DE VOLTA À ALEMANHA DE HITLER

Parte IV

Hanna Reitsch e Otto Skorzeny

Capítulo 35

12.09.65

Às 03: 05:00 horas, Martin parou o módulo nos arredores de Saltzburg, Aústria, a duzentos metros de altura e, com os óculos de visão noturna, ele e Kleist puseram-se a procurar um local apropriado para a nave descer. Após alguns minutos, optaram por um campo de futebol, nos arredores da cidade. O "Carl Sagan" baixou a cinco metros do gramado e o cabo de aço desceu Kleist e sua pequena mala de viagem. Os pés de Steve tocaram a grama úmida da madrugada. Em seguida, o cabo foi recolhido, a porta da nave se fechou, o módulo subiu rapidamente e desapareceu, a caminho do seu "ninho de espera" no Polo Norte. Kleist saiu caminhando, até chegar a uma rua onde, passado algum tempo, conseguiu um táxi para levá-lo ao Auersperg Hotel, onde ficaria até conseguir contatar Hanna Reitsch. Enquanto o carro deslizava pelo asfalto em direção ao centro da cidade, o pensamento de Steve se voltou para a lembrança da aviadora que conhecera no Bunker. Se, para ele, o tempo decorrido fora de apenas algumas semanas, para ela, mais de vinte anos haviam se passsado. Como estaria agora aquela esfuziante "petite" loura? Quanto, em aparência e entusiasmo, teria ela envelhecido? O taxi parou, Steve desceu e entrou no hotel. Registrou-se com o nome que constava do passaporte: Rudolf Kleist e, adiante do item ocupação, colocou jornalista.

Na manhã seguinte, Steve vestiu o terno e ajustou o minúsculo microfone entre os botões da camisa, encoberto pela gravata. O mini gravador estava acomodado num bolso interno da calça, alí costurado para esse fim. Pouco antes das 10:00 horas, ligou para o número do telefone da residência da aviadora, o qual lhe fora fornecido, junto com o endereço, pelo coronel Scott. Atenderam no quarto toque. Uma voz feminina. Ele disse, em alemão:

- Bitte, desejo falar com Fraulein Reitsch. Quem está no aparelho?

- A empregada dela. A quem devo anunciar?

- Rudolph Kleist. Diga a ela que meu pai a conheceu...há muitos anos atrás.

Um breve silêncio. Depois:

- Queira aguardar.

Novo silêncio. Agora, longo. Em seguida, o ruído de alguém pegando o aparelho e:

- Aqui é Hanna Reitsch. Quem é o senhor e o que deseja ?

- Chamo-me Rudolf Kleist, sou um jornalista americano, filho de alemães. Desejaria entrevistar a senhorita.

- Não costumo dar entrevista a quem não conheço....mas...o senhor disse que seu pai me conheceu. Quem é ele ?

- Infelizmente não é mais, foi. Morreu há oito meses, em um acidente de carro. Mas sim, ele conheceu a senhorita. Há muito tempo, em Berlim, num certo abrigo, em abril de 1945. Ele se chamava Hans Kleist e era major do exército.

Novo silêncio. Depois:

- O senhor pode provar isso ?

- Claro, Fraulein. Olhe, façamos um acordo. Marque uma hora para eu ir até a sua residência. Se não provar o que disse, a senhorita me manda logo embora. Se provar, então lhe pedirei que responda a algumas perguntas. Aceita?

- Não sei... bem, está certo. Mas fica valendo o combinado. Se não provar... Esteja aqui às 14:00 horas. Vou lhe dar o endereço...

- Não é necessário, Fraulein. Eu já o tenho. Obrigado e até logo.

- Até logo.

Desligaram ao mesmo tempo.

***

A casa, tendo na frente um pequeno e bem cuidado jardim, possuia as linhas arquitetônicas típicas das antigas residências austríacas. Steve ligou o minigravador, tocou a campainha e aguardou. Uma senhora de uns 45 a 50 anos abriu a porta e conduziu Steve a uma pequena, mas aconchegante sala. Ela disse:"Um momento, por favor" e se retirou. Em menos de um minuto, Hanna entrou e veio ao encontro do visitante.Trajava calças compridas e um blusão de couro, por cima de uma blusa de seda. Trazia os cabelos, ainda alourados, presos em um coque. Os olhos castanhos conservavam o mesmo brilho de vinte anos atrás. A famosa aviadora havia envelhecido muito pouco: estava agora com cinquenta e três anos, mas não aparentava mais do que quarenta. Uma vantagem com que parecem contar muitas mulheres de pequeno porte. Ela apontou para uma poltrona e foi se sentar em uma cadeira de balanço, junto a uma mesinha, ornada por um abajour. Por algum tempo permaneceram em silêncio. Ela fitava Steve, estreitando os olhos, como se estivesse procurando algo na memória. Finalmente, disse:

- Agora estou me lembrando,... nitidamente. É incrivel. Você é exatamente igual ao major Kleist. Enquanto ele fazia seu relato ao Fuhrer, fixei na memória a fisionomia dele. Era um homem muito bonito... como o senhor.

- Ele era meu pai e sempre fomos muito parecidos. Creio que tinha trinta e sete anos quando conheceu a senhorita. Eu estou agora com trinta e seis, daí, talvez, a grande semelhança.

- Creio que, pela sua aparência, já estou quase convencida de você ser filho de quem diz. Mas, ainda assim, desejo alguns detalhes que provem isso definitivamente.

Steve pensou por um instante e, depois, disse:

- Os momentos vividos no "Bunker" marcaram muito o meu pai. Ele contou-me tantas vezes o que aconteceu, que sinto como se eu mesmo tivesse estado lá e vivenciado as emoções por que ele passou. Por exemplo, o pai contou-me que, quando se apresentou a Hitler, para fazer um relato pessoal da posição de Wenck, a senhorita estava presente. Em seguida, o Fuhrer sugeriu que passassem a uma outra sala. Borman e o general Krebs o acompanharam. No último momento, já a caminho da porta, Hitler se virou e disse: "Venha também, Hanna. Não temos segredos para você". Ou algo parecido. Estou certo, Fraulein?

Ela ficou um longo tempo pensativa e seus olhos umideceram quando respondeu:

- Foi exatamente assim, Herr Kleist.

Ela fez uma pausa para se recuperar das reminescências que as palavras de Steve lhe haviam trazido à lembrança e, então, disse:

- Estou plenamente convencida. O que deseja saber ?

- Pretendo escrever um livro a respeito dos acontecimentos no Bunker e, particularmente, sobre o que, na verdade, aconteceu com Hitler e Eva Braun.

Hanna empalideceu ligeiramente e se mexeu, agitada, na cadeira.

- Escrever o que? Todo mundo sabe que os dois se suicidaram e...

Steve ergueu a mão, detendo o resto da frase.

- Não, Fraulein, perdão, mas não foi isso que ocorreu. Meu pai ouviu e presenciou certos fatos que levaram-no a crer que Hitler e Eva escaparam de Berlim. Sim, escaparam com a sua ajuda e a do general von Greim. E foram os sósias do Fuhrer e de sua esposa que, no dia 30, morreram no lugar deles. Possivelmente assassinados por Heinz Linge. Depois, seus corpos foram imediatamente queimados, para evitar o risco da troca ser descoberta. Foi uma grande conspiração, muito bem planejada e executada. Conhecida apenas por alguns poucos: Bormann, os Goebbels, Gunsche e Linge. E, é claro, os que a conceberam, com o aval do Fuhrer, naturalmente. Uma trama em que a senhorita e Robert Ritter desempenharam um papel fundamental. Há anos, venho investigando esse assunto. Talvez para confirmar as suspeitas de meu pai e, também, pela curiosidade inerente a minha profissão de jornalista. Imagino que um dos mentores dessa bem sucedida conspiração tenha sido o audacioso Otto Skorzeny. Muitas coisas ficaram mal expliadas, mas há um detalhe que me intriga particularmente...

Steve calou, esperando que talvez Hanna fizesse algum comentário. Mas ela, o corpo rígido na cadeira, olhava fixo para ele, como que hipnotizada. Após um longo tempo, Kleist desistiu e completou a frase que deixara inacabada:

-...O fato de que quatro pessoas: a senhorita, o general, o Fuhrer e Eva terem voado num Arado R 96, que só comportava dois passageiros.

A última frase dele tirou Hanna do estado de torpor. Ela jogou a cabeça para trás e emitiu uma inesperada gargalhada. Depois, fixou o olhar nos olhos azuis de Steve e disse:

- Ë inacreditável como as opções mais óbvias costumam passar desapercebidas.

Mudando completamente de atitude, a imprevisivel Hanna fez uma pausa e perguntou:

- Herr Kleist, o senhor gosta de chá ?

- Sim - respondeu Steve, supreso, sem entender a razão da súbita mudança e se perguntando aonde a aviadora pretendia chegar. Mas sua intuição lhe dizia que estava prestes a ouvir inéditas revelações.

