A NOITE DOS ORIXÁS

PARTE III

1999

Capítulo 18

07 de janeiro, 09: 00

O delegado Guilherme de Oliveira Martins, titular da delegacia de homicídios da Secretaria de Segurança do Rio de Janeiro, que, graças a seus bem sucedidos métodos dedutivos, era chamado de 'Sherlock' pelos colegas, tinha acabado de pegar sua pasta de documentos e já se dispunha a deixar o apartamento, quando o telefone tocou.

"Alô"

"Guilherme, bom dia, é o Menezes. O chefe vai falar com você"

Menezes era um dos assistentes do secretário de segurança e o 'chefe' era o Dr. Lauro Veiga, obviamente, o próprio secretário.

"Guilherme, sou eu, Veiga"

" Bom dia Secretário, o que é que o senhor manda ?"

"Temos um grande abacaxi p'ra descascar."

"Sou todo ouvidos."

"Na noite passada houve três homicídios. As vítimas eram altos figurões da indústria. Os crimes ocorreram, ao que parece, a curtos intervalos de tempo, em três apartamentos diferentes, no mesmo hotel, o Meridien, lá no Leme. A semelhança com que foram cometidos os assassinatos, aponta para um único responsável. Tiros no coração e na nuca. E, há, ainda, um curioso detalhe. O matador deixou, junto a cada um dos corpos, cartões de papelão com figuras que, segundo um dos detetives da 12a DP, representam entidades de umbanda ou candomblé"

O secretário fez uma pausa que Guilherme aproveitou :

" Alguns criminosos, principalmente os 'serial killers', têm o hábito de deixar algum tipo de pistas enigmáticas, Uma espécie de desafio para a policia. Como que dizendo : 'aqui está a minha marca, descubram-me se forem capazes'. E, não raramente, é por aí que os agarramos. Neste caso, pelo o que o senhor disse, parece tratar-se de um enigma bastante interessante, uma espécie de charada de bruxaria."

"Eu sabia que você ia gostar, Sherlock. O caso é seu. Mete os peitos e mata a charada. Mas entra firme. As vítimas eram gente importante e a cobrança vai ser grande. Temos de prender o assassino o mais rápido possível. A polícia técnica está a caminho. E é melhor você ir logo para lá, antes que alguém da DP estrague alguma pista.

"Certo, chefe, estou me mandando"

"Boa sorte e mantenha-me informado...e Guilherme, um mínimo de informações para a imprensa, tá? E nada sobre os tais símbolos. Senão, sabe como é, vai ser uma chuva babalaôs, dando entrevistas e desvendando os crimes pelos búzios."

* * *

Capítulo 19

04 de janeiro, 09:45

Quando Guilherme e dois de seus principais colaboradores, os detetives Ramalho e Argeu, chegaram ao Meridien, já os esperavam, no saguão do hotel, o detetive Serra da 12a DP e o delegado adjunto Santoro, da delegacia de polícia técnica.

" Quem está no comando?" - perguntou o delegado de homicídios, dirigindo-se a Santoro, a quem já conhecia de outros casos.

"O Serra"- respondeu o delegado adjunto, apontando para o detetive - "Foi a turma dele que chegou primeiro e examinou as cenas dos crimes."

Guilherme não fez rodeios. Voltou-se para o policial da 12a DP e disse :

"Meu nome é Guilherme Martins, da delegacia de homicídios e estou assumindo o caso por determinação do secretário de segurança. Tem algum lugar reservado. por aqui, onde a gente possa conversar?"

"O gerente colocou um escritório a nossa disposição aqui no térreo."

"Então vamos para lá"

Foram. Após se acomodarem nas cadeiras em torno do que pareciaser uma mesa de reuniões, o delegado voltou-se para Serra :

"Que tal um panorama geral, resumido, antes de subirmos para ver os corpos?"

"O gerente do hotel ligou para a DP, em torno das 7:30, informando que três hóspedes tinham sido assassinados no decorrer da noite. Viemos logo para cá, eu e o detetive José Paulo, e encontramos, em apartamentos diferentes, três homens, já meio idosos, mortos há algum tempo e deitados em posição invertida, isto é, com a cabeça voltada para os pés da cama e os pés voltados para a cabeceira."

Serra fez uma pausa, consultou um caderneta de apontamentos e prosseguiu :

"As vítimas são os empresários Gilberto Gomes Netto, Paulo César Nogueira e Alcino Moroni. Cada um levou dois tiros, um no peito e outro na nuca. Achamos várias balas de 9mm encravadas nas paredes. Não havia nenhuma cápsula deflagrada. Com certeza, o assassino as recolheu. Os apartamentos ficam em andares diferentes : 1005, 1302 e 2104. Ao lado de cada um dos corpos, sobre o lençol, encontramos três cartões de papelão, com figuras coloridas. O José Paulo identificou duas delas como sendo orixás do candomblé. O terceiro cartão é diferente, tem três desenhos. Um lembra um escorpião; os outros dois são indecifráveis. Aparentemente, nada foi roubado, nem há indícios de abuso sexual ou luta : as vítimas não devem ter tido a menor chance de oferecer qualquer resistência. Como também não existe nenhuma evidência de que as portas tivessem sido arrombadas. Ou as correntes de segurança não estavam passadas e o assassino dispunha das chaves, ou as vítimas permitiram que ele entrasse. Segundo o gerente, os corpos foram encontrados praticamente na mesmo hora, em torno das 7:00, pelas garçonetes do room service, que tinham ido servir o desjejum. Elas contam, praticamente, a mesma história : durante a noite, o serviço de atendimento aos quartos recebeu, de cada um dos apartamentos, pedido para que o desjejum fosse servido as 7:00 da manhã. Elas bateram na porta, mas ninguém respondeu. Como a corrente de segurança estava solta, usaram a chave mestre e entraram, para depositar a bandeja na mesinha da saleta. Anunciaram, como de praxe, que o desjejum estava servido. Não obtendo resposta e estando aberta a porta do quarto, as curiosas deram uma espiada e depararam com os corpos em posição invertida e a presença de sangue na cama e nos tapetes. Duas se retiraram, sem fazer alarde e desceram para informar o chefe da cozinha, o qual, de imediato, repassou a informação ao chefe da segurança. Uma, porém, a que estava servindo no 13o andar, entrou em pânico : largou a bandeja no chão e saiu gritando, histericamente, pelo corredor, que um homem tinha sido morto no apartamento 1302. A história se espalhou, a boataría também entrou em cena e, logo, o hotel inteiro ficou sabendo dos assassinatos. As três garçonetes juram não terem tocado em nada. O chefe da segurança, um ex-PM, confirmou a ocorrência, trancou os apartamentos e colocou um auxiliar na porta de cada um deles, para garantir a inviolabilidade dos locais. Nós chegamos às 7:50 e assumimos o controle da situação. Acho que é só isso, delegado".

"Bom resumo, detetive. Mas diga-me uma coisa. Por acaso apurou a hora em que cada apartamento solicitou o desjejum? Como seria muita coincidência, que os três futuros cadáveres tivessem decidido tomar o café da manhã, exatamente na mesma hora, os pedidos devem ter sido feitos pelo assassino. O que nos dá uma boa idéia da hora em que cada um foi liquidado, não acha?"

O rosto de Serra enrubesceu.

"Tem razão, delegado, nessa eu entrei bem."

"Não esquenta, foi apenas um detalhe, que depois a gente verifica. No todo, você realizou um ótimo trabalho e desenvolveu um excelente raciocínio sobre o que deve ter acontecido."

Guilherme voltou-se para Santoro e perguntou :

"Já dá p'ra vocês dizerem alguma coisa?"

"Muito pouco. O pessoal da perícia terminou o trabalho nos locais e já foi tudo fotografado. Amostras de sangue e fios de cabelo encontrados foram recolhidos, para eventual exame de DNA. Estamos apenas esperando que você inspecione os apartamentos para mandar remover os corpos. O legista examinou os cadáveres, mas não quer se comprometer antes das autópsias. De qualquer forma, acho que podemos adiantar duas informações : Primeira - as mortes devem ter ocorrido entre as 23:00 horas de ontem e as 02:00 horas desta madrugada. Segunda - A arma usada deve ter sido uma pistola de 9mm, com silenciador. Nos três casos, o primeiro tiro foi dado no peito, a altura do coração. O segundo ocorreu, possivelmente, quando as vítimas, mortas ou ainda vivas, já se encontravam arrumadas sobre as camas. O tiro no tórax foi disparado da distância de um metro ou pouco menos. O disparo na nuca, foi feito logo abaixo da protuberância óssea occipital, com a arma encostada na musculatura posterior do pescoço. O projétil estraçalhou o bulbo e saiu pela boca, sem danificar a massa encefálica, causando muito pouca perda de sangue. Bem no estilo de execução sumária, também conhecido como o tiro de misericórdia."

"Confere com as minhas suposições. Quando o secretário me informou sobre o caso, e me falou das figuras colocadas junto aos corpos, a primeira idéia que me ocorreu, foi que estávamos diante de um matador em série, plantando sua marca, como um desafio para a polícia. Mas já não penso assim. O serial killer mata, por encontrar, no ato, alguma forma de prazer, enquanto o homem que liquidou esses três empresários, o fez, a meu ver, por vingança, como o tiro na nuca parece indicar. Disse homem, porque mulher não costuma matar dessa maneira. O emocional do nosso assassino estava carregado de ódio, mas ele raciocina friamente. Estamos lidando com uma pessoa muito inteligente e, possivelmente, com alto nível de escolaridade. Planejou e executou os crimes com absoluta precisão."

Guilherme virou-se para Argeu e disse :

"Descobre onde está o gerente do hotel e traz ele aqui"

* * *

Capítulo 20

04 de janeiro, 10:20

Em minutos, o detetive estava de volta, com o gerente. Um senhor de meia idade, bastante gordo, enxugando o rosto com um lenço e suando por todos os poros. Parou diante de Guilherme e falou, nervosamente :

"Uma grande desgraça, delegado, uma verdadeira tragédia. Vai ser muito ruim para a reputação do hotel"

Mas dando-se conta de que os policias não estavam ali para ouvir lamúrias, mudou de rumo :

"Desculpem o desabafo, é que ainda estou muito nervoso com tudo que aconteceu. Meu nome é Josias Toledo e sou um dos gerentes do Meridien"

Como de hábito, Guilherme não perdeu tempo com preliminares. Foi direto :

"O senhor estava aqui na ocasião em que os crimes ocorreram ?"

