A NOITE DOS ORIXÁS
PARTE II
1998/1999
Capítulo 11
1998
28 de dezembro, 09:40
Do Santos Dumont, Jerônimo seguiu, de taxi, direto para São Gonçalo. O armeiro lhe garantira que a encomenda estaria pronta hoje.
Logo que leu, no matutino do dia 17, a notícia do evento da CNI, começara a tomar as providências indispensáveis ao êxito da operação justiça, expressão que mentalmente usava, por lhe parecer perfeita, sempre que pensava na missão que, há 28 anos, se impusera cumprir. A primeira consistia, obviamente, em adquirir uma arma adequada. No dia 18, sob a justificativa de presentear um amigo colecionador, indagou de um dos seguranças do Instituto Oswaldo Cruz (seu local de trabalho), que sabia ser também policial militar, se conhecia um armeiro de confiança. Deu sorte. Ele indicou um tal de "Polaco" que atendia a esse tipo de encomenda, em uma oficina em São Gonçalo.
Na mesma tarde, de posse do endereço, mandou-se para o lugar. Era um ferro-velho, semi-escondido no fundo de uma vila. Foi atendido por um senhor baixo e atarracado, dono de um olhar astuto e de cabelos ruivos - quem sabe não viria daí a sua alcunha?. Após uma rápida troca de cumprimentos e sabendo de quem partira a indicação, Polaco, que parecia gostar de economizar palavras, foi logo dizendo :
"Aqui não se perde tempo, moço. Vamos ao assunto. Em que posso servi-lo?"
Jerônimo também foi pronto e objetivo na resposta :
"Preciso de uma automática de nove milímetros, dois pentes de bala e do mais silencioso silenciador que o senhor puder fazer."
Polaco jogou fora o toco de cigarro que estivera dançando no canto da pouca e disse, dando a Jerônimo um olhar enviesado :
"Moço, isso não é coisa p'ra quem vai praticar tiro alvo. Isso é encomenda p'ra quem vai eliminar alguém"
"Digamos quero acabar com um certo desafeto que mora lá nos confins de Mato Grosso. Isso incomoda a sua consciência?"
O armeiro coçou cabeça e dessa vez, encarando Jerônimo de frente, retrucou :
"Por dez mil reais, o moço vai ter tudo que pediu e da melhor qualidade. E eu vou guardar a tal da consciência no fundo do baú. Cinco mil agora e cinco na entrega. Dinheiro vivo, não serve cheque nem cartão."
"Feito, desde que a entrega não demore. Estou pensando em ir para Mato Grosso antes do ano-novo."
Polaco deu uma espiada numa folhinha pendurada atrás a porta e disse :
"Já que o doutor não regateou o preço e tem pressa, vou aprontar tudo para o dia 28. Que tal?"
"Ótimo"
Jerônimo, que tinha vindo prevenido, abriu a carteira, contou cinquenta notas de 100 reais e passou-as ao armeiro. Ele nem se deu ao trabalho de contar. Certamente o faria depois que o freguês fosse embora.
Capítulo 12
28 de dezembro, 10:55
Polaco cumpriu a palavra. E, desta vez, Jerônimo foi recebido com um largo sorriso. Sentaram-se, lado a lado, num banco de ferro e, paciente e didaticamente, ainda que economizando palavras, o armeiro ensinou o geneticista como usar a pistola e o silenciador. E só se deu por satisfeito quando, após Jerônimo ter realizado diversas simulações de disparo e colocado e retirado o silenciador inúmeras vezes, convenceu-se que o cliente e aluno estava apto a manejar a Smith&Wessen com absoluta precisão. Surpreso mas satisfeito, Jerônimo acrescentou, ao pagar o restante do combinado, um bônus de mil reais, O que lhe valeu um largo sorriso e um instante de rara prolixidade da parte do armeiro : votos de pleno sucesso na eliminação do "miserável" mato-grossense.
E só no taxi, no caminho de volta, Jerônimo se deu conta de que, sequer uma única vez, Polaco havia perguntado como ele se chamava. Talvez, para o armeiro, todo cliente era "moço" e , quando o negócio era fechado e o dinheiro aparecia, o "moço" era promovido a "doutor."
O próximo passo consistia em conseguir um convite para a inauguração e o coquetel. Estando lá, poderia acompanhar o movimento de cada um deles, afim de observar o momento em subiriam para os apartamentos, onde seriam liquidados.
