Resumo:
No esforço por uma periodização da história
do rádio brasileiro a instalação de redes telegráficas
delimita não apenas marco na utilização da
media elétrica, ancestral tecnológico da comunicação
radiofônica, mas sobretudo o pioneirismo de um projeto educativo
cultural levado a cabo por uma geração aqui representada
por dois de seus maiores expoentes: Candido Mariano da Silva Rondon
e Edgar Roquette-Pinto. Este artigo destaca a necessidade de resgatar
esta etapa da História não apenas com o propósito
de mexer na tradicional linha de periodização do "nascimento
do rádio" mas para aprofundar a compreensão de
questões que possam iluminar o atual impasse criado para
a sobrevivência da rede de emissoras educativas no país.
Este artigo é parte da pesquisa em andamento para produção
de um libretto intitulado "Soño" , rádio
ópera inspirada na saga do encontro Rondon-Roquette que resultou
em inúmeros desdobramentos como por exemplo a música
de Heitor Villa-Lobos composta para o filme Descobrimento do Brasil,
de Humberto Mauro apoiado por Roquette-Pinto durante sua direção
no Instituto Nacional de Cinema Educativo/INCE.
Palavras-Chave:
1. Rádio Educativo 2.Rondon 3.Roquette-Pinto
Introdução
Se existe hoje uma cissão entre estudiosos da História
do Rádio que mereça destaque é aquela que opõe
os pesquisadores investidos na telegrafia como gênese àqueles
outros, adeptos da patente de Marconi. Aos desavisados pode parecer
questão apenas teórica, sem maior importância
prática no atual "negócio" da comunicação
radiofônica. Mas ao menos quando o assunto gira em torno das
emissoras públicas, este marco se amplia iluminando, e muito,
o terreno anterior ao impasse gerado por esta aparente oposição:
será possível conciliar educação e lucro
financeiro ?
Carolyn Marvin lembra que novas tecnologias é um termo historicamente
relativo porque não somos a primeira geração
a sofrer com a velocidade das mudanças e rupturas dos novos
aparatos de comunicação. O surgimento da energia elétrica
no século XIX indica ser nossa experiência rica em
detalhe, embora na visão ampla e estrutural, a característica
pertença aos novecentos em seus primórdios enredado
nos cabos do telégrafo. Emerge ali, justo na linguagem de
traços e pontos a primeira máquina de comunicação
elétrica matriz de elaborações futuras chamadas
de rádio ou computador.
O mais comum será identificar o nascimento dos media elétricos
no ponto de sua utilização prática, ou seja,
como produto, indústria. Sendo assim, parte substancial da
História permanece confinada aos "primórdios
experimentais" que acredita-se, só devem interessar
aos cientistas. Esta é uma forma de desconhecimento que gera
um tipo de modos operandi limitado e muitas vezes equivocado,
razão pela qual Wolfgang Hagen adverte: nenhum simples degrau
desse processo pode ser negligenciado.
Destituir da área de conhecimento a multiplicidade de sua
criação reduz a própria possibilidade de ampliar
fronteiras, criar novas medidas de compreensão e usos. É
tornar invisível a arena de interesses no qual se debate,
à sombra dos inventos modernos quem está dentro,
quem está fora, quem pode falar, quem pode ouvir, quem possui
autoridade e quem possui credibilidade.
Por
isso não surpreende o conjunto de vozes levantadas em favor
deste resgate, reunindo pesquisadores, historiadores, produtores,
radioartistas, jornalistas, estudiosos nas diferentes áreas
da comunicação.
E o que buscam estas vozes ?
Elevar o tom do debate, fazer ouvir os sons inaudíveis desses
séculos que ressoam contemporâneos em sua missão
de invisibilidade. Alcançar os grupos sociais instituídos
como "audiência" mergulhados na promessa contemporânea
da interatividade tecnológica. Novas medias produzem novas
plataformas para o mesmo debate onde velhos hábitos de negociação
se perpetuam. Parece evidente a necessidade de desmantelar alguns
padrões sedimentados. Como frisa Carolyn Marvin, se
os novos aparatos de comunicação são veículos
para navegação no território social, está
claro que parte deste mapa construído para sua circulação
deve ser desmantelado no século
20.
