O SOLAR DAS SETE LUAS
PARTE II
Isabela e Juan
Isabela veio ao mundo na mais luxuosa mansão da cidade, no dia 16 de fevereiro do ano de 1870, quando Arica ainda pertencia ao Perú. Nasceu nobre, primeira filha do milionário fidalgo Don Diego de Cervantes e de sua esposa, Dona Alexandra Almagra de Cervantes, ambos do mais puro sangue castelhano. O pai, oriundo de uma da mais fidalgas famílias de Espanha tornara-se um dos principais exportadores de minérios que eram embarcados para a Europa e para América do Norte.
Arica, conhecida como a cidade da eterna primavera, pela suavidade de seu clima, situa-se na ponta norte do que é, hoje, território chileno, tomado à força dos peruanos, na guerra travada entre os dois países, de 1879 a 1883. Arica era, e é, um centro comercial importante, cujo porto dá escoamento a inúmeros produtos provenientes do Chile, do Perú e da Bolivia. E é, ainda, um local de atração turística, pelas suas belas praias, de águas relativamente mornas e por ser o ponto de entrada para o grande deserto de Atacama.
Pouco mais de um ano depois do nascimento de Isabela, em 19 de maio de 1871, Dona Alexandra deu à luz a outra menina, a quem os pais deram o nome de Cristina. Educadas dentro da rígida tradição espanhola, tão lodo entraram na adolescência, foram enviadas para estudar no melhor colégio de Santiago.
Quando pequenas, eram muito parecidas fisicamente, a ponto de serem tomadas como gêmeas. A partir da puberdade, contudo, foram se diferenciando, não só fisicamente, mas também em termos de personalidade.
Isabela transformou-se numa jovem alta e magra, de porte altivo, quase arrogante, dona de um rosto bonito, que chamava a atenção pela seriedade da expressão facial e pelos imensos olhos castanhos claros, que escureciam quando sua dona mostrava-se contrariada ou enfurecida. Indiferente aos galanteios e assédios dos colegas de colégio, rapazes da elite da capital chilena, tão logo terminou os estudos, regressou à Arica. De imediato, tornou-se a favorita do pai, que, não tendo sido contemplado com um herdeiro varão, de certa forma sentia-se compensado pela personalidade da filha, de cuja altivez e seriedade muito se orgulhava. Assim foi que, quando Isabela completou vinte anos, ele a encarregou de administrar uma grande e rica fazenda de sua propriedade, situada a alguma distância, a leste de Arica, e onde criava-se gado, extraia-se cobre e praticava-se uma agricultura, ainda que um tanto incipiente. Logo, ela se revelaria uma administradora enérgica e eficiente, dirigindo a fazenda com mão de ferro.
Cristina cresceu diferente. Embora possuísse também um belo rosto, ele era miúdo como a dona e os olhos, muito negros, herdados da mãe, refletiam bondade e docilidade. Alegre e descontraída, não possuía, nem de longe, a altivez, muito menos o ar de seriedade da irmã. Como esta, terminado o estudo básico, voltou à Arica, mas por pouco tempo. Incentivada e apoiada pela mãe, para quem era, sem dúvida, a filha predileta, conseguiu do pai a devida permissão para regressar à Santiago, afim de estudar de medicina, um sonho acalentado desde a infância. Cinco anos mais tarde, prestaria o juramento hipocrático, tornando-se uma das sete médicas de todo o Chile, país onde, como em toda América Latina, a profissão de Esculápio era, então, uma quase exclusividade masculina. E, por lá, Cristina foi ficando, trabalhando, com dedicação, no Hospital General de Neuro- Psiquiatria. Três anos depois da formatura, com a aprovação pouco entusiástica de Don Diego e o reservado beneplácito de Dona Alexandra, casou-se com um colega de turma, o Dr. Juarez Figuera, também neuropsiquiatra. Um ano mais tarde, daria sua primeira alegria ao pai: um belo e robusto neto, que ganhou, na pia batismal, o pomposo nome de Diego de Almagra Cervantes y Figuera.
***
No dia 21 de março de 1882, em um bairro de classe média na periferia de Arica, no cômodo dos criados da casa do Dr. Affonso Castillo, médico clínico e homeopata, para quem prestava serviços domésticos, Marita (sem sobrenome), deu à luz a um menino. O pai presumível era um marinheiro inglês, que, durante uma longa estadia de uma fragata britânica no porto da cidade, seduzira a jovem e bonita índia, oriunda da tribo dos Quechuas. Quando a gravidez foi suspeitada, a fragata e o marinheiro já se encontravam a meio caminho da Inglaterra.
Marieta pensou em dar ao menino o nome de Juan Pablo. Era bem espanhol e tinha um som agradável. Mas, dez dias depois, ao comparecer ao cartório da cidade, foi instada pelo escrevente encarregado de compor a certidão de nascimento, a fornecer um sobrenome. Por momentos a jovem índia ficou confusa, mas, lembrando que o marinheiro lhe havia dito chamar-se O'Collins, foi tomada de súbita inspiração e a necessária coragem para declarar que o nome de família do pai da criança era Colina (já que a palavra inglesa, alem de soar estranha aos ouvidos latinos do escrevente, era difícil de pronunciar). Desta forma, o pequeno bastardo, curiosa mistura de sangue Irlandês com sangue Quechua, foi registrado com o nome de Juan Pablo Colina.
Juan, como era simplesmente chamado por todos, apadrinhado pelo Dr Castillo, para quem Marita continuou a trabalhar, tornou-se um menino bonito e esperto, prestativo e cordial com toda a gente com quem ia lidando, a medida que crescia. Nunca tendo ido à escola, sabia apenas contar até dez e assinar o nome, com letra torta e pouco legível. Mas era um autêntico "pau para toda obra": ajudava a mãe nos encargos domésticos, limpava e arrumava os vidros de remédios que o médico preparava em seu laboratório particular e fazia a entrega a domicílio dos medicamentos que o doutor prescrevia aos pacientes. Sempre alegre, sempre com um sorriso nos lábios.
Aos 16 anos, era um guapo rapaz de pele clara, compleição média e musculoso. Tinha feições bonitas: as maçãs do rosto salientes, os olhos de um negro profundo e o cabelo, também preto e espesso, naturalmente penteado para trás, atestavam a origem Quechua. Nessa época o Dr. Afonso, acometido de um mal súbito, faleceu. Marita, tomada por uma doença maligna que evoluiu rapidamente, morreu poucos meses depois. A viúva do Dr. Castillo cuidou do enterro de ambos e depois, desgostosa da vida e do mundo, resolveu ingressar em um convento, para dedicar ao Senhor, o resto de seus dias. Mas antes, tratou de arrumar um canto para o jovem Juan a quem também se havia afeiçoado. Amiga da Dra. Cristina Cervantes y Figuera, conseguiu, através desta, que seu apadrinhado fosse trabalhar, como peão, na fazenda Srta. Isabela, irmã da médica.
A roda cármica voltava a girar: as almas de Michelle e Pierre, agora sob outras roupagens físicas, em época, local e circunstâncias muito diferentes, iriam novamente se encontrar. Como estava escrito no livro do destino.
***
A fazenda Sierra Negra ficava à cerca de 20 quilômetros a nordeste de Arica. Juan chegou lá, bem cedo, pela manhã, na carona de uma carroça que transportava esterco para fertilizar a terra, Quando desceu, foi recebido por Tobias, um mestiço como ele, meio índio e meio branco, porém bem mais alto e forte, já entrado nos quarenta, trajando roupa de vaqueiro, com cara de poucos amigos e em cuja face esquerda se via uma enorme cicatriz, que ia do maxilar superior até o queixo, relíquia de uma luta à faca, travada há muitos anos em um dos bares da área portuária de Arica. Tobias mirou o recém chegado de cima para baixo e disse:
- Você deve ser o novo peão mandado por D. Cristina.
Juan assentiu com cabeça e entregou-lhe uma folha de papel que continha a carta de apresentação enviada pela médica. O outro devolveu-lhe o documento, sem se dar ao trabalho de ler. Nem podia, pois era totalmente analfabeto. Depois, sem tirar os olhos de Juan, gritou para um empregado que passava por perto:
- Jose, acompanhe este homem até a casa de banho dos serviçais e deixe-o de molho por algum tempo para soltar essa horrível catinga. Depois dê a ele uma roupa de vaqueiro e leve-o até a casa grande para eu apresentá-lo à patroa.
Jose respondeu evitando encarar o outro:
- Sim senhor.
Em seguida fez um gesto para que Juan o seguisse e puseram-se a andar na direção do que parecia ser, à distância, um imenso galpão. Jose era um branquinho mirrado, de ar assustado mas com um rosto simpático. Juan perguntou, com o jeito irreverente e descontraído que Deus lhe dera, apontando para Tobias que já se afastava, caminhando em sentido oposto
- Companheiro, quem é aquele sujeito de cara feia ?
O outro respondeu baixinho:
- É Tobias, o capataz. Homem de confiança da patroa. Manda em todo o mundo aqui na fazenda Tem um gênio da peste e é mais traiçoeiro que cobra venenosa. Procure manter-se longe dele e nunca lhe dê uma resposta atrevida, senão ele manda te chicotear. Ele é o mais severo servidor de D. isabela.
- Isabela... é esse o nome da patroa?
- Sim.
- Como é ela ?
- Uma mulher muito bonita, porém mais dura que um tronco de carvalho. Faz questão de tudo muito certinho. Quem sai da linha ou cai no desagrado dela, termina na chicotada ou no confinamento.
- Confina...o que?
Jose sorriu.
- Confinamento. Uma cela apertada onde a luz do sol não entra nunca. É lá que Tobias e seus capangas, um grupo de vaqueiros, tão ruins como ele e que estão sempre por perto, colocam a gente por dias a fio, a pão e água. Basta fazer alguma coisa errada ou desobedecer um ordem. Juan franziu a testa e comentou: - Não gosto disso, amigo, Vim aqui para trabalhar, não para ser escravo de ninguém.
Jose suspirou.
- Pois vá se acostumando com a idéia. A propósito, como se chama ?
- Juan Pablo Colina. Mas me tratam apenas por Juan.
O outro o encarou
- Você parece ser gente boa.
Juan sorriu.
- Sou de paz, mas não aceito ser mal tratado.
Jose balançou a cabeça. Não fez nenhum comentário mas disse, consigo mesmo: "Esse ai tem jeito de quem vai acabar batendo de frente com a patroa ou com o Tobias. Coitadinho dele..."
Finalmente chegaram ao tal galpão.
- Vamos - falou Jose - vou te mostrar a tina de banho.
***
Isabela havia despertado muito cedo naquele dia. Lá pelo meio da madrugada, tivera de novo aquele horrível pesadelo que, há anos, a assediava varias vezes por mês. Acordou suando e assustada, sentou-se na enorme cama, pegou o copo na mesinha ao lado e sorveu um longo gole de água para se acalmar. Mas não voltou a dormir.
Levantou-se e foi até a janela. Ainda estava bastante escuro. Mal conseguia discernir, à luz ondulante dos lampiões assentados nos postes da fazenda, os vagos contornos das casas dos peões. Os campos de mineração, os pastos para o gado, as plantações de hortaliças, dispostas em longas fileiras e as frondosas árvores, ainda mais distantes, todos encobertos pelo breu da noite, estavam totalmente invisíveis.
Tornou a rememorar o maldito sonho, que se repetia, sempre, com extraordinária clareza. Tudo começava quando com um jovem mestiço, de belas feições, bem mais novo do que ela, trajando a roupa tradicional dos peões tocadores de gado, era-lhe apresentado na frente da casa grande da fazenda. Encaravam-se por um longo momento. Os olhos dele, profundamente negros, pareciam penetrar em sua alma e ela tinha a impressão que eles liam os pensamentos dela. Além disso, havia aquela sensação estranha de que o olhar dele parecia-lhe bastante familiar, como se ela e ele já se conhecessem de um outro lugar, num longínquo passado, há muito, muito tempo atrás. Porém o que realmente a assustava era o fato de ter a nítida impressão de ouvir, vindo do fundo dos olhos negros, uma voz que dizia: "Perdão, minha adorada Michelle". E os olhos continuavam cravados nos dela e a frase prosseguia se repetindo até que ela acordasse.
"Michelle"... não se recordava haver conhecido alguém com esse nome. Por que então? Quem era, ou teria sido, essa Michelle e o que teria a ver com ela, Isabela? Sim, porque alguma conexão deveria existir. Ninguém sonha, repetidamente, uma mesma coisa, por anos a fio, sem que não haja algum significado para isso, por mais estranho ou absurdo que isso possa parecer.
