DE VOLTA À ALEMANHA DE HITLER

Parte II

"Nancy Reagan" e "Carl Sagan"

Capítulo 10

14 de junho de 2005

Paul Mordush chegou ao Instituto, ainda muito cedo, pouco depois das 06:30 horas e foi direto para o Centro de Controle, de onde, três horas mais tarde, acompanharia o teste alfa do Projeto "Time for Angels". Além dos guardas de segurança, havia apenas um ordenança a quem ele pediu que lhe arrumasse uma chicara de café. Minutos após, sorvendo lentamente cada gole da bebida, aproveitou o silêncio quase absoluto do ambiente (somente o ruido suave dos computadores se fazia ouvir), para meditar. Começou, sem se dar conta da razão do fato, refletindo, com certa amargura, ser ele uma terceira geração de físicos que acabara parando nele. Sim, porque apezar dos anseios do seu falecido sogro, Barbara não lhe dera nenhum filho. Não obstante, tinha sido um casamento feliz, interrompido há quatro anos, quando o avião em que Barbara regressava de Londres, mergulhou, inexplicavelmente, no Atlântico Norte, sen deixar sobreviventes. Tinha sofrido muito a perda dela, sofrimento que, lentamente, foi se transformando numa sensação de vazio emocional. Paul consagrara, desde a adolescência, quase todos os dias de sua vida, ao estudo da física e, nos últimos vinte e um anos, à ousada empreitada do Projeto "Time for Angels". Quando enviuvou, mergulhou ainda mais no trabalho, como uma forma de pensar menos no lado afetivo da sua existência. Procurou afastar Barbara do pensamento. Ela saiu e Sagan entrou no lugar dela. Ah, que falta Carl estava fazendo! O gênio, de cujo cérebro nascera essa estupenda idéia de construir uma "máquina do tempo", não vivera para estar, hoje, ao seu lado, sofrendo junto com ele, Paul, a expectativa do teste fundamental do "Time for Angels". Se ali se encontrasse, por certo Sagan estaria lhe injetando palavras de confiança, com o seu incomparável otimismo em relação à capacidade do ser humano de concretizar todos os sonhos que por ventura concebesse. Mas Deus, se existisse um Deus, não fora magnânimo para com o grande gênio. Removera-o do cenário da vida, quando ele tinha apenas 62 anos, na plenitude de sua vitalidade intelectual, não permitindo que assistisse, hoje, a concretização do seu maior sonho. Teria Carl pago o preço de não acreditar na divindade? Ou sua morte prematura, como a de tantos outros, fora apenas mais uma infeliz e caprichosa obra do acaso ?

 

O barulho da porta se abrindo tirou Mordush de suas divagações. Era Thomas Kennedy, que acabava de entrar, acompanhado dos representantes do Presidente, os quais haviam se deslocado de Washington para assistir ao teste: a bonita quarentona Emily Kelly, assessora para assuntos científicos e o sizudo James O'Connor, assessor para assuntos de segurança nacional. Ambos credenciados para tomar conhecimento dos projetos secretos do governo americano. Trocaram os cumprimentos de praxe e mais café foi servido.

***

O Instituto começava a ganhar vida com a chegada de operários, técnicos, cientistas e militares. Pela ampla janela, Paul podia ver o major Burt Powell dando ordens aos seus comandados, para que isolassem, totalmente, as áreas próximas do local onde o módulo repousava, recoberto por uma lona especial à prova de fogo. Logo, uma parede humana, constituida por soldados armados de submetralhadoras, formou um largo perímetro em torno do naveporto. Todos se postaram virados de costas para módulo. As janelas das instalações que davam para a zona onde a nave se encontrava foram fechadas. A ninguém, fora do Centro de Controle, seria permitido acompanhar o desenrolar dos acontecimentos, programados para terem início dentro de uma hora.

Às 09:00 horas, todas as cadeiras do Centro estavam ocupadas. Os cientistas envolvidos no projeto já tinham chegado, bem como o general John Sherman, diretor administrativo do Instituto, o coronel Michel Scott e ocapitão-aviador Kelvin Martin. Os presentes conversavam em pequenos grupos. falando baixo. A ansiedade era evidente e generalizada. O teste alfa iria dizer se um trilhão de dólares e vinte e um anos de trabalho tinham valido a pena, ou se foram, lamentavelmente, desperdiçados.

Mordush, consciente de sua responsabilidade como diretor do projeto, esforçava-se para aparentar uma calma que o suor na testa, a palidez facial e a dura expressão estampada no olhar, não confirmavam.

O tempo de espera tinha se acabado. O ponteiro dos minutos aproximava-se do número seis e o dos segundos avançava velozmente para o número doze.

Precisamente às 9:30:00 horas, Paul apertou uma tecla do computador, acionando o campo eletro-magnético do módulo. À vista de todos os presente no Centro de Controle, a nave, impulsionada pelos propulsores nucleares, começou a subir verticalmente, atingiu 250 metros de altura em quinze segundos e desapareceu. Às 09:30:15.640 horas, ela apareceu nas câmeras de vídeo, a 250 metros do solo e, vinte segundos depois, pousou suavemente. Descontados os 35 segundos gastos nos procedimentos de subida e descida, o módulo havia "viajado", totalmente invisivel, 72 horas para trás no tempo e 300 kms para oeste no espaço, em seiscentos e quarenta milésimos de segundo!

Os computadores do Centro haviam também programado a volta para acontecer 10 minutos após a partida. Assim, exatamente às 09:40:00 horas, o módulo se elevou do solo, desapareceu da tela e, trinta e cinco segundos e seiscentos e quarenta milésimos depois, aterrou no heliporto principal. O teste alfa havia sido executado com o mais absoluto sucesso!

Aplausos soaram por toda parte e os cientistas se abraçavam, emocionados. James O'Connor pegou seu celular e ligou para o telefone privativo do Presidente.

*****

Capítulo 11

No início da tarde, quando a calma já havia voltado a reinar no Instituto, o módulo foi rigorosamente examinado, visualmente e com aparelhos, por Takeo Yamazata, Benito Santino, David Sosa,Wiliam Costner e Kelvin Martin. E todos foram unânimes em constatar que tanto a estrutura da nave quanto seus comandos não haviam sofrido nenhum dano. O módulo saira ileso dos processos de "desmaterialização" e "rematerialização", bem como da incrivel velocidade a que foi submetida durante os percursos de ida e volta.

Passariam, em seguida, ao próximo teste (beta), o qual estava programado para ser igual ao primeiro, diferindo apenas em um importante detalhe. Dessa vez, o módulo levaria um passageiro; uma cobaia de um ano de idade, que tinha sido examinada pela Dra. Ruth, a qual verificou estar o pequeno animal em plenas condições de saúde. O teste beta foi marcado para o dia 22 de junho.

***

22 de junho de 2005

O segundo teste foi iniciado precisamente às 10:00:00 horas, tendo sido mantidos os mesmos procedimentos operacionais e as mesmas regras de sigilo e segurança utilizados no teste alfa. Desta vez, nenhum representante de Washington compareceu. Acionada, a nave subiu e logo despareceu. Foi captada pela câmeras que haviam sido plantadas no local pré- determinado, na manhã do dia 19, a 250 metros de altura do local onde devia pousar, seiscentos e quarenta milésimos de segundo depois. Decolou de volta às 10:10:00 horas e pousou no naveporto do Instituto às 10:10:35.640.

O módulo foi logo aberto e a cobaia retirada; ela parecia um tanto assustada, mas estava viva e, pouco depois, saltitante como sempre. Após um detalhado exame clínico e com o laudo de testes sanguineos e radiológicos, a Dra. Ruth declarou que o animal não havia sofrido nenhum traumatismo, nem revelado qualquer alteração de caráter patológico.

De novo, a nave foi detalhadamente examinada e, como anteriormente, não apresentou nenhum dano estrutural ou defeito em seu sistema operacional.

Teste beta concluido com absoluto sucesso!

O terceiro teste (gama), foi marcado para o dia 09 de julho. Segundo o planejamento, o módulo deveria voltar 15 dias atrás no tempo, deslocando-se para um local a 600 quilômetros, na direção leste e levando, como passageiro, um saudável chimpanzé. Por segurança, havia que se testar um outro primata antes de um homo sapiens.

***

09 de julho de 2005

Na presença dos outros cientistas e dos militares enganjados no Projeto "Time for Angels", Paul apertou a tecla do computador que acionou o módulo para o início do terceiro teste (gama), exatamente às 08:00:00 horas. A nave subiu e, quinze segundos depois, desapareceu. Às 08:00:18.240 horas, apareceu nas câmeras, que haviam sido plantadas no dia 25 de junho, 250 metros acima do local previamente escolhido, 600 km à leste do ponto de partida. Decolou de volta às 08:10:00 horas, pousando no naveporto, trinta e oito segundos e 240 milésimos depois.

Aberta a porta do módulo, o chimpanzé foi visto encolhido num canto da nave, de olhos arregalados, parecendo confuso e amedrontado. A Dra. Ruth foi até ele, acariciou-lhe a cabeça e colocou em sua boca uma pedra de açucar, a qual foi imediatamente engolida. A presença e o carinho da veterinária tranquilizaram - pelo menos parcialmente - o primata. Ele se ergueu de um salto, correu para a porta aberta, pulou agilmente para fora e disparou para longe do módulo. Exames clínicos, sanguíneos e radiológicos, realizados uma hora depois, nada revelaram de anormal.

Uma avaliação cuidadosa do módulo, feita ainda no fim da manhã, constatou estar ele em perfeitas condições estruturais e funcionais.

Teste gama concluido com absoluto sucesso!

O quarto e último teste (delta), o decisivo, seria aquele que iria demonstrar se, ao "viajar" no tempo e no espaço, o ser humano manteria intacta sua capacidade de raciocínio, sem se sentir física ou psicologicamente abalado e, ainda, se a comunicacão entre ele e a base poderia ser feita de fora do veículo, por um celular, muito diferente dos que usualmente utilizamos. O "teletempo", como fora batizado esse novo aparelho, havia consumido muitos anos de estudos e testes, sigilosamente levados a cabo pelo engenheiro de comunicações Peter Gray e podia transmitir uma mensagem, via satélite, numa velocidade muito acima da convencional. Nos dias que precederiam o teste, Gray treinaria Kelvin Martin no uso do aparelho. Sim, porque caberia ao piloto de provas a missão de ser o primeiro ser humano a quebrar, simultaneamente, as barreira do tempo e do espaço.

O planejamento do teste delta incluia ainda algumas novidades em relação aos anteriores:

A distancia a ser percorrida seria bem maior: 1200 kms. O local escolhido para o pouso do módulo foi uma área deserta situada no Estado de Orgeon e cuja exata localização tinha sido mantida em segredo, por razões de segurança.

O tempo de "volta ao passado" seria o dobro em relação ao teste gama: 30 dias.

***

No dia 10 de julho, o engenheiro Takeo Yamazata e o coronel Michel Scott foram levados, de avião, até o local escolhido para o pouso, o qual ficava no centro de uma área circular de 5 km de raio, isolada e vigiada por soldados da Força Aérea. Às 17:00 horas, colocaram as câmeras em pontos estratégicos e ativaram-nas para que registrassem até às 21:00 horas. Em seguida, voltaram para a base no Mojave, utilizando o mesmo meio de transporte que os conduzira na ida. Um mês depois, precisamente às 08:00:00 pm do dia 10 de agosto, no naveporto do Instituto, o capitão Kelvin Martin iria premir uma tecla do computador instalado no painel de controle do módulo, para dar a partida. Pela primeira vez, a nave seria testada à noite e acionada do seu interior.

*****

Capítulo 12

10 de agosto de 2005

Porque o teste a ser realizado naquela noite envolvia a participação de um ser humano, os cuidados haviam sido redobrados. Os engenheiros Takeo, Benito e David, o físico nuclear Norman, o mastemático Richard e o consultor de informática William, passaram toda a manhã checando e re-checando a estrutura e o funcionamento do módulo. Em torno do meio dia, Takeo informou Paul Mordush que estava tudo "OK". A "Nancy Reagan", o nome com que os cientistas batizaram a nave, em homenagem à esposa do homem que dera o sinal verde para deslanchar o Projeto "Time for Angels", estava pronta para o teste delta.

À tarde, a Dra Helen submeteu o capitão Kelvin a um rigoroso exame clínico.

- Então, doutora, - perguntou o piloto, com um sorriso um tanto "amarelado" - como é que eu estou?

- Em condições excelentes. Apenas o pulso está um pouco mais acelerado que o normal, o que se deve ao estado de ansiedade porque você está passsando. O que é natural diante das circunstâncias. Mas isso não impede que você se torne, hoje, o primeiro homem a ser "desmaterializado", "rematerializado" e voltar ao passado, viajando acima da velocidade da luz.

Kelvin suspirou fundo e perguntou:

- Helen, o que você acha que eu vou sentir durante o teste?

Ela refletiu por uns dois segundos antes de responder:

- Como tanto a "viagem" de ida quanto a de volta não levará, cada uma, mais que alguns segundos, eu imagino que, durante ela, você talvez sinta uma sensação semelhante a de um rapidíssimo cochilo. Nada mais. O que a gente não sabe, e é isso que você irá nos relatar, é como vai se sentir logo após a "rematerialização". Despertará confuso e assustado, ou plenamente consciente e relativamente tranquilo? Como suas funções serão monitorizadas daqui do Centro, saberemos como estarão a respiração, a frequência cardíaca, a pressão arterial, o eletroencefalograma e o grau de sudorese. Mas somente você, repito, é quem pode informar como estará se sentindo física e psicologicamente. Informação essa que, obviamente, nem a cobaia nem o chimpanzé puderam fornecer.

- Bem, o macaco parecia bastante amendrontado quando a porta do módulo foi aberta.

- É verdade. Mas, ao contrário de você, ele não tinha a menor idéia do que estava se passando. E quando não se sabe o porque das coisas a gente é tomada de surpreza e o medo passa a ser uma reação esperada.

- Helen, você é um anjo. Sua explicação me tranquilizou totalmente - disse Martin, com um ligeiro tom de ironia.

A médica tomou o pulso do piloto e falou:

- Kelvin, você é um grande mentiroso. Sua frequência cardíaca continua acelerada.

O capitão soltou uma gragalhada e, piscando um dos olhos, explicou:

- Mas agora não é por medo e sim pela expectativa de que você jante comigo quando eu voltar. Aceita a proposta?

Helen corou ligeiramente e depois sorriu.

- Claro que aceito.

***

Paul Mordush e Thomas Kennedy estavam a postos desde as primeiras horas da manhã. Salvo uma ausência de hora e meia para almoço no restaurante do Instituto, não arrederam pé do Centro de Controle. Em torno das 14:00 horas, Takeo Yamazata apareceu para informar que haviam terminado a construção do segundo módulo, o qual já estava recolhido em um dos hangares.

Paul aproveitou para perguntar:

- Takeo, como vai indo o projeto do LPG* ?

