TODA ESCOLA
PRÓXIMA
O Velório
                                                   
Pedro Luiz da Silva
(Rosário) - É, o mundo anda quadrado!
(Arnóbio) - É mesmo, difícil, ontem já não é hoje e o amanhã ninguém sabe o que será.
(Rosário) - É... No mundo há muita oferta e a procura anda rareando.
(Arnóbio) - Engraçado!
(Rosário) - Ele, ali deitado! Ontem estava de pé e andava. Ontem não. Agora pouco. Dez
horas atrás falava, falei com ele. Ele até me perguntou: “Rosário, tu viste a tv ontem?”
(Arnóbio) - Bom, agora ele está ali deitadinho, quietinho. Deitadinho da silva, daqui a
pouco iniciará a viagem sem volta!
(Rosário) - É verdade, deitadinho. Sabes, todos nós iremos. Tu vais?
(Arnóbio) - Vou, a se vou. Não tem aquele que fica, todos vão, alguns vão tarde, mas Rosário, não é justo.
(Rosário) - Por quê?
(Arnóbio) - Comprei um celular e nem paguei, se vou amanhã, meu deus, não liguei ainda pra ninguém.
(Rosário) - Esqueça isso, joga fora.
(Arnóbio) - De jeito nenhum.
(Rosário) - Então não.
(Arnóbio) - Rosário, Rosário, não vou poder ver mais televisão.
(Rosário) - Ele não vai, Tu sim, não morreste, ainda, estás pagando as parcelas direitinho, o carnê está em dia.
(Arnóbio) - Não, quando eu morrer não poderei ver mais tv.
(Rosário) - Ninguém verá mais, fica tranqüilo.
(Narrador) Eu estava por perto e ouvia o diálogo entre eles, Arnóbio e Rosário. Rosário estava preocupado, preocupava-se bastante com os eletrodomésticos, Arnóbio ouvia. Assim passava. As pessoas conversavam e olhavam o morto e olhavam-se. Ele estava na horizontal, a roupa que vestia era limpa, parecia apertada, uma senhora disse:
(Carmem) - Demos um banho nele, a esposa coitada, não conseguia fazer nada, só chorava, estava abalada. Afinal era o marido que acabava de ir.
(Maria) - Tu deste banho nele?
(Carmem) - Sim, tinha um corpo atlético, era magro, dizem que ele tomava banho todos os dias. O povo conta que banho para ele era algo muito importante. Dizia ser impossível entender alguém que não se banhe, afinal como conversar com outra pessoa fedendo. Não conseguia entender como alguém pode viver sem tomar um delicioso banho, esfregar o corpo.
(Olegário) - Honório, quanto tempo, tudo bem?
(Honório) - Rapaz, quanto tempo, tudo bem contigo, eu estou bem.
(Olegário) - Eu também ando bem.
(Honório) - Mas, e as novidades, são muitas?
(Olegário) - Nem tanto, trabalho, comida, cama.
(Honório) - É, realmente a vida anda torta.
(Olegário) - E a esposa?
(Honório) - Não tenho, terminamos, Olegário, minha esposa tinha manias, tinha visões, sempre achava que eu a traia, não agüentei, e fui obrigado a terminar.
(Olegário) - Sério?
(Honório) - Seriíssimo!
(Olegário) - Era assim?
(Honório) - Assim.
(Olegário) - Honório, comigo foi dramático. Terminamos também. A minha pôs-se a chorar, teve um dia:
(Matilde) - Olegário, quero a separação, não te amo mais.
(Olegário) - Como? Disse. Não podemos encerar assim.
(Matilde) - Olegário, o que que eu faço com meu amor?
(Olegário) - Terminamos.
(Narrador) Eu ouvia tudo aquilo, passeava pela sala. Todos muito preocupados com o morto. Todos falavam baixo, talvez não quisessem incomodar o morto. Todos tinham umas caras de impressionados, é engraçado porque aquele, com certeza, não era o primeiro defunto que eles viam. Mais enfim...
(Estela) - Tu viste?
(Lurdes) - Que que é isso, vaqueiro, ele era vaqueiro? Isso eu não sabia.
(Estela) - É parece que ele mexia com boi.
(Lurdes) - Cada uma, botar o chapéu no caixão, esse cara que eu saiba só viu boi pela tv.
(Estela) - Pode ser, mas tá ali o chapéu, e ainda tem algo escrito: “cow-boy forever”. É só o que faltava. Será que pagou todas as contas?
(Narrador) Eu ali vendo e ouvindo tudo. Todos tinham umas caras interessantes. Olhavam para o morto com caras de espanto-total-de-pressa. A morte realmente causa espanto, o morto é o morto, a ele o próximo “passo” é a cova. Os vivos falam:
(Todos) - É só isso!
(Olegário) - É Rosário, procure pagar as contas.
(Rosário) - Que isso Olegário, já estás me encomendando. Alias, não tenho conta a pagar, por enquanto.
(Olegário) - Rosário, o defunto parece triste, não achas?
(Rosário) - Defunto triste! Bom, talvez ele tenha deixado algum carnê para a esposa pagar e ainda sofre. E isso talvez o impeça de entrar lá.
(Olegário) - Tu achas que lá eles têm costume de olhar se o morto tem nome sujo na praça?
(Rosário) - Ora Olegário, sobre o que se passa lá ninguém sabe, nem padre.
(Narrador) No velório, discutia-se até a situação da saúde. O morto, quando vivo, passou mal na fila da Santa Casa. O Pronto Socorro estava cheio, o morto suava, bufava de dor, o cheiro no  salão era forte, a recepcionista gritava com todos, parecia atacada, a fila era enorme, todos mal  acomodados. Aqueles que estavam comentando, chegaram a dizer:
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