O SOLAR DAS SETE LUAS

Romance Espírita Baseado Em Uma História Real

 

Oliver Marti

INTRODUÇÃO

Meu nome é Yuri Olivieri*. Nasci na cidade do Rio de Janeiro, ex-capital da República Federativa do Brasil, no dia 21 de outubro de 1935, exatamente trezentos e um anos e seis meses depois de Pierre Mansard e cinquenta e três anos e sete meses após o nascimento de Juan Pablo Colina.

Mas por que menciono esses dois outros nomes? Porque, na verdade, ao que tudo indica, somos, os três, uma única e mesma alma, cumprindo, em tempos diferentes da história, missões distintas neste planeta Terra, em consonância com um determinismo cármico, possivelmente traçado por uma força superior - Deus, destino ? Acaso?...

Sou neurobiólogo e assim, por força de uma formação estritamente regida pela ciência, também sou, ou melhor, era, até uma certa época, agnóstico convicto, seguidor das idéias do astrônomo e filósofo Carl Sagan, para quem, o que não é comprovado pelo método científico, não passa de puro misticismo. O que me fez mudar ? Uma série de fatos estranhos, a começar por uma peculiar coincidência (?), que passo a relatar:

Certo dia, não muito tempo atrás, fim de uma manhã de Domingo, voltava eu para casa quando, passando pelo prédio onde ficava o laboratório de pesquisas em que trabalhava - por acaso situado na mesma rua do meu domicílio, senti-me impelido a ir até lá, para buscar um certo disquete. Assinale-se que eu não sai de casa com esse propósito, como também não era meu hábito ir ao laboratório aos Domingos, nem o conteúdo do disquete justificava que tivesse de pegá-lo naquele dia. Pois bem, ainda assim fui. Em menos de trinta segundos já havia apanhado o disquete e encaminhava-me para a saída quando o telefone tocou. Para minha surpresa, tratava-se de minha prima Penélope Laso*, com quem não me comunicava há mais de dois anos. Ela era uma espécie de temporão na família e, quando nasceu, eu já estava com 17 para 18 anos.

Pois bem, naquela manhã, Penélope - assim ela revelou-me mais tarde- sentira um súbito e inexplicável desejo de se comunicar comigo, mas como eu havia, tempos antes, trocado o número do meu telefone domiciliar, ela ligou mas não conseguiu me encontrar. Porém, vasculhando seu caderno de anotações, deparou com outro número, associado ao meu nome, o qual, julgou ela, seria também da minha casa. Assim, resolvera tentar. Obviamente, soubesse tratar-se de uma linha do meu laboratório, não teria ligado naquele dia, já que, como antes assinalei, não seria de se esperar que eu lá estivesse num Domingo. Só que o número para o qual Penélope ligou era o do laboratório e, por acaso ou por algum estranho desígnio, eu estava lá.

Surpresos e alegres, trocamos trivialidades: como tem passado?... a saúde anda boa ?... coisas assim. E resolvemos marcar um encontro para nos revermos e conversarmos um pouco mais.

Vale mencionar que eu sempre tive um carinho especial por essa prima e que ela sempre demonstrou ter por mim uma forte admiração. Quando ela era ainda bebê, peguei-a no colo muitas vezes e, depois, quando viajava, raramente deixava de lhe trazer alguma lembrança. Assim, através dos anos, fomos criando uma sólida amizade e identificando uma série de afinidades, embora poucas tenham sido as vezes em que nos encontramos.

Cada um seguira seu próprio rumo na vida e nossos caminhos raramente se cruzaram. E, nos dois últimos anos ficamos sem nos ver ou falar uma única vez. Até aquele Domingo...

Mas, deixando de lado as reminiscências, vamos ao que se seguiu: após o referido telefonema, passamos a nos ver com certa frequência, embora, pelo menos de forma consciente, o sentimento de um pelo outro continuasse sendo o que é de se esperar entre primos que se estimam. Nada mais. Penélope é uma mulher muito bonita, cujos olhos são de uma beleza excepcional e ela foi sempre considerada a pessoa mais bela da família. Quanto a mim, não sei se correta ou erroneamente, era tido como o mais inteligente. E era isso que Penélope e eu costumávamos dizer, um para ou outro. Nossos reencontros iniciaram na segunda quinzena de agosto de 1999.

Por essa mesma época, um amigo de infância, durante um despretensioso bate-papo, não sei por que cargas d'água, mencionou uma conhecida sua, monja budista, discípula de um certo mestre hindu, o qual era considerado um "expert" em astrologia cármica. Falou-me também o dito amigo que o referido gurú, que vivia temporariamente na Califórnia, costumava receber, via Internet, mapas astrológicos para interpretação, mas somente levava em conta aqueles que lhe parecessem interessantes. Que ele próprio (o meu amigo), instado pela monja, havia enviado sua carta natal ao hindu mas não recebera resposta.

- Você que tem computador e softs de astrologia,- disse-me ele - por que não envia o seu mapa para o Swami? - assim chamava-se o gurú - Quem sabe ele não responde? Vai, tenta, afinal não custa nada.

Anotei o email do astrólogo e depois, atarefado com os preparativos para a viagem que faria em breve aos Estados Unidos, esqueci o assunto. Na véspera da data do embarque, meu amigo telefonou-me e, durante a conversa, voltou a insistir para que eu enviasse meu mapa natal ao hindu. Tão logo desligamos, disse para mim mesmo :"E por que não? ". Entrei na Internet, acessei meu correio eletrônico e enviei um email para o endereço [email protected] ** , solicitando ao astrólogo uma análise de meu mapa natal, enviado em "attachement" e, motivado por uma súbita e inexplicável inspiração, mandei também a carta natal de Penélope, sem fazer qualquer menção ao nosso parentesco, ainda porque, sendo ela minha prima pelo lado materno, nossos sobrenomes nada têm em comum. Também, por razões que não sei explicar, não enviei os mapas através do meu endereço eletrônico habitual e sim por um outro, que utilizo esporadicamente e no qual identifico-me por um login ( nome adotado) totalmente diferente: "Panzer". Dessa forma, tornava-se virtualmente impossível para o hindú vir a saber o meu verdadeiro nome.

Dez dias mais tarde, já de volta ao Brasil, abri meus correios eletrônicos e, naquele que usei para enviar os mapas, para minha grata surpresa, constava a resposta do astrólogo. Ao abrir a mensagem, a surpresa transformou-se em estupefação, pois ele, num inglês perfeito, bem no estilo britânico, começava o texto tratando-me por "Dear Yuri", quando, assim ditava a razão, deveria ter escrito "Dear Panzer".

Passado o "choque" inicial, tentei, junto aos meus provedores e a alguns amigos, especialistas na matéria, verificar se havia alguma possibilidade de que, através de algum recurso na Internet, o hindu pudesse ter descoberto o meu nome verdadeiro. As respostas foram unânimes: não havia!

E a estupefação evoluiu para a confusão, quando, em certo trecho da mensagem, ele assinalou que eu e Penélope "havíamos nascido na mesma família".

E tanto a minha rígida formação científica quanto a minha filosofia agnóstica sofreram um severo abalo, diante da revelação de Krisma Swami, de que eu e Penelópe, ou melhor, nossas almas, já haviam se cruzado em existências anteriores e que existia, entre nós, um sério problema cármico a ser resolvido.

Para mim, pelo menos até aquele momento, essa história de carma e vidas passadas não passavam de pura tolice ou produtos da imaginação de espiritualistas.

Num estilo simples e direto, o astrólogo passou a relatar o que a sinastria de nossos mapas e a intuição que lhe fora conferida por "Mestres Superiores" haviam revelado a respeito dos relacionamentos que, sob outros nomes e em outros países, Penélope e eu tínhamos "vivido" nas duas existências que precederam a atual. É uma história fantástica a qual, são só pela magia de seu conteúdo, mas pelo que veio a refletir, no presente, em nossas vidas, merece ser contada.

Comecemos pelo que teria se passado com as nossas almas, na longínqua França do Século XVII...

* - Para resguardar nossa privacidade, Yuri Olivieri e Penélope Laso são pseudônimos. ** - Também, em respeito à privacidade do mestre hindú, seu nome e o endereço eletrônico assinalados são fictícios.

PARTE I

Pierre e Michele

Meu nome é Pierre Mansard. Nasci em 21 de abril de 1634, no vilarejo de Langon, ao sul da cidade de Bordeaux. Meu pai, Jean Claude, um homem grande e robusto, era um abastado senhor de muitas terras, onde se cultivavam magníficas uvas, das quais se extraia um dos melhores vinhos da França de então. Minha mãe, Bernadette, era uma mulher muito bonita, em cujas veias corria o sangue audacioso dos bascos espanhóis, herdado de sua genitora, trazida ao nosso país por meu avô, um negociante de peles e pedras preciosas, que a desposara em Espanha, quando de uma de suas viagens àquele país.

Enquanto meu pai era uma pessoa sisuda, de poucas palavras, dedicado quase exclusivamente ao cuidado de suas terras, ao cultivo das uvas e à produção do vinho, minha mãe era de jeito alegre e extrovertido; mas, por traz de seu permanente sorriso, escondia-se um temperamento explosivo, que raramente aparecia, porém, quando surgia, era um verdadeiro "Deus nos acuda!". Meu pai, conquanto fosse o indiscutível dono das rédeas que guiavam as atividades maiores de nossa pequena família, sabia ceder espaço quando a esposa, por quem era ardentemente apaixonado, fazia as suas quase sempre justificadas exigências. Que me conste, minha mãe não conhecia senão um temor: o divino, talvez por ser, ao contrário de meu pai, uma fervorosa crente em Deus e em Jesus, rígida seguidora dos dogmas absolutistas da Igreja Católica Romana, cuja palavra, na França de então, era mais forte que a do próprio rei. Meu pai, embora cumprisse o dever apostólico, indo à missa todos os Domingos, sempre me pareceu ser, na verdade, um descrente da divindade. Sua crença era a dignidade humana, alcançada através da labuta diária e seu Deus, assim imaginava eu, era a Mãe-Terra. Mas nunca expressava abertamente seu pensamento anti - teológico, ou para não contrariar minha mãe ou por precaução - havia sempre que se cuidar neste sentido, já que o terror implantado pelos Tribunais Inquisitórios permanecia vivo na lembrança de todos os franceses e, afinal de contas, a fúria da Santa Inquisição, apesar de arrefecida, não estava ainda morta!

Eu disse que nossa família era pequena. De fato: ela se resumia a nós três. Minha mãe era filha única, logo, de sua parte não tive tios ou primos. Quanto a meu pai, sim, havia um irmão, solteiro e dois anos mais novo que ele, meu tio Maurice, que raras vezes nos visitava mas, quando fazia, enchia meu coração de alegria e minha alma de esperança. O sério Jean Claude, embora tivesse muito afeto pelo irmão considerava-o um parasita debochado. Para mim, entretanto, Maurice era tudo que eu desejava ser: alegre, bonachão e, ainda por cima, ator, amigo do famoso Moliere e vivendo em Paris, onde escrevia peças e representava nos grandes teatros da cidade.

Não existia, nos idos do século XVII, escolas coletivas. O ensino era individualizado, via de regra ministrado por educadores eclesiásticos. Conquanto esse século viesse a ser conhecido mais tarde como o despontar da Renascença, em que figuras como Moliére, Descartes, La Fontaine, Racine, Shakespeare e tantos outras, abririam brechas de luz nas trevas medievais, para nós, que vivíamos nos campos do interior da França, longe das mudanças que aconteciam nas grandes cidades, como Paris ou Londres, a onda cultural emergente só se faria sentir nas últimas décadas do século. Assim, meu aprendizado, na infância e adolescência, foi moldado pela ideologia da Igreja: o que não se enquadrava nos dogmas da religião, era pecado ou heresia.

Portanto, não fosse uma inesperada conversa tida com meu pai, no dia seguinte ao do meu décimo-oitavo aniversário, eu, possivelmente, viria a ser, mais tarde, apenas um simples administrador de terras e cultivador de uvas, sisudo e compenetrado como meu pai e, como minha mãe, intelectual e filosoficamente tolhido pela ideologia católica. Não teria, de certo, vivido a vida alegre e aventureira que viví, nem conhecido o grande amor que conheci. Porém, talvez tivesse tido uma existência mais longa e sem um término tão cruel e sofredor. Mas, como não nos é dado controlar, senão muito ocasional e restritamente, as rédeas do destino...

Aos dezoito anos eu tinha uma aparência de quinze, era de compleição e estatura medianas, portava longos cabelos escuros e, contrastando com a pele do rosto, um tanto queimada pelo sol do campo, possuía olhos negros e profundos, idênticos aos de minha mãe. E, como já disse, foi nessa época que uma inesperada conversa com meu pai, viria alterar o rumo da minha vida.

Lembro-me bem. Era um agradável fim de tarde de um belo dia de julho do ano de 1651. Regressando de um passeio, ia entrando na casa grande da nossa propriedade, quando um dos nossos serviçais, um tanto acanhadamente, de mim se aproximou e disse:

- Senhor Pierre, seu pai deseja lhe falar. Ele está no escritório a sua espera...

* * *

Pierre entrou no escritório. Jean Claude encontrava-se sentado por traz de sua mesa de mogno, repleta de papeis, contendo a contabilidade dos negócios. Ele ergueu os olhos e apontou para uma cadeira de frente para a mesa.

- Acomoda-te Pierre, precisamos conversar.

Sem dizer palavra, o filho acenou com a cabeça, sentou-se na cadeira indicada e aguardou. Jean Claude alisou a barba, já um tanto encanecida, como seus cabelos, fitou longamente o rosto do filho e começou:

- Acabas de entrar em teus dezoito anos, e acho ser este o momento exato de conversarmos sobre teu futuro. Sei, não só por observação própria, mas também por informações prestadas pelo Padre Vaudame, há anos orientador de teus estudos, que, lamentavelmente, tu não tens muita inclinação para o cultivo da terra. Como o maluco do teu tio, só pensas em teatro e coisas afins e até temo que, como ele, acabes por te tornares um inútil apenas interessado em futilidades. Sucede, porém, que és meu único herdeiro e sobre teus ombros cairá, um dia, a responsabilidade de gerir nossos negócios. Creio que entendes ser teu dever não deixar que tudo que eu, meu pai e meu avô, construímos, venha a se perder, por omissão ou descaso. - Jean Claude fez uma leve pausa e indagou: - Tens consciência disso, não tens?