- Quase no fim - respondeu o nipo-americano.- Assim que o William terminar de programar as coordenadas, aprontaremos o mini-computador. Acho que, no máximo em uns vinte dias, já teremos o primeiro em condições de funcionamento.

- Ótimo. Ele talvez venha a ser indispensável quando a gente passar para a próxima etapa do "Time for Angels".

- Você o terá antes disso. Tchau para os dois - disse Takeo, a caminho da porta de saída.

Logo a seguir, Thomas Kennedy indagou:

- Paul, já pensou no nome que daremos a esse segundo módulo?

- Que tal "Carl Sagan"?

- Uma excelente idéia.

* - LPG - Localizador de Posição Geográfica - um minicomputador capaz de indicar, com absoluta precisão, a latitude e a longitude do local em que se encontra o módulo, bem como ser utilizado na programação do deslocamento da nave de um ponto, para qualquer outro na superfície da terra.

***

A construção do novo módulo havia tido início cinco anos antes. Embora tenham sido conservadas, estrutural e funcionalmente, as características básicas do "Nancy Reagan", o "Carl Sagan" apresentava dois aperfeiçoamentos.

Primeiro: um novo propulsor nuclear lhe permitiria, durante a "viagem" através do tempo, deslocar-se, "desmaterializado", a uma velocidade de 600.000 kms/seg.! 200.000 quilômetros por segundo mais rápido que o módulo anterior, encurtando assim o tempo de "salto" para o passado.

Segundo: a introdução de um sistema convencional de direção manual do veículo. Após a "rematerialização" o piloto poderia manobrar a nave, regulando a direção e a velocidade da descida, de modo a fazê-lo pousar no local que escolhesse. Uma inovação que evitaria que a nave sofresse danos, aterrizando em algum ponto geográfica ou circunstancialmente desfavorável, não previsto quando da sua programação para pouso automático.

***

Os que iam assistir ao teste delta começaram a aparecer lá pelas 18:00 horas. De Washington veio apenas a assessora para assuntos científicos, a bonita Emily Kelly. Os cientistas e os militares chegaram juntos, em torno das 19:00 horas. Do grande painel visual, os presentes puderam ver quando, faltando um quarto para as oito, o capitão Kelvin Martin, aproximou-se do módulo e, depois de acenar para a câmera que focalizava o naveporto, entrou no aparelho.

***

Martin sentou-se na cadeira de braços giratória, de frente para os painéis de controle e observou-os atentamente. O da esquerda não era mais do que um teclado de computador, com um número menor de teclas do que o de um PC comum. Era o painel de controle principal, automático, para as viagens temporo-espaciais. Dependendo da tecla apertada na largada, a nave pousaria no solo, no local de chegada, antes de se "rematerializar", ou, uma vez alcançado o ponto alvo, a "rematerialização" aconteceria a uma certa altura acima do solo, altura essa também previamente determinada . Neste segundo caso, o resto da descida seria conduzido manualmente pelo piloto, exatamente como num helicóptero, usando-se os controles do segundo painel, o qual ficava à direita do primeiro. Essa opção se fazia necessária quando não se conhecia, com exatidão, as condições do solo onde se iria pousar, evitando-se assim que o módulo descesse, por exemplo, nuna área cheia de pedras, em cima de um edificio, sobre as árvores de uma floresta...em fim, num local que, provavelmente, danificaria a nave. Entre os dois painéis existia um relógio e, logo abaixo, um marcador de tempo, cujos números não paravam de se mover. Logo à esquerda havia um pequeno microfone. Martin apertou o botão ao lado dele e falou:

- Professor Paul, estão me escutando bem ai no Centro ?

A voz do piloto foi ouvida por todos os presentes, já que a recepção do som havia sido "aberta" para os diversos autofalantes existentes no recinto.

- Perfeitamente, Kelvin - respondeu Mordush - como está se sentindo ?

- Bem, apenas um pouco ansioso. Já chequei os painéis e estou acompanhando o caminhar dos ponteiros do relógio.

- Nós também. Faltam menos de dois minutos.Mantenha o dedo sobre a tecla "T"e aperte-a no exato momento em que o marcador atingir 08:00:00.

- Estou atento, senhor, Não se preocupe, acionarei a nave no momento exato.

- Não estou preocupado, Kelvin, Você está bem treinado e sei que cumprirá com exatidão todas as etapas programadas. Bem, está quase na hora, Até daqui a pouco. Boa sorte e boa viagem.

No marcador da nave os números pareciam voar. Kelvin pôs o indicador da mão direita sobre a tecla "T" e esperou. Sentia-se, agora, calmo e confiante. No exato instante em que o marcador atingiu 08:00:00, ele apertou a tecla.

*****

Capítulo 13

No Centro de Controle, os olhos de todos estavam agora voltados para os dois monitores: o que focalizava o ponto de partida no naveporto e o espaço acima dele e o que projetava a gravação feita trinta dias atrás no local de pouso, no Estado de Oregon, e que mostrava apenas uma planície arenosa, totalmente deserta, sob um céu que, à medida que a gravação avançava, ia progressivamente escurecendo. O que antes fora um firmamento azul claro, acabou por se transformar num fundo negro, salpicado de pontinhos brilhantes e tremulantes.

O primeiro monitor mostrou o módulo subindo até 250 metros e desaparecendo em seguida. Os olhares de todos voltaram-se, então, para o segundo monitor. Precisamente às 08:00:21.483, a nave surgiu 250 metros acima do ponto escolhido para o pouso; vinte segundos depois aterrizou, suavemente, no solo arenoso da planície.

A expectitva no Centro de Controle cresceu. O "zoom"da câmera aproximou a porta do módulo. Passados uns trinta segundos, ela se abriu. Portando óculos infravermelhos para visão noturna, sorrindo e aparentando tranquilidade, Kelvin Martin apareceu e saltou da nave. Em seguida, tirou de um dos bolsos do traje espacial o tempocelular e discou. Em menos de um segundo, o tempocelular do Centro, que havia sido eletronicamente acoplado aos auto-falantes, tocou. Paul atendeu:

- Parabens, Kelvin. Com está se sentindo? - a voz de Mordush estava ligeiramente embargada.

A resposta veio num tom aparentemente calmo:

- Bem, Professor, e bastante feliz, apezar da emoção que estou sentindo.

A Dra.Helen fez um sinal para Paul e este lhe passou o celular.

- Kelvin, - disse ela, olhando para o painel que mostrava as funções vitais do piloto - os gráficos nada indicam de anormal. Quanto à emoção, não é só você. Todos nós aqui estamos emocionados. Agora fale: o que sentiu durante a viagem?

- Bem, a subida, antes da "desmaterialização", não foi muito agradável. Deu um friozinho no estômago. Depois, foi como você havia previsto. Tive a sensação de ter tirado um pequeno cochilo e, quando dei por mim, já estava tudo "rematerializado" e a nave começava a descer. A descida e o pouso foram tranquilos.

Viram Martin retirar os óculos infravermelhos e olhar para o alto. Logo sua voz voltou a ser ouvida:

- Nossa - disse ele - vocês não imaginam como é lindo. Como está bem escuro a minha volta, as estrelas parecem ocupar todo o céu, de um ao outro extremo do horizonte.

Paul retomou o tempocelular e, agora já relaxado, disse, num tom mais de brincadeira do que de seriedade:

- Kelvin, você sempre foi assim romântico, ou será isso um efeito colateral da viagem ?

- Não sei, Professor.

- Muito bem, são agora 08:04:00 p.m. É melhor você retornar à nave e checar os controles. Depois fique atento ao marcador e aperte a tecla "V", precisamente às 08:10:00 p.m. para decolar de volta. Irá aparecr aqui na tela que está focalizando sua àrea de pouso, às 08:10:21.483. Descontados os tempos de subida e descida da nave, o módulo terá percorrido 1200 kms e voltado 30 dias, em seis segundos e quatrocentos e oitenta e três milésimos. Exatamente como foi teoricamente previsto. Boa sorte. Desligo.

A nave decolou do Oregon e aterrizou no Mojave no tempo antecipado. Ainda mais sorridente e, agora, decididamente sereno, Kelvin saiu do módulo e foi logo levado pela Dra.Helen para ser examinado clinica, laboratorial e radiologicamente. Uma hora depois, a médica informou ao piloto e a Paul que Martin se encontrava nas mesmas condições de antes da "viagem". Com apenas um detalhe, para o qual ela não tinha ainda explicação: a contagem de plaquetas havia sofrido uma redução de 16 %.

À tarde, a "Nancy Reagan", submetida, mais uma vez, a um rigoroso exame, mostrou estar, estrutural e funcionalmente, em condições rigorosamente perfeitas.

Teste delta concluido com o mais absoluto sucesso!

*****

Capítulo 14

Duas semanas depois, no gabinete do diretor administrativo do Instituto, Paul Mordush, o General John Sherman e James O'Connor, o assessor presidencial para assuntos de segurança, reuniram-se, à portas fechadas, a fim de acertarem as próximas etapas do Projeto "Time for Angels". Paul tomou a palavra:

- Creio que cumpre-me informar-lhes, oficialmente, que o novo módulo, batizado com o nome de "Carl Sagn", já foi satisfatoriamente testado e encontra-se pronto para ser empregado na próxima etapa. Porque ele e não a nave Nancy Reagan", a grande heroina da primeira etapa? Porque, como estamos planejando uma ida a um passado distante, a velocidade do novo módulo, da ordem de 600.000 km/seg, tornará a viagem cinquenta por cento mais rápida do que se utilizarmos a "Nancy Reagan". Como já ficou estabelecido com a Casa Branca, cumprida a segunda etapa, os dois módulos passarão ao controle da Força Aérea. E, provavelmente, a nossa equipe será desfeita. Porém, se for do desejo de vocês e, naturalmente, do Presidente, os cientistas continuarão a lhes dar qualquer suporte que se faça necessário.

O general olhou para o assessor presidencial. O' Connor tomou a palavra:

- Professor, - disse ele dirigindo-se a Mordush - o Presidente está plenamente de acordo com essa viagem que pretendem fazer, antes de passarem o comando do projeto para o Pentágono, mais precisamente, como disse o senhor, para a Força Aérea. Mas tenho algumas perguntas, cujas respostas repasssarei ao Presidente.

Ele fez uma pausa e Paul aproveitou para dizer:

- Muito bem, O que deseja saber?

- Primeira pergunta: Quanto tempo deverá durar essa segunda etapa do projeto, ainda sob sua direção e responsabilidade?

Mordush ficou um longo tempo contemplando a face fria de O' Connor, a qual não revelava qualquer tipo de expressão. Depois respondeu, devagar, pesando bem cada palavra:

- Senhor Assessor, nossa intenção sempre foi a de tentar esclarecer certos fatos mal entendidos ou confusos da História. Já andamos discutindo o assunto informalmente e há um consenso de que deveremos decidir por uma entre duas opções. Vamos nos reunir na próxima semana para definir, pelo voto, aquela que deverá ser realizada. Somente no decorrer da investigação, será possível determinar quantas viagens serão necessárias e quanto tempo cada uma deverá levar para que possamos atingir o nosso objetivo: a verdade histórica. É impossível estabelecer isso "a priori". Talvez, definida a opção, seja viável fazer uma estimativa do tempo que levaremos, mas, insisto, nada além do que uma estimativa.

- Compreendo. Mas aí vai a segunda pergunta: não lhe parece que um número excessivo de "viagens" poderá ser um ônus demasidamente caro em termos de tempo e dinheiro ?

Paul olhou com um certo desprezo para o assessor presidencial. Quando voltou a falar, havia dureza na sua voz:

- Senhor O' Connor, nós trabalhamos, duramente, durante vinte e um anos para chegar aonde chegamos. A fim de, entre outras coisas, dar ao nosso país uma fantástica superioridade militar em relação às demais potências. Na condição de assessor de segurança, o senhor é uma das poucas pessoas que podem entender o significado do nosso trabalho. E, por mais que venhamos a gastar para realizar essa já prevista e aprovada etapa do projeto, será uma insignificância diante do que já se consumiu, não só em termos financeiros, mas, principalmente, em esforço, dedicação, preocupações e noites de insônia. Não lhe parece justo que nós, cientistas, os responsáveis diretos pelo êxito alcançado, tenhamos o direito de concretizar um sonho de duas décadas?

Mordush calou por um momento, enxugou com um lenço a testa, onde suor começava a se formar e, sem olhar para o seu interlocutor, perguntou, secamente:

- O senhor deseja ainda algum outro esclarecimento ?

Sob o olhar pesado do general Sherman, que não tinha feito sequer um único comentário, O'Connor, com o rosto rubro, de fúria ou de vergonha - como saber? - ergueu-se e respondeu:

- Não,Professor, não tenho mais nenhuma pergunta a fazer.

Fez uma ligeira curvatura, apertou de leve a mão do cientista e do general e deixou o recinto.

Assim que ele saiu, Sherman comentou:

- Este cara é um esnobe paspalhão. Cuidarei dele quando estiver com o Presidente.

Mordush fez um gesto vago com a mão.

- Deixa pra lá, John. Ele não passa de um zero à esquerda. O importante é a gente ser bem sucedido na próxima etapa do projeto.

*****

Capítulo 15

06 de setembro de 2005

Estavam todos presentes no dia da votação: Paul Mordush, Thomas Kennedy, David Lince, Bruce Richardson, William Berger, David Sosa, Benito Santino, William Costner, Takeo Yamazata, Helen Newman, Ruth Petrovich, Norman Gardner, Richard Peck e Kelvin Martin.

As duas opções apresentadas foram :

1a - Viagem à Palestina no século I. Finalidade: esclarecer se Jesus de fato morreu no Gólgota e se a ressureição realmente ocorreu, ou foi apenas um mito que se criou.

2a - Viagem à Berlim, nos últimos dias do mês de abril de 1945. Finalidade: constatar se Hitler havia de fato morrido no Bunker abaixo da Chancelaria e em que circunstâncias.

Paul tomou a palavra:

- Muito bem, chegou a hora de decidirmos. Mas antes acho que devemos apresentar os argumentos a favor e contra de cada uma. Iniciaremos pela primeira. William Berger será o defensor e David Lince o promotor de acusação.

Paul havia decidido selecionar os quatro "veteranos" que haviam continuado no projeto. E ele seria um deles.

- Comeceramos, então. pela defesa da opção de mandarmos o módulo à Palestina. Berger, o pódio é seu.

William Berger não se fez de rogado. Subiu ao pódio, e falou, pausamente, ao microfone:

- A meu ver, Jesus continua sendo o maior enigma da história. O que nos foi passado sobre ele, vem apenas de quatro evangelhos bastante contraditórios. Sua suposta ressurreição, principalmente, é algo dificil de se aceitar, se tomarmos em conta as leis naturais mas, ao mesmo tempo, se comprovada, significará que o Nazareno foi, de fato, muito mais que um homem comum, uma divindade, quiça o filho de um verdadeiro Deus. Para nós, cientistas, incrédulos por natureza em relação ao sobrenatural, essa questão se afigura como fundamental. E devemos ainda nos lembrar que foi a partir do comentário de um livro de J.J. Benites sobre esse assunto, que surgiu a idéia do Projeto "Time for Angels". Tenho dito.