Capítulo 13
29 de dezembro, 8:15
E conseguir o convite acabou sendo mais fácil do que poderia supor. Naquela manhã, tão logo chegou ao Instituto, Jerônimo dirigiu-se ao gabinete do presidente, um competente microbiologista, mais ou menos da sua idade, que vivia se maldizendo por ter trocado - por pouco tempo, fazia questão de frisar - vírus e bactérias pelas montanhas de papel que se acumulavam sobre sua mesa.
"Bom dia, Rogério" - foi dizendo, ao entrar no aposento.
De traz da mesa, o presidente ergueu os olhos e fitando o visitante, por cima dos óculos em semi-lua, respondeu, sorrindo :
"Bom dia. A que devo a honra da visita do nosso famoso geneticista ?"
Meses antes, Jerônimo havia recebido uma citação honrosa de parte do Genome Sequencing Center, da Universidade de Washington, por um artigo onde expunha uma nova técnica, por ele desenvolvida, para sequenciamento do DNA, a qual possibilitava duplicar o número de clonagens obtidas num determinado tempo. Como o fato se espalhou pela comunidade científica do mundo inteiro, o chefe do departamento de genética do Instituto Oswaldo Cruz e responsável pelas pesquisas do Projeto Genoma nessa instituição, viu-se alçado à celebridade, da noite para o dia. Jerônimo reagiu ao acontecimento com naturalidade, sem que a sua simplicidade fosse afetada pelas luzes do sucesso. Na verdade, conquanto fosse um apaixonado pela biologia, em geral e pela genética, em particular, todos os anos de envolvimento com a ciência constituíam, para ele, uma espécie de estágio temporário, enquanto aguardava o momento de cumprir o que considerava, obsessivamente, admitia, a principal missão da sua vida : vingar a morte do pai.
Sintonizado com o tom brincalhão do seu superior, respondeu :
"O famoso sentir-se-ia ainda mais famoso se conseguisse obter um convite, para um encontro que vai acontecer logo nos primeiros dias de janeiro, promovido pela Confederação Nacional da Indústria."
"Não tenho a menor idéia do que você está falando. Quer me dizer do que se trata ?"
Jerônimo explicou do que se tratava, ressaltando que seu interesse se prendia às palestras que seriam proferidas pelos cobras da informática. Depois, acrescentou :
"Eles devem ter reservado alguns convites para o Instituto."
"É possível. E você quer um deles."
"Exato."
Rogério tomou do interfone e determinou que sua secretária ligasse para a CNI, pedindo as devidas informações". Ficaram trocando trivialidades a respeito dos projetos do Instituto até que, ao cabo de alguns minutos, a secretária ligou de volta. Após ouvir o que ela tinha a informar, Rogério virou-se para Jerônimo e disse :
"Os sacanas reservaram apenas um convite para nós. Normalmente, nos faríamos representar pela chefe do departamento de informática. Mas você está com sorte. Maria Eugênia saiu de férias, dizendo que ia passar o reveillon em Nova Iorque. Vou mandar preparar um ofício ao CNI, solicitando que o convite nos seja enviado em seu nome. Satisfeito ?"
O geneticista sorriu, enquanto pensava - a sorte, sempre a sorte. Que ela continuasse...
"Totalmente. E muito obrigado"
"Não há de que. Só não entendo é porque vocês se interessam tanto por computadores. Eu não vejo nenhuma graça neles, embora reconheça sua importância. Assim que o convite chegar, mando lhe entregar."
"Ótimo. Então, mais uma vez obrigado e, se não nos falarmos até lá, feliz ano novo."
"P'ra você também e boa sorte no tal encontro."
Na tarde do dia 30, Jerônimo estava de posse do convite que lhe permitia participar, no domingo, da sessão de inauguração, do coquetel e das palestras. E não pode deixar de pensar que, caso seu plano corresse a contento, o evento possivelmente seria interrompido, por razões óbvias, ainda na manhã de segunda-feira.
* *
Do gabinete do presidente, Jerônimo foi direto para a biblioteca do Instituto. Agora, que o convite, que lhe permitiria chegar mais facilmente as suas futuras vítimas, já estava, praticamente, em suas mãos, cabia ultimar outras providências. Passeou entre as estantes, localizou a seção de Farmacologia e Toxicologia, apanhou um grosso volume, denominado TOXICOLOGY. Em seguida, procurou uma mesa afastada, num canto do aposento, sentou-se e pôs-se a consultar o compêndio. Leu atentamente, durante vários minutos, fazendo anotações numa folha de papel. Depois levantou-se e recolocou o livro no seu devido lugar.
