DE VOLTA À ALEMANHA DE HITLER

Parte III

Operação Berlim

Capítulo 27

Eles despertaram quase simultaneamente. Em poucos segundos já se encontravam alertas, conscientes de onde deveriam estar e do que iriam fazer. Pela enorme janela de vidro à prova de impacto, Kelvin, munido dos óculos para visão noturna, percebeu que o módulo descia lentamente, numa atmosfera escura e nebulosa, em que à semi-escuridão da noite que começava a cair, juntavam-se nuvens de poeira e fumaça, provenientes de prédios destruídos, alguns dos quais ainda em chamas. Divisou, ao norte, a uma distância de cerca de 300 metros, os contornos sombrios da Chancelaria. Olhou para baixo: nada se movia, nem havia nenhum sinal de vida. Dirigindo-se a Kleist, que, já despojado do traje espacial, segurava a maleta com a mão esquerda e ajustava o quepi com a direita, disse:

- Steve, tudo limpo lá embaixo. A Chancelaria está ao norte, a uns 300 metros. Vou descer a nave até bem perto do solo. Assim que a porta se abrir, caia fora e boa sorte.

Manobrado agora por Martin, o módulo desceu rapidamente e freiou quase rente ao chão. A porta se abriu, Kleist disse:"Até breve", e saltou. A porta se fechou, o "Carl Sagan" subiu como uma flecha e desapareceu do céu berlinense, sem que ninguém tivesse tomado conhecimento da sua existência.

Havia alguns pontos fracamente iluminados na parte da frente da Chancelaria e Steve começou a caminhar, lentamente, na direção deles. Avançou até de cerca de dez metros do seu destino, quando um holofote se acendeu, cegando-o momentatneamente. Kleist pôs uma das mãos diante dos olhos para protege-los da súbita e intensa claridade, quando uma voz grave se fez ouvir:

- Halt!

Ele parou. A voz voltou:

- Identifique-se.

- Sou o major Kleist do estado-maior do general Wenck e trago uma mensagem a ser passada diretamente ao Fuhrer.

O nome do general funcionou como uma palavra mágica, uma vez que o exército que comandava, representava a única esperança de libertação da capital alemã, já quase totalmente cercada pelas tropas soviéticas. O holofote se apagou e um vulto, com uma lanterna na mão, acercou-se de Steve. Este voltou a enxergar e se deparou com um homem alto e forte, trajando o uniforme da SS e as insígnias de sargento. Este reparou na patente do major, fez a saudação nazista e disse, agora num tom polido:

- Herr Major, posso ver sua identificação?

Sem responder, Kleist entregou-lhe seu cartão de identidade.

O sargento iluminou-o com a lanterna, olhou cuidadosamente e, em seguida, devolveu o documento, bateu continência e disse:

Por favor, senhor, queira me acompanhar. Vou levá-lo ao capitão Meyer, o chefe da guarda.

Caminharam para a direita. O major acompanhou o sargento por uma trilha de pedra que atravessava o jardim, ao lado da Chancelaria, e terminava na frente de uma guarita, atrás da qual havia um muro de cimento, circundando uma porta de aço. Steve concluiu que ela deveria dar acesso ao abrigo subterrãneo.

Um oficial SS, de media estatura, bem apessoado, saiu de dentro da casinhola. O sargento disse-lhe alguma coisa ao ouvido. Ele ajeitou o dolmã, dirigiu-se ao recém chegado. ergueu o braço direito e exclamou:

- Heil Hitler, Major. Sou o capitão Fritz Meyer, comandante da guarda da Chancelaria. Em que posso servi-lo?

Steve devolveu a saudação e falou:

- Hauptsturmfuhrer, sou o major Hans Kleist do estado-maior do décimo-segundo exército e trago uma mensagem do general Wenck, a ser passada diretamente ao Fuhrer.

O capitão virou-se para o sargento:

- Ligue para o general Krebs, passe-lhe essa informação e solicite autorização para que o major possa ser conduzido ao Bunker.

Depois, voltou-se de novo para Steve:

- Queira aguardar um pouco, Major.

Steve tinha de ganhar tempo para esperar a chegada de Hanna e von Greim.

- Não estou com pressa, Hauptsturmfuhrer. Na verdade, preferia esperar um pouco, para por em ordem as idéias. O que tenho a dizer aoFuhrer pode não ser exatamente o que ele gostaria de ouvir. Assim, estou pensando na melhor maneira de dar meu recado de modo a perturbá-lo o mínimo possível.

- Está certo. Mas diga-me,Major, - havia um toque de desconfiança na voz do oficial SS - como conseguiu romper o cerco soviëtico ?

Uma pergunta esperada. Uma mentira preparada...

- O círculo em torno de Berlim não está totalmente fechado. Existe um estreito corredor, a sul-do-oeste da capital, onde os russos ainda não chegaram, Um blindado deixou-me a uns quatrocentos metros daqui e tratou de voltar logo... antes que o círculo se feche. O que pode ocorrer à qualquer momento.

O capitão pareceu ter-se dado por satisfeito com a resposta e, tomando Steve pelo braço, conduziu-o para um canto mais adiante, para evitar serem ouvidos pelo soldado que guardava a entrada do abrigo.

- As coisas estão muito ruins, não estão, Major? - havia um misto de curiosidade e receio na voz do oficial SS.

- Em relação ao décimo-segundo exército, eu diria que a situação está ainda um tanto indefinida...

O outro insistiu:

- Com isso o senhor está querendo dizer que, possivelmente, Wenck não conseguirá alcançar Berlim a tempo de nos salvar dos russos?

Kleist premiou o capitão com um sorriso amarelo e disse:

- Sinto muito, Hauptsturmfuhrer, mas, quanto aos detalhes, somente poderei fornece-los exclusivamente ao nosso Fuhrer. Essas são as minhas ordens.

- Perdão, Major, eu não...

A frase foi interrompida por dois acontecimentos simultâneos: o sargento voltando com a resposta do general Krebs e o ruido de um carro se aproximando. O holofote voltou a ser aceso e o soldado que o controlava, exclamou:

- Um veículo com a capota levantada, dirigido por um civil, trazendo, no banco de traz, um homem e uma mulher uniformizados.

O capitão fez um gesto para que o sargento esperasse e falou, para ninguém em particular:

- Devem ser o general von Greim e Fraulein Reitsch. Eles estão sendo aguardados.

O holofote se apagou e, no ambiente fracamente iluminado, Steve viu um Opel parar a poucos metros de onde ele estava. Uma mulher loura e baixinha, vestindo o uniforme azul- acinzentado da Luftwaff, por baixo de um blusão de couro marrom, desceu rapidamente do carro e disse, com autoridade, para dois SS que se aproximavam dela:

- Sou Hanna Reitsch. O general Greim está ferido no pé. Venham carregá-lo e levem-no direto para o Bunker. O Fuhrer está a nossa espera.

E, sem se dirigir a ninguém, a esfuziante loura entrou no abrigo, passando como uma bala pela porta, a qual tinha sido rapidamente aberta pelo soldado que a guardava. Seguindo-a, à duras penas, vinham dois SS amparando o general.

Meyer olhou para o major e disse:

- Uf, Fraulein Reisch é sempre assim: um foquete. Mas Herr Hitler a adora. Até já lhe pregou no peito duas cruzes-de-ferro.

Steve reparou que o Opel, que já ia se afastando do local, não havia trazido mais ninguém. Assim, a hipótese de que os sósias tivessem vindo com Hanna e von Greim, estava definitivamente descartada. Ele virou-se para o capitão e disse:

- Estou impressionado, Hauptsturmfuhrer.

O sargento se acercou deles e falou:

- O general Krebs autorizou a entrada do major.

- Muito bem, sargento. - disse o capitão- Leve o major até o Beck. - e voltando-se para Steve, concluiu - Boa sorte.

