A NOITE DOS ORIXÁS

PARTE IV

Capítulo 32

20 de janeiro, 14:30

Em seu gabinete, no departamento de genética do Instituto Oswaldo Cruz, Jerônimo procurava se concentrar na leitura de um artigo quando o interfone tocou.

"Sim, Sheila"

"Professor, tem um policial aqui, delegado Guilherme Martins, querendo falar com o senhor."

O cientista hesitou um momento - o preâmbulo do epílogo, pensou - e depois disse :

"Faça-o entrar" - e levantou-se para ir abrir a porta para o visitante.

Guilherme entrou e os dois trocaram um aperto de mão. O primeiro retirou uma carteira do bolso interno do paletó e fez menção de mostrar sua identificação. O outro deteve-o com um gesto.

"Não é preciso, delegado. Acredito que o senhor seja quem diz ser" - apontou uma poltrona - "Fique à vontade" - e voltou a se sentar na cadeira, por traz de sua mesa de trabalho.

Guilherme acomodou-se na poltrona e passeou os olhos pelo recinto : sobre a mesa principal, apenas dois telefones e uma revista. À esquerda, um computador com a impressora. Duas das paredes estavam ocupadas por estantes, repletas de livros e revistas, cuidadosamente arrumados. Em um dos cantos do aposento, sobre uma mesinha, um tabuleiro de xadrez, adornado por peças de marfim, belamente trabalhadas. ' Ah, um enxadrista. Casa bem com o estrategista'.

Seus pensamentos foram interrompidos pela voz de Jerônimo :

" Em que posso servi-lo, delegado?"

A resposta foi surpreendente :

"Joga xadrez, professor?"

"Sim. É um dos meus hobbies favoritos. E o senhor, também joga?"

"Sei mexer com as peças"

"Quem sabe, não jogaremos um dia uma partida?"

"É, quem sabe, afinal nada é impossível."

"Seria interessante. Mas, delegado, não creio que o senhor tenha vindo aqui para falar de xadrez."

Guilherme sorriu.

"Na verdade, não. O senhor está a par dos crimes ocorridos, no início deste mês, no Hotel Merídien?"

"Na medida do que a mídia tem apresentado, sim."

"Eu estou encarregado do caso e, por uma questão de rotina, estamos fazendo algumas perguntas a todas as pessoas que estiveram lá, naquela noite. E como seu nome constasse da lista dos convidados da CNI. "

"De fato estive lá. para a sessão inaugural e o coquetel. Infelizmente, as exposições não chegaram a acontecer."

"Porque o evento foi cancelado, em virtude da morte de três participantes, friamente assassinados."

"Lamentável."

"O que, doutor, os assassinatos ?"

Jerônimo fitou o policial, bem dentro dos olhos, e disse :

"Não, delegado. Referia-me ao evento. Sua programação era bastante promissora."

Guilherme ergueu de leve as sobrancelhas, mas achou melhor deixar passar.

"Diga-me, professor, até que horas ficou no coquetel"?

Jerônimo fez uma expressão de quem estava procurando se lembrar. Após alguns segundos, respondeu :

"Até as 23 horas, mais ou menos."

"E depois? "

"Depois saí, peguei meu carro, que estava estacionado na praia, e fui direto para meu apartamento."

"Por acaso alguém viu quando o senhor chegou? O porteiro, um vizinho, qualquer pessoa."

"Possivelmente, não, delegado. A garagem do nosso prédio é do tipo que a gente abre e fecha, ainda dentro do carro, por controle remoto. O senhor sabe como é. Uma questão de segurança..."

"Hum, hum."

"Estacionei o auto na vaga. Depois peguei o elevador de serviço, dentro da própria garagem e subi para o meu andar. Não me recordo de ter encontrado alguém. E acho que também ninguém me viu."

Guilherme não conseguiu evitar um comentário mordaz :

"O tipo do álibi conveniente"

"Como assim?"

A primeira estocada :

"Aquele que não se tem como provar se é falso ou verdadeiro."

