Entre a terra e o céu

Capítulo 2 - Conseqüências

  

 

 O quarto estava na penumbra graças à persiana cinzenta que descia até o chão. Na cama de casal uma jovem dormia envolta em um lençol grafite. À frente da cama um guarda roupa de oito portas e um espelho que chegava até o chão.

  O lençol é macio demais. Eu notei, quando a consciência finalmente retornou ao meu corpo. Ainda de olhos fechados ensaiei uma rápida espreguiçada e sorri quando o entendimento tomou conta do meu corpo.

 O lençol é macio demais. Bruscamente eu levantei sentindo o estômago revirar e a dor nas têmporas me atingir em cheio. "Oh, Deus, o que eu fiz..." sussurrei registrando o ambiente ao redor. Comecei pelo lençol prateado de seda e passei pelo enorme guarda-roupa negro, não deixando de notar os puxadores prateados e a porta do banheiro entreaberta da qual  podia entrever um espelho embaçado, até pousar na janela oculta pela enorme persiana. Era um quarto estranho, sem dúvida. Másculo e bastante sofisticado.

 Lentamente eu levei as mãos até a cabeça e ajeitei os cabelos em um coque improvisado, massageando as têmporas logo depois.O meu estômago revirava de náuseas.Só então tomei consciência do ser que estava encostado na janela vestindo apenas um roupão azul marinho.

- Estranhando a decoração? - ele me perguntou em um tom frio.Eu achei aquela pergunta o mais estranho de tudo aquilo.

- Não, é que... - eu comecei, mas parei no meio da frase ainda atordoada. - O que aconteceu?

- Não se lembra? - a voz dele continuava despida de emoções.

 Eu me sentei ereta na cama e vi em câmera lenta o lençol escorregar. Ao mesmo tempo percebi que usava apenas calcinha e sutiã. Em um gesto rápido puxei o lençol sobre o corpo e olhei em volta à procura de algo que me cobrisse decentemente para levantar. Não havia nenhum roupão, robe ou roupa por perto. Nada! Como Sesshoumaru não fazia menção de mover-se dali eu suspirei desistindo de levantar e respondi à pergunta dele.

- Eu não lembro. - a voz saiu baixa e carregada de um medo velado.

 Sesshoumaru abriu a persiana e virou novamente o corpo pra mim. Agora eu podia ver completamente o rosto dele. A expressão era neutra e eu sentia um quê de divertimento. Mas foi o tom que me irritou quando a frase foi dita.

- Você não devia beber, garota.

- Não, eu só não posso tomar vinho. - eu me apressei em explicar recriminando-me depois. "Quem ele pensa que é para falar comigo nesse tom?” Então apenas centrei o meu olhar nele o mais desafiadoramente possível e fingi não notar o roupão meio aberto de onde assomava os músculos do tórax bem definidos. "Deus, é até covardia criar um homem tão lindo..."

- E toda vez que você toma vinho acontece isso, é? - ele inquiriu.

- Sim, mas... - respondi e só depois percebi que ele me provocava.

- Então por isso você não estranhou acordar na minha cama. - o tom adquiria agora uma malícia inconfundível.

 A dor nas têmporas, a insuportável enxaqueca, a vergonha e a crescente irritação se juntaram e eu não consegui conter a explosão. Levantei-me bruscamente sem ao menos notar o lençol caído aos meus pés. A face avermelhou e os cabelos caíram em cascata pelos ombros ao passo que me aproximei furiosa, os olhos faiscando de irritação.

- E o que te importa se eu tenho costume de embebedar e dormir com desconhecidos? Foi você quem precisou esperar uma mulher tomar um porre para arrastá-la para sua cama. - falei de uma só vez e em seguida parei para respirar, os pensamentos entrando em ordem.

 Só então pude observar a face dele. O rosto estava impassível e nem mesmo o olhar denunciava quaisquer sentimentos a não ser um laivo de riso. Era quase como se ele estivesse entediado com aquela cena. "Não é verdade aquilo que eu disse sobre precisar embebedar uma mulher" pensei novamente notando o roupão meio aberto dele, o sangue esfriando lentamente. "A grande maioria se jogaria na cama dele na primeira oportunidade." E foi quando eu me dei conta de que estava parada no meio do quarto usando apenas uma sensual lingerie de cetim negro.

- Onde diabos está... - me virei para perguntar e percebi que ele saíra do aposento. Fazendo um muxoxo de impaciência  esquadrinhei o chão do quarto até achar o famigerado vestido preto. Rapidamente o pus e calcei as sandálias improvisando um novo coque no cabelo.Imediatamente me senti melhor apesar da náusea continuar me incomodando."Pelo menos estou apresentável" Fiz uma careta e segui para a sala.

 O novo aposento era mais iluminado que o anterior embora a decoração fosse um tanto impessoal. A sala era enorme e eu podia ver que os poucos móveis eram caros e dispunham-se com bom gosto no espaço. Havia um sofá de couro negro ao lado da janela de vidro coberta por cortinas brancas. Em frente ao sofá havia 2 pufes de couro dispostos sobre o tapete branco, assim como as paredes. Logo percebi que não havia cor naquele apartamento. Era frio e distante como o dono. E meus pensamentos recaíram em como gostaria de incendiar aquele lugar...

 O próprio Sesshoumaru vinha da cozinha trazendo uma xícara com café nas mãos. E eu contive uma exclamação ao notar que a xícara era verde-cana. Notei também que só havia mais uma porta.

- Esse lugar só tem um quarto é? - perguntei levada pela curiosidade e me arrependi logo depois.

- Eu não costumo receber visitas. - ele fixou o olhar em mim demonstrando que achava a pergunta estranha.

 "Comentário estúpido" Eu me vi estralando os dedos de nervoso. E mais uma vez pensei sobre a estranheza da cena: eu, parada no meio da sala observando o anfitrião parado junto à soleira da porta da cozinha. Ele não me ofereceu café e não pedi.

- Afinal o que exatamente aconteceu noite passada? - perguntei incapaz de me conter.

 O silêncio era angustiante e a enxaqueca aumentou. Sesshoumaru se encostou com displicência no batente e levantou uma sobrancelha provocando borboletas no meu estômago já tomado pelo enjôo.

- Então você não sabe?

 A vergonha queimou na minha face, o rosto já se tingindo de vermelho. Embaraçada, balbuciei:

- Eu só queria saber exatamente como eu cheguei aqui.

 Não pude terminar a frase.

- Kagome, se nós tivéssemos feito sexo você não estaria de lingerie.

 Engoli em seco. Definitivamente estava confusa. Na face dele não assomava nenhuma emoção e eu amaldiçoei todo aquele autocontrole. O alivio e a decepção se misturaram dentro do meu corpo fazendo a confusão aumentar. "Certo eu não transei com ele" suspirei."Pelo menos quando eu fizer, eu vou me lembrar depois..." A calma e a naturalidade dele acabaram por enervar-me.

- Dugh, você é mais frio que um iceberg. - murmurei.

- E você adoraria me esquentar não é? - ele prendeu o meu olhar e se aproximou perigosamente, eu a todo custo tentando não corar enquanto lembrava de todos aqueles pensamentos sobre atear fogo.

- Tão cheia de pensamentos incandescentes... - os lábios dele pousaram no lóbulo da minha orelha provocando arrepios. Porém o sarcasmo e o tom superior da voz acabaram por transformar minha ansiedade em irritação.

 E com um "Ora, seu..." eu afastei o corpo e peguei a bolsa jogada no sofá disparando escada abaixo e não vi o grande sorriso que emoldurava agora aqueles lábios finos.

 

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