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A Águia e a Galinha Leonardo
Boff. A
libertação se efetiva na prática histórica Toda colonização –
seja a antiga, pela invasão dos territórios, seja a moderna, pela integração
no mercado mundial – significa sempre um ato de grandíssima violência.
Implica o bloqueio do desenvolvimento autônomo de um povo. Representa a
submissão de parcelas importantes da cultura, com sua memória, seus valores,
suas instituições, sua religião, à outra cultura invasora. Os colonizados de
ontem e de hoje são obrigados a assumir formas políticas, hábitos culturais,
estilos de comunicação, gêneros de música e modos de produção e de consumo
dos colonizadores. Atualmente, se verifica uma poderosa “hamburguerização” da
cultura culinária e uma “rockiquização” dos estilos musicais. Os que detêm o
monopólio do ter, do poder e do saber, controlam os mercados e decidem sobre
o que se deve produzir, consumir e exportar. Numa palavra, os colonizados são
impedidos de fazer suas escolhas, de tomar as decisões que constroem sua própria
história. Tal processo é
profundamente humilhante para um povo. Produz sofrimentos dilaceradores. A
médio e a longo prazo não há razões, quaisquer que sejam, que consigam
justificar e tornar aceitável tal sofrimento. Aos poucos ele se torna
simplesmente insuportável. Dá origem a um antipoder. Os oprimidos começam a
“extrojetar” o opressor que forçadamente hospedam dentro de si. É o tempo
maduro para o processo de libertação. Primeiro, na mente. Depois, na
organização. Por fim, na prática. Libertação significa
a ação que liberta a liberdade cativa. É só pela libertação que os oprimidos
regatam a auto-estima. Refazem a identidade negada. Reconquistam a pátria
dominada. E podem construir uma história autônoma, associada à historia de
outros povos livres. - Oprimidos,
convencei-vos desta verdade: a libertação começa na vossa consciência e no
resgate de vossa própria dignidade, feita mediante uma prática conseqüente.
Confiai. Jamais estareis sós. Haverá sempre espíritos generosos de todas as
raças, de todas as classes e de todas as religiões que farão corpo convosco
na vossa nobre causa da liberdade. Haverá sempre aqueles que pensarão: cada
sofrimento humano, em qualquer parte do mundo, cada lágrima chorada em
qualquer rosto, cada ferida aberta em qualquer corpo é como se fosse uma
ferida no meu próprio corpo, uma lágrima dos meus próprios olhos e um
sofrimento do meu próprio coração. E abraçarão a causa dos oprimidos de todo
o mundo. Serão vossos aliados leias. James Aggrey
incentivava em seus compatriotas ganenses tais sentimentos de solidariedade
essencial. Infelizmente não pôde ver a libertação de seu povo. Morreu antes,
em 1927. Mas semeou sonhos. A libertação veio
com Kwame N´Krumah, uma geração após. Esse aprendeu a lição libertária de
Aggrey. Apesar da vigilância inglesa, conseguiu organizar em 1949 um partido
de libertação, chamado de Partido de Convenção do Povo. N´Krumah e seu
partido pressionaram de tal maneira a administração colonial inglesa, que o
Governo de Londres se viu obrigado, em 1952, a fazê-lo primeiro-ministro. Em
seu discurso de posse surpreendeu a todos ao proclamar: “Sou socialista, sou
marxista e sou cristão”. Obteve a sua maior
vitória no dia 6 de março de 1957 quando presidiu a proclamação da
independência da Costa do Ouro. Agora o país voltou ao antigo nome: Gana. Foi
a primeira colônia africana a conquistar a sua independência. Gana tem hoje
238.537 quilômetros quadrados, com densa selva tropical ao sul, atravessada
pelo grandioso rio Volta de 1.600 quilômetros de comprimento. A represa
Akoddombo, feita com o rio, forma um imenso lago de 8.482 quilômetros
quadrados, numa extensão de quatrocentos quilômetros. A capital é Accra, com cerca de 700 mil
habitantes numa população total de 16, a milhões de pessoas. Estima-se que 20
ano 2000 Gana terá 20 milhões de habitantes. Se aplicarem os
ideais de James Aggrey, consolidarão sua identidade e autonomia. E avançarão
pouco a pouco no sentido de uma cidadania participativa e solidária. Nós somos águias Anterior------------------------------------------------------------Próxima Boff,
Leonardo. A águia e a galinha: uma metáfora da condição humana. 34. ed.
Petrópolis: Vozes, 2000. |
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