Pierre pareceu refletir por segundos antes de responder:

- Sim, tenho, mas acredito ser possível conciliar as duas coisas.

O pai ergueu o sobrolho.

- Como assim ?

A resposta do filho veio cheia de convicção:

- Creio que posso dedicar-me ao teatro, que é minha vocação e ainda, se um dia isso se tornar necessário, cuidar do cultivo das uvas e da produção do vinho.

Jean Claude fez um ar de dúvida.

- Falas com muita segurança. Mas, diga-me, como julgas possível representar nos teatros de Paris e tomar conta de centenas de hectares de terra, aqui em Langon, tão longe da capital?

- Não é essa minha idéia, pai.

 

- E qual é tua idéia ?

Pierre ergueu-se e foi até a janela que dava para o pateo interno da casa, cheio de robustas e frondosas árvores, como a buscar na natureza a inspiração para achar as palavras mais adequadas. Sentia que, pudesse naquele momento convencer o pai quanto à viabilidade do que tinha em mente, talvez conseguisse a aprovação dele para concretizar os planos que, há tempos, vinha elaborando. Respirou fundo, voltou a se sentar e disse:

- Pai, permita-me expor a minha idéia, em todos os detalhes, sem ser interrompido. Depois, o senhor julgará e dará sua decisão. E prometo que cumprirei o que o senhor houver por bem decidir.

Jean Claude olhou para o filho com renovado respeito.

- Pierre, tens rosto e corpo de adolescente mas falas como um homem maduro. Vai, expõe o que tens em mente. Ouvirei em silêncio, como pedes, depois decidirei.

O outro começou:

- O senhor se recorda da última visita do tio Maurice, há umas três semanas atrás?

- Sim, mas o que isso tem a ver com o caso ?

- Muito, meu pai.

E diante do olhar surpreso de Jean Claude, Pierre prosseguiu:

- Na ocasião ele falou que iria em setembro próximo para Londres afim de apresentar uma peça de Moliére que havia traduzido para o inglês. Disse também que, já que eu desejo estudar arte dramática, Londres lhe parecia o local ideal para isso. Ainda porque existe uma grande euforia por lá, em virtude do enorme sucesso que vêm fazendo as peças escritas por Shakespeare.

O pai interrompeu

- Shake...quem?

O filho sorriu

- William Shakespeare, tido como o maior teatrólogo de todos os tempos

- Bem, dessas coisas de teatro sabes que pouco entendo. Mas, em minhas viagens por Marseille, Montpellier e Paris, ouço falar muito desse Moliére que há pouco mencionaste e com quem, isso eu sei, teu tio anda trabalhando...mas quanto ao outro...

- Pois é pai, Moliére é de fato um gênio do teatro, que muito honra nossa pátria, mas Shakespeare, pelo menos assim julgo, é ainda maior. Suas tragédias são admiráveis. Li uma recentemente, intitulada Romeu e Julieta. É algo divino...

Pierre parou momentaneamente, com uma expressão sonhadora nos olhos. Depois prosseguiu:

- Pois bem, gostaria de ir com o tio para a Inglaterra. Passaria lá uns dois ou três anos, ou o que fosse necessário para dominar a arte de representar. Depois voltaria, montaríamos um teatro em Bordeaux, onde eu formaria e treinaria uma equipe de diretores e atores. Traduziríamos para o francês as principiais peças de Shakespeare e as apresentaríamos em público. Estou certo que tio Maurice me ajudaria nesse empreendimento e que faríamos um imenso sucesso...

Pierre fez nova pausa, tomou novo fôlego e concluiu:

- E como Bordeaux fica bem perto de nossas terras, tenho certeza que poderia cuidar delas, ao mesmo tempo em que estaria realizando o grande sonho da minha vida: ser ator. É isso aí, pai.

Jean Claude ficou um longo tempo em silêncio, contemplando o rosto do filho, onde podia perceber a ansiedade da expectativa. Pierre, coração acelerado, pálido, de mãos constritas, aguardava o veredicto paterno. A voz veio branda quando, finalmente, o pai falou:

- Pierre, não foi exatamente isso o que idealizei para ti quando nasceste. Mas sinto que o teatro é importante para tua felicidade, do mesmo modo que a minha consiste em cuidar da fertilidade da terra, cultivar as melhores uvas e produzir os melhores vinhos. Se assumes, aqui e agora, o sagrado compromisso de, não podendo eu, um dia, por velhice, doença ou morte, gerir os negócios da família, ocupares o meu posto, com o devido empenho e dedicação, então concedo-te o que me pedes e abençôo-te para que sejas bem sucedido e feliz

Jean Claude fez uma pausa e depois indagou, em tom solene:

- Assumes este compromisso, em nome de Deus ?

Com o coração saltando, agora de júbilo, Pierre respondeu, com a voz trêmula mas carregada de convicção:

- Sim, meu pai. Assumo este compromisso, diante de Deus e em nome da minha honra.

Jean Claude, num gesto raro, ergueu-se, foi até o filho e o abraçou.

- Que então seja assim. Depois comunicarei a tua mãe a minha decisão. Pressinto que ela também ficará feliz.

Em seguida, afastou-se e disse:

- Vem, vamos dar uma volta pelo pátio. A natureza é sempre uma sábia inspiradora. Calcularemos o custo aproximado deste teu empreendimento. Mais tarde, enviaremos uma mensagem a teu tio para que venha até aqui, a fim de cuidarmos dos detalhes relativos a tua viagem e estadia em Londres.

Pai e filho passearam pelo pátio por mais de uma hora, trocando idéias. As despesas relacionadas com a viagem e permanência de Pierre na capital da Inglaterra correriam por conta de um adiantamento de parte da herança do rapaz. Uma antiga propriedade dos Mansard em Bordeaux, situada na praça Jeanne D 'Arc, um ponto central e movimentado da cidade, se devidamente reformada, bem poderia se tornar a sede do futuro teatro pretendido por Pierre. E, à medida que conversavam, o jovem foi notando, com satisfação e surpresa, que o pai parecia estar se empolgando, discretamente, é claro, com os planos artísticos do filho.

***

Pierre passou quatro anos e dois meses em Londres. Os primeiros doze meses na companha de Maurice. Depois, este regressou à França e o sobrinho, já devidamente adaptado à Inglaterra e aos ingleses, continuou seu treinamento. Aprendeu muito e vibrou muito. Conquanto não tivesse tido a oportunidade de atuar em "Romeu e Julieta", sua peça shakespeariana favorita, sentiu-se imensamente feliz e realizado ao desempenhar, com reconhecido êxito, o papel de Horácio em "Hamlet", outra obra-prima do grande dramaturgo britânico.

***

Em Dezembro de 1656, dias antes das celebridades natalinas, Pierre estava de volta a Langon e à casa paterna. Já não mais tinha o ar adolescente anterior à viagem. Embora seu rosto conservasse a antiga jovialidade, era agora um homem maduro, quase tão corpulento quanto o pai. Porém, em termos de atitude, bem mais próximo de seu tio Maurice: sonhador e um tanto bonachão. Não obstante, evoluíra bastante, não só em termos de cultura mas, principalmente, em auto-confiança e determinação.

Assim é que, passados os primeiros dias, em que relatou aos pais, com orgulho e entusiasmo, suas façanhas artísticas nas Ilhas Britânicas, partiu para Bordeaux, a fim de iniciar a construção da primeira casa teatral daquela cidade. E, após dois anos de intensa atividade e com o auxílio de Maurice, que para lá se mudara, o TEATRO SHAKESPEARIANO DE FRANÇA - pois foi este o nome escolhido, abriu suas portas para a estréia da peça "Romeo e Julieta". Além de ter auxiliado Maurice na tradução do texto para o francês e dirigido o treinamento dos participantes, o próprio Pierre tomou para si o papel de Romeo.

E, às 20 horas do dia 17 de janeiro de 1659, com a casa repleta, o pano se abriu e Maurice, postado bem no meio do palco, e seguindo o costume da época, começou a expor o sumário da peça, como prelúdio para o primeiro ato. Por traz das cortinas, nos bastidores, já trajado a caráter, ansioso para entrar em cena, o filho de Jean Claude e Bernadette experimentava o primeiro grande momento de emoção e êxtase da sua vida.

***

A peça foi um estrondoso sucesso. A audiência aplaudiu de pé, exigindo que, por dez vezes consecutivas, as cortinas fossem reerguidas e os atores voltassem ao palco. Finalmente, acabou. Pierre, Maurice, Bernadette e Jean Claude dirigiram-se à La Tavern, o melhor restaurante da cidade, para uma ceia de comemoração.

***

Quase ao término da refeição, várias garrafas vinho já consumidas, um senhor de meia idade e nobre porte, alto e esguio, olhos azuis escuros contrastando com o rosto pálido e liso, enfeitado apenas por um discreto cavanhaque, aproximou-se da mesa dos Mansard. Ele se fazia acompanhar por uma senhora bastante elegante e por uma jovem, de cabelos louros terminando por duas longas tranças, dona de um rosto extremamente belo e em quem o vistoso mas denso vestido de noite não conseguia esconder as formas de um corpo escultural.

O cavalheiro dirigiu-se a Pierre:

- Prezado senhor - disse ele, numa voz sonora e aristocrática - meu nome é Jacques Vadin e peço-lhe que me perdoe a audácia de invadir sua privacidade num momento de tão justa celebração.

Pierre ergueu-se, fez uma ligeira mesura e retrucou:

- Por favor, para nós é uma honra que o senhor se tenha dado ao trabalho de vir a nossa mesa. - Fez uma breve pausa e prosseguiu - Ainda mais quando vem na companhia de uma tão distinta senhora e... - fez uma pausa mais longa, enquanto seu olhar passeava lentamente pela face da jovem e seu coração acelerava - de uma senhorita, dona do mais belo rosto que a meus olhos foram dados contemplar em toda minha vida.

Seguiu-se um longo silêncio, cada um dos presentes expressando na fisionomia sua reação diante do embaraço que as palavras de Pierre haviam produzido. Conquanto não passassem elas de um galanteio, o fato de terem sido dirigidas a uma desconhecida, constituía uma ousadia que arranhava os princípios de boa conduta da época. A elegante senhora empalideceu. Jean Claude pigarreou discretamente. Maurice e Bernadette sorriram, um tanto sem jeito. A jovem enrubesceu. M. Vadin, o único a não demonstrar qualquer reação, salvou a situação, voltando a se dirigir a Pierre, como se nada de anormal houvesse ocorrido:

- Estávamos no teatro e adoramos a apresentação. Para mim, particularmente, foi algo especial, já que conhecia essa magnífica obra de Shakespeare através da leitura da peça, mas, por não ter-me sido possível ir a Inglaterra, não havia ainda assistido a sua representação.

Vadin tirou do bolso um pequeno cartão, passou-o às mãos de Pierre prosseguiu:

- Como o senhor, sou ligado às artes teatrais. Dirijo uma companhia de artistas e sou dono de um teatro em Marselha. Solicito-lhe que, caso lhe seja conveniente, considere uma proposta para apresentar "Romeu e Julieta" em nossa cidade, tão breve quanto possível.

Pierre contemplou o cartão e respondeu, num tom formal que escondia o júbilo interior:

- Honra-me sobremodo o seu convite e pretendo aceitá-lo, tão logo termine a temporada aqui em Bordeaux.

E fazendo um gesto em direção às cadeiras vazias dispostas em torno da mesa indagou:

- O senhor e suas ilustres acompanhantes aceitariam juntar-se a nós, para uma taça de champanhe ou um copo de vinho ?

O outro balançou a cabeça

- Agradeço, mas precisamos ir agora. Minha irmã e minha sobrinha deverão regressar à Marselha amanhã, bem cedo. Eu, contudo, ficarei um pouco mais tempo aqui, hospedado no Hotel Le Marqui. Caso deseje, poderá entrar em contato comigo. Quem sabe não poderíamos discutir sobre sua apresentação em minha cidade, saboreando um bom vinho...- sorriu, e dirigindo o olhar a Jean Claude, concluiu a frase -... de Bordeaux, naturalmente, pois não há outro melhor em toda a França.

Jean Claude fez um aceno de agradecimento e Vadin voltou a falar:

- Antes de irmos, porém, permita-me que faça as devidas apresentações. Fez um gesto na direção da senhora:

- Minha irmã, a Condessa Marie Thérèse de Clermont.

Pierre adiantou-se e tocou com os lábios a mão que a senhora havia estendido:

- Encantado, Sra. Condessa e perdoe o arroubo das minhas palavras, talvez inadequadas ao momento, mas que não pude refrear, já que irresistivelmente arrebatado pela beleza da jovem que a acompanha.

Marie Thérèse tentou um sorriso que se perdeu na intenção e respondeu com elegância, embora a sonoridade da voz não ocultasse a mordacidade das palavras:

- Além de um grande ator, M. Mansard, o senhor se revela um inspirado poeta. E, como é comum entre poetas, não soube conter sua excessiva impetuosidade.

Pierre enrubesceu diante da reprimenda. E, conquanto nem ele nem a Condessa pudessem então antever, aquele "choque" sutil e aparentemente inconseqüente, seria apenas o prelúdio de confrontos maiores, num futuro nada distante.

Vadin, sempre imperturbável, quebrou o mal estar, voltando a falar:

- E esta é Mlle. Michelle, filha da Condessa. Os olhos negros de Pierre encontraram os olhos verdes da moça, num olhar longo e silencioso, talvez demasiadamente longo e talvez apenas aparentemente silencioso... Mas, desta vez, ele não fez nenhum comentário. Apenas curvou-se diante da jovem que, ainda com a face enrubescida, retribuiu da mesma forma.

Pierre fez um gesto vago em direção a mesa e disse:

- Meu pai, Jean Claude Mansard. Minha mãe Bernadette e meu tio Maurice Mansard.

Todos se ergueram e acenaram com a cabeça. Vadin e suas acompanhantes retribuíram o gesto. Em seguida, Vadin disse um ligeiro, "au revoir", deu os braços a irmã e à sobrinha e os três afastaram-se, lentamente, em direção à saída do restaurante.