Ouviram-se alguns aplausos e logo Berger foi substituído no pódio por David Lince. Este começou:

- Não vou discutir os aspectos religiosos, teológicos ou filosóficos. Vou apresentar minha contestação levando em conta, apenas, o fator tecnológico. Até agora, o módulo foi testado em "viagens" no tempo relativamente curtas. E se comportou bem. Também nada de mal aconteceu ao nosso jovem piloto. Muito bem. Mas foi uma volta a um passado de apenas trinta dias. A ida à Palestina representaria, segundo os dados da minha calculadora, um "salto" de quase oitocentos mil dias. Levando-se em consideração a velocidade da nave, duas vezes superior à da luz, ainda assim o tempo de desmaterialização seria de 35 a 36 dias. Algo muito além do que já foi testado. E eu me indago e estendo minha dúvida a todos vocês: a estrutura do "Carl Sagan" aguentará isso? E, mais importante ainda, quem estiver a bordo, conseguirá sobreviver? São essas as minhas objeções. Penso que deveremos começar, testanto uma viagem ao passado mais curta, como sucederá se a segunda opção for a escolhida. Nada mais tenho a dizer. Muito obrigado.

E David desceu do pódio, intensamente aplaudido pela maioria dos presentes.

- Excelente até agora - disse Mordush de volta ao pódio. - Passemos à 2a opção. Bruce Richardson será o defensor e eu próprio farei o papel de advogado do diabo. Venha, Bruce, assuma a defesa.

Richardson ocupou o lugar de Mordush e começou a falar:

- Depois dos aplausos que David recebeu, fica claro que a 1a opção está descartada. Logo, sobrou a 2a. Só ísso já justificaria considerá-la vitoriosa, sem que eu tivesse de despejar n razões em sua defesa. Contudo, a sua finalidade é determinar se Hitler morreu mesmo no "Bunker" em Berlim e em que circunstâncias o fato ocorreu. A maioria dos autores ocidentais que escreveram sobre o tema, basearam-se no livro de Trevor-Roper, "OS ÚLTIMOS DIAS DE HITLER". A obra foi publicada em 1947. Talvez um tanto apressadamente do ponto de vista histórico, porém Trevor parece ter sido premido pelo governo inglês, que se mostrava ansioso em demonstrar serem falsas certas insinuações da parte dos soviéticos, segundo as quais os ingleses mantinham Hitler escondido em Westphalia, na zona de ocupação controlada pelos britânicos. Trevor fez um bonito trabalho: uma descrição bem arrumadinha, bastante didática e...quase convincente. Contudo, nenhuma das pessoas que ele entrevistou, estava entre as que entraram nos aposentos doFuhrer no momento em que um tiro foi ouvido, vindo do seu interior. Nas próprias palavras do autor: "...quando escutaram o disparo vindo da antecãmara do quarto de dormir de Hitler, Martin Bormann, Goebbels, o ordenança Heinz Linger e o adjunto Otto Gunsche, que se encontravam no recinto ao lado, aguardaram algum tempo. abriram a porta, entraram e...". Bem, Bormann morreu tentando furar o bloqueio russo ou simplesmente despareceu, para sempre. Goebbels se suicidou. Linge e Gunsche foram capturados e passaram onze anos presos na União Soviética. Logo, nenhum deles estava à disposição de Trevor para ser entrevistado, na época em que ele compunha sua obra. Consequentemente, tudo que o inglês ouviu foram informações "de segunda mão". Por outro lado, é fato notório que, durante a segunda guerra mundial, inúmeros líderes políticos e militares tinham sósias. Churchill, Eisenhower e o general Montgomery são exemplos confirmados. Assim, por que Hitler e Eva Braun não poderiam ter tido seus "doppelgangers"? Vocês já devem estar imaginando aonde estou querendo chegar. Sim, talvez o Fuhrer e sua esposa tenham escapado de Berlim, disfarçados e com falsas identidades, sob a proteção da Odessa*, e ido parar em alguma parte deste planeta, quiça na América do Sul, famoso reduto de nazistas no após-guerra. E, para esconder a fuga de seu amado chefe, alguém das SS ou um dos seus mais próximos colaboradores, assassinou os dois sósias, seus corpos sendo imediatamente queimados em um dos jardins da Chancelaria. Mas como teriam Hitler e Eva deixado Berlim, àquela altura, já praticamente bloqueada pelo exército vermelho? No avião que, na madrugada de 29 de abril de 1945, a habilidosa Hanna Reitsch conseguiu fazer decolar de uma das largas avenidas berlinenses, tomando, depois, destino ignorado. Mas ai a gente se depara com um obstáculo a esse raciocínio: se utitizaram na fuga um Arado Ar 96, como relatam os historiadores, fica difícil umaginar quatro pessoas num avião de dois lugares. A menos que o aparelho tenha sido modificado para abrigar quatro em vez de dois. São esses e outros fatos indefinidos que o investigador que a "Carl Sagan" conduzirá à Berlim daqueles dias, deverá tentar elucidar. Que ele seja bem sucedido. Perdoem-me por ter-me alongado tanto. Muito obrigado.

E Bruce desceu do pódio, ovacionado de pé.

Quando a agitação provocada pelo "show"que Richarson acabara de dar, cessou, Mordush voltou ao pódio.

- Bem, - disse ele, sorrrindo - depois do que ouvimos, qualquer contraa argumentação é insustentável. Portanto, procedamos a votação. Quem optar pela ida à Palestina, fique de pé. Quem achar que devemos ir à Berlim, permaneça sentado.

Ninguém se levantou...

* - Odessa - uma poderosa organização que, no lusco-lusco da guerra e por muitos anos após, promoveu a fuga e deu proteção a nazistas do alto escalão.

*****

Capítulo 16

07 de setembro de 2005

Às oito da manhã, Mordush convocou Michel Scott ao seu gabinete e pediu ao coronel que ligasse para a Casa Branca e solicitasse ao secretário-geral da presidência que agendasse uma audiência com o Presidente e, se possivel, logo em seguida, um encontro com a assessora para assuntos científicos.

Duas horas mais tarde, Paul estava entretido com um relatório de Yamazata sobre os testes com o "Carl Sagan", quando o coronel bateu na porta e entrou. Mordush ergueu os olhos para ele e perguntou:

- E então ?

Scott respondeu em tom formal, didaticamente e como lhe era peculiar: explicado nos mínimos detalhes:

- Esta tudo acertado com Washington, professor. O senhor será recebido pelo Presidente amanhã, às 10:30, hora local e a Dra. Emily Kelly o atenderá logo em seguida. Falei com o general Sherman e um avião estará a sua disposição para levá-lo à capital ainda hoje. O jato decolará do nosso aeroporto às 13:00. Um carro irá busca-lo na residência, meia hora antes. A diferença de horário é de duas horas para trás e o tempo de vôo será de, aproximadamente, 180 minutos. Portanto o senhor chegará na capital em torno das 18:00, hora de Washington. De lá, um carro da Força Aérea o levará ao Four Seasons Hotel, na Av. Pensilvânia, a alguns quarteirões da Casa Branca. Uma suite já foi reservada lá em seu nome. Amanhã, às 10:00, o secretário-geral da presidência mandará um carro para lhe apanhar no hotel.

Scott fez uma pausa, meditou por alguns segundos, e disse:

- Acho que é só isso, senhor.

- Obrigado, Coronel. Como sempre, o senhor se mostrou muito eficiente.

Missão cumprida, Michel Scott relaxou. Sorriu, bateu continência, rodou nos calcanhares e se foi.

***

E tudo aconteceu rigorosamente como o coronel havia previsto. Assim foi que, pontualmente às 10:30 horas do dia 08 de setembro, um oficial-de-gabinete conduziu Paul até a Sala Oval. O Presidente se levantou da poltrona para apertar a mão do cientista. Mordush sentou-se numa cadeira próxima e pôs o Chefe do Estado a par do estágio em que se encontrava o Projeto "Time for Angels", ao mesmo tempo que lhe entregava um documento, o qual, na verdade, simplesmente relatava o que ele estava expondo. O Presidente ouviu tudo em silêncio e, no fim, comentou:

- Até parece ficção científica, Professor. Imagine, mandar um agente ao passado, ao "Bunker" de Hitler, para a gente ficar sabendo o que na realidade aconteceu por lá naqueles dias. E, lamentavelmente, apenas uns poucos ficarão conhecendo a verdade. Anunciar o fato significaria praticamente revelar a existência dos módulos. E este é um segredo que os Estados Unidos deverão manter guardado a sete chaves, pelo maior tempo possivel.

O Presidente parou de falar por um instante, deu uma risada e ironizou:

- E supliquemos a Deus que a CIA não suspeite de nada. Do contrário, os russos tomarão conhecimento em menos de uma hora. Isto é, se os israelenses não ficarem sabendo antes.

Depois, voltando a falar sério, disse:

- Professor, parabenizo o senhor e toda sua equipe por essa admirável conquista. Torço que tudo dê certo nessa incrível missão que poderíamos batizar como: "De volta à Alemanha de Hitler". Conte com todo o nosso apoio. Sei que o senhor irá se encontrar em seguida com a Dra. Kelly. Ela já está instruida para lhe ajudar em tudo que seja humanamente possível.

O Presidente se ergueu, foi até sua mesa de trabalho e apertou um botão. Paul se levantou. A porta do Salão Oval se abriu e o oficial-de-gabinete apareceu. O Chefe do Estado e o cientista trocaram um aperto de mão. Mordush deixou o recinto. Um outro funcionário da Casa Branca o cumprimentou e pediu que o acompanhasse. Minutos depois, Paul era introduzido no gabinete da assessora para assuntos científicos.

Emily se ergueu da poltrona e apertou a mão de Mordush, por cima da sua mesa de trabalho.

- Que prazer em ve-lo, Professor - disse ela, sorrindo.

- O prazer é todo meu, Sra. Kelly

- Por favor, sente-se - falou a assessora, indicando uma cadeira de braços bem de frente para a mesa.

Eles haviam se encontrado, ligeiramente, nas duas ocasiões em que ela fora ao Mojave assistir aos testes alfa e delta do projeto. Mas esta era a primeira vez que se viam a sós, estudaram-se mutualmente:

Paul contemplou uma jovem senhora de rosto ovalado, olhos castanho-esverdeados, cabelos aloirados, presos para traz, os óculos atirados sobre a parte frontal da cabeça. Porém o que mais lhe chamou a atenção foi o olhar inteligente, que parecia conter um leve toque de ironia e sedução. No seu todo, uma mulher bonita e atraente.

Emily viu, diante dela, um homem já bem maduro, magro, atraente, em cujo rosto chamava a atenção as maçãs salientes, indicando, como o sobrenome do seu dono, uma origem eslava. Os cabelos branco-acinzentados, davam à face um toque de austeridade, que contrastava com os olhos joviais, de um azul muito claro, que pareciam emitir, ao mesmo tempo, doçura e inteligência. "Um gato na terceira idade", pensou.

O instinto de Emily lhe disse, naquele momento, que uma espécie de mútua atração, ainda mal definida, estava por acontecer entre os dois.

A assessora deixou escapar um suspiro quase imperceptivo, pôs de lado o intuitivo e deu iníciou à conversa:

- Já fui informada que vocês decidiram enviar um, digamos, agente, à Berlim do final de abril de 1945, para tentar esclarecer o que de fato aconteceu, na época, no "Bunker" de Hitler. O Presidente ordenou-me que lhe desse todo o apois e terei muita satisfação em fazê-lo, no limite das minhas possibilidades. Creio que o senhor já tem idéia do que necessita. Muito bem, Professor, em que posso ajudá-lo?

Mordush acomodou-se na cadeira, encarou a assessora e disse:

- Vou precisar, basicamente, de três coisas. Uma delas, já posso antever, um tanto dificil. Vou começar pelas duas que considero mais fáceis.

Primeira: tudo que se possa obter sobre documentários, filmes, gravações e fotografias das pessoas que se encontravam no "Bunker" naqueles dias e com as quais o nosso "agente" certamente terá de se encontrar. A missão iria pelo espaço e nosso homem estaria condenado se, por exemplo, desse de cara com Bormann ou Goebbels e não os reconhecsse.

- Compreendo. Não teremos dificuldade nisso. Vários orgãos, do Pentágono à CIA, possuem arquivos contendo toda essa documentação.

- O Presidente não parece confiar muito na nossa Agência Central de Inteligência...

- Quem confia ?

- Logo...

- Não se preocupe, justificaremos o pedido da documentação, alegando que um historiador, amigo do Presidente, necessita dela para uma tese que vai defender numa certa universidade. E nada mais. Garnto-lhe que eles entregarão o que tiverem, sem pestanejar ou fazer quaisquer indagações. O Presidente não é um homem que gosta de dar explicações que julgue desnecessárias e o pessoal da CIA sabe disso. Qual é a segunda coisa?

Paul começou a compreender porque se dizia que a Dra. Kelly era tida como uma das mais eficientes assesoras da Casa Branca: ela não se dava ao desagradável hábito de fazer circunlóquios; ia direto ao assunto.

- Vou precisar de um historiador, americano, de preferência, que seja um "expert" em Alemanha Nazista e que tenha uma idéia formada a respeito do que se passou em Berlim nos últimos dias do Terceiro Reich.

Kelly, que tomava anotações enquanto Paul falava, parou de escrever e, por um velho costume, começou a bater, de leve, com a caneta sobre o topo da mesa.

- Esse seu segundo pedido me parece mais dificil que o primeiro, mas nada que não se possa resolver. Vou checar com as principais universidades e estou certa que acabaremos encontrando a pesseoa que o senhor precisa. Älguém, que além de "expert", seja também suficientemente responsável para não sair por ai fazendo comentários. Muitos acadêmicos costumam ser perspicazes e quando o nosso escolhido for passar as informações para o futuro "agente", certamente vai se perguntar porque. Concorda?

A admiração que Mordush já tinha em relação à sagacidade da assessora, galgou mais uns degraus.

- Concordo, plenamente.

- Então, vamos à terceira coisa, aquela que o senhor considera a mais dificil e que, suponho, tem a ver com a escolha da pessoa que irá executar a missão.

Mais um dúzia de degraus para cima na escada da admiração de Paul.

Ele olhou fixamente para Kelly e disse:

- Doutora, necessito de um americano de descendência germânica, que fale alemão fluentemente, entre 30 e 40 anos, solteiro ou divorciado, sem filhos pequenos, que não seja arrimo de pais, se os tiver, patriota, corajoso, que tenha servido no exército, pois assim já estará a par da maneira de ser de um militar, com gosto pela aventura e disposto a executar uma missão de alto risco, da qual, se sobreviver, jamais poderá se vangloriar.

A assessora assobiou baixinho e comentou:

- O senhor está me pedindo que encontre um superhomem...e descompromissado.

- Exato, algo assim.

Dessa vez Kelly respirou fundo.