O desafio ao alinhavar um projeto viável de emissora pública
produtora de programação educativa cultural nesse século
21 passa inequivocamente pelo desmonte de um universo amplo de padrões
que se iniciaram na aceitação de um modelo - e Marconi
é sem dúvida o pai oficial - onde a informação
é tratada como mercadoria. No caso brasileiro é muito
esclarecedora a distância notória a este procedimento
adotada por Roquette-Pinto. Na compreensão dos seus ideais
positivistas ao fundar a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro
percebe-se o quanto se perdeu, marconianamente metarmorfoseada, a
formulação de sua proposta .
Percorrer
as matas e rios sonhando histórias nacionais era a poesia telegrafada
pelos pioneiros e destinada ao futuro. Fantasias e sonhos nunca são
inúteis, são produtos importantes no auxílio
de nossos limites de imaginação elucidam pensamentos
e ações de uma época . Esta abordagem admite
o fenômeno da comunicação radiofônica elaborando
códigos complexos para além dos limites descritos pelas
tradicionais análises da teoria das comunicações.
José Eugenio de Oliveira Menezes toca neste ponto nevrálgico
sugerindo "mal estar das teorias" (sic) citando Eugenio
Trivinho ao detectar o descompasso entre teoria e prática face
a velocidade das mudanças dos dados do real e as reflexões
sobre a pós-modernidade.
Análises como a funcionalista descrita por Laswell (1902-1970)
foi esclarecedora para os acontecimentos nos meios de comunicação
das décadas de 40 e 50. Mas este modelo extremamente utilizado
em sua época já não consegue responder às
questões colocadas pelos media contemporâneos.
Enquanto
novas sistemáticas de análise são elaboradas,
abandonar padrões amplificando outros será mensagem
captada nesta trilha elétrica do encontro entre Candido Mariano
da Silva Rondon e Edgar Roquette-Pinto. Escutando neste recorte da
História inúmeras vozes rasteamos na língua de
Mariano o mapa radiofônico buscando encontrar os pontos e traços
que nos faltam.
*
S O Ñ O
"... de volta a cidade reconstituíram pela palavra
a cultura da selva"
( Ruy Castro)
O
poeta Gerardo Mello Mourão, testemunha ocular, ainda se lembra
daquele momento. O pequeno séquito adentrava no edifício
de arquitetura moderna carregando o homem franzino, vergado pelo tempo.
Solene, a sessão plenária do Congresso Nacional naquele
dia 5 de maio de 1955 estava pronta para conferir a patente de Marechal
ao descendente indígena. Seus ossos já não estavam
fortes o suficiente para mantê-lo de pé pois foram gastos
na firmeza de sua história construída as custas de sua
saúde. Inabalável, o Marechal Rondon mostrava a todos
que a vida, pode ser bem mais do que um punhado de carne e ossos.
*
Em 1876, Pedro II, imperador do Brasil, com a orelha grudada no telefone
ouve Grahan Bell recitar Shakespeare
Em 1864 as tropas de Solano Lopes invadiram o sul de Mato Grosso expondo
a fragilidade das fronteiras brasileiras, extensas e pouquíssimo
povoadas. A guerra batia a nossa porta e com ela o medo da invasão
e perda de território.
O Império já frágil esboçava resistência
nas atitudes progressistas de Pedro II ao adotar avanços tecnológicos
como o telégrafo elétrico. Inaugurada em 1852 sob o
comando do engenheiro Guilherme Schüch Capanema, a primeira linha
subterrânea cobria três kilômetros interligando
a Quinta Imperial ao Quartel do Campo no Rio de Janeiro. O telégrafo,
hoje chamado de "internet vitoriana", era a tecnologia certa
para a hora certa no lugar certo: uma rede de cabos, uma linha passível
de ser visualizada para com ela desenhar as fronteiras, estabelecer
os limites, capaz de alertar o país através dos sinais
de Morse contra surpresas e ambições e quem sabe assim,
sustentar o Império...