O grupo voltou a se sentar e Jean Claude indagou, dirigindo-se ao filho:

- O que deu em ti, Pierre, para tamanha ousadia ? A moça é, de fato, muito bonita, mas, sendo ela uma desconhecida, deverias ter expresso tua admiração de forma mais discreta. Dada a circunstância, teu excessivo galanteio acabou tornando-se deselegante.

Pierre passeou o olhar pela mesa, depois encarou o genitor e disse, em tom sereno, conquanto as palavras soassem de forma enigmática:

- Compreendo que, dada a circunstância, como o senhor ressaltou, minhas palavras possam ter provocado um certo mal estar. Mas o tempo tornará esta aparente irreverência totalmente irrelevante...

Desta vez foi Bernadette quem indagou:

- O queres dizer com isso, filho ?

- Que no instante em que meus olhos pousaram no rosto da jovem Michelle, fiquei perdida e irremediavelmente apaixonado e que em futuro, queira Deus não esteja muito distante, eu irei desposa-la.

***

Na tarde do dia seguinte, Pierre fez-se anunciar ao "concierge" do Le Marquis, solicitando falar com Jacques Vadin. Minutos depois, os dois se acomodavam em torno de uma mesinha, num do salões de recepção do hotel. Jacques pediu uma garrafa de vinho de Bordeaux. Enquanto aguardavam, falaram de coisas amenas. Foi quando Vadin ficou sabendo que Pierre, além do seu amor pelo teatro, era apaixonado por certas atividades esportivas, como a caça a raposa e as competições com "les petites chariots" ou pequenas charretes, uma modalidade de esporte parecida com as corridas de "bigas" da antiga Roma.

Chegada a bebida, ergueram os copos e Vadin fez um brinde:

- Ao continuado sucesso da atual apresentação de "Romeu e Julieta" e ao futuro sucesso dessa peça em Marselha

- O senhor parece mesmo decidido a apresentá-la em sua cidade - comentou Pierre.

- E porque não estaria? Ela é maravilhosa. E a propósito, a tradução que o senhor fez do inglês para a nossa língua foi perfeita: mantiveram-se intactas a beleza e a precisão do texto. Congratulo-lhe também por isso, senhor Mansard.

O outro deu de ombros.

- Na verdade este mérito não me pertence e sim a meu tio Maurice. Ele é um profundo conhecedor dos dois idiomas.

Vadin fez um gesto de compreensão e indagou:

- Quanto tempo imagina a peça ainda ficará em apresentação aqui em Bordeux ?

- Umas seis semanas, no máximo.

Jacques fez alguns cálculos mentalmente.

- Terminaria então lá pelo inicio de março, correto ?

- Correto

- E quanto tempo levaria para montar os cenário e treinar o elenco lá em Marselha ?

Pierre pensou por alguns minutos antes de responder.

- Creio que umas três a quatro semanas.

- Ótimo. Com que então, se acordarmos sobre o assunto, poderemos estrear "Romeo e Julieta" em nosso teatro lá pelo final de maio ou início de junho. Excelente época para se iniciar uma temporada artística. E como Marselha possui uma população maior que Bordeaux, a peça poderia ficar em cartaz por muitos meses. Concorda?

- Creio que sim.

ierre fez uma breve pausa, deu um sorriso um tanto acanhado e falou:

- Sem desejar ser indelicado, gostaria, se me permite, mudar, momentaneamente, de assunto.

- Pois não. Fique à vontade.

O outro hesitou alguns segundo e disse:

- Gostaria que me falasse um pouco sobre sua sobrinha.

Vadin deu um sorriso compreensivo.

- Parece que o senhor ficou realmente impressionado com Michelle.

Pierre bebeu um gole de voinho e assentiu com a cabeça.

- De fato, ela impressionou-me muito. Não me recordo de haver visto uma jovem tão bela e graciosa em toda minha vida. Jacques depois o copo sobre a mesa, sorriu novamente e falou: -

Uma vida que não é ainda assim tão longa. Mas antes de satisfazer seu desejo, permita-me que lhe pergunte, senhor Mansard, qual é a sua idade ?

O jovem corou ligeiramente e respondeu num tom um tanto defensivo:

- Completarei 25 anos em abril. Mas porque a pergunta, senhor Vadin? Por acaso acha-me demasiadamente jovem para ser diretor de teatro ou demasiadamente velho para querer desposar sua sobrinha?Muito bem, já satisfiz sua curiosidade, agora, satisfaça a minha: fale-me de Michelle

- Muito bem. Tentarei contar o essencial. Michelle, como já sabe, é filha, a propósito, única, de minha irmã, a condessa de Clermont. Tem apenas 15 anos, mas é brilhante, estudiosa e um tanto madura, em pensamentos, para a idade. O pai morreu três anos depois dela haver nascido e, desde então, tenho sido uma espécie de pai substituto. Sou solteiro, meu caro amigo - permita-me tratar-lhe com essa intimidade, já que, alem de vir a ser, como espero, seu sócio no empreendimento que estamos planejando executar, sou vinte anos mais velho.

Pierre fez um aceno positivo com cabeça e disse:

- Honra-me que me trate com tal intimidade. E, se permite, farei o mesmo. Logo, chame-me apenas de Pierre euo tratreipor Jacques. E você está certo. Em breve, nos tornaremos parceiros de negócios. Alem do que, espero vir também contar com sua anuência e, mais que isso, seu apoio, em um outro assunto que tenho em mente.

Vadin fez um ar de surpresa

- Não estou entendendo, meu caro...

Pierre juntou as mãos e disse: - Logo entenderá, mas agora, por favor,continue falando de Michelle.

Vadin adotou um ar de resignação.

- Muito bem. Como ia dizendo, sendo solteiro e não tendo gerado filhos, passei a ter por Michelle a ternura e os cuidados que se tem por uma filha. A condessa, como certamente percebeu, é uma pessoa extremamente conservadora e impõe à filha uma rígida educação, sob a orientação de um padre jesuíta. Ela estuda pintura clássica, francês, latim, italiano, teologia e etiqueta. Isto vem transformando-a em uma jovem bastante prendada. Mas, por ser eu artista e possuir uma formação liberal e talvez ainda por causa de nossas mútuas afinidades, é a mim que Michelle confidencia suas aspirações e desejos. Ela é uma pessoa extremamente alegre, mas forçada a conter sua natureza expansiva por causa de minha irmã e por um certo temor diante das intimidações de seu mentor e confessor jesuíta.

Vadin fez uma longa pausa, fitou seu interlocutor \bem dentro dos olhos e disse:

Pois vou surpreendê-lo. Sabe qual é o maior desejo de Michelle?

Pierre sacudiu cabeça. O outro sorriu e prosseguiu:

- Ser atriz, meu caro amigo. Por isso viemos à Bordeaux para assistir a sua peça. Não apenas por minha própria vontade, mas, principalmente, pelo entusiasmo que se apossou de Michelle quando soube que "Romeo e Julieta" seria apresentada aqui. Ela já tinha lido a estória em um livro que lhe havia emprestado. Como já referi, seu maior desejo é vir um dia a representar. E, assim me disse, depois de ter lido o tal livro, sonha em fazer o papel de Julieta. Pois bem, acabamos vindo, após uma grande luta para convencer minha irmã, a qual, diga-se de passagem e para meu espanto, gostou da peça, embora a ela se referisse como sendo "um tanto pecaminosa"...

Pierre não se conteve e interrompeu a peroração de Vadin.

- E Michelle, o que ela achou da apresentação ?

- Ficou fascinada. Foi ela quem, discretamente, pediu-me que fôssemos depois ao restaurante. Queria ver de perto o diretor de peça e o ator que fizera o papel de Romeo. No caso concreto, você. Só que, depois, mostrou-se um tanto confusa com seu inesperado galanteio.

- Ela ficou zangada ? - a indagação veio carregada de ansiedade e expectativa.

Vadin abriu mais um de seus contidos e, Pierre começava a disso se dar conta, maliciosos sorrisos.

- Não, zangada não. Apenas confusa, como disse. Mais tarde, reservadamente, para que a mãe não ouvisse, cochichou-me ao ouvido que você continuava sendo agindo na vida real como um autêntico Romeu.

O herdeiro dos Mansard sentiu o coração dar saltos dentro do peito. Cautelosamente, fitou Vadin bem dentro dos olhos e perguntou:

- Acha que ela gostou de mim?

Desta vez Jacques encarou o outro com seriedade.

- Estou certo que sim, Pierre. Mas lembre-se que Michelle, apesar do porte e da aparência, é pouco mais que uma criança. Ela é uma flor que está buscando desabrochar. Seus sentimentos são puros, porém sua mente é facilmente impressionável e seu coração parece-me ainda demasiadamente frágil para enfrentar os caminhos muitas vezes incertos da paixão, que pode ser povoado de rosas, é verdade, mas também de espinhos que soem deixar marcas indeléveis. Por isso, meu caro amigo, se o seu sentimento por Michelle vier a evoluir para algo mais que um simples empolgamento provocado pela beleza dela, cuide para que ela, caso venha a corresponder ao seu afeto, não sofra desnecessárias desilusões.

Fez uma pausa e concluiu:

- Por favor, não tome minhas palavras como advertência ou ameaça. Veja nelas apenas a preocupação de um tio, na verdade, de um pai.

Seguiu-se um longo silêncio, enquanto acabavam de esvaziar os copos de vinho. Finalmente, Pierre reiniciou a conversa: -

Muito bem, Vadin, falemos de negócios. Mas antes tenho algo para lhe confessar. Ontem, tão logo o senhor se retirou com sua irmã e sua sobrinha, eu disse aos meus familiares que um dia, num futuro que não antevejo distante, irei desposar a Michelle. Chame-se a isso obsessão repentina, intuição ou o que mais se entenda, mas asseguro-lhe que nunca tive tanta certeza de alguma coisa quanto tenho dessa.

Pela primeira vez, Vadin não conseguiu manter-se imperturbável. Sua boca se abriu e ele ficou fitando Pierre com um olhar abestalhado. Não se poderia dizer se a expressão estampada em seu semblante era de surpresa, incredulidade ou de ambas. Devagar, como se saísse de um sonho, foi recuperando o controle. Finalmente disse:

- Pierre, como não creio que sejas totalmente louco, tenho de aceitar que estás, realmente, falando sério.

Sentindo que a situação estava, pelo menos temporariamente, sob seu controle, o jovem Mansard decidiu que era a hora de jogar com tudo. E não deu trégua:

- Sim, muito sério. Mas voltando ao nosso negócio. Pode cuidar da parte que lhe compete, pois garanto-lhe que, lá pelo meado de março, estarei com meu elenco em Marselha, pronto para iniciar o ensaio e estrear a peça tão logo seja possível. Os detalhes financeiros deverão ser tratados com meu tio. Tão logo o senhor o deseje, ele irá a Marselha cuidar disso. De acordo, em principio ?

Vadin fitou longamente o rosto do jovem Mansard, depois disse:

- Sim. em princípio estamos de acordo. Sabe, Pierre, já o tinha como um excelente ator e diretor de teatro. Surpreendo-me, agora, com seu sentido pragmático e sua imensa determinação - fez uma pausa, sorriu e concluiu: - Estou começando a achar que você talvez seja mesmo um bom candidato à mão de Michelle.

Foi a vez de Pierre sorrir. "Agora vem a parte mais importante", disse consigo mesmo, antes de retomar o diálogo: -

Então, Jacques, chegou a hora de lhe expor sobre o outro assunto que mencionei ter em mente. E que, para conseguir leva-lo a bom termo, necessitarei de sua total colaboração.

Jacques já estava se familiarizando com a tática do outro de ir, aos poucos, persuadindo as pessoas no sentido de obter apoio às suas idéias. Mas como estava também começando a admirá-lo e a gostar dele...

- Muito bem, diga do que se trata.

Pierre movimentou o corpo para a frente, debruçando-se sobre a mesa e disse:

- Irei direto ao assunto. Tenho uma reivindicação a fazer em relação a apresentação da peça em Marselha.

- Qual ?

- Que seja dado à Michelle o papel de Julieta.

Vadin tornou a abrir a boca em sinal de espanto. É, pensou, este jovem é mesmo bastante ousado e inteligente. Michelle contracenando com ele...Romeu e Julieta! Uma estratégia perfeita para seduzir uma jovem: oferecer a ela a concretização de seu maior sonho.

Enquanto Jacques tentava refletir sobre a viabilidade da proposta de Pierre, este prosseguiu:

- Não acha que isso a faria feliz ?

Vadin resolveu mostrar ao outro que a astúcia de Pierre não lhe passara desapercebida

- Sim, quanto a isso não há a menor dúvida. Como também não existe a menor dúvida que sua sugestão consiste num muito bem elaborado estratagema para seduzir minha sobrinha.

O outro não se deu por achado.

- Sim, mas seduzir para desposá-la.

- Ainda assim um jogo de sedução.

- Correto. Mas existirá arma maior que a sedução para se conquistar um coração feminino e fazer com que a mulher aceite desposar o homem que a deseja?

Vadin soltou um longo suspiro.

- Tens razão, meu prezado e genial Pierre. De fato não existe.

- Conto então com seu apoio ?

O outro acenou afirmativamente.

- Sim, podes contar comigo. No mínimo, estaremos dando à Michelle uma grande alegria. Na verdade, sempre imaginei vê-la brilhando no palco. O teatro tem sido a maior razão da minha vida. A tua idéia é, como já referi, um tanto ousada, mas gosto desta tua ousadia. Sim, terás todo o meu apoio. Porém há algo que tem de ser levado em consideração para que teu plano seja factível. Como também existe um certo obstáculo a ser superado para que ele se concretize.

-Vamos ao "algo".

- Quem garante que Michelle tenha vocação para atriz e, ainda que o tenha, seja capaz de representar um papel tão difícil como o de Julieta?

Pierre não pestanejou:

- A minha intuição garante. Senti essa vocação nos olhos dela, no breve instante em que nossos olhares se cruzaram. Quanto a ensiná-la a desempenhar o papel de Julieta, cuidarei pessoalmente disso durante os ensaios.

Pierre fez uma pausa, abriu uma sacola que trazia à tiracolo, tirou dela um maço de papeis enrolados em uma tira de couro e colocou-o sobre a mesa.

