quero ninguém de cara feia por causa da fumaça.

(Aya)...

(Yohji surpreso) Não vai nem brigar?

(Aya) Não.

(Yohji preocupado) Você está se sentindo bem?

(Aya) Não me pergunte isso.  Tem certeza de que não esconde nada, Kudou?

(Yohji) Aya, você ainda está preocupado comigo?! Que lindo!

(Aya) Não seja ridículo.

(Yohji) Ridículo porque?  Por gostar de saber que você se preocupa comigo?

(Aya) Não!

(Yohji) E porque, então?

(Aya) Por nada.  Fique quieto aí e preste atenção na rua.

(Yohji)...

O loiro fechou a cara e jogou o cigarro através da janela.  Ainda estava pela metade, mas ele perdera a vontade de fumar.  Aquele ruivo podia acabar com a alegria de qualquer um, em determinadas situações.

(Aya) O que está fazendo?

(Yohji)... como assim?

Yohji se surpreendeu com a frase aparentemente fora de hora e sem sentido.  Então o espadachim apontou uma placa de trânsito e torceu os lábios.

(Aya) Você entrou na rua errada.  Por aqui teremos que dar uma volta e chegaremos atrasados.

(Yohji) Jura?

(Aya) Não me provoque, Kudou.

E o mais jovem cruzou os braços, parecendo muito irritado.  Yohji franziu as sobrancelhas e olhou pelo retrovisor.  Tinha certeza de que por aquele lado o caminho era mais curto... mas se Aya estava dizendo que na verdade era o contrário...

Oras, a culpa era dele mesmo, por ser um irritante e brigar quando tudo estava bem.  Se ele não enchesse o saco, Yohji não teria se distraído.

Totalmente desanimado, o ex-detetive afundou o pé no acelerador e deu uma arrancada.

(Yohji) Não se preocupe, senhor pontualidade.  Vamos chegar na hora.

(Aya) Claro... se um guarda de trânsito não nos parar antes e dar-lhe uma multa por excesso de velocidade.

(Yohji)...

Apesar de sentir vontade de mandar o outro a merda, Yohji calou-se.  Era melhor não complicar a situação.

No fim das contas, não chegaram atrasados, nem cedo demais.  E sim na hora exata, apesar de ter que dar a volta enorme a que Aya se referira.

(Recepcionista) Senhor Kudou.  Bem vindo.

Aya franziu a sobrancelha.  Pelo visto seu amante era bem conhecido ali.

(Yohji) Olá.

(Recepcionista) A doutora Shiroyama vai recebê-lo imediatamente.  Pode entrar.  E o senhor, vai esperar aqui fora ou entrará com senhor Kudou?

A mocinha de cabelos curtos e vermelhos, e olhos verdes era muito perspicaz.  Notara imediatamente que ambos estavam juntos.

(Yohji sorrindo) Ele vem comigo.

(Recepcionista) Entendo.  Por favor, siga por aquela porta.  O senhor já sabe qual, não é?

(Yohji) Yep.

Yohji foi na direção indicada, com Aya andando ao seu lado.

Depois de dar uma batida de leve na folha de madeira, onde se liam os kanjis com o nome Shiroyama Ame, o playboy avançou abrindo a porta sem esperar ser chamado.

(Doutora) Boa noite, Yohji.  Ah, não veio sozinho dessa vez?

Primeiro o líder da Weiss avaliou o consultório.  Era uma sala ampla, com uma grande escrivaninha e duas cadeiras macias a frente.  Havia quadros com diplomas na parede.  Um modelo de esqueleto humano num canto, e vários pôsteres com imagens do interior do corpo humano, como os aparelhos digestivo, respiratório e coluna vertebral.

Sobre a mesa de madeira clara, havia um porta canetas feito de material reciclado, assim como um porta retratos do mesmo material, uma pasta tipo dossiê e vários envelopes organizados por ordem de tamanho.

Finalmente Aya se permitiu avaliar a tal doutora Shiroyama.  E teve de admitir que gostou do que viu: era uma mulher de mais ou menos quarenta e cinco anos, cabelos muito negros e curtos, começando a ficarem grisalhos nas têmporas.  Os olhos eram azuis muito claros, sinceros e perspicazes.  Ela usava um pequeno par de óculos, com armação fina de prata.

As mãos bem cuidadas descansavam entrelaçadas sobre o tampo da mesa.

(Yohji) Boa noite, doutora.  Esse é Aya Fujimiya.

(Doutora) Prazer.

(Aya) Hn.

(Yohji sorrindo) Vê aquele da foto?  É o doutor Shiroyama... um renomeado neurologista e é marido de Ame.

O playboy apontou a imagem do porta retratos, que mostrava um homem de idade indefinida, com cabelos escuros e olhos azuis.  O espadachim balançou a cabeça concordando.  Lembrou-se de ter visto aquele médico em algum noticiário da TV...

A médica sorriu ao ouvir o comentário a respeito de seu marido, depois apontou para as cadeiras cinzentas.