De tal forma esses sonhos a atormentavam que, há uns dois meses atrás, tinha ido até Arica e procurado, na biblioteca local, tudo que se relacionasse com o significado dos sonhos. Não havia muita coisa. Uma obra, contudo, despertou-lhe a atenção: um tratado em dois volumes, intitulado Primitive Culture, publicado em Londres e escrito em inglês por um autor chamado E.B. Tylor. Graças a aprimorada educação que recebera nos colégios de Santiago, foi-lhe possível ler o texto, no seu original. Através dele ficou sabendo que, em diversas civilizações antigas, certos sonhos de caráter repetitivo, como o seu, poderiam ter um sentido espiritual. Alguma coisa relacionada com carma e reincarnação, idéias que remontavam de muito longe no tempo, de velhas teologias orientais, recentemente revividas por Allan Kardec, o pai do espiritismo ocidental.
Normalmente, a estrita formação católica de Isabela teria, de pronto, repudiaria qualquer consideração a respeito mas, diante da forte impressão que lhe causavam os insistentes pesadelos, ela passou a questionar se essas idéias espiritualistas não teriam, afinal de contas, um cunho de veracidade.
Isabela abriu totalmente a janela e ficou aspirando o ar fresco da madrugada, enquanto prosseguia remoendo os pensamentos em torno dos seus misteriosos sonhos. E assim ficou até que a claridade do sol, ainda oculto por traz das montanhas do leste, começou a afastar as últimas sombras que precediam o alvorecer. Depois, ela voltou até junto a cama, no lado oposto do aposento e puxou o cordão ao lado do leito, o qual fazia soar a campainha que alertava sua criada de quarto. Logo bateram à porta e uma índia, gorducha e baixinha, entrou e disse:
- Bom dia , senhora.
- Bom dia, Maiara. Arrume meu banho e avise ao pessoal da cozinha que logo estarei descendo para o desjejum.
A criada a saiu e, enquanto aguardava que o banho aprontasse, Isabela retirou a camisola, postou-se nua diante do imenso espelho que ocupava parte de uma das paredes do quarto de dormir e ficou contemplando o próprio corpo. Deparou com uma mulher alta e esguia, de seios firmes e pontudos, abdome liso, coxas um tanto grossas, contrariando a aparente magreza, pernas longas e torneadas, e tornozelos bem formados, terminando em pés mimosos e pequenos. No rosto, ligeiramente pálido e ovalado, sobressaiam os olhos castanhos escuros, discretamente amendoados, lembrando uma ascendência indígena ou oriental inexistente. Os cabelos muito pretos, que ela usualmente prendia por trás da cabeça em forma de coque, estavam agora soltos, caindo por sobre os ombros. Em tudo e por tudo, um belo exemplar de mulher.
Sim, pensou Isabela, eu poderia ser considerada bonita e até atraente, se buscasse mostrar-me mais feminina e não necessitasse aparentar uma idade acima da que tenho, para garantir o respeito e a obediência desses homens e mulheres rudes que me rodeiam e sobre os quais devo exercer total autoridade.
Isabela tinha apenas 28 anos e nunca conhecera a caricia de um homem ou sequer tivera um simples "flirt". Sim, desde os tempos de colégio em Santiago não faltaram candidatos ansiosos por namorá-la. Houve até alguns mais atrevidos que insinuaram o desejo de levá-la para cama, dois dos quais cercando-a de promessas de casamento. Mas sempre se mostrara indiferente e desinteressada. Isto fez com que, algumas vezes, ela mesma se questionasse em relação a sua própria libido.
Mas a idéia era logo afastada quando se recordava de um outro tipo de sonho, também frequente e repetitivo, embora muito diferente daquele que a assustava. Neste, um homem, cujas feições nunca conseguia distinguir, aparecia do nada, aproximava-se do seu leito, cobria-lhe o corpo todo de carícias e, em seguida, penetrava-a com volúpia e intensidade. E ela vivia, no sonho, o êxtase do orgasmo e, quando acordava, se apercebia que toda sua região genital se encontrava inteiramente alagada. Nessas manhãs, Isabela sentia-se tentada a comunicar ao pai seu desejo de desistir da direção da fazenda e voltar para Santiago. E lá, na vida mundana da capital, ir em busca de um homem que se tornasse seu esposo ou amante e lhe desse carinho e prazer sexual. Mas logo o sentimento passava e ela reassumia a determinação de continuar a fazer o que vinha fazendo há oito anos: viver isolada naquela fazenda, sem carinho e sem amor, apenas com poder e autoridade. Era como se uma misteriosa força, maior que os desejos naturais de mulher e fêmea, determinasse sua permanência em Sierra Negra. E, em certas ocasiões, principalmente quando o tempo se mostrava nublado e a chuva caia, ela era acometida do estranho e sinistro pressentimento de que ali iria ficar até o último dia de sua vida.
***
Isabela havia acabado de tomar o desjejum quando um criado anunciou que Tobias a aguardava, na frente do casarão, para apresentar o peão que tinha vindo procurar emprego na fazenda, trazendo uma carta de recomendação da Dra. Cristina. Ela logo se lembrou que, numa missiva anterior, recebida dias antes, a irmã lhe havia escrito sobre o assunto. Isabela levantou-se e caminhou até a entrada da casarão. A passos lentos, começou descer os degraus da escada da varanda. Tobias, tendo um jovem ao seu lado, fez uma curvatura, saudando a patroa.
- Bom dia, Dona Isabela.
Ela ia respondendo, mas parou no último degrau e emudeceu. Seu olhar havia pousado no rosto do peão. O coração disparou e a face empalideceu. Era como se o maldito pesadelo estivesse acontecendo ali, naquele exato momento, à plena luz do dia. Sim, porque o rosto do peão era, sem nada tirar ou por, a face do homem do sonho mal que a perseguia.
Tobias notou que algo de errado estava se passando, mas não atinou com a razão, Supondo que talvez a patroa estivesse sendo acometida de algum mal súbito, aproximou-se dela, segurou-a pelo braço, e perguntou:
- A senhora está sentindo alguma coisa ?
Neste exato instante, Juan ergueu a cabeça e seus olhos encontraram os de Isabela. Por um breve segundo ela teve a sensação que ia desmaiar. Respirou fundo, afastou a mão de Tobias, desviou os olhos do jovem e, num supremo esforço, conseguiu dizer:
- Não é nada, apenas uma...ligeira vertigem.
Hesitou por um breve instante e concluiu:
- Tobias, leve o rapaz para o alojamento dos peões. Vou descansar um pouco. Depois mando lhe chamar.
Virou-se e começou a subir a escada, amparando-se em um dos corrimões. Já ia atravessando a porta, quando ouviu a voz do capataz:
- Ele trouxe uma carta para a senhora.
Com um gesto vago da mão, Isabela replicou, num tom um tanto exasperado:
- Depois, Tobias, depois.
E desapareceu no interior do casarão.
***
Quase totalmente recuperada fisicamente, mas ainda com a mente um tanto confusa, Isabela subiu esbaforida a escadaria que dava acesso ao segundo andar do casarão. No caminho, quase esbarrou com Maiara que, assustada com aquela estranha conduta da patroa, indagou, um tanto timidamente:
- Deseja alguma coisa, senhora ?
Isabela, sem nem olhar para a outra, respondeu, enquanto galgava os últimos degraus:
- Nada, apenas ficar sossegada no meu quarto, sem ver ou falar com ninguém, E avise a todos que não desejo ser incomodada até segunda ordem. Fui clara ?
A índia arregalou ainda mais os olhos, mas respondeu, sem hesitação:
- Sim, senhora. Avisarei a todos e cuidarei para que não seja perturbada.
Isabela entrou no quarto de dormir, trancou a porta e atirou-se sobre o leito. "Meu Deus", disse consigo mesma, "o que está acontecendo?" E pôs-se a refletir, procurando ordenar os pensamento de forma lógica, racional. Não, o jovem peão nada podia ter a ver com a figura que atormentava-lhe nos sonhos. São apenas rostos extremamente parecidos... como se fossem gêmeos. Não, Isabela, não é por aí, uma pessoa não pode ser gêmea de um personagem onírico. O pensamento tolo fez com que desse um sorriso, um sorriso nervoso. Mas, e os olhos negros e profundos? Não eram exatamente iguais? Sim, e daí? Somente outra coincidência, nada mais.
Aos poucos, a razão foi sobrepujando a imaginação e Isabela foi-se acalmando. De qualquer forma, a situação tinha de ser enfrentada. E que melhor jeito do que conversar com o recém-chegado, ficar cara a cara com ele, fitá-lo bem dentro dos olhos...? A idéia fez com que seu corpo estremecesse ligeiramente, mas ela logo voltou a se controlar. Sim, olhar bem dentro dos olhos dele e não sentir absolutamente nada, nem ouvir nenhuma voz pedindo perdão a tal de Michelle. Sim, era isso que teria de fazer. Quem sabe se, enfrentando seu fantasma noturno à luz do dia, não faria com que ele desaparece para sempre, da sua imaginação e de seu sonhos? Sim, porque não tentar ?
Animada com a perspectiva, encheu-se de coragem, levantou-se e abriu a porta do quarto. Como imaginava, a fiel Maiara estava bem alí, sentada no chão do corredor, cuidando para que ninguém viesse incomodar a patroa. Isabel sorriu para ela e disse:
- Mande avisar ao Tobias que desejo falar com o novo peão. Mas quero vê-lo a sós, no meu escritório, dentro de dez minutos. A india disparou para cumprir a ordem.
Isabela foi até a sala de banho, bem ao lado do quarto de dormir, lavou o rosto, ajeitou a blusa de tecido espesso, arrumou a tradicional calça de vaqueira, enfiando-a para dentro das pesadas botas e contemplou-se no espelho. A expressão facial voltara a ter a serenidade habitual. Sentia-se, de novo, dona da situação. Havia recuperado a postura da senhora de Sierra Negra.
***
Juan Pablo recolheu-se ao alojamento para onde tinha sido conduzido por Tobias, sentou em uma das camas e pôs-se a pensar na curiosa reação da sua nova patroa. Conquanto não possuísse estudo, ele era inteligente e dono de forte sensibilidade. Por isso não lhe passou despercebido que Dona Isabela mostrara-se visivelmente abalada quando estava descendo a escada e deparou com ele. Estaria ela doente ou algo nele, Juan, de alguma forma a perturbara? Por acaso suas feições despertaram nela a lembrança de outra pessoa? Quando seus olhos por um breve instante se cruzaram, ele sentiu uma súbita e inexplicável atração por Isabela e teve a estranha sensação de já tê-la visto antes. Mas, por mais que puxasse pela memória, não conseguia recordar onde e quando isso pudesse ter ocorrido.
Talvez por ser ainda muito jovem ou pela vida atribulada que levava quando a serviço do Dr. Castillo, sem dispor de tempo para outro lazer que não o de jogar pelota aos Domingos, o fato é que ele nunca desfrutara dos carinhos de uma mulher e nem sequer tivera uma simples namorada. Quando cruzava na rua com alguma mulher bonita ou quando sonhava com as cenas que via nas revistinhas eróticas, que os garotos costumavam passar de mão em mão, sentia o membro ficar ereto e, ocasionalmente, alcançava o orgasmo, por masturbação ou através de poluções noturnas. Numa ocasião falou ao Dr. Castillo de sua vontade de ir a uma das "casas de putas" da zona portuária de Arica, mas o médico fizera-o desistir da idéia, apavorando-o a respeito do risco de contrair o que ele chamava "doenças venéreas perigosas".
A atração e o desejo que, ocasionalmente, sentira por várias mulheres, o que sentira em relação à Dona Isabela fora algo muito inteiramente.Porém, se indagado, não saberia dizer em que tal diferença consistia.
***
O escritório ficava na extremidade leste do andar de baixo do Casarão. Era uma vasta sala, repleta de cadeiras e estantes de livros espalhadas pelo aposento. Junto à janela, uma mesa, tendo ao lado um armário onde ficavam as pastas contendo os documentos referentes às atividades da fazenda e os dados pessoais dos que nela trabalhavam. Entre os muitos quadros pendurados nas paredes, havia um, retratando uma cena da recente guerra travada entre o Chile e o Perú, escondendo um cofre embutido, onde se guardavam o dinheiro de Sierra Negra e as jóias e documentos pessoais de Isabela. Somente a patroa conhecia a combinação do segredo e a chave que permitia abrir o cofre estava presa a um grosso cordão de ouro que ela trazia, permanentemente, em volta do pescoço.
Isabela entrou no escritório, deixando a porta aberta e foi sentar-se na cadeira de espaldar por traz da mesa. Não teve que esperar muito. Logo Tobias surgiu no solar da porta e perguntou se podia fazer entrar o novo peão. Ela respondeu afirmativamente, acentuando que desejava entrevistá-lo à sós. O capataz ergueu o sobrolho, fez um sinal com o dedo, Juan entrou no recinto, deu dois passos para a frente e se postou, em silêncio, diante da patroa, a qual mantinha a cabeça baixa, pretendendo examinar alguns papeis dispostos sobre a mesa. Tobias se retirou, fechando a porta arrás de si.