A expressão de Jerônimo não se alterou. O delegado mudou, bruscamente o rumo do interrogatório :

"O senhor possui alguma arma de fogo? Um revolver, uma pistola?"

"Não, não possuo nem nunca possuí."

Outra virada de rumo. A segunda estocada :

"Dr. Albuquerque, o senhor se interessa por orixás?"

Jerônimo soltou uma risada.

"Uma pergunta estranha, essa, delegado. Mas, curiosamente, de fato houve um tempo em que andei meio interessado em relação aos cultos afro-brasileiros. Tinha meus dez a onze anos. Uma involuntária influência materna. Minha mãe havia escrito uma tese sobre o assunto e eu costumava ler alguns trechos dos rascunhos, enquanto ela preparava o livro. As vezes, até trocávamos algumas idéias a respeito. Acho que, se puxar um pouco pela memória, talvez ainda seja capaz de recordar alguma coisa."

"Entendo que a pergunta lhe tenha parecido estranha, professor. Acontece que as investigações policiais nos levam, as vezes, a caminhos surpreendentes."

Guilherme fez uma pausa e estudou a expressão do outro : impassível. Bem, pensou, passemos à terceira estocada :

"Mas, mudando de assunto. Os jornais publicaram os nomes dos empresários assassinados. Causou-lhe alguma surpresa saber que eles foram sócios de seu pai, de 1966 a 1971 ?"

O cientista considerou a pergunta por um instante : o melhor disfarce veste, as vezes, a manta da verdade...

"Nenhuma. Quando li os nomes, lembrei-me do fato e, ainda disse, com meus botões : 'que estranha coincidência!' Mas, como as investigações, os acasos da vida também podem nos levar por surpreendentes caminhos, não é verdade?"

Seguiu-se um longo silêncio. Guilherme sentiu que a estocada tinha vindo, agora, do outro lado. As palavras foram ditas num tom de inconfundível ironia... e desafio. O que confirmava o perfil psicológico que traçara de Jerônimo : um homem determinado a enfrentar as consequências de seus atos. Na hora em que as cartas forem colocadas sobre a mesa, se ele não tiver os trunfos para ganhar, não vai blefar. Vai confessar tudo...nos mínimos detalhes.

O delegado girou o botão mental, desligou-se das abstrações e retomou o interrogatório, mesmo sabendo que, no momento, as respostas não conduziriam a nada de concreto. Aquela ainda não era a hora da verdade.

"O senhor conhecia bem aqueles homens?"

Jerônimo sacudiu a cabeça.

"A última vez em que os ví, foi no enterro de meu pai, quando eu tinha 11 anos Guardei os nomes mas não as fisionomias. E, mesmo que tivesse, elas devem ter mudado muito. Não os reconheceria, ainda que nos víssemos frente a frente".

Guilherme se ergueu e disse :

"Bem, acho que, por ora, é só. Contudo, dependendo do rumo das investigações, talvez seja necessário solicitar-lhe outros esclarecimentos. Obrigado pelo seu tempo."

Jerônimo se levantou e foi abrir a porta para o delegado.

"Não creio saber qualquer coisa que possa ajudar nas investigações. Mas, de qualquer forma, estarei sempre a sua disposição. Tenha uma boa tarde, delegado."

"Boa tarde, professor."

* * *

Capítulo 33

20 de janeiro, 14 : 56

Minutos depois, Guilherme entrou no carro oficial, que o aguardava no estacionamento do Instituto e disse para o motorista :

"OK, José, toca direto para a delegacia."

Pelo caminho, ficou mentalizando as feições de Jerônimo, atentando, principalmente, para a cor dos cabelos e o jeito do penteado.

* *

Ao chegar na delegacia de homicídios, o delegado foi direto para a seção de reconhecimento e identificação . Ao entrar na sala, deparou com um jovem de cabelos cumpridos, sentado frente ao monitor, jogando uma partida de xadrez com o computador. Ao ver o delegado, ele fez menção de se levantar mas o outro o deteve, colocando a mão sobre o seu ombro.