O general Deodoro da Fonseca no cargo de Inspetor de Fronteiras vislumbrou
esta tecnologia de comunicação como instrumento poderoso
neste passo pela integração, passando a se esforçar
por convencer o governo central a ligar pela rede telegráfica
o norte e sul de Cuiabá às margens do Rio Paraguai.
Chegou a elaborar estudos e construir uma linha provisória
entre Corumbá e Coimbra (Mato Grosso) mas esbarrou nas dificuldades
do Pantanal, dos rios Paraguai e São Lourenço antes
mesmo que outros compromissos exigissem sua volta ao Rio de Janeiro.
De qualquer forma, a mensagem havia sido entendida.
Numa época em que uma viagem do Rio a Cuiabá durava
mais de 30 dias, a febre modernizante do telégrafo contaminou
o país cobrindo o território nacional nas redes instaladas
pelos cabos submarinos da Western and Brazilian Telegraph Co., cabos
sub-fluviais da Amazon Telegrah Co. , telégrafos da rede ferroviária
e nas seis estações de telegrafia sem fio, chamadas
estações Marconi. A hegemonia britânica, estendida
a outras áreas no domínio tecnológico como a
engenharia e maquinário para estradas de ferro não significou
ausência total desta competência no território
brasileiro. O próprio Capanema foi responsável pela
invenção de um isolante térmico para as linhas
telegráficas terrestres sujeitas às altas temperaturas
tropicais. Outros cientistas estariam experimentando protótipos
de comunicação pelos ares, sendo o padre Roberto Landell
de Moura exemplo histórico recorrente.
Navegando na mesma faixa cronológica, aquele rapaz composto
de sangue dos índios Terena, Borôro e Guará completava
seus estudos na Escola Militar e Escola Superior de Guerra , assimilando
nas aulas do positivista Benjamin Constant os ideais da "religião
da humanidade". Nomeado ajudante da Comissão de Construção
das Linhas Telegráficas de Cuiabá a Registro do Araguaia
em 1889, Candido Mariano Rondon realizaria à partir de 1890
o projeto do general Deodoro instalando milhares de quilômetros
de linhas telegráficas enredando o nacional na meta da integração
- as terras indígenas, acreditavam articuladores políticos,
seriam incorporadas e os índios transformados em "brasileiros".
Levantamentos cartográficos, topográficos, zoológicos,
botânicos, etnográficos e lingüísticos, acusando
a existência de rios, corrigindo o traçado do mapa brasileiro,
contatando populações indígenas, compunham as
atividades desenvolvidas por Rondon neste processo ...
(...)
uma série enorme de explorações tendentes a desvendar
os segredos dos pantanais, executando estudos geográficos,
fazendo a determinação precisa das coordenadas de pontos
que poderiam servir de base a futuras operações geodésicas,
de tal sorte que, depois disso, a vastíssima região
sul mato-grossense se tornou uma das mais bem conhecidas de todo o
território nacional, não só do ponto de vista
cartográfico, mas também dos relativos à sua
população, riquezas naturais do solo, sua capacidade
de produção, recursos atuais, vias de comunicação
e outros elementos necessários para facilitar qualquer ação
posterior do Governo naquelas paragens.
Entre
1907 e 1915 as excursões empreendidas pela Comissão
de Linhas Telegráficas e Estratégicas de Mato Grosso
ao Amazonas ficariam conhecidas como Comissão Rondon, responsáveis
pela instalação de 4.502,502 km de linhas telegráficas,
inaugurando 55 estações, construindo a estrada Tapirapoan
a Jurena conectada a estrada de ferro Madeira-Marmoré, por
sua vez construída de forma integrada a rede de telegrafia.
Mais de 30 mil índios foram incorporados ao espaço sob
controle do Estado brasileiro, 23.107 exemplares de material geológico,
antropológico, mineralógico, zoológico e botânico
foram enviados para o Museu Nacional no Rio de Janeiro. Seria ali
no Museu situado na Quinta da Boa Vista o encontro com professor de
antropologia e etnografia Edgar Roquette-Pinto ...
... trabalhei alguns meses, em 1910, junto a Candido Rondon; a poesia
daquelas terras remotas infiltrou-se-me no pensamento . Ouvir a voz
do mestre era escutar a voz chamadora do sertão; sentir o rumorejo
das florestas distantes.