Dirigiu-se, então, à estante onde ficavam os compêndios e atlas de anatomia. Pegou um exemplar do velho Testut, voltou para a mesma mesa e abriu o livro. Começou a leitura pela região torácica, anotando a exata posição do coração. Depois, virou as páginas do compêndio, até encontrar aquela que mostrava as regiões da cabeça e do pescoço. Após uma avaliação panorâmica, concentrou-se na área logo abaixo da protuberância óssea occipital, verificando sua relação topográfica com as estruturas do sistema nervoso central e constatou que o bulbo, uma formação vital, que abrigava os centros de controle da respiração e do coração, ficava imediatamente abaixo da referida protuberância. Assim, um projétil que entrasse exatamente por aquele ponto, causaria um dano inevitavelmente fatal, sem destruir a massa cerebral propriamente dita.
Tinha lido, não lembrava onde, ser este um dos processos que os nazistas utilizavam para eliminar prisioneiros nos campos de concentração, e a forma pela qual os comunistas chineses costumavam justiçar os traidores da República Popular e do Partido. Também, que esta técnica é conhecida como o "tiro de misericórdia" : após um condenado ter sido alvejado por um pelotão de fuzilamento, é de praxe que o oficial encarregado da execução dispare um tiro na nuca da vítima, quer ela já esteja morta ou ainda com vida.
Satisfeito que os dados, colhidos e memorizados, ajustavam-se perfeitamente aos seus planos, o geneticista recolocou o livro na estante e se retirou da biblioteca.
Capítulo 14
30 de dezembro, 20:15
Jerônimo morava só, em um pequeno mas confortável apartamento no bairro de Ipanema. Uma antiga empregada dos Albuquerque, a quem conhecia desde a adolescência, vinha, três vezes por semana, ajeitar o local e cuidar das roupas. E, também, sempre deixava prontos, na geladeira, alguns dos pratos favoritos do geneticista. Consciente de que a missão que tinha a cumprir, faria dele um criminoso, aos olhos da sociedade, não lhe parecia justo estabelecer vínculos afetivos permanentes com uma mulher, e deixa-la, depois, sofrendo as consequências dos atos dele.
No entanto, por duas vezes, chegou perto de se envolver seriamente. Quando, ainda recém formado, conheceu, na Bahia, uma jovem botânica, por quem se sentiu, logo à primeira vista, profundamente atraído. E, anos mais tarde, em 1994, quando uma bela e esfuziante jornalista, que estava tentando fazer uma matéria a respeito do projeto genoma, ia ao Instituto, quase diariamente, para conversar com ele. Mas, em ambas ocasiões, não permitiu que as coisas fossem além de uma transitória amizade colorida. Fora isso, apenas algumas investidas de caráter exclusivamente sexual, cujo duração raramente ultrapassava duas ou três "transas".
À noite, após o banho e uma leve refeição, preparada no micro ondas, Jerônimo voltou a cuidar das providências indispensáveis à operação justiça. De uma das estantes da sua biblioteca, retirou um exemplar da tese que a mãe escrevera há quase trinta anos. O assunto não se tornara defasado com o passar do tempo : há séculos, os orixás continuavam sendo os mesmos, como também continuavam iguais os símbolos e as figuras pelos quais eram identificados. Após ler e reler, diversas vezes, determinados capítulos e fazer algumas anotações, repôs o livro na estante.
Em seguida, ligou o computador, entrou na Internet, clicou no "site" da Altavista, digitou a palavra orixás e ficou "surfando" a esmo, até encontrar, no endereço http://www.df-net.co.br/antares/orixas.htm, um título que despertou sua atenção : Orixás e o Zodíaco. Abriu a página, leu e imprimiu. Muito interessante, muito apropriado. Jerônimo deu-se por satisfeito : já sabia tudo o que precisava saber sobre o assunto.
Depois, consultando as páginas amarelas, anotou alguns endereços. Assim, ficou também sabendo aonde iria adquirir as coisas de que ainda necessitava.