(Doutora) Sentem-se.  Vou lhe dar logo o resultado dos exames... como achamos no princípio, os resultados não poderiam ser mais tranqüilizadores.  Os níveis de colesterol e insulina estão na média.  O exame de diabetes foi negativo, assim como o de ulcera e gastrite.  Anemia negativo, pressão normal... resumindo sua saúde está perfeita.

(Aya)!!

O ruivo estava sem palavras.  Yohji dissera um exame?  Desconfiava de anemia?  Ele tinha feito uma bateria completa de exames, isso sim.

(Yohji aliviado) Que bom...

(Doutora) As únicas coisas que me preocupam...

(Yohji)...

O loiro estreitou os olhos ao ver a mulher abrir uma gaveta e retirar uma placa de Raio X, ato que fez Aya franzir as sobrancelhas e se questionar até onde a preocupação com a saúde levara Yohji...

(Doutora) Primeiro: é o resultado da chapa de seu pulmão direito.  Vê essas marcas escuras?  Elas são um tipo de degeneração causada por excesso de cigarros.  Você é muito jovem para ter isso.  Creio ser pré-disposição genética, o que deixa o câncer pulmonar como uma possibilidade muito forte.  Recomendo que abandone o habito de fumar o quanto antes.

(Yohji) Na verdade faz bastante tempo que não fumo.

(Aya) Você fumou a menos de quinze minutos, enquanto dirigia.

(Yohji)...

(Doutora suspirando) Deve encarar meu aviso com mais seriedade.  Fico feliz que tenha alguém pra ficar de olho em você.  Principalmente porque estava realmente ansioso com os resultados desses exames.  Mas se recusava a relatar algum sintoma...

(Yohji) Porque não há nenhum.  Eu só queria verificar... achei que estava com anemia.

(Aya) E do nada você achou isso, sem sentir nem mesmo um mal estar?

(Yohji)... é... o que tem de errado nisso?

(Aya)...

(Doutora) Não há nada de errado em se preocupar com a saúde.  E agora que você sabe da situação de seu corpo, não se descuide com o cigarro.  Esse é um vicio fatal.

(Yohji) Nhé...

(Doutora) Essas manchas em seu pulmão ainda não são significas o bastante para justificar uma medicação.  Se você reduzir o fumo até parar completamente, seu próprio corpo cuidará da regeneração, pois a mesma ainda não atingiu um grau comprometedor.

(Aya) Qual a outra coisa que a preocupa?

A médica mexeu em seus papeis até achar um dos resultados dos exames.

(Doutora sorrindo) Essa é bem fácil de se tratar.  Detectamos um certo índice de deficiência vitamínico em seu organismo, principalmente de vitaminas A, B12 e PP.

(Yohji) Nossa!

(Aya) O que isso quer dizer?

(Doutora sorrindo) Que o senhor Kudou precisa de mais verduras em seu cardápio... mas para ajudar vou lhe receitar um complexo alimentar.

O Weiss mais velho torceu o nariz e fez uma careta.

(Yohji) Vitaminas?  Verduras?  Eca...

(Aya)...

A médica sorriu, e balançando a cabeça começou a escrever algo em seu bloco de receitas.  Aproveitando a deixa, Yohji apontou o porta retratos sobre a mesa e suspirou.

(Yohji) Esse é o marido de Ame... ele é neurologista.

(Aya) Eu sei.  Você já me disse.

(Yohji) Jura?

(Aya irritado) Kudou.  Pare com isso, esse seu novo habito é extremamente desagradável.

(Yohji sorrindo) Jura?

A médica que parara de escrever, olhou bem para o casal a sua frente.

(Doutora) Yohji... quantos filhos você tem?

A pergunta pegou os Weiss de surpresa. Imediatamente o playboy olhou para seu amante, depois voltou a fitar a médica.

(Yohji) Ame, que tipo de pergunta é essa?

(Doutora) Responda, por favor.

O ex-detetive olhou novamente para seu amante, e deu de ombros.

(Yohji) Escutou isso, Aya?  Ela quer saber se eu tenho filhos!

(Aya) Responda.

O loiro torceu os lábios, visivelmente irritado.

(Yohji) Nenhum.  Pelo menos não que eu saiba.

A mulher voltou-se então para o ruivo e analisou-o por um segundo.

(Doutora) Senhor Fujimiya... na sua opinião, qual foi o acontecimento que mais lhe chamou a atenção nos últimos dias, em relação ao Yohji?

“Meu amante, meus companheiros e eu fomos vítimas de um inimigo com poderes telepatas durante uma missão em que íamos matar traficantes de drogas...”

Essa foi a resposta que se desenhou na mente de Aya, mas é claro que ele não podia expô-la em voz alta.  Meditou silenciosamente por algum tempo até decidir-se.

(Aya) Yohji vir ao médico e esconder isso de todos.

(Yohji)...

(Doutora) Certo.  Mais alguma coisa?

(Aya) Hn... ultimamente ele tem se esquecido de coisas importantes.  Algumas... responsabilidades.

(Yohji suspirando) Vai começar...