"Fique aí mesmo, Nelsinho. Tenho um trabalho para você."

"É só mandar, chefe"

"Cadê o retrato falado que você fez do homem de macacão, aquele do caso do Meridien?"

Nelsinho esticou a mão para um arquivo, sobre uma mesinha, ao lado do computador. Fez uma busca rápida e retirou um dos disquetes.

"Está aqui, delegado."

"Vamos dar uma olhada"

O técnico colocou o disquete no drive e movimentou o mouse. Em segundos, surgiu na tela a imagem construída a partir da descrição feita pela camareira Camila.

"Vamos proceder a algumas alterações - disse Guilherme - "Eu vou falando e você vai ajustando."

"OK."

"P'ra começar, vamos eliminar o bigode."

Nelsinho mexeu no teclado, moveu o mouse... e o bigode sumiu.

"Ótimo. Agora, vamos mudar a cor do cabelo...."

Depois de uns dez minutos de ajustes e retoques, Guilherme deu-se por satisfeito. Virou-se para Nelsinho e disse :

"Acho que é isso ai. Imprima e registre como : 'Caso Meridien. Retrato falado no 2. Descrição feita pelo delegado Martins, em 20 de janeiro de 1999'."

Depois, ficou alguns momentos pensativo, contemplando a tela do monitor. De fato, a imagem se assemelhava bastante com o rosto de Jerônimo Charon de Albuquerque.

* * *

Capítulo 34

22 de janeiro, 09:15

Naquela manhã, convocados por Guilherme, apresentaram-se, no gabinete, os detetives Ramalho, Argeu e Magda.

"Chamei-os aqui," - começou o delegado - " porque tive uma idéia e vou precisar que vocês me ajudem a pô-la em prática. Mas, antes, gostaria de fazer uma revisão de tudo que já sabemos e avaliar em que pé as coisas se encontram. Vejamos : conquanto, na reunião lá em casa, algumas hipóteses alternativas tenham sido levantadas, pessoalmente, não tenho a menor dúvida de que o Dr.Jerônimo Albuquerque é o nosso homem. Mas, o que temos, efetivamente, em relação a ele ? Vamos ver : 1 - Esteve no hotel na noite dos crimes, porém alega ter saído de lá em torno das 23:00 horas e ido direto para seu apartamento. Ninguém se lembra de tê-lo visto sair do Meridien e, segundo ele mesmo afirma, ninguém o viu chegar ao prédio em que reside. Logo, não possui um álibi para o período em que os assassinatos ocorreram. Mas, também, não podemos provar que ele se encontrava no local dos crimes quando estes aconteceram. 2 - Possuímos dois retratos falados em nosso computador. O primeiro, que, assim julgamos, mostra a imagem de um rosto disfarçado, foi baseado na descrição de uma camareira que viu um homem de macacão saindo do quarto da última vítima, na noite de 04 de janeiro. Porém, essa imagem não bate com os traços faciais do Dr.Jerônimo, nem podemos garantir que existia, de fato, um disfarce. O segundo, sim, é quase uma cópia fiel do rosto dele. Mas ele foi baseado na descrição feita por um delegado - que considera o referido professor como sendo o criminoso - a partir dos traços fisionômicos de um cientista, no Instituto Oswaldo Cruz, na tarde de 20 de janeiro. Assim, qualquer bom advogado não terá dificuldade em convencer o júri de que o retrato falado não é uma prova a ser levada em consideração. 3 - As vítimas foram sócios do genitor do Dr. Jerônimo, há cerca de 30 anos atrás. Achamos que o Sr. Albuquerque se suicidou, de forma a fazer parecer um acidente e que, para Jerônimo, os sócios traíram seu pai, levando-o á ruína e ao suicídio. Mas não dispomos de qualquer evidência de que tal traição tenha, de fato, existido e, no laudo oficial do inquérito consta, como conclusão - morte acidental. 4 - A única teoria que faz sentido, para justificar porque Jerônimo assassinou aqueles três industriais é a que se baseia no motivo vingança. Mas que prova temos de que ele, de fato, acreditava que seu pai foi traído pelos sócios e que nutria, contra estes, um sentimento vingativo? 5 - O segundo tiro, disparado na nuca, sugere um ato de punição ou vingança, contra uma traição ou qualquer outra indignidade que o criminoso considere que as vítimas tenham cometido. Mas, como provar que isso não tenha sido feito, com o deliberado propósito de confundir o raciocínio da polícia ? 6 - O Dr.Jerônimo, e ele não nega isso, tem algum conhecimento a respeito de orixás. Ao colocar a figura de Xangô, estaria mostrando a marca do justiceiro e, como lembrou bem o Ramalho, também assinando o seu nome, ao lado dos corpos de suas vítimas. Mas quem garante que isso nào tenha sido feito por outrem, com o deliberado propósito de lançar suspeitas sobre o nosso cientista ?"

