Resumo
Esta
comunicação analisa a utilização de alguns
conceitos que costumeiramente tem sido aplicados no ensino do radiojornalismo,
apontando os seus fundamentos e ao mesmo tempo as suas limitações.
Discute, neste sentido, a aplicação dos conceitos de
oralidade, simplicidade e naturalidade; do paralelo entre a linguagem
do rádio e a audiovisual, especialmente a cinematográfica;
da hipótese da complementação visual da mensagem
radiofônica pela imaginação do ouvinte; da definição
da linguagem do rádio pelos seus componentes e da localização
da "era de ouro" do radiojornalismo no passado. Conclui
que estes conceitos tornaram-se "meias-verdades" para o
radiojornalismo da era eletrônica. O trabalho é uma versão
ampliada de texto apresentado originalmente em colóquio promovido
pela Licenciatura em Jornalismo da Universidade de Coimbra, em Portugal.
Introdução
O
rádio é o meio de comunicação de massa
menos estudado até a presente data. A bibliografia internacional
sobre o objeto é pequena, dispersa e bastante precária
em alguns aspectos. A questão da linguagem do rádio
é um dos pontos em que essa literatura é ainda bastante
insatisfatória. Mais de cem anos depois da apresentação
pública da invenção de Marconi, e três
quartos de século desde que a primeira emissora regular de
radiodifusão entrou em funcionamento, continuamos sem definir
esta linguagem em sua especificidade. Ou, em outras palavras, continuamos
sem compreendê-la.
No mundo de língua portuguesa, a situação é
ainda mais grave neste sentido. Não produzimos quase nenhum
conhecimento a respeito da linguagem do rádio, e sequer traduzimos
o que o resto do mundo produziu. Estamos fora do diálogo acadêmico
internacional sobre este tema. O conhecimento técnico indispensável
ao exercício profissional é socializado predominantemente
de uma forma pré-letrada, típica das sociedades primitivas:
aprendemos na prática com os mais experientes, esses quando
morrem levam para o túmulo os seus conhecimentos, os novos
recomeçam do zero, nada se acumula, muito pouco evolui.
De tanto em tanto, procuramos nos atualizar em relação
ao que está sendo feito no que consideramos o "primeiro
mundo". Vai lá alguém, vê como funciona e
traz uma receita para ser aplicada em nossos países. Aplicamos
a receita, muitas vezes sem a entender, em nome da modernidade, até
que aquilo se torne o habitual e apague o que se fazia antes. Guiamo-nos
pelos ecos de problemas e soluções distantes, não
percebemos as frases todas, perdemos o fio dos enunciados e os seus
contextos. Desta forma, temos nos contentado muitas vezes com meias-verdades
a respeito da linguagem do rádio, e ocasionalmente cometemos
lamentáveis enganos ao ensinar nossos alunos de radiojornalismo
a aplicá-las ao pé da letra.
Primeira
meia-verdade:
"A linguagem do rádio é uma forma de oralidade"
Dois
fatos mais ou menos recentes protagonizados por indígenas brasileiros
ajudam a compreender um pouco melhor os valores da nossa civilização.
O primeiro é o gravador do Juruna: um cacique xavante chamado
Juruna cansou de negociar acordos com o governo. O homem branco nunca
cumpria o que prometia. Juruna passou a andar com um gravador a tiracolo,
gravando tudo o que os políticos lhe diziam para depois poder
cobrar. O gravador do Juruna teve um grande efeito midiático
e virou um símbolo contra a malandragem dos políticos.
O cacique entrou assim no mundo da política do homem branco,
foi eleito deputado federal pelo Rio de Janeiro e se tornou uma celebridade.
Mas não conseguiu, com suas gravações, fazer
com que os brancos cumprissem o que diziam. Com base nesta experiência,
uma outra tribo da amazônia sequestrou alguns funcionários
do governo para que esse atendesse as suas reivindicações.
Mas, desta vez, não houve conversa que os convencesse a libertar
os reféns: só o fizeram quando suas exigências
sairam publicadas no Diário Oficial da União. Os índios
aprenderam que no mundo dos brancos, como no jogo do bicho, só
vale a escrita.