- Este é o roteiro da nossa adaptado da peça, tal como o senhor assistiu ontem à noite. Apesar de gênio, Shakespeare se mostra, as vezes, demasiado prolixo. Por isso, cortamos alguns diálogos e encurtamos outros. Dessa forma, reduzimos o tempo da apresentação, tornando-a mais suave para a platéia e sem perder a essência do enredo. Quando o senhor expuser a Michelle o nosso plano, sugira que leia o texto e comece a ir "vivenciando" Julieta. Assim, na ocasião dos ensaios ela já terá uma boa noção do papel que irá representar. Pressinto que Michelle vai se sair muito bem. Concorda?

- Talvez estejas certo. Mas, como disse, teremos de enfrentar dois sérios obstáculos: minha irmã e o jesuita. Estou seguro que ambos opor-se-ão tenazmente à idéia de minha sobrinha tornar-se atriz.

Pierre fez um gesto de concordância.

- Sei disso. Mas não antevejo maiores problemas com o padre. Também tive por tutor um educador religioso e sei como a cabeça deles funciona. Ameaçam com promessas de infernos e demônios, porém se a gente põe pé firme, acabam se dando por vencidos. Não por convicção ou benevolência, mas para não perderem um fiel. Para a Igreja é ainda preferível aceitar um ator católico em seu rebanho do que ficar com um carneiro a menos. O obstáculo real é a condessa. Contudo, não me parece insuperável. Se o senhor pressioná-la devidamente, o que, não tenho dúvida, é capaz de fazer, ela acabará cedendo. Afinal de contas Michelle estará atuando sob a direção do tio...

Pierre fez uma pausa, para que o outro digerisse o que acabara de ouvir. Não demorou muito. Com o olhar um tanto desconfiado, mas aonde faiscava uma certo lampejo de expectativa, Jacques indagou, caindo na armadilha:

- Como sob minhas ordens ? Não estou entendendo...

- Pois já vai entender. É meu desejo que o você seja o diretor geral da peça, quando ela for apresentada em Marselha. Eu, além de fazer o papel de Romeu, serei apenas um diretor-assistente para ajudar durante a fase de ensaio - fez uma breve pausa e concluiu, em tom propositadamente casual, buscando ocultar a sutileza dos seus propósitos: - Principalmente para ensaiar a nossa Julieta. Afinal, como o senhor mesmo disse, Michelle é uma novata e, assim, vai necessitar de um treinamento especial. Não lhe parece?

E Vadin entendeu tudo, e muito bem. Como era astucioso esse Pierre. Conferindo a ele, Jacques, o honroso cargo de diretor-geral, garantia sua total colaboração no sentido de superar a oposição da condessa. E, concentrando-se em treinar exclusivamente sua sobrinha, criava a oportunidade de passar bastante tempo ao lado de Michelle e, com a força de seu inquestionável carisma, seduzi-la.

Nada mais havendo para ser dito ou tratado no momento, beberam outro copo de vinho, tornaram a brindar o sucesso de "Romeu e Julieta" e se despediram. Pierre voltou logo para o teatro, com o coração transbordando de esperança. Ao que tudo indicava sua estratégia estava dando certo. Era só continuar persistindo... Horas mais tarde, a bordo de uma carruagem, a caminho de Marselha, Vadin também começava a traçar seus próprios planos...

***

Marselha. Quatro dias depois. Início de tarde.

Na aprazível mansão dos Clermont, em um aposento que hoje seria tido como um misto de sala de lazer e biblioteca, pelas estantes repletas de livros e por peças de arte espalhadas por todos os cantos, Jacques Vadin e a irmã estão acomodados em confortáveis bergères de madeira trabalhada, espaldar alto e braços sólidos e revestidas de macias almofadas, de frente um para o outro, bebericando o chá da tarde, um hábito que alguns membros da elite monárquica francesa haviam copiado dos aristocratas que viviam do outro lado do canal da Mancha. Os cumprimentos e as banalidades de costume já haviam sido trocados. Chegara a hora de se falar de assuntos mais objetivos.

Bonita e elegante como sempre, rosto bem maquiado, cabelo preso em "coque", a jovem senhora posou a xícara de chá sobre a mesinha a seu lado e perguntou ao irmão:

- Então, Jacques, como foi tua conversa com aquele atorzinho atrevido e pretensioso ?

Vadin ergueu as sobrancelhas e replicou, com certa dose de ironia:

- Se estás te referindo àquele genial ator, o primeiro francês a traduzir uma peça de Shakespeare, diria que nossa conversa foi excelente. A tal ponto que tornamo-nos praticamente associados em um empreitada que vai ser, estou certo, muito aplaudida por teus amigos aristocratas, nesta mini corte marselhesa que tanto enfeitas com tua beleza.

Marie deixou passar o irônico elogio.

- Queres dizer que vão representar "Romeu e Julieta" em teu teatro...

- Correto.

- E quando será este augusto acontecimento ?.

Vadin também ignorou a ironia. Marie não perdia por esperar!

- Pensamos iniciar os ensaios em março. Quanto à estréia, creio que será no final de maio ou princípio de junho.

- Queres dizer que vamos tornar a ver o famoso Pierre Mansard vestido de Romeu, perdido de amores por Julieta, e vice-versa...

Desta vez, Jacques resolveu reagir:

- Porque tanta ironia, Marie, se tu mesma gostaste da apresentação lá em Bordeaux ?

- Não foi má, confesso, mas a ousadia do teu associado irritou-me profundamente.

- Por ter-se encantado por tua filha? Ou não consideras a beleza de Michelle um bom motivo para encantamento ?

- Para encantamento, sim, mas não para ousadia.

Jacques endureceu o tom da voz:

- Marie, peço-te que olhes esse rapaz com menos rigor. Afinal ele é o produtor e principal ator da peça da qual eu serei o diretor-geral.

A condessa sorriu:

- Agora entendo porque o defendes. Mas, está bem, tentarei ser mais amena com o nosso "Romeu". Desde que ele não se bandeie muito para o lado de minha filha...

- Melhor assim, cara irmã. Ainda porque vou necessitar da tua influência social para garantir que tenhamos a casa cheia na estréia.

Marie resolveu contemporizar.

- Farei o possível. Agora, diga-me, ele vai trazer o elenco completo? Uma equipe já experimentada terá mais chance de melhor desempenho. O público e os críticos de Marselha são bem mais exigentes que os de Bordeaux.

- Sei disso e Pierre também deve saber, já que pretende trazer todo, ou melhor, quase todo o elenco que está representando por lá atualmente.

Vadin fez uma pausa, tomou um gole de chá e completou:

- A jovem que está fazendo o papel de Julieta não virá.

- Porque ? A meu ver, ela teve um bom desempenho. Estará a moça doente ou terá tido algum atrito com o seu amigo Pierre ?

- Nem uma coisa nem outra, apenas sucede que Pierre tem outros planos.

Marie mexeu-se na poltrona. Sem que soubesse porque, as palavras de Jacques provocaram-lhe uma certa inquietação.

- Como assim ?

- Pierre deseja tentar outra pessoa para o papel.

- Imagino então que ele deve estar querendo uma daquelas atrizes experimentadas do corpo de teatro de Moliére.

- Não, ele não quer nenhuma atriz de Paris.

- De onde, então ?

Havia chegado o momento decisivo pelo qual Vadin estava esperando. Ele deu um longo suspiro, fitou intensamente o rosto da irmã e disse:

- Daqui.

Os olhos da condessa se arregalaram. Conquanto não fosse uma "expert', Marie, como a maioria das damas bem educadas da sociedade francesa da época, possuía algum conhecimento sobre teatro. Ela ficou um momento indecisa e, depois, soltou uma sonora gargalhada.

- Daqui? Ora, Jacques, em teu elenco, e ele é o único nesta cidade digno desse nome, só há duas atrizes, por sinal muito fracas, a meu ver. Ou será que teu jovem amigo quer retroceder em matéria de arte teatral, usando rapazes maquiados para papeis femininos ?

Vadin fez um gesto negativo com a mão.

- Nada disso. Ele quer experimentar uma novata ?

- Daqui ?

- Sim.daquí.

O coração da condessa acelerou. Um desagradável pressentimento começava a se formar em sua mente.

- Quem ?

- Michelle.

- Minha filha ?

- Quem mais ?

A condessa ergueu-se abruptamente e foi postar-se junto as pesadas cortinas que cobriam a janela do aposento, mantendo-se, durante alguns segundos, de costas para o irmão. Depois, virou-se, encarou Vadin e falou, asperamente:

- Uma Clermont atriz . Vocês devem ter enlouquecido. Já imaginou o deboche de que eu seria alvo, não só aqui em Marselha, mas também na corte, em Paris, se permitisse que tal insanidade acontecesse?

Vadin manteve-se imperturbável. Fitou a irmã e disse, tranquilamente:

- Sente-se e acalme-se, Marie Thérèse.

Ao ouvir essas palavras, a condessa estremeceu ligeiramente e tornou-se pensativa. Na sua infância e adolescência, Jacques só a tratava por Marie Therese quando, na condição de irmão mais velho, ia repreende-la por alguma coisa que tivesse cometido de errado. Depois, com ela já adulta, isso somente ocorria quando, durante uma discussão entre ambos, Vadin dispunha de algum argumento suficientemente forte para encerrar o debate em favor dele. Que trunfos julgava Jacques possuir agora para demovê-la da intenção de impedir que Michelle participasse da peça ? Não conseguia imaginar nada, assim de momento, mas certamente havia alguma coisa. Seu corpo estremeceu novamente diante da incerteza.

Lentamente, ela voltou a se sentar, olhou para ele e esperou. Vadin ajeitou o corpo na poltrona e começou a falar:

- Marie Térèse, não te esqueças que, conquanto vindo de uma família honrada como a dos Vadin, tu te tornaste nobre não por herança de sangue mas por casamento. Logo, não deverias de importar tanto com os cochichos dos parasitas da corte do Rei. Lembro-te ainda que os que fazem teatro não são, como muitos esnobes por aqui gostam de dizer, apenas um bando de boêmios irresponsáveis. Nós, artistas, às vezes curtimos um bom vinho, nas ruas ou nas tavernas, em camaradagem, pelas horas tranquilas das madrugadas. É possível que por isso sejamos considerados boêmios. E daí? Mas não somos parasitas, como esses cortesões que tu tanto gostas de cortejar. Somos amantes da arte de escrever peças, dirigi-las e representá-las. E, tu bem o sabes, não se trata de tarefas fáceis. Exigem dedicação e muito trabalho. Portanto, não são atividades indignas para ninguém, inclusive para uma Clermont em cujas veias corre também um sangue igual ao meu e ao teu, o digno sangue dos Vadin.

Marie, embora sentindo-se um tanto subjugada pelas palavras do irmão que, reconhecia, eram difíceis de serem contestadas, ainda assim, persistiu, por arrogância e teimosia:

- As atividades teatrais talvez não sejam indignas, mas são, decerto, impróprias para uma jovem nobre como Michelle. Sim, nobre, porque em suas veias corre, como disseste, o sangue dos Clermont. A minha nobreza é por casamento, como insististes em ressaltar, mas a dela, e isso tens de reconhecer, é por nascimento. -

Marie Térèse, para mim essa questão de ser ou não ser nobre, seja por direito de nascimento ou de casamento, é totalmente irrelevante. Não é por ai que se mede o valor de uma pessoa, e sim pela honra e pelo caráter. Não obstante, gostaria de lhe informar que Elizabeth I tinha muitos artistas como amigos e ia, frequentemente, aplaudir as apresentações. E que o primeiro grande teatro de Londres, onde muitas das peças de Shakespeare foram pela primeira vez apresentadas, chamava-se Teatro Elizabeteano.

Como as palavras de Vadin não contivessem a contundência que ela receava, a condessa recuperou a coragem.

- Não importam teus argumentos Jacques. Michelle é minha filha e tem apenas quinze anos. Logo a mim e somente a mim cabe determinar o que ela deverá ou não fazer. Portanto, proíbo-lhe de insistir neste assunto. Como já disse, não quero ser motivo de deboche ou escárnio na corte. Michelle não se fará atriz. E mais: não posso impedir que o insolente Pierre venha representar em Marselha mas, enquanto ele por aqui estiver, minha filha permanecerá trancada nesta mansão.

Vadin limitou-se a sorrir. A arrogância da irmã definira o rumo a ser seguido. Bem, se é assim que ela quer, então, vamos lá, disse consigo mesmo.

- Minha cara Marie Térèse, acho que te preocupas demasiada e desnecessariamente com os efeitos que uma filha atriz possa causar a tua reputação. Pois bem, acho que, se dás assim tanta importância à dignidade do nome Clermont que hoje usas, melhor seria que te preocupasses com algo que, certamente, pode causar-te estragos muito mais contundentes, junto a esses hipócritas que fazem parte do teu círculo de amizade, para não mencionar o que a respeito de ti falariam na corte real.

A condessa empalideceu. Sua voz saiu trêmula: a firmeza anterior havia desaparecido

- A que estás te referindo, Jacques ?

Ele ignorou a pergunta, fazendo outra:

- Que idade tens agora, Marie Térèse, trinta e um, trinta e dois ?

A irmã não entendeu a questão, mas respondeu:

- Trinta e dois

- E ficaste viuva aos vinte, certo?

- Sim.

- E não voltastes a casar...

- Todo o mundo sabe disso.

- E não achas que deve parecer estranho que uma mulher bonita e ainda relativamente jovem haja renunciado aos prazeres da cama ?

Marie enrubesceu mas persistiu na defensiva:

- Não vejo nada de estranho nisso. Em nossa sociedade, muitas viúvas, se não voltam a contrair matrimônio, permanecem fiéis á memória de seus finados maridos.

- Mas não tu, Marie Térèse.

A condessa voltou a empalidecer, desta vez mais intensamente.

- O que estás... querendo dizer, Jacques ?

Vadin partiu firme para o ataque.

- Que essa nossa sociedade ficaria extremamente chocada e tua reputação seriamente arranhada se viesse ao conhecimento publico o seu aparentemente secreto caso de amor com um homem dez anos mais novo do que tu.

Marie passou a mão sobre a testa. Seu rosto, de pálido havia se tornado lívido.

- De...que...estás.. falando?

- De um jovem oficial de nossa marinha real que, por coincidência, tem o mesmo prenome do ator por quem mostras tanta aversão. Refiro-me ao tenente Pierre Marie de Rastignac, a quem costumas receber, na calada da noite, aqui, nesta mansão, duas a três vezes por semana...