Dois anos mais tarde surgiria a chance de atender ao chamado do sertão:
Roquette-Pinto integra a quarta Comissão Rondon que parte rumo
a Serra do Norte, no planalto mato-grossense. No dia 22 de julho de
1912, aos vinte e sete anos, médico e cientista já respeitado,
viaja. Durante quatro meses embrenhou-se pela selva reunindo uma quantidade
incrível de material e análises, redigindo o livro diário
"Rondônia", assim intitulada para designar a ciclópica
aventura vivida (...) e toda região em que ela se desenvolveu
Representatio
men
The proper study of man is mankind
Pope
O
jovem pesquisador adotara as idéias positivistas , em especial
seu credo da "redenção pelo conhecimento"
sendo a ciência e fraternidade molas para o progresso. A sede
do saber o impulsionou a recolher toneladas de documentos cuidadosamente
armazenados: fotografias, fonogramas, relatos de viagem, descrições
científicas, listagem de dados de todos os tipos: composição
do solo, fluxo dos rios, medição dos crânios e
estatura dos indígenas, trazendo ainda pedras, flexas, o que
pôde. Este material fantástico, doado ao Museu Nacional,
está em parte relatado no livro "Rondônia"
comparado em importância ao clássico "Sertões",
de Euclides da Cunha.
O
ensaísta e crítico Álvaro Lins considerava a
excelência literária de Rondônia, "por sua
força estilística de tratado científico".
Lévi-Strauss em seu conhecido relato "Tristes Trópicos"
faz referência ao encantador livro do saudoso Roquette-Pinto;
Gylberto Freire no livro "Ordem e Progresso" endossa Lins
ao reconhecer a "exuberância da escrita e segura base científica
da obra". Publicado em 1917, está para a saga de Rondon
assim como "Sertões" se coloca para Canudos, revelando
até hoje o Brasil para brasileiros.
Importa
anotar nesta epopéia rondoniana a figura poética de
seus personagens. Roquette-Pinto considerava Rondon a perfeição
feito homem, um herói na concepção de Carlyle
...como aqueles que produzem uma idéia ou uma ação
diretora. Heróis filósofos, heróis poetas, e
heróis guerreiros também ... porque "herói"
não quer dizer valente; mesmo no conceito grego-romano quer
dizer divino
Acreditando na Ciência e sentindo a defasagem do Homem em relação
às mudanças velozes, imaginava o dia em que o homem
culto acabaria aperfeiçoando a si mesmo.
O
poeta Roquette-Pinto, como bem definiu Ruy Castro, reconstitui pela
palavra a cultura da selva , sendo exatamente pela palavra que também
reconstituiria a cultura brasileira em informação mediatizada
utilizando a novíssima tecnologia do rádio.
Pacificadores, aventureiros, cientistas, poetas, Rondon e Roquette
cruzaram as selvas do Mato Grosso, da Amazônia, mergulharam
nas bacias dos rios Paraguai, Jurema, Gi-Paraná, driblando
percalços naturais, traduzindo para a História um tempo
gênese na cultura do Brasil contemporâneo. Nesse percurso,
Roquette entendeu a importância integradora das novas tecnologias
de comunicação.
Crer
e Agir
Certa
vez perguntaram ao professor Roquette-Pinto qual seria a sua divisa,
o seu lema. Não titubeou: "crer e agir". O mestre,
nada fazia sem acreditar e por outro lado, assim que passava a acreditar
em alguma coisa, precisava agir. Era capaz de aplicar sua inteligência
e ação a interesses tão amplos e múltiplos,
equacionando-se verdadeiro "homem-multidão".
Tal disposição mantinha sua mente aberta para experiências
como aquela realizada com vara de bambu, fios de cobre e papelão.