Neste mundo, o rádio, como a TV, é classificado no âmbito
das formas de comunicação oral, em oposição
às formas escritas. Isso serve para alimentar um certo desdém
em relação às possibilidades destes meios, inclusive
por parte dos próprios jornalistas, uma vez que em nossa cultura
a oralidade é identificada com o atraso, com o analfabetismo,
e não goza do prestígio intelectual que possui a escrita.
De fato, o uso da escrita representou um salto tecnológico
extraordinário na história da humanidade, e a partir
dela aconteceriam todos os outros que moldaram e continuam moldando
a forma atual da nossa civilização. Como propõe
Jack Goody, a escrita representou a domesticação do
pensamento selvagem: criando a forma de enunciação diferida,
potencializou a análise crítica e a acumulação
de conhecimentos. Liberou a memória de seus limites naturais
- que eram o cérebro dos indivíduos - para torná-la
objetiva e capaz de vencer as distâncias do tempo e do espaço.
Sem estes distanciamentos, toda a ciência que conhecemos seria
impossível e, sem ela, o rádio também seria impossível.
A dicotomia entre oralidade e escrita serve para explicar muita coisa
na história da humanidade, mas já não explica
mais tudo. Estes dois conceitos foram forjados antes do surgimento
de um novo fenômeno, um novo salto tecnológico talvez
tão grande quanto o que até então serviam para
expressar: a chegada da eletrônica. É impossível
prever hoje até onde vai esta revolução, porque
estamos vivendo apenas a sua proto-história. Mas autores como
Pierre Lévy já arriscam definí-la como um "terceiro
tempo" na história intelectual humana, que supera a escrita,
embora sem extinguí-la, assim como essa superou (também
sem extinguir) a oralidade.
Se a escrita representou a possibilidade do diferido, alterando os
condicionamentos espaço-temporais da produção
intelectual, a eletrônica inaugurou o tempo real, que modifica
mais uma vez estas condições. A escrita possibilitou
ao enunciado percorrer as distâncias, mas com isso perdia o
contexto da enunciação. O tempo real anula agora essas
distâncias, e leva junto enunciado e enunciação.
O tempo real da eletrônica acaba com o isolamento dos enunciados,
coloca todos em relação. O hipertexto eletrônico
expõe agora na prática o que Mikhail Bakhtin havia demonstrado
na teoria: que nenhum enunciado pode ser entendido isolado, que todos
fazem parte de uma cadeia infinita de conversação. Todos
os enunciados são respostas a enunciados anteriores, e pressupõem
novas respostas já no ato de sua enunciação.
O rádio, precursor do tempo direto com o telégrafo e
o telefone, revela-se agora como uma manifestação precoce
deste novo estágio intelectual eletrônico. Não
representa um retorno à oralidade, mas um passo adiante em
relação à escrita que engloba ambas e cria uma
nova situação. A oralidade no rádio é
apenas a sua manifestação aparente, é uma oralidade
virtual: há um mundo de escrita e um modo eletrônico
por trás de sua produção.
Segunda
meia-verdade:
"A linguagem do radiojornalismo é simples porque o som
é material pobre"
No
prefácio da edição francesa das Norme per la
redazione de un testo radiofonico, que o escritor Carlo Emilio Gadda
produziu para a RAI italiana, o filósofo Guillaume Monsaingeon
manifesta-se inconformado com a sua postura. Gadda, que é conhecido
por revolucionar a forma literária, defende para a rádio
um texto absolutamente bem comportado, drasticamente limitado a uma
simplicidade absoluta. Defende inclusive a autoridade da redação
da RAI para vetar qualquer texto que fuja a este padrão.
O que Monsaingeon não percebe é que a simplicidade alcançada
pela linguagem do rádio não é uma manifestação
de penúria intelectual. Ao contrário, é uma forma
superior de expressão. Quem se dedica a ensinar os outros a
escrever para o rádio sabe o quanto a simplicidade é
difícil de alcançar. Expressar pensamentos e situações
complexas de uma forma simples é tarefa que exige um esforço
extraordinário de abstração. Fazer isso bem feito
é uma habilidade pouco comum. Charles Chaplin a identificava
com as mais elevadas formas de arte.
O professor Nilson Lage defendeu em sua tese, na área de letras,
o que identifica como "texto de alta comunicabilidade".
