DE VOLTA À ALEMANHA DE HITLER
Parte V
Termina a Grande Aventura
Capítulo 42
Durante o tempo em que o "Carl Sagan" esteve ausente , os membros remanescentes do grupo comandado por Paul Mordush decidiram o rumo que iriam seguir. Isto porque, dois deles, a veterinária Ruth Petrovich e o professor Jonas Gelder haviam partido logo a apresentação do relato sobre a "Operação Berlim". Os engenheiros mecânicos e de construção espacial David Sosa, Takeo Yamazata e Benito Santino, o matemático Richard Peck, o engenheiro em telecomunicões Peter Gray e o físico nuclear Norman Gardner optaram por permanecer no Instituto. Helen Newman por já fazer parte da Força Aérea, também permaneceria e esperava-se que, ao regressar, Kelvin Martin adotasse idêntica atitude. Os físicos David Lee, Robert Richardson e William Phillip decidiram regressar às suas universidades e institutos de pesquisas. E, a Steve Kleist, não restaria senão a opção de ir para onde o Exército o designasse. Apenas Paul Mordush e Emily Kelly não haviam ainda se manifestado em relação à decisão que iriam tomar.
***
Duas noites após a partida do módulo com destino à Áustria, Paul e Emily, no aconchego da sua sala de estar, conversavam sobre o assunto:
- Emily, com o fim do Projeto "Time for Angels", as coisas por aqui vão ficar muito monótonas. O programa militar não me atrai particularmente e sinto que, se optarmos por permanecer, nossa atuação será bastante limitada. O que acha ?
Emily não hesitou:
- Estou de pleno acordo com você.
- Estou pensando seriamente em irmos para o Texas. Se você concordar, é claro. Tenho um rancho próximo de Houston e uma confortável casa em um subúrbio exclusivo de Dallas.
- E porque não concordaria? Sou sua esposa, Paul e lhe acompanharei aonde você for. - Kelly sorriu e arrematou, em tom de brinvcadeira - Ou está querendo se ver livre de mim, assim tão cêdo?
Mordush, não tendo interpretado adequadamente o tom dela, exclamou:
- Deus me livre, Emily, você é o único encanto da minha vida.
- Estava brincando, seu bobo. Estou até pronta para me transformar em uma exemplar dona de casa texana...
Paul riu aliviado e disse:
- Você, dona de casa, cozinhando nossas refeições... nem pensar!
Ela fez um "beicinho" e aguardou. Sentia que o marido tinha alguma ideia, ainda não revelada, na cabeça. Ele sorriu e continuou:
- Ontem, liguei para um velho amigo. Douglas Zylenko, com quem frequentemente me comunico pela Internet, mas a quem não vejo há muitos anos. Ele é neurocientista e foi, recentemente, designado para Reitor da Universidade do Texas...em Dallas, e está promovendo diversas alterações estruturais e pedagógicas. Tivemos uma longa conversa que acabou com dois convites feitos por ele: para mim, o cargo de professor-adjunto do Centro de Pesquisas da Universidade e, para você, o cargo de coordenadora da Escola de Ciências Sociais.
Emily olhou com ar de incredulidade para o marido e falou:
-Agora é você quem está brincando, Paul.
Ele adotou uma expressão séria.
- Não, Emily, é verdade.
- Nossa, essa caiu do céu...
- Diretamente no nosso colo - concluiu Mordush.
- Aceita?
- Se aceito? Adorei a idéia.
***
Bem cedo, na manhã seguinte, Paul foi ao gabinete do general Sherman e cominucou-lhe a decisão que ele e Emily haviam tomado.
- Vamos sentir a falta de ambos, mas já esperava por isso e compreendo que tivessem chegado a essa conclusão. Só estava mesmo faltando conhecer a posição de vocês dois. Agora as listas estão completas: a dos que partirão e a dos que vão permanecer.
***
Decorridos quatro dias desde a partida do "Carl Sagan", o "staff"do "Time for Angels" começou a ficar preocupado:
- Eles já deveriam ter voltado - disse Paul Morduch, reunido com os outros membros do "alto comando" do projeto. - Steve não levaria mais que um a dois dias para entrevistar Hanna Reitsch.
- Talvez ele tenha tido dificuldade em marcar a entrevista - ponderou Emily.
- Ou talvez a informação passada pela tal Associação de Acrobacias Aéreas não estivesse correta e a Fraulein não se encontrasse em Saltzburg. E Kleist tenha resolvido esperar por lá, para não perder a viagem - aventou Richardson.
Takeo, - perguntou Paul - dirigindo-se ao engenheiro - qual o grau de probabilidade da "rematerialização" falhar?
- Felizmente, como isso não aconteceu em nenhum dos testes realizados, tanto com a "Nancy Reagan", quanto com a "Carl Sagan", só podemos nos valer dos cálculos de simulação feitos pelos computadores. E, segundo eles, essa probabilidade é inferior a quatro por cento.
- Um risco menor do que tem uma carro, percorrendo 1000 kms de estrada a 110 km/hora - declarou Richard Peck, o homem das estatísticas.
- Bem, - interveio Emily - como não há outra saída, o jeito é confiarmos que tudo vai acabar bem e que, dentro de alguns dias, ou, quem sabe, até de algumas horas, a nave aterrará no naveporto, com Kelvin e Steve sãos e salvos.
- Que os anjos digam "Amem". - disse Peter, o único religioso daquele grupo.
***
Às 11hs 19min 34 seg. 455mseg do dia 23 de maio de 2006, a "Carl Sagan" aterrizou, sem se anunciar, como sempre, no naveporto do Mojave. Era o fim da ansiedade. Foi uma correria geral. Mais uma vez, Helen foi uma das primeiras pessoas a chegar junto dos astrotemponautas, os quais já se encontravem fora do módulo.
Ela abraçou os dois, carinhosa e emocionadamente. Mas o abraço dado a Kelvin foi mais demorado e, como Emily comentaria depois, maliciosamente, com o marido, bem mais apertado...
*****
Capítulo 43
Desta vez ninguém deixou de comparecer, quando, às 10 horas da manhã seguinte, Paul deu por aberta a última reunião geral da equipe, a fim de ouvirem os relatórios dos dois viajantes e as gravações das entrevistas, que Steve já anunciara ter realizado, não só com a aviadora alemã, mas, também, com o mais famoso aventureiro da Alemanha Nazista.
Kelvin não teve nada de especial para declarar. Comentou apenas que o desempenho da "Carl Sagan" tinha sido, como anteriormente, absolutamente perfeito.