- Ótimo. Como creio que teremos uma longa historia para ser contada, pedirei a minha criada que nos sirva chá com bolinhos...aliás, uma das preferências do Fuhrer

***

Serviram-se do chá e dos bolinhos, em silêncio. Depois que a empregada retirou os pratos e as chícaras e deixou a sala, Hanna tirou uma pequena chave do bolso do blusão e abriu a gaveta da mesinha ao lado da qual estava sentada. Removeu de dentro um envelope pardo e dele extraiu uma folha de papel. Em seguida, voltou os olhos para Kleist e disse, num tom grave:

- Se o senhor tivesse vindo há duas semanas atrás eu lhe mandaria embora sem lhe revelar nada. No entanto, agora,...já não importa.

Steve sacudiu a cabeça.

- Fraulein, não estou entendendo...

Ela esticou o braço.

- Pegue esta folha. É uma carta que recebí no dia 26 do mês passado. Leia o que está escrito e entenderá.

 

Steve pegou a folha, acomodou-se na poltrona e leu:

" Pedro Juan Cabalero, 16 de agosto de 1965.

Querida Hanna:

É com muita dor, mas também com resignação, que lhe escrevo. O meu Adi morreu enquanto dormia, na noite de 13 para 14 deste mês. Ele vinha sofrendo bastante nos últimos tempos, com os tremores, a rigidês do corpo, a perda da memória e o estado de depressão. Só era feliz quando, acometido por surtos alucinatórios, se imaginava passeando com a Blondie em Berchtesgaden. Sinto que a morte foi um descanço para ele. Por isso estou resignada. 'Eles' cuidaram de tudo e Adi teve um funeral reservado, mas no qual lhe foram prestadas as homenagens que sempre mereceu. E agora, querida amiga, tendo perdido um Deus, vou dedicar-me a Outro. A meu pedido, 'eles' vão arrumar um convento, aonde pretendo ficar até à morte. Que o Senhor a proteja.

Adeus.

Carinhosamente,

E".

Por um longo tempo ficaram calados. Finalmente, Steve devolveu a carta à Hanna, comentando, para que ficasse registrado na gravação:

- Uma carta de Eva Braun notificando a morte de Hitler...

. Ela disse, baixinho, quase murmurando:

- Sim. Entende agora porque não importa mais guardar nenhum segredo? Ele não mais se encontra ao alcance dos que o crucificariam se o encontrassem.

Fez uma pausa e retomou:

- Acho que o senhor já sabe o que era mais importante para se saber. Faltam apenas os detalhes para satisfazer sua curiosidade jornalística. Pode começar seu interregatório - a voz da aviadora tinha um misto de ironia e resignação.

Steve começou:

- Fraulein, lamento pela sua tristesa. - fez uma breve pausa e prosseguiu:

- Em primeiro lugar, como foi possivel os quatro deixarem Berlim num monomotor de dois lugares?

Hanna esboçou um sorriso.

- É tão simples, mas, como disse antes, ninguém costuma pensar no óbvio. Muito bem, Herr Kleist, acontece que não foi um e sim dois Arados que decolaram do eixo este-oeste improvisado em pista . Robert, embora ainda sentindo dores, já tinha condições de pilotar. Ele levou o Fuhrer e Eva veio comigo. Tinhamos deixado o Bunker no meio da madrugada, subrepticiamente. O Fuhrer e Eva estavam cobertos com capas e capuzes para não serem reconhecidos. Linge nos acompanhou e foi afastando os guardas que encontrávamos pelo caminho, de modo que ninguém se aproximasse de nós. Finalmente, chegamos ao eixo, onde os dois Arados se encontravam, camuflados e vigiados por três SS da total confiança de Linge.Depois de termos decolado, voamos até um pequeno aeroporto na Bavária, ainda nas mãos dos alemães. A propósito, Herr Kleist, parabens. O senhor estava certo em relação à participação de Skorzeny. Ele e Gehlen articularam o que o senhor denominou de trama, mas que, na verdade, foi uma brilhante operação de resgate...

Um brilho de orgulho lampejou nos olhos da famosa aviadora. Ela continuou:

- ... que ludibriou o mundo inteiro. Foram eles que, alem de organizarem toda a operação, também tiveram a idéia dos sósias - aliás um deles já desempenhava esse papel há alguns anos - e escalaram Linge para oculta-los no Bunker e, posteriormente, eliminá-los. Eu tinha sido designada para retirar Hitler e Eva de Berlim, caso a opção aérea se mostrasse a mais viável, se e quando a fuga viesse a acontecer. Quando Otto levou o plano ao Fuhrer, ele o aprovou, ressaltando, contudo, que somente o utilizaria se todas as outras alternativas relacionadas com a batalha de Berlim viessem a fracassar. A participação de Greim foi ocasional e decorreu do fato de Hitler tê-lo designado sucessor de Goering. O que serviu de justificativa para a nossa ida à Berlim, na noite de 26 de abril. Alguns dentre os mais íntimos colaboradores do Fuhrer conheciam o plano, em suas linhas gerais, mas não participaram dele: Bormann, Gunsche e os Goebbels. Apenas o Fuhrer e Heinz Linge sabiam quando a fuga iria ser tentada. Os outros quatro fizeram um juramento de segredo e o cumpriram. Ainda porque, três deles morreram em Berlim, dias depois. Se Bormann, o menos confiável, pensou em delatar a operação, não teve tempo para fazê-lo.

Hanna fez uma pausa, para por em ordem as idéias, e prosseguiu:

Bem, voltando ao relato da fuga: quando aterrizamos na Bavária, Reinhard Gehlen estava nos esperando. Ele saudou Hitler e Eva respeitosamente e, depois, tomou um carro e levou von Greim para um hospital em Salzburg. Havia um Ju 52, abastecido, a nossa disposição. Antes de partirmos, um dos agentes de Gehlen raspou a cabeça e removeu o bigode do Fuhrer, enquanto outro pintava os cabelos da Eva. Ambos também receberam óculos escuros e novas identidades. Hitler passou a se chamar Walter Muller - ironicamente, ele havia previamente escolhido usar o nome do seu sósia. Eva se identificava, agora, como a senhora Irma Muller. Finalmente, decolamos e, duas horas depois, aterrizei em outro pequeno aeroporto, num lugar ermo, na costa espanhola, onde Skorzeny, acompanhado de meia dúzia de SS fortemente armados, nos aguardava. Graças a um entendimento entre Otto e o general Franco, os espanhois ignoraram nossa presença naquele local. O sol começava a despontar. Em quatro veículos, fomos ter em uma praia, também deserta. Skorzeny usou um radio-transmissor. Em poucos minutos, um submarino alemão emergiu, a uns trezentos metros de distância. Logo, um bote, conduzido por dois marinheiros, recolheu o Fuhrer e Eva e, não muito depois, o U- boat, como vocês americanos chamam, mergulhou, com destino a uma outra praia, no litoral argentino. Skorzeny e seus SS colocaram roupas civís e rumaram de carro para Madri. Eu levei o Ju 52 de volta para a Bavária e, em seguida, fui para Salzburg. O que se seguiu consta da história oficial que todos já conhecem. Está satisfeito?

- Quase, Fraulein Reitsch, quase.

Pela primeira vez ela presenteou Steve com um sorriso aberto.

- Existe um ditado que diz que a curiosidade matou o gato.

Ele se limitou a sorrir. Hanna consultou o relógio de pulso e falou:

- Ach, as horas passaram sem que a gente percebesse. Devo ter falado demais e, receio, muito mais do que devia. Se o seu interrogatório ainda vai continuar por algum tempo, sugiro que jantemos.

- Permita-me, então, convidá-la para irmos a um restaurante.

- Obrigada, mas não estou me sentindo disposta para sair. Por outro lado, Greta, a minha criada, é também uma excelente cozinheira e sei que hoje ela preparou um jantar especial: javali ao forno com batatas. Se não se importa, jantaremos aqui. Aceita?

- Sim, só receio estar abusando da sua hospitalidade.

- De forma alguma, Herr Kleist. Depois de tudo que contei, já lhe considero meu amigo

- O que muito me honra... ser amigo da rainha da aviação internacional.

Ela soltou outra gargalhada, agora num tom tão jovial, que seu rosto como que rejuvenesceu. Tocou uma sineta que estava sobre a mesinha.Greta apareceu e Henna avisou-a que o "cavalheiro" iria ficar para o jantar e que este poderia ser servido, tão logo estivesse pronto. Olhando de soslaio para Steve, a empregada disse:"Sim, senhora" e desapareceu. A aviadora voltou sua atenção para Kleist.

- Bem, já que agora nos tornamos amigos, sugiro deixarmos de lado certas formalidades e nos tratarmos pelos primeiros nomes. Você me chama de Hanna e eu lhe chamo de... como é mesmo o seu prenome?

