A NOITE DOS ORIXÁS

Oliver Marti

PARTE I

1998/1971/1998

Capítulo 1

1998 27 de dezembro, 18:30

O homem de compleição média, tendendo um pouco para esguio, parou em um dos cantos da Praça das Bandeiras, diante da Catedral Metropolitana. Os olhos castanho-esverdeados apreciavam as formas arquitetônicas da igreja, enfeitada, de cada lado, por altas árvores, cujas folhas ainda conservavam, em pleno verão, as bonitas cores que haviam adquirido na primavera. Ele voara direto do Rio de Janeiro para Ribeirão Preto e, com a tarde quase terminando, chegara ao seu destino.

Ajeitou a pequena maleta, que segurava com a mão esquerda, arrumou o paletó com a direita e caminhou para a entrada da Catedral. Apertou a campainha. Passos leves soaram do lado de dentro, a porta se abriu e um jovem, em traje de seminarista, perguntou o que ele desejava.

"Por favor, desejaria falar com monsenhor Jorge Antônio."

"A quem devo anunciar?"

"Jerônimo Albuquerque" e diante do olhar surpreso do outro, acrescentou : "Somos irmãos".

Foi prontamente conduzido até uma imensa sala, situada à direita da nave principal da igreja. Deve ser parte da casa paroquial, pensou. O seminarista apontou-lhe uma cadeira e disse, respeitosamente

"Queira aguardar um momento, por obséquio. Vou avisar o monsenhor."

Minutos depois, uma outra porta se abriu e, por ela, entrou um homem, extremamente parecido com Jerônimo, conquanto um tanto mais corpulento. Trajava roupas clericais leves : calça preta, camisa branca de colarinho alto e um par de sandálias, estilo franciscano. Sorridentes, os irmãos se cumprimentaram num longo abraço. Depois, se postaram, frente a frente, na mútua contemplação de duas pessoas que, por não se verem há algum tempo, examinam o que passagem dos anos marcou em cada um.

Jerônimo tinha a suave fisionomia de quem se sente em paz com o mundo e consigo mesmo. Antônio julgou perceber, na testa franzida, nos traços profundos do rosto queimado e no olhar faiscante de Jerônimo, um misto de determinação e ansiedade; a imagem de quem está vivendo, não o hoje, mas a expectativa do amanhã.

O padre falou primeiro, à moda gaúcha, adquirida durante os nove anos passados num seminário de Porto Alegre :

" Uma visita natalina atrazada. Mas que surpreza! Como estás? Não sabes o quanto me alegra ver-te.?"

"Não é propriamente uma visita natalina, mas, ainda assim, com o devido atraso, um feliz natal. Sim, estou bem e, pela aparência, você parece ainda melhor".

O outro sorriu e disse, apontando para duas poltronas. "Feliz Natal, venha, vamos nos sentar. Assim, conversaremos melhor. Alem do que, deves estar cansado pela viagem".

Sentaram-se, De frente, um para o outro. Antônio retomou o diálogo :

"A mãe e Sebastian, com estão?"

"Mamãe acabou se de aposentar na UFRJ, alugou a casa da Gávea e está morando em Angra, com a tia Catarina. Mas não sossega. Continua às voltas com os cultos afro-brasileiros. Está constantemente viajando para Salvador. Fica na casa de uma amiga que, segundo a mãe, é professora de sociologia na Universidade da Bahia."

Fez uma leve pausa e concluiu, em tom de brincadeira :

"Para mím, ela é alguma mãe-de-santo de cabeça raspada no candomblé."

Antônio voltou a sorrir :

"Olha quem fala. Se não me falha a memória, desde pequeno andavas também enfurnado no estudo dessas tolices"

"Nem tanto. Confesso que sempre achei interessante o culto dos orixás. Porem não o tomo como religião e sim curiosas crendices. Mas que a mãe nem imagine que você as considere tolices. Ou já se esqueceu que ela é uma reconhecida autoridade no assunto ?"