(Doutora) Entendo.  Acredito que Yohji deve estar sofrendo alguma pressão emocional que prejudica sua capacidade de concentração.  Aquele na foto é meu marido, ele é neurologista.

(Aya)...

(Yohji sorrindo) Jura?

Imediatamente Aya lançou-lhe um olhar irritado e fulminante, que matou o belo sorriso, fazendo com que o loiro ficasse sério.

(Aya) O que você está fazendo?

A pergunta impaciente foi dirigida à médica.

(Doutora) Nada... desculpe, não quero provocar brigas.  É que esse quadro... falta de vitaminas, pequenos esquecimentos e... bem.  Aguardem um momento.

Então a médica pegou o interfone e tocou para sua recepcionista.

(Doutora) Yume, poderia ir à sala de meu marido e pegar uma pasta com o MEEM?  Traga aqui imediatamente, está bem?

Depois de desligar, sabendo-se vigiada pelos Weiss que não estavam entendendo nada, Ame tirou os óculos e passou a mão pelo rosto.

(Yohji) Doutora...?

(Doutora) Desculpe, Yohji.  Realmente, posso estar sendo exagerada e hiper precavida... mas o problema é que, como você mesmo disse, sou a esposa de um neurologista... às vezes trocamos impressões sobre nossas especialidades... é inevitável.

(Yohji) Mas... o que isso tem a ver com falta de vitamina?

(Doutora) Na minha área, nada de grave... na área de meu marido...

(Aya)...

(Yohji)...

Os Weiss aguardaram que a doutora recolocasse os óculos e respirasse fundo.

(Doutora) Sabem, a neurologia, ou melhor, a neuropatologia é uma área extremamente instável, eu diria que é até ingrata.  Ao mesmo tempo em que se sabe muito... na verdade não se sabe nada sobre cérebro, mente... consciente, sub consciente e inconsciente.  Muita teoria e pouca coisa comprovada... é por isso que optei por clinicar tão somente.  Cuidar de coisas que posso entender...

Os Weiss se entreolharam, começando a ficar preocupados de verdade...

(Doutora) Se eu fosse apenas uma clinica geral, os ‘sintomas’ apresentados por Yohji não me chamariam atenção... porém isso não procede, não depois de discutir horas e horas a respeito de neurologia com meu marido.

(Aya) Onde quer chegar?

A mulher cruzou as mãos sobre a mesa e olhou fixamente para Aya.

(Doutora) Apesar de saber tão pouco sobre neurologia, arrisco afirmar que algumas patologias são mais antigas que Jesus Cristo.  Ora, os fiéis afirmam que Cristo expulsava demônios.  Eu digo que ele curava esquizofrênicos e esquizóides, usando o mesmo tipo de ‘milagre’ com o qual curava leprosos, cegos e deficientes.

(Aya)...

(Yohji) Isso... é...

(Doutora sorrindo) Claro, se Jesus chegasse ao povo e dissesse: “Essa pessoa não está possuída por demônios, ela é apenas alguém que sofre de distúrbios esquizóides”... acho que Ele teria sido crucificado pelos próprios discípulos.  Talvez...

(Aya) Onde você quer chegar afinal de contas?

Ame desencostou-se da cadeira e curvou-se para frente.

(Doutora) Posso não ser neurologista.., e posso não ser Cristo, mas Yohji está apresentando sinais de um tipo de demência... e asseguro, senhor Fujimiya, esse demônio não é nem um pouco fácil de exorcizar...

Yohji empalideceu um tanto, enquanto Aya engolia em seco.  Nenhum dos dois queria acreditar ou aceitar aquela declaração feita em tom de voz tão sério e expressão facial tão sombria.

(Yohji) Mas... que... demência seria essa?

Ame ia responder, quando batidas na porta a interromperam.  Logo a recepcionista de cabelos vermelhos entrava na sala trazendo uma pasta azul em suas mãos.

(Recepcionista) Aqui está, doutora.  Trouxe o MEEM completo.

Aquela interrupção quebrou muito do clima tenso que se formara sem que os três percebessem.  Agradecendo, a médica recostou-se novamente em sua cadeira e estendeu a pasta para Aya, assim que a garota ruiva saiu.

(Doutora) Aqui dentro está um MEEM, Mini Exame do Estado Mental.  Fujimiya, você irá aplicar em Yohji, não hoje, nem amanhã.  Relaxem alguns dias, esqueçam a tensão... é importante para que funcione.

(Aya) De que demência está falando, afinal de contas?

(Doutora suspirando) DA.  Uma doença que age nas sombras, afetando milhões de pessoas no mundo, porém que não recebe a devida atenção da mídia, mesmo da comunidade médica.  Não da maneira que deveria ser abordada.

(Yohji) DA?  Mas que diabos é isso?

(Doutora) Doença de Alzheimer.

Uma bomba ou um ataque traiçoeiro dos Schwarz não causaria tanta surpresa e assombro, quanto àquela afirmação feita a queima roupa.

 

 

 

Continua...

 

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