Universidade, internet, rádio e democracia direta

 

Mauro Sá Rego Costa
Professor da Faculdade de Educação da Baixada Fluminense/ UERJ
Coordenador da Oficina Híbridos - LABORE/UERJ e do Laboratório de Rádio UERJ/Baixada

UERJ XXI é um exemplo do que pode a internet como meio para a democracia direta. Já o conhecíamos desde o movimento de apoio à luta zapatista no México. Informações do EZLN, de ONG's e grupos locais, canalizadas pelo site da Universidade de Austin, no Texas, evitaram o massacre programado pelo Exército Mexicano, após o levante de janeiro de 94. No Brasil, as páginas do hip hop: bocada-forte, hiphopativo, realhiphop, etc mostram como a garotada das periferias das grandes cidades, dos morros, das favelas, sabe muito bem debater e se organizar via internet.

A experiência do UERJ XXI é curiosa. Você se vê, de repente, intolerante com questões "idiotas" - no seu ponto de vista - que circulam dias seguidos, com dezenas de intervenções. Dá trabalho selecionar o que ler e o que deletar na sua caixa de correio diariamente atulhada de mensagens. Mas é isso, a experiência nova. Há boas discussões como a da Reforma da Previdência, das Cotas para negros/pardos/estudantes de escolas públicas, da melhoria das Bibliotecas, da luta pela manutenção do Portal de Periódicos da CAPES, dos critérios do BPC - Banco de Produção Científica -, da falta de comunicação interna na Universidade que permita maior participação inter-especialidades e quebre os "guetos de saber" que caracterizam não só a nossa mas a universidade, em geral.
Estamos fazendo uma pesquisa sobre as rádios educativas brasileiras pertencentes às universidades (são 47, ao todo: 18 pertencem às universidades federais; e as outras 29 a universidades estaduais e privadas; 10 transmitem em AM, e 37, em FM). A maioria tem programação só de música clássica (tipo Rádio MEC), ou só de música brasileira, ou misturando as duas, com espaço para a música regional. E mantém pequenos programas jornalísticos com maior ou menor espaço para o noticiário especificamente universitário, ou local. A da UFRGS, por exemplo, a mais antiga das universitárias, no Brasil, fundada em 1957, transmite em AM, com uma abrangência que cobre todo o estado do Rio Grande do Sul, e é uma imitação da rádio Ministério da Educação - Dvörak, Bach, Beethoven, Mozart... com breaks de 5 minutos de noticiário às 8:00, 14:00 e 16:00 e o Momento Astronômico, de 2 minutos, de 23:58 às 24:00. Aos sábados esses horários de noticiário viram UNIVERSIDADE É NOTÍCIA; às 12:00, uma hora de CONVERSA DE JORNALISTA, uma hora de Jazz às 19 hs. Está em processo de mudança da grade de programação, mas, segundo a Profa. Sandra de Deus, sua diretora não pode mudar tudo de repente ou perderia toda sua audiência (na faixa dos 64 anos de idade, em média).
O que isso nos mostra? Primeiro que ninguém anda pensando a respeito de rádio. Ninguém pensa sobre o que o rádio pode. Mesmo na área musical, tanto a música erudita - dos compositores que viram professores universitários, por falta de outro meio de sobrevivência - como a música feita nas ruas, a música verdadeiramente popular, com as facilidades das técnicas atuais de gravação, é um absurdo as rádios não-comerciais continuarem a veicular o lixo ou o mais fácil, que a indústria fonográfica entrega pronto.
O caso do jornalismo ainda é pior. Universidades são fantásticos espaços onde circulam TODAS (ou quase todas) as áreas de saber, da ciência e tecnologia, físicas e biológicas, às humanidades: ciências sociais, literaturas, artes, filosofia E música. As universidades públicas e algumas confessionais (PUC's, Metodistas, etc), onde estão a maioria das rádios, são o espaço em que se dá a pesquisa e produção científica no país; diferente das privadas, "escolões", para mera reprodução de profissionais. Todos reclamam da falta de apoio à pesquisa - ou da mínima parcela dos orçamentos estaduais e federal para a pesquisa. E quando essa parcela diminui (o que não é raro), há uma gritaria, que não passa, em geral, dos muros acadêmicos. Por que diabos as rádios universitárias não são divulgadoras sistemáticas das pesquisas feitas na Universidade? Esse devia ser, aliás, o principal tema do jornalismo universitário - e ocupar mais tempo dos que os breaks de cinco, dez minutos entre um bloco musical (inútil) e o próximo.
Gilles Deleuze disse, uma vez, que a única maneira de vencer os excessos da comunicação midiática, os excessos da besteira montante, era o silêncio. Acho que não é mais. O silêncio não afetará nada. Precisamos, ao contrário, ocupar os espaços ou inventar espaços de mais-comunicação, ou usar a mídia (o espetáculo) contra a mídia (o espetáculo), como propunha Guy Debord.
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