- Rudolf.

- Pois bem, Rudolf será. Concorda ?

- Certamente, ...Hanna.

Kleist começou a se dar conta de que a companhia da alemã lhe causava uma satisfação muito acima de qualquer outra que tivesse antes sentido com alguma mulher.Ele já estava a par de tudo que viera descobrir. Mas não tinha a menor vontade de ir embora. Portanto, continuar inquirindo a aviadora era uma desculpa para ficar um pouco mais. Sem entender, claramente, o que o levava a proceder assim, decidiu posseguir com a conversa.

- Hanna, um curioso pensamento acaba de me ocorrer.

- Qual?

- Entre os que efetivamente participaram da Operation Adler, somente von Greim pagou um preço demasiadamente caro.

- É verdade - uma leve nuvem de tristeza passou pelo rosto, ainda bonito, da audaciosa Fraulein. - Robert sempre foi uma pessoa deprimida e, encarcerado pelo americanos, suicidou-se na prisão. Mas você tem razão: os demais acabaram se dando bem. Linge, após onze anos preso na União Soviética, anda solto por ai, dando entrevistas, escrevendo livros, contando algumas verdades e inventando um bando de mentiras. Mas está se tornando rico com sua súbita verve de narrador-escritor. Gehlen é, hoje, o todo poderoso chefe do serviço secreto da Alemanha Ocidental, posição que recebeu, "de mão beijada", dos americanos, graças à imensa rede de espiões que deixou infiltrados no lado Oriental. Skorzeny, tido como um aventureiro diabólico e romântico pelos Aliados, graças, principalmente, ao seu audacioso e bem sucedido plano de libertar Mussolini, livrou-se de ser julgado em Nuremberg. Ainda assim, os americanos o prenderam em 1945, mas ele se evadiu três anos depois. Foi caçado durante algum tempo por vários serviços secretos e, como não foi encontrado, acabaram deixando-o em paz. Porque também nunca tomou parte em atos contra judeus, as agências judaicas não o perseguem.Tornou-se consultor de Franco e de Juan Peron, em assuntos de inteligência. Peron se foi, mas o peronismo persiste, bem como Franco. E Otto passa a vida indo e vindo entre a Espanha e a Argentina, planejando e executando ações sigilosas e audaciosas para o ditador espanhol e para os próceres do peronismo. Estamos frequentemente em contato e creio que, no momento, ele se encontra em Madrid. Otto é, sem dúvida, o mais famoso herói da Alemanha Nazista. E eu, após prestar um breve depoimento a OSS, acabei voltando ao circuito de provas da aviação internacional e, hoje, participo de competições com russos, americanos, franceses, italianos e britânicos, sendo acatada e respeitada por todos eles. E nessas competições, em que ora defendo as cores da Alemanha, ora as da Áustria, trago sempre na túnica a cruz de ferro de primeira classe, a qual, um dia, o Fuhrer pregou na blusa do meu uniforme. Faço isso com orgulho e nunca recebi qualquer crítica ou comentário negativo pelo fato.

Nesse momento, Greta reapareceu e Hanna e "Rudolf" dirigiram-se à sala de jantar.

*****

Capítulo 36

Durante o jantar, Fraulein Reitsch dispensou Greta, ela mesma se encarregando de servir o visitante. Em um dado momento, numa troca de pratos, os dedos deles se tocaram e Hanna deixou que os dela deslizassem pelos dele, por um tempo maior do que o natural. Foi um gesto propositado da Fraulein, que produziu em Steve uma inesperada onda de excitação. Os olhos de ambos se encontraram e, por um breve instante, sentiram-se ligados por uma invisível corrente de desejo. Lentamente, os olhos foram se desviando e, sem que nenhuma palavra fosse trocada, voltaram a se concentrar nos pratos.Terminada a refeição, a que se seguiu uma semi-taça de conhaque, retornaram à sala de estar e se acomodaram como antes.

- Então, Rudolf, o que mais deseja saber? - a voz dela havia se tornado sedutoramente macia.

Kleist, ainda sentindo um pouco do frenezi que os dedos e os olhos da alemã haviam lhe causado, buscou refúgio num tema diferente:

- Hanna, você chegou a visitar o Fuhrer em seu exílio?

Ela, também ainda sofrendo os vestígios da sensação por que havia passado, hesitou por um momento, suspirou fundo e, recuperando-se, respondeu:

- Bem, já que revelei o fato mais importante, não vejo porque lhe esconder o resto. Sim, uma única vez, com Skorzeny. Em 1951, fomos a um sítio, próximo à cidade paraguaia de Pedro Juan Cabalero, onde Hitler e Eva viviam, tranquilamente, sob a proteção da Odessa. Você sabe o que esse nome significa, não sabe?

Kleist gesticulou que sim e ela prosseguiu:

- O Fuhrer ainda estava relativamente bem naquela época. Os tremores tinham diminuido e ele, tendo abandonado sua maldita mania por dieta vegetariana, engordara um pouco e voltou a ter a fabulosa memória que possuia nos primeiros tempos do nazismo. Hitler e Eva mostraram-se muito sensibilizados com a nossa visita. Ficamos dois dias. Houve longas conversas e muitas reminescências voltaram à tona. O Fuhrer nos abriu o coraçao e fez várias observações a respeito do que se passava no mundo na ocasião, demonstrando estar muito bem informado. O que não conseguia saber através do potente radio que tinha na casa, tomava conhecimento por constantes relatórios que a Odessa lhe enviava.

- Hanna, fale um pouco sobre os pensamentos manifestados pelo Fuhrer.

- Bem, assim que a guerra terminou, Churchill fez referência ao fato de que os russos tinham baixado uma "cortina de ferro" sobre a Europa, dividindo-a em dois lados e que a União Soviética intensionava dominar o mundo. Essa atitude de Churchill encheu Hitler de esperanças. "Embora fôssemos inimigos - disse-nos ele, referindo-se ao Primeiro-Ministro inglês - "sempre o admirei. Ele poderia ter sido o parceiro que eu necessitava ter tido para esmagar o bolchevismo. Quando denunciou as intenções russas, imaginei que, liderado pelos Estados Unidos, o Ocidente, incluindo a Alemanha, marcharia contra os soviéticos. Afinal de contas, somente os americanos possuiam bombas atômicas naquele tempo. Mas, ao contrário de Churchill, Truman era um homem fraco, indeciso e de visão curta. E a oportunidade de atacar a Rússia, com absoluta vantagem, desapareceu em 1949, quando a União Soviética também se tornou uma potência nuclear. Mas um dia, o comunismo irá se extinguir na Rússia e um novo Fuhrer surgirá na Alemanha, para construir o Reich com que eu sonhei, mas que não logrei concretizar".

Hanna fez uma pausa, para tomar fôlego ou para mergulhar em suas reminescências e Kleist imaginou o quanto ela teria gostado de saber que, pelo menos em relação ao debacle do comunismo na Rússia, Hitler havia acertado. Mas não lhe era permitido contar o futuro para ela. A aviadora retomou seu relato:

- A partir daí, segundo Eva, o Fuhrer foi, aos poucos, se conformando em ser apenas uma testemunha da evolução histórica e seus únicos momentos de satisfação ocorriam quando ele divagava sobre os tempos em que, a partir de Berlim, da Prússia Oriental, ou de Berchtesgaden, comandava o vasto imperio ocupado pela Wehrmarcht e pelas divisões da SS. Hitler começava a viver somente em função do passado.

- E Eva, Hanna, como era ela, na verdade ?

- Quando a conheci, nos anos trinta, julguei-a uma pessoa fútil e insignificante. A grande figura feminina em torno do Fuhrer era, sem dúvida, minha querida amiga, Magda Goebbels. Com o passar do tempo, no entanto, comecei a perceber a sincera devoção que Eva tinha por Hitler e, como você pode constatar pela carta que lhe mostrei, manteve-se fiel e dedicada a ele, até o fim. Hoje, sinto por ela uma grande admiração e respeito. Peço a Deus que encontre paz na sua vida de religiosa.

- Há um outro grande mistério. Pelo que você disse ha pouco, Martin Bormann morreu em Berlim, mas não há nenhuma prova concreta disso, nem em que circunstâncias teria acontecido.

Hanna hesitou por um breve instante e depois disse:

- Li inúmeras descrições a esse respeito, em livros que se ocuparam do assunto, mas nenhuma das hipóteses levantadas é verdadeira. Depois que Linge voltou da Rússia, ele contou o que se passou para uma membro da Odessa, que contou para Skorzeny, que me contou. Bormann tentou fugir, montado em um blindado, mas foi atingido por um projétil russo e atirado ao chão, apenas com ligeiras escoriações. Foi quando Linge, que o acompanhara na fuga, approveitou-se da confusão, matou-o com um tiro no coração e jogou o corpo em uma vala. Esta é a versão que conheço e que, dada sua origem, penso ser a verdadeira.