A condessa sentiu que não adiantava negar. Suas mãos apertaram o braços da poltrona em busca de apoio.

- Como...soubeste... disso ?

Vadin sorriu, preparando-se para o golpe final.

- Não importa. Como também a mim pouco importa o fato de teres um amante. Na verdade acho perfeitamente natural e até saudável. Mas será que teus hipócritas amigos pensariam da mesma forma que eu ?

Seguiu-se um longo silêncio. Afinal, e agora timidamente, Marie perguntou

- Jacques, porque fazes chantagem com tua própria irmã ?

A voz de Vadin suavizou

- Porque, devido a esnobismo, arrogância e prepotência, pretendes privar Michelle, a quem amo como se fosse minha própria filha, da sua vontade e, possivelmente, da sua vocação. Nunca tiveste a sensibilidade de procurar conhecer as aspirações dela. Não, ela tem de ser o que desejas e aprender apenas o que aquele padre fanático considera conveniente...para a Igreja, naturalmente.

Vadin ergueu-se e fitou a irmã, que permanecera sentada, esfregando as mãos e olhando ansiosamente para ele.

- Muito bem, Marie, proponho-te um acordo. Cuidarei para que teu romance permaneça secreto, enquanto assim o desejares. Em contrapartida tu permitirás que Michelle tenha a oportunidade de ensaiar o papel de Julieta. Se ela vai ou não tornar-se uma atriz, isso dependerá de seus próprios méritos - fez um pausa e concluiu - Estamos acertados ?

Marie permaneceu quieta por alguns segundos, com os olhos fixos nos do irmão. Depois acenou afirmativamente com a cabeça.

Vadin curvou-se, beijou a testa da irmã e, em seguida, a passos lentos, deixou o aposento.

***

Ainda naquela mesma tarde, caminhando de braços dados com Vadin pelos jardins da mansão, Michelle não conseguiu sofrear sua alegria ao receber as boas novas do tio. Os olhos verdes estreitavam-se de contentamento e brilhavam de emoção.

- Quer dizer que mamãe concordou e eu vou mesmo poder ensaiar o papel de Julieta ?

- Hum, hum !

Ela deu um caloroso beijo na face de Vadin e disse:

- Tio Jacques, você é maravilhoso. Mas como conseguiu convencer mamãe ?

Vadim sorriu.

- Ah, isto é segredo, meu anjo. O importante é que ela não criará qualquer obstáculo.

A jovem soltou uma risadinha

- Tio, você é um bruxo, um bruxo muito querido. Hoje é o dia mais feliz da minha vida.

O outro sacudiu a cabeça.

- Entendo sua alegria. Porem esteja certa que a felicidade será ainda maior quando, ao término da apresentação, na noite da estréia da peça, escutar os aplausos da platéia dirigidos para você. Ai sim, saberá o que é realmente sentir-se feliz.

A face de Michelle se iluminou por um instante, mas logo seu semblante sombreou e um ar de dúvida apareceu no rostinho bonito.

- E se eu fracassar, tio ?

Ele virou-se na direção da sobrinha e fitou-a bem dentro dos olhos

- Isso não vai acontecer porque você é uma atriz nata, Michelle.

Vadin fez um pausa, retirou de um dos bolsos do longo casaco que trajava, o maço de papeis que o jovem Mansard lhe havia dado dias antes e passou-o às mãos da moça.

- Pierre mandou isso pra você. É o texto da peça. Decore o máximo que puder, procure imaginar-se como sendo a própria "Julieta" e verá que será bem menos difícil do que pensa. Além do mais, ele próprio, Pierre, vai se encarregar do seu treinamento.

Michelle sentiu um "apertozinho" no peito.

- Ele disse isso ?

- Disse.

Vadin pensou um pouco e prosseguiu:

- E vou lhe dizer algo mais. Pierre é uma pessoa excepcionalmente ativa, bastante inteligente e eu gosto dele. Mas parece-me um tanto afoito em assuntos sentimentais. Por isso, acho que você deve ser um pouco cautelosa em relação a ele.

Michelle parou de caminhar e falou:

- Suas palavras me confundem, tio. Esclareça, por favor.

Vadin também parou

- Veja, vocês se encontraram apenas uma única vez e sequer trocaram uma frase. Tudo limitou-se a um elogio da parte dele e a uma troca de olhares, um tanto longa, é verdade. Mas foi só isso. Certo?

A lembrança de Michelle voltou-se para o par de olhos negros que pareciam querer devassar-lhe a alma e as palavras sedutoras que fizeram com que seu coração disparasse e seu rosto enrubescesse. Uma sensação confusa mas agradável,que, vez por outra, a mente fazia recordar. Porém limitou-se a murmurar:

- Hum, hum..

- Pois bem, sabe o que ele me confessou ? Que, tão logo nós nos retiramos do restaurante, informou aos pais que, um dia, casaria com você. Então, Michelle, não lhe parece um comportamento estranho ou, no mínimo, precipitado ?

O rosto da jovem ficou rubro. Ela hesitou alguns segundos, depois soltou um longo suspiro e disse:

- Talvez não.

Jacques fez um ar de espanto.

- Como assim ?

Michelle arrumou os pensamentos por alguns segundos e depois disse:

- Tio, eu nunca tive segredos para você. Por isso vou também fazer-lhe uma confissão, mas que deve permanecer apenas entre nós dois e que a mãe nem sonho a respeito disso.

Vadin olhou-a com curiosidade.

- Faça, "ma chérie".

- No momento em que M. Mansard me olhou, lá no restaurante... não, acho que foi antes...sim, foi quando assistia a peça, vendo e ouvindo Romeu, ocorreu-me o mesmo pensamento...

- Como assim?... você está querendo dizer que...

- Que, um dia, iria me casar com ele.

Vadin olhou bem dentro dos olhos da sobrinha. Ela enrubesceu mas sustentou o olhar.

- Meu Deus, - disse Jacques, voltando agora os olhos para os céus - você fala sério mesmo. Minha Nossa Senhora, dois lunáticos, dois maravilhosos lunáticos sonhadores...

E não falou mais nada, Nem Michelle. Voltaram a se dar os braços e retomaram a caminhada.

***

Dois meses depois, na manhã do dia 22 de março de 1659, Pierre, acompanhado de Maurice, chegou à Marselha, com o elenco e os cenários da peça "Romeu e Julieta. Foram alegremente recebidos por Vadin que os conduziu ao hotel em que iriam ficar hospedados durante sua estadia na cidade. À tarde, Jacques levou Pierre e Maurice ao Teatro Charlemagne, de sua propriedade, onde a peça seria ensaiada e apresentada. Ele era bem mais amplo que o Teatro Shakespeareano de Bordeaux, podendo abrigar, folgadamente de 400 a 600 espectadores. Ao fim da vistoria do palco e já nos bastidores, Vadin apontou para uma porta no final do corredor:

- Aquele é um camarim que faz vez de meu escritório. Venham comigo. Tem uma pessoa lá, aguardando para encontrar vocês.

Pierre sentiu o descompassar do coração, pois logo intuiu de quem se tratava. E Não se enganou. Quando o anfitrião abriu a porta, depararam com uma jovem, de pé, junto a uma mesa repleta de papéis, um ar de expectativa no semblante e um amplo sorriso iluminando, ainda mais, a beleza do rosto, emoldurada por cabelos louros arrumados em duas longas tranças que desciam sobre os ombros. Jacques se adiantou e anunciou:

- Sei que já se conhecem mas, ainda assim...Senhores, minha sobrinha, Mademoiselle Michelle Clermont. Michelle, meus hóspedes e associados, M.Maurice Mansard e seu sobrinho, M. Pierre Mansard.

Maurice curvou ligeiramente o corpo, num gesto de cumprimento, ao qual a moça respondeu com a mesura característica das mulheres bem educadas. Pierre caminhou na direção da jovem, parando a poucos centímetros de distância. Estendeu os braços e reteve, suavemente, as mãos da jovem entre as suas. Como era apenas ligeiramente mais alto do que ela, os olhos ficavam quase no mesmo nível. Olhando-a fixamente ele disse:

- Os deuses foram bondosos comigo permitindo que voltasse a contemplar tanta beleza. Michelle enrubesceu, mas seu sorriso fez-se ainda mais amplo.

Quase num murmúrio, ela respondeu ao cumprimento num tom de voz suave e sonoro:

- M. Mansard é tão galante quanto seu personagem Romeu.

Ele rapidamente contestou: - Nós dois iremos conviver e trabalhar juntos por um longo período. Logo, melhor será que dispensamos certas formalidades. Assim, por favor, trate-me apenas por Pierre e eu a chamarei simplesmente de Michelle.

E abrindo o mais sedutor de seus sorrisos, concluiu:

- Concorda....Michelle ?

Ela hesitou não mais que alguns segundos. Assentiu com a cabeça e respondeu:

- Concordo...Pierre.

E, por minutos, continuaram de mãos dadas, olhos fixos um no outro, perdidos, cada um, em seus próprios pensamentos, como que ignorando a presença dos dois tios e do mais que se passava ao derredor. Maurice pigarreou. Pierre dando-se então conta da situação, soltou as mãos de Michelle e virou-se para Vadin:

- Obrigado por ter-me proporcionado tão agradável surpresa.

E voltando-se agora para Maurice falou:

- Bem, tio, creio que podemos ir agora. Há muito por preparar. E se Jacques estiver de acordo, iniciaremos os ensaios amanhã bem cedo...

- Estaremos prontos - retrucou Vadin - começarei por adaptar os cenários que trouxeste às dimensões do nosso palco.

Pierre sorriu: - Excelente - e virando-se para Michelle, indagou: - Você já leu o texto que lhe enviei pelo seu tio ?

A jovem rebateu prontamente, com o rosto corado esbanjando entusiasmo:

- Sim, e acho que já decorei ada palavra do meu papel.

Sempre sorridente Pierre concluiu:

- Magnífico. Então amanhã iniciaremos. Eu farei Romeu e você fará Julieta. Começaremos pela cena do baile, quando os dois se encontram pela primeira vez.

E com uma mesura, os Mansard, tio e sobrinho, se retiraram, sob o olhar pensativo de Jácques e o olhar de felicidade de Michelle.

***

Em torno das 08:00 horas da manhã seguinte, lá estavam, no palco do Charelsmagne, conversando em pequenos grupos, os figurantes do elenco, aguardando o inicio do ensaio da peça. Maurice não viera, pois tinha ido tratar de assentos financeiros com o tesoureiro do teatro. Embora convidada por Vadin, a condessa recusara vir, alegando não desejar ver "o triste espetáculo de uma Clermont treinando para atriz". Forçada pela chantagem do irmão, concordara com a participação da filha na peça, mas continuava inconformada com a situação.

Vadin já estava ativo, orientando a montagem do cenário da festa noturna na mansão dos Capuletos. Começariam por aí, para proporcionar o ensaio do primeiro encontro entre Romeu e Julieta.

Em um canto do palco, afastados dos outros, Pierre e Michelle conversavam em voz baixa. Um tanto timidamente ela perguntou:

- Pierre, estou curiosa a respeito de uma coisa.

- Diga.

- O que aconteceu com aquela moça que fez o papel de Julieta em Bordeaux ? Ela teve um ótimo desempenho. Você simplesmente afastou-a do elenco ?

Ele sacudiu a cabeça.

- Não, apenas liberei-a para que ela pudesse aceitar o convite que recebeu de Moliére, para fazer um papel em uma das peças que ele estreará em breve.

E dando um sorriso malicioso, concluiu:

- Estou certo que Louise está adorando Paris.

O que Pierre omitiu, na explicação, foi o fato de que o convite à atriz ter resultado de um pedido de seu tio Maurice a Moliére.

Michelle deu um suspiro

- Sinto-me aliviada. Não gostaria de roubar o lugar de ninguém. Mas há outra coisa que também gostaria de saber. Ela fez uma ligeira pausa, arrumou os pensamentos e indagou:

- Pierre, eu não tenho nenhuma experiência com teatro, e, certamente, você conhece pessoas bem mais qualificadas. Por que então me escolheu para o papel de Julieta ?

Ele aproximou-se um pouco mais dela. Sentiu ser aquele o momento propício para iniciar o processo de conquista do coração da jovem. Olhando-a bem dentro dos lindos olhos verdes, disse:

- Por duas razões Michelle. A primeira porque seu tio falou-me de seu amor pelo teatro e de seu desejo de se tornar atriz. A segunda, bem mais importante, porque apaixonei-me por você no instante em que lhe vi e imaginei que, se contracenássemos juntos, eu teria a chance de lhe conquistar para fazer com que concordasse em vir a se casar comigo.

O rosto de Michelle enrubesceu e seu coração acelerou. Ela desviou os olhos, enquanto tentava refazer-se da surpresa e enconrtar o que dizer. Depois de alguns segundos, ainda sem encará-lo, murmurou:

- Você está mesmo falando sério ?

Pierre colocou a mão de leve no ombro dela. Michelle estremeceu, mas não se afastou. Então ele respondeu:

- Sim, Michelle, muito sério. Mas, por favor, diga-me, com toda sinceridade: ficou zangada com a minha revelação ?

A jovem moveu a cabeça de modo que seus olhos encontrassem os dele. E, com o rosto ainda rubro, num tom de voz encabulado, que revelava o quanto de criança ainda existia dentro dela, respondeu:

- Não, zangada não, só confusa. E...Pierre.. eu acho... que gostei muito...de ouvir o que você disse...

E ficaram em silêncio, deixando que apenas os olhos transmitissem, um para o outro, as emoções de que se achavam ambos possuídos. De repente, a voz de Vadin, vinda da outra extremidade do palco, interrompeu a mútua contemplação e o doce e silenciosos sonho.

- Ei, Pierre, o cenário da festa na casa dos Capuletos está montada. Que tal você e Michelle virem até aqui, para iniciarmos o ensaio ?

Pierre sorriu para a companheira, tomou-a pela mão e falou, suavemente:

- Vamos começar... Julieta ?

De mãos dadas, os dois jovens, já agora envolvidos pelo manto mágico da paixão, atravessaram o palco e foram se postar no local designado pelo diretor da peça. E começaram a ensaiar.