Em 1922 tratando de certas pesquisas fisiológicas por esta
altura associadas a distúrbios elétricos, Roquette-Pinto
foi levado a estudar um pouco de radio-eletricidade. Auxiliado pelo
Dr. Henrique Morize recebeu as lições necessárias
para manipular a telegrafia sem fio (TSF) de laboratório. Um
ano mais tarde construiu na casa de Botafogo um protótipo radiofônico
deixando incrédulo e boquiaberto o amigo convidado a testemunhar:
aquela geringonça que falava ! Essa rudimentar transmissão
radiofônica testemunhava o início de uma longa e próspera
saga levada a cabo por Roquette-Pinto a frente de um projeto educativo
materializado na criação em vinte de abril de 1923 da
emissora Rádio Sociedade PRA2, gênese não apenas
de emissoras, canais radiofônicos, mas de todo um movimento
cultural compreendido como projeto político.
Adotou
o lema "pela cultura dos que vivem em nossa terra", transformado
em mola propulsora de um fenômeno da comunicação
que merece ser urgentemente analisado. O "pai do rádio
brasileiro", na verdade era uma figura singular que conseguia
e se permitia carregar diversas figuras singulares em seu roteiro.
Mente aberta, captou os diversos sinais emitidos em seu tempo por
outras falas, todas as falas, porque acreditava, "a raça
humana é um espectro solar" tornando-se porta voz de um
projeto educativo até hoje único, embora tremendamente
dilacerado.
Nesse trajeto desenha-se o nascimento de obras do patrimônio
nacional como as composições de Heitor Villa-Lobos utilizando
cantos indígenas recolhidos na Serra Norte por Roquette-Pinto;
a realização por Humberto Mauro do filme "Descobrimento
do Brasil", com trilha do mesmo Villa-Lobos e sob a chancela
do Instituto Nacional do Cinema Educativo; além das centenas
de produções e gravações produzidas na
Rádio Sociedade e posteriormente Rádio Ministério
da Educação e Cultura, ambas resultantes do pioneirismo
de Roquette-Pinto onde se incluem Quadrante, programa de literatura
apresentado por Cecília Meireles, Rubem Braga, Manuel Bandeira,
entre muitos outros.
Radamés
Gnattali, Guerra-Peixe, Francisco Mignone, John Neschiling, Paulo
Moura, Alceo Bocchino, K-Ximbinho, Eleazar de Carvalho, são
alguns dentre os inúmeros artistas, cientistas, intelectuais,
reunidos na emissora da Praça da República, aonde ainda
hoje exista quem lute por manter os ideais de seu patrono.
Apesar
de tanta riqueza, e talvez até mesmo por causa da imensidão
deste legado, ainda não se escreveu uma extensa biografia de
Edgar Roquette-Pinto. Sua trajetória aglutina alguns dos mais
importantes momentos da vida cultural brasileira, varando o novo milênio
como exemplo da percepção do papel da comunicação
pela palavra, o ensino aliado à ciência, tecnologia e
arte. Num mundo impregnado pelas ondas captadas nos equipamentos de
última geração em radiotelefonia celular, causa
espanto a fragilidade dos projetos radioeducativos voltados para o
aperfeiçoamento humano.
o rádio e seus heróis
Pelos ares
sobre os mares
rios, campos,
montes, vales
do Brasil
Em ondas longas
Curtas e médias
falemos, cantemos
de dia, de noite
pela cultura dos que vivem aqui
Em nossa terra
pelo progresso
do Brasil !
As emissoras de rádio educativo cultural são hoje reduto
de difusão de informações no país, alcançando
todo o território nacional, algumas adotando no momento a tecnologia
digital e multimídia, multiplicando seu espectro e perfil.
Roquette-Pinto, sem dúvida, estaria a frente desta revolução,
investindo nas novas ferramentas técnicas, "instrumentos
de instrução sem ser escola", e visionário,
entendendo a mutação desta própria medida chamada
"rádio": de simples canal de informação
à produtor de linguagem. Escrita radiofônica hoje produz
formatos de arte, conjugando imagens e sons, circulando em bienais
e festivais internacionais. A dinâmica de produção
e as opções de media permitem que a mensagem não
fique restrita a sua difusão radiofônica, podendo integrar,
por exemplo, arquivo em site de radiodifusão multimídia.
No caso das emissoras públicas considere-se ainda um ponto:
aonde, no dial radiofônico atual é possível ouvir
não apenas a música de Heitor Villa-Lobos mas todas
as diferentes falas da cultura brasileira ? Verdadeira aventura nesta
selva impregnada por mensagens de formatos e conteúdo internacionalizados,
o resgate de informações históricas vivenciadas
por Rondon e Roquette desnuda verdadeiro tesouro.