Steve passou a mão pela testa e falou:

- A História está repleta de enigmas. Este era um deles. Quantos outros permanecem e permanecerão sem serem desvendados?

A aviadora riu e disse, num leve tom de brincadeira:

- Alem de jornalista, filósofo..

Kleist retribuiu o riso com um sorriso.

- Hanna, uma última pergunta: é sobre os sósias. Como foram encontrados e por quem? Quem os treinou? Quantas vezes esse tal de Walter se fez passar pelo Fuhrer? Quando e como foram levados para o Bunker?

Fraulein Reitsch voltou a rir e disse:

- Mein Gott, Rudolf, você é mesmo um interrogador implacável, Mas, sinceramente, pouco sei a respeito disso. Skorzeny é quem conhece a história toda. É este um assunto importante para o seu livro ?

- Sim, muito.

Ela ficou um pouco pensativa e depois perguntou?

- Gostaria de entrevistar Skorzeny ?

O rosto de Steve se iluminou.

- Claro que sim.

Hanna se levantou e disse:

- Aguarde um instante. Vou ligar para a casa dele em Madri. Se tivermos sorte em encontrá-lo, pedirei que o receba.

Ela deixou o recinto e foi para o escritório, onde ficava o telefone. Demorou quase meia hora. Kleist começava a ficar desanimado quando a aviadora voltou, mostrando um largo sorriso.

- Você é mesmo um homem de sorte, Rudolf. Custei, mas acabei localizando o Otto. Ele já tinha sido informado da morte do Fuhrer, possivelmente por seus contatos na Die Spinne, o outro nome pelo qual a Odessa é conhecida. Falei a seu respeito e ele concordou em lhe conceder uma entrevista. Estará aguardando por você no dia 21 deste mês, às nove da manhã, em sua residência em Buenos Aires, para onde ele estará indo amanhã. Acha que lhe será posssível estar na capital argentina nessa data?

- Sem o menor problema. Sabe, Hanna, não sei como lhe agradecer mais essa gentileza...

Com uma expressão suave e sonhadora no olhar, Hanna respondeu:

- Então não agradeça. Apenas pense em mim com ternura e saudade, quando estiver redigindo seu livro. Afinal, de que vale a afeição entre duas pessoas, ainda mais quando sentem, uma pela outra, uma súbita, mas intensa afinidade, se não guardarem, ao menos, uma recordação de saudade e de ternura?

Steve percebeu um calor ir se apossando do seu corpo. O aparentemente inabalável Kleist começava a se sentir fortemente envolvido pela mágica sedução daquela maravilhosa alemã. Um envolvimento impossível! Pertenciam a dois tempos diferentes. A distância que os separava era virtualmente infinita. Ele respirou fundo...

***

A noite ia avançada e Kleist, temendo que, se ficasse por mais tempo, as coisas poderiam evoluir para uma absurda e louca complicação, que terminaria atingindo os sentimentos dele e os daquela extraordinária mulher, os quais tinham de ser resguardados a todo custo, entendeu ser aquele o momento certo para se despedir, voltar ao hotel, pagar a conta, sair, acionar Martin, deixar Saltzburg, e... esquecer Hanna Reitch. Esboçou um movimento para se levantar, mas a aviadora fez um gesto com a mão, indicando que ele esperasse. Ela disse:

- Rudolf, contei-lhe tudo o que desejava saber. Mas, preocupa-me imaginar que reações negativas poderão ser levantadas contra mim, quando você publicar seu livro.

Kleist ficou calado por um longo momento, pensativo. Depois, se decidiu: não queria deixa-la intranquila e arrependida de ter sido tão sincera. Além do que, Hanna era por demais maravilhosa, para que ele, que, infelizmente, nada podendo oferecer a ela, acrescentasse mais uma preocupação, em sua já tão atrinulada e, também sentia, afetivamente vazia existência. Moveu a poltrona para a frente, tomou a mão da aviadora entre as suas e disse, docemente:

- Hanna, não há a menor razão para você se preocupar. Porém, para que entenda porque eu posso garantir isso, tenho de confessar uma coisa, sobre a qual não desejava nem devia falar, mas que farei para lhe tranquilizar.

Uma expressão de dúvida se estampou na face dela e a pergunta veio carregada de inquietação:

- De que se trata, Rudolf ?

- Nada do que você me contou será publicado. Vai tudo ficar guardado num arquivo muito confidencial e inacessível à mídia ou ao público por, pelo menos, uns cem anos. Ou talvez, dependendo de circunstâncias que nada têm a ver comigo, com você, com Hitler ou com o nazismo, para sempre.

- Não estou... entendendo... você está me deixando confusa.

Steve apertou um pouco mais a mão dela e falou, docemente:

- Hanna, você vai entender. Mas para isso preciso lhe falar um pouco a meu respeito. Quer ouvir?

Ainda no mesmo tom assustado, ela disse:

- Claro que quero. Essa história de colher material para um livro que não será editado é muito estranha e me deixa confusa, preocupada e ansiosa. Por favor, Rudolf, diga logo tudo que tem para dizer.

Ele deu início à grande mentira, há muito preparada:

- Muito bem, Hanna. Ouça: eu nasci em 1929, em Munique.O único filho de Hans e Ingrid Kleist. Tinha 16 anos quando a guerra acabou e era, na época, membro da Juventude Hitlerista da minha cidade. Eu e minha mãe ficamos sem notícias do meu pai durante seis meses. Já o tinhamos dado como morto, quando chegou um carta dele, vinda de um presídio soviético na Georgia. Ele havia sido ferido por um fragmento de granada, na madrugada do dia 27 de abril de 1945, após deixar o abrigo para sair ao ar livre. Meu pai sofria de claustrofobia e começou a entrar em pânico naquele reduto subterrâneo. Por isso, arriscou uma caminhada pelos jardins da Chancelaria, àquela altura sob intenso fogo da artilharia soviética. Correu para se abrigar nos escombros de um prédio próximo, quando foi atingido, ficando desacordado por muito tempo. Quando voltou a si, viu-se cercado por soldados de uma patrulha russa e foi feito prisioneiro. Levado para a Georgia, foi julgado por um tribunal militar soviético. Como a única acusação que tinham contra ele era o fato de ter sido oficial da Wehrmacht, aplicaram- lhe uma pena leve: dois anos e seis meses. Voltou para casa em dezembro de 1947.

Minha mãe tinha um tio que havia migrado para os Estados Unidos muito antes de Hitler subir ao poder. Ele se tornou cidadão norte-americano. Médico renomado, possuia muitos amigos infleuentes. Mamãe escreveu para ele. O tio obteve visto de imigração para nós três e, em setembro de 1948, chegamos à New York. Cinco anos mais tarde, adotamos a cidadania americana. Meu pai, que também era engenheiro, foi trabalhar em uma empresa de telecomunicações em Washington, para onde nos mudamos. Estudei jornalismo na Universidade de Maryland, ingressei na Secretaria de Tesouro e acabei sendo transferido para o Serviço Screto, uma instituição responsável pela segurança do Presidente, do Vice-Presidente e dos familiares dos dois.

Quando fomos apresentados ao Presidente, alguem disse a ele que meu pai esteve no Bunker em abril de 45 e conhecera Adolf Hitler. O Presidente é um homem carismático, inteligente e apaixonado pela História. Comunicou-me que desejava conversar com meu pai. No dia seguinte, recebeu-nos no Salão Oval da Casa Branca, A pedido do Presidente, papai relatou tudo que ocorreu nas horas em que passou no abrigo em Berlim. O Presidente mostrou-se bastante impressionado. Dias depois, chamou-me e disse:

"Rudy," - era assim que ele me tratava - "eu quero apurar essa história. Temos de ficar sabendo se Hitler e Eva morreram no Bunker ou fugiram, como seu pai acredita. Parece-me que a pessoa certa para nos esclarecer esses fatos é aquela famosa aviadora, Hanna... esqueci o sobrenome,... e você é a pessoa certa para entrevistá- la."

Surpreso, eu exclamei:

- Mas eu, Senhor Presidente, porque eu?

"Porque você se parece muito com seu pai e, se ela se lembrar dele, isto pode ser um motivo para motivá-la a contar o que sabe. E, também, porque você nasceu na Alemanha e fala alemão fluentemente. Mas, lembre-se este é um projeto de pesquisa histórica, exclusivo para os anais da Casa Branca. Ninguém do FBI, da CIA ou de qualquer outra agência do Governo, nem nenhuma outra pesssoa, pode tomar conhecimento do nosso projeto. Você prestará contas da misão a mim, unicamente. E, nada do que viermos a saber, será divulgado, pelo menos pelos próximos cem anos. Esta é uma determinação presidencial. Aceita a missão ?"

- Confuso, mas envaidecido pela confiança que o Presidente depositava em mim, respondi: "Aceito".

Kleist fez uma pausa e concluiu:

- É por isso que estou aqui, Hanna.