O que caracteriza este texto é a capacidade de transmitir uma
mensagem relativamente complexa a um máximo de receptores diversos
com repertórios diferentes. Lage dá dois exemplos deste
tipo de texto, que foram capazes de resistir ao tempo, às traduções
e às variações culturais: o Gênesis da
Bíblia e o Manifesto Comunista de 1848 de Marx e Engels. Os
dois textos, que têm mantido uma eficiência quase universal
na transmissão de suas mensagens através do tempo, possuem
uma organização semelhante. A simplicidade adotada no
rádio é uma forma de organização do texto
que persegue a comunicabilidade.
A simplicidade do rádio também tem uma explicação
econômica: ela atende às exigências de rapidez
da informação na sociedade industrial. Por sua velocidade
de funcionamento e também por sua complexidade, a sociedade
industrial depende da informação rápida e abundante
para monitorar seu funcionamento. O rádio é uma instituição
chave na produção desta informação necessária.
A imediaticidade, a versatilidade, a ubiquidade e a facilidade de
recepção do rádio ainda não foram alcançados
por nenhum outro meio, e isso se deve à simplicidade e praticidade
de sua linguagem sonora.
A simplicidade da linguagem do rádio, desta forma, é
determinada mais por seus objetivos do que por seu material. O som,
na verdade, é um material complexo e, em certo sentido, muito
mais complexo do que a escrita. A palavra sonora agrega ao sistema
digital da escrita um componente analógico que multiplica,
quase ao infinito, a sua capacidade de produzir significados. O manual
de Robert McLeish dá um exemplo prosaico, porém ilustrativo,
deste potencial. Na leitura da frase escrita "o que você
quer que eu faça com isso?" pode-se construir cinco significados
diversos, enfatizando-se a entonação das palavras "você",
"quer", "eu", "faça" ou "isso".
A complexidade do material sonoro também fica clara quando
se observa, além da palavra, seus demais componentes na linguagem
do rádio: combinando apenas alguns poucos sons isolados matematicamente,
a música produz milhares de composições e centenas
de estilos. E os ruídos captados na natureza e no mundo humano,
quando não isolados matematicamente, elevam a possibilidade
de combinações ao infinito. Neste ponto de vista, combinar
palavra, música e ruídos num programa de rádio
pode ser muito mais complexo do que compor uma sinfonia para orquestra.
A limitação não é dada pelo material,
é determinada mais por convenções desenvolvidas
a partir de necessidades práticas, ou seja, pelo seu uso.
Terceira
meia-verdade:
"O discurso do rádio deve ser natural porque é
falado"
Essa
meia-verdade tem sido incutida na formação profissional
com tanta insistência que dificilmente é posta em questão.
Como estratégia pedagógica se justifica, e tem por objetivo
salientar aos profissionais os vícios que desenvolveram na
escrita, que são muito difíceis de superar no caso dos
jornalistas, cuja formação enfatiza e valoriza esta
forma de expressão. No entanto, a naturalidade na frente do
microfone deve ter pouco de natural.
A naturalidade no rádio é análoga à naturalidade
no cinema, que também foi enfatizada para romper com os modos
teatrais desenvolvidos no aprendizado da profissão de ator.
Como no cinema, será tão mais eficiente quanto mais
for planejada, testada e calculada minuciosamente, ou seja, quanto
mais for artificial. Um ator que aja naturalmente só será
capaz de expressar a si próprio, não será capaz
de encarnar a personalidade diferente de cada um de seus personagens.
O jornalista de rádio também tem um papel a desempenhar
na frente do público, que não vai representar bem se
portar-se da mesma maneira como se porta em sua vida privada. De forma
consciente ou não, vai sempre assumir esse personagem em frente
ao microfone. Quanto mais conscientemente o fizer, mais será
eficiente na sua função.
Assim, o jornalista de rádio não tem que agir com naturalidade,
mas sim com eficiência no domínio de sua linguagem falada.
O ideal é que desenvolva a tal ponto esta eficiência
que ela se torne "como que natural". Para isso não
deve representar uma espontaneidade, precisa tornar espontânea
a sua representação. O caminho passa por um aprendizado
do uso da linguagem falada - como vimos, mais complexa do que a escrita
- e por um treinamento intensivo do uso da voz.