Guilherme parou e estudou a expressão facial dos três detetives. Confusão e dúvida estavam estampadas em seus rostos. Estava na hora de esclarecer. Recomeçou :

"Percebem aonde estou querendo chegar? Nós sabemos que o Dr. Jerônimo é o assassino, não por intuição, mas, como expliquei na outra noite, por uma inexorável conclusão, ditada pelo raciocínio dedutivo, já que nada mais faz sentido. Porém, tudo o que temos são provas circunstanciais. Talvez suficientes para que um juiz, não muito exigente, nos forneça uma ordem, para detê-lo por algum tempo. Contudo, se o caso terminar em julgamento, é muito improvável que a promotoria consiga arrancar, do corpo de jurados, uma sentença condenatória. Não se pode esquecer que o Dr. Jerônimo é um conceituado cientista e a imagem que o povo faz, de um homem de ciências, é a de alguém que trabalha, horas à fio, dia após dia, em benefício da humanidade. Poucos considerariam que esse alguém fosse capaz de praticar crimes tão friamente executados. Logo, a coisa parece estar feia para o nosso lado, não é mesmo? E, realmente estaria, não fosse por um detalhe sumamente importante : o perfil psicológico do Dr. Jerônimo. Ele é uma pessoa muito inteligente e um grande estrategista, persistente e minucioso. Mas, por outro lado, é extremamente orgulhoso e vaidoso. Estou convencido que, no momento certo, ele vai confessar. Porque, lá no íntimo, deseja que o mundo tome conhecimento da sua façanha. Ele começou a planejar sua vingança, acho eu, há 28 anos, quando ainda nem havia entrado na adolescência, e nunca desistiu dela. Esperou, pacientemente, por uma oportunidade e, quando ela apareceu, executou seu plano com excepcional brilhantismo. Por certo, a sorte colaborou, mas a estratégia que traçou foi a espinha dorsal do seu sucesso. Mas será apenas por vaidade que ele deseja confessar os crimes, para ele, um ato de justiça? Não. Ele quer também mostrar ao mundo que tipo de canalhas eram os homens que arruinaram seu pai, uma pessoa por quem, de certo, ele tinha uma enorme afeição. Mas existe ainda um outro aspecto a nosso favor ; o próprio senso de justiça de Jerônimo não lhe permite aceitar, em hipótese alguma, que seus irmãos possam vir a sofrer constrangimentos, ou se tornem suspeitos de atos que ele próprio cometeu. A meu ver, se isto acontecer, o fato vai exercer uma enorme pressão sobre ele e acabar com qualquer hesitação que ainda possa sentir em relação à decisão de confessar. E é isso que eu pretendo fazer : pressionar os familiares do Dr. Jerônimo, a fim de conseguir a confissão dele. Pois, sem ela, jamais conseguiremos obter uma condenação. Admito que, de certa forma, entendo e até respeito seu ato de vingança e não nego o quanto admiro a sua inteligência. Como lamento ter de usar desse recurso, mas, um crime de morte, por mais justificável que seja, não pode ficar impune e, a nós, policiais, cabe a responsabilidade de impedir a impunidade."