Lentamente Isabela se aprumou, olhou rapidamente para o jovem e sinalizou para que ele se sentasse na cadeira, bem de frente para ela. Juan obedeceu e aguardou enquanto a patroa estudava-lhe a face. "Nossa" pensou ela "a semelhança com o homem do sonho é realmente impressionante". Criou coragem e olhou bem dentro dos olhos dele. Se esperava ouvir, vindo de dentro deles, a misteriosa voz suplicando perdão a tal da Michelle, se decepcionou. Sentiu apenas a intensidade do olhar negro e profundo mas, para sua surpresa, ao contrário do que sucedia nos pesadelos, não se sentiu assustada ou incomodada. Muito pelo contrário. Os olhos negros, conquanto penetrantes, pareciam traduzir apenas doçura e curiosidade. Isabela se tranquilizou e iniciou o diálogo:
- Como você se chama ?
- Juan Pablo Colina, senhora, mas todos me tratam apenas por Juan.
A voz era calma, sonora e agradável, embora, como seria de se esperar, tivesse o tom característico das pessoas pouco educadas do norte do Chile.
- Qual a sua idade ?
- Dezesseis anos, senhora.
Como ele é jovem, pensou Isabela, levava jeito de um homem maduro, porem, na verdade, não passava de um pós-adolescente. Mas ela queria saber mais:
- Você parece mestiço, mas sua pele é branca...
Ele sorriu, mostrando os dentes claros e perfeitos. Um sorriso cativante. Isabela estremeceu por dentro.
- Minha mãe era filha da tribo Quechua e meu pai, que não conheci, era, segundo ela dizia, um homem branco que tinha vindo da Europa...
- Você trouxe uma carta de minha irmã, certo ?
Juan sacou um papel do bolso da jaqueta e passou-o à patroa. Sem querer, os dedos se tocaram, muito ligeiramente. Ainda assim, Isabela sentiu como se uma corrente elétrica percorresse seu corpo dos pés à cabeça. Confusa, pensou: "Meu Deus, o que está acontecendo? Por que esse homem, tão mais jovem do que eu, afeta-me dessa maneira? Devo estar sendo influenciada pelos pesadelos. Sim. só pode ser isso."
Procurou disfarçar para não dar a perceber ao outro o tumulto que os dedos dele lhe haviam causado. Depôs a carta sobre a mesa, sem ler, e voltou a falar, fazendo com que o tom da voz se mostrasse, agora, mais sério e carregado:
- Leu o que está escrito aqui ?
- Não, senhora - respondeu Juan, enrubescendo - Infelizmente sou analfabeto, não leio nem escrevo. Apenas sei contar e assinar meu nome.
Ela assentiu com um gesto da cabeça. A sinceridade dele também era cativante.
- Gostaria de aprender ?
O rosto dele se iluminou.
- Muito, senhora, muito mesmo.
- Temos uma escola aqui em Sierra Negra para ensinar os filhos dos nossos trabalhadores, Se você ficar conosco, poderá frequentá-la à noite. Agora diga-me, tem experiência com fazenda?
- Não, senhora, Nunca vivi no campo. Trabalhei sempre na cidade, ajudando o Dr. Castillo a preparar medicamentos homeopáticos e fazendo a entrega dos remédios à domicílio.
- Então sabe montar ...
- Razoavelmente. Fazia as entregas a pé ou a cavalo, dependendo da distância, mas, na maioria das vezes, como tinha sempre muita coisa a carregar, usava uma charrete - a voz não conseguiu esconder um leve tom de orgulho - Sou um excelente charreteiro, senhora.
Isabela não pode reprimir um comentário
- Para uma pessoa analfabeta, você até que fala muito bem.
De novo o sorriso cativante.
- Nunca fui à escola, como já disse, mas o Dr. Castillo sempre cuidou em me ensinar a falar corretamente. Dizia que isso era muito importante para um homem.
- Ele foi um espécie de pai para você, não foi?
Uma sombra de tristeza atravessou o rosto do jovem
- Sim, Dona Isabela, ele foi sempre um pai e um grande amigo.
Era a primeira vez qie ele a tratava pelo nome. Sem saber porque ela gostou. Num impulso, disse:
- Agrada-me montar, mas como a área da fazenda é bem extensa, as vezes fico bastante cansada Muito bem, farei de você meu charreteiro particular. Diariamente iremos inspecionar todas as áreas de Sierra Negra. Darei ordem ao Tobias para que cuide de tudo. Iniciaremos amanhã, bem cedo, Nunca se atrase, Gosto de começar a trabalhar logo depois do nascer do sol. Tome o resto do dia de hoje para arrumar suas coisas e se familiarizar com a área onde estamos. É aqui que fica a administração da fazenda.
Isabela se levantou, sinalizando que a conversa estava terminada. Juan também se ergueu, fez uma leve mesura, pediu licença e se retirou do aposento, seguido pelo olhar atento da sua nova patroa.
***
Tobias Barrios tinha 48 anos e fora o único filho de um pescador e de uma doméstica que viviam na cidade chilena de Valparaíso. Dois dias após a data do seu terceiro aniversário, o barco do pai sumiu no mar para nunca mais aparecer. A mãe caiu na prostituição e morreu de sífilis dois anos depois. Tobias foi enviado pelo padre da paróquia do bairro para um orfanato católico, de onde saiu, já adolescente, para trabalhar como embarcador de minério nas barcaças de Don Diego de Cervantes.
Graças a um físico avantajado, total ausência de sentimentalismo em relação aos companheiros de trabalho e a mais absoluta lealdade ao patrão, quando este entregou à Isabela a administração de Sierra negra, Tobias foi alçado, por determinação de Don Diego, à posição de capataz da fazenda. E a devoção que tinha pelo patrão foi transferida para a jovem patroa.
Solteirão convicto, era um dos mais conhecidos e temidos frequentadores dos bares e dos bordéis de Arica, para onde costumava ir quase todos os fins de semana. Não tinha amigos e tratava os empregados com mão de ferro, nunca relutando em fazer uso do chicote e do confinamento para impor a disciplina. Isabela era a única pessoa a quem respeitava integralmente e cujas ordens cumpria sem hesitar, conquanto, as vezes, discordasse do que considerava "uma excessiva benevolência" da patroa, a qual, ao contrário dele, evitava, ao máximo, o emprego de corretivos disciplinares mais severos.
Em relação a Juan, foi um típico caso de antipatia à primeira vista. Antipatia essa que se acentuou após o estranho comportamento de Isabela na frente do Casarão e que cresceu ainda mais quando a patroa decidiu excluir a ele, Tobias, da entrevista que a patroa tivera, mais tarde, com o recém chegado mestiço.
Sua intuição lhe dizia que, de alguma forma, Juan perturbara Isabela e isso o incomodava. Porque, lá no fundo de seu empedernido coração ele guardava um inconfessável segredo: a paixão que sabia impossível, e que a ninguém jamais revelaria, pela jovem patroa. E, quando Isabela o chamou para comunicar que, a partir do dia seguinte, passaria a fazer uso da charrete para inspecionar a fazenda e que Juan seria seu charreteiro, a antipatia de Tobias pelo mestiço evoluiu para o ódio, através do túnel negro do ciúme.
Mas Juan não perderia por esperar. Seus passos seriam constantemente vigiados. Ao menor erro, ao menor deslize, iria sentir o gosto do chicote. E ele, Tobias, se encarregaria, pessoalmente, de transformar em chagas as costas do mestiçozinho.
Era mais uma peça que se agregava ao drama cármico de amor e ódio traçado pelo destino.
***
Nas três semanas que se seguiram, Juan dirigiu diariamente a charrete, para que Isabela inspecionasse as múltiplas e diversificadas atividades de Sierra Negra, Saiam ao nascer do sol, só regressando ao fim do dia, após terem percorrido as terras cultivadas, as minas e os pastos. Isabela examinava tudo e dava ordens aos gerenciadores de cada área. Juan ia aprendendo e admirando a energia e firmeza da patroa. Conversavam muito pouco e sempre sobre assuntos triviais.
Isabela gostava da companhia do jovem mas evitava, ao máximo, encara-lo, pois, embora o fato - ou o reconhecimento dele - a incomodasse, o olhar de Juan continuava a perturba-la, sempre que, por acaso ou descuido dela, seus olhos se encontravam. E Juan ia sentindo que sua admiração por Isabela ia se transformando numa sentimento diferente, que se intensificava a cada dia. E, sem que disso desse conta, por ignorar o sentido da palavra, o jovem mestiço estava, na verdade, perdidamente apaixonado pela patroa.
Durante essas quase idílicas três semanas, nenhum dos dois sonhos que costumava ter, repetidamente, perturbaram o sono de Isabela. E ela já começava a achar que eles nunca mais voltariam a incomodá-la. Puro engano.
No vigésimo-primeiro dia, regressaram ao Casarão quando a noite já vinha chegando. Isabela sentia-se anormalmente cansada e percebeu que uma das suas antigas crises de enxaqueca se avizinhava, atribuindo o fato à proximidade do seu período menstrual. Tomou uma xícara de chá, mergulhou no banho morno que Maiara já deixara preparado e, minutos depois, foi se deitar.
***
No início da madrugada o sonho voltou. Não aquele que a aterrorizava, mas o outro, no qual um homem entrava em seu quarto e a possuía. Só que, desta vez, as feições do perpetrador estavam bastante nítidas: era o rosto inconfundível do jovem Juan Pablo Colina. E, durante o ato sexual onírico, Isabela atingiu um orgasmo de intensidade muito maior do que qualquer outro que experimentado nos sonhos anteriores.
Ao despertar, com o lençol mais alagado do que nunca, e ainda em estado de semi-torpor, ela se deu conta de que, naquela noite, fizera amor não com uma sombra, mas com um homem. Um homem pelo qual, durante as horas de vigília, sentia uma atração física que, conquanto teimasse em recusar sua existência, vinha se tornando cada vez mais forte.
Naquele dia Isabela não saiu para inspecionar a fazenda e evitou qualquer encontro com Juan. Ficou o tempo todo no escritório, buscando concentrar-se em assuntos burocráticos. Mas a concentração não se fez fácil. Os pensamentos estavam totalmente voltados para a experiência da madrugada anterior. As horas custavam a passar e parecia que a noite não chegaria nunca. E, a todo instante, entre ansiosa e esperançosa, ela se indagava se o sonho iria se repetir.
Repetiu. Só que, desta vez, o orgasmo foi ainda mais intenso. E quando acordou, ao nascer do dia, num assomo de coragem, que somente ocorre quando a razão fica bloqueada pela paixão, Isabela, ainda deitada, languidamente entregue ao estado de feliz tranquilidade que se segue ao gozo, decidiu que sua experiência sexual com o jovem peão não mais deveria ficar limitada ao plano onírico. Ela desejava - e como desejava, constatar se fazer sexo com o Juan real seria tão gratificante quanto fazer sexo com o Juan do sonho.
E pôs-se a planejar. Sairiam hoje para uma demorada inspeção. Parariam em algum lugar ermo e distante, no campo, longe dos olhos de terceiros e fariam um pic-nic. E, então, ela, Isabela, iria seduzir o jovem peão. Durante as três semanas anteriores, em que andaram viajando juntos, Isabela notara, muitas vezes, que Juan a contemplava, furtiva e disfarçadamente e, assim dizia sua intuição, o olhar dele era não só de admiração mas, também, de um contido desejo. Sendo doze anos mais novo e seu empregado, era natural que temesse tomar qualquer iniciativa mais ousada em relação a ela, por mais que o desejasse. Logo caberia à ela, Isabela, fazê-lo. Por um breve instante, ainda hesitou, dizendo para si mesma: "Não, não devo fazer isso, é uma loucura", mas a lembrança dos sonhos e dos gozos falaram mais forte e ela prontamente afastou a hesitação.
Virgem por opção, nunca antes permitira ser seduzida e muito menos tentara seduzir um homem. Mas, afinal de contas, para tudo há sempre uma primeira vez... E, totalmente assumida, resolveu que seria hoje o dia dessa primeira vez. Fez soar a campainha ao lado da cama. Logo, Maiara apareceu. Isabela determinou que a criada lhe preparasse um banho morno, com bastante sais perfumados e, depois, mandasse chamar Juan para preparar a charrete. Iriam passar o dia fora, retomando as inspeções da propriedade. Quando Maira saiu para cumprir as ordens recebidas, Isabela saltou do leito, com o coração carregado de ansiedade e expectativa.
Mas o destino havia escrito um enredo diferente...
***
Ortega, um dos ajudantes de Tobias apareceu no escritório, em torno das 08:00 horas, onde Isabela aguardava por Juan, a fim de comunicar à patroa que o peão não se encontrava em Sierra Negra.
- Como assim? - indagou ela, um tanto supressa.
