"Tome
uma palavra viva de um velho conto; mescle-a com duas outras em sua
mente. E, então, com três sons comporás não
um som, mas uma estrela".
(John
Livingston Lowes, citado no livro "O Sentido do Cinema",
de Sergei Eisenstein.)
O
mundo moderno parece ter privilegiado a inflação das
imagens frente à inflação dos sons. Imagens em
movimento se dispõem e ocupam até mesmo o espaço
do olhar distraído, enquanto que sons em discurso exigem não
menos que o tempo da atenção introspectiva.
Esse
é um fenômeno mundial.
O
chamado rádio cultural, de vanguarda da mídia a veículo
de comunicação de massa, acabou por se tornar - em formato,
conteúdo e na sua própria evolução - um
dos últimos projetos utópicos dos canais de informação.
Essa
utopia da criação de um "espaço acústico
mental" (na expressão do diretor de áudio-dramaturgia
finlandês Harri Hühtamaki) tem levado o rádio à
descoberta e ao desenvolvimento de muitas e novas formulações,
a desconhecidas possibilidades, a outros estilos e, por que não,
a distintas "visões" aplicadas ao veículo.
Hoje, até pela ausência de maior contato entre as produções,
não há uma tendência para o Rádio: há
várias (felizmente, ao menos o Rádio não-comercial
não se padronizou)!
Seja
como fator cultural ou prática artística, seja como
fenômeno acústico ou ato social - passando pelo documentário,
a ficção, a poesia e a música, até o radicalismo
da experimentação sonora -, esse rádio tem sido
resultado do sonho, empenho e iniciativas individuais, encontrando
seu espaço de realização junto a emissoras sem
fins comerciais ou organismos de apoio à cultura.
O
núcleo mais ousado da experiência radiofônica mundial,
embora orientado por um pequena vanguarda dispersa, e mesmo não
constituindo uma voz única, tem sido responsável pela
elaboração de gêneros inovadores, bem como por
um novo conceito de sonoridade. Falamos do rádio "de invenção",
de um medium criativo, meio que conquistou a própria emancipação
para tornar-se, finalmente, linguagem. Ou, nas palavras do dramaturgo
alemão Klaus Schöning, diretor do Studio Akustische Kunst
da WDR, em Colônia, e um dos maiores promotores na área,
"arte de rádio, não apenas arte no rádio;
veículo que produz, e não apenas reproduz". Daí
sua utopia.
Onde
reside sua contemporaneidade? O que o reveste de modernidade? Na investigação
dos meios tecnológicos, na colaboração com as
outras artes, no contato com expressões sonoras afins e, sobretudo,
numa nova atitude face ao som.
No
século XX, surge um conjunto de linguagens sonoras autônomas
a que Schöning passou a chamar, já a partir da década
de 70, de Ars Acustica - um novo meio de arte que opera "dentro
e fora dos domínios do rádio". Com elas, poderíamos
dizer, configura-se uma estética de estranhamento no terreno
da escuta. E esse é (apenas) seu primeiro ponto de contato.
Um
continuum imaginário atravessa e, ao mesmo tempo, redefine
a evolução simultânea ou paralela dessas tendências.
Podemos esboçar - sem grande relevância propriamente
cronológica - seu percurso paroxístico: música
concreta, eletrônica e eletroacústica; hörspiel
e neue hörspiel alemão; poesia concreta e sonora; text-sound;
documentários e features; paisagens e esculturas sonoras; sound
design, electro clips e áudio-collage.
Fenômenos
acústicos autônomos ou interelacionados? Ambos, se considerarmos
seus respectivos caminhos. (E todos os caminhos orientam o rádio
de arte.)
I. O RUÍDO
Em
1913, o futurista italiano Luigi Russolo publicava seu mais importante
e decisivo texto: "L'arte dei rumori", tratado que propôs
pela primeira vez a incorporação de ruídos à
música, "marcando o princípio de uma fundação
teórica sobre a estética da arte acústica"
(Schöning). Algumas décadas depois, os experimentos radiofônicos
elaborados em fita magnética por Pierre Schaeffer, à
frente do Club d'Essai na Radiodifusão Francesa, acabam por
levá-lo à invenção da música concreta.
A transmissão de seu "Concerto de Ruídos",
no ano de 1948, produzido com sons naturais previamente gravados,
foi um marco tão impactante quanto a publicação
de seu "Tratado dos Objetos Sonoros" em 1966. "Schaeffer,
afirmou o compositor Rodolfo Caesar, gerou a dúvida e perguntas
ainda não respondidas: "- isto é música?
o que é música? o que é a música?".