De olhos arregalados, a charmosa aviadora conseguiu apenas exclamar:

- Oh, mein Gott!

- Por favor, meu anjo, não há razão para você ficar aflita. Como disse, trata-se de um projeto de investigação histórica, exlusiva para os arquivos da Casa Branca e somente o Presidente tomará conhecimento da nossa conversa. Repito: nada será divulgado por um longo tempo e, quem sabe? talvez nunca venha a ser. Esta é a determinação de um Presidente e, em questões dessa natureza, nunca ela é revogada por seus sucessores. Assim, quando isso vier à tona, se vier, tanto eu quanto você já teremos, há muito, partido desta vida.

Ela pareceu relaxar um pouco, mas um ar de mágoa e decepção se fez presente no seu rosto:

- Mas você é mesmo o filho daquele major que eu conhecí no Bunker, não é?

Kleist hesitou por um momento. Como poderia dizer a ela, sem denunciar o Projeto "Time for Angels", que fora ele próprio quem a encontrara na Berlim de 1945? E, ainda que o fizesse, Hanna iria pensar tratar-se de uma fantasia e que ele, Steve, não passava de um louco. Ou então, acreditaria e, certamente, ficaria ainda mais confusa e atemorizada. Era algo grande demais para que ela pudesse absorver e, de pronto, compreender. Não, mais uma vez a mentira tinha de ser sustentada. Kleist olhou bem dentro dos olhos dela e disse, com convicção:

- Sim, sou. Como você mesma percebeu, a semelhança entre ele e eu é tão marcante, que somente pode ser explicada à luz da genética. E de que outra forma, senão através de meu pai, poderia eu ficar sabendo da conversa entre o enviado de Wenck e o Fuhrer, conversa essa que você testemunhou?

Hanna ficou um longo tempo em silêncio, raciocinando sobre o que acabara de ouvir. Finalmente, falou, agora aparentando mais traquilidade:

- Tem razão, não existe outra explicação lógica. Mas porque não me disse, logo de saída, que era um agente presidencial?

- Se o fizesse, você teria me contado o que contou?

Ela pensou um pouco e respondeu:

- Acho que não. Não...não sei ao certo,..mas, para você...talvez...sim, eu penso que contaria.

Steve, consciente que um inesperado clima emocional estava se formando entre ele e a alemã e, não querendo que o que pudesse vir a ser dito entre eles ficasse registrado, pôs a mão sobre a coxa e, sem que Hanna notasse, apertou o botão do gravador, parando a fita.

Em seguida, levado por um súbito e incontrolável impulso, foi até junto da aviadora, levantou-a da cadeira, tomou-a nos braços e beijou-a suavemente nos lábios. Ela retribuiu o beijo com ardor e intensidade. O corpo de Steve se apercebeu que o dela tremia, da cabeça aos pés. Ficaram assim, pelo tempo infinito de algumas dezenas de segundos. Depois, as bocas se descolaram. Kleist recuou um passo, mas manteve as mãos segurando as dela. De olhos fixos um no outro, deixaram que seus olhares trocassem mudas mensagens de ternura e de desejos. Steve se afastou um pouco mais e disse:

- Hanna, você é uma mulher maravilhosa. Ter-lhe conhecido foi mais que um privilégio. Foi um encantamento que me envolveu intensamente e eu sempre me recordarei deste nosso encontro, com saudade, ternura e porque não?, com tristeza. Sei que entende o porque da palavra tristeza.

Ele fez uma pausa, suspirou e concluiu:

- Agora, minha querida, eu devo ir embora.

Torcendo as mãos, com os olhos úmidos fixos nos dele, ela disse baixinho:

- Você tem mesmo de ir ? - havia ansiedade e expectativa na voz.

- Sim. Não é justo, para nenhum de nós, alimentar um sonho que, infelizmente, jamais poderá se tornar realidade - um momento de hesitação e, depois: - Adeus, Hanna.

Ela não disse nada. Um nó na garganta não lhe permitia falar. Entregou a Steve um papel com o endereço de Skorzeny e o acompanhou até a saida. Quando ele se foi, Hanna permaneceu na porta, vendo o vulto de Kleist ir se afastando, até desaparecer na curva da esquina. Uma imensa nostalgia invadiu seu coração. Por algumas horas, aquele homem misterioso, meigo e charmoso, abrira um hiato na solidão afetiva em que vivia mergulhada, há mais de vinte anos...desde a morte de Robert von Greim. Com os olhos marejados de lágrimas, a "petite" aviadora murmurou:

- Auf Wiedersehen, mein lieber Rudolf.

*****

Capítulo 37

Já passava da meia-noite, quando Steve chegou ao hotel, subiu ao quarto, transferiu o gravador para a mala, desceu à recepção, pagou a conta e saiu. Pegou um taxi até uma rua próxima ao campo de futebol, onde Martin lhe havia deixado na madrugada anterior. O local estava totalmente deserto. Ele pegou o celular e o acionou. Em questão de segundos, a voz de Kelvin chegou aos seu ouvido, tão clara como se Martin estivesse falando das redondezas e não do distante Polo Norte:

- Pode falar, Steve.

- Estou indo para aquele mesmo local. Estarei lá dentro de uns cinco minutos. Caso encontre alguem, tornarei a lhe ligar. Do contrário, venha me pegar daqui a dez minutos, OK?

- OK. Estarei aí na hora exata. Fique de olho no céu. Até logo. Desligo.

Kleist guardou o tempocelular no bolso e começou a caminhar. O pequeno campo era delimitado apenas por uma cerca de arame. Steve passou por entre duas fileiras de fios e percorreu o gramado de uma a outra extremidade. Não havia ninguém à vista. Foi até o centro do campo e se sentou para esperar. Olhou as horas: nove minutos haviam passado desde que desligara o celular. Faltava apenas um. Começou a vasculhar a escuridão do ceú. Passados setenta segundos, o "Carl Sagan" se materializou e veio descendo na direção dele. A pouco mais de um metro do solo, a porta da nave se abriu e o cabo de aço escorregou para baixo. Em menos de vinte segundos, Kleist ja estava dentro do módulo. A porta se fechou e a nave começou a ganhar altura. Steve colocou o traje espacial por cima do terno, sentou-se ao lado de Kelvin e amarrou o cinto de segurança. Sem tirar os olhos do controle, Martin perguntou:

- Pronto para dormir até chegarmos em casa?

- Ainda não é a hora de voltarmos para o Mojave, companheiro.

- Como assim?

- Vamos para o seu ninho no Ártico. Tenho de visitar dois outros lugares antes de regressarmos. Quando chegarmos ao polo norte eu lhe conto tudo. Agora vamos. Acelere, antes que algum austríaco insone se aperceba da nossa presença.

- Ok, Steve, você é quem manda. Vamos.

O "Carl Sagan" acelerou como um foguete e, segundos depois, se desintegrava, desaparecendo do céu da Áustria.

***

Em pouco mais de um minuto, a nave desceu no seu ninho no Polo Norte. KleIst olhou através da grande janela do módulo e sentiu um arrepio.

- Nossa, - disse ele - este lugar é um horror. Agora entendo o que você quis dizer na reunião, referindo-se aos seus surtos de solidão.

- Steve, conte-me porque insistiu em virmos para cá em vez de termos voltado para casa.

Kleist retirou a fita do minigravador e perguntou:

- Será que dá para passar isso para o gravador da nave? Assim eu limpo a minifita e você conseguirá ouvir, com mais apuro, a gravação do meu encontro com a Hanna. E aí vai ficar sabendo porque eu insisti para que viéssemos para cá.

- Sem problema.

Martin pegou a minifita, copiou-a para a fita maior do gravador da nave, levou-a ao inicio, apertou um botão e a conversa começou a ser ouvida nos autofalantes de bordo. Quando terminou de escutar, Martin disse ao companheiro que gostaria de fazer alguns comentários.

- Vá em frente.

- Em primeiro lugar, Steve, agora está claro porque deseja ir a Buenos Aires: para esclarecer a questão dos sósias. E depois, a Pedro Juan Cabalero, para se certificar da morte de Hitler e do paradeiro da Eva. Muito bem, iremos. Graças ao instinto de Paul, trouxemos alguns milhares de dólares, bem como dinheiro de várias outras nacionalidades, inclusive pesos. Creio que precisaremos de uma só viagem temporal. O Paraguai é vizinho da Argentina e você poderá ir de Buenos Aires a Pedro Juan Cabalero pelos meios de transporte convencionais.Terminada a segunda parte dessa empreitada, eu lhe pego e voltamos para casa, certo?

- Certo. Quais são os outros comentários ?

- Segundo: notei que a gravação foi interrompida antes que sua conversa com a Hanna terminasse. Você não iria embora sem um frase de agradecimento e sem se despedir. Alé porque, durante a cópia para o gravador de bordo, percebí que, no minigravador, ainda tinha muita fita por correr. Estou certo?