***

Entraram no abrigo, desceram quatro degraus de uma escada de cimento e Kleist se viu numa enorme sala, repleta de aparelhos de rádio, transmissores e receptores, dezenas de telefones e o que parecia ser uma máquina de telégrafo. Estava num dos escritórios da Deutsches Nachrichtenburo, a Agência de Notícias Oficial Alemã, que também funcionava como o centro de comunicações do abrigo com o exterior. Um tenente SS, alto e magro, de aparência bastante jovem, certamente já tendo tomado conhecimento de quem era o recém-chegado, fez continência e se apresentou:

- Major Kleist, eu sou o untersturmfuhrer Beck.

Olhou para o coldre preso ao cinto do uniforme de Steve e disse:

- Por favor, queira deixar comigo a sua pistola. A ninguem é permitido entrar armado no Bunker. Quando o senhor estiver para deixar o abrigo, ela lhe será devolvida.

Sem fazer qualquer comentário, Kleist entregou a Luger ao tenente. A um sinal deste, um enorme sargento, também da SS, se aproximou. Beck disse:

- Perdoe-me, mas teremos também de revistar o senhor e a maleta. É a praxe.

Steve acenou positivamente. O gigante correu as mãos pelo seu corpo, delicada, mas minuciosamente. Depois, pediu licença, abriu a maleta, afastou as peças de roupa, vistoriou por alto o interior, fechou o trinco e devolveu a pequena mala ao seu dono. Em seguida, fez um gesto positivo para o tenente, estendeu o braço, disse: "Heil Hitler" e se foi.

Beck perguntou:

- Deseja descer logo para o Bunker?

Steve fez um gesto negativo com a cabeça e explicou:

- Untersturmfuhrer, talvez eu tenha de ficar aqui no abrigo por uns dois ou três dias. Vai depender de uma decisão do Fuhrer. Assim, apreciaria se o senhor me levasse a um local onde eu possa me alojar durante minha estadia. Por outro lado, como fiz uma viagem difícil e fatigante, do quartel-general do décimo-segundo exército até aqui, gostaria de guardar minha maleta e, pelo menos, passar uma água no rosto, antes de ir me encontrar com o Chefe.

- Entendo - disse o tenente - Como o senhor deve imaginar, as coisas aqui estão meio confusas e muito desorganizadas. Eu o acompanharei ao andar de baixo, onde há vários alojamentos, alguns destinados exclusivamente a oficiais. Vou colocá-lo em um deles. O senhor disporá de uma cama e de um pequeno armário, para guardar seus pertences. Existe um banheiro com pias e chuveiros no final do corredor. Um dos meus soldados ficará esperando. Quando o senhor estiver pronto, ele o levará até o Reichsleiter Martin Bormann, que o conduzirá ao local aonde o Fuhrer deverá estar.

- Excelente - disse Steve - o senhor está sendo muito atencioso e eu lhe fico grato por isso. Vamos ?

***

Cerca de quinze minutos depois, já tendo sido apresentado ao dormitório que lhe fora destinado e trancado, à chave, a maleta num dos armários, o "major" sentou-se cama e se pôs a concatenar a ideias para criar um relato convincente, capaz de ludibriar Hitler. Sabia que o general Wenck estava, agora, empenhado, com seu colega Busse, em manter, com suas tropas, um corredor de isolamento, através do qual milhares de civis alemães estavam fugindo dos russos, em direção às linhas americanas, cujas tropas permaneciam paradas na margem oposta do rio Elba. E que depois, impossibilitados de marchar sobre Berlim, tamanha era a superioridade dos exércitos soviéticos de Koniev e Zhukov, interpondo-se entre eles e a capital do Reich, recuariam para oeste e se renderiam aos aliados. Teria de mentir para o Fuhrer, a fim de garantir a permanência dele, Steve, no Bunker, pelo tempo suficiente para descobrir indícios ou evidências de que Hitler e Eva iriam escapar de Berlim e que seriam seus sósias que morreriam no lugar deles. Depois ele, Kleist, tentaria fugir pela saída de emergência, que levava aos jardins da Chancelaria e, de lá, encontrar um local seguro para que o "Carl Sagan" viesse lhe recolher.

***

Informou ao soldado que o aguardava, que estava pronto. Caminharam até o final do longo corredor, onde havia uma escada, em forma de espiral. Desceram por ela e chegaram a um novo corredor, muito mais amplo, parando diante da segunda sala à esquerda. O soldado abriu a porta e entraram. Era uma espécie de centro telefônico. À esquerda, havia outra porta, onde um cabo da SS montava guarda. O soldado se foi e, em seguida, o cabo perguntou a Steve:

- Major Kleist?

- Sim.

- Desculpe, senhor, mas terei de revistá-lo.

Steve não disse nada e o cabo o revistou, um tanto perfunctoriamente, palpando seu corpo para se certificar que o "major" estava desarmado. Satisfeito, abriu a porta e sinalizou para que Kleist entrasse. Steve entrou. Um homem de média estatura, vestindo um uniforme das SS, desprovido de insígnias ou medalhas, semi-calvo, robusto, quase sem pescoço e com um olhar semelhante ao de uma ave de rapina, contornou a mesa atrás da qual estivera sentado, adiantou-se com a mão estendida e disse:

- Seja benvindo, Major. Sou Martin Bormann, secretário particular do Fuhrer.

Steve apertou a mão da "eminência parda" do Terceiro Reich e falou:

- Muito prazer, Herr Reichsleiter.

Bormann pigarreou, encarou Steve e disse, numa voz inusitadamente macia, que contrastava com a dureza da fisionomia:

- Meu caro Major, o Fuhrer anda por demais deprimido, a todo instante falando em suicídio. Ele está bastante ansioso para conhecer as intenções do general Wenck, em quem deposita a única esperença de salvar Berlim. Se o que o senhor tiver para contar for muito grave, sugiro-lhe que escolha, cuidadosamente, suas palavras, de modo a preocupá-lo o mínimo possível.

Se Kleist não soubesse quão pérfido Bormann era na realidade, pensaria que ele estava, de fato, preocupado em evitar que Hitler viesse a passar por mais uma decepção e sofrimento. Mas, insinuando ao "major" que talvez fosse melhor dissimular a verdade, não estaria a "eminência parda" achando que a mentira pudesse servir, de alguma forma, a um de seus planos diabólicos ? O que estaria Bormann tramando naquelas últimas horas do império de Hitler ? A fuga que acabou por tentar e que, passados tantos anos, ninguém sabia, ao certo, se fora ou não bem sucedida ?

Steve recuou do devaneio e encarou Bormann, o qual, com os olhos de predador fixos nos do "major", aguardava uma resposta para a sua sugestão.

- Fique tranquilo, Reichsleiter, o que tenho a dizer ao Fuhrer o deixará mais animado e esperançoso.

Os lábios de Martin Bormann se abriram num simulacro de sorriso.

- Excelente, Major, excelente.

Pôs a mão, delicadamente, no braço de Kleist e disse:

- Venha comigo, o Fuhrer está a nossa espera.

*****

Capítulo 28

Entram no salão de conferência. O Fuhrer, de calças pretas e túnica cinza, está debruçado sobre um mapa, em uma mesa no centro do recinto. Steve, relembrando as fotos vistas no Mojave, reconhece os que ladeiam Hitler: a esquerda, o General Krebs; à direita, o General Burgdorf e, logo atrás deste, a esfusiante e, agora ele o percebe, atraente Hanna Reitsch. Enquanto Bormann se encaminha na direção do Fuhrer, Kleist passeia o olhar ao derredor e verifica que mais de vinte pessoas encontram-se no salão: SS de várias patentes, dois coronéis da Werhmacht, quatro ou cinco oficiais da Lutwaffe, Heinz Linge, Otto Gunsche, vários ordenanças de menor escalão, secretárias - entre elas Frau Junge - e até um copeiro. Bormann fala no ouvido de Hitler. Este se ergue, olha na direção de Steve, contorna a mesa e vem ao seu encontro. O "major" dá dois passos adiante e se depara frente a frente com o Fuhrer. Em uma fração de segundo, observa o homem: aparência frágil e envelhecida, mãos trêmulas, rosto encovado, tudo indicando decadência física. Mas nos olhos - os famosos olhos azuis - vê brilho, força e determinação ! Kleist apruma o corpo, junta os calcanhares e estende o braço direito. Hitler ignora a saudação e diz:

- Seja benvindo.

