Entre a terra e o céu

Capítulo IV - Shikon no tama

 

 

 Eu acordei com a cabeça doendo e o bip tocando desesperadamente. Sonolenta, procurei o objeto e conferi o número resmungando coisas como "Que droga de pessoa me ligaria e essa hora em uma manhã de segunda-feira?" e "Miroku, se for você considere-se morto!" Demorou um pouquinho para meu cérebro processar aquele número que piscava no visor luminoso do biper."Sango?!" murmurei espantada quando a ficha caiu.

 Em um primeiro momento eu desliguei o barulhento aparelho e deitei novamente disposta a deixar o sono me dominar. Mas uma chata vozinha da minha consciência martelava dentro de minha cabeça dizendo que a Sango não me ligaria àquele horário se não fosse urgente.Mal-humorada eu forcei meu corpo a sentar-se na cama e com a cabeça ainda latejando passei uma mão nos olhos e prendi o cabelo em um coque rápido. Só então comecei minha jornada em busca do telefone sem fio.

 Somente ao entrar na sala é que todo o absurdo do dia anterior me atingiu realmente.Ele estava lá, deitado no meu sofá e usando um minúsculo short, cortesia do meu esquecido ex-namorado. E eu não pude deixar de notar que ficava muito melhor nele que no seu antigo dono.

 Tentando não fazer barulho eu rodei a sala atrás do aparelho vermelho-berrante. Espalhei as almofadas coloridas do sofá pelo tapete branco e cheguei até a tirar o pufe do lugar. Quando havia revistado a sala inteira eu finalmente me convenci de que não acharia o aparelho e parei para tomar fôlego em frente ao sofá onde Inuyasha dormia resmungando"Onde está o maldito aparelho?"

 Inuyasha.Eu centrei meu olhar nele e percebi que apesar de aparentemente ele estar pregado no sono as suas orelhas se mexiam acompanhando meus movimentos. Meus olhos pousaram novamente no short e eu reprimi o riso.Fôra um custo convencê-lo a vestir aquela roupa estranha, mas no fim valeu a pena. Então eu percebi que ele estava agarrado a uma almofada verde-cana."Que bonitinho" pensei e me aproximei devagar para não acordá-lo."Ele dorme tal qual um bebê" Constatei ao pousar o olhar naquela expressão relaxada e sensualmente provocante como eu mesma denominava. Num impulso levei meu braço para acariciar novamente aquelas orelhinhas cuties, mas minha mão parou a alguns centímetros.

 Ele abriu de vez aqueles dois olhos dourados e dessa vez eu não consegui segurar o grito. Em um movimento rápido ele me calou com uma mão e falou no meu ouvido: "Calma, sou eu Inuyasha." Não sei se foi a tensão do momento mas o hálito quente dele queimou no meu pescoço e estranhos pensamentos sobre fogo povoaram minha cabeça.Juntei toda a minha força pra não morder aquela mão macia pousada nos meus lábios.

 A proximidade já estava trazendo efeitos perturbadores para o meu corpo e eu sinalizei que ele já podia me soltar. Afastei-me devagar, cuidando para que ele não visse meu rosto já rubro. "Nossa, como o corpo dele é quente" eu refreei o pensamento. Esse não é o tipo de coisa que se pensa sobre o seu anjo da guarda, ou é? Acho que essa história com o Sesshoumaru me deixou louca.

 Quando me achei suficientemente controlada eu olhei para o rosto dele disposta a quebrar o silêncio. Os olhos dele estavam forçosamente focalizados no meu rosto como se ele lutasse para não descer o olhar. Nesse momento me dei conta de que vestia apenas um baby doll de algodão justíssimo. Pra evitar o constrangimento eu desviei a atenção para outro assunto.

- É, Inuyasha... o que você tanto abraça essa almofada?

 A expressão dele assumiu a forma de um garoto pego numa travessura e ele me deu um sorriso sem jeito. Eu não tinha percebido, mas estava curiosa pela razão.

- É que essa coisa começou a berrar de uma forma enlouquecedora e eu..

- E você abafou o som com essa almofada. - eu completei pegando o aparelho que ele me estendia com uma sonora gargalhada.Era tão bonitinha a inocência dele.

 Eu me aproximei novamente e vi que ele trazia o rosto emburrado. "Que ótimo, um anjo temperamental..."

- Inuyasha, essa coisa se chama telefone e quando ela começara a berrar (risos) você aperta aqui e diz "Alô" - mostrei o botão talk a ele o instruindo na tecnologia moderna e ele permaneceu emburrado.

 Ele devia rir daquele jeito sempre...

 

 Deixando a Sango de lado eu sentei de frente a ele e resolvi puxar conversa. Os olhos dele continuavam no meu rosto e resolvi fazer o mesmo.

