Polêmicas.
Pelo menos duas cercam a transmissão radiofônica pioneira
no Rio de Janeiro, que em 1922 era Distrito Federal e capital da República.
A primeira polêmica, anterior à demonstração
inédita durante as festividades do Centenário da Independência,
em setembro de 1922, envolveu a ocupação do espaço
urbano em que aconteceria a transmissão experimental. Os pavilhões
da feira internacional comemorativa, por onde foram distribuídos
os alto-falantes que irradiaram a novidade sonora, haviam sido construídos
entre 1921 e 1922 na esplanada que surgiu com o desmonte do Morro
do Castelo, elevação situada no lado carioca da entrada
da Baía da Guanabara. "Berço da cidade, referência
constante no cotidiano da capital desde os tempos coloniais, o 'velho'
Castelo estava associado a uma tradição e a um passado
que deveriam necessariamente ser repensados em um contexto de comemoração
do Centenário da Independência". Com o morro arrasado
pretendia-se preparar a capital do país para o ingresso na
modernidade, ao estilo das capitais européias, deixando para
trás as características coloniais defendidas por uma
parcela da população local e representadas de forma
inequívoca nas construções e rotinas de vida
das vielas do Castelo.
O rádio aparece no Rio de Janeiro em meio a esse espírito
de modernização urbana, como meio de comunicação
tradutor por excelência do "novo" que começava
a ser mostrado à sociedade naquele início do século
XX. Os ecos de admiração país afora provocados
pela transmissão experimental sonora no ambiente comemorativo
montado na Esplanada do Castelo geraram a segunda polêmica.
A capital da República não teria sido a única
cidade a sediar emissão radiofônica pioneira: em Recife,
abastados, intelectuais e jornalistas - reunidos em um grupo amador
de recepção telegráfica - haviam fundado em abril
de 1919 o Rádio Clube de Pernambuco, realizando também
em 1922 alguns testes com transmissores franceses de radiotelegrafia.
Independente das polêmicas, a primeira emissora carioca, Rádio
Sociedade do Rio de Janeiro, foi fundada em abril de 1923 pelo médico,
antropólogo, cientista e professor Edgard Roquette Pinto. Para
tanto, contou com a participação ativa do presidente
da Academia Brasileira de Ciências, o astrônomo e engenheiro
industrial Henrique Morize, também nomeado o primeiro presidente
da Rádio Sociedade. O fato de ser resultado da iniciativa de
cientistas determinou o caráter educativo da emissora, modelo
que seria adotado pelas estações pioneiras instaladas
na capital e em outros pontos do país no ciclo inicial de dez
anos do rádio brasileiro, compreendido entre 1922 e 1932.
Durante as fases de implantação e consolidação
da mídia rádio no conjunto da sociedade do Rio de Janeiro,
os endereços ocupados tanto pela Rádio Sociedade como
pelas emissoras precursoras servem como elementos apropriados para
rastrear a inserção das estações no espaço
urbano da capital da República. Contribuem ainda para que tenhamos,
hoje, uma noção mais aproximada do ambiente formado
pelas forças políticas, econômicas, sociais e
acadêmicas em meio ao qual se instalou, na época, a nova
mídia. Anunciada nos salões da Academia Brasileira de
Ciências, a Rádio Sociedade teve seus transmissores instalados
em seguida no anfiteatro de Física da Escola Politécnica.
Ocupou os salões do torreão da Casa Guinle, nas imediações
da Avenida Rio Branco, até passar para o Pavilhão da
Tchecoslováquia, construção cedida pelo governo
daquele país depois de encerrada a feira internacional do Centenário
da Independência.
Do prédio erguido na Esplanada do Castelo, a Rádio Sociedade
começou a transmitir sua programação para a cidade.
Registro daquele período indica que, "em 7 de setembro
de 1923, já de posse da Estação Pekan que lhe
fora oferecida pela Casa Pekan, de Buenos Aires, começou a
transmitir regularmente. Na sua sede atual, a Companhia Radiotelegraphica
Brasileira instalou a estação Marconi, de que se serve
a Rádio Sociedade. Essa estação tem potência,
no primário, de 6kw, transmitindo em onda de quatrocentos metros".
No trecho urbano planejado para aparecer ao mundo como vitrine da
atmosfera existente no Brasil, símbolo de outra etapa na trajetória
de desenvolvimento da nação, instala-se em definitivo
o novíssimo meio de comunicação eletrônica,
o rádio. Na década de 1920, como centro do poder decisório
nacional, o Rio de Janeiro, então Distrito Federal, refletia
o espírito da época na ocupação do centro
da cidade. As transmissões da Rádio Sociedade difundiam
o avanço da tecnologia de comunicação à
distância, gerando impulsos sonoros disseminados na forma de
discursos e peças musicais, e repercutiam os acontecimentos
para a sociedade local e nacional.