"Não, senhor. Peguei as 6:30. Mas foi às 7:00, já no meu turno, que os corpos foram descobertos."

"Tudo bem. Agora, por obséquio, descreva, em poucas palavras, o que sabe sobre o sucedido."

"Sim, senhor. Alugamos o hotel para um encontro promovido pela Confederação da Indústria. Ontem a noite, às 20:00 horas, houve a sessão inaugural, no salão de eventos e, em seguida, um coquetel no salão de recepções, o qual terminou lá pelas 23:00 horas, mais ou menos. Pelo que me disse um dos representantes da Confederação, com quem conversei há pouco, as três vítimas estavam escaladas para falar hoje pela manhã. Os corpos foram encontrados pelas..."

"Já fui informado disso"- interrompeu o delegado - "O, pessoal da Confederação da Indústria ainda está por ai ?"

O gerente fez um gesto positivo.

"O presidente da CNI está no salão de conferências, conversando com os poucos participantes do evento que ainda não foram embora."

A expressão no rosto de Guilherme revelou um misto de surpresa e ironia.

"Quer dizer que a turma se apavorou e o encontro 'já era'?"

"Acho que sim. Os participantes se reuniram em torno das oito, para tomar uma decisão a respeito. Eu acompanhei as discussões. De início, as opiniões estavam dividas. Alguns queriam que o evento prosseguisse, enquanto outros argumentavam que não havia mais clima e o melhor era não continuar. Dava para perceber que muitos estavam receosos. Tinha até gente dizendo que devia ter um psicopata à solta pelo hotel e todos corriam risco de vida. De repente, a esposa de um dos americanos,pegou o microfone e, à beira do histerismo, disse, mais ou menos, isso : 'Esses três assassinatos foram apenas o começo. Estou certa de que se trata de uma conspiração terrorista. Vão acontecer mais mortes, sequestros, estupros e talvez haja até algumas bombas escondidas por aí.'. Foi a gota d'água. O tal do Bill Gates gritou logo 'estou fora' e, a essa altura, já deve estar no Galeão. E quase todo o mundo debandou. Os estrangeiros e muitos dos brasileiros de outros estados, trataram logo de trocar suas reservas, para irem embora mais cedo. Quem resolveu ficar no Rio, esta se transferindo para outros hotéis. Uma desgraça, delegado, uma terrível infelicidade..."

Com um gesto da mão, Guilherme interrompeu o que parecia ser o início de uma recaída lamuriosa da parte de Josias.

"Diga-me uma coisa, seu gerente. Certamente, fotografaram e filmaram a sessão inaugural e o coquetel, e deve existir uma lista dos convidados. Sabe quem pode esclarecer isso?"

"O pessoal da CNI. De minha parte, posso dar-lhe, agora, se quiser, a relação das pessoas que estavam hospedadas aqui na noite passada."

"Ótimo. Vou subir para examinar as cenas dos crimes. Nào devo demorar mais que uns vinte a trinta minutos. Gostaria que o senhor tomasse as seguintes providências : informe ao pessoal do CNI que eu quero todos os filmes e fotos da sessão inaugural e do coquetel. Do senhor, eu quero a tal lista de hóspedes e o registro do "room service", com os horários em que foram feitos os pedidos de desjejum para os apartamentos das vítimas. O detetive Alceu vai lhe acompanhar para ajudar nessas providências. Espero que tudo isso já esteja aqui quando eu voltar lá de cima. Posso contar com a sua colaboração ?"

"Claro, delegado."

Ramalho pigarreou, para atrair a atenção do chefe .

"Quer dizer alguma coisa, detetive.?"

"O que é que a gente faz com a imprensa ? Tem um bando de jornalistas rondando por ai."

" Dê a eles o mínimo de informações possível : nome das vítimas, as investigações mal começaram, ainda não temos suspeitos, etc. E, nem uma palavra sobre as tais figuras de bruxaria, encontradas junto aos corpos. Essa advertência, Serra, também vale para a turma da sua DP. E, seu Josias, a mesma coisa para o pessoal do hotel. Diz ao seu chefe de segurança para manter o bico calado. São ordens expressas do secretário. Entendido?"

Três cabeças acenaram positivamente. Guilherme já estava se levantando, quando, numa súbita inspiração, olhou para o gerente e perguntou :

"Há ainda alguma coisa importante que o senhor esqueceu de me dizer?"

Josias pôs a mão na testa, pareceu hesitar por um breve instante, mas, por fim, falou :

"Nossa. Perdoe-me, delegado, mas eu estava tão nervoso quando cheguei para falar com senhor, que até me esqueci de contar uma coisa que pode ser importante para o caso."

Guilherme voltou a se sentar e ordenou :

"Conte."

Ainda com uma expressão de culpa bailando no rosto, o gerente começou a contar.

"Uma das camareiras do 21o andar, chamada Camila, e que estava de serviço ontem a noite, deu de cara com um homem vestido de macacão, usando uma espécie de bolsa ou mochila à tiracolo e que parecia ter acabado de sair do apartamento 2104. Não deu maior importância ao fato, achando que fosse um técnico que tivesse ido fazer algum reparo no ar condicionado ou na televisão. Sucede que o encarregado do setor de manutenção garante que nenhum de seus funcionários esteve, na noite passada, em qualquer dos três apartamentos. Quando os corpos foram descobertos e a notícia se espalhou e a Camila ficou sabendo que uma das vítimas era o hóspede do 2104, ela lembrou-se do fato e se deu conta que, possivelmente, havia cruzado com o assassino. Informou o chefe de segurança, o qual me repassou a informação."

Josias fez uma pausa, estudou a expressão de Guilherme e, não conseguindo captar o que poderia estar se passando na mente do delegado, concluiu :

"Mas recomendamos a ela que não abrisse o bico para ninguém e que só falasse sobre o assunto, quando fosse interrogada pela polícia."

Guilherme apertou os olhos e indagou :

"Imagino que ela já não esteja no hotel, certo?"

O rosto redondo do gerente pareceu murchar.

"Certo, ela largou o serviço as 8:00. Eu devia tê-la mantido aqui até a sua chegada, não devia?"

"Devia. Mas agora não adianta pensar nisso. Suponho que tenha o endereço dela."

O rosto de Josias tornou a se inflar.

"Com certeza, e tendo passado a noite em claro, ela deve estar em casa, descansando."

"Que assim seja"

Guilherme voltou-se para o detetive Ramalho e disse :

"Pega o endereço e vai até la. Se ela não estiver, descubra onde se encontra. Conversa com jeitinho com a moça e vê se ela se recorda de ter notado alguma coisa diferente nesse tal técnico, como se ele estava de boné, usava óculos, calçava luvas, mancava... qualquer coisa que possa contribuir para a identificação do cara ou do disfarce que estava usando. Depois leve-a para a delegacia de homicídios e providencie que façam um retrato falado do suspeito, a partir da descrição dela."

Levantou-se e fitou o gerente, bem dentro dos olhos.

"Seu Josias, ou o senhor estava, mesmo, muito nervoso e confuso quando chegou aqui no escritório, ou então possui uma forte inclinação para o suspense. Deixou para o final a principal informação que tinha para me dar."

Em seguida, fez um sinal para Serra e para Santoro:

"Vamos até lá em cima. Está na hora de conhecer os locais dos crimes."

* * *

Capítulo 21

04 de janeiro, 10:45

Foram primeiro ao 1005. Roupas de cama e travesseiros estavam espalhados pelo chão atapetado. Notaram logo que uma das colchas estava particularmente amarrotada e salpicada de sangue. Serra virou-se para Guilherme e disse:

"Ele deve ter usado essa colcha como uma espécie avental, para evitar se sujar com o sangue da vítima."

"É verdade" - concordou o delegado - "Caso se sujasse, o rosto ele conseguiria lavar, mas quanto ao macacão...E se aparecesse para as outras vítimas, de uniforme manchado, poderia despertar suspeitas e perder a vantagem do elemento surpresa. Além de inteligente, o nosso amigo é bastante prudente."

Na cama, tinha ficado apenas o lençol. Sobre ele, vestido com um robe de seda azul, jazia o corpo de um homem gordo, todo esticado e de bruços, A cabeça, virada para a direita, estava voltada para os pés da cama. A ferida de entrada da bala era facilmente percebida, logo abaixo da protuberância óssea do crânio. Havia dentes estraçalhados e lacerações na boca, causados pelo projétil em sua trajetória de saída. Filetes de sangue ressecado eram visíveis nos cantos do que tinha sido a cavidade bucal. O lençol, por baixo do peito, mostrava uma mancha escura, formada por sangue coagulado. À direita do cadáver, num pedaço do lençol, que permanecera imaculado, três cartões de papelão, dispostos em fila indiana. Os dois primeiros, a contar da cabeça para os pés do morto, mostravam figuras, com a forma humana, trajando vestes coloridas : os orixás . No terceiro, viam-se três desenhos. Um deles representava um escorpião. Outro, fazia lembrar a letra m. Quanto ao terceiro, parecia ser uma espécie de símbolo esotérico, indecifrável para os presentes.

Apontando para ele, Serra perguntou :

"Tem idéia do que isso significa, delegado ?"

Guilherme fez um gesto negativo com a cabeça e virou-se para Santoro.

"E você?"

"Não faço a mínima."

Guilherme ficou pensativo por um longo momento, antes de falar :

"Mas tem de significar alguma coisa. Como os demais. Eles não foram colocados aí atoa. Trata-se de um enigma, uma mensagem cifrada que o assassino nos está passando. Aliás, meu instinto diz que a solução dos crimes passa pela elucidação deste enigma."