Steve, mostrando-se muito sério no falar, pediu desculpa por ter criado ansiedade no grupo com a demora, embora salientando que teria sido um êrro imperdoável da parte dele, se tivesse deixado escapar a oportunidade de entrevistar Skorzeny e de ir a Pedro Juan Cabalero. Desculpou-se, também, pelo fato de ter, inadvertidamente, interrompido a gravação feita em Saltzburg, mas ressaltou que, quando isso ocorreu, a Fraulein já havia relatado tudo que se desejava saber. Depois, contou ter visitado o túmulo de "Walter Muller" e mostrou as fotos que havia batido da sepultura.
Em seguida, com todos guardando o mais profundo silêncio, os autofalantes retransmitiram as duas entrevistas.
***
Quando os autofalantes emudeceram, Paul fez um gesto para que Kleist e Martins se levantassem e convidou os presentes a brindarem os dois com uma salva de palmas. O que eles fizerem, de pé e demoradamente.
Em seguida, o diretor científico fez uso da palavra:
- Muitos são os responsáveis por esse momento de vitória que estamos comemorando. Para não correr o risco de cometer alguma omissão, não farei, a não ser em casos excepcionais, referências individuais. Assim, desejo ressaltar o imenso e dedicado empenho de todos que estão aqui e de outros que já se foram, bem como o apoio e incentivo que recebemos de Ronald Reagan e dos Presidentes que o sucederam. Quero, também, lembrar que o gênio de Carl Sagan e a confiança que ele depositava na capacidade do ser humano, foram as alavancas iniciais do Projeto "Time for Angels". E, em vinte e um anos de trabalho, tendo a seu dispor o grande avanço tecnológico no campo aéreo-espacial, um grupo de cientistas, dotados de excepcional grau de tinteligência abstrata e concreta, tornou possível a realização de um dos grandes sonhos da comunidade científica: vencer a barreira do tempo. O conhecimento intrínseco dessa inigualável tecnologia, somente nós possuímos. Ele já serviu para desvendar um dos grandes mistérios da História: o que verdeiramente aconteceu com Adolf Hitler e Eva Braun nos últimos dias de abril de 1945 e nos anos que se seguiram. Que, agora, esse mesmo conhecimento venha a servir, sob a égide da nossa grande nação, não como como uma arma de coação, mas como um instrumento de manutenção da paz para toda a humanidade. Com os olhos rasos d'água, Mordush fez uma longa pausa e, com a voz trêmula, concluiu: - A última reunião geral do "staff" do Projeto "Time for Angels" está encerrada. Muito obrigado.
Após recebe um ardente beijo da emocionada esposa e efusivos cumprimentado do general Sherman, Paul se ergueu e, sob uma demorada chuva de aplausos, tomou Emily pela mão, contornou a mesa e, num gesto de agradecimento e despedida, foi cumprimentar, um por um, os membros da sua equipe.
*****
Capítulo 44
Mas nem tudo tinha terminado. Uma surpresa ainda aguardava Paul e Emily, quando, naquela mesma tarde, no gabinete, esvaziavam suas gavetas. Bateram na porta. Mordush disse:
- Entre.
E a doutora Newman entrou. Ao contrário do que normalmente sucedia, a expressão da médica e psicóloga estava séria. Paul notou, parou de mexer na gaveta e falou:
- Sente-se Helen. Seu rosto denota preocupação. O que está acontecendo?
Emily também deixou de lado o que estava fazendo e veio postar-se ao lado do marido. Corando ligeiramente, a doutora olhou para o casal e disse:
-Talvez tudo não passe de um êrro meu de interpretação. Mas achei por bem lhes dar conhecimento do resultado dos exames de Kelvin e do major Kleist.
Emily logo se deu conta da diferença de tratamento usada pela médica, em relação aos dois astrotemponautas, o que reforçou sua impressão de que havia um "algo mais" acontecendo entre Helen e Kelvin. Mas logo deixou de lado suas fantasias de cupído e se concentrou no diálogo, que se iniciava entre Mordush e Newman.
- Algum problema com os rapazes? - indagou Paul
- Fisicamente, não. Mas os testes psicológicos sugerem que Kleist está com um quadro de depressão ansiosa de razoável intensidade.
- Steve com ansiedade? Deprimido? Deveras surpreendente. É grave?
- Creio que não, mas vai depender da evolução dos sintomas.
- Ele mostrou algum sinal disso antes da viagem?- perguntou Emily
- Não, naquela ocasião ele não tinha nada.
- Helen, você acha que isso pode ter a ver com a desmaterialização, com a rematerialização ou com a fase em que permanecem desintegrados? Uma vez falamos a respeito disso e você disse que, só com o tempo, poderiamos ter certeza se tais procedimentos podem causar efeitos colaterais e de que natureza. Quem sabe...
A doutora Newman interrompeu:
- Neste caso creio que não. Por dois motivos. Primeiro: dificilmente ocorreriam sintomas mentais sem concomitantes alterações físicas. Segundo: porque só o Kleist e não o Kelvin? Se a causa fosse um dos procedimentos a que o senhor se referiu, era de se esperar que ambos fossem igualmente afetados, ou que fosse Kelvin o mais atingido, já que ele realizou mais "viagens" que o Steve. Sei que cada ser humano pode reagir de maneira diferente, diante de iguais situações. Mas continuo achando que o problema não está relacionado com a viagem em si, mas com algo que aconteceu em um dos lugares por onde Steve esteve e Kelvin não.
- É lógico o seu raciocínio, Helen. - falou Emily - E meu palpite é que o problema envolve Satzburg.
- Também acho. - confirmou a médica - Assim que fiz a leitura dos testes psicológicos de Kleist, conversei a respeito do assunto com Kelvin. E ele me revelou que, ao chegarem ao Polo Norte, vindos da Áustria, notou que Steve estava diferente: mais calado do que de costume, um tanto irritadiço e com dificuldade de conciliar o sono.
Emily começou a andar de um lado para o outro, com o dedo indicador nos lábios. Um gesto característico, que Paul já aprendera a reconhecer: sua mulher estava tentando evocar a lembrança de algo que sua mente havia registrado, mas para o qual não dera, na ocasião, maior importância. Sentindo que Paul e Helen seguiam a movimentação dela, Kelly disse:
- Paul, que tal ouvirmos de novo a entrevista do Steve com a Hanna? Mas, agora, bem atentamente, analisando cada instante, indo e voltando a fita, sempre que algo nos pareça estranho... Vamos fazer isso ?
- Claro - respondeu Mordush.
Ele foi até o interfone, discou um número e, quando atenderam, falou:
- Peter, dá para você me trazer agora a fita da entrevista do Steve com a Hanna? ... Sim, aqui no gabinete...Estarei aguardando. Obrigado.