Na seqüência de implantação das novas emissoras,
entre as seis estações fundadas nas décadas de
1920 e 1930 algumas seguiram roteiro de vínculo urbano semelhante
ao da rádio pioneira, estabelecendo-se em endereços
no centro, enquanto outras estações alojaram-se na zona
portuária da cidade. O Rádio Club do Brasil, grupo reunido
pelo engenheiro Elba Dias, criou a sua primeira sede em 1924 no Largo
da Carioca, "nos altos da Livraria Globo e mandando para o ar
a PRA-3" . Estava, então, a emissora, vinculada a uma
livraria. A Rádio Educadora do Brasil, ao surgir em 1926, também
se instalou no centro do Rio de Janeiro. No mesmo ano, a Rádio
Mayrink Veiga passou a funcionar como um departamento da Casa Mayrink
Veiga, de importação e exportação, localizada
na região portuária da Praça Mauá, na
então Rua Municipal nº 20. Alguns anos depois a rua teve
o nome trocado para o da Rádio, desde então abrigada
em prédio próprio, onde funcionou até o seu fechamento
pelo regime militar em 1965.
A Rádio Cruzeiro do Sul (depois Tamoio) foi a única
a se estabelecer fora do eixo centro-zona portuária, funcionando
por um breve período, em 1933, em uma casa na Rua Mariz e Barros,
no bairro da Tijuca. Em seguida teve o estúdio transferido
para a Cinelândia, mais precisamente para o 10º andar do
edifício do cinema Império. Na Rádio Cruzeiro
do Sul começaram os programas de calouros em 1935, comandados
por Edmundo Maia e Paulo Roberto e, mais tarde, por Ari Barroso. Coração
político-cultural do Rio de Janeiro, a Cinelândia reunia
os prédios da Biblioteca Nacional, do Museu Nacional de Belas
Artes, do Theatro Municipal, do Supremo Tribunal Federal, do Senado
Federal, da Câmara do Distrito Federal e dos cinemas Pathé,
Odeon e Império. Em ruas próximas funcionavam teatros
populares, como o Rival (onde os senadores apreciavam as vedetes dos
teatros de revista, algumas delas cantoras no rádio), e o Tabuleiro
da Baiana, ponto final dos bondes que ligavam o Centro à Zona
Sul, localizado ao lado do prédio do Hotel Avenida. Em 1935,
a Rádio Jornal do Brasil incorporou-se ao seleto círculo
de emissoras sediadas no centro do Rio, inaugurada na sede do jornal
na Avenida Rio Branco. A Rádio Tupi do Rio de Janeiro, pioneira
da rede emergente das Emissoras Associadas, vinculadas ao grupo impresso
Diários Associados, de Assis Chateaubriand, instalou-se ainda
em 1935 na zona portuária do Santo Cristo, mais tarde mudando-se
para os arredores da Praça Mauá. Em 1936, a Rádio
Transmissora Brasileira, canal pertencente à gravadora de discos
RCA Victor, instalava-se no 4º andar do prédio da empresa,
na Rua do Mercado nº 22, no centro da cidade. A emissora serviu
como 'berço' de um elenco artístico que em alguns anos
figuraria entre as atrações da Rádio Nacional,
reunindo profissionais como Radamés Gnatalli, Nelson Gonçalves,
Sílvio Caldas, Almirante e Orlando Silva.
Experiência ímpar na década de 1930 - por nascer
na contramão dos padrões das emissoras comerciais, que
passam a predominar a partir de 1932 com o decreto de Getúlio
Vargas autorizando a publicidade no rádio - havia entrado no
ar em 1934, pelas mãos do já então também
radialista Edgard Roquette Pinto e do educador Anísio Teixeira,
a Rádio Escola Municipal do Distrito Federal. Inaugurada no
dia 6 de janeiro, os seus estúdios ficaram provisoriamente
instalados em prédio localizado no Largo da Carioca, onde Roquette
Pinto organizava o Instituto Nacional de Cinema Educativo (INCE).
A Rádio Escola nascia então vinculada a um projeto cultural
de âmbito federal. Freqüentavam o endereço no Largo
da Carioca jovens cineastas, como o mineiro Humberto Mauro, e o renomado
compositor Heitor Villa-Lobos, musicando filmes educativos idealizados
pelo antropólogo Roquette Pinto.
A emissora que durante toda a década seguinte influenciaria
a composição do perfil das rádios comerciais
brasileiras nasceu discretamente, em maio de 1933, no berço
da zona portuária, Praça Mauá nº 7, com
o nome de Sociedade Civil Brasileira Rádio Nacional. Abrigada
no imponente prédio do edifício de A Noite - vespertino
fundado em 1911 por Irineu Marinho e Joaquim Marques da Silva, que
na metade dos anos 30 havia se transformado no diário de maior
circulação no Rio de Janeiro, com redação
e administração espalhadas em vários andares
do maior arranha-céu da América do Sul - a Rádio
Nacional que se projetaria originou-se de dois momentos, anos mais
tarde, com a incorporação dos transmissores da companhia
holandesa Philips e a alteração nos estatutos da sociedade.
Em 1935, a emissora adquiriu os equipamentos recém-importados
pela Rádio Philips, em operação desde março
de 1930, que havia optado por encerrar suas transmissões e
o projeto empresarial de manutenção de emissora própria
no país para incentivar a comercialização dos
aparelhos receptores produzidos pela mesma fabricante. Em 1936 a Sociedade
alterou os estatutos. Os fundadores elevaram o capital, de 100 contos
de réis para 1.700 contos de réis, com novas cotas subscritas
pelos oito sócios, e autorizaram o presidente da Sociedade
a adquirir uma estação de radiodifusão de 20kw.