Ortega explicou:
- Precisávamos enviar amostras de um minério encontrado numa nova rocha que está começando a ser escavada na mina 16, para serem examinadas no Instituto de Mineração em Santiago. Como a senhora não havia saido ontem para fazer inspeções e também não avisou que iria sair hoje e como não tivesse mais ninguém disponível, Tobias encarregou Juan de levar a encomenda. Ele deixou a fazenda de charrete, às 05:00 horas, com destino à Arica. De lá irá de trem até a capital. Tobias deu-lhe todas as instruções necessárias. Sinto muito, patroa, mas caso a senhora deseje, estou a sua disposição para levá-la de charrete.
Procurando esconder sua decepção, Isabela respondeu:
- Não será necessário. Se decidir sair, irei a cavalo. E procurando dar às palavras um tom de pouco interesse, perguntou:
- E para quando está previsto o retorno de Juan ?
Ortega fez uns cálculos, mentalmente, e respondeu:
- Dentro de uma semana, um dia mais, um dia menos. - fez uma pausa e concluiu: - Mais alguma coisa, patroa ?
- Não, obrigada, Ortega, pode voltar ao seu trabalho.
- Então, com sua licença.
O ajudante do capataz se retirou e Isabela permaneceu sentada, apoiando a cabeça entre as mãos e imaginando se uma força superior não teria agido para evitar que ela levasse adiante o plano de seduzir Juan. Não estaria sendo posta a prova? Uma semana talvez servisse para minimizar essa louca atração que sentia por ele. Ou, ao contrário, para intensifica-la ainda mais. Talvez viesse de novo a sonhar e os sonhos orientassem seu coração. Agora, o jeito era atirar-se fundo no trabalho, para que o tempo passasse mais depressa... e que a noite chegasse trazendo, quem sabe?, algum sonho revelador...
Isabela saiu do escritório, deixou o Casarão e determinou a um peão que mandasse selar o seu cavalo.
***
A noite chegou e passou...em branco. Isabela dormiu profundamente. Se sonhos houve, não ficaram registrados na memória. Acordou descansada mas um tanto desapontada. E voltou a se embrenhar firme no trabalho. À espera da noite seguinte. Dessa vez, quando a madrugada já ia findando, o sonho veio. Mas nada tinha a ver com aqueles que, anteriormente, costumavam se repetir. Não foi o sonho aterrorizador, em que ela ouvia, saindo dos olhos de Juan, uma voz clamando por perdão. Nem o que a embriagava: aquele em que um homem, já agora de rosto conhecido, a possuía e a levava ao êxtase supremo do orgasmo.
Foi um sonho diferente e muito, muito estranho... Uma charrete, em nada parecida com as que ela, Isabela, conhecia, puxada por um belo alazão, corria velozmente por um estreito caminho de terra batida, ao lado de um despenhadeiro, numa região campestre, totalmente desconhecida. Havia um casal na parte dianteira da carroça, mas ela não conseguiu, a princípio, ver as feições do homem que a conduzia. Ao lado dele, podia distinguir, com toda clareza, uma mulher bonita, ainda jovem, de cabelos loiros e cumpridos, esvoaçando ao vento. O rosto dela trazia uma expressão de medo e Isabela pode ouvir, nitidamente, ela gritar para o companheiro: "Pierre, por Deus, tenha cuidado!". Logo em seguida, uma das patas dianteiras do cavalo resvalou na encosta da ribanceira, a charrete se desequilibrou e despencou no abismo.
Na cena seguinte, Isabela, viu a charrete semi-destroçada, com o pobre animal estrebuchando por baixo dela, enquanto o homem se arrastava, de bruços, na direção da mulher, caída de costas, a poucos metros de distância, totalmente imóvel, a cabeça estranhamente torcida para o lado, os cabelos loiros tingidos de sangue. E Isabela ouviu, com toda nitidez, o homem gritar, desesperada e repetidamente: "Michelle, Michelle!". Finalmente ele chegou até junto ao corpo da mulher e deitou a cabeça sobre o peito dela. Ao mesmo tempo apavorada e fascinada, a senhora de Sierra Negra viu as feições do rosto da jovem loira, que sabia estar morta, irem se transformando nas dela, Isabela. E o pavor que sentiu recrudesceu quando o homem virou a cabeça de lado e ela reconheceu o rosto inconfundível de Juan Pablo Colina.
E foi quando, Isabela, soltando um grito do mais profundo terror, se apercebeu acordada, sentada no leito, o coração como que querendo saltar de dentro do peito e o corpo se debatendo todo. Num movimento brusco, ela se ergueu e foi até a janela. Mas, por um longo tempo, não conseguiu ver nada a não ser as pavorosas cenas daquele sonho maldito. Depois, a medida que ia se acalmando e já podia visualizar os primeiros raios do amanhecer clareando os arredores do Casarão, Isabela pôs-se a meditar sobre os possíveis significados do que os olhos da sua mente haviam registrado durante o terrível pesadelo.
***
Naquela manhã, Isabela mandou Maira informar a Tobias que estava indisposta e iria permanecer no quarto, pelo menos até depois do almoço. E que, nesse período, não desejava ser, de forma alguma, incomodada. Havia muito o que pensar. Desde que os estranhos sonhos começaram, ela procurou desvenda-los e, agora, considerando esse último peadelo, ficara plenamente convencida de que tinha de haver alguma relação de caráter espiritual envolvendo-a com o jovem Juan. Talvez alguma coisa relacionada com carma e reincarnação. Pelo menos, era o que imaginava, com base no conhecimento superficial que havia adquirido através dos livros que consultara anteriormente.
Após longas horas de reflexão, em que juntara o conteúdo dos diversos sonhos, a reação que tivera quando de seu primeiro encontro com o jovem peão e a quase irresistível atração que sentia e, tinha de admitir, ainda sentia, por ele, a conclusão que lhe parecia mais plausível era de que, em algum tempo no passado, em uma outra existência, os destinos de ambos se havia cruzado, ela como Michelle e ele como Pierre. E, a julgar pelos nomes, as coisas deveriam ter acontecido em alguma parte da França.
A não ser que ela, Isabela, estivesse padecendo de algum sério distúrbio cerebral que originasse alucinações noturnas e alterasse sua personalidade, levando-a um estado de obsessiva atração por Juan, ao ponto de planejar seduzi-lo para fazerem amor.
Mas como distinguir uma coisa da outra ? Se fosse um problema cerebral, talvez sua irmã Cristina, sendo neuropsiquiatra, fosse a pessoa mais indicada para fazer tal diagnóstico. Porém se seu cérebro estivesse funcionando normalmente, como supunha, então teria de buscar outro tipo de ajuda e aconselhamento. De alguém que conhecesse realmente os fenômenos da espiritualidade e as coisas do alem. De certo, no Oriente não faltariam gurús capazes de explicar os fenômenos que vinham acontecendo. Mas ela se encontrava do outro lado do mundo, na América do Sul, onde o budismo era praticamente inexistente. Neste hemisfério, principalmente no Brasil - assim ouvira falar - pululavam centros kardecistas e cultos africanos como o candomblé. Mas teriam esses "espitualistas" o conhecimento para elucidar o que vinha ocorrendo com ela?
Foi quando lembrou ter lido algo a respeito de uma indiana que vivia em Valparaíso e era tida com uma grande conhecera de cartomancia e astrologia. Qual era mesmo o nome dela? Onde teria lido sobre ela? Provavelmente na "Tribuna del Pueblo", um periódico semanal que recebia regularmente. Isabela deixou o quarto, desceu as escadas e dirigiu-se ao escritório. Lá, foi logo ao armário onde os jornais ficavam arquivados. Colocou os exemplares do últimos doze meses sobre a mesa e começou a procurar. Ao cabo de alguns minutos encontrou o queria. O anúncio dizia: "Indira Vanayama, mestre budista. Conheça seu destino pela leitura das cartas e mapas astrológicos." Seguia-se um endereço em Valparaíso e os horários das consultas. Isabela anotou os dados e chamou pela secretária, uma jovem sem maiores predicados físicos mas extremamente eficiente.
Isabela não perdeu tempo.
- Rosana, envie um telegrama para minha irmã Cristina, avisando-a que necessito vê-la com urgência. Que, tão logo chegue à Santiago, irei procurá-la no hospital onde trabalha. Comunique-se também com meu pai e peça a ele que providencie uma passagem para a capital no primeiro trem disponível e informe-o que estarei chegando em Arica dentro de umas duas horas. Diga à Maiara para arrumar, numa maleta, algumas roupas minhas e outros pertences necessários para uma viagem de sete a dez dias. Ela sabe cuidar bem disso. Depois mande que me aprontem um coche. Quero deixar Sierra Negra em, no máximo, uma hora. Devo ausentar-me por uma semana ou um pouco mais. Tobias dirigirá a fazenda até a minha volta. Ajude-o no que for preciso.
Rosana nem pestanejou, limitando-se a dizer:
- Cuidarei de tudo imediatamente, senhora. E saiu para cumprir as ordens recebidas.
Isabela ainda tinha duas coisas a fazer antes da viagem. O telefone, inventado pelos americanos em 1876, havia chegado recentemente ao Chile e, no mês anterior, Don Diego fizera colocar postes e fiação entre Sierra Negra e a Central Telefônica, recentemente instalada em Arica e entre esta e sua mansão naquela cidade. Dessa forma possibilitava mais um meio de comunicação com a filha. Como a tecnologia era ainda precária, nem sempre se conseguia estabelecer a ligação e, muitas vezes, ruídos de estática interferiam com a nitidez da transmissão. Ainda assim, a coisa funcionava.
Isabela foi até o aparelho e acionou a manivela. Deu sorte. Logo escutou a voz da operadora em Arica e pediu uma conexão com a mansão dos pais. Foi Dona Alexandra quem atendeu. Após as amabilidades de praxe, Isabela perguntou:
- Mãe, você se lembra da hora do meu nascimento ?
A outra deu uma risadinha
- Para que você quer saber isso, filha ?
- Assunto meu, mãe, um dia conto porque. Mas agora estou com pressa e preciso dessa informação.
Ouviu um suspiro do outro lado da linha.
- Já foi há tanto tempo...
- Como assim, madrecita? Eu só tenho 28 anos.
- É verdade. Bem, foi à noite. Disso estou certa. Lá em torno das nove horas... não, foi mais tarde. Um pouco antes das dez...sim. eu acho que foi um quarto para as dez. É, foi essa a hora.
- Tem certeza?
- Bem, pode ter sido alguns minutos antes ou depois, mas sim, tenho certeza que foi em torno dessa hora : um quarto para as dez.
Isabela deu-se por satisfeita
- Obrigada, madre. Estou indo para Santiago a fim de conversar com a Cristina. Já mandei avisar papai para me conseguir um passagem no primeiro trem que sair de Arica para lá. Chegarei ai dentro de uma hora, mais ou menos, mas não irei até a mansão. Vou direto para a estação ferroviária pegar a reserva feita pelo pai e seguir logo para a capital.
A voz de Dona Alexandra ganhou um tom de apreensão:
- O que se passa, Isabela? Você vai procurar a Cristina por estar com alguma doença?
A outra achou melhor dar uma gargalhada para tranquilizar a mãe
- Nada disso, trata-se de outro assunto. Na volta de Santiago irei ai contar tudinho para a senhora.
Alexandra pareceu convencida:
- Então, tudo bem. Boa viagem e dê um beijo na Cristina por mim.
Isabela apressou-se em terminar a conversa:
- Farei isso, Até breve, madre.
E desligou. Agora, a última coisa a fazer antes de sair. Foi até o fichário onde ficavam arquivados os dados pessoais dos trabalhadores da fazenda e apanhou a pasta de Juan. Dentro dela havia apenas dois papeis: a carta de apresentação de Cristina e uma certidão de nascimento. Ela anotou os dados, repôs tudo no lugar e deixou o escritório.
Um coche, com sua maleta de viagem na parte traseira, já a aguardava na frente do Casarão. Isabela subiu para o lado do cocheiro e partiram na direção de Arica.
***
O trem conduzindo Isabela para Santiago partiu as 20;00 horas daquele mesma dia. Ocupando uma cabina individual na primeira classe, a senhora de Sierra Negra desfrutou de todos os confortos possíveis que, na época, a companhia ferroviária, dirigida por uma companhia inglesa, proporcionava. Ainda assim, foi uma viagem longa e cansativa, posto que a locomotiva de bitola estreita, levou cerca de trinta e seis horas para chegar à capital chilena. Isabela desceu do trem pouco depois do amanhecer do terceiro dia e tomou um coche para o Hospital General de Neuropsiquiatria.
A irmã a aguardava em sua sala particular no segundo piso do nosocômio. Acomodaram-se em duas cadeiras, lado a lado e, após as saudações e trocas de afeto costumeiras, Cristina entrou no assunto:
- Isabela, sua mensagem deixou-me preocupada. Você está sentindo algo que lhe sugira algum distúrbio neurológico ou psiquiátrico?
