A NOITE DOS ORIXÁS

PARTE V

Capítulo 37

24 de janeiro, 7:00

Ainda cedo, Jerônimo deixou o prédio e, como era seu costume, andou pela pista da lagoa, por uns quarenta minutos. Depois, já no caminho de volta, foi à banca de jornal, na esquina da rua e comprou seu matutino favorito. Parou na calçada, para ler. E, bem visível, estava a manchete que temia encontrar:

"POLÍCIA INTERROGA FAMÍLIA CHERON ALBUQUERQUE A RESPEITO DO CASO MERIDIEN. Leiam o texto completo na página quatro."

Ele abriu a página indicada e leu. A nota era contundente :

"Uma fonte da polícia, que não deseja ser identificada, revelou, no fim da noite de ontem, que policiais da delegacia de homicídios interrogaram a viúva e dois dos filhos de um Sr.Carlos Albuquerque, sobre os assassinatos ocorridos no Hotel Meridien, no início deste mês. O motivo foi a descoberta de que os industriais executados tinham sido sócios desse Sr. Albuquerque, no final dos anos 60 e no início da década de 70. Há, também, indícios, ainda não comprovados, de que, na época, as três vítimas ludibriaram o quarto sócio, o qual sofreu um desastre fatal, que, para alguns, foi um ato suicida. E, como a polícia trabalha com a hipótese de que os crimes no Meridien foram cometidos por vingança, os filhos do Sr. Albuquerque passaram a encabeçar a lista de suspeitos. A mesma fonte informou que um deles, um conhecido teatrólogo, não possui álibi para a noite dos crimes. Outro dado curioso, que vinha sendo guardado a sete chaves : junto aos corpos das vítimas, foram encontradas figurinhas representando orixás. E, por uma estranha coincidência, D. Cristina, a víuva do Sr. Albuquerque, é socióloga e especializada em cultos africanos..."

Jerônimo fechou o jornal. O maldoso veneno tinha sido espalhado. A família Albuquerque estava, agora, à mercê da curiosidade e, quem sabe, da execração pública. Só esperava que Sebastian não tomasse conhecimento da notícia, nem que esta fosse transcrita pelos jornais de Salvador. Pelo menos, nas próximas horas. Guilherme o atingira em seu ponto mais vulnerável. Logo viria dar o golpe de misericórdia e, então, todas as dúvidas seriam dissipadas... por Jerônimo. Porém, se o policial julgava estar de posse de todos os trunfos, estava redondamente enganado. Ele, Jerônimo, dispunha de apenas um, mas este era imbatível. O delgado teria a sua vitória, mas seria uma vitória muito amarga.

O cientista começou a caminhar na direção do seu edifício. Havia ainda coisas a serem feitas e o tempo se encurtava...

* *

Jerônimo entrou no apartamento, releu o artigo, tomou um banho e trocou de roupa. Em seguida, foi para o pequeno gabinete, sentou-se em sua poltrona favorita e pôs-se a pensar por alguns minutos. Afinal, levantou-se, foi à área de serviço e inspecionou a dispensa, onde ficavam algumas garrafas de vinho e uisque. Escolheu um velho White Horse. Depois, retornou ao gabinete, tirou uma chave do bolso e, com ela, abriu um pequeno armário, onde guardava tudo que era para ser visto, unicamente pelos seus olhos.

* * *

Capítulo 39

24 de janeiro, 8:35

Guilherme estava tomando café quando o telefone tocou. Atendeu e reconheceu a voz : era Veiga.

"Bom dia, chefe."

"Bom dia, uma porra! Alguém na sua delegacia ficou maluco."

O delegado imaginou logo do que tratava mas fez-se de desentendido:

"Como assim?"

"Não leu os jornais?"

"Ainda não"

"Pois trate de ler, Algum filho da puta, e só pode ser gente sua, vazou tudo a respeito das investigações sobre o caso Meridien. Falou até das tais figuras de bruxaria."

Guilherme abriu o jogo :

"Não esquenta chefe, o filho da puta fui eu."

"O que?"

"Eu mesmo preparei a nota para a imprensa e mandei um dos homens passar para os jornalistas."

"Tava de porre ou o que ?"

"Eu explico. Hoje a tarde vou agarrar o Jerônimo. Por isso determinei que seus familiares fossem interrogados e depois liberei para a mídia."

"E, alertado por essa sua façanha, sobre a qual, a propósito, eu não fui consultado, o nosso 'pássaro' vai se mandar."

"Vai acontecer justo o contrário, chefe. Exatamente por causa disso ele vai ficar me esperando e vai confessar...tudinho. E o senhor sabe o quanto essa confissão é importante para nós. Sem ela, a promotoria não tem caso algum."