- Não vai ser fácil. Mas quase nada nesta vida é impossível. Vocês mesmo já provaram isso, com o Projeto "Time for Angels".

A assessora se egueu, deu uma vota pelo recinto e depois voltou a se sentar por traz da mesa. Tornou a fazer anotaçõe e, ao terminar disse:

- Pode demorar, Professor, mas encontraremos a pessoa que o senhor está procurando.

- Estou confiando nisso, Doutora...

- Para quando vai necessitar da documentação, do historiador e...do superhomem?

- Um mês ?

- Vou tentar. Para quando está marcada a missão ?

- Para março ou abril do ano que vem. Há ainda uns certos cálculos a serem feitos antes da gente ter a data e a hora precisas em que o "Carl Sagan" deverá decolar do Mojave.

- Carl Sagan, o astrofísico que morreu na década passada ?

- Ele mesmo. Um grande amigo, uma perda irreparável... - a voz de Morduxh adquirira um tom ligeiramente trêmulo.

- Sinto muito.

- Tudo bem - a voz do cientista voltara ao seu tom normal - Mas tenho um outro pedido que talvez seja ainda mais dificil de ser atendido.

Ela ergueu uma das sobrancelhas.

- Qual ?

- Bem, antes de dizer do que se trata, devo fazer uma pequena introdução. Cada membro do meu "staff" cumpre certas finalidades específicas, o que dificulta que ele ou ela tenha uma visão global do contexto. Apenas com meu sub-diretor, Thomas Kennedy, que não está enganjado em nada em particular, eu consigo debater os problemas, levando em conta o projeto como um todo. Ele funciona como uma espécie de meu alter ego. Dá para entender o que estou querendo dizer?

- Claro, mas ainda não consegui entender aonde isso vai levar, já que o senhor começou dizendo ter um pedido a me fazer.

- Entenderá logo, ainda porque o pedido, na verdade, envolve um convite...

Kelly ergueu a outra sobrancelha. Mordush prosseguiu:

- Bem, às vezes, Thomas e eu ficamos debatendo certas questões por horas a fio e, não raramente, a conversa se extende pela noite a dentro. Sucede que ele sofre de artrite reumatóide, a qual, por ter evoluido bastante nos últimos tempos, faz com que esse meu grande amigo se mostre mais cansado, a cada dia. E, se ele ainda não abandonou o projeto e se aposentou, foi para não me deixar só, agora, quando estamos entrando na etapa derradeira do "Time for Angels". Mas minha consciência obriga-me a livrá-lo dessa sobrecarga. Porém, para fazer isso...

Morduxh fez uma pausa. Uma luz foi se acendendo na mente da doutora. Ela tinha agora os olhos fixos nos de Paul.

- Por favor, Professor, complete a frase. - disse Kelly.

-...eu necessito colocar alguém no lugar dele.

Ela começou a compreender aonde o outro queria chegar. Mas ele fazia um jogo cauteloso, procurando sondar, sem se arriscar muito. Decidu entrar no jogo dele:

- E deseja que eu indique alguém para substituir o Prof. Kennedy...

- De certa forma, sim.

O jogo prosseguiu:

- Mas como posso fazer isso, sem saber. pelo menos, o perfil da pessoa que deseja?

Mordush exitou, mas não mais que alguns segundos:

- Eu disse que, na verdade, tratava-se de um convite.

- Para ...

- Emily Kelly.

A assessora deixou a caneta cair sobre a mesa, alisou os cabelos, mordeu os lábios e, então, disse:

- O senhor está mesmo falando sério, não está?

-Naturalmente que estou. Desde que, é claro, a ideia lhe agrade e o Presidente concorde em dispensá-la por algum tempo.

Kelly repirou fumdo, voltou a pegar a caneta, pareceu refletir um pouco e, finalmente, falou:

- Vamos por partes, professor. Quanto ao Presidente permitir, não haveria problema. Tem muita gente por aqui que pode perfeitamente me substituir. Em relação à idéia, ela é bastante tentadora. O clima da Califórnia, ainda mais considerando que o inverno vai chegar dentro de alguns meses, deve ser bem mais agradável do que o de Washington. E, do ponto de vista pessoal, na realidade nada existe que me prenda a esta cidade. Estou divorciada há mais de sete anos, não me encontro envolvida em nenhum relacionameno, meus pais já se foram, meu único irmão reside em Londres e meu filho - só tive um - está morando em Paris, onde estuda pintura e artes plásticas.

Emily fez uma longa pausa, olhou bem dentro dos olhos de Paul e prosseguiu:

- Porém, existe um porém, professor. Porque eu? Conheço os objeticos do seu projeto, assisti a dois testes do módulo, mas, fora isso, entendo muito pouco de física e ainda menos de viagens temporo-espaciais. Por isso, repito: porque eu?

Mordush passou a mão pelo queixo, afrouxou a gravata e respondeu:

- Porque a minha razão diz que a senhora tem uma mente extraordinária, com um imenso senso de abrangência... e... - ele hesitou, mas concluiu - ...e é algguém assim que eu necessito para substituir o Kennedy.

Kelly fechou os olhos, tornou a deixar cair a caneta e, após respirar ainda mais fundo do que antes, falou:

- Professor, uma mulher na faixa dos quarenta desenvolve um forte instinto para certas coisas. É a grande defesa de que dispõe em relação à sua auto-preservação e aos seus sentimentos. E ela sente quando algo está faltando. É como estou me sentindo agora. Pensando apenas com a cabeça, eu diria que seu convite me lisongeia. Mas meu coração insiste em dizer que, ao expor as razões pelas quais me convidou, alguma coisa ficou faltando. Confesso que sinto-me propensa a aceitar sua proposta, mas, considerando que isso implicaria numa mudança radical de vida, na qual iriamos trabalhar juntos, sem se saber por quanto tempo, só posso me definir se o senhor abrir a sua defensiva e me disser, com toda sinceridade, porque está querendo que eu venha a ser seu próximo alter ego.

Mordush teve a sensação de ter enfiado os pés pelas mãos e que a inteligente assessora encostara-o contra a parede, antes de liquidá-lo com um retumbante "não". Ficou um longo tempo olhando para os olhos de Emily, fixos nos seus, tentando identificar algum sinal de hostilidade, ou buscando imaginar o que ela iria dizer, quando ele atendesse ao que ela, com todo o direito, reconhecia, exigia que ele declarasse. Mas era tarde de mais para recuar. Ganhou coragem, respirou fundo e, sem se dar conta de estar usando o primeiro nome da assessora falou:

- Emily, na minha idade a gente às vezes se comporta mais adolescentemente que um adolescente e acaba afastando para o lado o constrangimento para deixar o coração falar. Pois bem, quando lhe vi pela primeira vez. lá no Instituto, senti-me tomado de uma forte atração por você, atração essa que logo tratei de reprimir. E, embora você não deva ter reparado, quando da sua segunda visita, eu mantive-me propositadamente afastado. Na viagem para cá, entretanto, pensei em você o tempo todo, e, quanto mais pensava, mais me convencia que você é, por seus méritos, a pessoa ideal para assumir o lugar do Thomas. E, durante a nossa conversa hoje, a maneira positiva e confiante com que você encarou os meus pedidos, convenceu-me, definitivamente, que essa seria uma escolha acertada. Uma escolha ditada pela razão, mas...- ele ai voltou a hesitar, porém por não mais que um segundo - embalada pelo coração. Se você vier para o Mojave, sua presença talvez traga de volta uma emoção há muito perdida no passado...

Mordush parou de falar. Não sabia se tinha ido longe de mais. Afinal de contas, esta era a terceira vez que se encontravam e a primeira em que haviam conversado. "Ela vai me dar o maior fora."- pensou - "No mínimo vai arrunar uma desculpa para recusar o convite, enquanto estará dizendo para si mesma que eu não passo de um velho idiota e pretencioso." O pensamenmto fez com que seu rosto ficasse intensamente ruborizado. Paul abaixou ligeiramente a cabeça e aguardou a sentença. Um longo silêncio baixou sobre a sala. Finalmente, a voz de Kelly se fez ouvir. Para Mordush, ela parecia vir de muito longe e ir, aos poucos, se aproximando. Mas, em vez do temido tom retumbante, o que ele ouviu foi uma voz morna e doce:

- Agora eu sei que você falou com sinceridade - disse ela - e sabe porque? Porque me chamou de Emily e não de Dra. Kelly. E já que, provavelmente, vamos em breve começar a nos ver assiduamente, permita-me que o chame de Paul. Como disse antes, pouco sei sobre física, mas envidarei todos os meus esforços para fazer jús a sua confiança. E quanto a atração que diz sentir por mim, o fato me lisongeia. Que mulher não gosta de ouvir isso de um homem charmoso e sutilmente sedutor?

Enquanto o rosto de Mordush se iluminava, a assessora prosseguiu:

- Sabe, Paul, meu instinto está dizendo que dois solitários vão se dar muito bem.

Mordush se ergueu. Kelly tinha dado volta à mesa e se aproximara dele, com a mão estendida. Ele a tomou entre as suas. Ela sorriu e, adotando agora um tom ligeiramente formal, mas ainda bem suave, disse:

- Dê-me uns trinta dias, Paul, para eu conseguir as coisas que você me pediu. Quando tudo estiver resolvido e após ter acertado a minha nova situação com o Presidente, eu entrarei em contato, para dar conta do que consegui arrumar. Depois, aviso o dia e a hora da minha chegada. E espero que, quando eu descer do avião, você esteja no aeroporto do Mojave, com as mãos estendidas para receber a sua nova alter ego.

- De coração aberto - retrucou ele.

Kelly voltou a sorrir e brincou:

- Dispensarei o tapete vermelho. Seu sorriso será suficiente.

As mãos se afastaram. Mordush olhou para o relógio. Tinham conversado por quase duas horas. Ele caminhou até a porta, virou-se e disse:

= Até breve, Emily.

- Até breve, Paul.

E o diretor do Projeto "Time for Angels" saiu caminhando pelo corredor atapetado da Casa Branca, refletindo quanto pode se alterar a expectativa de duas vidas, em menos de 120 minutos.

*****

Capítulo 17

Mordush voltou ao Mojave ainda no mesmo dia. Na manhã seguinte, tão logo Kennedy apareceu, semi-amparado na bengala, e acomodou-se numa poltrona, foi logo indagando:

- Então, como foram as coisas em Washington?

- Melhor do que se poderia imaginar. Tom, precisamos ter uma longa conversa. Está com tempo para me ouvir ?

O outro acenou com a cabeça.

- Todo o tempo do mundo.

- Então escute...

E Mordush relatou, nos mínimos detalhes, a audiência com o Presidente e o diálogo com Emily Kelly.

Thomas escutou calado e quando o outro terminou, disse:

- Paul, você está apaixonado pela Emily. Ela, pelo pouco que a conheci e pelo relato que você acabou de me fazer, parace ser, de fato, uma mulher excepcional. Dou-lhe meus efuzivos parabéns.

Mordush fez um gesto vago com a mão e seu rosto se ruborizou ligeiramente quando disse:

- Apaixonado, na minha idade? Sabe quantos anos eu tenho, Tom? Sessenta e sete, dois a mais do que você.

- Não seja tolo, Paul. Amor e paixão nada têm a ver com idade. E sim com sentimento e libido.

- Este último está ausente desde que a Barbara se foi.

- E daí ? Com um pouquinho de estimulo, o qual já se percebe surgindo no seu olhar, é apenas uma questão de começar.

- Não quero me iludir, Tom. Confesso que ter a Emily por aqui vai me fazer bem. De certa forma, minimizará minha solidão. Mas quanto a sexo, meu amigo, não estou contando muito com isso...

- E a atração que você diz sentir por ela, aonde fica ?

- Receio que no terreno do platônico.

Tom soltou uma gargalhada.

- A quem você pretende iludir, Paul ? A Emily é uma mulher bastante sensual. Antes de um mês após a vinda dela, já estarão dormindo juntos.

O rosto de Mordush ficou ainda mais vermelho, mas ele não comentou nada. Tom perguntou:

- A propósito, quando espera que ela chegue ?

- Vai depender de algumas coisas. Mas creio que dentro de mais ou menos dois meses.

- Ótimo, até lá eu vou me aguentando por aqui.

- Não, Tom. Quero que você volte para Coral Gables ainda nos próximos dias. Nós estamos numa fase de espera. Nada de importante vai acontecer até que o "agente'" chegue e inicie o treinamento para a "viagem". E quanto mais cedo você acelerar seu tratamento, mais cedo irá melhorar. Aqui por perto não há nenhum grande centro de reumatologia ou de ortopedia. Você teria de ir à São Francisco ou a Los Ângeles. Em Miami, a um passo de Coral Gables, existem excelentes especialistas. Dentro de pouco tempo você estará andando normalmente, livre dessa bengala e pescando nos riachos da Flórida. Prometo que lhe manterei informado de cada passo. E, quando a "nave" decolar, em abril do próximo ano, com destino à Berlim, mandarei trazê-lo aqui, para sofrermos juntos a angústia dessa fenomenal aventura.

Kennedy ficou um momento pensativo. Depois disse:

- Você tem razão, Paul, sinto muita saudade da minha cidade e, principalmente, da minha filha. Anne voltou a morar em nossa casa em Coral Gables.

- Ela não tinha se casado, pouco antes de você ter vindo para cá, e se mudado para Atlanta?

- Tinha, mas o casamento fracassou. Não tiveram filhos e o processo de divórcio está em vias de conclusão.

- Sinto muito.

- Não sinta. Estou certo, pelas cartas que recebo, que ela está mais feliz assim. Anne é uma excelente arquiteta e já está trabalhando em uma firma de construção em Miami.

- Então, está combinado. Ainda hoje comunicarei ao general Sherman, a fim de que seu desligamento seja oficializado. E aproveito para falar com ele a respeito da vinda da Emlly.

***

Thomas Kennedy partiu para Coral Gables uma semana depois. Várias vezes, Paul sentiu-se tentado a ligar para Emily. Mas desistiu sempre. Os aparelhos dela podiam estar grampeados e ele receiava que, em meio a uma conversa profissional, acabasse sendo traido por alguma frase de conteudo mais pessoal. E cada dia sem notícias dela era uma gota a mais no cálice da ansiedade. Ele se torturava na dúvida: seria o silêncio de Emily uma indicação de mudança de plano em relação a vir para o Mojave ou, como ele, ela temia se expor, caso os telefones dela, na Casa Branca ou na residência, estivessem controlados pelo FBI ? Tom acertara em cheio: ele, Paul, estava perdidamente apaixonado.

*****

Capítulo 18

10 de outubro de 2005

Trinta e dois dias após seu retorno de Washington, ao chegar ao gabinete, Mordush foi surpreendido com um recado que Michael Scott deixara em sua secretária eletrônica. O coronel solicitava-lhe que ligasse para ele tão logo fosse possível. Olhou na agenda o ramal de Scott e discou.

- Bom dia, Coronel, ouvi seu recado. De que se trata?