Em seguida, a voz adquire um tom ansioso:

- Wenck, Major, onde se encontra ele agora? Quando suas tropas chegarão à Berlim ?

Steve olha ao derredor e depois seu olhar se volta para a face de Hitler. Ele diz com firmeza:

- Mein Fuhrer, o que tenho a relatar é por demais reservado para ser dito diante de tanta gente.

Hitler endurece a fisionomia e dá a impressão de que vai contestar. Porém, rapidamente, sua expressão relaxa e ele responde:

- Correto, Major. Venha, conversaremos na sala de mapas.

O Fuhrer faz sinal para que Bormann e Krebs o acompanhem e, seguido de Steve, encaminha-se para a porta. Mas antes de atingi-la, vira-se e diz:

- Venha conosco, Hanna. Não temos segredos para você.

Um SS abre a porta da sala de mapas e os cinco entram. Hitler dirige-se a Kleist e diz, numa voz inesperadamente polida:

- Antes do relato, Major, as apresentações: General Krebs...Fraulein Reitsch. O Reichsleiter Bormann o senhor já conhece.

Steve bate continência para o general e curva o corpo ligeiramente, antes de apertar a mão de Hanna. Hitler deixa de lado a polidez, não convida ninguém a se sentar e, dirigindo-se à uma das mesas, repleta de mapas, encara Steve e ordena, num tom grave:

- Muito bem, Major, pode começar seu relatório.

Kleist olha para o relógio: 21:15. Respira fundo e escolhe as palavras, cuidadosamente:

- Mein Fuhrer, - diz ele, usando um dos mapas para ilustrar o relato - unidades avançadas dos XII e IX Exércitos, fizeram junção hoje, em torno das onze horas. Algum tempo depois, os generais Wenck e Busse se encontraram e traçaram um plano para marcharem sobre Berlim, usando, como ponta de lança, o XX Corpo Blindado do XII Exército, o qual se encontra um pouco ao sul de Postdam. Como os americanos estancaram no Elba, o resto do XII Exército está se deslocando para leste, enquanto as outras unidades do Exército de Busse estão vindo em direção contrária. O general Wenck está tentando contatar o general Manteufel, para que ele, vindo do nordeste, lance, numa manobra diversionista, uma ofensiva contra as forças de Koniev, a fim de mantê-lo ocupado, enquanto todas as unidades dos Exércitos Wenck e Busse se unem ao XX Corpo, para, numa rápida ação de surpresa, romper a muralha soviética ao norte de Postdam e alcançar Berlim. Este é, em síntese, o plano.

Steve cala, esperando a reação de Hitler. Os olhos do Fuhrer brilham de excitação. Ele acabara de escutar tudo que, há dias, deseja ouvir. Sem ocultar a emoção na voz, pergunta, ansioso:

-Quando acha que nos alcançarão, Major?

Kleist simula fazer uns cálculos mentais por alguns segundos e, depois, responde:

- Se tudo der certo, até o início da madrugada do dia 29 as primeiras Panzers deverão estar penetrando nos subúrbios ao sul da capital.

Hitler esfrega as mãos e exclama:

- Eu sabia, eu sabia! Está vendo Krebs? Ainda ontem você e Burgdorf buscavam me convencer de que Wenck não ousaria tentar chegar até aqui. Vá imediatamente procurar Weidling, para lhe contar as boas novas.

O general faz a saudação nazista e deixa a sala. Hitler prossegue:

- Quanto a você, Bormann, dê conhecimento a todos que estão no Bunker que a salvação está a caminho.

- Yawol, mein Fuhrer - a "eminência parda" faz uma pausa e sugere:

- O que acha de mandar Goebbels anunciar a vinda de Wenck pela rádio Berlim? Assim daríamos uma injeção de ânimo nos berlinenses e eles se mostrariam mais dispostos a participar da batalha pela capital...

Hitler dá um soco na mesa.

- Bormann, você é um excelente burocrata, mas seria um total fracasso como estrategista militar. Não passa por essa sua cabeça dura que os russos captariam a notícia? E sabe o que iria acontecer? Zhukov mandaria blindados e aviões para ajudar Koniev. E Wenck, além de se ver diante de um inimigo fortalecido, perderia a vantagem da surpresa. A propósito, faça saber a todos que a notícia não pode se espalhar para fora do abrigo. Quem descumprir esta ordem, será sumariamente fuzilado.

E, diante de um Bormann com o rosto mais vermelho que um pimentão, Hitler encerra a conversa:

- E agora vá fazer o que determinei. No caminho, diga a Linge que eu desejo vê-lo aqui, à sós, dentro de meia hora.

- Mein Fuhrer, peço desculpa pela infeliz sugestão.

E com essas palavras, a "eminência parda"se escafede.

Hitler volta-se para Steve:

- Major, obrigado por nos ter devolvido a esperança. O senhor deve estar muito cansado, Sugiro que se recolha ao alojamento e descanse.

Para bom entendedor, meia palavra basta. Kleist entende que está sendo dispensado. Faz uma reverência para Fraulein Reitsch e, em seguida, vira-se para o Fuhrer, ergue o braço direto e exclama:

- Heil, mein Fuhrer.

Dessa vez Hitler devolve a saudação, com o gesto de mão que lhe era peculiar.

***

O Fuhrer parecia tomado de uma incomum serenidade, algo que há muito não demonstrava. Agora, a sós com a aviadora, ele perguntou:

- O que está achando disso tudo, Hanna?

- Não estou certa, mein Fuhrer. Quanto mais tempo passar, mais dificil se tornará executar com sucesso a "Operation Adler".

- Entendo, mas gostaria de ter mais uma chance de salvar Berlim dos soviéticos. Explico porque: os americanos pararam no Elba. Devem estar esgotados ou talvez estudando a situação geral, com outra finalidade. Venho pensando muito a esse respeito desde que soube da morte de Roosevelt.

- Que finalidade, mein Fuhrer ?

- Talvez aguardando para ver se os nossos exércitos do lado de cá do Elba ainda são forças efetivamente combativas. Talvez Eisenhower esteja fazendo contas, para verificar se a soma de suas tropas com as nossas formaria um poder capaz de derrotar o Exército Vermelho.

- Perdoe-me, mein Fuhrer - ponderou a aviadora - E o acordo de Ialta?

- Não foi Truman quem assinou pelos Estados Unidos. É possível que ele esteja enxergando o que eu sempre vi e que, talvez, Churchill também comece a perceber: que o bolchevismo representa, para o mundo, um perigo muito maior do que eles imaginaram seria o nosso nacional-socialismo. Se não forem militarmente detidos agora, e contando politicamente com a ajuda dos partidos comunistas em muitos países, os soviéticos vão se apossar de toda a Europa. Sobrará apenas a Grã- Bretanha, mas... por quanto tempo?

Hanna, confusa, sentiu-se estar diante, ou de um sábio ou de visionário louco. Como não podia ter certeza, preferiu apostar na primeira hipótese.