***

ATO I Cena V

É noite. Num dos salões na casa dos Capuletos, começa a festa. Os músicos estão tocando, algumas pessoas põem-se a dançar. Uns escondem o rosto com máscaras. Não querem ser reconhecidos. Romeu, por ser da família dos Montecchios, inimigos figadais dos Capuletos, é um deles. Ainda assim Teobaldo, primo de Juulieta, o reconhece e diz ao tio que vai expulsá-lo do local. Mas o chefe da clã dos Capuletos, que diz nada ter contra o jovem e não deseja escândalos em sua festa, impede-o de agir. Julieta entra no salão de braço dado com um senhor. Romeu a vê e, encantado com a beleza da jovem e sem dar conta de ter sido identificado, indaga a um criado:

"Que dama é aquela que enriquece o braço daquele cavalheiro ? "

"Desconheço-a, senhor "- responde o serviçal.

Julieta começa a participar da dança. Romeu (falando consigo mesmo): " Oh, ela ensina a tocha a ser luzente...Vou procurá-la ao terminar a dança... Meu coração teve, até hoje, a dita de conhecer o amor ? Não... Oh, que simpleza! Na verdade, nunca soube até agora o que é beleza..."

Termina a dança. Julieta afasta-se para um canto do aposento e vai postar-se por traz de uma coluna, envolta por cortinas, de onde não pode ser vista pelas pessoas que permanecem no salão. Romeu, que não a perdera de vista um só instante, aproxima-se dela silenciosamente e toca-a no rosto, de leve, com a ponta dos dedos. Julieta se sobressalta, mas ele, retirando a máscara, fita-a, bem nos olhos e murmura, docemente:

"Se a minha mão profana o relicário, em remissão aceito a penitência; meu lábio, peregrino solitário, demonstrará, com sobra, reverência."

Julieta responde: "Ofendeis vossa mão, bom peregrino, que se mostrou devota e reverente. Esse é o beijo mais santo e conveniente."

Romeu : ""Por acaso os santos e os devotos não têm boca?"

Julieta : "Sim, peregrino, só para orações."

Romeu: "Deixai, então, oh santa! Que esta boca mostre o caminho certo aos corações."

Julieta faz um ar de provação e diz: Sem se mexer, o santo exalta o voto"

Romeu chega mais junto dela e fala: "Então fica quietinha: eis o devoto; em tua boca me limpo dos pecados'."

Pierre aproxima-se ainda mais de Michelle e beija-a, de leve, nos labios. A jovem fica um tanto atônita e murmura:

- Pierre, é isso o beijo? Eu nunca tinha sido beijada antes...

Ele encosta a boca no ouvido dela e diz, baixinho:

- Apenas uma mostra. Vai, continua a desempenhar o papel de Julieta. Logo lhe mostrarei o que é um beijo de verdade.

Ela recua, seu rosto fica de novo rubro. Mas se recupera e reassume o papel.

Julieta : "Que passaram, assim, para os meus lábios?"

Romeu: "Pecados meus? Então os quero retornados."

Pierre toma Michelle nos braços e torna a beijá-la, agora com intensidade. Mas ela permanece de lábios fechados. Ele sacode a cabeça e murmura:

- Não é assim que Romeu e Julieta se beijam.

Ela fica ainda mais rubra. Está por demais encabulada, mas não quer estragar o papel de Julieta. Cria coragem e sussurra:

- Ensina-me então...como...como devo proceder.

- Abre um pouco a sua linda boquinha - responde Pierre, seu rosto também afogueado.

Ela obedece. Pierre toma-a nos braços e a beija, sugando-lhe a lingua e os lábios. Ela hesita, apenas um momento. Mas logo retribui, imitando os movimentos dele. E os dois se beijam, agora demorada e apaixonadamente.

Vadin grita:

- Bravo, muito bem, perfeito

E todo o elenco aplaude, com entusiasmo, o prolongado beijo, marco inicial do grande e eterno amor entre Romeu e Julieta.

* * *

E os ensaios prosseguem sob a competente e entusiástica direção de Jacques Vadin. A medida que o tempo passa, mais e mais Michelle vai "deslanchando" e, a cada dia, seu desempenho melhora. Ao término do treinamentos do ATO II sua interpretação como Julieta já é considerada excelente. Nos momentos em que contracena com Pierre. ela atinge um máximo de perfeição. Os dois atuam como se estivessem de fato, "vivendo" os amantes de Verona, de tal forma parecem expressar suas intensas paixões.

Fora do palco, a única oportunidade que têm para estar juntos é nos intervalos do meio-dia, quando todo o elenco se desloca para uma taverna próxima afim de almoçar. Pierre e Michelle procuram sempre manterem-se um pouco afastados dos demais para conversar mais à vontade.

O diálogo não varia muito, sempre em torno de um ou dois temas; Michelle, com seu ar tímido característico, pergunta:

- Como estou me saindo nos ensaios ?

E Pierre responde:

- Você tem sido maravilhosa. E para não perder a chance, acrescenta: - E a cada dia, torna-se mais bela e desejável. Sabe, Michelle, sinto-me tremendamente apaixonado por você.

Ao que ela retruca, enrubescendo:

- Eu também sinto algo forte em relação a você. Mas será que se trata mesmo de amor ?

Pierre tenta então sondar melhor os sentimentos da moca:

- Quando nos beijamos em cena, o que você sente ?

A face dela torna-se ainda mais rubra.

- Sinto um enorme calor tomando conta do meu corpo todo.

Pierre toma as mãos da moça entre as suas e prossegue:

- Você gosta de estar, como agora, junto a mim, de mãos dadas ?

Ela suspira e confessa:

- Adoro

- E quando termina o ensaio e você vai embora, o que é que sente ?

Michelle enche-se de coragem, põe de lado a timidez e admite:

- Um grande vazio...fico muito tempo pensando em você, aguardando o sono que custa a chegar. Finalmente, dou-me conta que, logo no dia seguinte, bem cedo, iremos estar juntos de novo no teatro, Então durmo feliz...

Michelle faz um pausa, desvia os olhos e conclui:

- Mas quando acordo, fico com receio de que, se lhe contar todas essas coisas, você possa achar que não eu passo de um menina boba.

Pierre aperta as mãos da jovem e a tranqüiliza:

- Não há nenhuma tolice nisso. Esses sentimentos apenas provam que você também me ama.

- Como pode ter certeza disso ?

- Porque sinto exatamente as mesmas coisas. E isso, meu bem, chama-se amor, amor recheado de paixão.

Ela volta a fitá-lo bem nos lhos e diz:

- Como você fala bonito, Pierre...

- O amor fala por mim.

Michelle assume uma expressão de tristeza e diz:

- As vezes sinto-me triste...triste e temerosa.

Pierre toca de leve no rosto dela e indaga;

- Tristeza por que? Receio de que?

Ela torna a suspirar.

- Quando a apresentação da peça terminar, você vai voltar para Bordeaux e eu vou ficar aqui...

Ele sacode a cabeça

- Nada disso. Você partirá comigo

- Como assim ?

- Nós nos casaremos antes do final da temporada.

O coração de Michelle dispara. Num gesto inesperado, toma a mão de Pierre e a beija, docemente.

- Você está falando sério ?

- Nunca falei tão sério em toda minha vida. Um mês antes do encerramento da peça, pedirei a sua mão.

O rosto dela se ilumina mas logo se torna sombrio.

- Temo que mamãe não permitirá.

Pierre volta a alisar a face da jovem e diz, convicto:

- Ela vai permitir sim, minha querida ?

- Por que fala assim com tanta segurança.

- Porque o amor vence tudo.

Vadin se aproxima deles e diz, sem esconder um certo tom de ternura na voz:

- Lamento interromper o idílio do casalzinho apaixonado. Mas vejo que vocês sequer tocaram na comida. Tratem de almoçar... e depressa. Está quase na hora de voltarmos ao teatro.

Pierre faz um gesto vago com a mão. Michelle cora. Vadin se afasta. Os dois namorados se entreolham, sorriem e põem-se a comer.

***

Certa manhã, para surpresa geral, a condessa aparece no teatro para assistir o ensaio. Vadin a recebe sorridente e a conduz até a primeira fila, sentando-a a seu lado. Depois fala, com um leve toque irônico na voz:

- Que imenso prazer nos concede, querida irmã. E numa ocasião deveras excelente. Pierre e Michelle vão ensaiar, agora, um dos mais belos trechos da peça. Atente para o desempenho de sua filha.

Ela ignora a ironia e apenas diz:

- Estarei atenta.

ATO III Cena V

Romeu, está sendo perseguido pelos soldados do príncipe de Verona. Protegido pela escuridão, havia conseguido, na noite anterior, subir pela árvores e entrar pela janela no quarto de Julieta. Passaram a noite se amando, consumidos pelo fervor da paixão. Começava a clarear quando Julieta acorda e se depara com Romeu se vestindo, preparando-se para partir. Ela esconde um bocejo e pergunta :

"Já vais partir? O dia está ainda longe. Não foi a cotovia que ouviste e sim o rouxinol que, todas as noites, canta nos galhos da roseira."

Romeu: "Não, amor, foi a cotovia, o arauto da manhã. Devo ir. Já está ficando claro. Ou parto agora ou morrerei, ficando."

Julieta: "Não é do dia aquela claridade. É a luz de um meteoro. Ainda é noite. Espera, não precisas partir tào cedo."

Romeu aproxima-se dela e diz: "Fico. Que importa que me prendam, que me matem. Serei feliz assim, se o quiseres. Ficar é para mim grande ventura. Partir é dor, vem logo morte dura!"

Batem à porta. É a ama que avisa: "Senhora. Já é dia. Vossa mãe dirige-se para cá."

Julieta se sobressalta, passa da ilusão à realidade e diz, preocupada: "Estava enganada, meu amor. Quem cantava era mesmo a cotovia.É dia. Foge. Depressa"

Romeu beija-a e dirige-se para a janela: "Então, adeus, meu amor"

Julieta: "Notícias tuas quero ter toda as as horas."

Romeu: "Não deixarei passar um só momento, sem te mandar contar o meu tormento."

Julieta: "Oh! Pensas mesmo que ainda voltaremos a nos ver?"

Romeu: "Não o duvides, amor meu. Adeus."

E Romeu se retira pela janela.

O elenco aplaude. Vadin vira-se para a irmã e indaga:

- Então, o que achaste da interpretação da tua filha? Não estava uma perfeita Julieta ?

A condessa, um tanto desconcertada, responde:

- Não posso deixar de admitir que ela saiu-se muito bem nessa cena.

Jacques olha-a com seriedade e diz: - Não só nessa, Marie, mas em todas. Michelle está se revelando uma excelente atriz.

E acrescenta, com certa maldade:

- Principalmente quando contracena com Pierre. Ambos atuam com tamanha perfeição, que dir-se-ia estarem vivendo, de fato, uma grande paixão.

- É precisamente este o meu receio - replica a condessa. - Quanto a ti, Jacques, parece que a idéia te agrada imensamente.

Vadin limita-se a mostrar seu enigmático sorriso.

***

Parecia que toda a aristocracia de Marselha se fazia presente na estreia da peça, na noite de 12 de junho de 1959. A platéia estava virtualmente lotada, graças, em parte, ao fato de que a condessa, cumprindo o que prometera ao irmão, envidara, ainda que contra a sua própria vontade, todos os esforços para que seus amigos comparecem em massa ao Teatro Charlesmagne.

Até o tempo se mostrara deveras favorável: a suave brisa que soprava do Mediterrâneo atenuava o calor do verão no sul da França, tão comum naquela época do ano.

Um dos dois camarotes de honra estava ocupado pelo Governador da Província e senhora e pelo representante do Rei, acompanhado de sua dama. No outro, encontravam-se os pais de Pierre, que haviam chegado de Bordeaux naquela mesma tarde, e pela condessa. A poltrona ao lado da dela, permaneceu vazia até alguns minutos antes do pano se erguer.

De súbito, penetra no camarote um jovem de vistosa aparência, trajando o uniforme de gala de Real Marinha Francesa. A condessa de pronto reconhece o amante e empalidece, quando ele, um tanto sem graça, senta-se ao seu lado. Ela vira-se para o recém-chegado, e em baixa voz, e da maneira mais discreta que a surpresa lhe permite, pergunta:

- Por Deus, Pierre Marie, o que fazes aqui ?

O tenente, embora pouco à vontade, responde, no mesmo tom:

- Vim no lugar de meu pai, já que ele, por estar com a gripe, não tinha condição de comparecer. E, como convidada de honra, a família de Rastignac não poderia deixar de se fazer representar.

- E certamente o convite partiu de meu irmão, correto?

- Assim me foi dito. Papai e o senhor Vadin são grandes amigos de longa data.

Fez uma pausa e prosseguiu, baixinho:

- Entendo, Térèse, que não convém a ti que apareçamos juntos em público, mas não me foi possível recusar.

- Não poderias ter pedido a teu pai que mandasse outra pessoa da família?

Pierre-Marie baixou ainda mais o tom da voz:

- Não foi um pedido do pai ao filho, mas uma ordem do almirante ao tenente. Que poderia fazer?

A condessa suspirou.

- Não havia me dado conta que seu pai é almirante e comandante da frota do Mediterrâneo.

Dessa vez o tenente baixou de tal forma o tom da voz que o que saiu não passou de um sussurro:

- Mas não te preocupes, querida, serei o mais discreto possível.

A condessa fitou o jovem com ternura e, também sussurrando, disse:

- Sei disso, meu amor. Sucede que, sendo tu, esta noite, meu par oficial, manda a etiqueta que, no intervalo, saiamos de braços dados para nos servimos dos refrescos.

O jovem revirou os olhos

- Seja então o que Deus quiser. Se alguém, por malícia, imaginar a verdade, que fazer? Somos vítimas de uma coincidência do destino.

A condessa sorriu, discretamente

- Não foi coincidência. Estou segura que esse nosso encontro foi tramado por meu irmão. Ele sabe o que se passa entre nós.

- Como descobriu ?

- Vadin é muito esperto. Deve ter algum espião entre meus criados. Alias, desconfio tratar-se da ama de Michelle. Por certo ela nos viu, em uma das noites, quando eu te conduzia para minha alcova, e contou para ele.

- Mas por que o senhor Jacques faria isso ? É teu irmão. Por acaso planeja nos expor ou espalhar por toda parte que somos amntes? Meu Deus, Térèse, se preciso for, para proteger-te a honra, afastar-me-ei de ti, embora de coração partido.

A condessa empalideceu.