Veiga começou a amansar :

"Sei disso. Mas você está fazendo uma jogada bastante arriscada, Sherlock. Se falhar sua cabeça vai rolar."

"Não vai falhar."

"Bem, já que a loucura está feita, vamos torcer para que você esteja certo. Mas, por que diabos não me avisou?"

"Contava que o senhor tivesse ido passar o fim-de-semana fora e não lesse os jornais. Queria lhe fazer uma surpresa : encontrar, na volta, sobre sua mesa, a confissão do professor."

Mentira, não consultara o Veiga por saber que ele daria o contra. Mas o secretário não era bobo :

"Quer que eu engula essa, Sherlock?"

"Quero, chefe. Mas garanto que a digestão não será difícil. No fim do dia lhe entrego o Jerônimo, embrulhadinho dentro da confissão."

Veiga soltou um suspiro.

"Como, por ser um grande idiota, não estou lhe exonerando neste exato minuto, se o seu tiro sair pela culatra, é bem possível que a minha cabeça role junto com a sua."

"Fique tranquilo, secretário. Só uma cabeça vai rolar : a do Jerônimo."

* * *

Capítulo 40

24 de janeiro, 09:00

Assim que desligou o telefone, Guilherme começou a se preparar para sair. Tinha combinado com a Fernanda uma ida ao Jardim Botânico e ela, em breve, passaria de carro para apanhá-lo. O dia prometia calor. Vestiu uma calça leve, uma camisa esporte de algodão e um par de sandálias. Enquanto se arrumava, seu pensamento foi invadido pela última frase que dissera para o secretário : "só uma cabeça vai rolar - a do Jerônimo". Ela veio uma, duas, três, quatro vezes e continuou vindo, repetidamente, E o delegado começou a se sentir um tanto perturbado. Algo estranho estava ocorrendo : o entusiasmo e a euforia que sentia, sempre que prestes a desvendar um crime e prender o criminoso, simplesmente não estavam acontecendo. Pareciam ter sido substituidos por uma sensação de marasmo, com um leve toque de tristesa . Foi quando se deu conta que a missão que ia cumprir naquela tarde - prender o geneticista - se tornara, de repente, um fardo pesado e desgradável.

Seus pensamentos foram interrompidos pela campanhia do telefone. Era Fernanda, ligando do celular para avisar que já estava chegando. Guilherme desceu e, já na calçada, viu o Corsa da namorada se aproximando. Ela parou, ele entrou e deu-lhe um beijo, O carro arrancou. Fernanda notou a expressão do namorado e comentou :

"Você parece preocupado."

Ele assentiu com a cabeça. Ela, a par de que ele estava prestes a concluir o caso do Meridien, perguntou :

"É hoje o dia, não é?"

"Sim, é hoje"

"E é isso que está lhe incomodando, não é?"

"Acho que sim."

"Quer falar a respeito?"

"Depois, lá no Jardim Botânico."

* *

Sentaram num banco afastado. Um brisa agradável corria entre as gigantecas árvores seculares. Um ambiente de paz e serenidade, que convidava à reflexão. Fernanda entrelaçou a mão do namorado entre as suas e disse, suavemente :

"Gui, desabafa. Fala do que está lhe incomodando."

O delegado respirou fundo.

"Droga, não é justo. A gente tinha combinado vir aquí para relaxar e falar de coisas agradáveis, E eu estou estragando a manhã com minhas tolices."

"Não são tolices, Gui. Se fossem, não estariam incomodando. E esquece essa de estar estragando alguma coisa. Nós somos um par, lembra? Divide isso comigo e você vai se sentir melhor...e eu também."

Ele tentou sorrir.

"OK, Nanda, você está certa. Hoje, cêdo, depois de informar ao secretáruio que iria, à tarde, prender o Jerônimo, alguma coisa começou a mexer comigo." "

Você está com pena dele, é isso?"

"Alguma coisa por ai. Sabe, amor, ele não é um sociopata. Sinto que, no fundo, por trás de toda a astúcia e frieza que tem demonstrado, Jerônimo é uma pessoa boa e afetiva, dotado de um grande sentimento de honra e muita dignidade. Tenho passado horas, analisando o perfil psicológico dele" - esboçou um sorriso e disse : "Desculpe invadir sua seara"

Ela riu.

"Nada disso, você é um psicólogo nato."

Apertou com mais intensidade a mão de Guilherme, para sinalizar seu apoio e falou :

"Vai, continua."