Guilherme fez nova pausa e olhou, longamente para os três detetives. Depois disse :

"E é aí que vocês entram na história. Cada um vai interrogar um dos parentes mais próximos de Jerônimo. Ramalho, quero que se encarregue do padre, em Ribeirão Preto. Argeu, você vai mais longe, até Salvador, conversar com a D. Cristina. E Magda fica por aqui mesmo. Vai cuidar de dar o aperto no teatrólogo Sebastian. Já falei com a Neuza do setor de pessoal. Ela vai passar a vocês os endereços das três pessoas a serem visitadas, as passagens para Ribeirão e Salvador e o dinheiro para as despesas necessárias. Ida e volta de avião. Hoje é Sexta. Resolvam isso até amanhã, Quero que, até domingo, Jerônimo já esteja se sentindo suficientemente pressionado. É na tarde desse dia que pretendo voltar a visitá-lo e abrir o jogo...totalmente."

O delegado parou de falar, ajeitou-se na cadeira, refletiu por um momento e recomeçou, num tom um pouco mais carregado :

"Bem, vejamos, agora, como eu quero que vocês procedam. Para começar, indaguem, de todos, onde se encontravam na noite dos homicídios. Falem que nós sabemos das ligações passadas, entre as vítimas e o Sr Carlos Albuquerque e que a polícia trabalha com a hipótese de que os crimes foram praticados por vingança. O que os torna suspeitos em potencial. À D. Cristina, mencionem, também, a coincidência dela ter escrito uma tese sobre orixás e de que figuras, representando essas entidades, tenham sido encontradas junto aos corpos dos ex-sócios do seu marido. E informem, a todos eles, que, possivelmente, terão ainda de passar por novos interrogatórios. Lembrem-se que a idéia é deixa-los preocupados, receosos e constrangidos. E que, quando se comunicarem com o Jerônimo, para contar sobre a visita de vocês - o que logo se apressarão a fazer - passem esses sentimentos para ele. Alguma pergunta ?"

"Eu tenho uma." - disse Ramalho - "O senhor falou que pretende se encontrar com o Jerônimo na tarde de domingo. Como vamos ter certeza do local aonde ele se encontrará nessa hora?"

Guilherme lançou um olhar de surpresa para o detetive.

"Eu seria muito ingênuo se não tivesse pensado nisso e adotado as necessárias medidas a respeito. Desde ontem, os detetives Malta e Siqueira vêm mantendo o Dr. Jerônimo sob discreta mas estreita vigilância. Quando sairmos, no domingo, para visitar o professor, estaremos sabendo, exatamente, para onde deveremos ir."

* * *

Capítulo 35

23 de janeiro, 17:23

Pela primeira vez, desde os meados de dezembro passado, quando iniciara os preparativos da operação justiça, Jerônimo conseguira desfrutar de algumas horas de relaxamento. Passara a maior parte do dia em Itaipava, no sitio do biólogo Demétrio Amaral, de quem se tornara amigo, desde os tempos de faculdade. Uma amizade que perdurava por mais de 20 anos. Incansável trabalhador de segunda a sexta, Demétrio se recusava a tratar, nos fins de semana, de qualquer coisa que dissesse respeito a sua profissão. Sábados e domingos significavam longas caminhadas, mergulhos na piscina, um bom churrasco, uma pelada descontraída, um joguinho de cartas e troca de anedotas.