***
Gray chegou alguns minutos depois. Cumprimentou os presentes e indagou:
- Querem ouvir desde o início?
- Sim - respondeu Kelly.
Peter colocou a fita no gravador e apertou a tecla "play". A conversa começou a ser ouvida através dos potentes autofalantes, com a empregada da aviadora dizendo para Steve:"Um momento, por favor". Após a fita ter rodado por um bom tempo, Emily sinalizou a Peter que desse uma parada. Depois disse:
- Volte um pouquinho a fita. Ai. Agora recomece, por favor.
A gravação recomeçou. Era Kleist quem estava falando:
"Sem o menor problema. Sabe, Hanna, não sei como lhe agradecer mais essa gentileza".
Segue-se a voz da alemã:
"Então não agradeça. Apenas pense em mim com ternura e saudade, quando estiver redigindo seu livro. Afinal, de que vale a afeição entre duas pessoas, ainda mais quando sentem, uma pela outra, uma súbita, mas intensa afinidade, se não guardarem, ao menos, uma recordação de saudade e de ternura?"
Emily disse:
- Repararam nas palavras afetuosas com que ela respondeu e, mais que isso, no tom da voz dela, carregada de carinho?
- Sim, reparei - confirmou Paul - Você acha que foram apenas palavras de uma mulher solitária e romântica ou que ela estava tentando seduzir o Steve?
- As duas coisas. Uma mulher solitária e romântica está, quase sempre, fragilizada e Kleist é um homem bonito e charmoso. Não fica difícil ,imaginar que Hanna se sentisse tentada a seduzi-lo.
Ela voltou-se para Gray e pediu:
- Avança um pouco mais a fita.
Ele fez a fita correr e apertou o "play". Kelly escutou e disse:
- Não, creio que é mais para a frente.
Peter obedeceu: avançou um pouco a fita, parou e premiu a tecla "tocar". Atenta, Emily exclamou ao ouvir:
- É exatamente ai. Recue uns três a quatro segundos. Pronto. Vamos ouvir.
Ouviram. A voz de Steve:
"É por isso que estou aqui, Hanna".
Em seguida, a da Fraulein:
"Oh, mein Gott!"
Novamente Kleist:
"Por favor, meu anjo, não há razão para você ficar aflita. Como disse, trata-se de um projeto de investigação histórica, exlusiva para os arquivos..."
Emily retomou a palavra:
- Durante a gravação no anfiteatro, escutando-se pela primeira vez, a gente, com a concentração voltada para absorver o diálogo no seu todo, não se dá conta de certos detalhes. Como este, que acabamos de ouvir: Steve chamando Hanna de "meu anjo". Uma expressão fora de contexto para uma entrevista, ainda que tivesse sido dita com a intenção de acalmar a alemã. Só que, a meu ver, o tom da voz dele sugere a existência de algo mais: que KLeist começava a se deixar envolver afetivamente com ela.
Não houve comentários. Emily prosseguiu:
- E, se não me falha a memória, tem ainda uma última frase da Hanna que...Peter, dá para por o trecho final ?
Gray tornou a avançar e falou:
- Este é o último minuto da gravação.
E apertou o "play".
A voz da Fraulein:
"Tem razão, não existe outra explicação lógica. Mas porque não me disse, logo de saída, que era um agente presidencial?"
Steve:
"Se o fizesse, você teria me contado o que contou?"
Hanna:
"Acho que não. Não...não sei ao certo...mas, para você...talvez...sim, eu penso que contaria".
- A essa altura, - concluiu Emily - fica evidente que Kleist já havia se tornado uma pessoa especial para ela. E foi aí que a gravação foi interrompida, porque, segundo Steve, ele, acidentalmente, desligou o aparelho. O que é uma pena, já que, o que se seguiu, provavelmente esclareceria a razão da depressão e da ansiedade do nosso querido major.
Paul fitou a esposa e perguntou, ironizando:
- Você tem certeza que seu PhD, em vez de ter sido em ciência política, não foi em psicologia sherlockiana?
Kelly já ia revidando a brincadeira do marido, quando Gray interveio:
- Professor, se me permite, gostaria de opinar a respeito da tal interrupção.
- À vontade, Peter. Eu ia mesmo sugerir que você se manifestasse sobre o assunto.
- Bem, quando, na reunião, Steve declarou ter desligado acidentalmente o gravador, eu não acreditei que ele estivesse dizendo a verdade. No entanto, seria inoportuno e indelicado por em dúvida a palavra dele diante de todos. Não só porque, conquanto muito improvável, um tal acidente pudesse, de fato, ter ocorrido, mas, também, porque Kleist e Martin são os dois grandes heróis desse nosso empreendimento. Porém agora, que a questão veio à baila, e com apenas quatro pessoas presentes, acho que devo explicar as razões da minha duvida. A primeira é que, para interromper a gravação, faz-se mister aplicar uma certa intensidade de pressão sobre o botão que liga e desliga o aparelho. Sei disso melhor que ninguém, pois fui eu quem o construiu e um dos cuidados que tive foi justamente esse: dificultar que a gravação fosse acidentalmente interrompida. A segunda: após a reunião, procurei o Kelvin, reservadamente, já que foi ele quem, lá no polo norte, copiou a entrevista, da fita do minigravador para a do gravador do "Carl Sagan". Perguntei-lhe se tinha notado que a gravação havia sido interrompida e se Steve dera alguma explicação para o fato. Ele respondeu "sim" às duas perguntas e acrescentou que Kleist lhe havia dito que, provavelmente, a parada acidental tinha ocorrido quando bateu com a coxa na borda da cadeira em que estava sentado. E que ele, Steve, só se dera conta do que tinha acontecido, no momento em que os dois ouviram a entrevista, já, então, transcrita para a fita do gravador de bordo.
Gray fez uma pausa para tomar fôlego e prosseguiu:
- A explicação dada pelo Kleist é inexata e, além do mais, infantil. Sendo ele um homem dotado de um raciocínio lógico excepcional, tal afirmação só pode ser atribuida ao estado de espírito em que se encontrava na ocasião. Isto porque o assento e a borda da cadeira fazem face com o lado posterior da coxa. E o gravador estava colocado na parte anterior ! Logo... -
- Steve mentiu. - completou Paul - Mas, certamente, o fez por uma razão muito importante, pelo menos para ele. Possivelmente, pressentindo que a conversa se encaminhava para um terreno muito intimo, interrompeu a gravação, a fim de preservar essa intimidade. Se tivesse admitido que fez parar a fita propositadamente, estaria confessando saber que, o que se seguiria, ia ser de natureza estritamente pessoal. O que, com todo direito, não desejava fosse exposto a terceiros.