"Certo. Jerônimo é um grande cientista. E eu tenho me perguntado : até onde ele chegaria, não tivesse sido desviado por esse obssessivo sentimento de vingança? Acho que muito longe. Mas cêdo, muito cêdo na vida, foi traído pelo destino. Alguma coisa terrível deve ter acontecido, quando o pai dele morreu. Tão terrível, que transtornou totalmente a mente de um menino de onze anos. Algo muito além do sofrimento pela perda de um ente querido. A todo instante, alguém se vê privado de um ser amado. Sofre a perda, se machuca, mas a vida segue seu rumo natural. No caso dele, não. Embora, graças a sua inteligência e dedicação, tenha chegado aonde chegou, como biólogo, uma parte do seu eu permaneceu prisioneiro do trauma e da obssessão. É como se Jerônimo fosse duas pessoas numa só."

"O medico e o monstro?"

"Precisamente. E, prendendo o monstro, vou também enjaular o médico."

"E isso está machucando a sua consciência."

"Sim, mas existe algo que me perturba ainda mais. Nanda, a coisa está sendo fácil de mais. Jerônimo deixou toda a sorte de pistas apontando para ele. Não foi por distração ou burrice. Foi deliberado. Por isso tenho dito que ele quer ser punido. Não porque tenha matado aqueles homens. Para Jerônimo, isso foi um ato de justiça. Uma façanha de que se orgulha e que, a seu ver, deveria merecer aplausos e não punição. É outra coisa, Nanda. Ele quer expiar algum tipo de culpa, que deve estar carregando há muitos anos, possivelmente relacionada com a morte do pai. Sei que ele vai me falar a respeito disso, porque precisa contar, e para mim. Porque? Porque, para ele, eu represento a autoridade, como seu pai representava. Desabafando comigo é como se, indiretamente, estivesse realizando uma catarse diante de Carlos Albuquerque."

"Entendo,"

"Mas existe um fato ainda mais preocupante. Sinto que ele tem uma espécie de trunfo, escondido nos recônditos de sua intrincada e magnífica mente. Talvez algo com que ele conta para não ser preso. Não dá para imaginar Jerônimo se imaginando atrás das grades de uma penitenciária.

"Você acha que ele tem algum plano para escapar? Como fugir para o exterior, por exemplo?"

"Não há como saber ao certo, mas pressinto que não é por aí. Lembra quando, naquela reunão lá em casa, eu falei que a gente tinha de descobrir o exato significado do terceiro cartão? Recordo-me perfeitamente de minhas palavras : 'Jerônimo é um brilhante estrategista e tudo que faz é relevante. Deixar de decifrar esta parte do enigma pode nos trazer uma grande dor de cabeça no final.'. Pois bem, não deciframos e pressinto que a dor de cabeça vai acontecer. Que consequências ela trará, não consigo antever e é isso que, acima de tudo, está martelando a minha mente."

Guilherme calou. Nanda deu-lhe um beijo no rosto e disse :

"Gui, você deu muito de si neste caso. Gastou energia demais e, agora, que o fim está próximo, está pagando o preço do esforço despendido. Mas vai tudo acabar bem. Estou certa que as dúvidas que ainda persistem e incomodam a vaidade do investigador, serão esclarecidas pelo próprio Jerônimo. Como você mesmo vem dizendo, ele precisa contar tudo sobre sua façanha .É o orgulho dele. Quando matou aqueles homens ele vingou, não apenas o pai, mas a si próprio. A missão foi cumprida. Não creio que a perspectiva de passar alguns anos na cadeia o incomodem tanto. Acho que ele vai aceitar isso como uma inevitável consequência do seu sucesso. O que realmente importava, foi conseguido. Ele venceu e, de certa forma, deve estar se sentindo feliz."

As palavras de Fernanda não traduziam tudo o que realmente pensava. Como Guilherme, ela também sentia que havia uma lacuna dentro do contexto. Algo que não conseguiam precisar. Talvez, quem sabe, ligado à parte não decifrada do enigma dos símbolos. Mas isso, somente Jerônimo poderia desvendar. Logo... O importante, no momento, era deixar isso de lado e tranquilizar o namorado. E esperava que tivesse conseguido. Não se enganou.

"Nanda, você é um amor. Estou me sentindo bem melhor"

Guilherme beijou-a, de leve, nos lábios, e se levantou, puxando-a, carinhosamente, pela mão.

"Venha, vamos tomar um sorvete e dar uma caminhada. O ar está puro e refrescante."

* * *

Capítulo 41

24 de janeiro, 14:28

No apartamento, em Ipanema, a campainha da porta soou. Jerônimo atendeu e se deparou com os três homens. Levou uma fração de segundo para reconhecer Guilherme. Depois, com um leve sorriso, disse :

"Boa tarde, delegado, a que devo a honra da visita?

"Boa tarde, doutor...ou devo tratá-lo de professor ?

O geneticista deu de ombros.

"Tanto faz."

"Estes dois são policiais da minha divisão - falou Guilherme, apontando para os companheiros - "Detetives Ramalho e Argeu."