* *
31 de dezembro, 07:30
Na manhã seguinte, Jerônimo mandou-se cedo para o centro da cidade. As lojas, como sempre acontecia no último dia do ano, deveriam cerrar as portas em torno do meio dia. E ele tinha de ir a cinco lugares. Começou por uma drogaria, na rua da Carioca, onde adquiriu um vidro de um certo medicamento, que dispensava prescrição. De lá, foi à casa Turunas, na avenida Passos, onde comprou uma peruca e um bigode postiço. Dirigiu-se, depois, a uma loja de roupas profissionais, na Praça da República, onde fez as seguintes compras : um macacão cinza, um par de luvas de couro e uma mochila, tamanho médio, dessas que dá para levar à tiracolo.
Em seguida, foi, a pé, até a rua Miguel Couto e entrou numa casa especializada em artigos de umbanda e candomblé. Talvez por ser ainda cedo, não havia nenhum outro freguês. Foi atendido, no balcão, por uma mulata gorda, de meia idade, vestida a caráter, de "baiana", e com jeito de mãe-de-santo. Ótimo, pensou, uma conhecedora. Explicou, em detalhes, o que desejava. A mulher escutou com atenção, pediu que ele aguardasse um momento e desapareceu por traz de uma cortina. Mas não demorou muito, Quando voltou, trazia nas mãos pequenos cartões de papelão, com figuras coloridas, representando diversos orixás. Jerônimo estudou cada um deles, minuciosamente, tirou algumas dúvidas com a "baiana" e, satisfeito, pediu a ela que embrulhasse os cartões e colocasse o embrulho numa sacola. Atendido a contento, pagou, despediu-se da eficiente vendedora e foi embora.
Caminhou até a avenida Rio Branco e comprou, na livraria Leonardo da Vinci, um atlas, contendo desenhos dos signos do zodíaco.
* *
31 de dezembro, 23:56
Era quase meia-noite, quando um homem esguio entrou no Meridien e pôs-se a passear a esmo, pelo saguão de entrada do hotel. Trajando bermudas, uma camisa multi colorida e sandálias, com um colar de "havaiana" em torno do pescoço, ele parecia um turista estrangeiro, já um tanto "alegre" pela ação de um bom scotch, aguardando alguém ou, apenas, o romper de 1999, e que, exatamente por isso, naquele lugar e naquela hora, não despertava a mínima curiosidade.
Na verdade, todo mundo estava com a atenção voltada para a ruidosa barragem de fogos de artifício, que começava a irromper, colorindo de beleza o céu noturno de Copacabana. Assim, ninguém notou e, se notou, não se importou, quando ele foi até os toaletes, voltou, dirigiu-se à área de serviço, retornou, tomou um dos elevadores, circulou por vários andares, regressou ao saguão e, finalmente, deixou o hotel; uma figura a mais, no meio da multidão. Jerônimo acabara de vistoriar o roteiro que iria percorrer na terceira noite do novo ano. Ele dispunha, agora, de todos os equipamentos e de todas as informações que precisava. Só restava definir a estratégia a ser seguida, ou seja, a montagem seqüencial das etapas da operação justiça. E depois rever tudo, quantas vezes fossem necessárias, até que cada detalhe estivesse indelevelmente gravado em sua mente.
* * *
Capítulo 15
02 de janeiro, 14:30
Logo após o almoço, Jerônimo deixou o Instituto e foi para casa. Após um longo banho, semi morno, para relaxar, foi para seu pequeno gabinete, ao lado da sala de estar, desligou o telefone, colocou, no aparelho de som, alguns CDs dos seus clássicos prediletos e instalou-se em sua poltrona favorita. Já sabia tudo que precisava saber. para cumprir a missão que, há 28 anos, o acaso e a traição de três canalhas, lhe haviam imposto. O acaso, - mais uma vez o acaso - aliado a sua obsessiva persistência, proporcionaram uma oportunidade impar, para executar os responsáveis pela morte de seu pai. Se falhasse, dificilmente uma outra se apresentaria. Logo, a estratégia teria de ser minuciosamente montada, revista e repassada, para que nenhum detalhe, por menor que fosse, ficasse ignorado.