- Nem penses nisso, querido, Não sei se conseguiria sobreviver sem nossos momentos de amor.

- Que devermos fazer, então ?

- Agir com toda a naturalidade. Não creio que desconfiem de nada. Muito menos acredito que Vadin deseje levar a público o nosso romance. Está apenas mostrando seu poder. Talvez um aviso da parte dele, assustando-me para que não o contrarie em relação a um certo assunto.

Pierre Marie assumiu um ar de indignação.

- Mas isso é chantagem! Afinal, o que deseja o seu irmão ?

- Não estou bem certa, mas desconfio que ele deseja que eu não me opnha ao casamento de Michelle.

- De Michelle? Com quem?

- Com o ator que contracena com ela na peça. Breve verás os dois representando.

O tenente ergueu o sobrolho.

- Romeu e Julieta...

- Sim , meu doce amor, Romeu e Jullieta...

O oficial, ignorando, momentaneamente, a discrição, fitou a amante bem dentro dos olhos e disse:

- E por que não, Térese? Por acaso não vivemos nós um romance parecido ?

A condessa sustentou o olhar do amante e respondeu

- É verdade, Pierre...pensando bem, por que não ?

Nesse exato instante Vadin surgiu no palco para, como rezava a praxe, apresentar para a plateia a introdução da peça. E a condessa e o tenente se calaram para escutar as palavras introdutórias do diretor-geral.

***

A estreia de Romeu e Julieta em Marselha provocou um sucesso ainda maior do que havia provocado em Bordeaux, ficando em cartaz por cerca de quatro meses, a última apresentação ocorrendo no dia 26 de novembro de 1659.

Um mês antes, Pierre e Michelle foram falar com Vadin, em seu camarim-escritório, no Charlesmagne.

O ator foi direto ao assunto:

- Jacques - disse ele, com convicção e seriedade - Dentro de mais ou menos trinta dias, encerraremos a temporada e eu voltarei para Bordeaux. Mas não voltarei só. Assim, pretendo, amanhã à tarde, antes do espetáculo, procurar a condessa em sua casa e pedir a mão de Michelle em casamento. Mas não sei qual será a reação de Madame Clermont. Portanto, espero contar com seu apoio.

Vadin fitou Pierre por algum tempo, depois virou-se para a sobrinha e indagou:

- É este também o seu desejo, Michelle?

Embora corando, como de hábito, a resposta foi categórica:

- Sim, tio. Amo Pierre e nem posso imaginar a idéia de virmos a nos separar. Logo, casarei com ele, Espero que mamãe concorde, mas se ela recusar, nós fugiremos para Bordeaux, tão logo termine a temporada e...seja o que Deus quiser.

Vadin ergueu-se da cadeira, deu umas voltas pelo pequeno aposento, parou e cerrou os olhos por alguns segundos, como que imerso em profundos pensamentos. Afinal, abriu os olhos e fitou, por um longo momento, os jovens apaixonados que, de pé a sua frente, aguardavam, com a ansiedade e expectativa estampados em seus rostos. Depois, sério e solene, disse:

- Não desejo que esse belo romance entre vocês tenha um final nem de longe parecido com o dos personagens que representam na peça. Sempre tive por você, minha querida sobrinha, o amor que um pai dedica a uma filha. E por você, meu bravo Mansard, sinto uma grande amizade e uma enorme admiração. Tenho seguido dia a dia, o progresso desse idílio e pressinto, no fundo de meu coração, que esse relacionamento foi traçado lá em cima, no céu, pelos deuses que determinam os caminhos de nossas vidas. Sim, vou intervir em favor dessa união. Sei como sustar qualquer objeção por parte de minha irmã. Pierre e Michele não terão o destino de Romeu eJulieta. Vocês se casarão, como desejam e, estou certo e rezarei por isso, que, enquanto viverem, serão sempre muito, muito felizes.

Emocionada, com os olhos rasos d'água, Michelle abraçou o tio e beijou-lhe a face. Depois, Pierre trocou um forte aperto de mão com Vadin e, em seguida, repetiu o gesto carinhoso dela.

***

Naquela mesma noite, terminado o espetáculo no teatro, Vadin fez-se anunciar na mansão dos Clermont. Pouco depois, trancou-se com a condessa no aposento que fazia vez de biblioteca. Conversaram durante muito tempo. Quando Jacques finalmente se retirou, pairava em seus olhos um brilho de triunfo.

***

Em torno das três da tarde do dia seguinte, Pierre se deteve diante da grades de ferro do portão de entrada da mansão dos Clermont, e ficou, por algum tempo, contemplando o bem arrumado jardim, carregado com as flores da primavera. Seu amor deveria estar agora recolhida ao quarto, esperando, ansiosa, o resultado do encontro entre sua mãe e seu amado. Ele respirou fundo e puxou a cordilha que acionava o sinete. Um som metálico fez-se ouvir, vindo da entrada do casarão. Logo, um criado vestido a caráter veio ao seu encontro. O jovem ator declinou seu nome, o serviçal abriu o portão e acompanhou Pierre até uma das salas de visitas, onde a condessa, de pé, junto a uma poltrona de espadar alto, o aguardava. A hora do encontro havia sido previamente combinada entre Marie e Vadin, o qual passara a informação ao herdeiro dos Mansard. Ela apontou para um cadeira próxima, convidando-o a sentar-se. Pierre recusou com um gesto da cabeça, adiantou uma passada, curvou-se diante da senhora, tocou-lhe a mão, de leve, com os lábios e disse:

- Se me permite, condessa, prefiro permanecer de pé.

- Como queira - respondeu ela, sentando-se na poltrona.

Pierre adotou uma expressão respeitosa mas não perdeu tempo com preâmbulos:

- Como a senhora já foi informada por M.Vadin, estou aqui para pedir, formalmente, a mão de sua filha, na intenção de desposá-la antes do término da temporada de apresentação de nossa peça. Intento regressar a Bordeaux logo depois e desejo levar Michele comigo, na qualidade de minha esposa.

Marie ergueu ollhar e fitou longamente o rosto do seu interlocutor, antes de falar, um tanto secamente:

- Confesso, Sr. Mansard, que não idealizei para Michelle um casamento tão precoce, como também sempre desejei que, quando isso viesse a ocorrer, ela desposasse um dos cavalheiros de nosso circulo social.

Pierre empalideceu diante do que se afigurava uma mal disfarçada ofensa, mas achou por bem permanecer calado e esperar que a condessa continuasse com sua dissertação. Sentindo que havia dado o recado que desejava, ela prosseguiu, agora num tom mais ameno:

- No entanto, entendo que não sou dona do coração da minha filha. Como também admito que, apesar do senhor ter-me causado uma impressão um tanto negativa, quando fomos apresentados em Bordeaux, tenho hoje uma outra opinião, bem mais favorável, a seu respeito. Assim, se este for o desejo de Deus e se, de fato Michelle o ama e pretende desposá-lo, não criarei nenhum embaraço à realização desse casamento.

Um misto de júbilo e surpresa estampou-se no rosto e Pierre. Procurou o que dizer, mas a emoção não lhe permitia encontrar as palavras adequadas. Foi deixando seu corpo escorregar para a cadeira que a anfitriã lhe havia oferecido e, ainda um tanto atônito, continuou calado. A condessa percebeu o embaraço dele e sorriu discretamente. Um sorriso de satisfação de quem teve o consolo e o gostinho de conseguir ganhar uma pequena batalha numa guerra perdida por antecipação. Depois, puxou uma cordilha disfarçada por trás da cortina a seu lado. Logo, um criado apareceu e ela determinou-lhe que fosse buscar Michelle.

Enquanto aguardavam, Marie voltou a falar, encarando o provável futuro genro:

- Mas imponho uma pequena condição.

Pierre fez uma expressão de sobressalto. Tinha sido fácil de mais até então. Sua anfitriã de certo reservara alguma surpresa desagradável para ele. E, quando tudo parecia tranquilo, eis que surgia algo para complicar as coisas. O receio em torno do que poderia vir, soltou-lhe a voz. Esforçando-se para aparentar uma calma inexistente, perguntou:

- De que se trata, senhora condessa?

- Apenas de um detalhe, mas, para mim, e possivelmente também para minha filha, muito importante. Que vocês se casem aqui em Marselha, na catedral de Notre Dame de la Garde. Foi lá que eu me casei e Michelle foi batizada.

O alivio tomou conta de Pierre e as palavras da condessa fizeram-lhe sentir que ela não era tão dura como, até então, havia aparentado. Na verdade, pensou, como todas as mulheres, a condessa possuía um lado sentimental. E, naquele momento, o jovem ator começou a gostar da futura sogra.

O pensamento foi interrompido pela entrada de Michelle no aposento. Ela estava linda, toda vestida de branco, o que realçava ainda mais a beleza de seus olhos verdes. Pierre se ergueu. A jovem foi até a condessa e beijou-lhe a testa. Em seguida, esticou os braços para o seu amado. As mãos se uniram e os olhos se encontraram num olhar doce e prolongado. A experiente condessa reconheceu, naquela troca de olhares, a existência de uma profunda paixão. O que a levou a se lembrar de uma outra, envolvendo outro Pierre, um jovem oficial da marinha francesa, o seu mui querido amante clandestino. Então ela sorriu. Mas, desta vez, não havia ironia ou amargura no sorriso. Apenas calor e ternura.

Após um breve e amistoso colóquio entre os três, ficou acertado que o casamento teria lugar na Notre Dame de Garde, dentro de três semanas, sábado, 15 de novembro do ano de 1659. O tempo necessário para que corressem os proclamas e se aprontasse o vestido de noiva de Michelle. E que a condessa cuidaria de todos os detalhes. Vadin havia vaticinado com precisão: o destino de Michelle e Pierre seria, pelo menos por agora, bem diferente do de Julieta e Romeu.

***

Os pais de Pierre chegaram dois dias antes das bodas e ficaram hospedados na mansão dos Clermont. A condessa, numa inesperada mas bem vinda mudança de atitude, após haver dado seu consentimento, enchera-se de entusiasmo e e tomara para si a direção dos preparativos. E a cerimônia foi um espetáculo maravilhoso.

O interior da catedral estava toda ornamentada com as mais lindas flores que os campos da França ainda produziam naquela época do ano. Um coral de setenta jovens adolescentes castrados, conhecidos como os pequenos canários da Ópera de Marselha, aconchados pelos sons de um gigantesco órgão, entoaram, em latim, cânticos religiosos tradicionais e músicas adequadas às cerimônias de casamento. D. René Martin, arcebispo da diocese, celebrou o matrimônio, auxiliado por dois monsenhores e dez "coroinhas".

Pierre, ladeado pelos pais e por Maurice, todos usando os trajes de rigor da época, aguardava, à esquerda da banqueta de mármore, onde os noivos iriam se ajoelhar, a chegada da sua amada. À direita, a condessa, trajando um vestido azul marinho, pregueado de pequenos diamantes, irradiava beleza e contentamento, ladeada por um garboso oficial da Guarda Real, com o uniforme de gala coberto de medalhas e que tinha vindo de Paris, na qualidade de representante do Rei de França. A elite de Marselha lotava os bancos da Notre Dame de la Garde.

Michelle, esfusiantemente linda, toda de branco, os loiros cabelos, caídos sobre os ombros, totalmente revestidos de flores, no melhor estilo da França campestre da época, entrou na igreja, conduzida pelo elegante Jacques Vadin e caminhou, lentamente, pela nave, sob os olhares cobiçosos dos homens e os olhares invejosos das mulheres, até chegar junto do sorridente noivo, que dera um passo adiante para recebe-la das mãos do orgulhoso tio.

Minutos depois, ajoelhados, lado a lado, receberam do arcebispo o sacramento de consagração da Santa Igreja, unindo-os diante de Deus e repetiram os sagrados votos de que unidos permaneceriam, "até que a morte os separasse".

***

A "lua-de mel" aconteceu na própria mansão dos Clermont e nos bosques e jardins que cercavam a cidade, já que não dispunham de tempo suficiente para uma viagem de núpcias, uma vez que a peça continuaria em cartaz por ainda dez dias, e o espetáculo exigia a presença de seus principais participantes.

A última apresentação teve uma consagração superior a da estreia. E já se comentava, até mesmo nos círculos artísticos de Paris e Londres, que a bela Michelle, agora Madame Mansard, tornara-se a melhor entre todas as atrizes que, até então, tanto em França quanto na Inglaterra, haviam representado a Julieta de William Shakespeare.

***

Três dias após o encerramento da temporada, o casal partiu para Bordeaux. Foram morar em uma bela mansão nos arredores da cidade, onde viveriam pelos próximos catorze anos. Pierre continuou dedicado às atividades teatrais. mas ainda encontrava tempo para ajudar o pai - que começava a dar os primeiros sinais de cansaço trazido pela idade - na administração da produção e uvas e vinhos. Nos momentos de folga, participava das corridas de charretes, apaixonada mania que vinha da adolescência, conquanto o fizesse sob os protestos da esposa, para quem esse esporte era perigoso e ameaçador.

Vez por outra, aos domingos, Pierre levava Michelle a passear, em sua charrete predileta, pelas estradas dos campos próximos . Ele dirigia com perícia, embora, ocasionalmente, levado pelo entusiasmo, corresse em demasia, o que assustava a esposa, a qual, agarrando com força os braços de ferro do pequeno coche, implorava ao marido que reduzisse a velocidade. E ele, eterno apaixonado, sorria e obedecia, mas, logo depois, sem que disso se desse conta, por força do hábito, voltava a correr até que Michelle novamente o advertisse.

Certa vez, apavorada por ter a charrete se desequilibrado ligeiramente, quando uma das rodas bateu de encontro a uma pedra largada na estrada de barro, ela disse ao marido:

- Pierre, queira Deus minha intuição esteja errada, mas essa sua mania de correr nessas malditas charretes, ainda será motivo de nossa perdição.

Ele puxou as rédeas, fazendo om que o cavalo se detivesse e o veículo parasse. Virou-se para a esposa, beijou-a ternamente nos lábios e falou:

- Aquieta-te, meu amor. Não tse preocupe, passarei a conduzir com mais cuidado.

E voltou a dirigir, agora devagarinho.