Jerônimo vistoriou, rapidamente, os apresentados : um era de compleição média e portador de um olhar brilhante e astucioso. Ramalho, pensou. O outro, dono de um avantajado corpanzil, tinha um rosto sereno e um ar bondoso, bondoso demais para um policial. E este deve ser o Argeu. A vistoria foi interrompida por Guilherme :

"Gostaríamos de falar com o senhor, agora, se for possível."

A frase, educadamente composta, não escondia o tom imperativo da voz.

"Da outra vez que nos falamos, disse que estaria sempre ao seu dispor. Entrem, por favor."

Jerônimo se afastou para permitir a entrada dos policiais. Já na sala de estar, apontou para o sofá e as poltronas, dispostas em torno de uma mesinha:

"Sentem-se, fiquem à vontade."- disse, enquanto pensava : os primeiros lances da partida final.

"Gostariam de beber alguma coisa?"

Guilherme sacudiu a cabeça.

"Policiais não bebem quando estão de serviço.

"Nem mesmo um refrigerante?" "Depois, talvez, mas não agora, obrigado."

"Então, delegado, se o senhor não faz objeção, não gostaria de abrir mão de um velho hábito : um uisquesinho nas tardes de domingo."

"À vontade."

Jerônimo dirigiu-se a um aparador, que lhe servia de bar, abriu uma das garrafas, transferindo o conteúdo para um copo alto e enchendo-o quase até à borda. Enquanto ele assim procedia, Guilherme passeava os olhos pelo ambiente. O aposento era bem amplo, conquanto simples : a mesa maior, centrada entre o sofá e as poltronas, duas mesinha laterais, um pequeno móvel com o telefone, um aparelho de TV em um dos cantos, o aparador-bar, uns poucos quadros e, recobrindo uma das paredes, uma avantajada estante, do chão até quase o teto, repleta de livros. Um ambiente apropriado para um acadêmico.

Jerônimo sentou-se em uma poltrona, de frente para Guilherme e depositou o copo sobre uma das mesinhas laterais. Ramalho e Argeu haviam tomado assento, de modo a se postarem, lateralmente, em relação aos outros dois. Uma fantástica analogia assomou, de repente, a mente do geneticista : estavam num palco, tendo por cenário uma caçada, onde três predadores formavam um arco, cercando e espreitando a presa...e o escorpião começava a se sentir acuado. Expulsou o devaneio do pensamento e disse :

"Muito bem, delegado, quer me dizer do que se trata?"

Guilherme fitou longamente, seu interlocutor. Depois falou :

"Antes de entrarmos no assunto que nos trouxe aqui. devo dizer-lhe, doutor, que, sabendo tudo que sei, não posso deixar de admirar sua inteligência e até mesmo compreender os seus motivos. Já me perguntei, diversas vezes se, em seu lugar, teria agido diferente ou da mesma forma. E ainda não consegui chegar a uma conclusão. Acho que o senhor sabe bem a que me refiro."

A expressão facial de Jerônimo manteve-se inalterada. Apanhou o copo e bebeu um largo gole do uisque. A voz saiu lenta e serena :

"Perfeitamente, delegado. Ao saber, ontem por telefonemas que recebi e hoje, pelo jornal, que policiais interrogaram minha mãe e meus irmãos, sua visita já era esperada. Só não entendo porque, conhecendo os fatos como diz conhecer, não me procurou em primeiro lugar. Se tivesse feito, seus policiais teriam tido três missões a menos, e três pessoas inocentes teriam sido poupadas do constrangimento e das preocupações decorrentes de um interrogatório."

"Lamento termos causado preocupações a seus familiares. Mas era inevitável. Certa vez, Sherlock Holmes disse que, eliminados todos os possíveis, o que restasse, por mais improvável que parecesse, seria a verdade. Foi exatamente o que fizemos. D. Cristina e o padre Antônio possuem álibis irrefutáveis. O Sr. Sebastian, aparentemente, não tinha um. Mas nós localizamos o taxista que o pegou na cinelândia e o levou até sua residência. Na hora em que o presumível assassino foi visto saindo do quarto da última vítima, seu irmão se encontrava no taxi, bem longe, nas proximidades de jacarépaguá. Logo, ficou restando o senhor, Dr. Jerônimo, como a única pessoa capaz de ter assassinado aqueles homens no Merídien. Aliás, acabou de admitir isso, ao dizer que, se tivéssemos lhe interrogado primeiro, teríamos evitado constranger três inocentes."

O cientista ficou meditativo por instantes, o olhar vagando pela sala, até parar no copo de uisque. Então, sacudiu, de leve, os ombros e disse:

"Sabe, delegado, eu sou ateu e, portanto, não acredito em destino. Mas existem coincidências tão curiosas que, as vezes, me pergunto, parodiando um certo escritor, se o acaso não tem lá os seus propósitos..."