- Talvez o senhor esteja certo, mein Fuhrer. E se estiver, isso é mais uma razão para não arriscar sua vida, esperando um duvidoso sucesso de Wenck. Se ele falhar, o senhor cairá nas mãos dos russos ou terá de se matar para evitar que isso aconteça. Por outro lado, se me permite emitir uma opinião pessoal, eu não confio em Martin Bormann. Quando ele souber da sua fuga, talvez denuncie o fato, pensando, com isso, cair nas boas graças dos soviéticos ou dos americanos. E, se a traição for imediata, há o risco do senhor ainda se encontrar na Europa, quando sua fuga for divulgada. Viriam ao seu encalço e a ultima etapa da operação poderia não se concretizar...

Hitler ficou por algum tempo pensativo. Depois seu olhar se fixou longamente no rosto da aviadora. Quando finalmente falou, sua voz tinha um tom de sinceridade:

- Hanna, desde o início da guerra, eu deveria ter designado você para ser minha consultora particular. Tem razão, não posso me arriscar. Se os Aliados decidirem marchar contra os soviéticos, eu deverei estar vivo para comandar as tropas alemães. Minha decisão está tomada: aguardarei Wenck até às 03:00 horas da madrugada do dia 29. Se até lá ele não tiver chegado à Berlim, desencadearemos, imediatamente, a "Operation Adler". Esteja preparada. Quanto a Bormann, não se preocupe. Minha confiança nele já não é a mesma de outros tempos. Estou consciente de que, como tantos outros, cometerá qualquer traição para salvar a própria pele. Linge irá vigiá-lo o tempo todo. Ao menor sinal de que Bormann tente nos trair, Heinz o matará no mesmo instante. Quanto a Goebbels, Magda, Linge e Gunshe, sinto-me tranquilo. Eles permanecerão fiéis até o fim. Concorda?

- Plenamente, mein Fuhrer.

***

Linger se apresentou a Hitler na sala de mapas. Conversaram, a sós, por um longo tempo e o leal Heinz ouviu, atentamemte, as instruções passadas pelo Fuhrer...

*****

Capítulo 29

Não havia ninguém no alojamento, quando Steve abriu o armário, apanhou a maleta, deslocou o fundo falso e retirou o tempocelular e o WSA, guardando-os no bolso da túnica. Iria se aproveitar do conhecido ciclo circadiano do Fuhrer, para entrar em ação: procurar evidências da presença dos sósias no abrigo. Via de regra, Hitler se recolhia entre às três e quatro horas da madrugada, reaparecendo em torno do meio-dia. E seus colaboradores diretos buscavam acompanhar o mesmo esquema cronológico, a fim de descançarem e estarem a postos, quando o Fuhrer acordasse e solicitasse a presença deles. Acertou o despertador do relógio de pulso para "vibrar" às quatro. Disporia, assim, de cerca de oito horas para localizar o paradeiro dos sósias - se estes existissem e estivessem escondidos em algum lugar no Bunker. Tirou as botas, deitou-se e adormeceu alguns segundos depois.

***

Na hora exata, o relógio "vibrou". Steve acordou e olhou ao derredor. Um ofical SS dormia profundamente em uma das outras seis camas do alojamento. Silenciosamente, calçou as botas e saiu para o corredor. Do andar de cima, vinham sons de música e cantoria. Steve lembrou ter ouvido, de um psicólogo, que situações, nas quais a vida pode estar em jogo, motivam as pessoas a se entregarem a festejos e atividades eróticas. Desceu a escada e entrou no corredor central do Bunker. O que horas atrás fora o salão de conferências, era agora um espaço vazio e silencioso. Apenas um soldado SS dormia, recostado de encontro a uma das paredes. A lembrança do gráfico que Jonas mostrara, durante a fase de treinamento no Mojave, lhe possibilitava saber, exatamente, o que representava cada um dos recintos situados de um e de outro lado do corredor. Kleist avançou, cautelosamente, ultrapassou um portal e penetrou numa das alas reservadas do Bunker. À direita ficavam os aposentos de Eva Braun. Steve colocou o lado áspero do WSA de encontro à parede do que deveria ser o ante-quarto e pressionou o lado liso. Em seguida, pôs a peça auricular no ouvido esquerdo e escutou.

"... repito, Walter, se o Fuhrer vai fugir, como você acha, porque fomos trazidos para cá?" - uma voz feminina. Em seguida, uma voz de homem: "Vou lhe explicar pela última vez, Ilse. É exatamente por que os dois vão se mandar de Berlim, que nossa presença se faz necessária. Fazendo-nos passar por eles, estaremos dando a Hitler e Eva o tempo que necessitam para chegarem ao Berghof, sem que ninguém dê pela falta deles aqui. É importante que todos pensem que o Fuhrer está em Berlim, enquanto, de Berchtesgaden, ele determina às forças alemães que ainda estão na Hungria, Tcheco-eslováquia, Áustria, Itália e ao oeste da Bavária, para virem se concentrar dentro e ao redor da 'Fortaleza Alpina', em Obersalzberg. Um reduto no qual nenhum exército conseguirá penetrar. Foi isso que Linge me contou. Será que, desta vez, você entendeu tudo direitinho?"- Alguns segundos de silêncio...depois: "Entendi, mas o que me preocupa é o que irá acontecer com a gente após a fuga deles. Vamos ficar aqui para sermos capturados pelos russos? Já imaginou se eles acharem que, em vez de sósias, nós somos os verdadeiros Hitler e Eva ?" "Ilse, esta é a primeira vez que você vai impersonar a Eva, mas eu já me fiz passar pelo Fuhrer dezenas de vezes. E confio plenamente em Heinz Linger. Lembra do que ele nos disse, quando chegamos aqui, na semana passada? Que, no momento adequado, o General Wenck enviará tropas para formar um corredor de segurança, através do qual todos nós sairemos, com destino ao reduto alpino? " "E você acha que isso vai realmente acontecer?" "Sim, Ilse, acho".

Steve já ouvira tudo que necessitava ouvir. Richardson e Gelder tinham acertado bem na mosca, - pensou - um, sobre a existência dos sósias e, o outro, sobre o local em que eles provavelmente estariam escondidos. Agora, era o momento dele, Kleist, escapar do abrigo e procurar um local seguro de onde pudesse se comunicar com Kelvin, para que o "Carl Sagan" viesse buscá-lo imediatamente. Se prorrogasse sua permanência no Bunker correria o risco de algum imprevisto tornar a fuga impossível. Lamentava o destino dos pobres sósias ludibriados, mas isso fazia parte da História e a História não podia ser alterada. Retirou o WAS da parede e começou a caminhar no sentido oposto. Já ia atingindo a outra extremidade do corredor, quando se apercebeu de vozes vindo do que sabia ser o cúbículo ocupado pelos Goebbels. Não resistiu à curiosidade: colocou o WAS de encontro à parede do recinto e, mais uma vez, escutou:

"...isso tudo é muito triste, Magda". - ele reconheceu a voz de Hanna - "Infelizmente só dispomos de lugar para levar duas pessoas. Porque vocês não tentam escapar por terra? Muitos vão tentar." "Eu e Joseph já discutimos isso inúmeras vezes. Uma longa caminhada, sob o fogo da artilharia soviética, por lugares incertos, entre ruas esburacadas e escombros de prédios, com ele não podendo se deslocar com rapidez, devido ao defeito na perna, e ainda levando seis crianças, é uma tarefa impossível. Seríamos mortos ou capturados pelos russos. E nem quero imaginar que sofrimentos e torturas nos estariam reservados na União Soviética. E, ainda porque, se por algum milagre, conseguíssemos atingir as linhas americanas ou inglesas, Joseph também estaria em maus lençois. A guerra está perdida. Pela elevada posição do meu marido na hierarquia nazista, ele certamente seria condenado à morte ou à prisão perpétua. Não, Hanna, é preferivel ficar aqui, onde poderemos escolher a maneira pela qual iremos morrer. Além do que, ficando, estaremos fazendo crer ao mundo que Hitler e Eva também sucumbiram neste abrigo. O mais importante é que o nosso querido Fuhrer sobreviva. Ele é a luz da Alemanha e a única pessoa capaz de voltar a re-ergue-la no futuro. Vá, Hanna e que Deus a ilumine nessa perigosa misssão que o destino lhe reservou." Kleist escutou o som de beijos serem trocados. Não havia mais nada para ouvir. O tempo ia se escoando e ele tinha de deixar o abrigo o mais rápidamente possivel. Retirou o WAS da parede e se afastou na direção da saída de emergência. Mas logo estancou, ao ver, ainda de longe, que dois SS mantinham guarda à porta que fechava a entrada para a escada que ia dar no jardim do prédio do Ministério do Exterior, ao lado da Chancelaria. O jeito era sair por onde tinha entrado. Galgou três andares e foi ter no escritório do Deutsches Nachrichtenburo. Por coincidência, deu logo de cara com o Capitão Fritz Meyer. o qual, espantando-se em vê-lo, perguntou:

- Já vai nos deixar, Major?