- De pleno acordo, Paul - retomou Emily - o que se seguiu após a interrupção da fita, não importa o que tenha sido, pertence, exclusivamente, a Steve e Hanna. E, se ele teve de mentir para garantir o sigilo do seu envolvimento com a Fraulein, bendita seja essa mentira.
- Vocês acham que foi um romance ocasional, apenas uma coisa de momento?
- Em relação à alemã, não há como saber. Mas, para Steve, foi algo que não terminou quando ele deixou a casa dela em Saltzburg. Prova disso é o estado de depressão ansiosa em que se encontra. - respondeu Helen.
- Mas que o tempo certamente há de curar - comentou Paul - Ele ainda é o melhor remédio para cicatrizar uma paixão interrompida.
- Principalmente se aparece um novo amor - lembrou Emily.
Entendendo bem porque a esposa havia dito aquilo, Paul sorriu, condescendentemente, e completou:
- Sem a menor dúvida, minha querida. -
*****
Capítulo 45
Apezar do general Sherman ter declarado que os módulos não seriam atilizados no momento presente, para vencer a barreira do tempo, o Secretário da Força Aérea, com o aval do Presidente, decidiu checar a performance da "Nancy Reagan", determinando que ela realizasse uma "viagem" ao passsado, para se certificarem de que o módulo, após as inovações recém introduzidas, poderia ultrapassar, com sucesso, a barreira do tempo, por um período bem superior aos 60 dias testados na fase de treinamento. Após um demorado encontro do Secretário com John Sherman - agora na direção dos projetos -, Takeo Yamazata, Richard Peck e Kelvinn Martin, ficou acertado que a nave iria regredir dez anos, tendo como destino o Polo Norte, local já conhecido pelo piloto.
Após Yamazata garantir que o módulo estava em condições de realizar a "viagem", a decolagem foi marcada para as 22:00 horas do dia sete de junho.
Dos que deveriam deixar o complexo, apenas o major Kleist ainda não partira. Ele solicitara ao Exército um adiamento da data em que deveria se apresentar em Fort Braggs, alegando desejar assistir a largada do "Nancy Reagan".. O pedido foi atendido e uma nova data de apresentação - oito de junho - foi estabelecida.
Steve dava a impressão de estar melhor da sua condição psicológica, o que a doutora Helen confirmou, dizendo a Kelvin que Kleist se mostrava mais interessado pelas coisas e, até measmo, um tanto alegre. O que ela atribuia à acão dos antidepressivos.
No dia cinco de junho, Kleist disse a Martin que precisava conversar com ele, em caráter reservado, pedindo-lhe que não comentasse o fato com ninguém, nem mesmo com Helen. Embora estranhando a solicitação do amigo, Martin concordou e marcaram um encontro para as vinte e duas horas daquele mesmo dia, na casa em que Steve continuava residindo.
***
Martin foi pontual e, cinco minuto depois das vinte e duas horas, os dois "astrotemponautas" estavam instalados, frente à frente, em duas poltronas, na sala de estar. Bebendo refrigerantes, já que Steve, pelos medicamentos que vinha tomando e Kelvin, por ter de "viajar" dois dias depois, tinham de se abster de qualquer bebida alcoólica.
Martin deu início à conversa:
- Steve, seu pedido para esse encontro reservado, leva-me a crer tratar-se de um assunto da maior seriedade.
E, lembrando a condição emocional pela qual o outro estava atravessando, procurou dar à voz um tom de compreensão e amistosidade:
- O que está acontecendo, companheiro?
Kleist cruzou as pernas, respirou fundo e respondeu:
- Sabe, Kelvin, existe um elo muito especial entre nós dois, um elo que o tempo nunca quebrará. Somos as duas únicas pessoas no mundo que sentiram a sensação de voltar fisicamente ao passado. Talvez por isso eu tenha conseguido criar a coragem necessária para lhe fazer um pedido, o qual, reconheço, não será fácil para você atender.
Martin depositou o copo sobre uma mesinha e, sentindo que algo estranho, talvez até irregular, passeava na mente de Kleist, redobrou a atenção, à espera do que estava por vir. Steve prosseguiu:
- Porém, para que entenda bem o porque do pedido, impõe-se que você escute uma confissão que, há muito, venho buscando forças para lhe fazer, mas que, agora, torna-se imperioso que o faça. Trata-se daquele assunto sobre o qual você comentou uma vez, lá no Polo Norte: Kelvin, houve um momento, em Saltzburg, em que eu pensei em deixar tudo de lado e ficar por lá...
- Hanna?
- Sim, Hanna.
- Sabe, Steve, você tem fama de ser um homem "sem nervos", frio, durão, quase inabalável diante do perigo e desprovido de sentimentalismo. Com ou sem depressão, é essa a impressão que você passa. Que você é duro e encara o perigo com frieza e serenidade, é verdade. Quanto a ter sentimento e capacidade para se apaixonar por alguém, isto eu vi, presente no seu olhar fixo no teto, enquanto sua amargura lhe impedia de conciliar o sono. Lá no Ártico, lembra?
- Sim, lembro. Como também lembro de ter percebido que você havia notado. Daí, minha veemente reação. Eu não estava ainda preparado para admitir aquela estranha paixão que, súbita e inesperadamente, se apossou de mim. Minhas ligações com as mulheres tinham sido, até então, do tipo "pegou/transou/largou". Sem qualquer envolvimento emocional. Apenas sexo. Poucas duraram mais que três a quatro encontros. Com a Hanna, foi tudo diferente. Houve atração física? Sim, houve...muita. Mas houve muito mais: admiração pela mulher leal e corajosa que ela sempre demonstrou ser, desejo de protegê-la contra a fragilidade interior que ela procurava esconder, carinho pela maneira doce com que foi me seduzindo, gratidão pelo esforço dela em tentar me ajudar. E muitas outras coisas, que a gente sente, mas tem dificuldade de explicar. Afinal, Kelvin, foram tantas sensações vividas em tão poucas horas... Às vezes, perguntava-me se me apaixonei pela Hanna por sermos almas gêmeas, com igual atração e gosto pela aventura. E, há duas semanas, venho sendo torturado pela idéia de ter sido um covarde, que só se deixou atrair por esse amor, exatamente por imaginar, então. ser ele uma absoluta impossibilidade. Daí, talvez, a angústia e a depressão que me alfigem. Na verdade, Kelvin, lá em Satzburg, eu ainda não estava certo do que queria. Mas, agora, conquanto sinta-me ainda um pouco confuso, tomei uma decisão: eu não posso continuar vivendo sem ter uma resposta para mim mesmo. Ou realizo o que decidi realizar ou mergulho de vez neste maldito estado depressivo.