- Não sei, irmã, caberá a você julgar.
- Então conte-me tudo que está acontecendo, nos mínimos detalhes.
E Isabela contou. Falou por mais de meia hora, sem omitir nada, nem os sonhos nem sua estranha atração por Juan Pablo. Cristina escutou calada, com os olhos cravados nos da irmã e a com a cabeça apoiada no queixo, buscando absorver cada detalhe. Quando a exposição terminou, Isabela indagou:
- O que acha de tudo isso ?
- Uma história fantástica que está impressionando você profundamente.
- Será que estou com alguma doença no meu cérebro ou ficando louca ?
Cristina contemplou a irmã por algum tempo e depois disse:
- Loucura certamente você não tem, já que. quando acordada, não experimenta nenhum tipo de alucinações. Também não creio que apresente alguma lesão cerebral capaz de explicar seus incríveis sonhos - e apontando para uma pequena cama ao lado, prosseguiu: - Mas vamos ver. Dispa-se e deite ali. Preciso fazer um rigoroso exame neurológico. Quando o exame terminou e Isabela já havia se vestido, Cristina sentou-se e falou:
- Não encontrei nada que sequer sugira alguma lesão no seu cérebro. Também não existe na literatura médica muita coisa a respeito do significado dos sonhos. Sinceramente, Isabela, não sei o que dizer para lhe ajudar.
Isabela voltou a se sentar ao lado da irmã e disse:
- Bem, se não tenho nenhuma lesão cerebral e se a medicina não pode me fornecer qualquer informação sobre o que vem me acontecendo, não lhe parece válido que eu vá buscar auxilio através de outros caminhos ?
Cristina ergueu o sobrolho e perguntou:
- Como assim ?
Então Isabela falou a respeito do que havia lido sobre espiritismo, carma e reincarnação e sobre a gurú indiana que pretendia procurar em Valparaíso.
Cristina escutou atentamente e depois disse:
- Pouco entendo sobre esses assuntos e não sei se essa hindu poderá lhe ajudar. Mas, na ausência de outras possibilidades, acho que você nada tem a perder indo procurá-la. Creio mesmo que, em seu lugar, tentaria qualquer coisa que pudesse eventualmente trazer alguma luz sobre os sonhos e sobre essa obsessiva atração por Juan Pablo.
Uma hora mais tarde, Isabela estava num trem, a caminho de Valparaiso, aonde deveria chegar em torno do meio-dia.
***
Da estação ferroviária, Isabela seguiu de coche para o endereço da indiana, não muito distante, num bairro pobre da periferia da cidade. Tratava-se de uma casa velha, no estilo hispânico, de bom tamanho mas de aparência pouco conservada. Quase junto as telhas, lia-se, escrita em largas letras vermelhas, a inscrição: "CENTRO BUDISTA DE VALPARAÍSO". Isabela bateu à porta.
***
A porta se abriu e uma jovem, vestindo um sari de seda branco, juntando as mãos em frente ao peito e curvando ligeira mente o corpo no tradicional gesto de paz, fez sinal para que a recém chegada entrasse no que parecia ser uma uma espécie de saguão e disse, suavemente:
- Seja bem vinda ao nosso humilde templo. Em que posso servi-la ?
Isabela respondeu, cautelosamente:
- Desejo consultar com Madame Vanayama. Ainda hoje, se possível. Vim de bem longe, do norte do país, e necessito muito falar com ela.
- Se a senhora se refere à monja Indira, nossa mestra, ela se encontra, no momento, fazendo as preces do início da tarde, mas irei consulta-la a respeito.
Isabela respondeu, um tanto ruborizada:
- Sim é a ela que me refiro
A jovem fez um gesto afirmativo com a cabeça e disse:
- Então, por favor aguarde por alguns instantes - e apontando para uma cadeira de vime concluiu: - Sente-se, por obséquio. Não tardarei.
E desapareceu por trás de uma cortina. Regressou poucos minutos depois
- A monja irá recebe-la agora,. Acompanhe-me por favor.
A jovem afastou a cortina, fez um gesto com mão e Isabela ingressou no outro recinto. Uma mulher alta, extremamente magra, aparentando entre trinta e cinco e quarenta anos, trazendo no rosto de tez escura suaves traços de uma exótica beleza e também trajando um sari branco de seda, encontrava-se sentada por trás de uma pequena mesa, sobre a qual via-se uma bola de cristal, um pacote de cartas e um livro que parecia ser uma tabela astrológica.
Ela sorriu e sem se erguer, apontou para um cadeira, a sua frente e disse, num espanhol melódico mas que não escondia um sotaque estrangeiro:
- Sente-se, por favor.
Isabela obedeceu e, por um longo segundo, ficaram se fitando. Depois a hindu falou: -
O que a traz ao nosso templo, senhora....
- Isabela Cervantes.
- Meu nome é Indira Vanayama, mas prefiro que me chamem somente por Indira. Permite que a trate apenas por Isabela?
A outra assentiu com a cabeça.
- Então, minha filha - disse Indira, acomodando-se na cadeira e repousando as mãos sobre a mesa - fale-me da tortura de seus sonhos.
Isabela sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo todo. Como poderia ela saber que seus problemas giravam em torno de sonhos? Respirou fundo e, numa voz lenta que se firmava à medida que ia falando, contou tudo, nos mínimos detalhes, sem ser, em nenhum momento, interrompida. Quando terminou a monja perguntou:
- Poderia fornecer-me os dados relativos ao seu nascimento e ao do jovem Juan Pablo ?
Isabela tirou da bolsa um papel com os dados solicitados e passou-o à hindu. Ela abriu um a tabela de astrologia e começou a riscar linhas sobre um larga folha de papel. Levou quase uma hora concentrada no processo, enquanto a senhora de Sierra negra, fascinada e silenciosa, contemplava as mãos da monja movendo, com firmeza, um cumprido bico de pena molhado em tinta que ia construindo riscos e símbolos. Quando terminou de traçar os mapas de Juan e de Isabela, Indira permaneceu, por longo tempo, comparando-os. Depois cerrou os olhos e ficou, por muitos minutos, imóvel e calada, absorta em profundos pensamentos. Finalmente, abriu os olhos. Fitou Isabela e disse, bem baixinho:
- É fantástico. Nunca antes deparei com tamanha afinidade astrológica. De fato, minha filha, você e esse rapaz estão inquestionavelmente entrelaçados na rede do destino. Sua impressão estava correta. Na última vez que incorporaram neste planeta, vocês viveram as vidas de Michelle e Pierre. E, quando partiram, deixaram uma dívida cármica por resgatar.
Enquanto Isabela, o rosto pálido e a boca entreaberta, olhava intensamente para a face da hindu, esta apanhou um baralho, embaralhou-o por sete vezes e ordenou:
- Feche os olhos e puxe três dessas cartas.
Isabela obedeceu e depois seus olhos voltaram a se abrir. Indira virou as cartas, seguindo a sequência com que foram destacadas do baralho e foi dispondo-as, lado a lado: a primeira era a rainha de ouro, a terceira, o valete de copas e, entre as duas, o az de espada
. - O que significa isso ? - indagou Isabela, olhando para as cartas com um misto de medo e fascínio.
- Que a o impasse cármico da relação de amor e ódio que você e Juan trazem do passado não será resolvido na presente existência.
- Por que? Se um dia fomos amantes e se existe, pelo menos assim eu sinto, uma forte atração entre nós, o que impede que possamos chegar a um entendimento ainda nesta vida ?
Indira olhando-a bem dentro dos olhos respondeu:
- A morte, Isabela, a morte.
O rosto da outra empalideceu sensivelmente
- Como assim ? A morte de quem? Não há como isso possa ser evitado ?
A hindu balançou a cabeça
- Não há mais nada que eu lhe possa revelar. O que está traçado pelo destino dificilmente pode ser alterado. Mas o Mestre de todos os mestres, a quem vocês chamam de Deus, concedeu a todos nós o direito do livre arbítrio. O correto exercício desta poderosa força pessoal é a única coisa que poderá, eventualmente, modificar o que está escrito. Se vocês souberem e puderem usá-la no sentido de fazer com que o ódio seja superado pelo amor, talvez o impasse possa vir a ser resolvido ainda nesta vida. Do contrário, vocês dois prosseguirão atados pelos fios invisíveis do destino e o impasse cármico os acompanhará, inexoravelmente, para a próxima existência.
Indira ergueu-se, sinalizando que o encontro estava encerrado. Isabela também se levantou e num tom de voz que escondia a forte emoção de que se sentia possuída, disse:
- Suas palavras me fazem prever muita dor e tristeza pela frente. Ainda assim, sou-lhe grata pelas revelações. Pelo menos agora tenho alguma idéia sobre o que vem ocorrendo. Não estou segura que meu livre arbítrio, muito menos o de Juan, sejam suficientemente sábios para alterar o que parece inalterável. Ainda assim, eu tentarei. Mais uma vez, muito obrigada.
Isabela fez uma pausa, hesitou por um momento e depois indagou, baixando o tom da voz:
- Quanto lhe devo pelos seus serviços ?
A monja deu dois passos para a frente, pós as mãos sobre o ombro da senhora de Isabela e, com um traço de tristeza no semblante, respondeu:
- Nada, minha filha. Boa sorte e que o Todo-Poderoso a acompanhe na jornada de volta a sua casa.
Uma hora depois Isabela iniciava a longa viagem de retorno à Sierra Negra.
***
Isabela chegou à fazenda ao anoitecer. Após certificar-se que Juan Pablo também já havia regressado, recolheu-se aos seus aposentos. Estava extremamente cansada, não só pela longa jornada, mas, principalmente, devido ao forte "stress" causado pelas revelações da mestre budista. Tomou um banho morno e foi se deitar. O sono não tardou. Dormiu por mais de nove horas. Se sonhos houve, não ficaram registrados. Acordou fisicamente revigorada e decidida a alterar o determinismo que o destino lhe queria impor.
Uma hora depois, já no escritório, mandou chamar Juan Pablo. Ele apareceu minutos após, alegre e sorridente como sempre. Ao vê-lo o coração de Isabela disparou. Procurando não deixar transparecer a emoção, ela disse:
- Recomeçaremos hoje as inspeções. Desta vez iremos visitar os pomares no bosque que fica na extremidade leste da fazenda.
Ergueu a cabeça e deparou com os profundos olhos negros dele. Sentiu o corpo vibrar internamente e um quase insuportável desejo de se atirar nos braços do jovem peão. Parecia-lhe que a atração por ele estava mais forte do que nunca. Suspirou fundo e falou, para si mesma: contenha-se Isabela. Não é agora o momento próprio nem é este o local adequado. Mais tarde, entre as árvores frondosas...aí sim.
Desviou o olhar, afastou o pensamento e concluiu:
- Providencie para partirmos o mais breve possível.
- Sim, senhora.
Juan rodou nos calcanhares e se retirou. Isabela se levantou, caminhou até a janela e ficou observando o vulto do peão ir se afastando na direção da cocheira onde ficavam as charretes. Foi quando se deu conta que sua vagina estava totalmente umedecida. Saiu do aposento e dirigiu-se à sala de Rosana. Ordenou a secretária que providenciasse um lanche para dois e, em seguida, subiu ao andar de cima para se trocar.
***
Saíram antes das nove horas. Iam na parte da frente da charrete, Juan controlando as rédeas com sua habilidade costumeira e Isabela, a seu lado, levando no colo a cesta de vime contendo o lanche cuidadosamente preparado pela cozinheira do Casarão. Não conversaram muito durante a viagem, apenas superficiais comentários sobre a vida na fazenda. Vez por outra, o balançar da carroça fazia com que o ombro dela tocasse o dele. E seu corpo se arrepiava, sem que ela soubesse que, sempre que isso acontecia, Juan respondia ao toque com graus variados de ereção.
Quando chegaram ao bosque, os olhos de Isabela passaram a procurar, entre as gigantescas árvores, um local em que a relva fosse adequada para estenderem uma toalha onde o lanche pudesse ser posto e onde pudessem vir a se deitar. A determinação de seduzir o jovem peão estava mais acesa do que nunca. Na verdade, sua intuição lhe dizia que, se não entregasse seu corpo e sua virgindade a Juan naquele dia, jamais viria a fazê-lo. Se não brotasse, agora, o amor, para esmagar o ódio, este tomaria conta de suas vidas, os pesadelos retornariam e, como previra Indira, a morte viria, a fim de transferir para um outro tempo, no futuro, o resgate da divida cármica contraída no passado.
Finalmente os olhos de Isabela depararam com o local que buscava: entre dois imensos carvalhos, uma clareira recoberta por relva baixa, situada a alguns metros de distância da estrada. Ela virou-se para Juan e disse, apontando para o lugar:
- Vamos parar ali para lancharmos.