Os neurônios de Jerônimo, começaram a trabalhar : na noite do dia seguinte, 3 de janeiro, chegaria ao Meridien, antes do inicio da sessão inaugural, a fim de se certificar que os três miseráveis haviam, de fato, comparecido ao evento. Depois, durante o coquetel, circularia entre os participantes, para acompanhar os movimentos dos seus três alvos. e observar a hora em que cada um subiria para seus quartos. Na ocasião, estaria levando a mochila à tiracolo, o que teria desejado evitar, mas que era um adendo indispensável, dentro do plano que tinha traçado. Nela, estariam guardadas as coisas de que iria necessitar e que, por motivos óbvios, não poderia carregar à vista dos outros : o uniforme, as luvas, a peruca, o bigode postiço e a pistola com o silenciador.
De certo, uma mochila á tiracolo não era um complemento de vestuário muito apropriado para coquetéis e não deixaria de ser notada, mas Jerônimo contava que, no meio de 200 pessoas, entretidas com drinques e salgadinhos, o fato não despertaria maiores atenções, ou suspeitas. Quando muito, alguém pensaria "que cara exótico", e só.
Depois que os miseráveis se retirassem do salão de recepções, tentaria obter, através de um telefonema para a recepção, a confirmação de que cada um deles estaria, como se era de esperar, a sós nos aposentos. Resolvido isto, iria até um dos toaletes do hotel. Trancado num dos cubículos sanitários, faria as devidas transformações na sua aparência : vestir o uniforme, calçar as luvas e colocar a peruca e o bigode postiço, com o auxílio de um espelhinho. Depois, guardaria o terno na mochila, deixando a arma por cima, bem à mão. Em seguida, dirigir-se-ia ao elevador de serviço, já devidamente disfarçado.
Agora, a mochila passaria a ser uma espécie de 'toque adicional', no disfarce de ajustador de canais de TV, já que poderia ser tida como o local onde estariam as ferramentas a serem, eventualmente, utilizadas. Isto porque, dentre as alternativas que havia considerado, escolhera aquela que, até pela sua simplicidade, melhor garantiria seu acesso aos apartamentos : fazer-se passar por funcionário do setor de manutenção do hotel. Sim, seria este o pretexto : - "Desculpe o adiantado da hora, senhor, é que o chefe mandou que eu viesse ajustar o sistema de cabo da sua TV. Mas é coisa rápida, não leva mais que quatro a cinco minutos." Com sorte, daria certo. E teria de contar com ela, nesta e nas demais etapas da operação justiça.
Aliás, a sorte desempenha, sempre, um papel decisivo em tudo que se faz. É ela que define para que lado vai pender a balança, em cada um dos sucessivos acasos que traçam o roteiro da vida. Jerônimo limpou a mente das abstrações e retomou a sequência dos planos em elaboração. Uma vez dentro ao apartamento, não perderia tempo: enquanto abria mochila, chamaria o canalha pelo nome. Com absoluta certeza, o miserável voltaria os olhos para ele. É assim que as pessoas reagem em tal situação. E se depararia com o cano da arma apontado para o peito. E mais uma reação previsível : ou ficaria paralisado pela surpresa ou pelo medo, ou diria algo como "mas o que é isso?" ou "que loucura é essa? ". E escutaria a frase "uma lembrança de Carlos Albuquerque!", uma fração de segundo antes do tiro ser disparado. Sim, isso era imperativo : o nome do seu pai tinha de ser a última coisa que o traidor iria ouvir na vida! Atingida em cheio, a vítima cairia, no chão, sobre a cama; em qualquer lugar, não importava.
Então, ele, Jerônimo, apanharia uma colcha e a usaria, como uma espécie de avental, para que o macacão não se manchasse, caso algum sangue espirrasse pela ferida. Pegaria o corpo, já morto ou ainda vivo, e o colocaria sobre o leito, de bruços, com a cabeça voltada para os pés da cama. Em seguida, o tiro na nuca, logo abaixo da protuberância óssea, para estraçalhar o bulbo. Depois, colocaria, sobre o lençol, três cartões, com figuras religiosas e esotéricas, dispostos numa ordem pré-estabelecida. Era a sua marca, a marca do justiceiro. Um ritual simbólico, importante componente do seu plano. A seguir, pegaria o telefone e discaria para o serviço de atendimento aos quartos e solicitaria que o desjejum fosse servido, precisamente, às 7:00 horas. Logo após, com a arma já guardada na mochila, recolheria as cápsulas deflagradas e deixaria o apartamento, à caminho do encontro com a próxima vítima.