Martin começou a pressentir para onde o pensamento do outro se encaminhava. Temeroso que seu pressentimento se transformasse em certeza, principiou a sondar, com jeito e, cautelosamente, a intenção de Kleist:
- Mas é assim que a vida é, Steve. O amor não tem lógica e aparece nos momentos e nos locais mais improváveis. E, por mais duro que a gente seja, chega um instante em que se torna imprescindível abrir o coração e confessar. E como seu amor chama-se Hanna Reitsch, se você não se abrisse agora, talvez nunca mais o fizesse. Porque, em breve, seguiremos caminhos diferentes e eu sou a única pessoa que testemunhou a sua reação, quando você se deu conta de ter sofrido uma inesperada, mas imensa perda.
- É exatamente isso, Kelvin: a sensação de uma grande perda. E que, estranhamente, continua presente, embora a história assinale que a Hanna esta morta desde 1979, ou seja, há mais de vinte e seis anos. Porém, dentro de mim, ela continua intensamente viva.
- Sabe o que está contecendo com você, Steve? Vou tentar lhe dizer o que acho: para nós dois, que quebramos a barreira do tempo, o tempo tem uma dimensão diferente da que tem para os outros seres humanos. No plano do tempo atual, você está aquí, na América, vivenciando a doce lembrança que a Hanna deixou impregnada em sua mente. E, no plano do passado, um passado que o Steve realmente viveu, você ficou em Saltzburg, para, durante os catorze anos que lhes seriam concedidos pelo destino, experimentar, com a sua Fraulein, uma encantadora vida de aventuras e paixões. E, durante esse tempo, conhecer a felicidade.
Os olhos do major Kleist se fizeram úmidos.
- Obrigado, Kelvin. Ter confessado foi um grande alívio e a sua compreensão inflama uma esperança, que começou a arder dentro de mim quando, inesperadamente, decidiram mandar a "Nancy Reagan" de volta ao passado. Quando estive na Áustria, impactado por uma inesperada paixão, sem saber ela era uma emoção apenas passageira ou se iria evoluir para um sentimento duradouro, eu hesitei e não tive a coragem de ficar, deixando passar a oportunidade de encontrar, com a Hanna, aquela felicidade a que você se referiu. Mas, hoje, convicto do que desejo e, com a sua ajuda, pretendo me redimir e ir atrás das duas: da Hanna e da felicidade, pois, para mim, elas estão inexoravelmente vinculadas.
À medida que Kleist falava, o coração de Martin ia se acelerando. Seu pressentimento estava certo: Steve já tinha tudo minuciosamente planejado e ia tentar convencer a ele, Klevin, a leva-lo de volta à Satzburg de 1965 ! O piloto fechou os olhos por alguns segundos, imaginando a loucura que o outro pretendia transformar em realidade. Respirou fundo, abriu os olhos e disse:
- Steve, o que é que você realmente está pretendendo fazer?
O olhar de Kleist cintilou de empolgação, quando respondeu:
- Convencer você a me deixar ir junto na "Nancy Reagan"... Apenas isso. O resto serão detalhes, que nós resolveremos, como sempre fizemos no passado.
Martin balançou a cabeça.
- Não, Steve, é loucura demais. Jamais conseguiremos. É absolutamente impossível.
Kleist ficou calado por um longo tempo, os olhos cintilantes fixados nos olhos incrédulos e assustados do piloto. Depois, ele voltou a falar, com a serenidade e convicção dos velhos tempos. Era como se a expectativa da façanha a que se propunha realizar, houvesse varrido a ansiedade e a depressão:
- Impossivel....será mesmo, Kelvin? Será mais impossivel do que as coisas que já realizamos? Não, meu amigo, para nós a única coisa impossível é morrer e tornar a viver. Mas será que, de certa forma, nós já não morremos várias vezes e sempre ressuscitamos?
Kleist se levantou, foi até Martin, pousou a mão, suavemente, no ombro dele, baixou o tom da voz e disse:
- Eu não estou louco, Kelvin, e tenho plena consciência de que, se não traçarmos um plano perfeito, fracassaremos e ambos seremos severamente punidos.
Steve retirou a mão do ombro do outro, voltou a se sentar e prosseguiu:
- Acontece que o plano, por ser simples, é perfeito, Kelvin. Permita-me explicá-lo. Se, ao terminar, você não estiver convencido da sua absoluta viabilidade, a gente esquece o assunto. Concorda?
Sabendo o quanto Kleist podia ser convincente, Martin vacilou:
- Não sei...
Steve então disse, quase num sussuro:
- É a minha vida que está em jogo, Kelvin. Se você não me conceder, ao menos, a chance de lhe mostrar que pode ser feito, sem prejuizo para ninguém, eu sei que vou afundar na depressão até... o fundo do poço.
Martin viu surgir a oportunidade de um novo argumento:
- E se, após lhe ouvir, eu não me convencer? Você não vai afundar do mesmo jeito?
A resposta do outro veio firme:
- Não, Kelvin. Porque, se eu não conseguir convencer uma pessoa inteligente e perspicaz como você, então é porque tornei-me um idiota. E os idiotas não se deprimem. Eles simplesmente se adaptam à própria idiotice e passam a aceitar as coisas como o destino lhes apresenta. E, mesmo vazios, seguem em frente, empurrando suas medíocres vidas com a barriga...
Martin capitulou. Esvaziou o copo do refrigerante e disse:
- OK, Steve, eu não posso negar o que me pede. Conte-me o plano, em seus mínimos detalhes. Se eu tiver de percorrer o corredor da morte, quero, ao menos, saber tudo que vai acontecer, até que me apliquem a injeção letal. Sou todo ouvidos...
- Comecemos então: o maior problema consiste em me verem entrar na "Nancy Reagan". E isso será contornado de um jeito muito simples: lá pelas 17 horas, muito antes, portanto, do instante da decolagem, você vai até o módulo para dar uma "checada" nos equipamentos. Uma atitude perfeitamente natural. E o sentinela, de guarda na porta da nave, não vai estranhar que seu colega astrotemponauta - eu - lhe acompanhe nessa inspeção. Passados alguns minutos, você pede ao guarda para ir até o almoxarifado, a fim de solicitar que alguém de lá envie mais cobertores; uma precaução compreensível para quem está indo para o Polo Norte. Muito bem. Quando o almoxarifado entregar os cobertores, você deixa a nave e diz ao sentinela que, enquanto ele esteve ausente, eu me retirei para dar um telefonema e que, se voltar a aparecer, ele deverá notificar-me que você estará me aguardando em sua casa. Assim, meu álibi de "não estar" no módulo fica claramente estabelecido. Eu me escondo na despensa, até você regressar à "Nancy Reagan", fechar definitivamente a porta e ir sentar-se diante dos controles, para aguardar a contagem regressiva. Como o interior do módulo não é vigiado por controle remoto, eu saio do esconderijo e vou sentar-me ao seu lado. O principal obstáculo foi removido, concorda?