Pararam, foram até a clareira, estenderam uma toalha e depositaram o conteúdo da cesta que ela trouxera no colo. Depois, por um breve momento, ficaram de pé, de frente um para o outro. Isabela, sem dizer palavra, aproximou-se de Juan até que seus corpos se tocassem. Ele sentiu os mamilos dos seios dela se enrijecerem de encontro o seu peito. Ela se apercebeu da ereção do membro dele roçando entre suas coxas. Os olhos se encontraram. Trêmula, ela se encheu de coragem, passou os braços em torno do pescoço do rapaz e beijou-o na boca. Primeiro foi um beijo seco de bocas fechadas. Mas logo os lábios de ambos se entreabriram, as línguas se tocaram e eles passaram a se sugar mutuamente.
Juan apertou Isabela pela cintura e foi arrastando-a para o chão. Em segundos, com as bocas ainda coladas, ele estava deitado por cima dela. Lentamente, os dedos da mão direita de Juan começaram a acariciar os seios de Isabela, enquanto os da esquerda iam subindo por dentro da saia dela, a procura da vagina. Quando alcançaram o clitóris, ela libertou-se do beijo e, soltando um gemido, correu a mão direita entre as pernas dele até que seus dedos envolveram o pênis enrijecido. Em uma série de movimentos rápidos e precisos, e sem parar de acariciar o clitóris de Isabela, Juan livrou-se das botas, abaixou a própria calça, afastou para o lado a calcinha de Isabela e tomando o membro com a mão esquerda, tentou a penetração. Isabela sentiu a pressão do pênis buscando romper o hímen.
Uma súbita e inexplicável sensação de pavor invadiu sua mente, superando o desejo que já parecia dominá-la por completo. Num gesto brusco da mão, afastou o pênis de Juan, fechou as pernas, rolou para o lado e se levantou. Atônito e assediado por uma tesão como nunca havia sentido antes, Juan ergueu-se e tentou puxar a mulher de novo para o chão. Isabela conseguiu afastá-lo e correu na direção da charrete. O rapaz a seguiu, mas antes que conseguisse agarra-la ela sacudiu a cabeça, estendeu a palma da mão para detê-lo e disse, dando a voz um tom de autoridade:
- Pare Juan. Sei que foi tudo culpa minha, mas algo muito forte dentro de mim impediu-me de prosseguir.
Ele parou e, com um ar de confusão estampado no rosto, perguntou:
- Por que ?
- Não sei ao certo, mas simplesmente não pude prosseguir.
Ainda sem conseguir entender a reação paradoxal de Isabela ele sentou-se no chão e pós a cabeça entre as mãos, num gesto de capitulação e desespero. Isabela contemplou-o por um longo tempo e, depois foi sentar-se ao lado dele. Em seguida falou:
- Juan, sei que você deve estar bastante confuso com tudo isso que está se passando. Sei também que devo uma explicação para o fato de lhe ter seduzido e provocado. Na verdade é tudo muito estranho. Eu mesma não consigo entender direito e não sei se você conseguirá compreender.
Juan afastou as mãos da cabeça, virou os olhos para ela e disse:
- Eu posso ser apenas um peão semi-analfabeto, mas não sou idiota. Por favor, senhora, fale o que tem para dizer. Talvez isso diminua a minha confusão.
Isabela desviou o olhar para evitar a tentação que os olhos dele lhe causavam. Soltou um longo suspiro e disse:
- Muito bem. Ouça-me com atenção. É uma longa história, mas vou passa-la para você da maneira mais simples que me for possível.
Juan acomodou as costas de encontro a roda da charrete e falou:
- Por favor, D. Isabela, conte-me tudo.
Ela assentiu com a cabeça e começou. Falou por mais de uma hora. E contou tudo: sobre os sonhos e pesadelos, sobre a atração que a levava, conquanto fosse virgem, a desejar fazer amor com ele e sobre a estranha entrevista com a hindu Indira. Ao terminar, perguntou:
- Você entendeu?
Juan fez um gesto de concordância.
- Acho que sim. Mas fico confuso com a tal história de termos vivido outra vida. Na igreja que costumava ir quando criança, o padre sempre falava que esse negócio da gente morrer e depois nossa alma voltar com outro corpo era bobagem, uma invenção de pessoas espíritas.
- Eu também tive uma forte educação católica, mas hoje, começo a ter dúvidas. Talvez reincarnação e carma existam mesmo. De que outra forma explicar os sonhos, essa estranha atração que me impele para você e o que me foi dito pela mestre budista ?
Juan voltou os olhos para os dela e disse, com a habitual franqueza que lhe era habitual:
- Com todo respeito, D. Isabela, eu também nunca fui para a cama com nenhuma mulher, mas senti uma forte atração pela senhora desde o primeiro instante em que a vi e passo o dia todo pensando no seu rosto e no seu corpo.
Isabela estremeceu, desviou o olhar, levantou-se e disse:
- Estou muito confusa, Juan. Preciso de tempo para pensar. Quando tudo estiver acertado na minha cabeça, talvez voltemos a nos ver, Até lá acho melhor evitarmos qualquer encontro.
Juan também se ergueu e falou, sem denotar qualquer ressentimento:
- Talvez então seja melhor eu deixar a fazenda e ir procurar emprego em outra parte.
Isabela sacudiu a cabeça com veemência.
- Não. Desejo saber que você está por perto, embora ache que devemos evitar nos ver, até que meu pensamento se esclareça. Direi a Tobias que desloque você para outras atividades.
Isabela subiu na charrete.
- Vamos voltar para o Casarão - fez uma pausa e concluiu, com rosto ruborizado: - E, por favor Juan, peço que não diga anda a ninguém sobre o que se passou aqui hoje.
Juan subiu na carroça, tomou o lugar do cocheiro ao lado da patroa e disse, com toda sinceridade:
- Da minha boca jamais sairá uma só palavra a nosso respeito. Prefiro morrer a trair a confiança da senhora.
Os olhos de Isabela marejaram de emoção diante da devoção de Juan. Este tomou as rédeas e açoitou ligeiramente o cavalo. A charrete deu meia volta e começou a rolar pela estrada no caminho de volta para o Casarão.
***
Já de volta ao escritório, Isabela conseguiu cumprir, à duras penas, certas tarefas que lhe cabiam, entre elas a de chamar Tobias e lhe comunicar que Juan deveria ser transferido, imediatamente, para outras funções que não a de condutor de sua charrete. E quando a noite já vinha descendo, ela recolheu-se ao quarto, tomou um banho morno e, em seguida, deitada em sua cama pôs-se a indagar porque teria detido Juan no exato momento em que ele forçava penetrá-la. Se era a isso que se propusera quando saíram para inspecionar a fazenda. Se ela própria o provocara. E se, naquele instante, todo seu corpo fora tomado por uma onda de prazer indescritível. Por que não ter ido até o fim se esse vinha sendo seu maior desejo ? Enfim, por que recuara no momento decisivo ?
Duas frases da mestra hindu vieram-lhe a cabeça: "A morte, Isabela, a morte" e "O correto exercício desta poderosa força pessoal (livre arbítrio) é a única coisa que poderá, eventualmente, modificar o que está escrito. Se vocês souberem e puderem usá-la no sentido de fazer com que o ódio seja superado pelo amor, talvez o impasse possa vir a ser resolvido ainda nesta vida. Do contrário, vocês dois prosseguirão atados pelos fios invisíveis do destino e o impasse cármico os acompanhará, inexoravelmente, para a próxima existência"
Teria ela, Isabela, sido detida pelo medo da morte ? Ou o ódio que sua alma trazia do passado em relação a Juan ainda predominava sobre o amor? Com um longo suspiro e um aperto no peito, a senhora de Sierre Negra admitiu para si mesma que, de uma ou de outra forma, havia fracassado. Mas, qualquer que tivesse sido a causa, o fracasso não poderia se repetir. O medo da morte tinha de ser vencido e o amor tinha de superar o ódio. Tinha de tentar de novo e, dessa vez, ir até o fim!
E com a determinação dominando sua mente, Isabela mergulhou num sono profundo. La pela madrugada veio o sonho. E nele ela alcançou o orgasmo que se recusara a ter com Juan, quando em estado de vigília.
***
Cêdo na manhã seguinte, chamou Tobias ao escritório e perguntou por Juan.
- Como a senhora ordenou - respondeu o capataz - demos a ele outra função. Bem cedo, esta manhã, determinei que levasse algumas encomendas ao vilarejo de Pasagua.
Isabela procurou esconder a decepção.
- Muito bem. Quando acha que ele estará de volta ?
- Quase certamente amanhã, um pouco antes do raiar do dia. A senhora deseja que, ao voltar, ele faça algo de especial?
Isabela procurou disfarçar, assumindo um ar despretensioso.
- Talvez, não sei ainda ao certo. De qualquer forma, tão logo Juan regresse, faça com que ele venha falar comigo.
Tobias fez menção de que ia dizer alguma coisa, mas mudou de ideia, limitando-se a responder:
- Sim senhora. Mais alguma coisa ?
Isabela ergueu os olhos para ele.
- Não,Tobias, por enquanto é só.
O capataz fez um aceno com a cabeça, pediu licença para se retirar e deixou o recinto. Quando ele saiu, a senhora de Sierra Negra disse para si mesma: " Amanhã, meu atraente Juan, amanhã nós nos possuiremos e o amor vencerá o ódio". Em seguida deu algumas instruções a Rosana e deixou o Casarão na direção da cavalariça.
Quinze minutos depois, cavalgava, sem destino, pelos caminhos da fazenda, deixando que a agradável sensação do vento contra o rosto embalasse seus eróticos pensamentos.
***
Sierra Negra abrangia uma enorme área que tinha como centro o Casarão. Logo ao seu redor, situavam-se as moradias dos trabalhadores, alojamentos e pequenas casas, para os que tinham família constituída e para os mais bem posicionados na hierarquia, como o capataz e a professora que dirigia a pequena escola destinada à alfabetização de crianças e adultos que lá residiam. Depois vinha a zona agrícola, fazendo uma espécie de cordão em torno das moradias, com os campos de plantio de legumes e vegetais, e, um pouco para fora, os pastos para o gado. Mais alem, na periferia leste, ficavam os bosques de árvores frutíferas e, do outro lado, na periferia oeste, a zona montanhosa, com as rochas de onde eram extraídos minérios de alto valor no mercado internacional, como cobre, estanho e prata.
Nelita Gomes fazia parte do grupo de rapazes e moças encarregados do plantio e da colheita dos legumes e dos vegetais. Filha mestiça de um peruano de origem inca e de uma branca de sangue ibérico, ambos também trabalhadores da fazenda, ela era uma jovem de rara beleza, no fulgor de seus dezoito anos, fogosa, cujo olhar parecia estar sempre carregado de luxúria.
Quando Juan apareceu em Sierra Negra, ela passou a se insinuar para ele, primeiro de forma discreta, depois cada vez mais ostensivamente, em franco ato de sedução. Por ou três ou quatro vezes conseguiu arrasta-lo para dentro dos bosques onde o agarrava e beijava com provocante fervor. Mas nunca chegaram às vias de fato, O peão, que por força da juventude e do sangue quente, respondia aos agarramentos de Nelita com visíveis ereções, conseguia, contudo, conter seus impulsos, não só por receio de eventuais complicações, mas também por que, toda vez que pensava em ir adiante, vinha-lhe à mente a imagem de Isabela e seu ardor arrefecia.
***
Tendo ouvido de um peão que Juan deveria estar de volta de sua viagem à Pasagua na madrugada seguinte, Nelita, decidiu ir aguardá-lo na entrada da fazenda. Como não era de se esperar que houvesse alguém por lá, naquela hora, imaginava induzi-lo a ir com ela direto para um dos bosques. Desta vez, estava decidida a acabar com a própria virgindade e com a de Juan, o qual, em um dos encontros furtivos anteriores, havia confessado nunca ter possuído totalmente uma mulher. Essa idéia de uma dupla quebra de virgindade excitava ainda mais a fogosa mestiça.
E assim foi que, quando, de fato, o jovem chegou na entrada da fazenda, em torno das três horas da madrugada seguinte, a sedutora Nelita pulou para dentro da charrete, sentou-se ao lado de Juan e, sem perda de tempo, começou a acariciar-lhe o pênis, enquanto o convencia a rumar para o bosque mais próximo. Tomado de surpresa e de tesão, ele se deixou levar e logo a charrete foi tragada pela escuridão.
Mas pouca coisa acontecia em Sierra Negra sem que Tobias tomasse conhecimento. Portanto, não só estava a par dos encontros anteriores entre Juan e Nelita, como também ficara sabendo da disposição da mestiça em aguardar o peão, quando da volta deste de Pasagua - Nelita, em sua impulsividade, havia confidenciado o fato a uma amiga, sem saber que ela se tornara informante de Tobias, o qual a isso a forçara, precisamente para poder se inteirar dos planos da mestiça, Não por ela em si, mas para, através dela, apanhar Juan em algum ato ilícito, passível de severa punição. Algo que jurara fazer e que, com grande ansiedade, esperava viesse logo a acontecer.