*
No episódio de 1936 quando da transferência da Rádio
Sociedade para as mãos do governo - Roquette-Pinto percebe
a proximidade da falência na pressão das emissoras comerciais
da época - encontramos o campo de batalha para o massacre dos
ideais do seu modelo de radiodifusão educativa e cultural.
Décadas se passaram até o aperfeiçoamento da
tecnologia digital agilizando etapas da produção e dispensando
mão de obra; comprimindo a total segmentação
do dial aliada a expansão furiosa das empresas de comunicação
aglutinadas em serviços diversificados (rádio, televisão,
jornal, publicações, serviços de telefonia, portal
na Internet, e outros) sem esquecer a indústria do entretenimento
internacional, transformando o espaço de transmissão
pública em verdadeira batalha entre David e Golias. A menos
que esta luta esteja inserida em um projeto nacional, onde a vontade
política estabeleça padrões, ideais e metas como
em sua época o fez Roquette-Pinto, pouco ou quase nada adiantará
a reconfiguração do aparato tecnológico, a radiodifusão
multimídia, frente a este vácuo político, envelhecerá
rápido, como bem coloca Arlindo Machado ...
... meios avançadíssimos que operam com informação
virtual e se prestam à difusão ampla, se apoiam muitas
vezes em valores institucionais arcaicos (...) assistimos na verdade
a um processo de acomodamento, em que as inovações tecnológicas,
potencialmente desestabilizadoras, se adaptam a velhos sistemas de
gerenciamento e controle, ou a modos de produção mumificados
no tempo.
Do mesmo modo, quando o processo de modernização tecnológica
se vê desacompanhado de uma renovação conceitual
que lhe garanta pertinência na atualidade, é transformado
em sucata no campo das relações de trabalho e na formulação
estética. O que se vê são equipamentos sofisticados
parcamente utilizados como quem usa um computador pura e simplesmente
para datilografar.
A
adequação das instituições governamentais
às exigências intransigentes da nova economia globalizada
contribui para a degola das emissoras radiofônicas públicas
em todo mundo, infelizmente, o caso da rádio fundada por Roquette-Pinto
(atual Rádio MEC) não é fenômeno isolado.
Jorge da Cunha Lima, diretor presidente da Fundação
Padre Anchieta, responsável pelas TV e Rádio Cultura
de São Paulo, defende o modelo de emissora pública -
nem comercial nem estatal - forma talvez possível de continuidade
do antigo sonho roquetteano. Nesta proposta a emissora pública
possui ... estrutura jurídico-institucional independente (...)
seu ritmo é o da reflexão, não o do mercado.
Seu alvo é o espectador, não o consumidor. Seu norte
é promover a formação complementar do homem brasileiro
para o exercício da cidadania.
Enquanto
os modelos estatal e público vagam mais ou menos moribundos,
profissionais das emissoras educativas procuram interferir nas brechas
dessa falência múltipla, tal células em busca
de saúde. A manutenção da rede de emissoras públicas
em um país continental é tão estratégica
quanto a defesa do território no período Imperial. Trata-se
da mesma questão de soberania e independência garantidas
pelo reconhecimento da riqueza brasileira: terra e população,
ciência, tecnologia, educação e cultura. Nas fronteiras
nacionais tornadas invisíveis pela avalanche aculturada nas
transferências de tecnologia e saberes, na pressão das
economias dominantes, perdemos de vista os passos mais firmes do caminho.
Nesta encruzilhada nada invisível da estrada, cai como luva
a expressão em latim ine fora ire : não busque algo
fora. Aqui mesmo, em nossa História, alinhavada heroicamente
pelos brasileiros Rondon e Roquette-Pinto, encontraremos o caminho.
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_________________________. Ensaios Brasilianos. São Paulo:
Companhia Editora Nacional (sem indicação de data)
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contou, do galena ao digital, desvendando a radiodifusão no
Brasil e no Mundo. São Paulo: Negócio Editora, 1997.