O outro resolveu contemporizar :

"Estás certo. E é até bom que ela tenha com que se ocupar. Desde que, naturalmente, não esqueça os verdadeiros caminhos para o Senhor."

Jerônimo uniu as mãos num gesto de paz e disse, sorrindo :

"Não se preocupe. Mamãe é o maior exemplo leigo do sincretismo. Comparece à missa todos os domingos."

"E quanto a Sebastian?"

"Vai ótimo. É diretor de teatro e, quando nos vimos da última vez, há, vejamos, uns quatro ou cinco meses atrás, estava noivo de uma atriz, fazendo planos de casamento."

"Ainda bem que alguém vai perpetuar o sangue - correção, ia esquecendo que és um famoso geneticista - os genes dos Albuquerque. E tu, nenhum 'affair' mais sério à vista? Estás chegando aos quarenta..."

Uma fugidia sombra de tristeza percorreu rosto de Jerônimo . Ele fez um gesto negativo com a cabeça.

"Não, irmão. Um caso ligeiro aqui, outro ali, mas nada sério. Na verdade, não posso, ou melhor, não devo criar mais um elo afetivo".

Uma expressão de alarme apareceu na fisionomia de Antônio.

"És portador de alguma doença grave que ignoro?"

"Nenhuma, quanto a isso, fique tranquilo. São outras as razões".

"Queres falar delas?"

Jerônimo refletiu um pouco, antes de responder :

"Não agora. Mais tarde, com toda certeza."

O monsenhor ergueu as sobrancelhas, mas achou melhor não insistir. Conhecia o irmão. Ele diria o que pretendia, quando julgasse mais conveniente. Mudou de assunto :

"Quanto tempo pensas ficar aqui em Ribeirão ?"

"Vim apenas por uma noite. Devo regressar amanhã ao Rio"

A voz de Jerônimo ganhou um tom de maior seriedade:

"Na verdade, irmão, vim por ter algo muito importante para lhe contar. Mas vai ser uma conversa bastante longa..."

Uma certa angústia começou a tomar conta de Antônio. As palavras do irmão confirmaram o que seu instinto advertira, desde o primeiro momento. Ele não viera para uma simples visita e sim para fazer alguma revelação, que, pelo jeito, se antevia grave, muito grave. Mas fora bem treinado para enfrentar toda espécie de crises com fé, resignação e tranquilidade. E não seria agora que iria fracassar. Em segundos, a rígida disciplina religiosa sobrepôs-se à ansiedade. Quando falou, a voz saiu firme e serena, dir-se-ia, até mesmo pastoral :

"Conversaremos a noite toda, se necessário. Não imagino do que se trata, mas, seja o que for, terás meus ouvidos, minha compreensão e meu apoio. E agora, vamos" - continuou, enquanto se erguia. "Vou providenciar um quarto para ti. Banhar-te-ás, jantaremos e, depois, escutarei o que tens a revelar".

* * *

Capítulo 2

26 de dezembro, 21:00

Uma hora e meia mais tarde, os irmãos Albuquerque estavam acomodados em confortáveis poltronas de couro, na biblioteca da casa pastoral, bebericando um vinho do Porto que Antônio havia servido. Jerônimo correu os olhos ao derredor. Era um aposento imenso, as paredes altas, cobertas de livros...de certa forma lembrando aquele outro recinto onde, 28 anos antes, sua saga começara. O monsenhor fez um gesto vago e disse :

"Podemos conversar aqui com toda tranquilidade. A menos que surja alguma emergência, o que não é provável, não aparecerá ninguém para nos interromper . Queres começar?"

Jerônimo fez um gesto afirmativo com a cabeça.

"Antônio, você se recorda bem do nosso pai?"

"Claro"

"Da ocasião em que morreu?"