***

Michelle prosseguiu na carreira de atriz. O Teatro Shakespearano de Bordeaux tornara-se famoso por toda a França e além fronteiras. Ela representou diversos papéis, além do de Julieta; foi Desdêmona em "Otelo", Cleópatra em " Antônio e Cleópatra", Ofélia em "Hamlet" e Cordélia em "O Rei Lear", sempre com o mais absoluto sucesso. Aos poucos foi ainda se interessando por dirigir peças e, também aí revelou-se bastante eficiente.

Vadin aparecia com certa freqüência o que sempre alegrava imensamente a jovem senhora Mansard. E, vez por outra, ela ia à Marselha, visitar a mãe. Mas nunca demorava muito. A saudade de Pierre logo a trazia de volta a Bordeaux.

Não tiveram filhos, por razões que não se determinou, mas o grande amor entre os dois supriu essa lacuna. Pode-se dizer, sem medo de se incorrer em erro, que Pierre e Michelle foram verdadeiramente felizes...durante seus catorze anos e cinco meses de vida conjugal.

Até que, na manhã de um domingo de maio do ano de 1674...

***

Acordei cedo, o dia mal começava a despontar. Levantei e fui até janela do nosso quarto de dormir. O céu límpido fazia prever um belo domingo ensolarado. Mas logo senti que não havia despertado com a disposição e a alegria habituais. Uma inexplicável sombra de tristeza afligia-me o coração. Por que ? Reflexo de algum pesadelo noturno de que já não me recordava? Um mal estar passageiro resultante do vinho ingerido na véspera durante o jantar? Presságio de alguma tragédia ? Não sabia dizer.

Voltei os olhos para a cama. Michelle dormia serenamente, de lado, nua, os lençóis afastados do corpo, o rosto voltado para onde me encontrava. Como era linda a minha esposa. Dei-me conta de que, naquele momento, meu amor por ela havia atingido o máximo de intensidade que é dado a um homem sentir por uma mulher. Quanta felicidade Michelle havia me proporcionado nesses quase quinze anos de relacionamento!

Também os negócios seguiam a contento, tudo corria bem no Teatro Shakespeariano e desfrutávamos de ótima saúde. Por que então essa estranha tristeza, essa desagradável melancolia de que me sentia agora acometido?

Num esforço da mente, afastei os sombrios pensamentos e fui até o leito. Suavemente, comecei a beijar o rosto da minha amada. Ela abriu os olhos, sorriu e estendeu os braços para envolver-me num abraço. E ficamos assim, por alguns minutos, em silêncio, gozando a doce sensação que nossos rostos colados nos proporcionavam. Finalmente ela perguntou:

- Como está o dia, Pierre ?

- Lindo. Teremos um domingo de muito sol.

O rosto dela se iluminou e constatei que. ao contrário de mim, ela havia despertado alegre e contente. Achei então por bem não lhe falar da minha estranha tristeza. Por que estragar a felicidade dela com o que, certamente, não passava de um temporário momento de depressão ? O qual, na verdade, já começava a se dissipar diante da beleza e da ternura de Michelle.

Ela se levantou, pôs a camisola e, abraçados, descemos para a copa, a fim de tomarmos o nosso desjejum. Depois ambos nos aprontamos, usando roupa leves, apropriadas para o agradável clima da primavera campestre e passamos a combinar o que iríamos fazer naquele dia.

Sugeri que fôssemos de charrete até Tonneins, um lugarejo distante uns vinte quilômetros, onde - eu sabia - Michelle gostava de ir, ocasionalmente, e cujos bosques, ao derredor, eram um convite tentador para uma gostosa caminhada.

- E poderíamos almoçar na estalagem dos Trevan e comer aquele Javalí assado...

Os olhos da minha esposa brilharam. Ela adorava javali assado... Michelle jogou os loiros cabelos para traz, sorriu e, olhando bem dentro dos meus olhos, disse:

- E porque não?

Mas logo veio a já esperada advertência.

- Com uma condição, Pierre. Que conduza devagar. Há um trecho do caminho que sempre me dá arrepios quando passo por lá. Você sabe a que me refiro: aquela passagem estreita, bem junto de uma ribanceira. Ele acenou com a cabeça.

- Claro que sei. O desfiladeiro de Marmande. Mas não receie. É um trecho bastante curto e eu terei cuidado ao atravessá-lo.

Ela se deu por satisfeita e, minutos depois, partimos em minha charrete predileta, puxada por Ravel, de certo meu melhor cavalo, um alazão de quatro anos, bem adestrado e corajoso, com quem já havia ganho muitas corridas.

O ar fresco da manhã animou nossos espíritos. Os cabelos longos e loiros de Michelle, agitados pelo vento, flutuavam num movimento ondulado e, por um instante, tive a sensação de ter ao meu lado um daquelas Walquírias da mitologia alemã.

Após uns vinte minutos de bom trote, atingimos a entrada do desfiladeiro. Percebi o corpo de Michelle estremecer ligeiramente. E foi então que, por obra de deuses diabólicos ou do acaso, uma série de azares aconteceram.

Pensando ultrapassar logo o trecho temido pela minha esposa, acelerei a marcha. E já íamos a meio caminho da estreita passagem quando uma cobra de médio porte, saída não se sabe de onde, apareceu rastejando bem no meio da estrada. Por infelicidade, a única coisa que o bravo Ravel temia eram ofídios.

Assim, tão logo se apercebeu da maldita criatura, empinou, erguendo as patas dianteiras. A charrete estancou abruptamente e balançou. Michelle soltou um grito de susto enquanto eu, um tanto afoitamente, chicoteei o cavalo que, ainda mais assustado, disparou e, para desviar-se da cobra que, indiferente, rumava para o lado esquerdo do caminho, galopou para a direita, perigosamente próximo à ribanceira.

Puxei as rédeas para corrigir a direção do animal, mas a pata dianteira de Ravel escorregou no limo da borda da estrada e ele começou a cair no precipício, arrastando a charrete. Em frações de segundo estávamos no ar, em queda livre. Vislumbrei Michelle ser lançada para fora do veículo, no momento em que eu, cavalo e charrete atingíamos, com violência, o fundo do despenhadeiro, oito a dez metros abaixo da estrada.

Devo ter batido com a cabeça em algo duro pois perdi, de imediato, a consciência. Suponho não ter ficado sem sentidos por mais que um a dois minutos. Despertei confuso e tonto e, ainda caído, corri os olhos ao redor. Ravel, soltando golfadas de sangue pela boca, estrebuchava debaixo das ferragens, um tanto destorcidas, da carroça. A uns seis a sete metros de onde me achava, Michelle jazia imóvel, com a cabeça estranhamente torcida para a esquerda.

Gritei o nome dela mas não tive resposta. Tentei me erguer, porém, ao fazê-lo, ouvi um estalido seco e senti uma dor terrível na perna direita. Voltei a me deitar, agora de bruços, e fui me arrastando, angustiado e cheio de maus presságios, na direção da minha amada. Sentei-me junto de Michelle e, cuidadosamente, depus a cabeça dela no meu colo. Ela tinha perdido toda a firmeza, balançava mole, de um lado para outro, como se fosse de borracha. Apavorado, entendi que a minha amada havia partido o pescoço na queda. Deitei-a sobre a terra de barro e, já então sabendo o que não admitia saber, encostei o ouvido no peito dela, procurando as batidas do coração. Nada. Michelle estava morta.

A uma insuportável sensação de perda juntou-se um não menos devastador sentimento de culpa. Por que não dera ouvidos ao pressentimento de que fora acometido ao acordar? Por que sugeri a maldita viagem à Tonneins ? Por que acelerei no desfiladeiro ? Por que não consegui controlar o pânico do meu cavalo ? Por que tanta sucessão de erros, por que? E agora, ali estava eu, desgraçado, com a alma em pedaços, minha cabeça deitada sobre o corpo sem vida da razão da minha vida.

Meu pensamento voltou-se para o Cristo da minha mãe e, pela primeira vez, em toda minha existência, dirigi-me a Ele, implorando que fizesse vir a morte, agora, naquele exato momento, para que eu fosse logo ao encontro de Michelle, onde quer que ela se encontrasse, a fim de suplicar-lhe perdão e reafirmar a eternidade do meu amor. Sim, porque, era inadmissível admitir-se Pierre vivo e Michelle morta.

Não sei quanto tempo se passou, enquanto chamava pela morte e minhas lágrimas iam rolando sobre o peito da minha amada. Mas, subitamente, senti, agradecido, que meus pés esfriavam e logo um frio intenso começou a subir pelo meu corpo. Fui ficando tonto e, em torno de mim, tudo ia escurecendo. As batidas do meu coração, até então aceleradas, tornaram-se cada vez mais lentas e enfraquecidas. Era a vida se acabando.

De repente, algo se destacou do meu corpo e eu me senti subindo no espaço. Com o que deveriam ser os olhos da mente ou da alma, como saber?, eu via, lá embaixo, se afastando, lentamente, a cena do desastre: Ravel, agora também imóvel, por baixo das ferragens da charrete, Michelle jazendo sobre a terra e eu, Pierre deitado ao lado, com a cabeça sobre o peito dela.

Aos poucos, a cena foi perdendo a nitidez e senti que essa parte desmaterializada do meu "eu" principiava a se distanciar da Terra, a uma incrível velocidade. Então ouvi, ou imaginei ter ouvido, vindo de algum local distante, a voz de Michelle: "Por que fizeste isso, Pierre?...Eu queria tanto viver".

Um tormento profundo se apossou do que deveria ser um resto de mente, mas, felizmente, não durou muito. O pensamento foi se anestesiando e até a dor da perda de Michelle foi-se atenuando, substituída por uma estranha, mas bem vinda sensação de paz, que foi tomando conta do meu espírito. Sim, pois era isso que, de certo, agora me tornara: um espírito, partindo para o desconhecido e levando a esperança de que, em algum tempo, num ponto indefinido do infinito ou, quem sabe?, novamente na Terra, iria reencontrar a minha amada e reatar o nosso imenso amor.

De repente, o espírito foi envolto por uma escuridão total e, depois, veio o vazio, o nada absoluto...

 

***

Lá pelo fim da manhã, dois fazendeiros passavam a cavalo pelo desfiladeiro, quando um deles olhou, por acaso, para baixo e exclamou:

- Veja, Jean, lá embaixo, uma charrete ...parece-me que há dois corpos.

O outro olhou e assentiu com a cabeça.

- Estou vendo, Paul. O cavalo deve ter perdido o rumo e a carroça despencou. Venha, ajude-me a amarrar uma corda naquele tronco ali adiante. Descerei por ela, para ver se estão vivos.

Jean desceu pela corda, examinou atentamente os dois corpos, sacudiu a cabeça num gesto negativo e, depois, olhando para cima, gritou para Paul:

- Ambos estão mortos. São vizinhos nossos. Pierre Mansard e sua esposa Michelle.

- Santa mãe de Deus - exclamou o outro.

Minutos depois os dois galopavam, a toda velocidade, na direção de Langon.

***

O sepultamento aconteceu na tarde do dia seguinte, no velho cemitério de Langon, situado no alto de uma das pequenas colinas que cercam o vilarejo. Atendendo ao desejo da mãe de Pierre, foi uma cerimônia simples e reservada, a qual compareceram apenas Jean Claude, Bernadette e Maurice Mansard, Marie Thérèse Clermont e seu irmão Jacques Vadin - que avisados, haviam chegado pela manhã, artistas e funcionários do Teatro Shakespeariano, alguns capatazes das fazendas dos Mansard e o Doutor Giscard Danton, medico e amigo da família, que examinara os corpos e atestara, oficialmente, a morte de Pierre e Michelle.

Pouco antes de iniciar-se o sepultamento, o médico afastou Jean Claude para um canto e deu-lhe algumas explicações referentes ao que, a seu ver, teriam sido as causas da morte de seu filho e de sua nora.

O velho padre Louis que, décadas atrás, batizara Pierre, abatido e visivelmente emocionado, balbuciou algumas palavras, encomendando as almas do casal ao Criador e, depois, convocou os presentes a acompanharem a leitura do salmo 23.

Em seguida, os ataúdes foram baixados na cova aberta na área reservada á família Mansard e cuidadosamente dispostos, lado a lado. Flores foram atiradas no túmulo, os coveiros lançaram terra sobre os caixões e tudo terminou.

***

Tão logo a comitiva se retirou do local, dois camponeses, que pisavam uvas para fazer vinho nas terras dos Mansard e que haviam assistido, de longe, a cerimônia de sepultamento, ocultos por traz de uma lápide, ergueram-se e puseram-se a andar pelas ruelas de terra batida do cemitério.

O mais novo virou-se para o mais velho e falou:

- George, que pena eles terem morridos. Era um casal tão bonito...

O outro assentiu com a cabeça.

- É verdade, foi uma pena, Alan.

- Você sabe porque eles morreram ?

- Ouvi o Dr. Danton conversando com o nosso patrão, pouco antes de entrarem no cemitério.

- E o que foi que ele disse ?

- Que Madame Michelle quebrou o pescoço na queda da carroça e por isso morreu.

- E M. Pierre ?

- Ele apenas quebrou a perna direita.

- E isso mata, George ?

- Não, Alan, não mata.

- Então porque ele morreu ?

- O médico acha que M. Pierre foi tomado por uma tristeza muito grande, Uma tristeza profunda pela perda da sua amada.

- E isso mata, George ?

- Sim, Alan, mata.

- Não sabia disso.

- Você é muito jovem, Alan. Há muita coisa que ainda desconhece.

- É verdade, George.

- Pois então aprenda que uma tristeza muito grande pode fazer parar o coração da gente... e que de amor também se morre.

A conversa terminou. Os dois camponeses atravessaram o portão do cemitério e começaram a descer a encosta na direção de seus casebres. No exato momento em que a noite começava a descer sobre o vilarejo...

PRIMEIRO "INTERMEZZO"

Muito além do nosso universo, no eterno vazio, onde o tempo não se altera, as almas se aprontam para regressarem à Terra, a fim de resgatarem erros de outras existências e se aperfeiçoarem. E o ciclo se repete até que cada alma alcance o estágio de maturidade espiritual essencial a permitir sua definitiva integração na Grande Energia Cósmica.

A alma de Michelle reincarnou primeiro. E, tomando-se o calendário gregoriano como referencial de tempo terrestre, Pierre reincorporou doze anos depois. Mas, desta vez, não nasceram em Marselha ou Bordeaux e sim numa mesma cidade, chamada Arica, no norte do Chile.

 

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