Antes que Steve pudesse responder, um barulho ensudecedor se fez ouvir: uma chuva de projéteis da artilharia russa desabou sobre o prédio da Chancelaria, fazendo desmoronar parte de uma de suas fachadas laterais. Quando o barulho cessou, Kleist respondeu:

- Não, Hauptsturmfuhrer, vou apenas tomar um pouco de ar, ainda que nessa atmosfera poluída. Acontece que sofro de claustrofobia e as longas horas passadas no abrigo começam a surtir seus efeitos, deixando-me extremamente agoniado. O senhor já sentiu alguma vez esse tipo de sensação? Produz um estado de pânico incontrolável.

O outro ponderou:

- Major, o senhor vai arriscar sua vida. Como já deu para perceber, os soviéticos estão agora concentrando seu fogo nesta área.

- Sei disso, mas já estive debaixo de fogo muito pior. E creia-me, Hauptsturmfuhrer, é mais fácil enfrentar isso do que o pânico que estou sentindo, enclausurado neste maldito abrigo. Se não sair, agora, para um espaço aberto, sei que vou desmoronar. Fique tranquilo, darei uma caminhada pelos jardins e logo estarei de volta...A próposito, continue guardando minha Luger com carinho.

E sem dar oportunidade ao capitão de voltar a argumentar, Kleist galgou o último lance de escada, transpôs a porta do abrigo, passou sem ser questionado por dois SS que montavam guarda no local e saiu andando na semi escuridão, orientando-se pelas fracas luzes que ainda continuavam acesas na parte frontal da Chancelaria. Uma nova onda de projéteis espalhou fragmentos por toda parte. Afortunadamente, Kleist não foi atingido, mas os SS se refugiaram dentro do abrigo. Steve se apercebeu disso e aproveitou a oportunidade para sair correndo na direção do local onde a nave o havia deixado na noite anterior. Quando calculou que tinha percorrido cerca de trezentos metros, parou, retirou o tempocelular do bolso da túnica e apertou um botão. Em poucos segundos, a voz de Martin se fez ouvir, acima do barulho de fundo causado pelos disparos russos:

- OK, Steve. Tudo bem?

- Por enquanto, sim. Mas a artilharia soviética está se intensificando. Tenho de sair daqui o mais rápido possivel. Estou no local em que você me deixou, ou muito próximo dele. Não há ninguém por perto. Todo mundo tratou de procurar abrigo. Creio que o lugar em que me encontro estará seguro por ainda alguns minutos. Quanto tempo acha que vai levar para chegar aqui ?

- Uns quarenta segundos. Já estou acionando os foquetes. Aguente firme.

Desligaram. Steve deitou no chão, para esperar. Uma nova salva de disparos destruiu parte da frente da Chancelaria. Olhou para cima. A sombra acinzentada do "Carl Sagan" surgiu, como num passe de mágica, a uns duzentos metros de altura e a pouco menos de cem metros de distância, à esquerda do lugar em que estava. Kleist se ergueu. Munido do rastreador que localizava com precisão o "chip" implantado no tempocelular de Steve e dos óculos para visão noturna, Martin prontamente identificou o "major" e, rapidamente, manobrou o módulo, levando-o até o local onde ele se encontrava, estacionando a um metro do solo. A porta da nave se abriu. Kleist pulou para dentro, a porta se fechou e Kelvin perguntou:

- Para onde, Steve?

- Já vestindo, por cima do uniforme, o traje espacial. Kleist respondeu:

- Para casa.

- Então sente-se e aperte o cinto que eu vou acelerar os foguetes.

Em menos de um minuto o "Carl Sagan" desapareceu do céu nebuloso da semi-destruida capital do moribundo Terceiro Reich.

***

Ao meio dia, Hitler aparaceu para a costumeira reunião na sala de conferências. O grupo de sempre já se encontrava a postos. Mas hoje, havia medo nos olhos dos que estavam presentes: apezar das espessas camadas de ferro e cimento que o protegiam, o Bunker estremecia, de momento a momento, abalado pelos impactos dos projéteis que caiam por toda parte, acima do abrigo. Mal começaram a discuti,r quando um ordenança anunciou que, do escritório do Deutsches Nachrichtenburo, uma ligação telefônica estava sendo repassada para o Bunker. O General Reinhard Gehlen desejava falar com o Fuhrer. O ordenança trouxe o telefone até Hitler que, com a mão tremendo intensamente, levou o fone ao ouvido e disse:

- Pode falar, General

- Mein Fuhrer, pouco antes do amanhecer, enviei um avião de reconhecimento para verificar a situação do Exército Wenck. Lamento comunicar que, durante a noite, as tropas de Koniev lançaram um ataque de surpresa contra o XX Corpo, o qual foi totalmente destruido. E Manteufel não apareceu. Consegui falar com Wenck pelo rádio. O general está profundamente desanimado e confessou-me que ele e Busse, agora também pressionados pelos tanques de Zhukov, decidiram recuar para oeste. Receio que planejem se render aos americanos.

A reação de Hitler foi, como era de se esperar, explosiva:

- Malditos covardes e traidores. Esse Manteufel merece ser imediatamente fuzilado. Se tivesse atacado o flanco norte de Koniev, como Wenck havia solicitado, o XX Corpo não teria sido destruido.

O Fuhrer acalmou-se um pouco, o suficiente para voltar a falar com Gehlen:

- General, temo que Berlim tenha perdido sua última chance de ser libertada...

- Também penso assim. Logo, permita-me sugerir que a "Operation Adler" seja desencadeada, o mais rápido possivel. À noite, valendo-se da escuridão.

Hitler baixou a voz a nivel de um sussuro:

- Correto. Nas primeiras horas da próxima madrugada. Esteja pronto, General.

- Estarei, mein Fuhrer. Boa sorte.

Desligaram. Hitler virou-se para Bormann e perguntou:

- Onde está aquele major que o Wenck mandou aqui? Procure-o e traga-o imediatamente a minha presença.

E, sem dar nenhuma explicação aos presentes, deu a reunião por encerrada.

- Saiam todos. Hanna, você e Linge ficam. Preciso ter uma conversa reservada com os dois.

Os outros deixaram o recinto, surpresos e alarmados. Bormann, ofendido pelo Fuhrer não tê-lo convidado a ficar e, ainda por cima, por Hitler ter-lhe confiado uma missão que poderia ter sido dada a qualquer ordenança, saiu bufando do salão, seus olhos expressando ódio e decepção.

Quando ficou a sós com a aviadora e com seu fiel escudeiro, Hitler usou de poucas palavras:

- Nessa próxima madrugada, lá pelas duas ou três horas. Hanna, os aparelhos estão prontos ?

- Sim, mein Fuhrer. Escondidos em um hangar próximo à Porta de Brandenburg, guardados por um destacamento da SS da inteira confiança de Herr Linge.