"Nitidamente. Há momentos que ficam para sempre guardados na memória, indelevelmente marcados pelo impacto de uma súbita emoção. Lembro bem a surpresa e a dor que senti ao saber do trágico acidente que o matou."

Jerônimo olhou fixamente para o irmão e falou, baixando a voz :

"Não foi acidente, Antônio. Papai se matou"

O outro sacudiu a cabeça.

"Acho que não. É verdade que eu era na época muito pequeno para compreender e julgar os fatos. Tinha o que, oito anos? Mas, certa vez, bem mais tarde, a mãe me contou toda a história. Houve um inquérito na época. A companhia de seguros procurou levantar provas a favor da hipótese de suicídio.. Eles sempre fazem isso, para tentar evitar o pagamento do prêmio. Mas um cunhado de mamãe, que era promotor federal, interveio. E o exame pericial acabou concluindo que a desastre foi mesmo acidental. Tanto que pagaram e, com o dinheiro obtido, mamãe resgatou a hipoteca de nossa casa. Não foi assim?"

O outro respirou fundo. A força do olhar se intensificou. Porém a voz continuou no mesmo tom :

"Mais ou menos. Certos fatos ocorreram no dia em que papai morreu, Fatos, a respeito dos quais, ninguém, pelo menos na família, jamais tomou conhecimento."

"Mas que você conhece"

"Exatamente. Silenciei por todos esses anos. Agora, contudo, chegou o momento de revelá-los, mas apenas a você. Aconteça o que acontecer, a verdade, sobre o que ocorreu com nosso pai, não deve permanecer ignorada para sempre. Alguém tem de tomar conhecimento dela, porém é imprescindível que ela continue guardada em segredo...até que tudo tenha terminado"

As palavras de Jerônimo superaram o controle eclesiástico. O coração do padre começou a bater forte. A ansiedade estava de volta.

"Tuas palavras me confundem e me assustam. Contas que o pai se suicidou; depois das a entender que algo, de certo muito sério, ainda está por acontecer. Levantas uma série de indagações e, ao mesmo tempo, insinuas coisas terríveis. Se existe mesmo um mistério por traz da morte do pai, porque somente tu ficaste sabendo ? E que coisa é essa que está por vir? Minha mente fervilha com os pensamentos que me ocorrem e minha alma se entristece .Quando dizes que, alem de ti, alguém, no caso eu, deve se tornar conhecedor desta misteriosa verdade, mas que ela tem de ser mantida em segredo até que tudo, seja o que for, esteja acabado, falas como alguém que em breve irá morrer, mas que tem, antes, uma terrível missão para cumprir"

Jerônimo contemplou o irmão com renovada admiração.

"Sempre soube que você era muito inteligente, mas a precisa interpretação a que chegou, a partir das minhas palavras, revela uma excepcional capacidade dedutiva."

"Queres então dizer que estou certo. Prevês tua morte depois de praticares algum ato, que só posso imaginar como terrível."

Apesar do forte conteúdo emotivo do diálogo, a voz do geneticista continuou tranquila :

"É mais ou menos isso. Sim, concluída a missão que há anos me propus executar e, espero, nada me impeça de levar a cabo, há uma grande chance de que venha mesmo a morrer. Mas isso pouco importa. Estou perfeitamente preparado para encarar a morte. Quanto a missão em si, embora possa parecer terrível para outros, inclusive para você, para mim ela representa um acerto de contas, contraído há 28 anos."

"Tenho a impressão que estás falando de vingança".

" Não, irmão, estou falando de justiça."

O padre suspirou fundo. Quando falou, seu rosto mostrava uma expressão em que não se poderia distinguir entre derrota ou resignação.