II. O STUDIO
A
partir dos anos 60, ganha impulso a música eletrônica,
que opera com sons artificiais, gerados sinteticamente, evoluindo,
na década seguinte, para a eletroacústica, que transforma
e manipula sons acústicos. Seu ponto de orientação
tem sido, desde o final da década de 80, um novo conceito amplamente
difundido e discutido pelos pesquisadores e compositores franceses
ligados ao Groupe de Recherces Musicales (GRM, antigo Club d'Essai),
então sob direção de François Bayle: a
Acusmática, teoria aplicada à experiência da escuta
sem reconhecimento de fonte ou objeto sonoro. (Nunca, no universo
da criação sonora, arte & ciência estiveram
tão fortemente relacionadas. Dessa investigação
mútua resultam inventividade estética e inventividade
tecnológica. "A tecnologia já é a nossa
segunda natureza", afirma Bayle.)
III. A PALAVRA
No princípio, os futuristas - russos e italianos - "destruíram"
o verbo. E a sintaxe. "Liberdade para as palavras", clamariam,
enquanto seus contemporâneos dadaístas produziam "poemas
de letras" (e os surrealistas exploravam o inconsciente). Era
o começo deste século XX e aqueles seriam "os primeiros
a estabelecer relações entre sons, sinais gráficos
e espaço", escreve Jean-Yves Bosseur em "O Som e
as Artes Visuais".
Os movimentos revolucionários do início do século
seriam incorporados pela mídia e pela arte. Deles, o rádio
absorveu "a poesia do som" como estética e a consciência
da "fala como um mundo próprio" (George Sperber)
. Na criação literária, seus conceitos foram
decisivos para o nascimento da poesia concreta nos anos 50. De acordo
com Augusto de Campos, a poesia concreta, apoiada em duas outras expressões-chave
da arte contemporânea - "verbivocovisual", de James
Joyce, e "klangfarbenmelodie", de Anton Webern -, tornou-se
uma literatura por tradição visual, com algumas experiências
no campo da expressão oral. Apenas recentemente ela ganharia
tratamento sonoro mais elaborado, com o avanço dos meios tecnológicos
abrindo novas possibilidades formais e estruturais: a poesia sonora
tornou-se, assim, uma arte também eletrônica.
Já poesia fonética considerou exclusivamente o ponto
de vista físico da palavra, ou seja, fenômeno que é
onda sonora, portanto som e ruído. Seus criadores passaram
a usá-la como "material expressivo independente, às
vezes sem qualquer relação reconhecível com o
sentido das palavras". Uma nova estrutura é descoberta.
"A palavra entra na história" (Werner Klippert).
Outra
categoria acústica que devemos mencionar, no terreno da poesia
ou simplesmente da palavra falada ou da emissão vocal, é
o Text-sound, um termo criado por compositores do E.M.S., principal
estúdio de música eletrônica da Suécia,
para um gênero que combina texto, fonética e experimentos
eletroacústicos.
IV.
LITERATURA E FICÇÃO
O
Hörspiel (ou Peça Radiofônica), gênero de
grande tradição na Alemanha, onde nasceu nos anos 20
com adaptações de obras do drama e da literatura, com
o tempo adquiriu autonomia criativa, a ponto de, em muitos casos,
suprimir a narrativa linear e criar uma dramaturgia sonora própria.
Seu valor decisivo continua sendo a palavra, à qual subordinam-se
o ruído e a música. De qualquer forma, como já
foi observado pelo jornalista Eduardo Duó, "sua atuação
vai além do naturalismo ou de um realismo artificial".
(Um de seus desdobramentos, o feature é uma combinação
entre documentário, ficção e realidade.)
Com
o Neue Hörspiel, que surge a partir da década de 60, o
gênero atinge seu radicalismo acústico máximo.
Influenciado pela poesia experimental e não-semântica,
eliminou qualquer hierarquia de valor entre os componentes e incidentes
sonoros. (Maurício Klagel, compositor argentino radicado na
Alemanha que dedicou várias obras ao gênero, definiu:
"O Novo Hörspiel não é um gênero literário
ou musical, mas meramente um gênero acústico de conteúdos
indeterminados".) Foi também o Neue Hörspiel que
levou artistas de outras áreas (como músicos e poetas)
a investiverem por uma produção sonora inaugural, tornando-se
autores de composições para o rádio.
V.