Guilherme franziu a testa.

"Não estou compreendendo, professor."

"O senhor sabe a data em que meu pai morreu ?"

O delegado corou ligeiramente. Puxou pela memória, mas não foi longe.

"Li nos recortes de jornais da época e no laudo do inquérito, mas confesso que só me recordo ter sido no mês de janeiro de 71."

"24 de janeiro de 1971. Era domingo, um dia ensolarado como o de hoje."

Ramalho fez um ar de espanto e balbuciou :

"Mas ..hoje também... é ..."

Jerônimo não esperou que o outro completasse a frase.

"Domingo, 24 de janeiro."

Os três policiais se entreolharam. Conquanto ligeiramente incomodado pela curiosa coincidência, o delegado achou melhor reconduzir a conversa para um terreno mais sólido :

"Por mais curiosas que possam parecer, coincidências são, apenas, coincidências. Deixemo-las de lado. Prefiro falar sobre o que já apuramos em nossas diligências, as quais nos levaram a suspeitar das pessoas relacionadas com seu pai. E de como, a partir dessa suspeita, elaboramos uma hipótese a respeito dos crimes e dos fatos que os originaram."

Fez uma pausa, esperando alguma reação do cientista. Mas como ele nada comentou, limitando-se a tomar outro gole da bebida, prosseguiu :

"Descobrimos a conexão entre as vítimas, e entre elas e o Sr. Carlos Albuquerque. Sabemos tudo a respeito da COMPTEC e imaginamos que os outros sócios dessa empresa, de alguma forma, contribuíram para a ruína financeira do seu pai. Em decorrência, ele se matou, fazendo com que parecesse acidente, a fim de que a família recebesse o pagamento do seguro. Por isso, ainda que decorrido tanto tempo, o senhor os executou. Mas há alguns pontos a serem esclarecidos. Para um investigador da polícia, não basta saber parte da verdade, impõe-se que a conheçamos em sua totalidade. E, se o senhor é a pessoa que eu julgo ser, vai nos informar sobre o que ainda desconhecemos."

Guilherme parou, esperando que o geneticista aproveitasse o gancho para começar a desembuchar a história. Mas ouviu apenas sete palavras :

"Tudo no seu devido tempo. Prossiga, delegado."

O outro não se abalou. Sabia que Jerônimo queria e iria contar tudo. Era, apenas, uma questão de timing. Prosseguiu :

"Na época, ninguém suspeitou - e, agora, sabemos que o correto seria acrescentar - aparentemente - que os sócios tivessem criado algum tipo de situação, capaz de levar seu pai a uma atitude tão drástica. Mas, certamente, o senhor tomou conhecimento de alguma coisa. Quer nos falar a respeito?"

O corpo de Jerônimo tremeu ligeiramente. Numa inesperada mudança de atitude, ele disse:

"Sim. O senhor tem razão, delegado. Não há porque continuar adiando a revelação da verdade. Além do mais, o tempo está se esgotando. Sabe, Dr. Guilherme, eu sempre tive certeza que, forçosamente, vocês acabariam chegando a mim e a meus irmãos. Três homens não são assassinados, numa mesma noite, por uma só pessoa, atoa. Tinha que haver um motivo e houve, há 28 anos atrás. Na manhã em que meu pai morreu, aconteceu uma reunião entre os quatros sócios, na biblioteca da nossa casa na Gávea. Foi quando o tal de Alcino, com a conivência dos outros, revelou a meu pai, friamente, sem a mínima piedade, que ele estava arruinado. Ficou ainda claro, durante a discussão, que o fato aconteceu porque eles deixaram de cumprir um acordo, que havia sido firmado anteriormente. Em suma : os três o traíram. Quis o acaso - sempre o acaso - que eu me encontrasse escondido, num dos vãos que existiam entre as estantes da biblioteca. Assim, ouvi o que se passou e, guardo, até hoje, na memória, tudo o que foi dito, nos mínimos detalhes. Mais tarde, ao sermos notificados que papai havia morrido, não tive dúvida que aqueles três miseráveis tinham sido responsáveis, ainda que indiretamente, pela sua morte. Foi quando me prometi que, um dia, vingaria meu pai. Após o fechamento da COMPTEC, os canalhadas sumiram por um longo tempo. E, quando se voltou a ter notícias deles, os três tinham-se tornado ricos e poderosos, graças, ao menos em parte, ao dinheiro que tinham roubado do meu pai. E eu levei 28 anos para conseguir a oportunidade ideal para cumprir minha promessa. O senhor pode chamar isso de obsessão. Admito que seja, mas ela era tão grande, que não nunca me preocupei, como não me preocupo, agora, com as consequências do que fiz. A única coisa, realmente importante, era justiçar os que induziram meu pai a morrer, ainda tão jovem, roubando, de nossa família, o convívio da maravilhosa pessoa que ele era. E sabe, delegado, há, em toda esta história, uma coisa que lamento particularmente. Vou lhe dizer do que se trata : quando os patifes se retiraram, meu pai foi para o seu quarto e eu fui para o meu. E lá fiquei, por um longo tempo, travando um debate comigo mesmo, indeciso entre ir até meu pai, para tentar consolá-lo ou aguardar, confiando que ele, com sua grande visão em assuntos financeiros, encontraria a solução apropriada para tirar a gente do buraco. E... acabei adormecendo. Quando acordei, meu pai havia saído, em busca da solução que encontrara : a morte. E, desde então, todos os dias, um pensamento me tortura : se tivesse ficado acordado, de certo ouviria os passos dele, descendo as escadas para ir a garagem pegar o carro. Com certeza, teria ido ao seu encontro, para acompanhá-lo, pois havíamos combinado almoçar juntos. E talvez as coisas tivessem tomado um rumo diferente... Mas eu tive de adormecer..."