Foi um hiato de paz na tormentosa guerra de nervos em que Jerônimo se debatia. Porque, conquanto tentasse controlar as emoções, era inevitável que sofresse os efeitos de uma enorme tensão, diante da expectativa do que deveria acontecer em breve. Se, em algum momento, guardou alguma esperança de que a conexão entre as vítimas e seu pai permanecesse sepultada no cemitério do tempo, ela se desvaneceu quando da visita do delegado ao Instituto. Guilherme Martins, a astuta raposa, não tinha ido lá para colher informações. Ele sabia a resposta para todas as perguntas que fizera. Não, ele tinha ido para conhecer a presa, analisar suas reações e traçar o seu perfil psicológico. Poderia, assim, escolher o melhor caminho a ser seguido, para alcançar o seu objetivo : provar a culpa de Jerônimo e, se possível, levá-lo a confessar os crimes. E o cientista pressentia que esse momento não ia tardar. Em breve o predador retornaria...

O carro percorria, agora, os últimos metros da estrada Rio - Petrópolis. Jerônimo ligou o rádio, rastreou até encontrar um clássico de Chopin, afastou Guilherme da mente e se preparou para enfrentar o pesado tráfego da Avenida Brasil.

* * *

Capítulo 36

23 de janeiro, 18:15

Mal entrou no apartamento, o telefone soou.

"Alô"

"Jê, sou eu."

Sebastian não precisava se identificar. Sua voz, embora carregada de nervosismo, conservava a inconfundível vocalização trabalhada, característica dos artistas de teatro. Além do que, era a única pessoa que o tratava por Jê.

"Tudo bem, Sebastian?"

"Tudo bem, nada. Aconteceu uma coisa terrível"

Outra característica do irmão, pensou Jerônimo : super dimensionar e dramatizar tudo.

"O que houve? "

"A polícia veio me interrogar hoje, pela manhã . Estou ligando para você desde o meio-dia e só tocava, tocava e ninguém atendia."

Embora a notícia o perturbasse, Jerônimo procurou mostrar serenidade. Tinha que acalmar o irmão, antes que ele desmoronasse.

"Calma, Sebastian. Relaxa e me conta o que eles queriam"

"Saber onde eu estava na noite do dia 3 para o dia 4. Por causa daqueles homens que foram assassinados no Meridien. Disse que não sabia nada a respeito. Tinha apenas ouvido alguma coisa, por alto. Que toda minha atenção estava voltada para a excursão que nossa companhia vai realizar pelo sul do país."

"Hum, hum, continue."

"Então ela falou que os mortos haviam sido sócios de papai; que a polícia estava trabalhando com a hipótese de vingança e que, naturalmente, entre os suspeitos, estavam os filhos de Carlos Albuquerque."

"O delegado de homicídios também veio falar comigo, há três dias, no Instituto. Isso é só rotina, Sebastian. Basta você ter um álibi para a hora dos crimes e sai da lista de suspeitos."

"Ai é que a coisa pega. Eu não tenho porra de álibi nenhum."

"Como assim? "

"Lembro bem da tal noite, porque foi no domingo em que tive uma briga séria com a Marina, na saída do teatro. Você sabe como eu sou. Disse coisas que não devia e ela foi embora chorando. Irritado, resolvi dar umas voltas pela cinelândia para acalmar. Depois, peguei um taxi e fui para casa."

Sebastian fez uma pausa e respirou fundo, procurando se acalmar.

"O porteiro do seu prédio deve ter visto você entrar."

"Ai é que está a merda toda. Era domingo, tá lembrado ? Ele estava de folga. Você conhece o edifício. São só três andares. Cada morador tem a chave da porta principal. Usei a minha e entrei. Não ví ninguém nem ninguém me viu. Peguei o elevador e subi. Pensei em ligar para a Marina para pedir desculpas, mas mudei de idéia. Tomei um banho, engoli dois lexotans, cai na cama e dormi até às nove da manhã seguinte. Contei tudo isso para a mulher que veio me interrogar."

"Mulher?"

"Mulher, sim. Uma tal de Magda não sei de que. Boazuda mas uma cobra. Depois que falei tudo, ela disse: 'seu Sebastian. o senhor está em maus lençóis. Sem um álibi, seu nome vai para o topo da lista de suspeitos.' Perguntei se ela ia me prender. Disse que, por enquanto, não. Que ainda havia muita coisa a ser investigada, mas que. em breve, eu voltaria a ser interrogado e, dessa vez, na delegacia. Tou ferrado. O que é que eu faço, irmão?"