Quarta meia-verdade:
"O radiojornalismo é uma forma de jornalismo audiovisual"
Se
Eva foi criada com a costela de Adão, a televisão foi
criada com a medula do rádio. Os gêneros e a concepção
dos programas, o pessoal que os produzia e os recursos que os sustentavam
foram transferidos para o novo meio. O rádio ficou paralisado
por um bom tempo, e até hoje tem dificuldade em recuperar seus
movimentos: basta alguma idéia ou algum profissional se destacar
em seu corpo para ser sugado pelo cordão umbilical insaciável
da cria. A competição entre os dois organismos é
desproporcional, e com ela o rádio acabou por perder até
o direito a uma identidade própria.
Dizer que o rádio é audiovisual, como se costuma dizer
na Europa, é uma meia verdade evidente. Falta-lhe o visual
para ser uma verdade inteira. Mais apropriado seria reconhecer que
não se lhe dá importância suficiente para merecer
atenção individualizada por parte dos governos, das
empresas, das instituições e das literaturas técnica
e acadêmica. Essa importância é de fato discutível
diante dos interesses que a definem, mas do ponto de vista da linguagem
o aspecto não verdadeiro da proposição fica saliente.
A linguagem do rádio tem inúmeros pontos de contato
com a linguagem audiovisual da TV, principalmente pelo fato de lhe
ter dado origem e pela base eletrônica que é comum a
ambas. Um dos pontos em comum é de que o texto, tanto no rádio
como no audiovisual, não é um produto final, mas apenas
uma etapa intermediária da sua produção. Nos
dois casos o texto é apenas um esqueleto, que vai ganhar carne
com o acréscimo de outros elementos de linguagem no momento
da sua realização.
Outro ponto comum é o fato de ambas as linguagens se organizarem
no tempo. Mas aí se encontra também uma diferença
fundamental. O audiovisual se organiza no tempo, mas tem também
um componente espacial definido: o plano limitado pelas margens da
tela. Este componente espacial representa um elemento estático,
cuja modificação no tempo produz a linguagem audiovisual.
O som puro não possui nenhum elemento estático. Por
definição, som é movimento, e quando pára
o movimento pára o som. O som não acontece dentro de
um espaço fixo como a imagem: os contornos do seu espaço
são os contornos do próprio som. Quanto toca uma campainha,
o som enche todo o espaço alcançado por sua potência,
quando ela silencia não ocupa espaço nenhum. No audiovisual,
ao contrário, a tela é fixa e está sempre ali.
Quando o apresentador de um telejornal nos fala, só dez por
cento da imagem é que se move. Noventa por cento da tela permanece
estática. A voz sem corpo do apresentador de rádio move-se
completamente, e some no nada no momento seguinte. A ausência
do elemento estático determina algumas características
da linguagem do rádio: ela será muito mais ágil,
muito mais rápida, mas ao mesmo tempo muito mais fugaz.
A teoria da relatividade de Einstein coloca uma questão interessante
para a linguagem do rádio: segundo esta teoria, as três
dimensões do espaço e a quarta do tempo não tem
nenhuma diferença entre si, a não ser pelo fato de que
a nossa consciência se move pela linha do tempo. A linguagem
do rádio se move pela mesma linha que a nossa consciência,
e ao contrário do que ocorre no audiovisual ela não
possui os elementos espaciais fixos que servem como referência
externa a este movimento. Assim, não nos permite o mesmo distanciamento
(que pode ser ainda maior diante da linguagem escrita). Isso talvez
explique porque a linguagem do rádio é tão persuasiva
e tão envolvente. Em pesquisas de opinião realizadas
em diversos países, o rádio aparece como o meio de comunicação
que tem maior credibilidade junto ao público, embora provavelmente,
por sua velocidade de produção, seja também o
que erre mais.
A colocação do rádio no âmbito do audiovisual
é uma meia-verdade que também tem servido a fins pedagógicos,
para diferenciar a sua linguagem da utilizada pelo jornalismo impresso.