As duas lágrimas que rolaram pelo rosto de Jerônimo e o tremor da voz mostraram o quanto ele estava emocionado. Seguiu-se um prolongado silêncio. A expressão facial dos três policiais revelava que eles se tinham deixado contaminar pela emoção do cientista. Finalmente, Guilherme, mais por fé de ofício, do que por vontade, retomou a palavra :

"Tudo isso é profundamente lamentável, professor, mas eu tenho de prosseguir."

Jerônimo enxugou o rosto com as costas da mão, respirou fundo e disse :

"Claro, delegado. Perdoe meu momentâneo descontrole. Prossiga, por favor."

Guilherme pareceu ainda hesitar por um segundo e, depois, continuou :

"Uma camareira testemunhou ter visto, naquela noite, um homem, trajando um macacão, sair do apartamento 2104, logo após a hora em que o empresário Alcino foi assassinado."

Aparentemente, Jerônimo havia recobrado a calma, conquanto seu rosto começasse a empalidecer e a voz fosse ficando um tanto arrastada.

"Estou lembrado... Cruzamos no corredor."

"Ela nos disse que a tal pessoa usava luvas de couro e trazia uma mochila à tiracolo. À partir da sua descrição, criamos um retrato falado. Os traços gerais combinam com o seu rosto, salvo algumas diferenças : um bigode, a cor do cabelo e o jeito do penteado. Evidentemente, o homem do macacão estava disfarçado com uma peruca e um bigode postiço. Acreditamos que o macacão foi usado para criar a impressão de que o tal homem era um técnico, encarregado de fazer reparos no ar condicionado ou na televisão. Aí, imaginamos o seguinte cenário : justificando ter de realizar algum tipo de concerto, ele consegue que o hóspede permita sua entrada no apartamento. Uma vez lá dentro, age com precisão e rapidez . Um tiro no peito, a vítima tomba, morta ou ainda com vida, sem ter tempo de gritar ou esboçar qualquer tipo de reação. O corpo é carregado para a cama, onde um segundo tiro é dado, na nuca, não só para garantir o êxito da execução, mas para demonstrar, em conformidade com a tradição, tratar-se de um "ajuste de contas", uma vingança, ou, como o senhor deve preferir, um ato de justiça. Depois coloca, sobre o lençol, cartões de papelão, contendo figuras de orixás e outros símbolos. Uma espécie de enigma esotérico, que nos conseguimos, parcialmente interpretar. Há, contudo, dois detalhes nesse enigma que gostaríamos de ver esclarecidos. Mas, voltando ao cenário : o assassino toma o telefone, liga para o room service e pede que o desjejum seja servido às 7:00 horas. Depois, recolhe as cápsulas deflagradas e vai embora."

* * *

Capítulo 42

24 de janeiro, 15:05

Guilherme fez uma longa pausa. Jerônimo deu um leve sorriso e bebeu mais um pouco do uisque. Mas não disse nada. A palidez do rosto, no entanto, continuava se acentuando. O delegado prosseguiu :

"Voltando ao assunto do retrato falado. Naquele dia que lhe procurei no Instituto Oswaldo Cruz, já estávamos a par dos fatos ligados à COMPTEC e o tínhamos como o principal suspeito. Atentei, então, para a cor do seu cabelo e o jeito do seu penteado. Depois, de volta à delegacia, passei esses dados a um especialista em identificação. Ele foi para o computador, fez as devidas alterações no retrato falado original e pronto... na tela do monitor surgiu um rosto, extremamente parecido com o seu. Mas, a essa altura, já havíamos, como referi, decifrado parte do simbolismo deixado sobre os lençóis. Ao colocar a figura de xangô a frente das demais, o senhor, não só indicou a presença do justiceiro, como também, praticamente, revelou seu nome, uma vez que, e sabe disso melhor que eu, pelo sincretismo, xangô significa Jerônimo. E essa é uma das duas coisas que me intrigam: porque se denunciou tão abertamente?"