- Um mensageiro da Força Aerea, vindo de Washington, entregou ontem na administração, um envelope lacrado com o selo da Casa Branca, com os dizeres "urgente e confidencial" e dirigido ao senhor. Como o expediente já estava se encerrando, o soldado que o recebeu trancou-o no cofre e entregou-me hoje, quando cheguei. Se quiser, mando agora um portador leva-lo ao seu gabinete.

"Da casa Branca: Emily". O coração de Mordush disparou. Procurando manter a voz serena, respondeu:

- Quero sim, Coronel. E muito obrigado pela presteza.

- Não há de que, Professor.

O portador apareceu em menos de dez minutos, mas, para Paul, era como se ele tivesse levado horas para chegar.

***

Mordush abriu o envelope branco com sofreguidão, retirando dele duas folhas de papel escritas em letras de impressora de computador.

"Paul:

Espero que esteja passando bem. Pensei em me comunicar antes com você, mas achei melhor fazê-lo quando já estivesse com tudo praticamente definido. Comecemos pelas três coisas que me pediu. Como imaginamos, a mais fácil foi a coleta de documentos sobre a Alemanha Nazista e o pessoal que se encontrava no "Bunker" nos últimos dias do Terceiro Reich. Estou de posse de uma grande quantidade deles. São filmes, gravações, fotografias, jornais e folhetos de propaganda. Não foi fácil encontrar um historiador que conhecesse bem o que se passou naquela época em Berlim. Mas, finalmente, achei o professor de história Jonas Gelder, recém aposentado da Universidade de Ohio, o qual, talvez por ser descendente de alemães, sempre se interessou pela vida de Hitler, tendo até escrito uma tese a respeito. E mostrou-se ainda mais interessado quando o convidei para dar aulas particulares a um aluno, mediante uma régia remuneração. Entrevistei-o na semana passada e pareceu-me discreto para um historiador. Ficou um pouco assustado quando disse que ele teria de assinar um documento oficial, onde se comprometia a manter, sob pena de processo federal, total e permanente sigilo sobre o assunto e que o curso seria dado numa base da Força Aérea, na California. Mas, no fim, o dinheiro pesou mais e ele assinou o documento. Vamos agora ao mais dificil: a procura do seu peculiar "agente". Guardando as devidas reservas, tive de apelar para o Pentágono. Depois de uma exaustiva busca e uma rigorosa seleção, encontramos o nosso homem. Entrevistei-o dois dias atrás e fiquei satisfeita. Seu nome é Steve Roger Kleist, filho de um casal de alemães, já falecidos, que migraram para os "States" em 1962. Ele tem 35 anos, é solteiro, capitão do exército, serviu na 82a Divisão de Paraquedistas, ficou sediado no sul da Alemanha por dois anos, fala alemão fluentemente, é do tipo aventureiro e tomou parte na última guerra contra o Iraque. Está hoje servindo em Fort Braggs. Disse-lhe que nós o queríamos para uma missão altamente confidencial, que envolvia um certo risco. E que ele só iria saber exatamente do que se tratava, quando fosse transferido para o local em que seria treinado. O capitão nem pestanejou. Disse apenas: "Adoro mistérios, doutora. Quando e aonde devo me apresentar para essa missão?". Por ordem do Presidente, o Secretário de Defesa já está providenciando para que ele seja designado a servir, em caráter temporário, na Força Aérea, em local não especificado. Missão cunprida! Satisfeito ? Passemos agora ao segundo item: o Presidente não se opôs a minha transferência para o Instituto. Muito pelo contrário. Ele acha que, nessa fase decisiva do "Time for Angels", a minha presença aí, significará uma maior participação da Casa Branca no acompanhamento do projeto. Bingo! Como minha ausência de Washington será por um tempo ainda indeterminado, estou alugando meu apartamento para uma amiga que está em processo de separação. Parece-me ser uma solução satisfatoria para nós duas. Já comecei a encaixotar as coisas que irei levar comigo para o Mojave. A propósito, você não mudou de ideia, mudou? Se não mudou, já tem pronta a casa, ai no campus, aonde eu irei morar? Sua futura alter ego tem pensado muito em você e gostaria de saber se você também tem se lembrado dela. Vou lhe dar o número de um telefone absolutamente seguro, para onde você poderá me ligar: código do Distrito de Colúmbia + 01677534. Estarei esperando nas quatro próximas noites, entre às 21:00 e 22:00 horas, horário de Washington.

Carinhosamente.

Emily"

 

Paul não sabia o que fazer com tanta emoção e felicidade. A única coisa que lhe ocorreu foi ligar para o Tom e falar sobre a carta. Ligou. Kennedy não estava em casa. Consolou-se em deixar um recado na secretária eletrônica. Olhou para o relógio: 09:35. Doze intermináveis horas de espera para telefonar para Washington. Tinha que se manter ocupado até lá. Discou para seu colega Richardson e pediu-lhe qie viesse até o gabinete. Deseja falar a respeito de Jonas Gelder. Como o historiador e a documentação que Emilly obtivera poderiam chegar dentro em breve, talvez Bruce pudesse idealizar um plano didático para otimizar o aprendizado do capitão Steve Kleist. Quanto mais este conhecesse a respeito das pessoas que estavam no "Bunker" em abril de 1945, maiores seriam suas chances de sucesso..

***

Como acontecia com a maioria dos cientistas e oficiais da Força Aérea, enganjados no Projeto, Mordush morava dentro da área do Instituto, em uma casa de sala, dois quartos, dois banheiros e uma pequena cozinha. Aqueles que tinham trazido os filhos, ocupavam moradias maiores, com mais um ou dois quartos, de acordo com as necessidades da família.

***

Às 19:15 horas, Mordush acomodou-se em uma das poltronas, em sua pequena sala de estar e discou o número que Kelly havia fornecido. Em Washington seria, agora, 21:15. Atenderam no terceiro toque:

- Boa noite, aqui fala o alter ego do professor Paul Mordush. - a voz era meiga, com um leve toque de brincadeira.

Uma risada e:

- Emily, e se não fosse eu?

- Quem mais poderia ser? O "bina" do meu aparelho indica o prefixo da Califórnia e o número de um certo Instituto da Força Aérea...Logo...

- Você é demais.

- Nem tanto. Gostou da carta ?

- Como poderia não ter gostado? Você é incrível. Conseguiu resolver tudo em trinta dias.

Uma risadinha e:

- Paul, se continuar com tantos elogios eu vou inchar, inchar, inchar e explodir que nem uma bola de soprar. E ai...adeus alter ego.

- OK, guardarei os elogios para lhe dar pessoalmente.

- Assim é melhor.

- Emily, quando é que o historiador e o capitão deverão chegar aqui?

- Dentro de dois ou três dias. A documentação você deverá receber amanhã.

- E você ?

- De hoje a uma semana, está bem?

- Mais ou menos.

- Porque?

- Serão sete longos dias. Bem melhor se você tivesse vindo ontem, ou ante-ontem ou no dia anterior, ou...

Ela o interrompeu:

- Paul, sabe o que isso está me parecendo?

- O que ?

- Uma declaração de amor.

Mordush abandonou de vez a timidez.

- E é. Emily eu estou apaixonado por você.

Do outro lado da linha seguiu-se um longo silêncio, Do lado de cá, a dúvida quis se apossar de novo da mente de Mordush. Mas ficou só na tentativa. Desapareceu quando ele se lembrou que fora ela quem sugerira que ele estivesse fazendo uma declaração de amor. Baixinho, ainda um tanto cautelosamente, o cientista perguntou:

- Emily, você está bem? Eu disse algo que não devia?

A resposta veio numa voz trêmula:

- Paul, quando é que você vai parar de ter medo de mim ou dúvidas a meu respeito ?

- Você silenciou quando eu lhe falei estar apaixonado...

- Seu, tolo, como eu poderia falar, se estava chorando ?

- Chorando?

- Sim, Paul, chorando, chorando de alegria. Sabe o que é que uma mulher sente quando escuta uma coisa que está querendo ouvir há muito tempo? Quando ela entende que pode se olhar no espelho e dizer: 'eu sou amada'...Paul, obrigada... por esse momento de felicidade.

- Emily, meu amor, obrigado por me ter-me feito amar de novo.

Um outro silêncio. Mais curto. Depois:

- Paul, meu vôo já está marcado, Vou num avião da Força Aérea que deverá chegar no aeroporto do Mojave em torno das 16:00 horas do dia 17. Estou levando apenas uma maleta de mão e duas malas. Meus livros e outros objetos pessoais seguirão depois. Já sabe aonde eu vou ficar ?

Mordush já havia acertado isso com o general Sherman.

- Sim, na casa onde o Tom morou. Por uma dessas maravilhosas coincidências do destino, ao lado da minha.

- Vê, os deuses trabalham em nosso favor. Está tudo se encaixando. Você vai estar no aeroporto a minha espera, não vai ?

- Com um sorriso nos lábios e o coração vibrando de felicidade.

- Então até breve, meu chefe..., meu bem amado.

- Até breve, meu alter ego..., minha paixão.

E desligaram ao mesmo tempo.

Quando Paul foi se deitar naquela noite, a lembrança de Barbara veio-lhe à mente. E, com ela, uma pontinha de saudade. Porém não mais aquela saudade angustiante que experimentara durante anos. Era, agora, uma saudade suave e distante, que começava a se recolher aos recônditos da memória. Depois, quando o sono já se avizinhava, surgiu a imagem de Emily e, junto, também uma saudade. Mas uma saudade muito diferente: uma saudade esperançosa, que se projetava para o futuro.

*****

Capítulo 19

A documentação enviada por Emily chegou no dia 11. O historiador Jonas Gelder e o capitão Steve Kleist se apresentaram no gabinete de Mordush, um pouco depois das 14:00 horas do dia 13. O avião da Força Aérea que os trouxe, pegou o professor em Cleveland e o capitão em Fort Braggs. Gelder era um homem magro, de meia idade, cabelos e barba brancas, olhos castanhos por trás dos óculos com aros de tartaruga e um jeito taciturno. Um acadêmico típico. Kleist era relativamente jovem, de média estatura, troncudo, os cabelos muito negros, contrastando com os olhos de tom azul celeste; o queixo quadrado conferia-lhe uma expressão de firmeza e determinação.

Paul deu-lhes as boas vindas. E foi quando ambos tomaram conhecimento da natureza da missão. Gelder ficou parado, sem dizer uma palavra, limitando-se a sacudir a cabeça e fazendo uma cara de quem tinha sido trazido para um manicômio. Kleist reagiu diferente. Olhou bem para Mordush e perguntou: "Isso não é nenhuma brincadeira, é?". Paul balançou a cabeça e respondeu: "Não, Capitão, pode parecer ficção científica mas não é. Quando Kelvin Martin, o nosso piloto, leva-lo para um primeiro passeio no módulo, você irá compreender o quanto isso é verdadeiro". Steve não disse nada. Paul perguntou: "Quer desistir?" O oficial soltou uma gargalhada e respondeu: "Desistir, Professor? Por nada deste mundo!" Foi ai que Mordush se certificou que Emilly não tinha errado ao escolher o capitão.

***

Com a participação de Richardson, o treinamento de Steve começou na manhã seguinte. Durante longas horas, o capitão viu desfilar, diante dos olhos, fotos e filmes de Hitler, Eva Braun, Bormann, Goebbels, Hanna Reisch, Frau Magda, Frau Junge, General Krebs, Linge, Gunsche e todas as outras pessoas - do mais simples serviçal aos líderes nazistas e generais - que viveram no "Bunker" nos dias finais do Terceiro Reich. E tudo isso seria repetido dia após dia, até que Kleist conhecesse as feições de cada personagem como as dele mesmo, identificando todos por seus respectivos nomes, cargos, funções ou patentes.

Pelos meses que se seguiriam, Gelder o colocaria a par da história do Terceiro Reich, ensinando-lhe os hábitos e costumes de um oficial alemão da época, incluindo a maneira germânica correta de bater continência e de erguer o braço direito na clássica saudação nazista. Com o passar do tempo, Steve também aprenderia, ouvindo reiteradamente as fitas gravadas, a reconhecer as vozes de Hitler e dos principais líderes e generais que viveram ou visitaram, com frequência, o "Bunker" do Fuhrer.

***

Numa manhã, o engenheiro Takeo Yamazata e o engenheiro em telecomunicações Peter Gray, levaram Kelvin e Steve ao "Carl Sagan", onde lhes passaram algumas importantes informações. Takeo começou, explicando que, quando sob controle automático, uma vez "rematerializada", a nave descia verticalmente, de 250 metros até o solo numa velocidade de 12,5 m/seg, o que equivalia a um tempo de descida de 20 segundos. Porém durante a missão na Alemnha de Hitler, a velocidade de descida do "Carl Sagan", sob controle automático, seria programada para se fazer, também na vertical, porém numa velocidade bem mais reduzida: 5.0 m/seg, alongando a fase de descida para 50 segundos. Tempo suficiente para que o piloto acordasse, ficasse alerta e assumisse o controle manual do módulo, o que lhe permitiria manobrá-lo ao seu bel prazer e, assim, poder escolher o local mais adequado para aterrizar.

Em seguida, foi a vez de Peter. Ele apontou para um pequeno monitor que havia sido recentementet instalado junto ao LPD no painel do módulo. O monitor permitia rastrear ondas emitidas por um "chip" a ser colocado internamente no tempocelular de Steve. Dessa forma, Martin poderia localizar, com precisão, a partir de qualquer distância inferior a 40 quilômetros, o ponto exato em que Kleist se encontrava. O método poderia vir a ser extremamente útil quando o módulo tivesse de recolher o major, assim que ele estivesse pronto para regressar. Também a nave não necessitaria descer até o solo para apanhar Kleist. Martin poderia mantê-la parada, a uma altura de dez metros, abrir a porta e fazer descer um cabo de aço com um gancho na extremidade, o qual era movido por uma roldana localizada no interior da "Carl Sagan". Steve se prenderia ao cabo, a roldana o puxaria até o interior do módulo, a porta seria fechada, a nave ascenderia rapidamente aos 250 metros regulamentares e se "desmaterializaria".

***

Por duas vezes, Steve "viajou" no módulo, na companhia de Kelvin, para ter o corpo e a mente familiarizados com o processo de "desmaterialização" e "rematerialização". Kleist passou sem problemas pelos testes médicos pós-viagem e aprendeu como manobrar o "Carl Sagan", tanto na decolagem quanto na descida. Uma importante precaução, caso Kelvin, que o acompanharia na missão, a fim de comandar o módulo, viesse a sofrer qualquer tipo de impedimento.

As duas viagens no "Carl Sagan" tiveram um mesmo tempo de "desmaterialização": cinco segundos e setenta e seis centésimos, para uma volta ao passado equivalente a quarenta dias. Após desceram do módulo, no primeiro regresso, Martin perguntou a Steve:

- Então, o que achou do passeio ?

Kleist colocou a mão no ombro do companheiro e, com a tranquilidade de quem tivesse apenas dado uma volta de carro pelo quarteirão, sorriu e disse:

- Um "barato", Kelvin, simplesmente um "barato".