Virando-se para Santoro, perguntou :

"Fotografaram a disposição dos cartões ?"

"De vários ângulos e com lentes zoom."

"Então, por favor, providencie para eu que tenha uma cópia ainda hoje. Acho que sei quem pode nos ajudar a decifrar esse mistério."

Cuidadosamente, o delegado pegou os cartões, colocou-os em um envelope e guardou no bolso do paletó. Em seguida disse :

"Não tem mais nada para a gente ver aqui. Vamos dar uma olhada nos outros dois apartamentos. Mas aposto meu salário que encontraremos apenas uma única diferença significativa, em relação a este : os corpos não serão os mesmos."

Guilherme perderia o salário se a aposta tivesse acontecido. Encontraram uma outra diferença significativa : as figuras dos segundos orixás, junto aos outros corpos, não eram as mesmas!

* * *

Capítulo 22

04 de janeiro. 15:00

Às quinze horas daquele mesmo dia, Guilherme reuniu, em seu gabinete, na delegacia de homicídios, os dois policiais que estavam trabalhando com ele, no caso do Meridien, para uma avaliação do dados já recolhidos.

"OK, o que vocês conseguiram?"

Argeu tomou a palavra :

"Já estamos de posse das fitas de vídeo da inauguração e do coquetel. Dei uma boa olhada nelas. Tinha gente p'ra chuchu e os três homens assassinados aparecem em várias tomadas, nos dois locais."

"Certo. E eles estavam juntas ou separados?"

"No coquetel, circularam em grupos separados. Se estiveram juntos, a câmera não registrou. Mas na sessão inaugural, foi diferente, estavam sentados, lado a lado."

"E, com certeza, isso não aconteceu casualmente. O que reforça a hipótese de que os três se conheciam bem. Seria coincidência demais sentarem juntos, apenas por acaso e, depois, serem mortos, na mesma noite, no mesmo hotel. É importante tentar identificar as pessoas que participaram da inauguração e do coquetel. Acredito que o nosso "homem" estava entre elas. Para atingir seu objetivo, ele teria de se certificar que as vítimas estariam em seus quartos, quando subisse para matá-las. E a maneira mais eficiente de conseguir isso, seria estar no coquetel, seguindo, de perto, os movimentos dos empresários. Assim, com um pouco de sorte, ficaria sabendo o momento em que cada um se recolheria e se, ao fazê-lo, estaria só ou acompanhado. Como todos os participantes eram convidados da CNI, talvez alguém lá consiga identificá-los, comparando a lista de convites com as imagens nas fitas. Vai dar um trabalhão, mas tem de ser feito. Argeu, você podia passar lá, hoje ou amanhã, para ver o que consegue. Mas bota empenho nisso e, se quiserem dificultar, endurece."

"Certo, chefe, vou começar a cuidar disso ainda hoje. Mas, tem mais uma coisa."

"O que "?

"Lembra que a tal Camila falou que o homem com quem cruzou no corredor tinha uma bolsa ou uma mochila, pendurada no ombro?"

"Sim."

"A gravação em vídeo, feita durante o coquetel, mostra um sujeito com uma espécie de mochila à tiracolo. Quer ver?"

"Claro, vamos lá"

Na seção de reconhecimento e identificação, a funcionária de plantão entregou-lhes a fita em questão. Guilherme e Ramalho postaram-se diante do monitor enquanto Argeu, usando o controle remoto, procurava o spot certo. Finalmente encontrou e pressionou o botão pausa, congelando a imagem.

"E esse aí." - disse, apontando para a tela - "o cara magro, naquele grupo de gente, à direita do vídeo. Por azar o rosto está encoberto pela cabeça daquele grandalhão. Só dá p'ra gente ver parte do corpo e a tal bolsa à tiracolo."

"Estou vendo, parece uma mochila. Descongela e roda um pouco a fita para frente e para traz."

Argeu obedeceu. Mas deu em nada. O grupo, com o homem da mochila no meio, tinha sido filmado apenas en passant. A câmera passara a registrar outras imagens.

"É só ai que ele aparece?"

"É. Corri a fita toda, três vezes e...nada."

"Ok. Pelo menos ficamos sabendo que o nosso amigo esteve no coquetel. Tem de ser o mesmo cara com quem a Camila cruzou no corredor. Seria muita coincidência que dois homens resolvessem carregar mochilas à tiracolo, no mesmo hotel, na mesma noite."

De volta a sala, já com Argeu liberado, Guilherme dirigiu-se a Ramalho :

"E o que é que você tem para contar?"

O detetive ajeitou-se na cadeira antes de começar :

"O Josias convocou todos os empregados do hotel que estiveram de serviço lá ontem a noite. Interrogamos cada um deles. Fora a tal da Camila, ninguém declarou ter notado qualquer fato anormal."

"E falando da Camila, como está indo o retrato falado?"

"Não deu para acertar com o artista hoje, mas amanhã, sem falta, ele vai sentar com a moça e fazer o retrato."

"Digitais ?"

"Uma porção delas, por toda parte. Foram enviadas ao IFP para identificação."

"A do nosso homem não vai estar entre elas. Com toda certeza, ele estava usando luvas."

"A Camila confirmou isso no depoimento."

"Muito bem, mais alguma coisa?"

Ramalho tirou um bloco de anotações do bolso do paletó e falou :

"Sim. O chefe do serviço de atendimento aos quartos tinha o registro da hora em que foram feitos os pedidos para o desjejum. Aqui estão os três que nos interessam. O primeiro pedido veio do 1005 : às 23:34 de ontem. O segundo foi do 1302 : às 00:02 de hoje. E o último, do 2104, foi registrado às 00:40 desta madrugada."

Guilherme ficou um longo instante pensativo e depois disse:

"Nosso amigo trabalhou com precisão, mas não com muita rapidez. Veja : considerando-se o tempo para se deslocar de um apartamento para outro, mais o que gastou convencendo os hóspedes a deixá-lo entrar, calculo que levou cerca de vinte minutos, em média, para atirar no peito, arrastar a vítima para a cama, fazer o disparo na nuca, ajeitar as tais figurinhas sobre os lençóis, recolher as cápsulas deflagradas, ligar para o room service e dar o fora. Nada disso leva muito tempo. Uma pessoa fria e determinada, - o que ele demonstrou ser - já trazendo, gravada na mente, a sequência das ações que ia praticar - e estou certo que treinou e memorizou, diversas vezes, a execução de cada etapa - levaria, a meu ver, entre doze a quinze minutos, para fazer todo esse serviço. Porque levou mais tempo? O nosso criminoso não era um exterminador contratado por outra pessoa para liquidar os três empresários. Assassino de aluguel, a menos que se trate de um desses gênios do crime, ligados ao terrorismo internacional, não se dá ao luxo de ficar plantando enigmas ao lado de corpos. Ele chega, cumpre a missão, o mais rápido possível, e se manda. Não, o nosso homem estava executando, ele mesmo, pessoalmente, uma vingança. Logo não bastava apenas matar. Tinha de haver algo mais. Como saborear a satisfação de conversar com a vítima, de olhar bem dentro dos olhos dela, enquanto está dizendo para si mesmo : 'vou já te mandar para o inferno, seu miserável'. Ou qualquer outro pensamento do gênero. Ou então, terminada a execução, ficar, por alguns momentos, contemplando o cenário e dizendo: 'acabei com tua raça, seu canalha, pelo que me fizeste'. Ou algo parecido. De uma ou de outra forma, para o nosso homem, somente matar não era suficiente. O ódio tinha de ser convertido em satisfação."

Guilherme fez uma pausa, suspirou fundo e concluiu:

"É isso, Ramalho. Pode até ser que eu tenha criado uma fantasia em torno deste caso, mas acho que foi exatamente assim que aconteceu."

O detetive, que permanecera o tempo todo de boca aberta, procurando absorver e entender cada palavra, exclamou, com a admiração saltando pelos olhos :

"Fantasia nada, chefe, o senhor é um gênio, foi direto na mosca. Não é atoa que lhe deram a alcunha de Sherlock."

Os dois trocaram um boa gargalhada e Ramalho, ainda um tanto deslumbrado, se retirou. Para ir à cata de Nelsinho, o artista responsável pelos retratos falados.

* * *

Capítulo 23

04 de janeiro, 16:05

Depois que Ramalho saiu, Guilherme apertou o botão do interfone e ordenou ao assistente de plantão que dissesse à Magda para vir, de imediato, a sua sala. Magda Barbosa trabalhava na polícia há mais de dez anos. Divorciada e sem filhos, beirava os quarenta, mas tinha o aspecto jovial de quem mal entrou nos trinta. Jovialidade essa que se tornava mais acentuada por um ar alegre, raramente ausente de seu rosto e pelas saias apertadas e curtas, bem acima dos joelhos, pondo à mostra as coxas roliças e as pernas bem torneadas. Conquanto não fosse um padrão de beleza, esbanjava sensualidade. Segundo as boas e as más línguas, trocava de namorado a cada mês e costumava passar os fins de semana tomando shopinhos, com seu grupo de amigos, nos bares da orla da zona sul. No trabalho, como funcionária, Magda era exemplar, sendo, ainda, uma pessoa bastante agradável, que sabia combinar, com exatidão, bom humor e responsabilidade. Ocupando o cargo de detetive, chefiava a seção de arquivo e documentação da delegacia de homicídios. Extraia o máximo dos computadores e possuía um inusitado faro para encontrar ligações entre os fatos, inclusive aqueles aparentemente desconexos. O tipo exato de pessoa que Guilherme necessitava, para a tarefa que tinha em mente.

Magda entrou na sala sem bater na porta, deu um "Boa tarde" e acomodou-se na cadeira em frente a mesa do delegado, já munida de caneta e bloco de anotações.

"Boa tarde "

"O que é que manda, chefe?"

Guilherme sorriu.

"Eu não mando, peço. Magda, creio que você já deve estar a par dos crimes de ontem a noite no Meridien."

"Hum, hum. Despacharam três figurões."