Liquidados os três patifes, voltaria ao sanitário, retiraria o macacão, as luvas e os disfarces, e poria tudo na mochila, junto com a pistola. Colocaria o terno, deixaria o toalete e iria embora, saindo do hotel, serenamente, pela porta principal. Por último, já de volta ao carro, acrescentaria algumas pedras à mochila, para aumentar o peso e, num local já escolhido, ela seria atirada na água, sumindo, para sempre ou por algum tempo.
Depois, ele voltaria às suas atividades habituais, para aguardar o desenrolar dos acontecimentos. Não tinha dúvida que, mais dia menos dia, a polícia estabeleceria a antiga conexão entre as vítimas e seu pai e chegariam até ele. Mas os planos, para fazer frente a essa nova situação, já estavam também delineados. Era essa a sequência de eventos a ser seguida. Salvo interferência do imprevisível, tudo daria certo
* * *
Capítulo 16
03 de janeiro, 19:50
Pouco antes das vinte horas, Jerônimo entrou no salão Elysée, no segundo andar do Hotel Meridien, onde, dentro de poucos minutos iria começar a sessão inaugural do Congresso promovido pela CNI. O local estava repleto e os presentes conversavam animadamente. Ninguém prestou atenção enquanto ele se deslocava por uma das alas, olhando de um lado para outro, como em busca de um lugar para sentar. De repente, encontrou o que procurava : os três canalhas, Alcino, Gilberto e Paulo César, estavam sentados juntos, na segunda fila, dialogando em voz baixa. Jerônimo retrocedeu e foi sentar-se na última fileira, próximo a porta. E alíi ficou, repassando, mentalmente, cada etapa do plano, ignorando as saudações e os discursos.
Em torno das 21:00 horas, a sessão foi dada por encerrada e os presentes começaram a deixar o recinto, dirigindo-se ao salão Saint Germaine, onde teria lugar o coquetel. Lá, Jerônimo pôs-se a se deslocar, à esmo. Ninguém, ou quase ninguém, lhe prestou atenção. Uma "perua" de meia idade, toda produzida, interrompeu o que estava dizendo e comentou com a amiga, não menos "perua", não menos produzida e de igual idade : "Olha aquele homem ali... de mochila, num ambiente deste." A outra espiou na direção indicada e respondeu : "Vai ver é algum fotógrafo. A mochila deve ser para guardar a máquina." E voltaram a futricar.
O cientista continuou andando, de um lado para o outro, servindo-se, ora dos salgadinho, ora dos refrigerantes, que os garções, circulando entre os convivas, ofereciam a todo instante. Embora assumisse um ar de leveza e indiferença, ele se mantinha atento, acompanhando os movimentos de suas futuras vítimas. Estas estavam, agora, separadas, em grupos diferentes, conversando, comendo e bebendo. Tudo muito natural. Lá pelas 22:30, percebendo que as pessoas começavam a debandar, Jerônimo postou-se junto à porta de saída e esperou.
Gilberto foi o primeiro a se retirar, balançando seus largos quadris. Logo depois, passou Alcino, empertigado, despedindo-se de um senhor alto e careca, com jeito e sotaque de estrangeiro, Paulo César saiu por último, com ar de bêbado, andando em zigue-zague.
Jerônimo aguardou uns cinco minutos, desceu dois lances de escada e foi até um dos telefones situados no saguão de entrada do hotel. Discou um número :
"Recepção, boa noite. Em que posso servi-lo?"
"Boa noite. Eu sou do departamento de relações públicas da Confederação da Indústria, encarregado de acompanhar o evento que a CNI está promovendo aí no Meridien e estou necessitando de algumas informações que, possivelmente, o senhor poderá me fornecer."
"Às ordens, o que deseja?"
"Estamos organizando a lista de participantes do jantar de confraternização na terça feira. Acontece que alguém cometeu um lapso e ficaram faltando alguns dados, em relação a quatro deles. Mais precisamente, em que apartamentos estão hospedados e quantas pessoas os acompanham.
"Quem são?"
"Alcino Moroni, Aluízio Meirelles, Gilberto Gomes Netto e Paulo Cesar Nogueira."
"OK, deixa eu dar uma olhada na lista de hóspedes no computador."
Em menos de dois minutos, veio a resposta:
"Quer anotar?"
"Papel e caneta na mão. Pode falar."
"Os apartamentos em que estão hospedados : Sr. Moroni, 2104. Sr. Meirelles, 2310. Sr. Gomes Netto, 1005. E Sr. Nogueira, 1302. Apenas o senhor Aluízio Meirelles está acompanhado da esposa e da filha. Os demais constam como tendo vindo sós. Mais alguma coisa?"