Martin argumentou:
- E se o Takeo resolver fazer uma inspeção de última hora?
- Ele o chamará para ir junto, como sempre fez, e irá conferir os controles de bordo e os tanques de combustível, jamais a despensa, que só contém roupas, colchonetes, material de limpeza e ferramentas.
Kelvin não teve outro recurso, senão concordar com um gesto da cabeça. A batalha começava a ser perdida... Steve não deu tregua:
- Uma vez no Ártico, você, utlizando o LPG, traça as coordenadas para deixar-me em Saltzburg na madrugada de 13 de setembro de 1965...
Kleist riu como uma criança e completou:
- ...a tempo de eu tomar o desjejum com a minha amada.
Mas Martin não havia esgotado todos os argumentos:
- Não precisa me dizer o que segue, Steve: eu regresso ao Àrtico e, de lá, volto para casa. Muito bem. Acontece que, segundo as ordens que recebi do general Sherman, devo regressar ao Mojave dentro de, no máximo, doze horas após chegar ao Polo Norte.
Martin parou de falar, retirou do bolso do casaco um minicomputador, uma caneta e uma caderneta e começou a fazer contas, escrevendo os dados, à medida que calculava. Quando terminou, voltou-se para Kleist e disse:
- A viagem Mojave / Ártico / Mojave, dentro de um período de regressão de dez anos, vai levar 12 horas, 40 minutos e 32 segundos. Somando-se as doze de estadia máxima no Polo, teremos um 24h:40m:32s. Para regredir mais trinta anos, a fim de lhe deixar na Áustria em setembro de 1965, vou gastar, de ida e volta, mais 36h:54m:28 seg. Total: 61h:35m:00s. Quer me dizer como vou justificar o tempo excedente?
Kleist, com um largo sorriso nos olhos e nos lábios, encarou o amigo e respondeu:
- Kelvin, você acha que eu me esqueceria de um detalhe tão importante? Ontem, quando fui à LasVegas, para raspar minha conta bancária, aproveitei para telefonar de lá para o Centro de Previsão Climática, em Maryland, e perguntei quanto tempo uma tempestade de neve no Àrtico costuma durar. Quer saber a resposta que me deram? Em média, de doze a setenta e duas horas. Assim é que, surpreendido por uma dessas violentas tempestades e sendo um piloto cioso e responsável, o major Kelvin Martin não quis arriscar uma decolagem, antes que a tormenta abrandasse. Uma atitude louvável e uma explicação mais que convincente para justificar seu atrazo.
Martin, começou a perceber que, como antevera, Kleist acabaria por convence-lo, pela força da razão. Fez uma derradeira tentativa para evitar a derrota:
- Muito bem, senhor "sabe tudo", diga-me, então: quem vai explicar o seu súbito e permanente desaparecimento?
Steve, já se sentindo vitorioso, soltou uma gargalhada e disse:
- Ninguém, é claro. E que importância terá isso para mim? Nenhuma. Sumí e pronto. Mais um mistério para a História. O importante é que não terão como lhe atribuir nenhuma responsabilidade pelo meu desparecimento. A última vez que você me viu foi horas antes da partida, quando eu deixei a nave para ir dar um telefonema, lembra? Garanto que, se interrogado, o sentinela vai se recordar que você o avisou para que, se eu tornasse a aparecer, ele deveria me dizer que você estaria a minha espera em sua casa, certo? Só que eu, nem voltei ao módulo, nem fui a sua residência. Aliás, você lamentou não ter-me visto, mais uma vez, antes de partir. Mas não se preocupou com isso, já que uma pessoa deprimida costuma se isolar, nos momentos em que a depressão aumenta. Logo...
Martin aproveitou a pausa do outro para perguntar:
- Steve, suponhamos que tudo de certo. Muito bem, você alcança o seu objetivo: fica com a Hanna e, depois... quando o inevitável acontecer?
O rosto de Kleist ensombreceu.
- Você se refere ao que vai ocorrer em 1979?
- Sim.
- Eu nem sei se estarei vivo até lá...
- Aposto que vai estar.
- Em 79, ou seja, em 2020, pelo atual calendário, se ainda vivo, eu estarei beirando os cinquenta anos.
Kleist fez um pausa, enquanto refletia e, depois, falou:
- Sinceramente, Kelvin, não tenho a menor ideia do que poderia vir a fazer.
Em seguida, Steve sacudiu a cabeça, sorriu e disse, agora com uma expressão bem mais leve na fisionomia:
- Não quero pensar no futuro distante e sim no imediato. Quando sai do banco, ontem, fui, lá mesmo em Las Vegas, ver um corretor, com quem meu pai tinha realizado alguns negócíos no passado. Troquei os dólares por dois quilos e meio de ouro, em barras de 250 gramas, não datadas, não carimbadas e, portanto, não traçáveis, Vou levá-las numa maleta, com algumas mudas de roupas de baixo. Na Europa de 1965, essas barras valerão uma fortuna, que usarei em favor da minha felicidade, com a mulher que escolhi para amar e com quem vou ficar até o fim...O resto, agora, não me interessa.
Kleist fez nova pausa. Sua expressão facial tornou-se séria e os olhos se fizeram úmidos, quando perguntou:
- Então, companheiro, posso contar com você para ir atrás da minha felicidade ?
Kelvin contemplou longamente o rosto do homem que havia elaborado um plano praticamente perfeito, em seus mínimos detalhes. Um homem que estava abrindo mão de uma carreira e de tudo que sua época tinha a oferecer, por um amor difícil de se compreender e com data marcada para acabar. Orgulhoso por ser amigo de alguém tão especial, Martin disse, para si mesmo: "Kleist, eu acho que você é a pessoa mais maravilhosamente louca e genial que a evolução colocou na face deste planeta". E, para Steve, ele disse:
- Claro, companheiro, você me convenceu. Pode contar comigo.
E os dois astrotemponautas se ergueram e trocaram um forte e prolongado abraço...