"Nada.. Essa tal de Magda andou praticando terrorismo p'ra cima de você. É assim que a polícia age : pressiona todo o mundo até que o culpado escorrega, desmorona e confessa. Mas você é inocente e nada vai lhe acontecer. Esquece essa coisa e vai se divertir com a Marina. Garanto que eles não voltarão a lhe incomodar."

"Como é que você pode garantir? "

"Porque sei do que estou falando."

"Como....? "

"Sebastian, confia em mim. Já disse que garanto que você não será mais incomodado. Continua com sua vida normal e deixa esse assunto p'ra lá. OK?"

"OK, Jê. Vou seguir o seu conselho. Afinal, nosso irmão mais velho nunca nos falhou."

 

Jerônimo começou a sentir um nó na garganta, A confiança de Sebastian, conquanto infantil, era comovente. Controlou a emoção e disse, como costumava fazer quando eram crianças :

"É isso ai, garoto. Tchau."

"Tchau, Jê, e obrigado. Já me sinto bem melhor."

Jerônimo mal ouviu as últimas palavras de Sebastian. Tinha se apressado em desligar...

* *

Terminada a conversa com Sebastian, Jerônimo se despiu e encaminhou-se para o chuveiro. Nem tinha acabado de se enxugar quando o telefone tocou pela segunda vez. Era D. Cristina.

"Alô."

"Jerônimo, sou eu."

"Oi, mãe, tudo bem por ai?"

"De saúde, tudo bem. Mas hoje aconteceu uma coisa que me deixou bastante preocupada."

Jerônimo desconfiou logo do que se tratava.

"O que foi?"

"Imagine você que, hoje cedo, um policial veio do Rio, para me fazer perguntas sobre um crime que ocorreu, no início do mês, em um hotel ai da zona sul. Eu nem tinha ouvido falar a respeito, mas fiquei estupefata quando ele me contou que os tres homens assassinados foram aqueles sócios de seu pai na COMPTEC. Está lembrado deles?"

"Sim, vagamente. Mas, e daí ? A senhora nem estava no Rio quando os crimes aconteceram."

"Ele sabia disso, mas falou que veio me procurar por causa do livro que eu escrevi, há não sei quantos anos. Lembra? Foi aquela tese que apresentei sobre orixás."

Jerônimo sentiu que deveria dar uma de inocente :

"Mas o que tem isso a ver com os crimes?"

"O tal detetive falou que o assassino havia deixado, junto aos corpos, figuras de orixás. E que, então, a policia juntou as coisas : eles acham que o motivo dos crimes é vingança; eu era viúva do ex-sócio das vítimas e tinha escrito um livro sobre orixás. No mínimo, uma estranha coincidência. Ai, resolveram verificar o que eu sabia a respeito."

"Ora, mãe, é claro que a senhora não sabe nada, nem tem nada a ver com essa história.. Isso não passa, mesmo, de uma enorme coincidência. Além do mais, a senhora tem um álibi perfeito : está em Salvador desde antes do ano novo. Logo, não tem com que se preocupar."

"Não é comigo que estou preocupada, mas com vocês."

"Como assim?"

"Sabe o que foi que o detetive disse? Excluída a viúva do ex-sócio das vítimas, as suspeitas passam a recair sobre os filhos, ou seja, você, Sebastian e Antônio."

Na mente de Jerônimo, uma luz se acendeu e, numa fração de segundo, entendeu tudo, Guilherme, a astuciosa raposa, achara a melhor fórmula para pressioná-lo : constranger e preocupar os seus familiares. Na realidade, estava mandando um aviso. Podia até ouvir as palavras do delegado, no próximo encontro que, pelo andar da carruagem, não demoraria a acontecer : ' vamos, doutor, confesse ter cometido os crimes, a fim de evitar dissabores para sua mãe e seus irmãos' .