- Bom, eu acho que temos uma coisinha pra conversar.

- Temos? - ele me perguntou com fingida inocência e eu pensei que ironia não combinava com ele. Ironia me lembrava o Sesshoumaru com toda aquela frieza inexpugnável. Um arrepio desce pela minha espinha quando pensei no Sess, como eu o chamava, sem ele saber, obviamente.Dois anos de paixão recolhida, todo aquele planejamento e um jantar desastroso.

 Senti os olhos do Inuyasha me analisando e resolvi sair daquele devaneio. Fechei os olhos e não deixei de sentir o meu rosto quente, provavelmente por ter corado. Foi quando Inuyasha constatou.

- Você estava pensando no Sesshoumaru. - era verdade e eu não tinha resposta, mas não queria concordar com ele então levantei o olhar em uma fúria dissimulada.

- Quem é você pra me dizer o que eu penso?

 Ele me lançou outro de seus sorrisos superiores e sua expressão tomou aquele ar de divertimento.

- Você estava rubra e com o olhar perdido. - aquilo era verdade o que só me irritou. Ele era um estranho, pombas!Não pode me ler como se eu fosse um livro aberto?!"

- Ora, o que eu penso não lhe diz respeito - optei por uma resposta malcriada.

- Se você diz... - o sorrisinho de novo - Mas você estava pensando no Sesshoumaru.

 Eu olhei para ele e cheguei a abrir a boca, mas desisti. Era verdade e, portanto, uma batalha perdida. Abaixei a cabeça e pude ouvir seu riso contido e um murmúrio"Dois a um"

- O que você disse? - perguntei ameaçadora.

- Nada. - ouvi e podia jurar que o sorriso se alargara.

- Escuta, eu queria falar com você a respeito de sua missão. - eu retomei a via principal da conversa.

- E? - ele me perguntou tentando parecer desinteressado.

- Você não acha que eu deveria saber?

- Não. - ele me respondeu e o nível da minha irritação voltou a subir. Apesar disso notei que ele ficou perturbado como se tivesse medo de entrar nessa questão.

- Não. - repeti desdenhando e ele rosnou.

 Ficamos em silêncio por um tempo e eu me levantei pegando o telefone. já estava me preparando pra sair da sala quando ele falou novamente.

- Há quanto tempo você não tem um namorado?

- O que? - revidei sem entender.

- Um namorado, sabe, sexo oposto. - ele me respondeu e dei de ombros.

- Três anos.

 Ele silenciou novamente e eu quebrei o silêncio, desconfiada.

- Por que você perguntou?

- Só curiosidade.

- Curiosidade estranha. - revidei e esperei a resposta, mas ela não veio. Então algo me ocorreu e eu franzi a testa, perguntando:

- Como você sabia sobre o Sesshoumaru? – eu não havia falado nada sobre a malfadada noite nem sobre minha paixão.

- Pra minha surpresa ele me presenteou com aquele já conhecido sorriso.

- Kagome, quantas vezes você já rezou pedindo a mim para encontrá-lo? - ele enfatizou possessivo.

- Oh, Deus. - eu resmunguei saindo da sala e ele caiu na risada. Dessa vez não foram só as orelhas que me acompanharam.

- Cuidado com o que pede, Kagome, ou ele pode mandar outro emissário.

 Não pude deixar de perceber que ele estava rindo da minha cara. Definitivamente não, dois eu não agüentaria. Eu entrei no quarto e fechei a porta devagar ainda ouvindo o riso dele na sala. "Ah, esse anjo me paga!" Falei comigo mesma e não deixei de pensar "Três a um." Mas agora eu tinha mais o que pensar.

 

**************

 

 

 De qualquer jeito sentei na cama e disquei o número da Sango ouvindo aquele irritante tum tum de comunicação.Contei até dez e tentei de novo, sorrindo satisfeita quando a voz da garota chegou aos meus ouvidos.

- Sango.

-Olá Sango, você queria falar comigo? - perguntei e ouvi uma torrente verbal. Minha amiga estava agitada demais.

- Kagome, por Deus, eu pensei que você não iria me ligar. já estava ficando preocupada - meus pensamentos vagaram. Realmente eu havia perdido tempo naquela "conversa" com Inuyasha. Contudo, perder não era bem a palavra.

 Fiquei calada por algum tempo e esperei-a se acalmar, o que não tardou a acontecer então ela me fez uma pergunta estranha:

- kagome, eu tenho uma notícia quente. Em quanto tempo uma jornalista me encontraria no Expresso Oriente? - O expresso Oriente era um café bastante popular do centro da cidade.

- Huh, quinze minutos? - arrisquei andando até o espelho.

- Certo e em quanto tempo um bom jornalista faria isso? - conferi meu relógio preocupada e saquei uma calça preta de poliéster do roupeiro.