Mas, como a anterior, ela só é válida enquanto
antítese. O material sonoro a que o rádio dá
forma tem uma natureza diferente, e esta especificidade precisa ser
compreendida para evitar equívocos. O principal desses equívocos
é tentar entender a linguagem do rádio a partir dos
parâmetros do cinema, o que conduz à quinta meia-verdade
que vamos analisar.
Quinta
meia-verdade:
"A linguagem do rádio é semelhante à cinematográfica"
Nas
últimas quatro décadas, foram lançados dois livros
na Europa com o mesmo título: "a linguagem radiofônica".
O primeiro foi publicado na França por Etienne Fuzelier em
1965. O outro na Espanha, pelo catalão Armand Balsebre, em
1994. Ambos são livros interessantes, trazem inúmeras
informações e observações originais sobre
o rádio que vale a pena conhecer. Mas ambos cometem o mesmo
erro metodológico, que é o de tentar enquadrar a linguagem
do rádio na sintaxe plano-sequência do cinema.
O rádio de fato se apoiou na experiência do cinema no
seu alvorecer: quando começaram a funcionar as primeiras emissoras
regulares de radiodifusão, na década de 20, o cinema
ainda era a preto e branco e mudo, mas já vivia a sua adolescência
e havia superado a etapa em que foi um teatro filmado. Além
disso, já havia conquistado o reconhecimento como "sétima
arte". Para ser a oitava, o rádio viu logo que não
bastaria transmitir o que as outras artes produziam - teatro, música,
ópera, literatura - e que além de tudo essas transmissões
não eram satisfatórias devido a sua cegueira. Muitos
exemplos do cinema então foram úteis, e o radioteatro
adotou o conceito de montagem, os fades, as fusões, e várias
outras técnicas cinematográficas.
Mas a imitação do cinema também encontrou seus
limites. Este caminhava em direção a um cada vez maior
naturalismo, que a chegada do som e das cores só iria reforçar.
O rádio, sem imagem, tem um limite muito concreto para reproduzir
o real. No radiodrama só aparece em cena o que tem voz, o que
soa e, se muitas coisas soarem ao mesmo tempo, uma mascara a outra
e já não aparece coisa nenhuma. Cenários, costumes,
ambientes e situações no rádio só podem
ser sugeridos. E, se forem sugeridos exageradamente, sobrecarregam
a cena, prejudicando o principal que é a ação
dramática.
O som também não está contido num espaço
fixo e não tem elementos estáticos, como já referimos.
Daí que seja impossível isolar um plano como o cinematográfico
na linguagem do rádio. Como admite Fuzelier, o plano no rádio
confunde-se com a sequência. Assim, o uso da sintaxe plano-sequência
já não explica a estrutura de sua linguagem.
Além disso, há um outro fator que afastou o rádio
dos passos do cinema. Desde o seu surgimento, o cinema foi uma arte
produzida em diferido. O rádio primitivo era todo ao vivo,
pois não contava ainda com os recursos fonográficos
com que conta hoje. Ainda agora, contando com esses recursos, o rádio
continua funcionando muitas vezes ao vivo, e isso é mais um
fator que o afasta da sintaxe do cinema. A TV, que veio depois, também
não segue os passos do cinema quando funciona em tempo real:
pelo contrário, ela segue os passos do rádio.
A analogia da linguagem do rádio com a do cinema, assim, se
mostra bastante capenga, e só se sustenta em alguns autores,
como Balsebre, validando as próximas meias-verdades que vamos
analisar.
Sexta meia-verdade:
"O ouvinte complementa a mensagem do rádio com sua imaginação
visual"
Esta,
provavelmente, é a meia-verdade mais fascinante. Logo que começou
a funcionar a TV na Inglaterra, houve uma menina que disse: "prefiro
ouvir as estórias no rádio, porque os seus cenários
são mais bonitos". Esta frase está reproduzida
em vários livros sobre rádio e é difícil
resistir a sua lógica por causa do seu encanto. Em primeiro
lugar, é necessário dar um desconto: realmente os cenários
da TV, quando esta começou em preto e branco, com enormes câmaras
trancafiadas no estúdio, e realizada só ao vivo, eram
bastante precários.
Lembro de uma cena que assisti na infância na TV Piratini de
Porto Alegre: Dom Pedro I, levantando a espada para proclamar a independência
do Brasil. A espada tocou numa árvore, que caiu sobre o painel
em que estava pintado o Riacho Ipiranga, e todo o cenário foi
ao chão. Tiveram que suspender a emissão.