O ESPAÇO
As
paisagens sonoras, invisíveis, servem a instalações
ou mesmo a deslocamento de ambientes acústicos (caso de Michel
Redolfi, compositor francês que projetou a imagem sonora do
Pantanal brasileiro numa praça central na cidade de Nice; ou
da "Bridge San Francisco / Köln", do norte-americano
Bill Fontana, que projetou a emissão ao vivo de uma ponte sonora
entre dois pontos centrais daquelas cidades). A paisagem não
apenas é passível de projeção também
em rádio, como muitas vezes é fomentada por ele. O projeto
"Metrópolis", por exemplo, mantido pelo Departamento
de Arte Acústica da WDR em Colônia, comissiona obras
de compositores do mundo todo para um ensaio fonográfico sobre
a acústica de uma cidade. Em lugar do olho, o ouvido: a paisagem
sonora é fundamentalmente a arte da captação
"fotográfica" do som. O microfone é o instrumento
que permite o instantâneo e o close; a caixa acústica,
sua ampliação. Quando revelado, o objeto sonoro apresentará
uma re-leitura "psicológica" do real: afirmação
de seu interior, negação de sua superfície ou
constatação de sua supremacia.
As
esculturas sonoras, se propõem, na afirmação
de Jean-Yves Bousseur, "um fenômeno acústico e social".
Fundada pelo compositor norte-americano Harry Partch, suas qualidades
são ao mesmo tempo plásticas e musicais, e suas dimensões,
acústicas e visuais. Raras vezes se utilizando de aparato propriamente
eletrônico, preenchem o espaço físico com um objeto
plástico-acústico inusitado, e, com frequência,
pressupõem a interação com o público.
Escultura ou Paisagem, ambas desafiam com sua proposta de interferência
urbana.
Tomado
por outra perspectiva de contexto urbano, o compositor e pesquisador
canadense Murray Schafer foi o pioneiro na concepção,
pesquisa e prática da ecologia sonora - ciência que estuda
e propõe soluções de ordem prática para
os efeitos da poluição sonora urbana e industrial sobre
o bem-estar e o meio-ambiente.
VI.
O DESIGN
"Em
música, o leitmotif tem uma função direta e consciente;
no design sonoro, o som recorrente atua sobre a percepção
subconsciente". O pronunciamento é de Richard Beggs, um
dos mais concorridos designers sonoros do cinema norte-americano.
O desenho sonoro equivale ao conceito de música aplicada: interage
com outro(s) meio(s) - cinema, dança, teatro, tv e vídeo,
artes visuais, rádio, etc -, mas pode igualmente interagir
com o meio-ambiente. (Michel Redolfi, já mencionado, concebeu
um amplo projeto sonoro para os doze espaços aéreos
e subaquáticos da exposição "Nausicaã"
do Centre National de la Mer, em Nice.)
O design sonoro é a descrição acústica
- verista ou abstrata - de uma imagem ou idéia em exposição.
Cinema e desenho animado foram fontes criativas. Nesses, a colagem,
que a teórica e esteta Tatiana Marschenko considera "processo
mesmo do próprio pensamento humano", torna-se essencial.
Mais
produto da cultura e da comunicação de massa, sem no
entanto perder sua integridade artística, os electro clips,
inaugurados numa proposta do núcleo canadense "Empreintes
Digitales", seriam uma resposta do áudio à linguagem
do vídeo (ou a estrutura do vídeo-clip em áudio):
mensagem reduzida, em técnicas de síntese, corte, recorte,
miniatura e instantâneos, resumo.
Em
todos os casos, estamos falando de uma arte originariamente "de
pesquisa" ("experimental", portanto); de um vôo
livre sobre a situação sonora; de um produto da Era
Eletrônica (e da Idade Mídia); de uma arte que nasce
em estúdios e laboratórios científicos; e, finalmente,
de um espaço de escuta virtual e imaginário.
Embora
categorias acústicas distintamente empregadas, não é
raro resultarem semanticamente próximas: atuam nos mesmos domínios
- ora conscientes, ora inconscientes - do teatro da mente. Som que
nos desafia a percepção por comportar a mais abstrata
imagem - aquela que não existe no mundo real (tornamo-nos "cegos")
- e que, paradoxalmente (expressão máxima da pura sugestão!),
induz formas, verbais e não-verbais, no imaginário humano.
Esse universo "fantasmático", com seus mundos invisíveis,
é produzido pelo som tornado paisagem e imagem acústica.
Elemento cuja vocação melhor se expressa na evocação
de impressões.