Kleist fitou longamente o companheiro e, depois, respondeu, tentando esboçar um sorriso que não aflorou:

- Sim, está. Mas só agora, ouvindo a gravação, é que me dei conta da interrupção. Tevo ter batido com a coxa na borda da cadeira e o gravador parou sem que eu percebesse. Foi apenas um acidente. Felizmente, a Hanna já havia dito tudo que a gente precisava saber.

Martin não retrucou, mas não manteve os olhos fixos nos do companheiro. Steve sentiu que o outro na pareceia ter ficado satisfeito com a explicação que dera e aparentava ter algo mais a comentar. Endureceu a voz e perguntou:

- O que mais deseja saber, Kelvin?

Martin coçou o queixo e falou:

- Tinha uma outra coisa, Steve, mas, pensando bem, acho melhor esquecer o assunto. Afinal de contas, é algo que só a você diz respeito.

A expressão facial de Kleist enrijeceu.

- Nada disso. Já que começou, termine.

- OK, se é isso que deseja. Diz respeito ao seu diálogo com a alemã. Em todos esses meses que passamos treinando no Mojave, nunca ouvi você falar com a meiguice com que, a partir de um determinado ponto da conversa, falou com a Hanna. E, diga-se de passagem, deu para notar que ela também lhe tratou com bastante carinho. E, como jamais saberemos o que disseram um para o outro, depois que a gravação foi interrompida, ocorreu-me um vago pressentimento de que vocês dois talvez tenham acabado se envolvendo num jogo de mútua sedução.

O rosto de Kleist enrubesceu e ele rebateu com energia:

- Não diga bobagens, Kelvin. Em vez de ficar imaginando fantasias românticas, seria melhor ir tratando de calcular como deverá proceder para me deixar em Buenos Aires no próximo dia 21.

Martin corou, suspirou forte e respondeu:

- OK, desculpe. Como disse, foi apenas uma impressão e, na verdade, não devia ter dito nada...Voltando à missão: como você não fala espanhol, suponho que deseja que eu lhe deixe o mais próximo possível da residência desse tal de Skorzeny. Tem o endereço dele?

Kleist passou-lhe o papel que Hanna lhe dera. Kelvin foi até uma mesa onde havia um número incontável de mapas. Após procurar por algum tempo, achou o que desejava.

- Fica no bairro de Palermo. Uma área nobre, com um prado e diversos bosques e jardins.

Steve, aparentando não estar mais irritado com o companheiro, sugeriu:

- Que tal levar o "Carl Sagan" de madrugada e baixa-lo logo acima de um desses bosques? O módulo fica parcialmente oculto, eu desço rapidamente pelo cabo de aço e você se manda de volta para o ártico. Como deu para ouvir na fita, minha entrevista com Skorzeny esta marcada para às nove horas do dia 21. Se chegarmos lá pelas quatro horas, fico fazendo tempo em algum lugar. Não falo espanhol, mas é provável que alguém por lá entenda inglês. Logo... bem, eu acabo dando um jeito.

- Ok, vou pegar o LPG, traçar as coordenadas exatas para definir quando deveremos decolar daqui, a fim de chegarmos a um desses bosques, lá pelas quatro horas do dia 21. Quando pensa em partir?

- Que tal amanhã cedo? Gostaria de dormir algumas horas.

- Uma boa idéia. Assim que terminar os cálculos, irei fazer o mesmo.

Pegaram dois colchonetes e cobertas no depósito da nave e os extenderam, lado a lado, no chão do módulo. Martin apagou as luzes gerais do módulo, escurecendo o ambiente, a fim de facilitar que Steve pegasse no sono. Acendeu um pequeno foco de luz, que iluminava apenas uma pequena área do painel. Espaço suficiente para o trabalho que tinha a fazer. Levou cerca de vinte minutos para completar a tarefa. Depois, foi se deitar e notou que Kleist, que costumava dormir com facilidade, mantinha os olhos abertos, fixos no teto da nave.

- Sem sono, Steve?

- Um pouco - respondeu o outro. Mas logo estarei dormindo.

Kleist virou de lado e não disse mais nada. Kelvin falou com seus 'botões': "Esse comportamento do Steve está muito estranho.Essa inusitada insônia... A veemênte reação ao meu comentário sobre o diálogo dele com a Hanna... Ai tem coisa!". Martin fechou os olhos e adormeceu no mesmo instante.

*****

Capítulo 38

Alguns minutos depois das quatro da madugada, o "Carl Sagan" se "materializou" no céu ainda bastante escuro de Buenos Aires, a 250 metros do solo. Steve e Kelvin perscrutaram o bosque, um pouco a esquerda da posição em que se encontravam. Martin assumiu o controle manual da nave e ela desceu rapidamente na direção das árvores, as quais eram bem menos frondosas do que tinham parecido no mapa que haviam consultado.

- O módulo vai ficar muito exposto. - comentou Martin - Mas talvez a escuriddão seja suficiente para ele não ser detectado.

- Pare logo acima de uma delas e eu escorrego rapidamente pelo cabo.

Kleist não tinha trazido a mala. O tempocelular estava num dos bolsos internos do paletó e o minigravador no mesmo local em que estivera na viagem anterior.

O módulo estacionou a menos de um metro acima das árvores. Em menos de trinta segundos, Steve pisava o chão e a "Carl Sagan" se desintegrava na madrugada portenha, rumando para o Ártico. Kleist caminhou entre as árvores, saiu do bosque e deparou com uma estreita estrada asfaltada. Cuidadosamente, atentando para a aproximação de algum carro ou caminhão, começou a andar junto à beirada, na direção de luzes visiveis à distância. Tinha caminhado cerca de uma hora, quando casas luxuosas começaram a surgir dos dois lados da estrada. Steve havia chegado à zona nobre do bairro de Palermo. O relógio, já acertado para o horário local, mostrava faltarem cinco minutos para as seis horas. O dia principiava a clarear e a temperatura a esquentar. Kleist começou a suar. Tirou o paletó e se pôs a procurar um bar ou algo semelhante, onde pudesse tomar o desjejum. Finalmente, deparou com o que parecia ser uma lanchonete. Entrou, sentou-se em dos bancos e, em inglês, pediu a um garção de meia idade que lhe servisse café, pão, ovos estrelados e bacon. Aparentemente, o senhor não o entendeu porque, minutos depois colocou sobre o balcão uma chícara de café com leite, um açucareiro e dois "croissant". Kleist devorou o desjejum com apetite e solicitou a conta. Desta vez foi compreendido. O garçom trouxe uma bandeja sobre a qual havia uma folha de papel e ficou parado na frente do freguês. Steve olhou para a bandeja e viu o preço: "vinte e sete pesos". Como tinha trazido dinheiro argentino, colocou trinta pesos sobre o balcão, sorriu, ensaiou um "hasta la vista" e foi embora.

*****

Capítulo 39

Faltavam cinco minutos para às nove, quando o taxi trazendo Kleist parou diante de um portão de ferro. A residência do ex- SS era uma enorme casa de dois andares, plantada no meio de um gramado muito bem cuidado. Grades de ferro, de uns dois metros de altura, cercavam a propriedade.Tocou o botão da campanhia embutida numa das barras do portão. Em menos de um minuto, um rapaz forte, trajando um uniforme cinza e portando na cintura o coldre de um revolver 38 , chegou junto ao portão e perguntou, em alemão:

- Herr Kleist ?

- Jawohl.

O portão se abriu. Steve entrou. O portão voltou a se fechar e o rapaz disse:

- O general Skorzeny está a sua espera. Siga-me, por favor.

Atravessaram o gramado. Uma criada de meia idade, também devidamente uniformizada, abriu a porta. Kleist foi conduzido, através de uma elegante sala de estar, ao que parecia ser um escritório ou uma biblioteca, tamanho era o número de livros arrumados em estantes, que ocupavam três das quatro paredes do recinto. De móveis, havia uma pequena mesa de mogno, com uma cadeira espaldada atraz dela, um aparador com váriados objetos decorativos e três poltronas. O segurança assinalou para que Steve se sentasse e falou:

- Queira esperar aqui, por gentileza. Avisarei o general da sua chegada.

O cavalheiro que entrou pela porta, de mão estendida e sorriso nos lábios, era alto, mais para gordo que para magro, trajava calças brancas, uma camisa esporte amarela e sandálias marrons. Os cabelos, ondulados e cinza esbranquiçados, eram penteados para traz. Em uma das faces, uma cicatriz, relíquia de algum romântico duelo do passado; abaixo do nariz retilíneo, um bigodinho à "Clark Gable". Kleist estava diante do mais famoso aventureiro do Terceiro Reich. Ele se ergueu e os dois homens apertaram as mãos. Em seguida, Skorzeny sentou-se em uma das poltronas e indicou outra para o visitante se sentar.

- Com que então o senhor é o jornalista amigo da minha querida Hanna - disse o ex-SS, num tom mais de afirmação do que de pergunta.