"Exato" - o delegado tirou da gaveta uma folha de papel e entregou à Magda - "Os dados a respeito das vítimas. É pouca coisa, mas foi tudo que conseguimos obter até agora. Como você disse, são figurões, Três empresários de peso, atuando em áreas diferentes, sem nenhum vínculo aparente entre eles. Pelo menos no presente. Mas tem de ter havido algum, no passado. Estou absolutamente convencido disso. Veja : um único assassino, um crime muito bem elaborado. Não foram mortos por acaso. Foi um acerto de contas. Logo o criminoso tinha um motivo. Um motivo envolvendo as três vítimas. Portanto, forçosamente, em algum momento, houve uma conexão entre elas. Do contrário, nada faz sentido neste caso. E é isso que você vai procurar : o vínculo, a conexão. Algo que eles tiveram em comum. Moraram na mesma rua, estiveram juntos no colégio ou na universidade, fizeram parte de um mesmo clube privê, foram sócios de uma mesma firma, tiveram uma mesma amante...O que foi, não sei, mas a conexão está lá, escondida em algum lugar no passado. Nela está o motivo do crime e, por trás do motivo, a identidade do criminoso."

Guilherme fez uma pausa e fitou demoradamente a detetive, bem dentro dos olhos.

"Prioridade absoluta, Magda. Pare tudo que estiver fazendo e se concentre apenas nisso. E requisite o pessoal quer for necessário para lhe ajudar. Como você disse, as vítimas eram figurões e os crimes acabaram com uma importante reunião, promovida pela Confederação da Indústria, em que havia muitos convidados estrangeiros, alguns, reconhecidas celebridades. Que se mandaram daqui, apavorados, e o caso acabou ganhando dimensões internacionais. A mídia está em cima e a pressão sobre a gente é muito grande."

"Chefe, se existiu uma conexão entre esses três homens, eu a encontrarei. Vou dormir em cima do computador, vou fuçar todos os arquivos, telefonar para um montão de gente e botar a turma para gastar a sola dos sapatos. Mas garanto que chego lá. Só não posso lhe dizer quando. Quanto mais distante, no passado, estiver a conexão, mais tempo deveremos levar para encontrá-la. A não ser que a sorte intervenha a nosso favor e...pimba!, a gente esbarra com uma pista inesperada, e vem tudo logo à tona." Guilherme deu um sorriso amarelo.

"Então vamos torcer pela sorte. Se nós não desvendarmos esses crimes, dentro de um prazo razoável, talvez o secretário venha aqui arrancar minha cabeça, alguns minutos antes do governador chamá-lo ao palácio, para decepar a dele."

Magda deu uma risadinha e disse:

"Deixa comigo, chefe, eu não lhe desapontarei. Mais alguma coisa?"

"Não, moça. Vai em frente e boa sorte."

Magda se levantou e caminhou para a porta. Antes de abrí-la, virou-se e, levando dois dedos aos lábios, "jogou" um beijinho para o chefe.

* * *

Capítulo 24

04 de janeiro, 16:55

Minutos depois, o delegado afrouxou o laço da gravata, pegou o telefone direto e discou um número. Após o quarto toque, uma voz, feminina e sonora, respondeu :

"Alô"

"Oi, Nanda, sou eu. Guilherme.

A voz se encheu de contentamento :

"Oi, Gui, por onde tem andando? Estou lhe procurando desde as 10 horas. No telefone do seu apartamento só dava secretária eletrônica. E daí, diziam que você não estava e não sabiam quando iria chegar."

"Desculpe, amor, mas tivemos um dia super agitado, Nào sei se já soube, mas, na noite passada, três empresários foram assasinados no Hotel Meridiem e a bomba estourou na minha mão. Mas há um aspecto bastante curioso nesses crimes e eu vou precisar da sua ajuda."

"Da minha?"

"Sim, da sua e você já vai entender porque. Junto a cada um dos corpos, foram encontrados três cartões com estranhas figuras. Segundo um policial, com jeito de semi iniciado, algumas delas representam orixás de candomblé."

"O que ?"

"É isso aí que você ouviu. E tem mais : em um dos cartões, tem o desenho de um escorpião e mais dois símbolos, possivelmente esotéricos, que ninguém, por aqui, faz a menor idéia do que significam."

"Estou começando a ficar interessada."

"Eu sabia que ficaria. E, sendo parapsicóloga, talvez consiga identificar algumas dessas figuras."

"Em relação à símbolos esotéricos, é possível, mas confesso que não sou muito forte em cultos afro-brasileiros. Porque vocês não pedem ajuda a um desses babalaôs de candomblé? A baixada está cheia deles."

"Eu sei, tem até alguns que são informantes da polícia. Mas, se fizéssemos isso, duas horas depois o Rio de Janeiro inteiro estaria a par do assunto. E o secretário exige o mais absoluto sigilo a respeito dos tais cartões. E com razão. Já imaginou o que a imprensa internacional iria dizer ? Bruxaria mata empresários no Brasil. Ia ser um prato cheio para eles e uma enorme dor de cabeça para nós. Não, temos de buscar auxílio em gente que não dê com a língua nos dentes."

Houve um instante de silêncio do outro lado da linha. Depois, a voz de Fernanda voltou, cautelosamente :

"Eu acho que conheço quem pode nos ajudar."

"Sou todo ouvidos."

"Neste curso que estou fazendo, na Sociedade de Hipnose, tem um rapaz bastante legal, com quem já fiz uma certa camaradagem. Ele..."

O delegado interrompeu :

"Êpa, não estou gostando dessa história..."

Fernanda deu uma risadinha.

"Deixa de ser bobo. O Paulinho é pouco mais que um adolescente e, além de tudo, sou tarada por tiras. Especialmente por um, que mora num certo apart, em Botafogo, com vista para a enseada, em cujo quarto de dormir existe uma certa cama, de onde emanam sedutoras, lascivas e irresistíveis forças magnéticas."

"Nossa, Nanda, você hoje está com a corda toda."

O contra ataque veio cheio de malícia :

"E não é p'ra estar, com tanto tempo de jejum ?"

O delegado deu uma risada :

"Juro que, na primeira folga, vou te dar café, almoço e jantar, tudo ao mesmo tempo.

"Jura mesmo ?"

"Juro. E você venceu. Fale-me a respeito desse seu colega."

"O nome dele é Paulo José Qualquer Coisa, mas nós o tratamos de Paulinho. É simpático e educado, mas do tipo reservado Tenho certeza que, se topar nos ajudar, vai guardar segredo.

"Tá legal, Confio no seu julgamento. Mas ele entende mesmo do assunto?"

"Ah, isso é fora de dúvida. O Paulinho é fanático por essa história de cultos afro-brasileiros. Dizem que, quando ele andou lá pela Bahia, chegou até a raspar a cabeça no terreiro da Menininha do Gantois."

"Será que dá para marcar um encontro com ele ainda hoje?"

"Acho que sim. Vou ligar para a Sociedade de Hipnose. Eles têm o telefone do Paulinho. Toco para ele e depois para você. Se sair, deixa o celular ligado, tá ?"

"OK, vou aguardar. Um beijo."

"Outro. Tchau."

* *

Guilherme Martins e Fernanda Vasconcelos haviam se conhecido, no coquetel de lançamento de um livro, há cerca de quatro anos. Na ocasião, o delegado tinha acabado de comemorar seus quarenta e cinco anos e ela se aproximava dos vinte e três. Do flirt inicial, passaram ao namoro, ao que seguiu, em pouco tempo, um relacionamento mais profundo e estável. Ambos moravam sós, e ambos resolveram que, pelo menos, por enquanto, deveriam continuar assim, Encontravam-se sempre que os afazeres de cada um permitia e, não raro, passavam os fins de semana juntos, em algum lugar fora do Rio.

No momento, casar estava fora de cogitações, pois os dois tinham ainda metas profissionais por realizar, as quais seriam mais facilmente alcançadas, sem as inevitáveis sobrecargas impostas pelo casamento, Guilherme iria, em breve, prestar concurso para Promotor Federal e Fernanda, formada em psicologia, planejava fazer um estágio em parapsicologia na Duke University, o que significava uma estadia de seis meses nos Estados Unidos. Quando tudo isso terminasse, as circunstâncias seriam outras e, a se julgar pelo sentimento que nutriam, um pelo outro, a constituição de uma família não era uma hipótese descartável. Muito pelo contrário.

* *

Tão logo desligou o telefone, Guilherme se deu conta, pelas contrações apelativas do estômago, que não comera nada desde que deixara o apartamento, na parte da manhã. Notificou o assistente de plantão que ia embora e, em seguida, saiu à cata de um restaurante, onde pudesse encontrar uma refeição leve, para aplacar a fome e um drinque suave, para sossegar os nervos.

Em torno das 19:00 horas, Fernanda ligou, confirmando o encontro com Paulinho, uma hora mais tarde, no apartamento dela.

* * *

Capítulo 25

04 de janeiro, 20:00

Quando Guilherme chegou no apartamento de Fernanda, encontrou-a na sala-de-estar, conversando com um homem jovem, não aparentando mais que 20 anos, alto, magro, claro, tez pálida, cabeludo, de brinco na orelha esquerda. Ele logo se ergueu e, sorrindo, estendeu a mão para cumprimentar o delegado. A moça se antecipou, deu um leve beijo no recém chegado e disse :

" Gui, este é Paulinho, o rapaz sobre quem lhe falei pelo telefone."

"Ah, sim"- o delegado apertou a mão estendida - "muito prazer."

"Sinto-me muito honrado em conhecê-lo, senhor delegado."

Sentaram-se em torno de uma mesinha que ficava num dos cantos do aposento. Fernanda foi até a cozinha, voltou com três copos de refrigerantes e sentou-se ao lado de Guilherme. O delegado tratou de entrar logo no assunto :

"A Nanda já deve ter posto você a par da situação. Na noite passada, alguém cometeu um tríplice homicídio no Hotel Meridien".

Os olhos do jovem cintilaram.

"Um serial killer ?"