John
Cage, que sempre esteve próximo da experiência em rádio
(em 1952, antecipando os happenings, apresentou-se numa ação
musical no Black Mountain College com "Imaginary Landscape nr.
4", peça para vários aparelhos de rádio)
e que logo percebeu o veículo como instrumento sonoro, para
o qual comporia várias obras, observou: "Se você
ignorar os sons ao seu redor, eles certamente irão incomodá-lo.
Mas se você prestar-lhes atenção, descobrirá
o quanto são fascinantes."
Arte
do escuro, o mundo dos sons é um voltar-se para dentro, para
o encondido - olhar interior através do qual a mente exercita
suas próprias imagens. Nesse jogo lúdico e introspectivo,
liberamos a animação criativa e sensível de nossas
próprias fantasias. A experiência subjetiva e ilimitada
da escuta, quando o ouvido está "em estado de alerta",
na expressão de René Farabet (no máximo de sua
consciência, portanto), alcança o terreno do inconsciente
ou, pelo menos, como afirma Harri Hühtamaki, "ultrapassa
nossa realidade consciente". Nesse domínio, deixam-se
emergir verdadeiros sonhos vivos. Produz-se uma mudança do
nível de realidade. Não-realidade? Supra-realidade?
Irrealidade?
Peer
Raben, autor das trilhas de Fassbaender, afirma: "Através
da música, o olho vê imagens". O ouvido, "órgão
sem pálpebras" (Janete El Haouli) e sempre aberto, sentido
que não dorme, estabelece uma conexão imediata com camadas
profundas da mente, diferentemente dos vícios culturais do
olhar, cuja percepção tende a ser mais gestáltica.
Com o som, os outros sentidos despertam (experimente ouvir o vento,
a água: a paisagem virá não só aos seus
olhos, como à sua pele). Com o som, o espaço físico
ganha em amplidão e profundidade. "Ouvir será criar
sua própria cenografia num espaço infinito de escuridão",
diz René Farabet - grande esteta do rádio e diretor
do Centre de Création da Radio France.
Da
mesma forma que altera a noção de espaço, a esfera
acústica instaura uma outra qualidade - e percepção
- do tempo (!) Sem excitar a superfície dos sentidos, mas o
profundo da psique, essa linguagem estabelece não apenas novo
paradigma para a criação sonora, como também
para o potencial da percepção humana: falamos da arte
de escutar, um gesto poético. (Parafraseando Oswald de Andrade,
"ouvir com ouvidos livres".)
Diante
dessa nova organização dos sons, o rádio de arte,
em toda sua dubiedade (espantosa para alguns, fascinante para outros),
torna-se multimídia quando em ação com outros
meios; torna-se intermídia quando em simbiose com outras linguagens.
Em qualquer caso, como instrumento de composição e experimento
de arte ganha dimensões "plásticas", sem deixar
de ser aquilo que fundamentalmente é: um veículo de
massa.
Para
muitos, as novas técnicas de rádio inspiraram-se nas
teorias de montagem de Eisenstein e Pudovkimn elaboradas para o cinema
(in "Introdução à Peça Radiofônica",
compilação organizada por George Sperber). Em outra
aproximação comparada, os mecanismos de produção
da linguagem acústica, tais como os da filmagem, revestem-se
de paradoxo. Como afirmou o designer sonoro norte-americano Richard
Beggs, "a gravação de um som não será
senão o fragmento do som original". Ou, nas palavras de
René Farabet, "o som gravado é uma versão
fragmentada da realidade".
Tecnicamente,
a estrutura de base de sua formulação está na
instrumentalização dos processos de produção
e, artisticamente, na articulação dos elementos sonoros.
Assim, o discurso verbal e/ou sonoro, sob a perspectiva estética
do autor, será definido pela edição. "A
justaposição se assemelha não a uma simples soma,
mas a uma criação", escreve Eiseinstein. O corte
cumpre papel fundamental nesse trabalho e permite, sobre a palavra
falada, resultados como o anagrama, a anáfora ou o fluxo de
consciência; quanto aos sons, determina o ritmo, a "respiração",
a dinâmica. Recursos como a mixagem e a fusão, as filtragens,
distorções e modulações, o volume espacial
e a coreografia estereofônica (ou multifônica), por exemplo,
constituem igualmente os fundamentos técnicos para a operacionalização
instrumental de um rádio novo. Apenas a arte verdadeira, entretanto,
o transformará em linguagem autônoma.