Capítulo 46
Às 11:00 horas do dia oito, o comandante do Fort Braggs ligou para o general Sherman, a fim de indagar do paradeiro do major Kleist, já que este ficara de se apresentar naquela base às 08:00 horas e, até o momento, não havia aparecido. O diretor do Insitutto prometeu ao seu colega do Exército que cuidaria para que Steve fosse imediatamenrte procurado e, tão logo fosse encontrado, ligaria para o Fort. O coronel Powell foi chamado ao gabinete, recebeu a ordem do general e a busca começou. Pela casa onde Steve morava. O carro, um Toyota 2003, permanecia na garagem. O armário do quarto estava repleto, com as roupas civís e os uniformes do major, Aparentemente, ele sumira, levando apenas o que vestia no corpo. Todos os recintos e recantos do campus foram rigorosamente revistados: nem sinal de Kleist. Ele não estava em lugar algum e não fora visto por ninguém. O soldado Garcia que, na véspera, prestara guarda junto ao módulo, fazia parte da busca. Mas teve medo de admitir que se afastara do seu posto, ainda que por curto tempo e ainda que a pedido de um oficial. Só que Kelvin era da Força Aérea e ele era do Exército. Só que, seu comandante, o rigoroso coronel Powell fora muito claro ao se referir à vigilância da nave. Lembrava=se bem das palavras dele: "Quem estiver de serviço junto aos módulos e necessitar se afastar, por um segundo que seja, arrume outro soldado para lhe substituir, antes de arredar um passo do local". Só que Garcia também sabia que, quando a "Nancy Reagan" regressasse, o major Martin seria interrogado e contaria o que se passou. Pensou bastante e chegou à conclusão que o piloto havia, igualmente, incorrido em falta, ao solicitar que um soldado, dando guarda, deixasse seu posto para ir dar um recado a terceiros. O jeito era contar uma versão muito próxima da verdade e informar o major Martin sobre o que dissera, antes que este fosse chamado a prestar depoimento. Contaria sua versão e ficaria atento para falar com o piloto, tão logo a nave voltasse. Assim é que, determinado, dirigiu-se a Powell e relatou ter visto, na tarde do dia sete, o major Steve entrar no módulo, na companhia do major Kelvin e, logo depois, sair, dizendo que ia dar um telefonema. Havia surgido a primeira pista... Só que o controle telefônico não registrou nenhum telefonema dado pot Steve naquele dia. Os mais recentes tinham acontecido no dia três. Conferidas a ligações, descobriram que elas foram feitas para uma agência do Banco de Nevada, situada em Las Vegas e para um corretor daquela mesma cidade. Burt Powell foi lá, pessoalmente, conversou com o gerente e ficou sabendo que, no dia quatro, o major Kleist estivera no banco e sacara todo o saldo da sua conta corrente: dez mil, duzentos e sessenta dólares! O coronel foi depois ao escritório do corretor e este confirmou que Kleist havia trocado o dinheiro por barras de ouro. De volta ao Mojave, Powell informou o general Sherman a respeito dessa segunda pista. O diretor do Instituto passou a informação para o comandante do Fort Graggs.
Em seguida, Sherman ligou para Washington. Falando por uma "linha segura", pôs o Presidente a par do que estava acontecendo e recebeu dele a permissão para solicitar auxilio à polícia, ao FBI e à Interpol. "Desde que tudo seja feito discretamente, para não cair no conhecimento da mídia" - recomendou o Presidente - "Já imaginou um jornalista especulando sobre o que um oficial paraquedista estaria fazendo num instituto de pesquisas climáticas?". E a busca se trasformou numa caçada que, logo, ultrapassaria as fronteiras dos Estados Unidos. Todas espécies de especulações foram levantadas, mas nenhuma levou à parte alguma. Um tenente da divisão de desaparecidos da LAPD*, encarregado das investigações na Califórnia, comentou com o general Sherman: "A hipótese de suicídio está descartada, Não só porque não temos um corpo, mas também porque, quem quer se matar, não se preocupa em sacar dez mil dólares do banco e, depois, trocá-los por barras de ouro. Isso é coisa de quem está pensando em fugir".
* - LAPD - Los Angeles Police Department (Departamento de Polícia de Los Ângeles)
*****
Epilogo
Às 11 horas, 35 minutos, 02 segundos e 656 milésimos de segundo, do dia 10 de junho de 2006, o major Kelvin Martin aterrizou a "Nancy Reagan" no naveporto do Instituto. Assim que desceu da nave, deparou com Helen e Burt Powell, os quais lhe comunicaram o desparecimento de Steve. Enquanto a médica passava o braço em torno da cintura de Kelvin, num gesto de carinho, o coronel disse que necessitava fazer algumas perguntas ao recém chegado. Martin ergueu uma das sobrancelhas e perguntou:
- Posso, ao memos, dar antes um "pulo" em casa, para tomar um banho e trocar de roupa?
O coronel corou e respondeu, meio sem jeito:
- Mas é claro, Major. Estaremos à sua espera no gabinete do diretor.
Kelvin beijou Helen no rosto e entrou no carro que já o aguardava para levá-lo à residência. Garcia, que, à distância, acompanhava tudo, atentamente, montou numa moto e seguiu o carro de Martin. Quando este saiu do veículo, o soldado estacionou a motocicleta a poucos metros do local. O carro partiu. Kelvin ia abrindo a porta quando ouviu uma voz:
- Major, preciso falar urgentemente com o senhor.
Martin se virou e avistou Garcia, correndo lépido na sua direção. Reconheceu-o na mesma hora.
- O que deseja, soldado?
Garcia olhou para um e para o outro lado, a fim de ver se alguém os observava. Satisfeito que não havia ninguém por perto, disse:
- Eu não devo ser visto por aqui, Major, mas é coisa rápida.
Martin abriu a porta e fez sinal para que o outro entrasse na casa. Garcia obedeceu e entraram. Então, o soldado relatou a Kelvin a conversa que tivera com o coronel Powel. Martin exultou. Temendo ser punido por falta disciplinar, Garcia mentira para Burt, ao dizer "ter visto" Steve sair da nave! Uma versão muito mais conveniente para ele, Kelvin, do que a que daria, caso o soldado não o tivesse procurado. O major colocou a mão, paternalmente, no ombro de Garcia e disse:
- Fique tranquilo, soldado, vou confirmar a sua história, ainda porque, na verdade, foi exatamente isso que aconteceu.
Uma hora depois, no gabinete de Sherman, diante do general, do coronel Powell e da doutora Newman, Kelvin confirmou a versão de Garcia, aproveitando para confundir ainda mais as investigações em torno do paradeiro de Kleist.