- Heinz ?

- Exato. - confirmou o ordenança.

- E quanto aos outros preparativos ?

- Tudo acertado, mein Fuhrer.

Hitler apertou as mãos de seus dois confidentes e leais colaboradores e disse:

- Obrigado. Agora saiam, por favor. Vou esperar para ver que explicações o tal major dará, quando souber que seu comandante está prestes a se render aos americanos.

***

Bormann voltou ao salão uma hora depois.

- Mein, Fuhrer, o major foi procurado por toda parte. Não está no abrigo. O Hauptsturmfuhrer Meyer viu, quando, na madrugada passada, ele saiu para dar umas voltas pelos jardins, alegando estar sofrendo de uma crise de claustrofobia. Logo depois, os russos bombardearam duramente a área. O major não regressou. Meyer mandou uma patrulha procurar por ele. Não o wncontraram. O Hauptsturmfuhrer acha que o major foi atingido por um projétil e deve estar morto ou ferido, debaixo de algum escombro. O senhor deseja que se façam novas buscas?

- Não, o major já não é mais importante. Caso encerrado. Tenho assuntos mais sérios com que me preocupar.

E, com essas palavras, Hitler deixou o recinto e dirigiu-se aos seus aposentos particulares.

*****

Capítulo 30

Faltando exatamente três minutos e seis segundos para a meia noite de 29 para 30 de abril de 2005, o módulo pousou, suavemente, no naveporto do Instituto de Pesquisas Climáticas. O tenente Roger Stuart, de serviço no Centro de Controle, viu a nave descer e, seguindo as instruções que havia recebido, deu três telefonemas: para seu chefe, o major Powell, para o professor Mordush e para a doutora Newman. Quando Paul, Emily, Helen e Burt chegaram ao local, Steve e Kelvin, já livres dos trajes espaciais, achavam-se do lado de fora do "Carl Sagan", conversando tranquilamente. Um por um, os que tinham ansiosamente aguardado o regresso da nave, apertaram as mãos dos astrotemponautas - o neologismo que haviam criado para os dois homens, Helen fez algumas perguntas aos recém-chegados do passado, tirou-lhes o pulso e a pressão arterial e, convencida de que ambos estavam clínica e psicologicamente bem, virou-se para Paul e disse:

- Aparentemente, está tudo OK, Professor. Amanhã, com exames mais apurados e os testes sanguíneos, radiológicos e psicológicos, saberemos como eles realmente se encontram.

Paul dirigiu-se aos dois e disse:

- Estamos muito felizes em ver que ambos regressaram sãos e salvos. Agora vão para suas casas e repousem bastante. Depois da revisão médica, reuniremos todo o "staff"para ouvir o relatório de vocês.

Um carro da Força Aérea ja encostara, para levar Kleist e Martin as suas casas, quando, não conseguindo se conter, Mordush perguntou a Steve:

- Então, missão cunprida?

Com sua habitual calma, o outro respondeu:

- Sim, Professor, ... quase totalmente...

- Houve algum problema?

- Não, nenhum problema. Tudo correu a contento. Mas ficou faltando esclarecer alguns detalhes...

Desta vez, conseguindo se conter, Mordush limitou-se a dizer:

- OK, a gente conversa sobre isso amanhã na reunião. Mais uma vez, benvindos ao Mojave e tenham um bom descanço.

***

Cedo, pela manhã, Takeo Yamazata disse a Mordush que ele e seu grupo haviam detectado um ligeiro grau de "fadiga de material" na estrutura do "Carl Sagan".

- Vou precisar de umas duas semanas, para completar os testes e substituir determinadas partes - disse o nipo-americano.

-Faça o que for necessário. - respondeu Paul - Não sei se ainda voltaremos a usar o módulo, mas, se o fizermos, ele deve estar em perfeitas condições. E quanto ao aspecto funcional?

- Sem problemas. Tudo funcionando normalmente.

- Ótimo...e Takeo, não se esqueça: quero todo seu pessoal aqui, para a reunião. Vou marcar para às 15:00 horas.

- Eu não perderia isso, ainda que fosse por um milhão de dólares - retrucou o engenheiro.

***

Ao meio dia, Helen ligou para informar que tanto Kleist quanto Kelvin estavam em excelente estado de saúde.

- Então parece que o corpo humano adapta-se melhor que a máquina aos processos de desmaterialização" e "rematerialização".

- Como assim ?

- Takeo detectou fadiga de material no "Carl Sagan".

- Bem, a curto prazo pelo menos, nenhum dos dois apresentou qualquer distúrbio anatômico ou funcional. Se algo vai surgir mais tarde, só o tempo irá dizer.

- Certo, Helen. E não se esqueça: a reunião será às 15:00 horas.

- Professor, duvido que alguém esqueça.

*****

Capítulo 31

Na hora precisa, com todo "staff"de cientistas e militares presentes, Mordush foi até o microfone e abriu a reunião, pedindo a Kelvin que falasse primeiro.

Martin pegou o microfone e começou, brincando:

- Gente, estou me sentindo como se fosse a "entrada", destinada a abrir o apetite de glutões para o prato principal.

Depois, sua voz adquiriu um tom de seriedade:

- Bem, não tenho muito para dizer. Sofri dois grandes momentos de preocupação: nas duas vezes em que desci com o módulo em Berlim. Por receio que a nave fosse descoberta e destruida. Afinal, estávamos em um teatro de guerra. E, quando voltei do polo norte para para pegar o Steve, somou-se outro fator preocupante: que durante o minuto que levei para ir de um lugar ao outro, ele fosse atingido ou capturado. Quanto ao tempo que permanecí noÁrtico, confesso que, algumas vezes, bateu a sensação de solidão, vendo somente geleiras, para qualquer lado que olhasse. E também ficar lá, inerte, sem saber o que estaria se passando com o Kleist na capital alemã...Bem, acho que é só isso. Que venha o Steve e nos revele as experiências por que passou. Como vocês, também nada sei a respeito. Não tivemos tempo para conversar. Era só subir, dormir, descer e, depois, repetir a mesma coisa. Obrigado pela atenção.

A precisão e simplicidade do relato de Kelvin foi celebrada com uma respeitável salva de palmas. Se ela não foi mais prolongada era porque já estvam, todos, no limiar máximo da ansiedade, aguardando o que Steve estava prestes a revelar. A um sinal de Paul, ele galgou o pódio, segurou o microfone e, com sua aparentemente inabalável tranquilidade, relatou, minuciosamente, tudo que viu, ouviu e sentiu, do momento em pisou o solo berlinense até o instante em que foi recolhido por Kelvin. Foram quase duas horas de um relato preciso e emocionante, tão didático e detalhado que não deu margem a que ninguém precisasse interromper, para solicitar qualquer esclarecimento. Kleist falou de tal forma, que cada um dos presentes se sentiu como se tivesse sido ele, ou ela, quem tivesse passado pela fantástica experiência. Quando Steve fechou o relato com um "Desculpem se falei demais. A todos, muito obrigado", seguiu-se um longo minuto de silêncio. Depois, todos, como se movidos por um mesmo impulso, puseram-se de pé e o presentearam com uma estrepitosa salva de palmas, que só cessou quando Paul foi ao microfone e determinou que todos parassem de aplaudir e se sentassem.

Quando a normalidade voltou ao recinto, Emily foi a primeira a se manifestar:

- Creio que devemos parabenizar, também, os professores Richarson e Gelder. O primeiro, por ter apostado na existência dos sósias e o segundo por ter acertado quanto ao local em estariam escondidos.