Integrante do grupo A Noite, a partir de 1936 a Sociedade Civil Brasileira
Rádio Nacional inovou ao instituir o contrato como forma de
relacionamento trabalhista com os seus profissionais. Até então,
a maioria daqueles que trabalhavam no rádio recebiam por meio
de cachês a cada participação em programas. Entre
os nomes reunidos entre 1936 e 1939 pela Rádio Nacional figuram
os maestros Radamés Gnatalli e Romeu Ghipsman, os cantores
e compositores Lamartine Babo e Paulo Tapajós, os speakers
Oduvaldo Cozzi, Celso Guimarães e Aurélio de Andrade,
o sonoplasta Edmo do Vale, os cantores Orlando Silva, Marília
Batista e Araci de Almeida, os produtores Victor Costa, José
Mauro e Almirante.
A estatização da emissora por decreto presidencial de
Getúlio Vargas em março de 1940 completou o ciclo de
consolidação e apogeu da Rádio Nacional. Autorizada
pelo mesmo decreto a operar como estação comercial e
canal de radiodifusão estatal, a emissora beneficiou-se da
dupla fonte de receita (a publicidade e os subsídios governamentais)
entre 1940, data da estatização, e 1945, quando Vargas
deixou o poder. Nesses cinco anos, o 21º e o 22º andares
do edifício na Praça Mauá nº 7 constituíram
o endereço da emissora-referência nacional, justificando
como em nenhum outro momento o seu nome original. O período
final dos 15 anos da era Vargas, iniciada na Revolução
de 1930, foi carregado de simbolismos no que se refere ao relacionamento
mantido entre o Estado e o mais poderoso veículo de comunicação
à época. Dos estúdios e auditório na zona
portuária, a Rádio Nacional transmitia uma programação
elaborada em estreita sintonia com o Palácio do Catete, gabinete
e residência do Presidente, sede do governo da República.
Entre 1940 e 1942 a emissora produziu e transmitiu para boa parte
do Brasil programas de evidente valor cultural. Ritmos musicais, produções
dramáticas, informativos sonoros e atrações em
auditório foram lançados por maestros, compositores,
cantores, atores, autores, apresentadores e produtores que encontraram
no rádio espaço profissional de reconhecido prestígio.
A partir desse período, e nesse contexto, disseminou-se a política
de integração nacional, projetada pelo governo Vargas
para propagar o regime ancorado na ideologia do Estado Novo, da qual
a Rádio Nacional a principal porta-voz. Em 1º de janeiro
de 1943, o alcance da emissora aumenta consideravelmente com a inauguração
de uma estação de ondas curtas e a instalação
de oito antenas para transmissões ao exterior. À política
de integração nacional agregou-se a política
de divulgação internacional. A Rádio Nacional
começou a transmitir, em quatro idiomas e horários variados,
crônicas, notícias e programas cujo conteúdo era
o Brasil - sua cultura, sua gente, sua geografia - tudo de acordo
com o figurino nacionalista getulista.
Pela localização dos estúdios e do auditório
da Rádio, a Praça Mauá e as imediações
da Avenida Rio Branco celebrizaram-se como o reduto dos principais
nomes do rádio local, todos com grande influência nacional.
Não são poucas, nos depoimentos gravados e mantidos
no acervo do Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, as referências
a esse trecho da cidade pelos personagens que viveram a rotina de
produção diária da Rádio Nacional. Paulo
Tapajós, Almirante, Renato Murce, Apolo Correia, Floriano Faissal,
Marlene e Lourival Marques estão entre as vozes que registraram
parte da memória do período ao recordar que muitas peças
musicais, capítulos de radioteatro, marchas carnavalescas,
piadas de programas humorísticos, bem como textos e músicas
de jingles publicitários, foram criados, redigidos ou compostos
nas mesas de bares, leiterias, restaurantes e confeitarias que faziam
parte da aura boêmia que cercava aquele reduzido mas fervilhante
espaço urbano da capital da República na primeira metade
da década de 1940. Mais do que nunca, o espaço urbano
integrava-se à criatividade dos profissionais que, por sua
vez, construíam no espaço radiofônico o ambiente
que permeava o imaginário dos ouvintes e influenciava cultura
popular brasileira.
Oitenta anos depois da primeira transmissão radiofônica,
um passeio pelo centro do Rio de Janeiro pode revelar para o observador
atento às relíquias que se escondem nesse espaço
urbano carioca, alguns vestígios da história do rádio
carioca. Na Praça Mauá, no mesmo prédio que hoje
pertence ao Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI), a
Rádio Nacional AM agoniza no 21º andar. Na região
portuária da Saúde, atrás da Estação
de Ferro Central do Brasil, os estúdios da Rádio Tupi
ocupam salas no prédio de linhas modernas projetado nos anos
1950 por Oscar Niemeyer para a sede dos Diários Associados.