Quando, horas depois, Paul perguntou a Kelvin como Steve havia se comportado, ouviu como resposta:

- Como se estivesse dando um passeio pela rua. Ele é o cara mais frio que já conheci. Se alguém pode levar a cabo a tal missão na Alemanha, estou certo que esse alguém é o Steve.

 

*****

Capítulo 20

17 de outubro de 200_

O avião trazendo Emily Kelly aterrizou no aeroporto do Mojave às 16:15. Ela desceu as escadas e Mordush prontamente caminhou ao seu encontro. Sob o olhar do general Sherman, que também tinha ido recebê-la, trocaram um demorado aperto de mão, enquanto os olhos transmitiam palavras que não podiam ser ditas. Paul tomou das mãos de Emily a maleta que ela carregava e fez as apresentações:

- General, esta é a Doutora Kelly, minha nova assistente. Emily, este é o general John Sherman, diretor do instituto.

- Muito prazer, General.

- Encantado em tê-la entre nós, Doutora. Alias, já tinha visto a senhora em duas oportunidades, quando, na qualidade de assessora do Presidente, veio assistir aos testes de um dos nossos módulos. Seja benvinda. Estou certo que será uma grande aquisição para o projeto e... uma injeção de ânimo no nosso diretor cientifico. Ele anda um tanto retraido desde que o Kennedy nos deixou. Mas, agora, as suas qualidades e, permita-me acrescentar, sua beleza, certamente mudarão o humor do meu amigo Paul.

Enquanto Emily procurava conter o riso, Mordush olhava boquiaberto para Sherman: nunca imaginou que o sempre contido general fosse capaz de se mostrar tão eloquente e, assim lhe pareceu, sutilmente malicioso.

Meia hora mais tarde, acompanhada por Paul e uma jovem ordenança, que iria desempenhar a função de sua ajudante, Kelly ficou conhecendo a casa que seria, por um algum tempo, o seu novo lar. Ela percorreu os cômodos com o olhar brilhando e, ao terminar, disse:

- Paul, que casinha aconchegante.

- Que vai se tornar ainda mais com a presença da sua encantadora feminilidade.

Ela olhou de soslaio para a ordenança. enrubesceu e exclamou:

- Paul !

- Eu não disse pelo telefone que os elogios seriam feitos pessoalmente? E saiba que estou apenas começando.

Emily tornou a olhar de relance para a ordenança, que, agora, sorria discretamente.

- Paul, você está me deixando encabulada diante desta jovem.

Mordush olhou para a ordenança e disse:

- Meu Deus, que falta a minha. Nem sequer lhe apresentei a moça. Adotou um falso ar solene e disse:

Dra. Kelly, esta é a cabo Tereza Molina, a ordenança que o general Sherman colocou a sua disposição para facilitar a adaptação da senhora no instituto.

As duas trocaram um aperto de mão e, depois, sem mais conseguirem se conter diante da situação cômica criada por Paul, os três cairam na gargalhada.

À noite, no salão de recepção do Instituto, com a presença de todos os integrantes do projeto, aconteceu um jantar de confraternização, promovido pelo general Sherman, para saudar oficialmente a nova integrante da equipe e possibilitar que Emily conhecesse todos os cientistas e militares com quem iria conviver, na última etapa do Projeto "Time for Angels".

***

Na manhã seguinte, Paul e Richardson puzeram Emily a par do atual estágio do projeto que, no momento, consistia, quase exclusivamente, em preparar o capitão Kleist para a missão que, dentro de alguns meses, ele deveria realizar. Foi quando Kelly, logo demonstrando a sutileza da sua mente, apresentou sua primeira sugestão:

- O professor Gelder fala alemão, não fala?

- Sim - respondeu Bruce - talvez não tão fluentemente quanto o Steve, mas fala bem.

- O que tem em mente, Emily? - indagou Paul.

- Uma coisa que me ocorreu. Não seria bom se o Kleist começasse desde já a se "sentir" um oficial nazista? Se não estiver bem condicionado a isso, corre o risco de, quando estiver no "Bunker", soltar, sem querer, uma palavra em inglês. A meu ver, a partir de agora, Steve e Jonas deveriam somente conversar em alemão.

- Bem pensado - concordou Mordush - Chamarei o professor e o capitão aqui e os instruirei nesse sentido.

***

No dia seguinte, um ordenança, com jeito de alfaiate, foi até Kleist e tomou-lhe as medidas. Uma semana depois, após duas ou três provas, o capitão se viu dentro do uniforme de um major do exército alemão, com luvas, botas, uma pistola Luger com seu coldre, sobretudo para inverno e quepe. O que não era original, era uma cópia perfeita. A essa altura, já ficara decidido que Steve se faria passar por um oficial do estado-maior do general Wenck, cujas tropas constituiam a última esperança do Fuhrer, de rechaçar os russos para fora de Berlim. Ao uniforme foram acrescentadas as devidas insígnias, medalhas e condecorações. Ele recebeu ainda uma maleta contendo dois conjuntos de meias, cuecas e camisetas sobressalentes, bem como um cartão de identidade, que o indicava como sendo o Major Hans Kleist e de cuja autenticidade ninguém poderia duvidar.

*****

Capítulo 21

Dez dias antes de deixar Washington, Emily havia enviado, por uma transportadora, algumas dezenas de caixas contendo roupas, sapatos, livros, CDs e outros pertences pessoais.

Às onze horas do dia seguinte ao da sua chegada ao Mojave, estando ela no final da reunião com Mordush e Richardson, o soldado de serviço na guarita de entrada do Instituto avisou-a, pelo interfone, da chegada de um veículo transportando carga a ela destinada. Kelly pediu a ele que orientasse o motorista quanto ao caminho que deveria seguir. Em seguida, ela e Paul deixaram o gabinete e chegaram em frente da casa, no mesmo instante que o caminhão.

Auxiliados pela ordenança Tereza, Mordush e Kelly puseram-se a esvaziar as caixas. A maioria delas continham livros, cujo número Paul avaliou, por alto, ultrapassar a casa dos quinhentos. Fortuitamente, Tom havia deixado, em um dos quartos, uma enorme estante, com espaço suficiente para abrigar todos eles. Emily decidiu tratar de arrumar logo seus pertences. E os três puseram "mãos à obra".Lá pelas 14:00 horas fizeram uma pequena pausa para ingerirem os sanduiches e refrigerantes trazidos pela ordenança. E logo retomaram o trabalho. A noite já havia caído quando terminaram. Estavam todos virtualmente exaustos. A ordenança se foi e Paul e Emily dirigiram-se a uma das cantinas para uma ligeira refeição. Ao regressaram, trocaram um beijo rápido e superficial e, ávidos por um banho seguido de um longo e merecido repouso, cada um se recolheu a sua própria casa. Quase antes de pegar no sono, Paul disse consigo mesmo: "Ainda não foi desta vez, mas amanhã será outro dia" e adormeceu.. Emily, ainda mais cansada e sonolenta, murmurou:"Amanhã...quem sabe?" e mergulhou nos braços de Morfeu.

***

Kelly e Mordush passaram quase todo o dia seguinte debatendo com Richardson, Gelder, Martin e Kleist, a estratégia geral da missão, tomando por base a teoria de Bruce, segundo a qual Hitler e Eva Braun escaparam vivos do "Bunker" e que dois sósias morreram em seus lugares. E que a aviadora Hanna desempenhara um papel relevante no plano. Richarson argumentava não fazer muito sentido a explicação, dada por Trevor Roper e por John Toland (este em seu livro "Os Últimos Cem Dias"), de que Hanna e von Greim tinham voado para Berlim na noite de 26 de abril, para que o general fosse empossado pessoalmente por Hitler, no cargo de comandante da Luftwaffe.

- Porque - indagou ele - arriscar um vôo à capital do Reich, sob o fogo da artilharia russa, quando a nomeação de von Greim poderia ter sido feita através de um simples telefonema da parte do fuhrer? Tinha de haver alguma outra razão. Se, como está relatado nos livros, voaram num Fieler Storch, não poderiam ter levado os sósia com eles. O pequeno avião só dispunha de dois lugares. A menos que os relatores estivessem errados e um aeroplano maior tenha sido usado. Não sei, porém acho mais provável que os dois doppelganger já estivessem no abrigo há algum tempo. Creio que o motivo da viagem de Hana e von Greim era retirar Hitler e Eva de Berlim e levá-los a um lugar seguro, possivelmente na Bavária, de onde oFuhrer e sua mulher seriam transportados para fora da Europa.

Emily prontamente concordou. Condizia com a fértil imaginação dela, a idéia de uma ousada e romântica fuga de Hitler e Eva, ludibriando os soviéticos, graças à dextreza de uma audaciosa e hábil aviadora.

- Mas há ainda a possibilidade de que Hanna e von Greim tenham usado um avião maior que o Storch e trazido os sósias com eles.

- Bem - disse Paul - para tentar esclarecer toda essa história, o Steve deverá estar próximo da Chancelaria na hora em que os dois pilotos chegarem lá. Pelo que andei lendo, eles decolaram do aeroporto de Gatow, a uns 20 kms de distância do "bunker", em torno das 18:00 horas.

- O que implica no fato de que Kleist deve estar a postos antes das 18:30. - ponderou Bruce.

- E, a essa hora, deve haver ainda uma certa claridade no local, o que pode fazer com que o módulo venha a ser visto no trajeto de descida. - completou Martin com um ar de preocupação.

Mas uma vez, Emily mostrou a força do seu raciocínio:

- Talvez não, Kelvin. Diga-me, quanto tempo deverá levar para o módulo descer, deixar o Steve no solo, e depois subir e desaparecer?

Martin fez um rápido cálculo mental e respondeu:

- Cerca de quarenta segundos.

- Admito ser um tempo relativamente longo de exposição do módulo. Mas, vejam, mesno que a noite não tenha caído de todo, já estará um tanto escuro. Concordam ?

Todos concordaram.

- Muito bem. - prosseguiu a nova alter ego de Mordush - Por outro lado, existe um fator que deve contribuir para acentuar a escuridão: o ar enfumaçado pelos disparos da artilharia russa e os prédios pegando fogo. A claridade deles, por contraste, vai tornar menos visíveis as áreas não atingidas.

- Correto - admitiu Martin.

- E há ainda um outro detalhe a ser levado em consideração - disse Paul.

- Qual ? - perguntou Robert.

- No momento a que nos referimos, ainda não haverá tropas russas no local. Se algum alemão estiver olhando para o céu - o que acho muito improvável - e lograr discernir, naquela atmosfera enfumaçada e crepuscular, um corpo estranho descendo, sua primeira reação será de estupefação ou incredulidade. Talvez depois, possa pensar tratar-se de alguma arma secreta soviética. Mas quando der de si, Martin, levando a vantagem de estar usando óculos de visão noturna, já o terá percebido e manobrado o módulo para longe, aterrando num lugar em que não haja ninguém à vista. E o nosso alemão vai imaginar ter visto apenas uma miragem. De qualquer forma, para minimizar ainda mais a possibilidade desse risco, falarei com o Takeo para pintar a nave de uma cor cinza escura, criando assim uma espécie de mimetismo, o que tornará o "Carl Sagan" praticamente invisivel.

Ninguém discordou do diretor.

*****

Capítulo 22

Depois da reunião, quando o grupo deixou Mordush e Kelly a sós no gabinete, ele disse:

- Emily, você não acha que já é hora da gente encontrar um tempinho para nós dois?

Os olhos castanhos-esverdeados dela mergulharam no azul límpido dos olhos dele.

- Hum, hum!

- Na US15 tem um restaurante, pequeno e aconchegante, onde a comida é excelente...

- Hum, hum - repetiu ela num tom meio sedutor.

- Então, às dezoito horas na porta sua casa, OK?

- Hum, hum!

***

O conjunto residencial ficava relativamente perto dos prédios que abrigavam a admibistração, os gabinetes, os laboratórios e o centro de controle de vôo do instituto. Por isso, não havia garagens individuais nas casas. Os veículos particulares dos militares e dos cientistas eram guardados em uma vasta garagem coletiva, distando cerca de quatrocentos metros das residências. Pouco antes das dezoito horas, Mordush caminhou até lá e retirou seu carro: um corvete fabricado em 1994 e que ele conservava com muito carinho. Tratava-se de uma veículo veloz, dotado de grande estabilidade, que podia desenvolver 180 km/h, sem qualquer trepidação. Paul contudo, quando nas estradas, mantinha-se sempre dentro da velocidade máxima permitida, ainda mais se não estivesse sozinho no automovel. Emilly, trajando um elegante "pantalone" e com um grosso casaco sobre a blusa, já o esperava na porta de casa quando ele parou o carro, desceu, contornou o carro e, cavalheirescamente, foi abrir a porta do lado do carona para a sua amada alter ego.

Partiram. Como a alavanca de controle de marchas ficava logo abaixo do volante, os dois bancos da frente ficavam praticamente colados um no outro, Emily colocou o braço esquerdo sobre o ombro direito de Paul e perguntou:

- Incomodo ?

Ele sorriu e respondeu:

- Como é mesmo o oposto de hum, hum?

Kelly soltou uma gargalhada.

- Você não perde uma, perde?

- E você?

- Eu não lhe havia dito em Washington que dois solitários iam se dar muito bem? Nossas afinidades começam a se revelar.

Um tanto maliciosamente, ele acrescentou:

- E espero que, em outras situações, nossas músicas se tornem ainda mais afinadas.

E recebeu a resposta prevista:

- Hum, hum.

Ele olhou de relance para ela e perguntou?

- Emily, você usa tanto essa expressão...afinal, o que ela significa?

- Concordância, mas que só uso na intimidade. Tenho-a empregado muito com você, mas somente quando estamos a sós. E ainda irá ouvi-la em situações bem mais íntimas.

Paul não deixou passar a oportunidade:

- Que, espero, aconteçam muito em breve.

Emily deu um ligeiro aperto no ombro dele e disse:

- Hum, hum.

***

O restaurante era uma casa antiga que havia sido reformada e adaptada para sua nova finalidade. Abaixo do teto de telhas, que se projetavam ligeiramente para diante, num estilo bem latino, e bem acima da porta de entrada, havia, em letras luminosas, os dizeres"Cantina Leonardo da Vinci". Observando que o título havia chamado a atenção de Emily, Paul esclareceu:

- O dono, que desempenha também o papel de gerente e "maitre" do estabelecimento é italiano..

Entraram. Havia poucos frequezes. Logo, um senhor de baixa estatura, quase totalmente careca e gorducho, aproximou-se do casal, fez uma leve mesura e disse, com um sorriso aberto:

- Que bom revê-lo, Professor Mordush. Já faz muito tempo...

- É verdade, Paolo - interrompeu Paul.- Tem uma mesa para nós? Esta é a Srta. Kelly, minha assistente.

O italiano, correu os olhos pela figura dela, sorriu compreensivamente e respondeu:

- Compreendo. Muito prazer, senhorita, seja benvida ao nosso humilde restaurante. E é claro que tenho uma mesa para os dois.