- Sim, Herr Skorzeny, sou eu mesmo.

- E deseja conhecer a história dos sósias que impersonaram Hitler e Eva Braun, correto?

- Sim.

- O que pretende fazer com todas esses informações, Herr Kleist, publicar um livro?

- Sim, esta é a minha intenção, desde que as minhas fontes de informação concordem que suas palavras sejam divulgadas.

- Muito ético da sua parte. Só não sei se a Hanna vai deixar de impor restrições à entrevista que lhe concedeu. Ela é muito ciosa em preservar a memória do Fuhrer. - ele fez uma pausa, riu e continuou - Ainda mais agora que aquele velho bastardo já se foi dessa para melhor.

Kleist fez um ar de surpresa:

- Sempre imaginei que o senhor fosse um devotado amigo do Fuhrer...

- E fui. Na realidade, eu gostava muito dele. Mas que Hitler era um um lunático irredutível, lá isso era. Não fosse a sua arrogância em querer dirigir toda a estratégia das forças armadas alemães e sua estúpida paranóia de invadir a Rússia, quando a Inglaterra ainda não estava batida, a Alemanha teria vencido a guerra.

Skorzeny parou de falar, foi até mesa de mogno, apertou uma campainha, oculta na parte de traz do móvel, e voltou a se sentar, Quase imediatamente depois, a porta do escritório se abriu e uma linda morena, ainda bastante jovem, vestindo uma ousada mini-saia e com uma espressão de "coquete" estampada no sorriso, apareceu. Ela foi até junto do patrão e, propositadamente ou sem querer, encostou a coxa no joelho dele. O ex-SS retribuiu o sorriso e disse algumas palavras em espanhol. A moça tornou a sorrir, olhou na direção de Kleist, deu uma risadinha e deixou o aposento.

- O nome dela é Carla - explicou Otto, rindo cinicamente - Tem apenas dezesseis anos, mas é uma excelente aluna: aprende as coisas bem rapidamente. Pedi a ela que nos trouxesse uma "cola" gelada.

Conhecendo a fama de Skorzeny, Steve não teve dúvida quanto ao tipo de aprendizado a que o outro se referia. Aguardaram calados a volta da Carla. O que aconteceu alguns minutos depois. Abrandadas a sede e o calor com os refrescos, a conversa recomeçou:

- Eu falava - disse Otto, retomando o assunto - a respeito das possíveis restrições da Hanna à publicação do seu livro.

- Não creio que ela tenha alguma restrição a fazer. Em nenhum momento foi dito algo que pudesse ser ofensivo a Hitler. Fraulein Reitsch apenas se referiu a fatos, relatando como a fuga do Fuhrer e de Eva Brau aconteceram e sobre a participacão de Gehlen e do senhor na elaboração do plano. Ainda porque, se ela se sentisse temerosa em relação ao livro, não havia porque lhe pedir que me concedesse esta entrevista.

Otto alisou o bigode e disse:

- Tem razão. O que deseja saber?

- Se possível, tudo a respeito dos sósias. Como se originaram, quem teve a idéia de cria-los...coisas assim...

- Muito bem. Então talvez seja melhor que eu lhe conte a história deles desde o início.

- Sou todo ouvidos - disse Steve, enquanto, sem que o outro, aparentemente, disso se apercebesse, colocou a mão sobre a coxa e pressionou o mini-gravdor, pondo-o a funcionar.

- Muito bem. - começou Skornezy - Durante a segunda guerra mundial, muitos líderes políticos e militares tinham doppelgangers, para tomarem seus lugares em situações de risco ou para ludibriarem eventuais espiões inimigos, fingindo estarem em um determinado lugar quando, na verdade, estavam em outro. Em 1936, eu e Heydrich sugerimos a Hitler que seria útil se ele tivesse um sósia, explicando as razões pelas quais estávamos fazendo a sugestão. De início, o Fuhrer relutou, alegando que, sendo ele uma pessoa "unique", dificilmente alguém poderia fazer o seu papel, sem ser desmacarado. Finalmente aceitou, sob a condição de que, encontrada a tal pessoa, ele iria vê-la para só então decidir se aprovaria ou não o escolhido. Pedimos a Goebbels, que controlava todas as atividades artísticas na Alemanha, que nos ajudasse a encontrar um ator parecido com Hitler. Uma vez encontrado, nós o convenceríamos a desempenhar o papel de sósia do Fuhrer, por bem ou por mal. Foram quase dois anos para achar o homem certo, mas valeu a pena: ele parecia um irmão gêmeo de Hitler. Tratava-se de um ator de 48 anos - o Fuhrer estava na época com 49 - que trabalhava num show cômico, em um cabaré em Munique. Chamava-se Walter Muller e, com um bigodinho postiço e jogando o cabelo liso sobre a testa, imitava o Fuhrer, com incrível perfeição. Até mesmo fazia a voz soar igual a dele. Nós o levamos para o Berghof e lhe oferecemos uma soma irrecusável para assumir o novo papel. Por ganância, vaidade ou medo, o fato é que Muller aceitou. Foram meses de intenso treinamento, passando para ele filmes e mais filmes, mostrando Hitler nas mais diversas situações. Conseguimos a radiografia da arcada dentária do Fuhrer e um dentista trabalhou nos dentes de Walter, para que reproduzissem fielmente os de Hitler. A partir dai, sempre que o Chefe sofria alguma alteração de natureza odontológica, seu futuro sósia passava por idêntica transformação. Quando o Fuhrer e Eva vinham a Berchtesgaden, Muller era mantido escondido em dos alojamentos reservados da SS. Um dia levamos o Walter até Hitler, lá mesmo no Berghof. O Fuhrer o viu, conversou com ele e ficou de "queixo caido". Mas faltava um derradeiro teste. Hitler havia marcado uma reunião com alguns generais. que já tinham estado com ele diversas vezes. Instruimos Walter sobre como deveria proceder. No encontro, que durou quase uma hora, Muller compareceu no lugar do Fuhrer. Foi uma exibição artística perfeita. Walter chegou até a esnobar, ao dizer a um dos generais, Gotthard Heinrici, se não me falha a memória, que ele deveria tratar de dormir um pouco mais, pois sua aparência estava lamentável. Heinrici corou e garantiu que iria seguir o conselho. Quando Hitler soube da história, soltou uma de suas raras gargalhadas, voltou-se para mim e disse:"Parabens, Otto, o homem está aprovado". E Muller foi elevado à condição de doppelganger oficial de Adolf Hitler. E, no decorrer dos anos, até fins de 1944, se fez passar por Hitler, inúneras vezes. E, quando planejamos a "Operation Adler", quem se não Muller, deveria morrer no lugar de Hitler? Heinz Linge, possivelmente o mais fiel e dedicado cão de guarda que o Fuhrer jamais teve, conhecia tudo sobre o sósia, desde o principio e foi ele quem cuidou de todos os detalhes, para que a trama fosse bem sucedida. Como efetivamente foi.

Skorzeny fez uma pausa, suspirou e concluiu:

- Herr Kleist, esta é a história da vida e da morte do doppelganger de Adolf Hitler...

Em seguida, emudeceu. Steve ficou alguns momentos calado, absorvendo a fantástica narrativa que acabara de ouvir. Depois perguntou:

E quanto a sósia de Eva, Herr Skorzeny ?

*****

Capítulo 40

Otto fitou Steve por um momento e, como que se sua mente tivesse acabado de regressar de um passado longínguo, piscou os olhos, aprumou-se na poltrona e disse:

- Ach. Sim, a doppelganger dela...Bem, quando, em janeiro de 1945, Hitler retirou-se para o Bunker em Berlim, eu pressentí que ele iria teimar em ficar lá até que a situação militar fosse de tal ordem que o Fuhrer se convencesse que, ou deixaria a capital ou morreria lá, se não fosse antes capturado pelos russos ou pelos aliados ocidentais. Àquela altura, ningúem de bom senso poderia duvidar que a guerra estava definitivamente perdida e que, nem as bombas V2, nem as misteriosas armas secretas, que nunca apareceram, poderiam livrar a Alemanha de uma rendição incondicional ou de uma total destruição. Foi quando me convenci que teríamos de preparar um plano para retirar Hitler da capital, possivelmente nos últimos momentos. Procurei Gehlen, um gênio em assuntos de inteligência e expus-lhe a situação. Embora nunca tivesse sido um verdadeiro nazista, nem morresse de amores pelo Fuhrer, diante da ousadia do plano, o lado profissional falou mais alto e ele concordou em colaborar. Juntos, elaboramos as diversas opções da "Operation Adler". Uma delas consistia numa retirada pelo ar. Falei com a Hanna, que, imediatamente, aceitou participar. Ela é a mulher mais extraordinária que já conhecí. Mas o senhor já deve ter uma ideia do seu valor, após tê-la entrevistado...