A voz de D. Cristina interrompeu seus pensamentos ;

"Jerônimo, você ainda está ai?"

"Claro. Continue o que a senhora estava dizendo;"

"Bem, quando o detetive citou vocês, eu disse que isso era um absurdo. Ele se limitou a dar um sorriso maldoso e, depois, pediu desculpas pelo transtorno e foi embora. Em relação ao Antônio, estou tranquila. Ele jurou que não se afastou um único dia de Ribeirão Preto, desde o natal passado. Mas, até agora, não consegui falar com o Sebastian. Estou ligando há horas para a casa dele e ninguém atende. Você tem o número do teatro em que ele está trabalhando?"

Nunca, durante toda sua vida, Jerônimo havia mentido para a mãe. Porém, agora, mentiria, quantas vezes fosse necessário.

"Esquece o Sebastian, mãe. Na ocasião dos crimes, ele estava excursionando com uma peça, no sul do país."

"Um peso a menos, graças a Deus! Você sabe como é a polícia. Para eles, artistas não passam de vagabundos e, nervoso como é, o pobre do Sebastian ia ficar apavorado se o levassem para interrogatório. E quanto a você, Jerônimo, alguém da polícia lhe procurou?"

Quando tudo explodisse, D. Cristina iria sofrer muito. Porque não adiar esse sofrimento, ainda que por apenas alguns dias? E veio a segunda mentira :

"Porque fariam isso? Lembre-se que eu sou um respeitado cientista. Além do mais, no fim-de-semana em que tais crimes ocorreram, eu estava participando de um congresso em Belo Horizonte. Quer um álibi melhor?"

A voz de D. Cristina encheu-se de alegria.

"Agora sim. Com vocês três livres de suspeita, posso respirar aliviada. Quando é que vem nos fazer uma visitinha? Houve um tempo em que você era louco pela Bahia. Pensa que esqueci que até andou apaixonado por uma baiana?"

Ela deu uma risadinha e concluiu:

"Um beijo, filho, e até logo."

"Outro, mãe. Até breve."

* *

O terceiro telefonema aconteceu lá pelas 21:00 horas.

"Alô"

"Como estás, Jerônimo?"

"Considerando-se as circunstâncias, bem."

"Nossa mãe ligou-me ao meio dia e contou-me tudo a respeito da conversa que um policial teve com ela, em Salvador. No fim da tarde, um detetive veio me ver. Queria saber onde eu me encontrava na noite dos tais crimes. Imagino que tu e Sebastian também foram procurados."

"Sim. Interrogaram o coitado do Sebastian, deixando-o todo apavorado, mas já o tranquilizei. E, como devo ser considerado o peixe mais graúdo, fui honrado, há dias, com a visita do próprio titular da delegacia de homicídios. Mas não passou de um reconhecimento. Sem acusações, apenas algumas estocadas, mais ou menos sutis. O predador estudando o comportamento da presa. Estou certo que ele já sabe de tudo. Mas nada tem, além de provas circunstanciais. É uma pessoa muito astuta, esse delegado. Pressente que, pressionando a família, vai obter a minha confissão. Daí a razão dessas visitas a vocês. Breve ele vai voltar para ver se sua tática funcionou."

"E o que pensas fazer? "

"O que sempre imaginei fazer, se chegássemos a esse ponto : contar toda a verdade."

"Irão te prender, meu irmão."

"Não, não irão."

"Tens então um plano para fugir."

"Correto."

"Eles acabarão por te agarrar."

"Duvido."

"Sempre foste teimoso, Jerônimo. Assim seja. A hora dos conselhos já se foi, Tudo que posso fazer por tí é orar ao nosso Deus, suplicando que Ele perdoe os atos que praticaste e te de forças para enfrentar o que está por vir. Quando puderes, dá-me notícias tuas. Até breve, irmão."

"Adeus, Antônio."

 

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