"Acho que não. Para mim, foi um ato vingança. Alguém que resolveu fazer justiça pelas próprias mãos. Os crimes foram praticados com rapidez e precisão. Nosso homem - estou certo que o assassino é do sexo masculino - é astuto e muito, muito inteligente. Não raramente, criminosos de alto nível intelectual, deixam, propositadamente, algumas marcas, diria mesmo pistas. Uns, para satisfação de seus egos, assim procedem para desafiar a polícia. É como se dissessem : 'aí está meu enigma, desvendem-no se forem capazes'. Outros são movidos por um estranho desejo, consciente ou inconsciente, de serem apanhados. Há mesmo o célebre caso de um serial killer americano que sempre deixava escrito, com o sangue das vítimas, a frase 'Apanhem-me, pelo amor de Deus, ou vou continuar matando.' A gente só fica sabendo o verdadeiro motivo quando prende o culpado. Ele sempre revela as razões que o induziram a praticar os crimes. Insiste em contar, mesmo quando não é indagado a respeito. E, em geral, esses criminosos apresentam dois tipos de explicação para justificar o que fizeram : forças estranhas e poderosas, Deus, por exemplo, induziram-nos a cometer os crimes. Ou então dizem-se justiceiros, qualificando as vítimas como monstros que mereciam ser exterminados. E acreditam sinceramente nisso."

Guilherme fez uma pausa, bebericou o refrigerante e prosseguiu :

"No caso presente, o criminoso deixou uma marca curiosa, algo com que nunca havia deparado antes. Dois cartões com figuras de orixás e um outro, diferente dos demais - com três desenhos. Um representando um escorpião. Os outros dois, não sei. Minha intuição diz que, se conseguirmos interpretar, corretamente, o significado que o assassino quis dar a essa estranha simbologia, chegaremos até ele. Sendo a Nanda uma estudiosa em parapsicologia e você, Paulinho, segundo ela, um expert em cultos afro-brasileiros, espero que, talvez ainda esta noite, a gente consiga deslindar parte desse enigma."

Fernanda deu um sorriso e falou :

"O Paulinho não é apenas um conhecedor teórico desses cultos. É bem mais que isso. Ele é um mestre no jogo de búzios e respeitado babalaô de um terreiro de candomblé."

"Nossa!"- exclamou Guilherme, como se estivesse, ou fingisse estar, impressionado com a esotérica qualificação do rapaz, que mais lhe parecia um hippie dos anos 60.

Tirou um envelope do bolso do paletó, abriu e espalhou o conteúdo em cima da mesa. Eram os cartões recolhidos das cenas dos crimes.

"Vou colocá-los exatamente como estavam, ao serem encontrados junto aos corpos. Como nós, da polícia, não sabíamos que designações dar aos cartões, usamos as letras A,B e C, sendo A o que se encontrava mais próximo da cabeça e C o mais distante. À medida que identificarmos cada figura, substituiremos a letra pelos nomes."

Fernanda comentou :

"Prático e didático, senhor Sherlock."

Guilherme sorriu e os dois trocaram olhares promissores e maliciosos.

"Então, vamos lá. À medida que eu for apresentando as vítimas e os respectivos cartões, vocês vão identificando as figuras e dando um resumo do que cada uma significa, OK.?"

Nanda e Paulinho sinalizaram um sim.

"Ainda sabemos muito pouco a respeito das vítimas. Breve, ficaremos a par dos mínimos detalhes da vida de cada um deles, desde que nasceram. Tem gente trabalhando nisso. Mas passarei a vocês as poucas informações que já conheço. Comecemos pela vítima do 1005. Chamava-se Gilberto Gomes Netto, tinha 57 anos e era dono de uma grande cadeia de rádio e TVs, espalhadas por quase todos os rincões do país, principalmente nas área rurais. Era também um assumido homossexual."

Guilherme selecionou três dos cartões e os arrumou numa determinada ordem. Virou-se para Paulinho e disse :

"Foi assim que os encontramos, ao lado do corpo, exatamente nesta ordem, partindo da cabeça. Quem é o primeiro ?"

Paulinho que já tinha dado uma rápida olhada na figura, não exitou : "Xangô.O orixá justiceiro, ao mesmo tempo, prudente e corajoso. Encarregado de acertar disputas. Premia os bons e pune os maus.

"O segundo?"

Com a mesma presteza :

"Oxumaré. Um orixá bissexuado. É macho durante seis meses e fêmea nos outros seis. Segundo a lenda, estabelece contato entre o céu e a terra, através do arco-iris"

Um comunicador?"

"Pode ser considerado como tal" "Interessante...bate com as características da vítima, concordam ? "

Foi Fernanda quem respondeu :

"Plenamente."

"Ótimo, vamos adiante. O terceiro?"

 

Dessa vez o pai-de-santo hesitou um pouco. Pegou o cartão, olhou a figura, atentamente, por algum tempo. Depois disse :

"Exú, exú caveira."

* * *

Capítulo 26

04 de janeiro, 20:55

Fernanda estremeceu diante do nome e apertou o braço do delegado. Ele favoreceu-a com um leve sorriso tranquilizador e perguntou:

"Tem certeza?"

"Sim, absoluta. Demorei um pouco, porque existem inúmeras variantes de exús. Mas não tenho a menor dúvida. É o símbolo cabalístico do exú caveira. O guardador dos cemitérios. Podemos dizer que representa a morte."

"OK. E agora, quanto aos outros símbolos do cartão? Um é o animal escorpião. E o outro, o que parece a letra m?"

Fernanda, que num simples relance, reconhecera o simbolo, disse :

"Essa é sopa. É o símbolo zodiacal de escorpião. Do ponto de vista astrológico, o escorpião tende a ser ciumento, chantagista, emocional e, as vezes, traidor e vingativo; mas também apaixonado, solidário e sonhador. E, como animal, o escorpião é peçonhento. Tem um ferrão na cauda, através do qual injeta, em suas vítimas, um veneno que paralisa e anestesia, podendo ser até letal."

Guilherme sorriu para a namorada, fez um gesto de assentimento com a cabeça e retomou o comando da conversa.

"Para mim, pelo menos por enquanto, a associação exu/escorpião não se ajusta bem dentro do contexto. Sinto que tem alguma coisa faltando. Se entendi direito, o tal do exu caveira tem a ver com morte, certo ? Até ai, a coisa ainda vai. Mas, porque a associação com o escorpião ? Que mensagem o criminoso nos quer passar através dela ? Se pensou em termos astrológicos e quis se referir à vingança ou traição, faz sentido. Estaria dizendo 'matei para vingar uma traição'. Mas se estiver se referindo ao animal escorpião, para nos levar a pensar na palavra veneno, ai embaralha tudo, já que as vítimas foram mortas a tiro e não existe a mínima evidência que tenham sido envenenadas. Há algo nisso que ainda não entendemos bem. Porém, de uma coisa estou convicto : nenhuma dessas figuras foi colocada atoa. Nosso assassino possui uma maneira de pensar bastante cartesiana, diria mesmo, científica. Tudo que faz tem de ter um significado. E nós temos de decifrar esse enigma. Mas vamos deixá-lo de lado, por enquanto, e prosseguir com os outros orixás."

Fernanda deu um suspiro e interveio, em tom de gozação :

"Pensava que era eu a psicóloga do grupo. Pelo jeito já perdi o posto."

Guilherme limitou-se a sorrir.

"Você recupera. Quando encontrar a tal associação. Mas, voltando ao que estava dizendo. Daqui em diante, a coisa fica mais fácil e menos trabalhosa. Nos outros casos, dois dos cartões eram iguais aos que já que vimos. Xangô e exú/escorpião, nas mesmas posições. Apenas os segundos cartões eram diferentes. Vamos lá : Apartamento 1302. Paulo César Nogueira, 56 anos, com fama de boêmio e beberrão, era presidente e principal acionista de um poderoso grupo farmacêutico. Eis o segundo cartão. Paulinho?"

A resposta veio imediata :

"Mais um orixá do primeiro time : Ossanha. Cuida das ervas, plantas e poções medicinais. E como a vítima estava envolvida com assuntos farmacêuticos, a coisa se encaixa."

"De pleno acordo. Passemos ao último. Apartamento 2104, Alcino Moroni, 61 anos, solteirão, pouco obtivemos, até agora, sobre sua vida particular. Era um dos donos da firma Ariana, um consórcio ítalo-brasileiro, fabricante de armas de pequeno e médio porte. Aí está o segundo cartão."

"Este, qualquer frequentador de candomblé identifica na hora : é Ogum, o orixá guerreiro. O senhor da guerra, dos armeiros e dos armamentos."

"E, mais uma vez...bingo! o fabricante de armas e o senhor dos armamentos." - disse Fernanda.

O delegado levantou-se da poltrona e pôs-se andar, de um lado para o outro, sob os olhares dos outros dois.

"Muito bem. Como imaginei, os cartões já nos disseram algumas coisas e vão ainda nos dizer muito mais. Mas, por ora, vamos fazer um balanço do que já temos. Paulinho, o que é que a primeira figura representa para você ?"

"O assassino. E que ele matou por vingança. Um ato punitivo."

"Exato. E quanto a segunda, ou melhor, as segundas ? É sua vez, Nanda. O que lhe parece?"

"Que se referem às vitimas. Ficou evidente que cada um dos orixás dos segundos cartões, corresponde a cada uma delas."

"Perfeito. Vai ficar faltando entender o exato sentido da conexão entre o exu e o escorpião. Insisto que tem de haver alguma."

Fernanda franziu a testa e disse:

"Um momentinho. Acabou de me ocorrer que, algum tempo atrás, acho que foi na Internet, vi alguma coisa a esse respeito. Porque vocês não batem um papinho, enquanto eu vou dar uma espiada no computador ? Quem sabe a gente dá sorte?"

E, sem esperar resposta, deixou a sala, passando para o aposento ao lado, o qual funcionava como uma espécie de escritório-biblioteca e aonde ficava o computador. Enquanto esperavam que Fernanda surfasse na web, Paulinho atropelava os pensamentos do delegado, com uma saraivada de informações a respeito de entidades africanas, pontos de umbanda, magia negra, búzios e outros mistérios correlatos.