Várias vozes de aprovação se fizeram ouvir. Em seguida Paul tomou a palavra:

- Bem, não tenho dúvidas em afirmar que realizamos a mais fantástica aventura da História da humanidade. A bem sucedida construção dos módulos e o destemor e firmeza com que Kelvin e Steve cumpriram suas missões, não encontram paralelo em cinco mil anos de civilização. A exposição de Kleist foi um modelo de didática. Contudo, pergunto ao nosso heroi: Hitler e Eva, de fato escaparam e foram os sósias Walter e Ilse que morreram no lugar deles?

- Certificar-me disso, era a intenção, Professor. Mas eu sai de lá antes que os planos traçados por Hitler, Hanna e Linge fossem executados. Por isso, quando o senhor me perguntou ontem se a missão fora cumprida, eu respondi: "Sim...quase totalmente...há alguns detalhes a serem esclarecidos". Um deles tem a ver com a pergunta que acabou de fazer., A outra é: se, como dizem certos historiadores, Hanna e von Greim deixaram Berlim em um Arado A 96, como poderia ele levar quatro pessoas, se é um avião de apenas dois lugares? Essas duas questões constituem o nosso "quase".

- Que só poderá ser eliminado se... aparteou Emily, esperando que o próprio Steve completasse a frase.

E ele o fez:

- ... eu voltar aonde quer que Hanna Reitsch posssa ser encontrada, entrevistá-la e obter dela os devidos esclarecimentos. A aviadorta é, a meu ver, o "X" da solução.

Paul refletiu por algum tempo e depois disse:

- Concordo com Steve. Alguma dúvida ou sugestão?

Peter Gray se ergueu.

- Não creio que haja uma alternativa melhor. De fato, Hanna Reitsch parece ser a pessoa certa para preencher as lacunas que ficaram. Mas tenho dúvida quanto a ser Kleist a pessoa mais indicada para essa nova missão, embora sejam ele e Kelvin os únicos com experiência em quebrar a "barreira do tempo".

E porque acha isso, Peter ?- indagou Mordush

- Porque Hanna vai se sentir confusa, intrigada e desconfiada, ao se deparar com um major Kleist que não envelheceu nada, após decorridos vinte anos.

- Uma ponderação bem razoável - disse Paul.

E, voltando-se para Kleist

- O que tem a dizer a respeito, Steve ?

O capitão se levantou e, sorrindo, respondeu à ponderação que Gray havia colocado.

- Um pequeno, mas importante detalhe, meu caro Peter: Fraulein Reitsch não vai se deparar com o major Hans Kleist que ela conheceu, mas com seu filho, o jornalista Rudolf Kleist, o qual terá em 1965, a mesma idade que o major, seu pai, tinha em 1945. E, que, por razões genéticas indecifráveis, tornou-se um clone perfeito do genitor.

Peter refletiu por um momento, Em seguida sorriu e disse:

- Steve, parabéns. Concedo-lhe a palma da vitória.

Definida a questão, Paul, antes de dar por encerrada a histórica reunião, anunciou que ele e o General Shermam iriam, tão cedo quanto possivel, a Washington, para levar ao Presidente as gravações das palestras proferidas por Martin e Steve, e tentar convencê-lo da necessidade de uma outra viagem ao passado.

*****

Capítulo 32

Às 11:30 horas do dia sete de maio de 2006, Mordush e Sherman foram recebidos pelo Presidente no salão Oval da Casa Branca, O encontro durou até às 14:00 horas, Foi tamanho o interesse do Chefe de Nação pelo relato de Steve, que almoçaram ali mesmo, servindo-se de sanduiches e refrescos, enquanto escutavam e re-escutavam a gravação.

***

Na manhã seguinte, já de volta ao Mojave, Paul teuniu todos os membros do seu "staff", a fim de lhes por à par do que sucedera no encontro em Washington.

- O Presidente ficou fascinado com as gravações. Depois de escutá-las, expôs suas opiniões. Vou tentar reproduzir, o mais fielmente que a memória me permita, as palavras dele:

"Senhores," - falou ele, dirigindo-se a mim e ao general Sherman - "o que sua equipe realizou foi, sem dúvida, o mais ousado e bem sucedido empreendimento da História. Seria um absurdo desperdício não tentarem concluir o trabalho. Portanto, não só apoio, como determino, que o capitão Kleist volte ao passado, para entrevistar Hanna Reitsch. E que ele tenha o mesmo êxito que obteve nas investigações que realizou no Bunker de Hitler. A propósito, informem aos dois que estou providenciando para que ambos sejam imediatamente promovidos ao posto de major. Quando estarão prontos para partir?"

"Dentro de, no máximo, duas semanas, senhor"- respondi.

"A que ano regressarão ?"

"1965. Segundo a história que Steve tem preparada, ele vai personalizar um jornalista, filho do major Kleist. Como, em 1965, Rudolf terá - como não podia deixar de ser - a mesma idade que Hans tinha em 1945, este será um forte elemento para justificar a inusitada semelhança entre o oficial que Hanna conheceu em 45 e o jornalista que estará conhecendo em 65".

"Muito bem pensado. E, à guisa de colaboração, enviarei um assessor de minha inteira confiança à Associação Internacional de Acrobacias Aéreas, para obter o paradeiro de Hanna durante o ano de 1965. Suponho que isso ajudará os senhores a determinar a data mais adequada para a entrevista. Assim que receber os dados, os enviarei ao general Sherman."

- E foi isso. O Presidente se levantou, apertou nossas mãos e desejou-nos boa sorte. E, após agradecermos, nós fomos embora. Ponto final.

***

Quatro dias depois, o general Sherman recebeu o fax e enviou-o a Mordush. A Associação informou o seguinte: "Durante o mês de setembro de 1965 não houve nenhuma prova ou competicão de acrobacia aérea e Fraulein Reitsch permaneceu em sua residência, em Saltzburg, Áustria, entre os dias 10 e 20 do referido mês. Em anexo, o endereço e o telefone do domicílio da aviadora".

***

Logo depois, Paul convocou o engenheiro Yamazata ao gabinete.

- Takeo, hoje é 12 de maio. Quando o "Carl Sagan" estará em condições de vôo?

A resposta do cientista nipo-americano foi categórica:

- A partir do dia 15.

Em seguida, Mordush chamou o piloto da nave.

- Kelvin - perguntou - que horário acha mais conveniente para descer em um dos subúrbios de Saltzburg ?

- Em torno das três da madrugada. A essa hora não costuma haver muita gente circulando pelas ruas.

O próximo foi o matemático Richard Peck.

- Richard, preciso que você calcule o exato momento, entre os dias 15 e 20 deste mês, em que o módulo deve decolar do naveporto, para estar em um determinado ponto na periferia de Saltzburg, Áustria, em torno das três da madrugada do dia 12 de setembro de 1965. Fale com o Kelvin. Ele lhe fornecerá as coordenadas exatas desse ponto.

- Sim, senhor. Para quando deseja essa informação ?

- Para ontem.

- O senhor a terá dentro de três a quatro horas.

- Ótimo, obrigado.

O último a ser convocado foi Gray.

- Peter, quanto tempo você necessitaria para construir um mini-gravador com um mini-microfone, capaz de registrar por, pelo menos, oito horas seguidas, e que possa ser escondido dentro de um terno?

- Tempo zero.

Paul ergueu uma das sobrancelhas.

- Como assim ?

- Acho que já tenho o aparelho que o senhor deseja. O microfone, para ser fixado dentro da camisa, é tão pequeno que se torna quase invisível. O fio corre por dentro da roupa e termina no gravador, o qual mede cinco centímetros de comprimento, três de largura e dois de espessura. Pode gravar por até doze horas seguidas e é facilmente guardável em um bolso pregado na parte interna da calça, ao nivel da coxa.

- Excelente. Por favor, procure o Steve e diga a ele para ir ao alfaiate, a fim de ter o tal bolso costurado no local que você falou. E o ensine a usar o aparelho.

- Sim, senhor. Cuidarei disso imediatamente.

