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                                                Mesquinhez

     Historicamente, a sociedade se desenvolve em torno da propriedade privada. Os interesses privados predominam sempre, mesmo que ocorram benefícios para as pessoas. O ser humano atua considerando seus interesses pessoais imediatos. Esses interesses cristalizam-se através do dinheiro. O dinheiro é a melhor justificativa para sua atuação. Assim, tem sido no decorrer da história da humanidade.
      O sistema soviético no seu caminhar histórico negou sua proposta de origem. Ele acabou gerando mais impunidades do que justiças. A casta que orbitou o poder mais aproveitou dele do que transformou realidade das pessoas. O sistema transformou-se em algo ridículo. Um sistema assustador, injusto, kafkiano. Parece que foi tirado da imaginação de Dostoievski, Poe e Kafka misturado e embaralhado. Ele transformou-se num verdadeiro sistema de horror. As pessoas que pertenciam à parte de cima da pirâmide social, tudo podiam e não deviam satisfação e respeito a ninguém. Imperou um profundo desrespeito a pessoa humana. Um sistema que traduziu uma mesquinhez inimaginável.
     O sistema soviético funcionou dentro da mesma engenhoca que é o sistema metabólico do capital. Ele pegou o bonde da história no último vagão e sentou-se no último banco.
     A organização política do estado significou pura sordidez, o povo foi durante todo esse tempo humilhado, vilipendiado. As pessoas descentes foram excomungadas e jogadas fora, além de serem linchadas como inimigos do povo.
     Mesquinhez e sordidez andaram juntas por todos os corredores e caminhos de uma sociedade organizada em cima do sofrimento humano, seguindo a mesma lógica do sistema negocial-mercantil. O tecido burocrático comandava e geria a sociedade e o sistema proprietário era guardado por ele e funcionava de acordo com os interesses dessa burocracia. Um lugar onde a opinião das pessoas não valia nada. Abjeção total e pura.
     Todo o sistema foi organizado considerando o jeitinho tão conhecido nosso. Ele significou total desrespeito pelas pessoas. O sistema sempre virou as costas para o mérito.
     O conto mais horroso de Edgar Allan Poe não passa de um conto da fada bem contado em relação à sordidez, à mesquinhez e à abjeção que foi o sistema soviético de organização econômica, política, social e cultural.
As pessoas movimentam-se dentro como se estivessem num imenso corredor comprido e escuro. Kafka se arrepiaria e ficaria bestificado e humilhado ao constatar que seus livros não passaram de maldade de crianças.
     O sistema significou um tremendo estupro. Totalitarismo absoluto. Ele castrou totalmente a pessoa humana.
     A casta burocrática sempre usufruiu de toda a riqueza produzida socialmente, ela era a classe que mantinha o controle sobre a propriedade e sobre todos os meios de produção social. Esse controle era exercido com mão de ferro.
     Todas as pessoas do andar de cima tinham acesso aos produtos de primeira qualidade. Como dizia um amigo, “eles já estavam no comunismo”.
    Eles compravam e freqüentavam mercados e lojas que negociavam tudo aquilo que era raridade. Viviam como se fossem os escolhidos.
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