Apontou para o fundo do salão:

- Que tal aquela lá no canto?

Após uma entrada de casquinhas de siri muito bem condimentado, serviram-se de ravioli gratinado e fatias de carne assada na brasa, regados à vinho tinto seco. Comeram em relativo silêncio. Porém Emily não se privou de fazer dois comentários. O primeiro, banal e casual:

- A comida está uma delicia.

O segundo, uma pergunta mais profundo e intencional:

- Paul você vinha muito aqui no passado, não?!

- Sim, vim muitas vezes, com a Barbara. Depois da morte dela, não mais. Até esta noite. Mas não vim hoje por saudosismo e sim porque esta cantina passou a ter, para mim, o sentido de um lugar aonde acho que só devo vir na companhia de alguém que me seja muito, muito especial. A Barbara foi. E você é'. Espero que entenda o significado do que estou dizendo e não se sinta magoada ou ofendida por ter-lhe trazido aqui.

A mão de Kelly deslizou por sobre a mesa e apertou a dele num gesto carinhoso.

- Compreendo muito bem o significado e não estou nem de leve ressentida. Muito pelo contrário. Foi bom ter escutado o que você disse. A Barbara foi um grande amor na sua vida passada. Não tenho ciumes desse sentimento. Foi lindo, como tinha de ter sido e merece ser respeitado. Trazendo-me aqui, você está, no meu entendimento, dizendo, para si mesmo e para mim, que deseja viver um outro amor de igual intensidade e que a amada se chama Emily Kelly.

As palavras dela tocaram fundo no coração de Mordush e seus olhos umideceram. Emocionado, ele disse:

- Emily, você é realmente uma mulher extraordinária e eu sou grato ao destino por te-la trazido a mim. Estou perdidamente apaixonado por você e vou querer lhe amar, com toda a intensidade de que sou capaz, e pelo resto da minha vida.

Paul calou e tomou um gole do vinho, para molhar a boca ressecada pela emoção Dessa vez, foram os olhos de Emily que se encheram de lágrimas. Ela se curvou sobre a mesa e depositou um beijo na mão do homem por quem começava a se sentir apaixonada.

***

Na volta da cantina, Mordush divizou, a poucos metros, um motel, do lado direito da estrada e diminuiu a marcha. Emily se apercebeu. Ela pôs a mão no braço dele e disse:

- Aqui não, querido. Quero que nossa primeira noite de amor seja em uma de nossas casas. Fica mais íntimo e pessoal e o local passará a ser verdadeiramente um lar para nós dois. E é isso que eu desejo ter com você: um lar, cheio do amor e da compreensão a que ambos fazemos jús

Ele voltou a acelerar e replicou:

- Tolice minha. Você tem toda razão. Eu também vou me sentir bem melhor dessa maneira.

- Eu sei. A minha casa ou a sua?

- A minha. Embora amanhã seja sábado e não haja praticamente expediente, sua ordenança pode aparecer cedo e eu não desejo nenhuma interrupção. Quero dedicar o maior tempo possivel exclusivamente ao nosso amor.

***

Começaram na sala de estar, junto à lareira. Ao primeiro beijo, um tanto tímido, seguiram-se outros, progressivamente mais ardentes e excitantes. Depois, passaram ao quarto de dormir. Numa semi-escuridão, despiram-se entre mútuas carícias. Logo, o leão em Paul, por tanto tempo recolhido, se ergueu firme e exuberante e Emily mostrou como uma mulher, liberada e apaixonada, faz amor com o amante há muito desejado.

*****

Capítulo 23

Os preparativos para a missão continuram por todo aquele ano. Na festa natalina, promovida pelo general Sherman e sua esposa Sheila, todos no instituto já sabiam do romance entre Paul e Emily, coisa que, agora, eles não mais se preocupavam em ocultar.

No dia 31, coube a Mordush promover a festa comemorativa da passagem de ano. Pouco antes da meia noite, com as garrafas já prontas para estourar, Paul acenou para que a orquestra parasse de tocar, foi de mãos dadas com Emily até o microfone, pediu silêncio e anunciou, numa voz firme, seu casamento com Kelly, informando que o evento se realizaria no dia 10 de janeiro, no salão de recepção do instituto. Mordush continuou, dizendo que Emily teria Kelvin Martin e Helen Newman como padrinhos e o general Sherman e esposa seriam as testemunhas dele. E, já agora com a voz ligeiramente embargada, revelou ainda que seu grande amigo, Tom Kennedy, viria de Coral Gables para o evento. Logo a seguir, a orquestra entoou o tradicional "For the Sake of Old Long Times", as rolhas das garrafas de champanhe pipocaram e, entre "vivas" e abraços, Paul e Emily trocaram um demorado beijo, no exato momento em que os ponteiros dos relógios indicavam a virada do calendário para um novo ano.

 

***

Às 11 horas do dia 10 de janeiro, diante do juiz de paz Anthony Lake, dos padrinhos, dos demais membros do projeto e de Tom Kennedy, Paul Mordush e Emily Kelly tornaram-se marido e mulher. O casal teve uma curta lua de mel: cinco dias na Ilha Catalina, ao largo da costa sul da Califórnia. Depois, regressaram ao instituto e mergulharam nos intensos preparativos para a missão maior do "Time for Angels". Faltavam menos de quatro meses para o "Carl Sagan" decolar do Mojave, com destino à Alemanha de Adolf Hitler.

***

No dia 23 de março de 2006, pela manhã, reuniram-se, no gabinete do diretor científico: Paul, Emily, Bruce, Steve e Kelvin, o "expert" em informática William Costner e o matemático Richard Peck. Esse dois últimos trazendo os cálculos referentes ao tempo que o "Carl Sagan" iria levar para se deslocar do Mojave às proximidades do "Bunker"em Berlim e o momento exato em que essa decolagem deveria acontecer, para chegar no seu objetivo no mommento pré-estabelecido. ou seja, às dezoito horas e trinta minutos do dia 26 de abril de 1945. O matemático tomou a palavra:

- Professor - disse ele, dirigindo-se a Mordush - os cálculos foram feitos e refeitos n vezes nos computadores e os resultados foram sempre os mesmos.

- Muito bem, Richard, quais são as conclusões?

- O tempo de vôo do módulo, em estado de desmaterialização, será de 26 horas, 05 minutos, 12 segundos e 910 milésimos de segundo. E, para colocar o "Carl Sagan" perto da Chancelaria, às 18:30 horas de 26 de abril de 1945, ele deverá decolar da nossa naveporto, precisamente às 12:30:12.910 do próximo 25 de abril.

- Qual a margem de erro ? - indagou Martin.

-Progamamos a rematerialização para acontecer a 250 metros de altitude, num ponto situado a 200 metros ao norte da Chancelaria. A margem de erro é da ordem de 180 metros em qualquer direção do compasso. Ou seja, você pode reaparecer em qualque local dentro de um círculo, tendo esse ponto como centro e um raio de 180 metros.

- O que significa que o módulo pode surgir entre 20 e 380 metros de distância da Chancelaria. Certo?

- Certo.E aí cabe a você manobra-lo para aterrizar numa área que, naquele momento, lhe pareça o mais adequado e seguro.

***

Cinco dias antes da data da partida do módulo, na parte da manhã, o mesmo grupo se reuniu no gabinete, contando agora, também, com a presença de Jonas Gelber e Peter Gray. Havia alguns pontos essenciais a serem discutidos. O primeiro deles era o tempocelular, indispensável para que Steve se comunicasse com Martin, afim de avisa-lo para ir buscá-lo. A hora e o local seriam determinados pelo próprio Kleist, em função da situação em que se encontrasse. A questão formulada foi a seguinte: como evitar que o aparelho fosse descoberto pelos nazistas? Gelder tomou a palavra:

- Steve, a sua justificativa para entrar no Bunker será de que você é um emissário enviado pelo general Wenk, para informar o Fuhrer sobre a situação do décimo-segundo exército e das possibilidades deste avançar até Berlim para deter a ofensiva russa. Ninguem que não seja do círculo íntimo de Hitler, pode se aproximar dele, sem ser rigorosamente revistado. Refletí muito sobre esse assunto e cheguei a uma conclusão, a qual desejo submeter à apreciação dos presentes. Em primeiro lugar, acho que o tempocelular deve ser escondido em um fundo falso na maleta, em que você estará levando roupas sobressalentes. Depois, sugiro que, quando chegar ao Bunker, de um jeito de não ser levado imediatamente à presença do Fuhrer. Alegue cansaço, dor de barriga, qualquer coisa que lhe permita deixar a maleta de mão em um local onde possa recuperá-la após o seu encontro com Hitler. Assim, quando você for revistado, o aparelho não será encontrado. Em relação à maleta, como não estará com você quando for falar com o Fuhrer, ela vai passar, se muito, por uma revista perfunctória. Ainda porque, dada a crítica situação do pessoal no "Bunker", você, como emissário de Wenck, será muito bem acolhido, já que seu comandante é a última esperança deles de se livrarem dos soviéticos. O que acham ?

Com exceção de Steve, os presentes à reunião nunca tinham tido oportunidade de ouvir Gelder se expressar sobre alguma idéia, já que ele passava o tempo se dedicando a tornar Kleist familiarizado com a história e os costumes da Alemanha Nazista. O lúcido raciocínio do professor foi uma agradável surpresa. Paul respondeu por todos:

- Sua idéia é excelente, Gelder. Estou seguro que o Takeo cuidará de criar um fundo falso na maleta, de forma a que não seja facilmente descoberto.

Gray pediu a palavra.

- Trouxe comigo algo que poderá ser de muita utilidade para o Steve, quando ele estiver no Bunker. Chama-se WSA, sigla para "wireless sound amplifier" - amplificador de som sem fio.

Fez uma pausa e retirou do bolso dois pequenos objetos: um deles era bastante diminuto, não maior que um botão de camisa. O outro era uma peça a ser colocada dentro do ouvido.

Retomou a explicação:

- Este objeto redondo é um potente amplificador de som, feito de uma liga de cobre e titânio. Tem duas faces. Uma é rugosa e adere à qualquer superficie sobre a qual seja colocada. A outra é lisa e elastica e, quando comprimida, inicia a amplificacão do som, o qual é transmitido direta e exclusivamente à peça auricular. .

Voltou-se para Steve:

- Quando você estiver de um lado de uma parede e quiser escutar o que está sendo dito do outro, basta colocar o botão na parede em questão, com a parte áspera virada para ela e pressionar, ligeiramente, a parte lisa. Através da peça colocada no ouvido, escutará, nitidamente, o que se passa do outro lado, até uma distância de três metros. Vou colocar o WSA, junto com o tempocelular, no fundo falso da maleta que você irá levar.

Paul elogiou Peter pela idéia e pela construção do WSA. Em seguida, passaram ao segundo ponto: a tática que Kleist deveria usar para aguardar a chegada de Hanna, sem despertar suspeitas.

- Você vai ter de ficar rondando a entrada da Chancelaria até ela aparecer.- disse Mordush, dirigindo-se a Steve - Já pensou no que vai dizer se um dos SS que guardam o abrigo lhe perguntar quem você é e, depois, indagar porque está do lado de fora, em vez de entrar para ir logo falar com o Fuhrer?

- Sim, Professor, - respondeu Kleist com sua costumeira serenidade - essa possibilidade já me ocorreu. Como também acho ter encontrado uma solução para ela. Direi o seguinte para o tal SS: "Meu caro, o que tenho para relatar ao nosso Fuhrer é algo que, certamente, ele não vai gostar de ouvir. Estou aqui refletindo na melhor maneira de expor a situação, sem deixá-lo demasiadamente preocupado. Sabe como é, não sabe? Dourar a pílula". Ou alguma coisa parecida.

Paul fitou Steve longamente e perguntou:

- É incrivel, Steve, parece que nada consegue alterar sua tranquilidade.

Kleist sorriu e retrucou, pausadamente.

- É verdade, Diretor. Só que, se eu não fosse assim, considerando as situações com que já me deparei na vida, não estaria agora, aqui, falando com o senhor.

Paul respirou fundo, consultou o relógio e anunciou que o terceiro e último ponto a ser discutido ficaria para depois do almoço e que desejava que todo o "staff" científico se fizesse presente.

*****

Capítulo 24

A reunião foi retomada às 14 horas, com a presença de todos. Mordush foi direto ao assunto:

- A questão a ser debatida é a seguinte: aonde deverá permanecer o módulo, até que Steve esteja pronto para regressar? A meu ver existem três possibilidades e temos de decidir, hoje, qual a que oferece masi segurnça, tanto para a nave quanto para Martin. A primeira seria deixar a nave sobrevoando sobre Berlim. Bruce, por favor, exponha os prós e contras dessa opção.

- Bem - começou Richardson - se a nave puder se manter, pelo tempo necessário, que avalio será entre 24 e 72 horas, numa altitude de, digamos, vinte a trinta mil metros, portanto praticamente invisível para quem estiver em terra e, principalmente, numa altura inalcansável para a artilharia e os caças daquela época, a opção de ficar pairando sobre Berlim deve ser seriamente considerada. Mas, como não sei isso é tecnicamente viável, pediria ao professor Yamazata que se manifestasse.

Takeo se ergueu da cadeira, pigarreou e disse:

- Essa hipótese é absolutamente inviável. Nossas duas naves foram construidas para viajar no tempo, em estado de "desmaterialização". Evidentemente, a "Carl Sagan" também pode ser manobrada em condições idênticas as de um helicótero ou de um "Harriet". Mas sua estrutura, quando ela se encontra "materializada," tem uma série de limitações. Eu não me arriscaria a elevá-la a mais de dez mil metros e, muito menos, mantê-la voando ou parada no espaço por mais de uma hora. Logo...

Yamazata deixou a conclusão da frase em suspenso e se sentou. Bruce encerrou a questão:

- Como ninguém sabe melhor que o Takeo o que o módulo pode ou não realizar, essa opção está descartada.

Paul retomou a palavra:

- Muito bem. A segunda opção seria Martin regressar ao Mojave e aguardar a chamada de Steve pelo tempocelular, para então retornar à Berlim de 1945.

Emily ergueu a mão, pedindo para falar. Takeo também tinha se erguido, com uma expressão aflita na fisionomia. Mordush sorriu e disse:

- As damas têm sempre prioridade.

Kelly esboçou um ar de brincadeira, mas, logo em seguida, adotou uma postura séria.

- Se fizermos isso, estaremos colocando seriamente em risco a vida de Steve., Suponhamos que ele complete sua missão e encontre um local adequado para o módulo descer a fim de apanhá-lo, nas últimas horas da madrugada de 28 ou 29 de abril e acione o tempocelular. Eu pergunto ao Dr. Gray, nosso "ezpert" em telecomunicações e criador do aparelho: quando tempo decorreria até que a chamada do major Kleist chegasse até nós?

