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A Águia e a Galinha Leonardo
Boff. A
libertação começa na consciência A população ganense
sempre alimentou forte consciência de sua história e muito orgulho da nobreza
de suas tradições religiosas e culturais. Em conseqüência, foi constante sua
oposição a todo tipo de colonização. James Aggrey, considerado um dos
precursores do nacionalismo africano e do moderno pan-africanismo, fortaleceu
significativamente esse sentimento. Ele teve grande
relevância política como educador de seu povo. Para libertar o país – pensava
ele à semelhança de Paulo Freire – precisamos, antes de tudo, libertar a
consciência do povo. Ela vem sendo escravizada por idéias e valores
antipopulares, introjetados pelos colonizadores. Com efeito, os
colonizadores, para ocultar a violência de sua conquista, impiedosamente
desmoralizavam os colonizados. Afirmavam, por exemplo, que os habitantes da
Costa do Ouro e toda a áfrica eram seres inferiores, incultos e bárbaros. Por
isso mesmo deviam ser colonizados. De outra forma, jamais seriam civilizados
e inseridos na dimensão do espírito universal. Os ingleses
reproduziam tais difamações em livros. Difundiam-nas nas escolas.
Pregavam-nas do alto dos púlpitos das igrejas. E propalavam-nas em todos os atos oficiais. O martelamento era
tanto que muitos colonizados acabaram hospedando dentro de si os colonizadores
com seus preconceitos. Acreditavam que de fato nada valiam. Que eram
realmente bárbaros, suas línguas, rudes, suas tradições, ridículas, suas
divindades, falsas, sua história sem heróis autênticos, todos efetivamente
ignorantes e bárbaros. Pelo fato de serem
diferentes dos brancos, dos cristãos e dos europeus, foram tratados com
desigualdade, discriminados. A diferença de raça, de religião e de cultura
não foi vista pelos colonizadores como riqueza humana. Grande equívoco: a
diferença foi considerada como inferioridade! Processo semelhante
ocorreu no século XVI com os indígenas da América e com os colonizados da
Ásia. E ocorre ainda hoje com os países que não foram inseridos no novo
sistema mundial de produção, de consumo e de mercado global, como a maioria
das nações da América Latina, da África e da Ásia. Elas são consideradas “sem
interesse para o capital”, tidas, em termos globais, como “zeros econômicos”
e suas populações vistas como “massas humanas descartáveis”, “sobrantes” do
processo de modernização. São entregues à própria fome, à miséria e à margem
da história feita pelos que presumem ser os senhores do mundo. Estes mostram,
por isso, uma insensibilidade e uma desumanidade que dificilmente encontra
paralelos na história humana. Infelizmente, a
mesma discriminação acontecem com os pobres e miseráveis, com as mulheres, os
deficientes físicos e mentais, os homossexuais, os portadores do vírus HIV,
os hansenianos e todos aqueles que não se enquadram nos modelos
preestabelecidos. Todos são vítimas do preconceito e da exclusão por parte
daqueles que se pretendem os únicos portadores da humanidade, de cultura, de
saúde, de saber e de verdade religiosa. - Dominadores,
vossas arrogância vos torna cruéis e sem piedade. Ela vos faz etnocêntricos, dogmáticos
e fundamentalistas. Não percebeis que vos desumanizais a vós mesmo? Reparai: onde chegais, fazeis vítimas de
toda ordem por conta do caráter discriminador, proselitista e excludente de
vossas atitudes e de vosso projeto cultural, religioso, político e econômico
que impondes a todo mundo! Anterior------------------------------------------------------------Próxima Boff,
Leonardo. A águia e a galinha: uma metáfora da condição humana. 34. ed.
Petrópolis: Vozes, 2000. |
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