Assim, Tobias estava atento e aguardando. E tão logo a charrete embrenhou-se no bosque, ele e seu capanga Ortega, partiram em perseguição e foram, silenciosamente, deslizando entre as árvores à procura do casal. Não demorou muito para descobri-los. Juan e Nelita haviam descido da charrete e, deitados no matinho úmido, começavam a se acariciar, enquanto iam, freneticamente, se despindo. Frustrado pela experiência com Isabela, Juan decidiu que, desta vez, cederia aos impulsos de Nelita. Com determinação, rasgou a calcinha da moça, a qual gemia de tesão e expectativa, abriu-lhe as pernas e aprontou-se para penetrá-la.
Tobias e Ortega, que observavam tudo, ocultos por trás do grosso tronco de uma frondosa jaqueira, decidiram que era a hora de intervir. Saíram do esconderijo e, em duas largas passadas, lançaram-se sobre Juan, retirando-o de cima de Nelita. Tobias ordenou que ela se retirasse. No que foi prontamente obedecido: ajeitando a saia amarrotada e suja de barro a frustrada sedutora logo desapareceu entre as árvores do bosque.
Juan foi amarrado, atirado na parte traseira da charrete e levado pelos dois vigilantes para o pátio que ficava atrás do Casarão. Em seguida, despido até a cintura, foi conduzido à sala de punições e violentamente açoitado com quinze chicotadas, que lhe rasgaram a a pele das costas e feriram duramente as suas carnes. Todas desferidas por um Tobias feliz e sorridente. Depois Juan foi deixado caído no chão, sangrando e amargando as dores e a humilhação.
***
Pouco depois das oito horas, Isabela, firmemente decidida a impulsionar a roda do seu destino cármico, chamou o capataz ao escritório e foi logo falando:
- Tobias, mudei de idéia em relação a Juan Pablo. Quero que volte a ser o condutor da minha charrete. Faça com que ele a prepare e esteja aqui dentro de meia hora, para retomarmos as inspeções.
O capataz também não estava para rodeios.
- Isso não será possível. Por alguns dias, o nosso peão não vai estar em condições de executar qualquer tipo de trabalho.
Isabela ergueu os olhos, assustada.
- Como assim ?
- Ele recebeu quinze chicotadas pouco antes do amanhecer de hoje.
O rosto da senhora de Sierra Negra ficou rubro.
- Por que ? - Por ter sido apanhado fazendo sexo num dos bosques com uma serviçal da fazenda. O regulamento dos empregados determina este tipo de punição para atos desta natureza.
O rosto de Isabela passou do rubor à palidez. Sentiu-se arrebatada por um devastador sentimento de traição e um ódio intenso foi tomando conta de seu coração. Um ódio maior que seu obsessivo e não consumado amor. Ela recostou-se na cadeira de espaldar e fez um gesto para que o capataz se sentasse na cadeira bem de frente para sua mesa. Ele se acomodou e esperou. Num tom de voz frio, que Tobias nunca ouvira antes da parte dela, Isabela ordenou:
- Conte-me tudo que aconteceu, Nos mínimos detalhes.
Prazerosamente, o capataz obedeceu. Quando terminou, Isabela fitou-o bem dentro dos olhos - um olhar tão gelado que fez o rígido Tobias estremecer - e disse:
- A punição foi pouca para o procedimento desse peão bastardo. Volte lá e aplique mais quinze chicotadas, agora!
Tobias ergueu-se, sorriu intimamente e perguntou:
- E o que devo fazer depois com ele? Despedir e mandar embora da fazenda?
Isabela sacudiu a cabeça.
- Não, vamos mantê-lo aqui. Como limpador das estrebarias dos cavalos e dos cercados de porcos. Esse será um trabalho bem adequado para ele: chafurdar na lama e na sujeira. E castigue-o, severamente, sempre que pratique qualquer ato que justifique punição.
Em seguida ela se ergueu e, no mesmo tom gelado, disse:
- Agora vá, Tobias. Tenho outros assuntos mais importantes a tratar.
Após a saída do capataz, a senhora de Sierra Negra voltou a se sentar e, por um longo tempo, permaneceu imóvel, pensando na traição do peão, cujo corpo tanto desejara e, como negar? ainda desejava. .De pronto, decepção e tristeza tomaram conta de sua mente e de seu coração. Lentamente, contudo, elas foram dando lugar a uma estranha sensação de indiferença, uma espécie de anestesia mental em relação a seus sentimentos por Juan Pablo.
E, a partir daquele momento, Isabela não mais teve nenhum dos sonhos que a atormentavam ou levavam-na ao êxtase do prazer e do orgasmo. Como nas horas de vigília, as de sono passaram a ser, também, totalmente vazias de qualquer tipo de emoção. Restou apenas a indiferença, não só pelo seu ex - quase amante, mas por tudo o mais que a cercava. A senhora de Sierra Negra havia se transformado em uma maquina humana desprovida de alma. O ódio vencera o amor, transformara-o em indiferença e deixara simplesmente... o nada.
***
Nos dois meses que se seguiram, Juan chafurdou na lama e na sujeira, limpando as estrebarias e os cercados de porcos. Labutava do nascer do sol ao cair da noite e, quando por cansaço, por vezes diminuía o ritmo do trabalho e se deitava sobre o esterco, para repousar por alguns minutos, era punido com chibatadas. Também já não mais lhe era permitido compartilhar do refeitório dos demais empregados. Recebia apenas três escassas refeições, as quais lhe eram entregues, em marmitas, por um de seus indefectíveis algozes. Ao fim de cada jornada, recolhia-se ao dormitório, onde ficava horas, refletindo sobre o que teria feito para merecer tantos maus tratos, até que o cansaço sobrepujasse a revolta e o sono lhe trouxesse a paz.
Apenas uma única vez , em todo esse tempo, deparara com Isabela. Foi quando, numa certa manhã, ela veio até à cavalariça, em traje de montaria e, sem se dignar sequer a olhá-lo, ordenara, asperamente:
- Peão, sele o meu cavalo e leve-o, sem demora, até a frente do Casarão. Qualquer atraso lhe custara algumas chibatadas
. Em seguida, Isabela retirou-se, batendo com um pequeno chicote de encontro a perna.
Foi quando Juan Pabol decidiu fugir. Seus pedidos para ir embora da fazenda eram sistematicamente recusados por Tobias. A fuga não seria uma tarefa fácil, uma vez que era permanentemente vigiado durante o dia por um dos asseclas do capataz e que os portões de entrada e saída de Sierra Negra eram permanentemente guardados por vigias armados, que não hesitariam em atirar em quem se tornara um pária perseguido, pela simples razão de haver despertado a paixão e, depois, o incompreensível ódio de Isabela.
Assim, a única saída era escapar através da zona montanhosa onde ficavam os depósitos de minérios. Depois, evadir-se entre as rochas, até chegar ao deserto de Atacama e, de lá, tentar alcançar um dos vilarejos da região para, em seguida, conseguir algum meio de transporte que o levasse até Arica. A fuga deveria ser tentada em uma noite sem luar, o que o tornaria um alvo menos visível. E também fria e chuvosa, o que tenderia a fazer com que os vigilantes que patrulhavam as áreas da fazenda preferissem permanecer no conforto de suas guaritas.
A ocasião propícia surgiu alguns dias depois. Na noite de 12 de julho a lua permaneceu escondida pelas pesadas nuvens que despejavam uma chuva maciça sobre o norte do Chile. Em torno das duas da madrugada, carregando apenas uma pequena mochila, contendo água e alguns pedaços de pão já endurecidos, Juan Pablo deixou, silenciosamente, o dormitório e, protegido pela escuridão, atravessou a área dos alojamentos e dirigiu-se para o oeste. Mas não foi longe. Pouco antes dele alcançar a zona montanhosa, quis o acaso que um dos homens de Tobias que regressava, tardiamente, de uma das minas, percebesse um vulto se esgueirando na direção das rochas. O vigilante prontamente ergueu a carabina e deu dois tiros para o alto, mobilizando outros vigilantes que logo acorreram para o local dos disparos.
Em poucos minutos, Juan foi preso, acorrentado e levado à presença de Tobias. O capataz, com um sorriso sardônico nos lábios, esbofeteou o peão e disse:
- Com que então o peãozinho tentou fugir, hein ? Pois bem, seu filho da puta, desta vez você vai saber o que é castigo de verdade.
E dirigindo-se a seus homens, ordenou:
- Levem este cretino para o deserto e amarrem-no no tronco de uma árvore. Vamos ver quanto tempo um bastardo consegue sobreviver sem água e sem comida.
Juan Pablo sobreviveu três dias e três noites. Na manhã do quarto dia, semi delirante e torporoso, deu-se conta, finalmente, da intensidade da injustiça praticada por Isabela e, antes de entrar em estado de coma irreversível, odiou profundamente a única mulher por quem se havia apaixonado em sua curta existência na Terra. E, ao morrer, carregou esse ódio para a eternidade.
***
Raramente ocorria algum evento social em Sierra Negra. Naquela noite, contudo, Isabela estava recebendo, para um jantar, dois casais de fazendeiros vizinhos, a fim de comemorar a conclusão de um acordo sobre a venda de gado. Em torno das vinte e uma horas, quando os criados já se aprontavam para servir a sobremesa, Tobias surgiu à porta do aposento onde o jantar estava acontecendo e fez um sinal discreto para a patroa.
Isabela desculpou-se, ergueu-se e foi até o capataz. Em tom baixo, ele participou o passamento de Juan Pablo, ocorrido naquela manhã e verificado algumas horas atrás. Isabela empalideceu e foi tomada de uma leve tontura. Aparou-se no portal mas logo se recuperou, antes mesmo que Tobias se desse conta do fato. Em seguida, pediu ao capataz que lhe fornecesse maiores informações sobre a ocorrência. Ele relatou tudo, nos mínimos detalhes. A senhora de Sierra Negra despediu Tobias e, num paradoxal e estranho estado em que se misturavam satisfação e tristeza, retomou ao seu lugar à mesa. Por alguns minutos permaneceu calada, pensativa.
De súbito, soltou um gargalhada nervosa, quase histérica, ergueu o copo de vinho e solicitou aos presentes:
- Por favor, brindemos o término de um grande ódio.
Surpresos, constrangidos e confusos, os hospedes acompanharam o brinde. Em seguida, como que movidos por um mesmo pensamento, os atônitos visitantes começaram a se despedir da anfitriã. Em minutos, Isabela estava sozinha no aposento. Num gesto brusco atirou o copo contra a parede, deixou a sala e subiu as escadas em direção aos seus aposentos privativos. Lá, despiu-se totalmente e ficou contemplando a própria imagem diante do espelho.
Lentamente, foi percebendo a expressão do rosto ir se fechando e as lágrimas principiaram a rolar. Em seguida, dirigiu-se a cama e, fatigada, atirou-se sobre os lençóis, exclamando, quase num sussurro:
- Agora já não tenho mais a quem odiar. - fez uma breve pausa e concluiu - Mas também não mais tenho a quem amar.
As lagrimas aumentaram até se transformarem num copioso choro que fez o corpo de Isabela estremecer dos pés à cabeça. Quando o pranto finalmente cedeu, ela apagou a luz do pequeno candeeiro junto ao leito, virou de lado e adormeceu. E sonhou, repetidamente, com a cena que a descrição de Tobias havia implantado na sua imaginação: Juan Pablo, amarrado ao tronco de uma árvore, o corpo sangrando pelas chibatadas, estendia os braços na direção dela, o dedo indicador apontando num gesto de acusação. E do fundo da garganta do rapaz, ela ouviu, no meio do terrível pesadelo, a voz do quase amante sussurrar: "Por que, Isabela, por que ?". Em seguida, a cabeça do peão tombou para o lado e ele se foi para a eternidade.
Na manhã seguinte Isabela permaneceu no leito. Maiara a encontrou de olhos arregalados, parecendo fitar o nada, e sem a nada responder quando solicitada. Não se alimentou nem bebeu qualquer líquido nas horas que se seguiram. Manteve-se na cama, indiferente a tudo, inclusive ao cheiro de urina e fezes que se acumulavam sobre os lençóis. Maiara convocou duas outras criadas e lavaram o corpo da patroa, que a tudo acompanhava, com os olhos sempre abertos, inerte, sem a nada reagir. Mas os lábios mantinham-se cerrados, impedindo todas as tentativas feitas para alimenta-la.