Peter se ergueu e começou:

- Bem, pelo nosso sistema, o som é transformado em um certo tipo de micro onda que, além de ter de percorrer a distância entre Berlim e o Mojave, o que levaria não mais que alguns centésimos de segunfo, teria, também, de transpor um tempo de sessenta anos, de forma similar ao dos módulos, porém numa velocidade três vezes menor. Vejamos...

Ele fez uma pausa, tirou uma calculadora do bolso e começou a fazer contas, debaixo do absoluto silêncio que havia se instalado no recinto. Quando terminou, Gray lançou um olhar desanimado para Emily e disse:

- Um pouco mais que 78 horas.

Kelly acrescentou:

- Se somarmos as 26 horas que o "Carl Sagan" levaria para ir até à capital alemã do ano de 1945, teremos 104 horas, ou seja, o módulo chegaria no dia 03 de maio, quando toda Berlim já estaria totalmente ocupada pelas tropas soviéticas. Será que Martin encontraria um lugar seguro para descer? Se encontrasse, estaria Steve no local para recebê-lo? Ou disfarçado de civil e escondido em algum canto. E, se assim fosse, qual seria o seu futuro num mundo e numa época a que não pertence?. Isto é, se não estivesse ferido, morto, ou capturado.

A colocação de Emily teve uma conotação tão dramática que até o inabalável Kleist piscou os olhos várias vezes.

Kelly, talvez se dando conta da dramaticidade que suas palavras haviam criado, corou, alisou os cabelos e, de cabeça baixa, foi se sentar ao lado do marido. Por algum tempo, ninguém disse nada. Até Takeo que tinha se erguido para despejar suas objeções à proposta, resolveu não dizer nada e se sentou. Finalmente Mordush rompeu o silêncio:

- Bem, a segunda opção também foi para o espaço. Portanto, só nos resta a terceira. A nave continua no mesmo tempo no passado, mas estacionada em um local onde haverá um mínimo de possibilidade de ser vista. Refiro-me a uma certa zona noPolo Norte. Ontem, matutando sobre as possibilidades que poderímos vir a ter, diante do problema da permanência do módulo durante a missão, telefonei para um geólogo, amigo de muitos anos e que já esteve no Ártico inúmeras vezes. Disse-lhe que a Força Aerea pretendia estudar as condições climáticas do Polo Norte e idaguei se ele poderia apontar um local êrmo e seguro, onde se pudesse montar uma base para pesquisas. Horas depois ele me mandou um fax detalhando o local, inclusive suas coordenadas em latitude e longitude. Antes de vir para cá, conversei a respeito com o general Sherman e - Paul olhou para o relógio - a esta hora, um avião da Força Aérea, estacionado numa base no Alaska, deve estar sobrevoando e fotografando o local em questão. Se confirmado tratar-se do lugar ideal, é para lá que Martin levará o "Carl Sagan" e esperará a chamada de Steve. E antes que vocês, argutos como são, perguntem se, há sessenta anos atráz o local era como hoje se apresenta, acho poder lhes garantir que sim. Este foi um detalhe que meu amigo geólogo me passou, para provar a estabilidade da área que me indicava. "Paul,"- disse ele- "o lugar é tão geologicamente estável que, tendo ido ao Ártico no início deste ano, não notei nenhuma diferença em relação ao que constatei, quando la estive, pela primeira vez, em 1948".

Mordush fez uma breve pausa, percorreu a sala com o olhar e indagou:

- Alguma pergunta?

Não houve. Ele escutou apenas uma voz muito conhecida falar ao pé do seu ouvido:

- Querido, porque você não me contou nada disso ?

Paul sorriu, se ergueu e disse:

Meus amigos, depois de tantos debates e das emoções porque hoje passamos neste recinto, creio que um bom descanso cairia bem. Obrigado a todos pela presença. A reunião está encerrada.

*****

Capítulo 25

Na noite do dia 22 de abril, Gelder e Kleist foram para uma sala, onde havia um retroprojetor e uma tela. Jonas colocou uma primeira transparência no aparelho e uma imagem apareceu na tela.

- O círculo vermelho no diagrama mostra a localização do "Bunker" na cidade de Berlim. Está localizado abaixo do jardim da Chancelaria, a qual fica um pouco ao sul do Portão de Bradenburg, na Wilhelmstrasse 77. Guarde bem a posição, pois deverá ser nos arredores desse lugar que você procurará achar o local para Martin ir lhe buscar. Se você se afastar demais dessa área, correrá o risco de ser atingido ou capturado pelos russos. Não se esqueça que, no dia 30, a Chancelaria já estava totalmente cercada e os soviéticos avançavam rapidamente para ocupá-la.

Em seguida, Jonas projetou uma segunda imagem.

- Este é um diagrama, mostrando, em corte horizontal, o interior do Bunker - disse o historiador. - Estude-o até que fique perfeitamente retido na sua memória.

Gelder pegou uma ponteira, apontou-a para o local designado como sendo os aposentos de Eva Braun e prosseguiu:

- Se, realmente, os sósias do ditador e de sua mulher foram trazidos para o abrigo, este será o lugar mais provável aonde eles teriam ficado. E, neste caso, Eva teria se tranferido para os aposentos do Fuhrer. Mas veja bem, Kleist, trata-se de um palpite meu, considerando que não era dado a ninguém, com exceção de Hitler e Magda Goebbels, ir aos aposentos da Fraulein Braun, sem ser convidado por ela. Portanto, o local ideal para manter os sósias longe das vistas dos que se encontravam no "Bunker". Mas, repito, trata-se apenas de um palpite. Na verdade, os "doppelgangers" poderiam ter sido escondidos em qualquer outra parte.Fique discretamente atento e talvez consiga vê-los ou ouvir suas vozes, Isto é, se, de fato, eles existiram e estiveram lá.

***

No dia 24 de abril a tensão entre os cientistas havia quase atingido o limite tolerável. Todos ansiavam que chegasse logo a hora da missão começar. O general Sherman tinha ido na véspera a Washington para levar ao Presidente um relatório detalhado da missão, regressando na mesma noite. Paul, preocupado com o fato de que a nave e seus dois tripulantes teriam de passar por um tempo de "desmaterialização" muito maior do que fora até agora testado, chamou Takeo e Helen ao gabinete para expor-lhes sua preocupação. O engenheiro disse acreditar que tudo sairia bem, já que as simulações de risco estrutural do módulo apontavam um índice de segurança da ordem de 94.8 %.. Ou seja, a chance da nave deixar de se "rematerializar", na ida ou na volta, era inferior a 6%.

- Eu ficaria mais tranquilo se o grau de segurança fosse 100% - disse Mordush.

Takeo limitou-se a sacudir os ombros. Paul voltou-se para a doutora:

- Helen...

A médica-psicóloga expôs seu ponto de vista:

- Pela análise dos dados de que já dispomos, tudo indica que o corpo humano não difere da máquina, no que concerne os processos de "desmaterialização" e "rematerialização". Quanto ao fato de Kelvin e Steve "viajarem" por um tempo muito superior àqueles em que foram testados, isso não me preocupa. Embora não se possa saber ainda, com total certeza, se ocorrerão, ou não, efeitos deletórios retardados sobre a mente, estou apostando que, tão logo se dê a "rematerialização", eles despertarão plenamente alertas, com a sensação de quem acabou de sair de um longo e profundo sono.

- Amém ! - foi tudo que Mordush conseguiu falar de imediato. Ele se pôs pensativo por alguns segundos e, finalmente, disse:

- Takeo, Helen... vocês me deixaram mais confiante. Muito obrigado aos dois.

***

Naquela noite, Paul não conseguiu conciliar o sono. Ele e Emily tinhiam ido se deitar pouco antes das onze. Já passava de uma da madrugada e, dormir... nada. Emily, que havia conseguido adormecer, mas não profundamente, acordou e viu o marido de olhos abertos, fixos no teto. Colou o corpo no dele e suas mãos começaram a acaricia-lo, suavemente. Mordush foi, aos poucos, entrando em estado de ereção. Kelly puxou-o para cima dela e disse, maciamente:

- Venha, faça amor comigo. Garanto que depois o sono vem.

*****

Capítulo 26

25 de abril de 2005

O dia "D". O módulo iria decolar da naveporto do instituto, precisamente às 12:30:12.910. Lá pelas sete horas, começaram os preparativos. Os engenheiros, matemáticos, informaticos e especialistas em comunicação revisavam cuidadosamente a estrutura e as diferentes funções do "Carl Sagan".Ao mesmo tempo, Steve e Kleist eram submetidos, por Helen Newman, a uma última e rigorosa avaliação clínica e psicológica. Às dez horas, Takeo e a médica foram ao gabinete de Mordush para lhe dar o sinal verde.

- Tudo OK com o módulo - afirmou Yamazata.

- Steve e Kelvin estão em perfeitas condições clinicas e psicologicamente ajustados e conscientes da importância e das dificuldades da missão. Martin mostra um ligeiro nivel de ansiedade e Kleist continua com a tranquilidade de sempre, achando que está tudo um mar de rosas.

- Faço votos para que ele esteja certo - disse o diretor - Obrigado aos dois.

Eles sairam e Paul deixou o gabinete e foi até ao módulo falar com Martin, o qual estava colocando, sobre o unforme, o traje para vôo espacial.

- Kelvin,- disse ele, colocando a mão paternalmente sobre o ombro do piloto - a dispensa da nave tem alimentos e água suficientes para trinta dias. O tanque de combustível para os jatos que controlam a subida, a descida e a maneabilidade do módulo, quando sob comando manual, está cheio. Para você poder dar algumas voltas a pé, no Ártico, foram colocadas na dispensa roupas próprias para à região polar. Aqui estão as fotos que a Força Aérea tirou do local aonde você deverá ficar estacionado. Ontem, um helicóptero desceu lá e confirmou que a superficie tem uma camada de gelo bastante grossa, Não há o menor risco em você se manter lá pelo tempo que for necessário e poderá regular a temperatura interna da nave como desejar.

Mordush fez uma pausa, tirou do bolso do casaco uma folha de papel e passou-a ao piloto.

- Ai estão as coordenadas, em latitude e longitude, do local no Ártico onde deverá descer. Use o LPD e não terá nenhuma dificuldade. O pessoal do helicóptero cravou um cabo de aço luminoso com a bandeira dos Estados Unidos, bem no centro da área, para lhe servir de guia. Seu tempo de "viajem", de Berlim até o Polo Norte, será de apenas alguns centésimos de segundo. No verso estão as coordenadas do local, em Berlim, aonde você deverá deixar o Steve

Paul fez nova pausa, olhou bem para o homem alto e magro a sua frente, cujo rosto páilido contrastava com o verde profundo dos olhos e concluiu:

- Kelvin, se em algum momento o módulo estiver na iminência de vir a ser captuirado, por quem quer que seja, acione o dispositivo de auto destruição retardada, caia fora e tente alcançar as linhas amerticanas, à oeste da Berlim. Invente alguma explicação para sua presença e procure recomeçar a sua vida. Acho que é só isso, meu rapaz. Alguma pergunta ?

- Não, Professor, acho que já sei tudo que deveria saber.

- Então, boa sorte, Kelvin.

Apertaram as mãos. Mordush deixou a nave e saiu à procura de Steve. Não foi longe. O capitão já se aproximava do "Carl Sagan", trazendo, numa das mãos a maleta e, na outra, um embrulho com o uniforme da Werhmarch e seus adendos. Ele parou diante de Paul e aguardou. O diretor pós a mão no braço do oficial, olhou bem dentro dos olhos serenos e disse:

- Steve, você sabe o quanto essa missão é importante, mas quero que ponha na sua cabeça que sua vida é, para todos nós, muito, muito mais importante. Se existe alguém capaz de entrar naquele maldito "Bunker", deslindar os fatos e sair de lá incólume, esse alguém é você. Mas, se sentir que alguma coisa esta dando errada, caia fora, procure um local seguro para a nave e ligue imediatamente para o Martin. Contudo, se por um desses improváveis azares do acaso, o módulo não aparecer, arrume um jeito de se evadir para as linhas americanas.

Paul calou momentaneamente, encarou o rosto, sempre sereno, de Kleist, e falou:

- E não se deixe levar pela dramaticidade das palavras da minha mulher. De um jeito ou de outro, encontre um novo caminho na sua vida. Terminada a guerra, o mundo voltará a ser um bom lugar para se viver. E você tem muitas décadas a sua frente para desfrutar dele.

Steve apertou a mão que Paul lhe oferecia e disse:

- Fico-lhe grato pelo que acabou de dizer, mas não se preocupe, Diretor. Se algo der errado, eu saberei me safar. Porém, tudo vai sair exatamente como planejamos e, dentro de mais ou menos uma semana, estaremos todos comemorando nossa volta ao Mojave.

Em seguida, Steve virou as costas, para que Mordush não percebesse que seus olhos tinham ficado umidecidos, e caminhou na direção do módulo...

***

A contagem regressiva começou às onze e quarenta e cinco. Na nave, trajando as vestes espacias por cima de seus respectivos e diferentes uniformes, Kelvin e Steve aguardavam, amarrados em seus assentos, o momento da partida. No Centro de Controle, cada responsável por um determinado setor, checava seus próprios computadores. Benito acionara o aquecimento dos propulsores e acompanhava a sua evolução. Takeo observava a vibração da estrutura do módulo. William checava os computadortes encarregados de dirigir cada uma das funções que a nave deveria executar. Helen seguia, atenta, os gráficos que indicavam as funções vitais de Martin e Kleist. Os demais olhavam para o monitor que mostrava a área da decolagem. Às 12:15, Mordush perguntou:

- Takeo ?

O engenheiro levantou o polegar da mão direita e exclamou:

OK!

Em seguida, solicitados por Paul, Benito, William e Helen responderam com o mesmo sinal e a mesma exclamação.

Mordush ligou o microfone que comunicava com a nave e falou:

- Kelvin, faltam menos de cinco minutos. Como estão os controles de bordo ?

- Todos checados e funcionando normalmente - respondeu o piloto.

- Fique atento para acionar a tecla "T " no instante preciso.

- Estou de olhos grudados no marcador de tempo.

Os indicadores de segundos pareciam voar e o dos milésimos de segundos corriam ainda bem mais rápido.

No Centro de Controle, com Emily a seu lado, Paul seguia, super atento, a corrida dos números no seu próprio painel. Às 12:29:30 horas, ele falou, dirigindo-se aos que estavam no módulo:

- Falta menos de um minuto!

O dedo de Kelvin já pousava, de leve, sobre a tecla "T".

Finalmente, apenas o indicador de milésimos de segundo se movimentava, numa velocidade vertiginosa. No exato momento em que ele alcançou 910, Paul exlamou: Agora!. No mesmíssimo instante, Martin comprimiu a tecla "T".

Os que estavam no Centro de Controle, viram, pelo imenso momitor, o "Carl Sagan" se erguer da naveporto, subir velozmente e, logo em seguida, a 250 metros de altura, desaparecer.

A "Operação Berlim" do Projeto "Time for Angels" havia começado, precisamente, às 12 horas, 30 minutos, 12 segundos e 910 milésimos de segundo. Horário da costa oeste norte-americana !

*****

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