De repente, do escritório veio a exclamação "Eureca", seguida de uma agitada convocação:

" Ei, vocês dois, dêem um pulinho até aqui. Acho que encontrei o que estávamos procurando."

Eles foram e, logo a seguir, olhando por cima dos ombros de Fernanda, acompanharam o que ela lhes mostrava no monitor.

"É o mesmo site que entrei no outro dia. Reparem o titulo : Os Orixás e o Zodíaco."

Abriu a página em questão e perguntou :

" Querem ver tudo ou vou direto..."

"Vai direto ao escorpião, Nanda" - interrompeu o delegado, sem conseguir conter a ansiedade.

Fernanda movimentou o mouse e parou sobre o oitavo signo.

"Ai está."

E todos leram : SCORPIUS/Orixá: EXÚ Planeta: Plutão. Dia: terça-feira...

"Bem," - falou Guilherme - "agora temos certeza que, esotericamente, pelo menos, existe uma conexão. Mas ainda resta descobrir de que forma ela se encaixa no contexto dos crimes no Meridien. Breve, teremos mais dados sobre as vítimas e estaremos a par das conexões, que, inevitavelmente, existiram entre elas. É a partir daí que chegaremos ao motivo dos crimes e, certamente, aos suspeitos. E algo me diz - não sei se por instinto ou por um raciocínio, ainda subconsciente - que, ao atingirmos esse momento, extrairemos dos símbolos desses cartões outras informações, quem sabe, até mesmo, a identidade do criminoso. Portanto, quando chegar a hora, vou convocar os dois para um novo brain storm."

* * *

Capítulo 26

06 de janeiro, 17:00

Naquela tarde, Guilherme compareceu ao gabinete do secretário de segurança a fim de pô-lo a par das investigações. Após ouvir o delegado, o Dr. Veiga cumprimentou-o pelos avanços já registrados, sem deixar, contudo, de ressaltar a necessidade de que os crimes fossem logo elucidados ou, pelo menos, que a polícia detivesse algum suspeito. Enfim, qualquer coisa que servisse para arrefecer as pressões que a secretaria vinha recebendo da mídia, do empresariado e, até mesmo, do governador do Estado. Após algumas considerações, ficou acertado que, ainda naquela noite, o secretário divulgaria uma nota para a imprensa, dando algumas informações sobre o caso, mas sem fazer qualquer revelação que pudesse prejudicar as diligências.

* * *

Capítulo 27

07de janeiro, 8:30

Desde a manhã do dia 4, Jerônimo vinha acompanhando o noticiário da imprensa, Nos dois primeiros dias, após os acontecimentos no Meridien, a mídia nada tivera para oferecer ao público, a não ser frases de efeito, como "conceituados industriais são vítimas da sanha de um frio assassino", "tragédia põe fim a evento promovido pela Confederação da Indústria, ou "assustado com o assassinato de três empresários, Bill Gates volta às pressas para os Estados Unidos". Houve apenas uma nota consistente : "os três empresários vitimados no Hotel Meridien, foram mortos de maneira idêntica : cada um recebeu um tiro no peito e outro na cabeça." A baixa produtividade da mídia refletia o êxito do bloqueio às informações, instituído pelas autoridades.

Mas, na noite do dia 6, a polícia abriu uma brecha na cortina de silêncio. E, na manhã seguinte, Jerônimo e milhões de outros brasileiros puderam ler as novidades estampadas nos matutinos :

"Ontem a noite, o Secretário de Segurança, Dr. Lauro Veiga, reuniu a imprensa em seu gabinete e distribuiu a seguinte nota : 'Levando-se em conta que os crimes no Hotel Meridien aconteceram há apenas três dias, considero excelentes os resultados das diligências policiais. Como já foi noticiado, os três empresários foram mortos de maneira idêntica : um tiro no peito, seguido de outro, na região occipital. A autópsia revelou que o Dr. Alcino, o último a ser assassinado, estava vivo e, possivelmente, ainda consciente, quando recebeu o segundo tiro, Os outros dois morreram de imediato, ou ficaram logo inconscientes, por terem tido o coração dilacerado. As características dos crimes apontam para um único responsável pelas três mortes. Pelos indícios encontrados nos locais da tragédia, podemos deduzir que os homicídios não foram atos aleatórios e sim que as vitimas haviam sido previamente selecionadas. Isso faz crer que os crimes foram cometidos por vingança, Porque e por quem é o que pretendemos descobrir, nos próximos dias. Conhecemos outros detalhes, mas eles não podem ser ainda divulgados, para não prejudicar o rumo das investigações, tão brilhantemente conduzidas, sob a direção do delegado Guilherme de Oliveira Martins, titular da delegacia de homicídios da nossa secretaria. Boa noite e muito obrigado pela atenção."

Jerônimo fechou o jornal. Estão indo bem, pensou. Guilherme de Oliveira Martins. Já tinha ouvido falar dele. Na verdade, agora lembrava, meses atrás, sua participação na solução de um bárbaro crime, fora motivo de uma elogiosa reportagem. Nela se dizia que o delegado era um investigador persistente, sagaz e minucioso. E se era mesmo o que diziam, refletiu Jerônimo, teria logo ido buscar a colaboração de pessoas familiarizadas com cultos afro-brasileiros e astrologia. Portanto, era provável que já soubesse que os símbolos, encontrados junto aos corpos, não foram lá deixados "por deixar" ou para confundir a polícia.

Para Jerônimo, era importante que o delegado e seus colaboradores descobrissem o significado de xangô e dos orixás relacionados com cada uma das vítimas. Como também era fundamental que eles não entendessem o exato sentido dos símbolos ligados ao escorpião. E que continuassem sem entender, até o final do último ato. Se assim fosse, era porque a sorte estava do lado dele, Jerônimo, e ele seria o vencedor. Se, ao contrário, eles decifrassem o enigma, antes do tempo previsto, então era porque a sorte tinha virado de lado e ele, Jerônimo, poderia vir a ser derrotado.

Pressentia que, em breve, ele e Guilherme se defrontariam. Era uma pena que, na arena do encontro, não houvesse, interposto entre os dois, um grande tabuleiro quadriculado. Seria uma bela partida de xadrez! Mas o script comportava apenas um único roteiro, traçado há 28 anos. Se os acasos da vida, no decorrer de tanto tempo, não criara opções para outros caminhos, não era de se esperar que, agora, na reta final, isso viesse a acontecer.

Num esforço para esquecer, por alguns minutos que fosse, as incertezas do acaso, Jerônimo pegou uma revista que trouxera do Instituto e pôs-se a ler um artigo, recentemente escrito por um cientista sueco. Ao tentar alterar o DNA de uma bactéria, num caldo de cultura, o pesquisador acabou descobrindo um vírus, potencialmente capaz de servir como vetor, para modular determinados alelos, num certo locus cromossomial. Um achado importante para a engenharia genética. "Uma feliz descoberta", assinalou o autor, ao concluir o artigo, "ocorrida por acaso"

* * *

Capítulo 28

19 de janeiro, 9:42

O delegado mal acabara de entrar em sua sala quando o telefone direto tocou. Era Veiga.

"Bom dia, Guilherme."

"Bom dia, chefe."

"Em que pé está o caso do Meridien?"

"Estamos dependo de localizar a conexão entre as vítimas. Não está fácil. Ela existe, mas está mergulhada em algum momento do passado. Quando a encontrarmos, o novelo se desfaz e o caso se esclarece. A Magda está fazendo tudo o que pode. Não demora, a gente chega lá."

"Tomara, já estou cheio da pressão vindo de cima. Imagina você que o filho de uma das vítimas - acho que o tal de Paulo César - é casado com a filha de um senador, o qual é o cacique político em cujo saco nosso governador vive pendurado. O filho pressiona a mulher, que pressiona o pai, que pressiona o governador, que me pressiona. É uma porra!"

Guilherme entendia o desabafo do secretário. Cobrança em cima de cobrança inferniza a vida de qualquer um. Partiu para a solidariedade :

"Esses políticos filhos da puta não têm a menor idéia do que significa uma investigação policial."

Veiga se animou :

"É isso ai. Os canalhas só pensam em levar vantagem em tudo. Os outros que se lixem"- e dando uma risada, acrescentou : "Já pensou se nossa conversa estivesse sendo grampeada?"

"Sem risco. Do lado de cá está tudo limpo. Nosso pessoal faz uma varredura dos telefones três vexes por dia."

"Do lado de cá, também. OK, Sherlock, vai em frente e vê se dá logo um fim a essa melódia.

"Esfria a cabeça, chefe. A qualquer momento a Magda entra por esta porta a dentro, gritando 'Achei, achei a conexão'."

"Deus te ouça. Até logo." "Até logo, chefe."

* *

Guilherme não poderia ter sido mais profético. Nem cinco minutos haviam transcorridos, quando Magda, efetivamente, entrou porta a dentro, sem bater, com o rosto esfuziante, sacudindo um maço de papéis e exclamando :

"Achei, chefe, achei a bendita conexão."

Os olhos do delegado cintilaram. Apontou uma poltrona para a moça.

"Vai, boneca, relaxa um momentinho"

Enquanto ela se sentava, ele pegou o interfone e determinou ao assistente de plantão que não queria ser interrompido, por quem quer que fosse. Em seguida virou-se para Magda e disse:

"Conta, conta tudo"

E ela contou. Levou uns vinte minutos. Quando terminou, o delegado disse:

"Excelente trabalho, Magda. Você merece um bom almoço. Conheço um ótimo restaurante, não muito longe daqui. A gente vai lá, devora uns bons bifes, bebe uns refrigerantes e joga um pouco de conversa fora, para esfriar a cuca. Depois voltamos p'ra cá e eu lhe digo tudo que acho deste caso, agora que já possuímos essas informações que você desenterrou. Vamos."

* * *

Capítulo 29

18 de janeiro, 14:00

Já em sua sala, de volta do almoço, Guilherme novamente avisou que não queria ser incomodado. Sentou-se na cadeira giratória, por traz da mesa, enquanto Magda se acomodava numa poltrona a sua frente.