O rádio em tempo real também não está
nunca livre dos vexames. Conta-se que numa peça de radionovela
produzida no Rio Grande do Sul aconteceu de um personagem advertir
ao outro: "você está na mira do meu revólver,
prepare-se para morrer". Neste momento, o responsável
pela sonoplastia errou a faixa do disco de efeitos, e em vez do som
dos tiros se ouviu o mugido de uma vaca. Depois de uns poucos segundos
intermináveis de silêncio, o ator resolveu salvar a cena
e disse: "e não adianta se esconder atrás da vaca,
que eu lhe mato do mesmo jeito". A cena se passava num apartamento,
é verdade, mas o desastre foi menor do que o de dom Pedro na
TV.
A vaca no apartamento, comparada com o cenário caído
no chão, mostra o poder evocativo da palavra no rádio,
que é tão extraordinário como na literatura e
muito mais do que no audiovisual. A cegueira do rádio permite
que a sua narrativa nos conduza de uma situação para
outra diferente, de um diálogo para o pensamento de um personagem,
de uma situação concreta para uma idéia abstrata.
E nada disso parece absurdo, porque funciona da mesma forma que o
nosso devaneio.
O rádio pode evocar imagens visuais no ouvinte, mas não
só visuais. Nossa memória não é um arquivo
de slides, guarda também olfatos, sabores, sensações
táteis e melodias. Guarda principalmente nossa compreensão
e nossas emoções a respeito dos fatos da vida. A linguagem
do rádio evoca facilmente tudo isso.
Mas o que torna mais eficiente esta linguagem é que ela escolhe
o que evocar. Ou seja, ela pode também não evocar coisa
nenhuma. Num programa de notícias, por exemplo, dificilmente
alguém imagina o aspecto do jornalista que fala no microfone,
ou pensa como será o formato do estúdio em que isso
ocorre. Esses dados são omitidos da comunicação
porque não são importantes para ela.
Na "estética radiofônica" que escreveu em 1936,
o alemão Rudolf Arnheim nota que o rádio pode operar
admiravelmente a "lei da economia" que governa toda a obra
de arte: só deve participar dela o que contribui para o seu
significado. Com base nisso, sustenta que, no rádio, a imaginação
visual do ouvinte só deve ser chamada quando tem algo a contribuir.
Fora disso, é um ruído na comunicação,
atrapalha e não tem sentido, como não teria pintar uma
estátua com a cor da pele. Muitos autores, no entanto, desconsideram
este aspecto e consideram a imaginação visual do ouvinte
como um componente permanente e necessário na linguagem do
rádio.
Sétima
meia-verdade:
"A linguagem do rádio é uma combinação
de músicas, ruídos, palavras e silêncios"
A
sétima meia-verdade que vamos considerar é a que define
assim a linguagem do rádio. Ela pode acrescentar que essa composição,
como a da música, se dá tanto numa linha horizontal,
paralela à do tempo, com a edição ou montagem
de sons consecutivos, quanto numa linha vertical, perpendicular àquela,
pela mixagem ou mistura de vários sons simultâneos.
As melhores análises vão ainda esmiuçar cada
um dos sub-sistemas semióticos que compõem esta linguagem,
como o da música ou o da palavra, e descrever as suas funções
no todo. Quase todas, no entanto, vão parar por aí,
sem notar que descreveram tanto a linguagem do rádio quanto
a da fonografia, e que não distinguiram entre elas.
A confusão, por um lado, deve-se à própria estrutura
ambígua das emissoras de rádio que, com exceção
do que diz respeito à música, acumulam as funções
de emissoras propriamente ditas com as de produtoras fonográficas
- quando produzem programas gravados. Por outro lado, devem-se também
a uma limitação teórica da maior parte dos estudos
de linguagem: para dissecar uma língua, como o corpo de um
animal, é quase sempre preciso matá-la.