"Como disse antes, sabia que a policia acabaria considerando os três filhos de Carlos Albuquerque como os inevitáveis suspeitos. E, conquanto fosse eu o mais provável, por estar no hotel na noite dos crimes - o que os senhores, de pronto, descobririam, através da lista de convites e das filmagem da sessão inaugural e do coquetel - não queria que meus irmãos se vissem envolvidos em qualquer tipo de situação, que pudesse comprometer suas reputações ou prejudicar suas carreiras. Daí a figura de xangô. Mais um dado apontando para mim."

Jerônimo parou, como que buscando ganhar fôlego para prosseguir. Foi quando, pela primeira vez, Guilherme pressentiu que algo de estranho estava ocorrendo com o cientista.

"Seu rosto está muito pálido, doutor. Está sentindo alguma coisa?"

"Deve ser apenas a emoção. Prossigamos : por falar em irmãos, há dias, contei tudo a um deles, o que é padre. O fiz, por recear que os fatos ligados à morte de nosso pai, pudessem vir a desaparecer comigo. É importante que meus familiares conheçam toda a verdade, não só por ela em si, mas para que compreendam porque executei aqueles miseráveis."

As palavras de Jerônimo mexeram com a intuição de Guilherme.

"Um momento, professor. Porque essa de temer que a verdade venha a desaparecer com o senhor? Não vejo sentido em suas palavras. Ninguém vai lhe levar para a forca ou para a cadeira elétrica. Não há pena de morte no Brasil. Viemos apenas detê-lo, para que venha a ser julgado. E, confesso, faço isso com muito constrangimento. No fundo, o senhor, mal entrado na adolescência, acabou se tornando, também, uma vítima daqueles que, vinte e oito anos mais tarde, viriam a ser suas vítimas. Mas o senhor ainda é relativamente jovem e existem atenuantes a seu favor. Não creio que ficará preso por muito tempo."

"Deixe-me ver, delegado, se entendi bem. O senhor disse que..."

Jerônimo parou, bruscamente, de falar. Sacudiu a cabeça e piscou os olhos várias vezes, como que procurando ajustar o campo visual. Gotas de suor começavam a se formar em sua testa, rolando pelo rosto cada vez mais pálido. Guilherme já não tinha dúvida que o cientista estava sendo acometido de algo bem mais sério do que uma crise emocional.

"Doutor, o senhor, definitivamente, não está passando bem. Vamos parar por aqui. Acho conveniente ir se deitar, enquanto providenciamos um médico. Ou não seria melhor levá-lo a um serviço de urgência?"

Guilherme começou a se levantar da poltrona. Num esforço de concentração, Jerônimo o deteve com um gesto da mão.

"Espere, delegado, já estou me sentindo... melhor. Foi só uma tonteira passageira"

Trêmulo, pegou o copo e tomou o resto da bebida. Com o olhos meio turvos, mas com a mente ainda clara, esboçou um sorriso e disse :

"O uisque vai ajudar".

Em seguida tossiu, afundou o corpo na poltrona e prosseguiu:

"O senhor estava dizendo que eu iria apenas ser preso. Mais isso não vai acontecer. delegado. Não vai, por causa de um detalhe que lhe escapou."

Uma expressão de dúvida surgiu no rosto de Guilherme.

"Como assim?"

"Delegado, o instinto de conservação não é tão poderoso quanto se imagina. Certos animais, como o elefante, desistem da vida, ao se sentirem envelhecer. Alguns cães entristecem até à morte, quando seus donos morrem ou os abandonam. Mas há uma espécie que age com mais determinação, quando em situação de desespero : o escorpião. Se acuado e sem saída, ele vira o ferrão da cauda... contra sua... própria... carne e se... envenena".

As últimas palavras de Jerônimo saíram arrastadas e ele tornou a se calar. Seus olhos se fecharam e os braços começaram a tremer. Agora, também Guilherme empalideceu. Começava a compreender. Foi até o cientista e pôs a mão em sua testa : fria que nem gelo. Jerônimo não ofereceu resistência ao gesto, abriu os olhos e disse, quase sussurrando :

"O senhor não queria... conhecer toda a verdade? Então, ... escute, deixe-me prosseguir. Minha fala está ...ficando cada vez mais... difícil.. mas minha mente vai... continuar... íntegra, por mais alguns.. minutos. Seu engano, delegado , .. foi não interpretar... corretamente... a simbologia do...terceiro cartão. Eu contava que ficassem confusos...quando chegassem... à palavra... veneno, já que os miseráveis foram mortos... a tiro. Mas o terceiro cartão não era para eles,...delegado, ... era para mim."