"Estou preparado para te escutar. Vamos, conta-me tudo"

Foi a vez de Jerônimo respirar fundo. Acomodou-se melhor na cadeira e começou :

"No dia da tragédia, você, Sebastian e mamãe estavam em Angra. Eu e o pai tínhamos ficado no Rio. A empregada estava de folga. Não havia mais ninguém na casa, só nos dois. Pois bem, o que aconteceu foi o seguinte .... "

* * *

Capítulo 3

1971 24 de janeiro, 09:55

A bonita manhã de um ensolarado domingo de janeiro já ia avançada. Uma brisa agradável entrava pela janela do quarto, no segundo andar do enorme palacete - uma quase mansão, numa aprazível rua arborizada do alto Leblon. O garoto lançou um olhar para os livros e cadernos espalhados sobre a cama e suspirou fundo. Não sentia a mínima vontade de mergulhar nas matérias que teria de estudar para enfrentar o exame de "segunda época" dentro de duas semanas. Passara todo o ano letivo, com a mente vagando, indiferente às palavras dos professores. Mas seu pensamento nunca estivera longe.

Na realidade, bastante perto, naquela mesma sala de aula... a todo instante voltado para um lindo rostinho, enfeitado por cabelos louros, presos em "rabo de cavalo". O rostinho de Maria Alice, uma coleguinha de dez anos, cuja carteira ficava duas fileiras adiante da sua. O que explicava porque, vez por outra, ele esticava o pescoço e se contorcia, na ânsia de ver melhor a face da sua deusa. A qual se mantinha indiferente aos olhares apaixonados e aos não menos apaixonados bilhetinhos que lhe conseguia passar, com a conivência de um colega, ao preço de dez centavos por papelzinho transferido.

E o máximo que obtivera, em oito meses de insistente "paixonite", foi levá-la a uma lanchonete próxima à escola. E apenas uma vez. A deusa nada disse e nada ouviu. Liquidou rapidamente o hamburgo, deu um "tchauzinho" e se mandou. A frustração aumentou ainda mais a "paixonite". Alicinha continuou a mesma e passou de ano. O apaixonado continuou o mesmo e foi reprovado.

Ele se chamava Jerônimo Charon de Albuquerque e havia completado onze anos na semana anterior. Como seus dois irmãos, Jorge Sebastian e Jorge Antônio, respectivamente, dois e três anos mais novos, era esguio, de pele muito clara e olhos castanho-esverdeados, herança da genitora.

O pai, de apenas 32 anos, tinha compleição robusta. ar circunspecto e feições atraentes; os olhos negros sugerindo uma mistura de genes árabes e latinos, comum entre hispânicos e lusitanos. Carlos Albuquerque, diplomado em ciências contábeis, era um dos quatro sócios da COMPTEC Ltda, uma firma de importação e distribuição de componentes de computadores, na qual ele detinha o cargo de diretor-financeiro. A mãe, "né" Cristina Charon, filha de franceses, olhos verdes, bonita nos seus trinta e um anos, era professora adjunta de Sociologia da UFRJ, especializada em cultura afro-brasileira. Recentemente, havia se celebrizado, nos meios acadêmicos, ao apresentar uma provocante tese, intitulada "ORIXÁS - LENDAS E RITUAIS". Daí o nome dos filhos. Jerônimo, Jorge Sebastian e Jorge Antônio, correspondem, respectivamente, segundo o sincretismo afro-brasileiro, aos nomes de três poderosos orixás - Xangô, Oxossi e Ogum.

Jerônimo compartilhava de alguns dos interesses intelectuais da socióloga, inclusive do seu fascínio pela mitologia africana. Havia lido alguns dos muitos livros que ela possuía sobre o assunto e sabia alguma coisa a respeito dos orixás. O que seria sensivelmente aprimorado, quando, quinze anos mais tarde, e já formado em genética e biologia, passaria alguns meses na Bahia, terra altamente propícia ao aprendizado do candomblé.