"Muito bem" - começou ele - "Vou lhe dizer qual a teoria que, diante das informações que você colheu e de alguns outros dados que eu já conhecia, acho que já estamos em condição de desenvolver.. Preste bastante atenção ao que eu vou expor e, à medida que o raciocínio for se desdobrando, intervenha, dando a sua opinião, sempre que lhe ocorra algo significativo. Comecemos pela..."

E a conversa se estendeu por quase duas horas. Quando terminaram, tinham chegado a um consenso.

"OK, Magda, acho que nosso próximo passo dever ser o seguinte : uma reunião geral, hoje à noite, no meu apartamento. Vão você, Argeu, Ramalho, a Fernanda, que vocês já conhecem e um rapaz, chamado Paulinho, especialista em cultos afro-asiáticos. Lá, nós relatamos o que você descobriu e as conclusões a que chegamos. Serão seis cabeças pensando em torno de um mesmo assunto. E vamos ver que bicho dá, OK?"

Os olhos de Magda cintilaram.

"Vai ser uma boa, chefe. Como é mesmo o nome que os americanos dão a esse tipo de coisa?"

"Como assim?"

"O tipo de debate em que as pessoas ficam 'puxando' pela inteligência, umas das outras."

Guilherme não conteve um risada.

"Acho que você está se referindo a um brain storm."

O entusiasmo de Magda aumentou ainda mais.

"É isso mesmo, chefe. Nossa, vai ser um barato!"

* * *

Capítulo 30

19 de janeiro, 21 horas

Convocados às pressas, já no fim da tarde, os principais colaboradores do delegado no "caso Meridien" foram chegando, um a um. E agora, lá estavam, acomodados em cadeiras, poltronas e sofás, espalhados pela sala de estar do apartamento de Guilherme, na praia de Botafogo : Ramalho, Argeu, Magda, Fernanda e Paulinho. Já estando todos devidamente servidos de sanduíches, sucos e refrigerantes, o delegado, sentado no braço da poltrona onde a namorada se instalara, abriu a reunião :

"Obrigado, pessoal, por terem vindo. Chamei vocês aqui com a finalidade de fazermos um balanço do estado atual das investigações e ver se algo mais pode ainda ser extraído do que já sabemos até agora. Felizmente, uma informação, sem a qual não poderíamos avançar mais, um passo sequer, foi-me trazida, hoje, pela nossa querida Magda. Após incansáveis pesquisas e diligências, ela descobriu a conexão existente entre as três vítimas. Além disso, ficamos conhecendo outros detalhes, também importantes para a elucidação dos crimes. Logo no dia seguinte aos assassinatos, sabendo muitíssimo menos do que sabemos agora, eu me reuni com a Fernanda e o Paulinho para tentar decifrar o significado das tais figuras que o matador deixou junto aos corpos."

Fez uma pausa, e, dirigindo-se aos seus auxiliares da polícia, prosseguiu :

"A Fernanda já é conhecida de vocês. Quanto ao Paulinho, deixe que lhes apresente. O garotão aí" - gesticulou na direção do rapaz - "é especialista em cultos afro-brasileiros e já nos esclareceu muita coisa. Naquela reunião, eu me atrevi a fazer uma previsão : quando as investigações estivessem mais avançadas e novos dados houvessem surgido, as figuras deixadas pelo criminoso iriam nos dizer muito mais. E minha intuição está soprando que, ainda esta noite, isto irá acontecer. Agora, pediria a Magda que fizesse um resumo do que obtivemos nessas duas semanas de investigações. Magda..."

A detetive curvou a cabeça num gesto de agradecimento às palavras do seu chefe e começou :

"Seguindo as determinações do nosso delegado, eu fui a fundo procurando achar algum vínculo entre as vítimas do Hotel Meridien. Conquanto os três fossem industriais, suas áreas de atividade eram, no momento atual, bem diferentes e o relacionamento entre eles não parecia ultrapassar o grau de um simples conhecimento. Mas tinha de ter havido um vínculo no passado, senão, como o Dr. Guilherme insistiu desde o início, nada faria sentido. Foi um trabalho longo e difícil, porque a conexão estava bem distante no tempo, e só a descobrimos quando retrocedemos a 1966. Naquele ano, as três vítimas, Alcino, Gilberto e Paulo Cesar e uma quarta pessoa, associaram-se para constituir uma firma de componentes para computadores, denominada COMPTEC. O quarto sócio, cujo nome era Carlos Albuquerque, sofreu um acidente fatal, na tarde do dia 24 de janeiro de 1971, quando seu carro, em alta velocidade, saiu da pista, em um trecho da avenida Niemeyer, arrebentou a muralha de proteção e se precipitou no mar. Quatro meses depois, os sócios remanescentes fecharam a firma e cada qual seguiu um caminho diferente. Na ocasião da tragédia, a companhia em que o Sr. Albuquerque tinha feito um seguro de vida no valor de um milhão de dólares, em caso de morte acidental, levantou a suspeita de que ele houvesse cometido suicídio. E que o fizera de forma a parecer tratar-se de um acidente, a fim de garantir que a família recebesse o dinheiro. O que não aconteceria, no caso de suicídio. Alegava a tal companhia que o Sr. Albuquerque tinha um dívida bancária equivalente a mais ou menos 900.000 dólares e que, tanto a casa em que residia, quanto os outros dois imóveis que possuía, estavam hipotecados, como garantia dessa dívida. Porém, como nada existia que comprovasse as acusações da seguradora e um cunhado da viuva fosse um influente promotor, a justiça determinou o pagamento do seguro."

Magda fez um pausa, bebeu um pouco de suco e continuou:

"Apuramos ainda que, dois anos antes, a COMPTEC tinha realizado um aumento de capital para se expandir e que foi, precisamente nessa ocasião, que o Sr. Carlos Albuquerque levantou os empréstimos que, no total, atingiram um montante equivalente a um e meio milhão de dólares, quase certamente para fazer face a sua parte na integração do capital da empresa. Esse novo capital, como consta da alteração do contrato social, registrado em cartório, convertido ao câmbio da moeda norte-americana da época, era de, apenas, 800.000 dólares. Por outro lado, como a parte do Sr. Albuquerque representava somente 25% do total, o montante real do que recolheram deveria estar na casa dos milhões de dólares. Logo, não fica difícil concluir que havia um "caixa dois", quase certamente depositado em bancos estrangeiros."

Ramalho não se conteve :

"Desculpe a interrupção, chefe, mas não dá para segurar. A gente imaginava que conhecia todos os atributos..." - a palavra saiu maliciosamente acentuada - "da Magda, mais essa de economista..."

O que provocou uma gargalhada geral. Magda premiou o colega com uma careta e prosseguiu :

"Vou apresentar, agora, para vocês, um raciocínio desenvolvido pelo nosso chefe : se a morte de Carlos Albuquerque foi mesmo apenas um acidente e, se todas as pessoas a ele ligadas afetivamente, realmente se convenceram disso, então vamos esbarrar de encontro a uma barreira intransponível : ausência de motivo. Isto porque a nossa teoria, em torno deste caso, se baseia na convicção de que os três empresários foram alvos de uma só vingança. Logo, motivada por algo que tenham feito - ou que alguém imaginou que tivessem - conjuntamente. Do contrário, como explicar terem sido assassinados, da mesma forma, na mesma noite, pela mesma pessoa ? Por outro lado, se foi suicídio, ou - e, aqui, não há como escapar da repetição - se alguém, a ele muito ligado, assim supôs, então o motivo vingança fica evidente, conquanto esta só tenha se concretizado quase 28 anos mais tarde. Adotemos, então, a hipótese de suicídio. Qual teria sido o motivo? A autópsia revelou que o Sr. Albuquerque não apresentava qualquer lesão em órgãos vitais. Motivo doença...excluído. Tudo indica - e a esse respeito conseguimos ouvir algumas testemunhas que conheciam o casal - que ele amava a esposa e os filhos, e não havia qualquer indício, ou suspeita, de relacionamentos extra-conjungais, de uma ou de outra parte. Nem Carlos Albuquerque era dado a crises de ciúmes. Motivo passionalidade - excluído. Durante o inquérito, para se estabelecer se havia sido, ou não, morte acidental, todas as testemunhas declararam, com absoluta convicção, que o Sr. Albuquerque não era sujeito à depressões e nunca apresentou indícios de doença mental Motivo insanidade - excluído. Portanto, excluídos esse motivos, sobra apenas um : a ruína financeira. E, para sustentá-la, somos forçados a elaborar sobre dois fatos. Vejamos : 1 - O Sr. Albuquerque tinha uma imensa dívida e seus imóveis estavam hipotecados. 2 - Como a firma, de que era um dos donos e de onde retirava seu rendimentos, foi fechada quatro meses após sua morte, é bem possível que, nesta ocasião, a liquidação da COMPTEC já fizesse parte dos planos dos sócios. Em decorrência, o Sr. Carlos iria ficar privado do que deveria ser um polpudo salário. Fica faltando esclarecer um último, mas importante detalhe : se a empresa tinha, como imaginamos, uma volumosa quantia, depositada no estrangeiro, e Carlos era dono de uma quarta parte dela, porque teria ele se desesperado - e toda nossa linha dedutiva obriga que isso tenha acontecido - se, com a liquidação da empresa, a acontecer em breve, passaria a dispor de uma quantia substancial ? De duas uma : ou ele já havia retirado parte do seu capital para fazer algum investimento de risco, não ligado à COMPTEC, e se deu mal, ou os outros sócios, de alguma forma, passaram-no para traz, levando-o à ruína. E, então, o Sr. Albuquerque divisou, no suicídio, cometido de forma a parecer acidente, a saída para evitar que seu debacle financeiro repercutisse sobre a mulher e os filhos. E se foi isso que realmente aconteceu, eis aí o motivo da vingança : um ajuste de contas. Alguém, muitos anos mais tarde, executou, justiçou, aqueles que teriam traído o Sr. Albuquerque, levando-o à ruína e ao suicídio."

Magda calou, esvaziou o copo de suco, olhou para Guilherme e disse:

"Quer assumir a partir daqui, chefe?"