- Steve estava muito estranho naquela tarde. Enquanto eu checava os controles da nave, ele, inusitadamente agitado e muito falante, discorria sobre vários assuntos, sem nunca terminar nenhum deles. Trocava de tema, de momento a momento. E, de repente, encaminhou-se para a porta, dizendo: "Tenho de ir agora para dar um telefonema. Depois passo na sua casa". E se foi. E eu não mais o vi. Fiquei um tanto preocupado, mas, depois, me tranquilizei, imaginando que seu comportamento provavelmente se devia à medicação que vinha tomando. É isso, ai, Mas espero que, qualquer hora dessas, ele reapareça, contando alguma história sem pé nem cabeça, para justificar seu desaparecimento.
Sherman virou-se para Helen:
- O que acha, doutora?
Ela engoliu em seco, olhou para Kelvin, depois para Burt e, finalmente, para o general:
- Embora não seja comum, em alguns pacientes, os antidepressivos podem causar uma súbita inversão do humor. isto é, eles passam do estágio depressivo para o maníaco.
- Está querendo nos dizer que o Steve pode ter ficado maluco? - indagou Sherman.
Ela torceu as mãos.
- Dependendo do grau que essa mania atinja, eu diria que, de certa forma, sim. Eles ficam eufóricos, traçam planos audaciosos e chegam mesmo a desenvolver um certo grau de paranóia. Suas mentes se tornam mais aguçadas, sentem-se donos do mundo, capazes de tudo, imbatíveis. Imginam e, as vezes, também executam, aventuras as mais mirabolantes. E, pelo que Kelvin contou, parece que o Steve deve ter entrado mesmo numa fase maníaca.
Burt Powell se manifestou pela primeira vez:
- Então é possível que o major tenha sacado o dinheiro, convertendo-o depois em ouro, já pensando em realizar alguma proeza fantástica. Se ele já era um superdotado antes, imaginem agora, com todo esse "embalo", do que não será capaz...
O coronel fez uma pausa, para arrumar as idéias e Kelvin pensou, com íntima satisfação: "Vocês, nem de longe, imaginam a façanha que ele premeditou. Algo muito acima de qualquer coisa que suas mentes possam conceber". Burt voltou a falar:
- Acho que o major Kleist deixou clandestinamente o país, disfarçado, possivelmente com uma barba postiça, lentes de contato escuras e os cabelos enegrecidos. E se encontra, agora, a caminho de algum lugar remoto, como a selva amazônica, o interior da África, ou, o que me parece mais provável, uma das milhares de ilhas espalhadas pelo Pacífico Sul,
***
A sugestão de Powell foi passada por Sherman para um diretor da Interpol, que disse:
- Já havíamos pensado nisso e estamos investigando essas e outras possibilidades.
E foi o que fizeram durante os dois meses subsequentes. E como nenhum sinal de Kleist fosse encontrado em lugar algum, o homem da Interpol comentou com um colega do FBI:
- Todos os anos, milhares de pessoas desaparecem e a maioria jamais é encontrada. Creio que estamos diante de uma situação dessas.
As buscas cessaram, Steve Kleist entrou para o rol dos desaparecidos internacionais, mergulhou no pântano dos mistérios da História e o caso foi dado como encerrado.
***
Os relatórios relacionados com a "viagem"da "Nancy Reagan" ao Polo Norte foram considerados satisfatórios pelo diretor do Instituto:
Takeo revelou que o módulo suportara a "desmaterializaçãoa e a "rematerialização" sem apresentar nenhum defeito estrutural ou funcional.
Benito assinalou ter havido um maior consumo de combustível do que era de se esperar em condições normais, mas atribuiu o ocorrido ao fato de que, o mesmo óleo que alimentava os propulsores, mantinha também a temperatura interna da nave e, como ela permanecera no Ártico por um período maior que o calculado, isto explicava a diferença encontrada.
O major Martin justificou a demora pela violenta tempestade ocorrida, o que o impediu de decolar até que a tormenta acalmou e, pelo bom senso demonstrado, mereceu um honroso elogio da parte do general Sherman.
***
Aconteceu dias depois que as buscas por Steve tinham sido encerradas:
Em Dallas, a noite já ia avançada e o casal Mordush havia se recolhido ao quarto de dormir. Recostado na cabeceira do leito, Paul se concentrava na leitura de um livro sobre ficção científica, enquanto Emily, junto dele, se entretia com um video game manual. O telefone, ao lado da cama, tocou. Mordush atendeu. Era o general Sherman. À medida que escutava, o rosto do cientista ia empalidecendo. Emily parou de jogar e ficou observando a expressão facial do do marido. Quando Sherman terminou de falar, Paul indagou:
- Quer dizer que não encontraram mesmo nenhuma pista...
Um curto silêncio. Depois:
- Entendo... Obrigado por sua atenção em me comunicar. Boa noite, general.
Mordush desligou o aparelho. Kelly perguntou:
- O que aconteceu?
Paul, visivelmente abalado, contou para a esposa o que o general havia dito e comentou:
- Emily. como é que uma coisa dessas pode acontecer, em pleno século XXI? Uma pessoa desaparecer assim, sem deixar qualquer vestígio... Que tragédia!
A super astuta Emily retrucou:
- Será mesmo?
Não entendendo, o marido perguntou:
- Será mesmo, o que?
Tranquilamente, ela replicou: -
Uma tragédia.
Indignado com a aparente insensibilidade da muilher, Paul indagou:
- Porque você está dizendo isso?
A ex-assessora presidencial sorriu e respondeu:
- Eu não sei como o Steve conseguiu, mas meu instinto diz que ele foi ao encontro da sua amada Hanna.
Mordush olhou-a longamente, assumiu um ar de preocupação, piscou os olhos e falou:
- Emily, você enlouqueceu?
Ela voltou a sorrir, beijou-o levemente nos lábios e respondeu:
- Quem sabe, meu amor, quem sabe?
Paul suspirou fundo, resmungou algo ininteligível, atribuiu à mente fantasiosa da esposa, a estapafúrdia opinião por ela emitida. desistiu de discutir e voltou a atenção para o livro que estivera lendo. Emily, assobiando baixinho, recomeçou o jogo no video game...
***
Como era de se esperar, não passou pela cabeça de ninguém recorrer aos arquivos "mortos" dos jornais austríacos. Se alguém o tivesse feito, talvez deparasse com uma pequena notícia, publicada na coluna social do Satzburger Nachrichten, de 21 de setembro de 1965. Dizia a nota: "A exótica aviadora Hanna Reitsch partiu ontem de Satzburg, na companhia de um americano, cujo nome não foi revelado, para um longo período de férias na Riviera Francesa...".
FIM
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