A
engenharia estética dos sons, portanto, pressupõe todos
os recursos do aparato tecnológico e, desde que aliada a métier,
total liberdade de criação.Cria-se o diferencial. A
informação foi deslocada de sua realidade objetiva para
a esfera privada e subjetiva do criador. Lá, permitiu-se a
investigação, a análise, finalmente a compreensão.
Então, inserida em um novo campo de visão, ganhou luz
e sombras; o detalhe talvez esteja em espaços abertos, o conjunto
em esconderijos. Eis agora o receptor: um ouvido que divaga. Farabet:
"O autor (ou criador) constrói a dramaturgia da realidade,
o ouvinte inventa suas próprias ilusões".
Já
se disse que "a linguagem da arte acústica é a
linguagem do filme". Consta que a primeira obra de ficção
para o rádio aconteceu em 1924 na Rádio London. No escuro.
Como um cinema sem imagens. (Muitos consideram a visão interior
a mais nítida e memorável de todas as experiências
visuais - porque onírica, profunda e... livre. O cineasta russo
Eisenstein, no citado ensaio sobre seu ofício, escreveria:
"A imaginação não evoca quadros acabados,
senão suas propriedades decisivas e determinantes".)
Para
o rádio - especialmente para esse veículo e considerado
todo o seu potencial dinâmico de organização e
articulação (ruído, som, palavra, música,
voz, fonética, ambience, silêncio, caos...) e, sobretudo,
sua capacidade de penetração na subjetividade psíquica
- viriam a escrever escritores (Samuel Beckett), cineastas (Orson
Welles), filósofos (Walter Benjamim), poetas (Gerhard Rhüm),
dramaturgos (Antonin Artaud) e, finalmente, os compositores (John
Cage) - para citar apenas alguns entre incontáveis exemplos.
Na
cultura de massas, a escuta sensível é um processo ativo-interativo.
Produzi-la, um desafio criativo. Embora haja hoje no mundo inúmeros
artistas, criadores e mesmo teóricos operando a linguagem acústica,
não existe ainda uma literatura específica única,
que reúna toda a diversidade e múltiplas perspectivas
- estéticas ou tecnológicas - dessa arte complexa. As
categorias e classificações de gênero, bem como
as áreas de domínio estabelecidas muitas vezes por instituições,
tendem a uma demarcação involuntária, porém
clara. Entretanto, embora os intercâmbios de idéias sejam
setorizados, o campo de criação é imenso. Tornou-se
uma arte livre e bela (e porque não), anárquica e desafiadora.
Encontros
internacionais têm sido realizados com crescente periodicidade
e sob diferentes perspectivas. Concursos anuais importantes, como
o Prix Italia, o Muse en Circuit e o Prix Futura, são pontos
de referência. Neste ano, o Núcleo do Radioatelier, dirigido
por Harri Hühtamaki, junto à Cia. de Radiodifusão
Finlandesa, reuniu dez profissionais dos cinco continentes e de experiências
diferenciadas (como o rádio, o vídeo e o cinema) para
uma Conferência sobre o Som. Também em 97, por ocasião
da Trienal de Música da cidade de Colônia, na Alemanha,
o Departamento de Arte Acústica da WDR organizou um Simpósio
Internacional de Arte Acústica, com uma exposição
sonora e o catálogo fonográfico completo das 155 obras
produzidas pela emissora desde 1968 (entre outros, trabalhos de Amirkhanian,
Beckett, Bense, Cage, Curram, Fassbinder, Fontana, Globokar, Handke,
Higgins, Kagel, La Barbara, Oliveros, Schafer, Schnebel).
Com
o tempo, a interdisciplinariedade sonora fez frente ao mundo veloz
do império das imagens. Uma nova forma de comunicação
e uma nova formulação artística passam a ser
estabelecidas - do espaço aéreo das ondas do rádio
ao espaço físico de uma instalação ambiental.
Forma-se
assim uma rede invisível (e, contraditoriamente, "silenciosa")
de criadores acústicos, "caçadores perdidos do
som" e artistas ligados ao mundo pelo ouvido - hoje espalhados,
em sua grande parte, nos países desenvolvidos, cujo sistema
de produção oferece tecnologia mais sofisticada, melhores
recursos econômicos e pesado investimento em pesquisa científica.
O
som que, em toda sua natureza volátil, primeiro desvelou o
tempo e o espaço para afirmá-los como corpos sólidos,
agora ressoa por infinitos universos e mentes. Realiza seu atributo
último: som como Utopia (gr. ou-tópos = aquilo que não
existe em lugar algum) da Ubiquidade (lat. ubique = em toda parte).