* * *

Capítulo 31

19 de janeiro, 21:47

Guilherme premiou os presentes com um largo sorriso e, em seguida dirigiu-se à detetive :

"Parabéns, Magda, você fez uma bela exposição : lógica, didática e precisa. Muito bem, logo darei continuidade à sua linha de pensamento. Mas, antes, por uma exigência do método dedutivo, pelo qual tudo deve ser levado em conta, vamos fazer uma outra suposição : a de que se trate de um crime aleatório, ou seja, as vítimas foram escolhidas ao acaso. O que, no caso em questão, pode ser expressa da seguinte forma: um psicopata se convence que deve eliminar industriais, já que, segundo sua doentia concepção, eles são criaturas nocivas, capitalistas amorais, filhos de satã, ou algo equivalente. Fica sabendo, pela imprensa, que muitos estarão reunidos no Hotel Meridien, nos dias 3, 4,e 5 de janeiro. Vai ao local, observa o grupo e pensa : vou matar este, esse e aquele. E o faz. Muito bem. Mas, ai, a gente se depara com a seguinte questão : qual a probabilidade que esses homens, selecionados ao acaso, tivessem sido sócios no passado? Talvez menos que um para um milhão! Logo, a possibilidade de crime aleatório, só deve ser considerada se outras, estatisticamente mais significativas, forem excluídas por evidências incontestáveis. No caso do Meridien, nós dispomos de uma forte evidência, baseada numa teoria e algumas hipóteses complementares. Essa teoria deve ser a correta, posto que, dentro do raciocínio dedutivo, é a única que se ajusta aos fatos. Quanto as hipóteses...há ainda que comprová-las. E quais são as premissas que formam essa teoria? A Magda já explicou detalhadamente e, agora, eu as resumo : 1 - Há 28 anos, o Sr. Albuquerque se matou, ou alguém, muito ligado a ele, imaginou que isso tivesse acontecido. 2 - De uma ou de outra forma, esse alguém, considerou também, que a ruína financeira foi a causa do suicídio e que os três sócios do falecido foram responsáveis por essa ruína. Reparem : na verdade, pouco importa se, de fato, os sócios foram ou não culpados. O que importa é que o tal alguém assim os considerou. 3 - O alguém resolve matar os sócios e o faz, após decorridos quase 28 anos. 4 - Quem guardaria um desejo de vingança por tão longo tempo? Obviamente, como a Magda já referiu, somente alguém muito afetivamente ligado a Carlos Albuquerque. Acontece que este era filho único e seus pais já faleceram há muitos anos. Logo... 5 - Sobram, apenas, quatro pessoas para assumirem a identidade do nosso alguém, ou seja, do assassino dos industriais : a viúva e os três filhos de Carlos Albuquerque. 6 - A viúva pode ser, a priori, excluída, por duas razões :1a - as características dos crimes, a começar pela estratégia montada pelo criminoso, não condizem com a psicologia feminina. 2a - uma testemunha viu um homem, saindo do apartamento de uma das vítimas, logo após esta ter sido executada. Logo o assassino tem de ser um dos três filhos. 7 - Conquanto tenha sido descartada como criminosa, há uma curiosa particularidade em relação a Sra. Cristina Albuquerque, que parece guardar alguma relação com um dos aspectos peculiares destes crimes : há muitos anos, ela foi autora de uma tese intitulada Orixás -Lendas e Rituais. E, ao lado do corpo, foram deixadas figuras representando essas entidades afro-brasileiras. É admissível que um dos filhos, o criminoso, tenha extraído a idéia do livro escrito por sua mãe. Assim, temos de concentrar nossas investigações em torno de três nomes : Jerônimo, Jorge Sebastian e Jorge Antônio. Todos tendo, como sobrenome de família, Charon de Albuquerque. Aliás, dispomos de um dado que nos permite colocar um deles no topo da lista dos suspeitos. Na relação de convidados para o evento, expedida pela Confederação da Indústria, consta o nome de Jerônimo Charon de Albuquerque. Assim, é muito provável que ele estivesse no Hotel Meridien, na noite do crime."

O delegado parou para se servir de um refrigerante, quando Paulinho, que manuseava as páginas de um livro que havia trazido para a reunião, pigarreou e levantou o dedo, nem gesto de quem deseja pedir a palavra. Guilherme percebeu e indagou :

"Quer dizer alguma coisa, Paulinho?"

O outro não perdeu tempo :

"Sabe, delegado, enquanto o senhor falava, uma idéia ia se formando na minha cabeça. Imaginando que o assunto dos orixás viria á baila na reunião, trouxe comigo este livro."- ergueu-o para que todos o vissem- "É uma das melhores obras sobre cultos afro-brasileiros que conheço. Intitula-se Iconografia dos Deuses Africanos no Candomblé da Bahia, escrita em 1981 por Carybé e Pierre Verger. Fala bastante dos orixás e de sincretísmo.

Argeu o interrompeu:

"Sincre.., o que?"

"Sincretismo. Significa uma fusão entre as religiões negras, umbanda e candomblé, e o catolicismo. Estabelece uma relação nominal entre as entidades africanas e santos da igreja católica. Delegado, poderia repetir os nomes dos três irmãos?"

"Pois não. Jerônimo, Jorge Sebastian e Jorge Antônio."

"Obrigado. Acabamos de tomar conhecimento que a D. Cristina era uma estudiosa desse assunto. Logo, parece lógico supor que tenha sido ela quem deu o nome aos filhos, em homenagem a importantes orixás."

Com um leve toque de impaciência na voz, Magda pediu :

"Explica melhor"

Paulinho deu uma rápida espiada na pagina que estivera consultando e disse :

"Começando pelo caçula : Jorge Antônio é o orixá Oxossi.

"O que não me diz nada."- comentou a detetive.

Paulinho deixou passar o comentário.

"O do meio, Jorge Sebastian é o orixá Ogum.

"Continuo na mesma"

"Já vai deixar de continuar" - retrucou Paulinho, com ar triunfante - "O mais velho : Jerônimo é o orixá Xangô. "

Fernanda bateu palmas. "Na mosca - exclamou ela - "A figura que aparece sempre em primeiro lugar no enigma. Xangô, o justiceiro."

Foi a vez de Guilherme intervir. "E agora, também, Jerônimo, o matador. Parabéns, "Paulinho. Você acabou de decifrar mais uma parte do enigma."

Ramalho não se conteve :

"Este cara é maluco. Foi como se tivesse assinado o próprio nome, abaixo de cada um dos homicídos."

"De fato"- concordou Guilherme - "Mas ele não tem nada de maluco .Tudo que faz tem um propósito. Sabe, estou convencido que o nosso homem não se importa muito com a possibilidade de vir a ser descoberto. O importante era 'acertar as contas' e isso ele fez, com extraordinária precisão. A meu ver, ao colocar a figura de xangô, ele estava dizendo : 'eu sou o justiceiro e meu nome é Jerônimo."

"Mas porque faria isso?"- indagou Argeu

"Acho que sei porque, mas trata-se, por enquanto, apenas de uma hipótese : Jerônimo sabia que, cedo ou tarde, estabeleceríamos a conexão entre as vítimas, chegaríamos a Carlos Albuquerque e seus filhos seriam os principais suspeitos. Mas não desejava que os irmãos pudessem vir a ser responsabilizados. O que faz, então? Identifica-se, através de xangô. Mas, como disse, isto é somente uma hipótese. Na verdade, podemos imaginar uma outra. E qual seria ela ? A participação, também, de um dos outros irmãos. Para confundir a polícia, Jerônimo se faz o alvo da nossa atenção, comparecendo ao evento e determinando que o real perpetrador do crime coloque, junto aos corpos, a figura africana que aponta para seu nome, enquanto, efetivamente, é Jorge Antônio ou Jorge Sebastian, quem vai aos apartamentos e liquida os antigos sócios do pai. E, quando caímos em cima do Jerônimo, ele apresenta um álibi incontestável para a hora dos crimes e a gente 'dança'. Porém, como disse, esta é apenas uma hipótese alternativa. Não acredito nela. Continuo levando fé na primeira."

Guilherme pegou o copo das mãos de Fernanda, sorriu para a namorada e tomou um pouco do refresco, Depois retomou o monólogo :

"A descoberta do Paulnho, seguindo-se ao que Magda havia apurado, representou um grande avanço. O novelo está desfeito e, breve, chegaremos ao desfecho deste caso. Mas persiste uma incógnita : qual o verdadeiro significado do eixo exú caveira / escorpião? Se, como já aventamos, o criminoso teve a intenção de associar morte e traição, tudo bem. Contudo, se a associação que imaginou foi morte e veneno, então ainda existe algo nesta história que ainda não conseguimos desvendar. E como Jerônimo, pois para mim é ele o assassino, tem-se revelado um brilhante estrategista e tudo que faz é relevante, deixar de decifrar esta parte do enigma pode nos trazer uma grande dor de cabeça no final. Amanhã, irei fazer uma visita ao nosso cientista. Vou de leve, uma simples questão de rotina. Quero conhecê-lo de perto, medir suas reações às minhas palavras. Nenhuma acusação formal, apenas ligeiras estocadas. E aproveitar para observar detalhes de suas feições, afim de recompor o retrato falado do homem de macacão, e que, com toda certeza, foi baseado na descrição de um rosto disfarçado. Aposto que ele não tem bigode e que seu penteado é bem diferente do que aquele criado pela peruca. Alguma pergunta ? "

Foi Magda quem se apresentou.

"Se entendi bem, restam dois pontos a serem esclarecidos : o verdadeiro propósito dele em se denunciar através da figura de xangô e a exata interpretação do terceiro cartão. Certo?"

"Certo"

"Mas o senhor vai descobrir, não vai, chefe?"

"Vou. Não nessa visita de amanhã. Mas muito em breve. E, então, ele vai me contar... tudo. Sobre os crimes, os cartões, tudo, enfim. Nos mínimos detalhes. Porque, consciente ou inconscientemente, é o que ele deseja. Mais que isso, é o que ele tem absoluta necessidade de fazer."

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