- Sim - confirmou Steve, procurando dar à voz um tom de naturalidade - Fraulein Reitsch é uma pessoa encantadora e maravihosa.

- Pois bem. Foi quando Gehlen trouxe à baila um outro possível problema. Disse-me ele: "Otto, se Eva Braun resolver ir se juntar a Hitler no Bunker, duvido que ele admita saír de lá sem ela. Logo, teremos de arranjar uma sósia para a Eva. Alguém que fique no abrigo com Walter, depois que o Fuhrer e Fraulein Braun deixarem Berlim". Aí, eu banquei o advogado do diabo e disse para ele: "Dispomos de pouco tempo, Reinhard. Ainda que encontremos alguma mulher suficientemente parecida com a Eva e que aceite o papel, o prazo que nos é dado não permitirá treina-la, para agir como a amante do Fuhrer". Foi quando Gehlen soltou uma estrepitosa gargalhada. "Meu caro Otto"- disse ele - "Agir... Eva é desprovida de qualquer ação. Não passa de um tímido robô, e quase nunca é vista por alguém fora do círculo mais intimo do Fuhrer. Provavelmente, se for para o Bunker, vai ficar o tempo todo em seus aposentos, lendo revistas em quadrinhos ou romances do século XIX". Ele fez uma pausa e depois prosseguiu: "Não vai ser dificil encontrar alguém parecido com a Eva. Ela tem um tipo comum às alemães do sul: meia estatura, meio gordinha, cabelos louro-escuros e olhos claros. O resto fica por conta de alguns acertos cosméticos". E Gehlen distribuiu fotos da Eva entre centenas de seus agentes, para que eles procurassem uma mulher, entre 30 e 34 anos, que se parecesse com a amante do Fuhrer. Levou menos tempo do que eu imaginava que levaria. Em meiados de fevereiro, a sósia foi encontrada. Tratava-se de uma prostituta de Munique, chamada Ilse. O agente que a descobriu, ofereceu-lhe uma soma considerável de marcos e, entre promessas e ameaças, ela acabou sendo transladada para Berchtesgaden, para se acostumar com a presença de Walter Muller e dele receber instruções de como uma sósia deve agir. Após ver filmes da Eva e ter aprendido alguns dos hábitos e costumes da nossa "primeira dama", Ilse estava relativamente pronta para o papel. Quando voltei a me encontrar com Gehlen, ele falou, com a frieza que lhe era peculiar; "Ela só tem que ficar de boca fechada e aparecer o mínimo possível. Afinal, será por um período muito curto: de acordo com o que está previsto na Operation Adler, tanto ela quanto Muller não terão muitas horas para viver, depois que Hitler e Eva tiverem saido de Berlim". E foi exatamente isso que aconteceu. Eva foi se juntar a Hitler no Bunker, decidida a ficar com ele até o fim, acontecesse o que acontecesse. Em 17 de abril de 45, três dias antes do aniversário do Fuhrer, os dois sósias foram levados, secretamente, por Linge e seus acólitos de confiança, até o Bunker, através de uma entrada-saida de emergência e permaneceram escondidos nos aposentos da Eva. No dia seguinte ao da partida do Fuhrer, Linge levou os dois para almoçar. Sem saberem, os sósias beberam um vinho carregado de soniferos. Terminada a refeição, recolheram-se aos aposentos de Hitler. No meio da tarde, Linge, calçando luvas de borracha, entrou lá e encontrou-os adormecidos em um sofá. Abriu a boca da Ilse, colocou dentro um flaconete com cianeto e apertou o queixo dela para cima. O veneno foi rapidamente absorvido pela via sublingual e a ex-prostituta se foi em pouco mais de dois minutos. Em seguida, Heinz foi até Muller, pôs uma pistola na mão dele, dirigiu-a para cima, encostou o cano na têmpora direita e apertou o gatilho...

Skorzeny se ergueu, esticou os braços e disse:

- Era essa a história que eu tinha para lhe contar, Herr Kleist. Como o senhor registrou nossa conversa nesse gravador que tem escondido por dentro da calça, estou certo de que repetirá, com precisão, as minhas palavras no seu futuro livro.

Steve fitou-o espantado e indagou:

- Como descobriu?

- Olhando-se atentamente, dá para ver o fio por dentro da camisa.

- Espero que Fraulein Reitsch não tenha notado...

- Estou certo que não. Ela está sempre voando, ou pelos céus, com seus adorados aviões, ou em terra, com seus sonhos e devaneios. Eu percebi porque, ser um bom observador faz parte da minha profissão e garante a minha sobrevivência. Estou certo que sabe qual é o meu tipo de trabalho e que, também, durante a guerra. pertenci a Waffen SS. Logo...

Otto deu uma espiada no relógio e perguntou:

- Quer me dar a honra de ficar para o almoço?

Kleist se levantou e respondeu:

- Agradeço o honroso convite, Herr Skorzeny, mas devo partir agora. Vou tentar conseguir um vôo, ainda hoje, para Assunção...

- E de lá, certamente, irá até Pablo Juan Cabalero, para se certificar da morte de Adolf Hitler, isto é, Watter Muller e do paradeiro de Eva Braun, ou seja, da viúva Irma Muller...

- Sua sagacidade faz jús a sua fama, Herr Skorzeny.

- Obrigado. E como prova do meu apreço pela sua investigação, vou lhe dar algumas informações que facilitarão o seu trabalho. O sítio em que Hitler e Eva moravam foi fechado pela Odessa. Se for lá, só vai dar de cara com seguranças. Portanto, não perca o seu tenpo. Como também não o perca tentando ver ou falar com Eva Braun. Ela foi levada, por vontade própria, para um convento, em Blumenau, no Brasil e, certamente, não permitirão sua entrada lá.Vá ao cemitério de Pedro Cabalero e procure pelo túmulo de Walter Muller. Se quiser também uma cópia do atestado de óbito, isso é facilmente arranjável no único cartório da cidade, onde registram nascimentos, casamentos, falecimentos, compra e venda de terras e imóveis e tudo mais que você possa imaginar. Lá, mediante algumas dezenas de dólares, todas as portas lhe serão abertas. E há sempre alguém nesses lugares falando um inglês passável. Se não fosse assim, perderiam muitos negócios. É isso aí.

Steve agradeceu, apertou a mão de Skorzeny e foi escoltado para fora da propriedade, pelo mesmo segurança que o recebera na chegada.

*****

Capítulo 41

Steve conseguiu um vôo, naquela mesma tarde, para Assunção. Pernoitou em um pequeno hotel, no centro da capital paraguaia. Na manhã seguinte, tomou um ônibus para Pedro Juan Cabalero. Foram duas horas de calor, com o quase acabado veículo dançando. de um lado para outro, tentando evitar os buracos na estrada. Finalmente chegaram. Um padre, que falava um inglês razoável, indicou-lhe onde ficavam o cartório e o cemitério. A cidade era bem pequena e os lugares situavam-se perto uns dos outros. Visitou primeiro o túmulo de Hitler. Era uma tumba simples, com uma lápide, onde estava escrito "Walter Muller 1889 - 1965". Algumas flores sobre a sepultura e nada mais. Com uma Kodak que comprara no aeroporto de Assunção, Kleist bateu várias fotos do túmulo do ex-Fuhrer. Depois, foi ao cartório e pediu uma cópia da certidão de óbito do señor Muller. Cinquenta dólares fizeram com que a recebesse em menos de dez minutos, devidamente assinada e carimbada por um escrivão.

Steve saiu pelas ruas, entrou num bar e devorou um sanduiche de carne, acompanhado por uma coca-cola. Em seguida, saiu caminhando por uma estrada de terra batida, para longe da cidade. Cruzou com alguns camponeses que seguiam à pé, ou em velhas carroça puxadas por esquálidos cavalos. "Uma terra pobre, um povo pobre" - pensou ele. Quando a noite caiu, Kleist já se encontrava bem distante de Pedro Juan Cabalero, numa área totalmente deserta, desprovida de qualquer tipo de iluminação. Ao seu derredor, estava mais escuro do que breu. Uma excelente condição para a vinda do "Carl Sagan"! Steve acionou o tempocelular e descreveu para Martin a sua provável localização.

- Não há problema, Steve. Se o lugar está tão escuro como você diz, não vejo nenhum risco em levar a nave até algum local nas proximidades e, com o rastreador, encontro você em questão de segundos. Permaneça onde está e fique de ôlho no céu. Chegarei ai dentro de pouco mais de um minuto.

Menos de dois minutos depois, Kleist já estava dentro do módulo. Como de hábito, trataram logo de se mandar. Steve colocou o traje espacial, sentou-se ao lado de Kelvin e apertou o cinto de segurança. Martin fez apenas uma pergunta:

- Para casa?

Steve noveu a cabeça sinalizando que "sim". O módulo disparou e, logo em seguida, se "desmaterializou". Seriam dezessete horas de consciência zero até o ano 2006.

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