"Não, isso basta. Agora já dá para fechar a lista do jantar. Muito obrigado pela gentileza e boa noite."
"Boa noite e disponha sempre."
Desligaram. Jerônimo dirigiu-se, então, ao toalete masculino, localizado, por traz de uma pilastra, à direta do saguão. Deu sorte : estava vazio. Entrou em um dos cubículos, trancou a porta e começou a se trocar. Quando terminou, parecia outra pessoa : trajando macacão e luvas de couro, de bigode postiço e peruca, ajustados com o auxílio de um espelhinho, lembrava muito pouco o geneticista de Manguinhos. O terno estava, agora, dentro da mochila e, por cima dele, bem à mão, a pistola com o silenciador. Saiu do cubículo e mirou-se no espelho que fica acima da bancada de mármore. Satisfeito com o disfarce, pôs a mochila à tiracolo, deixou o toalete e se encaminhou para área de serviço, situada atrás do saguão. Chegando lá, olhou ao derredor. A sorte continuava do seu lado : ninguém à vista. O elevador estava parado, vazio, como que a sua espera. Entrou nele e, sem qualquer hesitação, apertou o botão para o 10o andar. A porta se fechou e o elevador começou a subir...
* * *
Capítulo 17
04 de janeiro, 00:42
Jerônimo deixou o apartamento 2104, bateu a porta e... deu de cara com o primeiro imprevisto : à menos de dois metros de distância, uma mocinha magra, vestida de camareira, vinha vindo pelo corredor, em sua direção. Por um segundo, quando se cruzaram, os olhares se encontraram. Depois, sem que nenhum dos dois se voltasse, prosseguiram, cada um para seu lado. A camareira entrou no recinto que servia de depósito para as toalhas e roupas de cama dos apartamentos. O homem de macacão foi para o outro extremo do corredor, onde ficava o elevador de serviço. Enquanto descia para o térreo, Jerônimo refletia : tudo acontecera exatamente como planejado, até mesmo a reação de cada um dos canalhas tinha sido aquela que ele havia previsto. Tudo rigorosamente perfeito, exceto o imprevisto encontro com a camareira. Dificilmente ela teria deixado de perceber que ele saíra do apartamento 2104. E, se, na hora, não dera importância ao fato, certamente o faria, quando viesse a tomar conhecimento do que tinha acontecido lá. E daí ? Quem iria associar o homem de macacão com o filho de Carlos Albuquerque?
Ninguém, até que a polícia descobrisse, lá no passado, a extinta COMPTEC. Mas isso sempre estivera dentro das suas previsões e nada havia que pudesse fazer a respeito. Era algo que estava por conta da perícia policial ou...do acaso.
Momentos depois, Jerônimo estava de volta ao toalete. Trancou-se em um dos cubículos e se despiu. Colocou o macacão, as luvas, os disfarces e arma na mochila e vestiu o terno. Minutos depois, atravessou o saguão do hotel e, sob o olhar indiferente de um porteiro sonolento, deixou o hotel pela saída principal.
* *
04 janeiro, 01:10
Passavam dez minutos de uma da madrugada, quando Jerônimo chegou ao carro, que havia estacionado à três quadras do Meridien. Não se via vivalma nas proximidades Ele abriu a mala do veículo, apanhou duas pedras que, há dias, tinha lá deixado guardadas e colocou-as dentro da mochila. Avaliou o peso : devia estar em torno dos 10 quilos. Ótimo, pensou, vai afundar fácil. Em seguida, entrou no automóvel, depositou a mochila no banco ao lado, ligou o motor e deu a partida. Meia hora depois, passava por uma ponte, sobre a lagoa de Marapendí. Encostou o carro junto á mureta e olhou ao derredor. Ninguém á vista. Apenas um veículo, se aproximando. Aguardou que passasse e desaparecesse além da curva. Aí, apanhou a mochila e atirou-a nas águas pardacentas. Ela afundou imediatamente. Jerônimo pôs o pé no acelerador e o carro partiu.
Vinte minutos mais tarde, o auto parou, de frente para a garagem do prédio em que morava. O cientista acionou o controle remoto e a porta se abriu. Logo, carro e motorista, sem serem vistos, desapareceram no interior do edifício. Estava encerrada, com pleno êxito, a operação justiça.
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