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| TODA ESCOLA |
| (Raimunda) - Tudo isso é uma pouca vergonha. (Ester) - Como podem tratar tão mal as pessoas, pagamos todos os impostos e esses canalhas não arrumam nada. (Antero) - Este café está ótimo, será que não teriam umas rosquinhas recheadas de chocolate. (Carlito) - Recheadas?! (Antero) - Por que não? (Carlito) - Como? Por que não! (Antero) - O morto está ali, mas a vida continua e umas rosquinhas recheadas ajudam os velantes a velar mais tranqüilos. Isso não é mal ou é. (Carlito) - Tá bom, espera, por enquanto vamos tomar o café. (Antero) - Olha aquela dona de saia, viu? (Carlito) - Belas pernas. (Antero) - E a cara? (Carlito) - Lisinha. (Antero) - E os olhos? (Carlito) - Grandes, castanhos. (Antero) - Ela parece sentida. (Carlito) - Também acho. (Antero) - Será? (Carlito) - Não sei. Não. Ela está sensibilizada. Ela é muito bonita, o defunto, passou de feio. (Antero) - Será que ela vai conseguir viver com a aposentadoria? (Carlito) - Apertada, viverá apertada. (Antero) - É verdade. Trabalhou tanto para receber uma porcaria. (Carlito) - Tem gente que ainda diz que trabalhar dignifica o homem. (Antero) - Bom, eu sei que ajuda alguns a ficarem ricos, mas dignidade nunca soube que desse. (Narrador) Todos estavam em silêncio. Já chegava a hora de fechar o caixão e levá-lo. (Olegário) - Que coisa em Rosário, daqui a pouco ele estará dentro da cova e muita terra em cima. Que peso! (Rosário) - Claro, não há outra saída, a vida é assim mesmo: nasce – estuda – cresce – e depois cemitério. (Olegário) - É Rosário, viver é muito perigoso. Morrer é fácil, morre-se e nem se sabe, isso sem contar o desemprego. (Nestor) - Fechem o caixão, vamos levá-lo. (Odete) - Não, por favor, não. Ainda não. (Nestor) - Precisamos ir. (Odete) – Deixem-me colocar o celular junto dele, ele comprou-o ontem, somente ontem, e não tinha conseguido falar com ninguém. |