A respiração do geneticista começou a se tornar irregular. Ele fechou os olhos. Todo seu corpo tremia. As artérias do pescoço pulsavam rápida e descompassadamente.

"Meu Deus, o uisque" - exclamou Guilherme - "O uisque estava envenenado. Ramalho, vá ao telefone e disque para nosso número de emergência, Diga que mandem uma ambulância para cá, imediatamente."

Enquanto Ramalho corria para o aparelho, Guilherme sentou num dos braços da poltrona e amparou a cabeça do geneticista. Jerônimo abriu os olhos. Por um desses inexplicáveis mistérios do organismo, parecia ter ganho novas energias. Sua voz voltou mais forte, conquanto as palavras continuassem a sair entrecortadas.

"Sim, delegado, havia... uma dose letal de digital... misturada com a bebida... Leva quase... uma hora para ser totalmente absorvida... Por algum tempo, nada acontece... depois a vista escurecesse... a fala se altera,... vem a arritmia, a gente vai entrando em estado de choque, ...como já está acontecendo... Por fim.. a mente se apaga,... surgem... convulsões, a respiração falha e... o coração.. para... de vez.... E não há nada... que se possa fazer... para impedir."

O delegado perguntou, quase num sussurro :

"Mas porque morrer? Por Deus, porque ?"

Um frio intenso começava a subir, rapidamente, dos pés para a cabeça de Jerônimo. Tudo em sua volta ia escurecendo. Sentia uma intensa sonolência, mas ainda conseguia pensar. Sabia que o fim era questão de minutos, segundos, talvez. Não sentia medo : há muito se prepara para aquele momento. Temia apenas não mais conseguir falar. Mas tinha de tentar. Não podia deixar a pergunta do delegado sem resposta. Guilherme pressentiu a tremenda dificuldade que o outro enfrentava para prosseguir. Era impossível deixar de admirar aquele homem. Ele estava se deteriorando, a um passo da morte, mas o cérebro persistia em seguir lutando. O cientista tinha de contar tudo, até o fim. Mas não era apenas uma confissão. Era, também, uma manifestação de orgulho : ele não se permitia morrer, antes de relatar todos os detalhes de sua façanha. Jerônimo estava tentando passar, para Guilherme, um atestado de vitória. Num supremo esforço da vontade, a mente do geneticista, conquanto combalida, ainda prevaleceu. E a voz, saiu, baixinha, entrecortada, mas audível :

"Porque, delegado, ...prometi... a mim e ao meu... irmão.. Antônio, que jamais... passaria... pela desonra... de ser... preso ,...... ou... talvez... porque...eu tenha ...dormido... naquela... tarde ...e... hoje.. é...24... de... ja...nei...ro."

E a voz do cientista calou para sempre. Guilherme, que mantivera o ouvido quase colado à boca de Jerônimo, para escutar melhor, mostrava na face um misto de impotência, derrota e apatia. Subitamente, Jerônimo foi tomado por uma violenta convulsão, o rosto arroxeou e seu corpo escorregou para o chão. Guilherme saiu da apatia.

"Argeu, venha, vamos tentar as manobras de ressuscitação."

Durante longos minutos, enquanto o sargento aplicava um boca-a-boca, o delegado massagiava o peito de Jerônimo. Mas o cientista estava além da reação. Argeu suspendeu a manobra, olhou para Guilherme e fez um gesto negativo com a cabeça.

"Não adianta, chefe, ele não responde. Nós o perdemos."

Guilherme parou a massagem e pôs o ouvido sobre o peito do geneticista. Nada : não se ouvia, sequer,. um estertor respiratório e o coração mantinha-se totalmente quieto. Ergueu uma das pálpebras do cientista : as pupilas começavam a dilatar. Ramalho esbravejava com o telefone.

"Quando a gente mais precisa, esta porra fica o tempo todo dando sinal de ocupado".

Guilherme ergueu os olhos e disse :

"Esquece a ambulância. É tarde de mais para isso. Tenta o IML e pede para mandarem um legista."

O delegado sentiu-se totalmente exaurido. Atirou-se no sofá, contemplou, por alguns segundos, o corpo sem vida e, num gesto reflexo, olhou para o relógio de pulso. Jerônimo Charon de Albuquerque, brilhante cientista, transformado em implacável justiceiro, por sentimento de culpa e sede de vingança, acabara de morrer.

Domingo, 24 de janeiro, 15:37, hora brasileira de verão.

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