- Err.. dez minutos? - respondi pegando uma blusa branca de mangas 3/4 e me livrando do baby doll freneticamente.

- Ok, esteja lá. - Sango respondeu e desligou.

 

 Eu larguei o telefone em cima da cama de qualquer jeito e peguei um sutiã branco e a primeira sandália que eu vi. Saí do quarto ainda abotoando a blusa e passei por Inuyasha apressada demais para notar a expressão intrigada dele.

- Você vai sair? - ele me perguntou enquanto eu tentava desesperadamente achar minha bolsa.

- Vou. - respondi e ele saiu da sala para voltar segundos depois; já vestido com o kimono vermelho.

- Vou também. - ele falou e me entregou a bolsa.

- Ah, não posso te levar junto, Inuyasha. - comecei a explicar e ele me ignorou.

- Só preciso de uma carona até o centro, baka. - ele respondeu e abriu a porta para que eu passasse. Não pude ignorar o olhar dele no meu corpo enquanto passava e só então lembrei porque não usava aquela calça há meses: ela estava justa demais. E a sandália alta também não ajudava...

  O elevador estava parado no meu andar o que eu encarei como um sinal de sorte. Quando saí do prédio lembrei que não sabia onde estava meu carro então me enfiei de qualquer jeito em um táxi.Já no carro aproveitei para passar batom e pentear os cabelos enquanto provocava Inuyasha.

- Você bem que podia ter uma visão de onde está o meu carro.

 A resposta veio curta e grossa como eu esperava.

- Baka. Sou um anjo, não um adivinho.

 Pelo retrovisor eu vi o motorista sorrir.

 Ia ser um longo dia...

 

 

**************************

 

 

  Deixei Inuyasha no centro e entrei no café expresso. Assim que sentei-me à mesa,Sango me entregou um pequeno CD-R. Notei alívio no rosto dela ao fazer isso.Um capuccino foi posto na minha frente junto com algumas torradas enquanto eu digeria a notícia que acabava de receber.

- Recapitulando, Sango. Você estava navegando ontem - ela me interrompeu e recomeçou a narrativa falando devagar para que eu não perdesse nenhum detalhe.

- Eu estava olhando alguns e-mails de uns conhecidos do governo, só pra distrair e observar uma certa lista quando encontrei uma menção a esse projeto. Então fucei um pouquinho, rodei um presente dentro do programa de segurança, tomei uma senha emprestada e bum, topei com esse arquivo.

 Eu já conhecia bastante a minha amiga pra saber o que ela fizera e entender o que ela falava.

- Certo, então você entrou no e-mail de alguém, hackeou um arquivo do governo e achou isso? - apontei para o reluzente disco achatado.

- Não diga essa palavra com "h" ou os caras vão te processar. - ela riu com a própria piada.

 Bati na mesa divertida.

- Não diga essa palavra com "p" que eu não falo a outra com "h".

- Ah, eu havia esquecido que jornalistas têm medo de advogados. - Sango provocou.

- Todo mundo tem medo de advogados. - eu respondi azeda - Eles ferram com a gente.(NA : Fala sério, isso é que é uma profissão bem vista!hehe)

- Programadores não. - ela me respondeu levantando uma sobrancelha e a imagem do Sesshoumaru voltou à minha mente.

- Ah, claro. Programadores tem medo dos caras do SIJ. - retruquei e ela ficou séria e abaixou a voz.

- Eles também ferram com a gente.

  Ficamos em silêncio e ela voltou a falar.

- Ok, Kagome. Isso é coisa das grandes e sinceramente eu fico feliz por que quem vai se expor.Eu não entendi direito o que era por que a maior parte está em inglês, mas a operação tem pontes em muitos departamentos. - ela pensou um pouco. - No departamento de estado, no dep. do comercio exterior e provavelmente no exército também. Eu não me surpreenderia se daqui a alguns dias quem passasse a ter medo do governo fosse você.

- Eu prestei meia-atenção às palavras dela chegando às mesmas conclusões.

- Shikon no tama. É esse o nome, não é? - ela assentiu. - Quatro almas... - eu pensei novamente nos departamentos e concluí. - Tem uma ponta solta.

 Ela deu de ombros e tomou café e eu a imitei pensativamente. Eu precisaria de ajuda.

 

 

NA final: bem, eu já disse que quero ver minha caixa de e-mails lotada de reviews  e pra isso vou até botar um pedacinho do próximo capítulo.

 

“- kaede-chan, eu trouxe seu café”.

 Ela gelou ao reconhecer o homem de cabelos brancos que conversava com sua chefa e respirou fundo.

- Sesshoumaru. - ela passou por ele tentando parecer indiferente, mas corou levemente quando o olhar dele pousou sob suas costas."

 

O que o Sess foi fazer lá na redação?

 

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