A linguagem do rádio, uma vez morta, uma vez considerada como
"linguagem dada", não se distingue em nada da linguagem
fonográfica. O que a distingue é que ela não
existe na realidade enquanto "dada", existe apenas "dando-se"
como discurso. Seja transmitindo ao vivo, seja transmitindo em diferido
um produto fonográfico que assim atualiza, ou ainda combinando
estes dois elementos, como normalmente o faz, o rádio transmite
sempre no presente individual do seu ouvinte e no presente social
em que está inserido, ou seja, num contexto intersubjetivo
compartilhado entre emissor e receptor: num tempo real. Ao contrário,
na fonografia, como no cinema, emissor e receptor estão separados
pelo tempo e o contexto não é compartilhado por eles.
Objetos inanimados, agem como robôs programados para se repetirem.
Quando um enunciado diferido é incluído no contexto
do discurso presente dos meios eletrônicos (uma sonora, uma
música, um filme), deixa de ser o mesmo: cumpre função
diferente daquela para a qual foi concebido por seus autores originais.
De enunciado autônomo, passa a fazer parte de um enunciado maior
(uma notícia, um programa, uma programação) que
tem outro autor, outra intenção, outra leitura, outra
enunciação, outra relação com a realidade.
O objeto inanimado funciona então como prótese de um
corpo vivo.
Uma
última meia-verdade:
"E era de ouro do rádio está no passado"
Em
finais dos anos 40, com a entrada triunfal da TV no mercado da mídia
dos Estados Unidos, a revista Time profetizou que, cedo ou tarde,
a televisão tornaria o rádio tão obsoleto quanto
o transporte a cavalo. Mais de meio século depois, já
não parece tão cedo para concluir que a previsão
foi furada. Estima-se hoje que existam dois bilhões de receptores
de rádio em atividade no mundo. Nos Estados Unidos, no Brasil,
e em todos os países que fizeram a comparação,
a audiência de rádio é maior do que a de TV
durante dezoito horas por dia. Ainda nos Estados Unidos, o rádio
é a principal fonte de informação da população
durante o período da manhã.
Apesar dessas evidências de que o rádio não
se encaminha para a extinção, aquela previsão
tem ainda um efeito desconcertante para os profissionais do rádio
e para a maior parte dos seus teóricos. Tal como os monarquistas
destronados, vivem o sonho de reabilitar o passado. Acreditam que
o melhor do rádio é aquilo que ele não tem
mais.
Esta nostalgia tem algo mais em comum com aquela que nos provocam
as mais belas histórias da nobreza: oculta a imensa pobreza
que circundava os salões das cartolas e casacas. No caso
do rádio, o jornalismo sempre foi o primo pobre dos espetáculos
que se faziam nos auditórios. Primeiro, por ser um diferente
gênero de discurso, não podia adotar a maior parte
das convenções desenvolvidas pelo rádio enquanto
arte e espetáculo: seu compromisso era informar a realidade,
não criar uma realidade própria. Depois, porque cumpria
a sua finalidade através de condições técnicas
absolutamente precárias se comparadas às atuais. Não
havia computadores nem satélites, não havia gravadores
magnéticos, a rádio-comunicação era
sofrível, as linhas telefônicas eram escassas e poucos
confiáveis, o celular era ficção científica.
É lamentável a perda do espaço do rádio
enquanto expressão artística, que foi quase exterminado
no Brasil. Felizmente, esta perda não é total: existem
registros e bibliografia sobre essa forma de expressão que
a tornam recuperável, e hoje já se ouve radioteatro
na internet. Nos países que possuem uma rádio estatal
que se valoriza, o radiodrama ainda está bem vivo: a BBC
de Londres, em plenos anos 90, produziu mais de quinhentas obras
originais por ano, selecionadas entre os mais de dez mil roteiros
que recebe anualmente.
Quanto ao rádio informativo, os seus dias dourados são
certamente os de hoje e, se algum tempo for melhor do que esse,
este tempo está no futuro. Há mais a aprender sobre
a sua linguagem no futuro do que no passado, embora lá também
se possa aprender alguma coisa. A instauração de uma
era intelectual eletrônica redefine a função
do rádio informativo no caminho de sua verdadeira vocação:
a partir de agora, ele será para o público uma interface
sonora com o hipertexto multimídia que vai expressar a aventura
intelectual de nossa civilização. Uma aventura em
que o jornalismo representa um dos papéis principais, contracenando
com as ciências e com as artes.
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