Aviso: eu fiz diversas referências ao filme Dogma e peço aos ortodoxos de plantão que me perdoem.


Entre a terra e o céu 

Capítulo 3 - Meu anjo.

 

 

 "Idiota, idiota, idiota!" Eu sentia os pés doendo e já perdera a conta dos degraus que descera. "E se ele foi atrás de mim pelo elevador?" O pensamento se insinuou. "Não, ele jamais faria isso. Ele não desceria do pedestal dele a esse ponto..."

 Eu desci mais alguns lances de escada exasperada."Droga, em que andar esse cara mora, afinal?" Sentei em um degrau, exausta demais para continuar e acabei por enterrar a cabeça nas mãos. A tentação de chorar até que a raiva passasse era grande demais e eu já estava a ponto de fazer isso quando percebeu uma estranha luminosidade invadir o local.

 Primeiro pensei que algum morador havia aberto a porta de acesso à escada e num reflexo passei a mão nos olhos e ajeitei os cabelos me levantando. Já estava pronta para balbuciar uma desculpa para o inconveniente morador quando percebi que não havia som de passos.

 Lentamente a luz tomou forma na minha frente. Eu esfreguei os olhos e vi o que parecia ser um humano se materializar perante meu olhar. Ele tinha longos cabelos brancos e suas unhas também eram esbranquiçadas. Era alto e belo a atrás dele a luz se condensava formando o que pareciam ser asas.

  Por um tempo permaneci assim, atordoada demais até mesmo para achar que era um sonho ou uma alucinação provocada pela ressaca. A boca entreaberta sem exprimir qualquer som, os olhos fixos na figura à frente. Então, tão inesperadamente quanto veio, a luz desapareceu restando apenas o humanóide e eu,nós envoltos em uma suave penumbra.

  As palavras finalmente tomaram forma e eu as descartei.Era estranho demais, surreal demais... Houve um silêncio momentâneo antes que eu me sentasse novamente no degrau gargalhando escandalosamente, o riso ecoando pela escada, os olhos cheios de lágrimas.

- Quem é você, Metatron, a voz do todo poderoso? - perguntei entre risos.

 Ele obviamente não gostara da brincadeira e revidou grosseiramente.

- Não, baka, sou seu anjo da guarda.

 Por um momento segurei a respiração antes de cair em uma nova seção de gargalhadas.

- Eu to com muita ressaca mesmo. Anjo da guarda, ora essa! - disse pra mim enquanto ria.

 O humanóide ao que parecia gostara menos dessa reação que da anterior. Sua boca se contorceu em um gesto de raiva e o pé bateu no chão com uma clara impaciência.

 Eu ri até cansar, depois fui acalmando a respiração e contendo os soluços para me dar conta que o homem continuava ali, agora já bufando de raiva.

- Afinal, quem é você? - perguntei observando-o detalhadamente.

 Ele usava um kimono vermelho que lhe assentava bem no corpo e em cima de sua cabeça duas orelhinhas caninas se moviam no que parecia ser um tique nervoso.Era simplesmente hollywoodiano demais para ser verdade.

- Eu já lhe disse, sou seu anjo da guarda. - ele respondeu contendo com um rosnado a ameaça do meu riso. - Quer dizer, sou seu quase anjo.

- Explique melhor. - pedi - Ou devo pegar um extintor? - vestígios de riso iluminaram minha expressão.

- Eu sou um hanyou, um posto a menos que anjo-protetor na hierarquia. Para ser promovido tenho que completar a missão para a qual fui designado.

- E que missão é essa? - me aproximei, curiosa.

- Depois falamos da minha missão. - ele respondeu ríspido e eu não me contive mais.

- Suas orelhas... Elas são

- De verdade? - ele completou a frase e suspirou inclinando um pouco a cabeça involuntariamente. - É, são.

 Em um impulso levantei as mãos até tocar as irrequietas orelhinhas.

- Nossa como são macias! - eu as acariciei, maravilhada com a textura e vi que ele inchou com o comentário. Quando levantou o olhar, no entanto, ele me perguntou no que parecia ser um habitual tom irritado.

- Escuta, nós vamos passar o dia inteiro nessa escada?

- Não, claro que não. - recolhi os braços sem jeito e desci mais um lance de escadas para descobrir que ali já era a porta do térreo.

 Pacientemente esperei-o aproximar-se então empurrei a porta sem fazer barulho. Pegando a mão do humanóide o conduzi para o saguão e deixei que ele me seguisse. No saguão, todos me olharam estranhamente e me perguntei o que havia de errado. Mas a resposta só veio quando o anjo me deu um sorriso superior do canto da boca num gesto que viria a tornar-se característico e sussurrou no meu ouvido:

- Belo casaco.

 De imediato olhei para baixo e constatei o óbvio. Aquele sobretudo era demasiado grande para me pertencer. E com um suspiro dizendo "Oh, merda!" Eu me perguntei como faria para devolver o sobretudo de Sesshoumaru.

 Saímos do hotel e eu pude apenas olhar para trás antes de direcionar a atenção para a fila de carros à frente. Eu não tinha idéia de onde estava o meu então resignei-me com a idéia de ir de táxi para a casa e só depois pensar no destino do meu veículo.

  Sentei-me junto com o rapaz no banco de trás de um popular carro japonês e disse o endereço ao motorista que fez a parte dele. Cansada inclinei a cabeça encostando-a no banco e no braço de anjo e falei baixinho para ele:

- Você deveria ter me levado voando para a casa.

 Não pude deixar de rir intimamente quando percebi a irritação divertida nos olhos dele pensando" Bem, agora é um a um."Então a resposta veio, como de se esperar malcriada, mas não ofensiva.

- Eu não estou vendo asas, você está? - ele levantou brevemente o braço livre para enfatizar a frase e reprimi o riso.

 O carro parou em frente a um prédio de classe média, próximo ao centro da cidade e eu desembarquei, o anjo fazendo o mesmo.

- Bem, Metatron, aqui está a minha casa. - atravessei o conhecido saguão e tomei o elevador sendo levada até o quinto andar. Então, já em frente à porta, parei e peguei a chave, percebendo que ele parecia desconfortável.

- O que foi, Metatron? - perguntei, ajeitando a chave na fechadura.

- Não fale Metatron. - ele respondeu sem rispidez. - Ele é de outra hierarquia.

 Eu ri, alegre por ele já estar começando a se soltar comigo.

- Então, como devo falar?

- Me chame de Inuyasha.

 

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