***

Às 17:00 horas, Peck trouxe a resposta:

- Professor, - disse ele - calculei e recalculei diversas vezes. Se o módulo decolar do nosso naveporto, exatamente às 01hs 33 min 17 seg e 456 milésimos de seg do próximo dia 18, chegará em Saltzburg, no ponto determinado pelo Kelvin, às 03hs e 05 min do dia 12 de setembro de 1965.

- Ótimo trabalho, Richard, muito obrigado

Em seguida, Mordush deu vários telefonemas, marcando uma reunião geral do "staff" para as nove horas da manhã seguinte. Depois, consciente de que todas as providências haviam sido tomadas, deixou o gabinete e foi para casa, onde Emily o esperava para jantarem.

*****

Capítulo 33

Mordush havia também convidado a cúpula militar para a reunião. Assim, estavam presentes, além do grupo de cientistas e dos "viajantes" Kleist e Martin, o general Sherman e os coronéis Scott e Powell. Na semana anterior, Paul tinha providenciado certas mudanças no salão de conferências, afim de transforma-lo num autêntico anfiteatro, mais adequado à exposições, palestras e debates. Assim, havia, agora, uma mesa de direção dos trabalhos, com diversos microfones e, de frente para ela, várias fileiras de confortáveis poltronas, revestidas de couro amaciado.

O "alto comando"do "staff" científico-militar, acomodou-se por traz da mesa, em assentos iguais aos da "platéia": Mordush ao centro, ladeado à esquerda por Emily Kelly e Richardson e, à direita, pelo general Sherman e Takeo Yamazata. A doutora Helen estava sentada na primeira fila, ladeada pelos, agora majores, Kleist e Martin, já que a promoção dos dois fora publicada, na véspera, no Diário Oficial das Forças Armadas dos Estados Unidos. Os outros membros da equipe espalhavam-se, descontraidamente, pelas demais poltronas.

Paul abriu a sessão, num tom informal, dizendo:

- Meus amigos, está tudo pronto para o "Carl Sagan" voltar, de novo, ao passado. Segundo os cálculos realizados, o módulo decolará do naveporto pouco depois da uma hora da madrugada do próximo dia 18 e, após ficar "desmaterializado" por cerca de dezessete horas, descerá nos arredores da cidade austríaca de Salzburg, às 03:05 do dia 12 de setembro de 1965. Certamente, essa missão envolverá, por motivos óbvios, muito menos riscos que a anterior. No entanto, talvez não seja coroada do mesmo êxito. Isto porque, possivelmente, Hanna Reitsch não desejará preencher as lacunas do nosso atual conhecimento. Principalmente se Hitler, caso tenha mesmo escapado de Berlim, ainda estivesse vivo em 1965. Não me parece muito provável, mas não é impossível, uma vez que estaria com 76 anos. Uma idade que muitos conseguiam atingir naquela época. Conhecendo a devoção que a intrépida Fraulein tinha pelo seu Fuhrer, não é de admirar que faça tudo para protegê-lo. Porque? Porque é o óbvio. Imaginem, por exemplo, o que não teriam feito os israelenses, se, na época, descobrissem que Hitler estava vivo e aonde se encontrava. Acham que a devotada Hanna, sabendo disso, desnudará um segredo, guardado a sete chaves, para um entrevistador desconhecido, só porque ele se diz filho de um oficial da Werhmacht que ela conheceu, ligeiramente, vinte anos antes? A meu ver, nem mesmo a astúcia, o charme e o carisma do nosso Steve conseguirão convencer Fraulein Reitsch a por em risco a segurança do Fuhrer. Contudo, se Hitler ja estiver morto na época, então o impossível poderá se tornar possível. Ainda assim, não será fácil a tarefa do major Kleist. Não obstante, temos de tentar. Porque foi isso que decidimos e é isso que o Presidente determinou que fosse feito.

Mordush fez uma pausa, bebeu um gole d'água e, mudando o rumo da dissertação, dirigiu-se a Yamazata:

- Takeo, qual o estado da nave?

- Cem por cento.

Paul olhou para a médica:

- Helen, como estão seus dois preciosos pacientes?

- Em perfeitas condições físicas e psicológicas.

- Ótimo.

Sherman tocou de leve no braço de Paul. Este perguntou:

- Deseja dizer alguma coisa, General ?

- Sim, desejo prestar alguns esclarecimentos aos senhores cientistas.

- Por favor.

Sherman puxou o microfone mais para perto dele e começou:

- Todos aqui estão a par de que, por um acordo há muito estabelecido, esta será a última viagem do "Carl Sagan" ao passado. E que, após seu retorno, o Projeto "Time for Angels" será encerrado e os módulos passarão para o controle da Força Aérea. Pois bem, direi agora aos senhores, em caráter estritamente confidencial, o plano que já temos delineado para as naves. Em princípio, não pensamos realizar viagens no tempo. No momento, nossa intenção é dispormos de módulos em condições de se deslocarem para qualquer ponto do planeta. O que dará aos Estados Unidos uma vantagem estratégica imensurável, em relação às demais potências. Para isso, julgamos que naves menores, como a "Nancy Reagan", são mais adequadas, desde que contenham os avanços tecnológicos que foram introduzidos no "Carl Sagan", mantendo-se, contudo, a velocidade daquela, ou seja, de 400.000 km/seg. Isso implica em menos desgaste e menor custo. Portanto, após readaptarmos a "Nancy Reagan", iremos construir mais duas naves iguais a ela. Assim, quando for necessário, poderemos atuar, simultâneamente,em três pontos diferentes da superfície terrestre. E, para construi-las e mante-las, torna-se indispensável contar, pelo menos, com uma boa parte da atual equipe científica, a qual terá também a missão de formar novas gerações de cientistas, de modo que a face amarga do tempo não venha interromper a continuidade da fantástica tecnologia de que hoje dispomos. Portanto, as portas estão abertas para os integrantes deste "staff" que desejarem continuar agregados à Força Aérea. Na próxima reunião, a acontecer após a volta de Kleist e Martin, espero que cada um já tenha se definido. Os que permanecerem, continuarão residindo no complexo e assinarão um novo contrato. A doutora Newman e o major Martin já são integrantes da Força Aérea. Os que optarem por partir, receberão uma pensão vitalícia, proporcional aos eus atuais salários, levarão nosso eterno reconhecimento e deixarão muitas saudades. Mas espero que possamos sempre contar com eles, como conselheiros. O "Carl Sagan" vai para a reserva, mas continuará aqui e será periodicamente testado. Quem sabe não se tornará novamente ativado no futuro?

O general fez uma pausa, bebeu dois goles d'água e prosseguiu:

- Talvez um dia, e que esse dia esteja muito, muito distante, alguma potência venha a descobrir a existência dos nossos módulos. Então, o "Carl Sagan" será transferido para o Museu Aéreo-Espacial em Washington, a fim de que as futuras gerações conheçam o pioneiro que primeiro rompeu a barreira do tempo. E o Projeto "Time for Angels" será divulgado, para que o mundo fique sabendo o verdadeiro final de Adolfo Hitler e Eva Braun. A todos, muito obrigado pela atenção.

E, após os aplausos convencionais, Mordush deu por encerrada a reunião.

*****

Capítulo 34

Devido a hora da partida, poucos compareceram ao Centro de Controle para assistir a "Carl Sagan" decolar, pela segunda vez, rumo ao passado. Paul, Emily, Helen, Peter, Takeo, Bruce e Richard eram os únicos presentes. Na hora exata, Kelvin, tendo ao lado o impassível Steve, apertou a tecla "T" do seu painel de controle. A nave subiu, primeiro lentamente e, em seguida, tão rápida quanto um foquete. Segundos depois, desapareceu, como se tivesse sido tragada pela escuridão que envolvia o espaço aéreo do Mojave.

*****

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