Na terceira manhã, como o quadro permanecesse o mesmo e Isabela não manifestasse qualquer sinal de que alguma mudança pudesse ocorrer, Maiara informou Tobias, o qual já estava preocupado com o recolhimento da patroa. Ele prontamente telefonou para D. Diego Cervantes, pondo-o a par do que estava acontecendo. Os pais de Isabela chegaram no meio da tarde e, assustados com o estado da filha, ligaram para Arica e solicitaram ao médico da família que viesse imediatamente à fazenda. Ao cair da noite, o Dr.Iglesias, após proceder a um longo exame, declarou que Isabela estava em estado de depressão profunda e de severa desidratação. Logo chegaram de Arica duas enfermeiras equipadas com soros e tubos intragástricos para alimentarem a paciente.
No dia seguinte, Cristina chegou de Santiago. O quadro permanecia inalterado, agora agravado por uma febre que teimava em resistir aos banhos mornos que eram constantemente aplicados. Outros especialistas foram trazidos da capital e, após uma prolongada conferência médica, concluíram que Isabela padecia de grave depressão melancólica, profunda desidratação e de uma infeção de causa desconhecida. Tentaram sangrias, ventosas, arnica e outros tratamentos da época. Em vão: Isabela definhava a cada minuto. Recolhida na cama em posição fetal, semi-comatosa, rosto escavado, respiração irregular e acelerada. E assim ficou por muito tempo.
Na manhã do décimo dia, ela pareceu melhorar: esticou-se no leito, abriu os olhos e, numa voz quase inaudível, solicitou a presença da irmã. Desejava falar com ela a sós.
Cristina entrou no quarto, tomou assento ao lado do leito, pegou a mão quase esquálida da paciente e disse:
- Estou aqui, querida.
Isabela virou a cabeça na direção da médica e sussurrou:
- Sei que estou prestes a morrer, Cristina, mas isso não me causa medo.
A outra quis dizer alguma coisa mas ela a deteve com um gesto da mão:
- Por favor, irmã, não diga nada, apenas ouça. Quero que fique sabendo o que se passou e porque me encontro neste estado.
E, numa voz baixa, cansada e entrecortada, Isabela relatou tudo que ocorreu desde a viagem a Valparaíso. Cristina ouviu sem interromper. Ao término, comentou :
- Isabela, você está capitulando emocionalmente. Posso imaginar o peso da sua culpa, mas por que achar que a morte a resgataria? Ore por Juan, peça ao Senhor por sua alma, desenvolva algum programa de caridade em nome dele, mas continue vivendo.
Os olhos encovados de Isabela pousaram nos olhos lacrimosos da irmã.
- Meu pesar é grande demais para me permitir continuar vivendo.. e nada mais tenho a fazer...aqui na Terra. Por tudo que lhe contei, estou certa que eu e Juan já nos encontramos antes, como Michelle e Pierre.
Fez uma pausa, como que buscando ganhar forças para prosseguir.
- A morte prematura de Michelle não foi um ato deliberado da parte dele. E o sofrimento de Pierre foi tão grande que logo ele a acompanhou, esperando ir ter com ela em outro tempo... para buscar perdão e resgatar a dívida. Por isso voltamos a nos encontrar.
Duas lágrimas rolaram pelos olhos que começavam a se embaçar.
- Mas minha alma não se mostrou à altura da grandeza da alma dele. Ferida pelo monstro do ciúme, deixei-me contaminar por um ódio absurdo e submeti uma pessoa pura e meiga a castigos injustos e impiedosos... E ele se foi, não por acidente, mas por um ato deliberado meu.
Outra pausa. A respiração de Isabela principiava a falhar. Ela tomou fôlego e continuou:
- Não, irmã, não há como viver com o peso de tamanha culpa. Tenho de ir ao encontro dele, como ele veio ao meu encontro. Juan tentou resgatar a divida cármica para comigo mas eu não permiti que o fizesse. Cabe-me... agora... partir... para ir procurar por ele... Em algum lugar.. no futuro... estaremos de novo frente a frente e, então, quem sabe? o amor prevalecerá e o resgate se completará. Assim, Cristina, só a minha morte pode abrir caminho para que isso venha a ocorrer... Recebo-a sem temor.. Ela é a minha única esperança. Tente fazer com que papai... e mamãe.. compreendam e aceitem isso.
Ela fez nova pausa e um esboço de sorriso formou-se nos lábios já arroxeados.. A voz transformou-se num difícil sussurro e os olhos se fecharam.
- Sinto.. que...meu corpo... está esfriando...rapidamente...e uma... manta... negra... parece... descer... sobre... minha... mente....É... a... morte.. chegando. Bendita...seja...ela...
A cabeça de Isabela tombou para o lado e Cristina percebeu que a irmã havia parado de respirar. Pensou em ir buscar socorro, mas logo mudou de idéia. Nada mais havia mesmo a fazer. Que Isabela partisse em paz, em busca do seu amor e do seu destino...
SEGUNDO "INTERMEZZO"
Novamente, voltamos ao eterno vazio, muito além do nosso universo, onde o tempo não se altera, e as almas se aprontam para regressarem à Terra, a fim de resgatarem erros de existências anteriores e se aperfeiçoarem. E o ciclo irá se repetir até que cada alma alcance o estágio de maturidade espiritual essencial a permitir sua definitiva integração na Grande Energia Cósmica.
A alma de Juan Pablo reincarnou primeiro. E, tomando-se o calendário gregoriano como referencial de tempo terrestre, Isabela reincorporou dezoito anos depois. Mas, desta vez, não nasceram na França nem no Chile, mas no Brasil, na cidade do Rio de Janeiro.
PARTE TRÊS
Yuri e Penélope
Ao iniciar o relato desta saga, eu, Yuri Olivieri, falei muito a meu respeito. Cabe, agora, falar um pouco de Penélope. Como mencionei, no inicio, somos primos, pelo lado materno. Ela veio à Terra, também no Rio de Janeiro, no dia 10 de setembro do ano gregoriano de 1952 e a primeira recordação que dela tenho, foi quando, numa tarde de primavera bem carioca, fui visitar seus pais, a fim de conhecer a mais nova das minhas priminhas, nascida há pouco menos de dois meses.
Durante a infância de Penélope, estivemos juntos inúmeras vezes. O primo, jovem e estudioso e a priminha, uma linda menina cujos olhos azuis eram de uma beleza incomparável.
Com o passar dos anos, Penélope e eu nos encontramos em muitas ocasiões, mas não tantas quanto desejaríamos e, agora sinto, bem menos do que deveríamos. Se maiores tivessem sido as oportunidades, talvez, conhecendo-a mellhor, eu tivesse tentado evitar o que nos aguardava no futuro.
Mas deixemos que a própria Penelópe assuma, a partir deste momento, o comando desta narração.
***
Meu nome de solteira é Penélope Laso. Não pretendo, aqui, dissertar sobre minha vida no seu todo, mas apenas falar dos acontecimentos relativos ao meu relacionamento com Yuri e dos sentimentos que, com o passar dos anos, foram se consolidando entre nós dois. Como ele mencionou, na introdução desta história, nascemos numa mesma família. Minha primeira lembrança dele remonta aos meus seis ou sete anos. Yuri era o primo que eu mais admirava. Sempre senti um grande carinho por ele e, aos poucos, fui percebendo que estávamos ligados por inúmeras afinidades.
Quis o destino, contudo, que seguíssemos caminhos bastante diferentes. Eu me casei cedo, tive uma filha e tornei-me advogada e acabei me divorciando. Yuri formou-se em medicina e, ainda relativamente jovem, foi viver. por muitos anos, nos Estados Unidos onde tornou-se neurocientista. Casou duas vezes, uma lá e outra aqui. Mas, como o meu, seus casamentos não duraram muito...
Quando adultos, nossos encontros foram escassos. No entanto, ele sempre se mostrou, acima de tudo, amigo nas horas de necessidade e eu o via como um espécie de "porto seguro". Por obra do acaso ou do destino, não sei, os momentos em que estivemos mais unidos foram durante os difíceis períodos de enfermidade de nossas respectivas genitoras. Devo a Yuri uma gratidão especial: graças a intervenção dele - e aqui não cabe entrar em pormenores sobre o caso - minha mãe ganhou mais dez anos de vida.
E assim permanecemos, por muitos anos, mais distanciados do que próximos. Até que, em um determinado Domingo, não muito tempo atrás, tomada por um inexplicável impulso, motivada por uma súbita saudade e um forte desejo de me comunicar com Yuri, de quem não tinha notícias há mais de dois anos, telefonei para ele, Disquei o número do seu laboratório julgando estar ligando para o de sua residência. Era um Domingo. Não era para ele estar, naquela hora, naquele dia, em seu local de trabalho. Mas Yuri, também movido por um impulso que não soube nem sabe explicar, tinha ido até lá, pegar um disquete de que, revelou-me mais tarde, não necessitava. Permaneceu no local por apenas alguns segundos e já ia se retirando quando o telefone soou. Ele atendeu...era eu!
A partir de então, passamos a nos ver e a nos comunicar por telefone com progressiva freqüência. Quando Yuri relatou-me sobre o que o gurú indiano lhe havia enviado, por e-mail, minha surpresa e confusão não foram menores que a dele. Mas, a esta altura, já me encontrava envolvida por algo ainda maior que um possível determinismo cármico: a crescente sedução que meu primo exercia sobre mim. Em pouco tempo, nossas afinidades, lembranças de nosso passado comum, mútua atração física e um forte sentimento de companheirismo, foram moldando nosso caminho na direção de uma paixão arrasadora.
Porém, nem tudo foram ou têm sido flores: passamos por momentos difíceis, resultantes de nossas próprias personalidades - ambos temos o que se denomina "pavio curto". arrasadora. Porém, nem tudo foram ou têm sido flores: passamos por momentos difíceis, resultantes de nossas próprias personalidades - ambos temos o que se denomina "pavio curto". Como também sofremos a incompreensão de parentes e amigos que teimavam em fazer restrições ao nosso relacionamento. Mas, pelo menos aparentemente, superamos tudo. E, não faz muito tempo, casamos, numa cerimônia simples, conduzida por uma simpática Juíza de Paz. Logo depois, tomamos uma barca, uma nave mágica, que nos conduziu a uma ilha cheia de encantos e fantasias, situada em algum lugar, tão perto quanto distante, tão real quanto virtual. Para uma linda casa, o nosso lar. Lá, buscaremos pacificar as nossas almas. Lá, buscaremos, através do amor, resgatar uma dívida cármica de vários séculos. Se tivermos êxito, então estaremos no caminho da felicidade eterna, que haverá de transcender nossa atual existência terrena. Se fracassarmos, a dívida cármica persistirá e nossa saga continuará através do tempo...até que nova chance nos seja concedida. Ambos estamos conscientes de que não será uma tarefa fácil. Mas tentaremos. Lá, em nosso mágico recanto. No nosso lar. Que tem um nome místico e romântico: o Solar das Sete Luas!
EPÍLOGO
Tentamos...e fracassamos. Uma terrível maldição nos acompanha. Penélope que, ocasionalmente, mostrava a doçura de Michelle, certamente herdou, bem mais intensamente, as características de Isabela. Nas últimas semanas ela tem sido acometida de estranhos e assustadores pesadelos. Em certos instantes, é como se um demônio dela se apossasse: seus olhos se incendeiam e, tomada de inexplicáveis acessos de fúria, quebra tudo que esteja ao seu alcance. E quando a crise cessa, ela chora, é assaltada por sentimento de culpa e entra em depressão. Em outros momentos, são manifestações de ciúmes despropositados que cegam totalmente seu raciocínio. E a fúria volta a se apossar dela. Em consequência, os bons momentos logo se tornaram escassos oásis num deserto de brigas, confrontos e desrespeitos. Sinto-me confuso e, confesso, incapaz de administrar o que vem acontecendo conosco. Na tentativa de construir um amor, destruímos muitas coisas e magoamos diversas pessoas. E não construímos absolutamente nada, a não ser arrependimentos e decepções. E, ainda não haviam decorridos sequer três meses da nossa vida em comum, quando decidimos nos separar, para tentar dar fim a um amargo sofrimento. Iniciamos o processo e divórcio. O Solar das Sete Luas perdeu sua magia e tornou-se um local triste, sombrio e abandonado. Estamos agora distantes um do outro. Mas Penélope não se submeterá a qualquer tratamento psiquiátrico. Que, na verdade, de nada valeria. A doença dela é, dentro dos atuais conhecimentos médicos, absolutamente incurável. Não só pela forte carga genética envolvida (um tio e um dos avós eram esquizofrênicos e o pai era portador de personalidade psicopática), como também porque a própria Penélope se considera normal, sendo, diz ela, apenas uma temperamental e que os outros é que tramam contra a pessoa dela, obrigando-a a reagir. (um típico e incurável caso de paranóia). Assim, salvo um improvável milagre, continuaremos separados. Logo, nosso carma não será resgatado nesta atual existência e a nossa saga deverá continuar através dos séculos.
Mas até quando ? Que Deus tenha piedade de nossas almas!
Yuri.
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