Naquela manhã, estavam sós na casa, Jerônimo e o pai. A empregada folgara e a mãe e os irmãos tinham ido passar o fim de semana em Angra dos Reis, na casa de uma irmã da socióloga. O garoto tivera de ficar no Rio a fim de estudar para os exames. As razões da permanência do pai eram outras. Passeando pelo pequeno jardim da casa, a passos lentos, de um lado para outro, Carlos Albuquerque repassava, mentalmente, as causas de sua preocupações :

A COMPTEC fora criada há cinco anos. Uma sociedade limitada, com quatro sócios, cada um detendo 25% das ações da empresa. Na época, quando nem sequer tinham entrado na faixa dos trinta, tornaram-se próximos, não exatamente por amizade, mas motivados por um interesse comum : computadores. A informática começava a se ensaiar no Brasil e investir nessa área se afigurava um negócio bastante promissor. Haviam se conhecido durante um curso promovido pela Associação das Industrias do Rio de Janeiro. No seu decorrer, foram trocando idéias e, no final, já haviam decidido criar uma empresa, Criaram, com o nome de COMPTEC. Modesta, de início, deslanchou, ao cabo de dois anos, passando a se expandir, consideravelmente. Contudo, a expansão exigiu uma substancial injeção de dinheiro. Mas, de uma ou de outra forma, cada sócio acabou conseguindo o montante necessário para a integração do indispensável capital. E a COMPTEC, em pouco tempo, tornou-se a terceira maior empresa importadora e distribuidora de componentes de computadores da América Latina.

O relacionamento entre Carlos e outros os sócios ficou sempre limitado à esfera profissional e a inevitáveis e ocasionais encontros sociais. Nunca se sentiu, de fato, amigo de nenhum deles, nem achava que eles o considerassem como tal. Respeitavam-se mutualmente e trabalhavam em harmonia, salvo pequenas e compreensíveis divergências de opinião, em relação a este ou aquele rumo que se deveria imprimir aos negócios. Mas sempre acabavam se entendendo. Por outro lado, Carlos confiava na honestidade dos sócios, já que, no decorrer daqueles cinco anos, nunca tivera qualquer motivo para pensar de forma diferente. E, se nunca se tornaram amigos, talvez fosse por serem tão diferentes. Competente no trabalho, bem casado, dedicado à esposa e aos filhos, sem inclinação para aventuras extra-conjugais, torcedor comedido do Botafogo, amante do tenis e de uma boa partida de xadrês, Carlos era o protótipo do cidadão exemplar.

O gorducho Gilberto Gomes Netto, de trinta anos e fala macia, era tido como um astucioso economista e grande conhecedor dos emaranhados das finanças internacionais. Diziam, as boas e as más línguas, ter ele menos preferência por mulheres do que pelos adolescentes masculinos com quem, frequentemente, desfilava, nos fins-de-semana, pelas avenidas litorâneas da cidade, em seu enorme carro importado.

Paulo Cesar Nogueira, formado em comunicação e com vários cursos de especialização em informática, era o relações públicas do grupo, mas, pela fama adquirida, de incurável mulherengo, tornara-se conhecido como o "pubic relations". Aos trinta e um anos, já duas vezes casado e divorciado, vivia às voltas com o pagamento de pensões às "ex" e a três herdeiros concebidos no decurso das fracassadas experiências matrimoniais. Seu "hobby" era a companhia de mulheres bonitas, num constante revezamento de alta rotatividade. Ocasionalmente, ameaçava uma recaída e anunciava um novo casamento. Mas, para alívio das "ex", que o mantinham sob distante, mas constante vigilância, a recaída durava pouco.

Alcino Moroni, o "senior" entre os sócios, com apenas trinta e quatro anos, descendia de italianos. Era por quem Carlos nutria a menor simpatia. Talvez por se sentir pouco confortável, diante do olhar penetrante, mal disfarçado pelas grossas lentes dos óculos de aro de tartaruga. Nada parecia escapar àqueles olhos de ave de rapina. Formado em administração de empresas, fazia funcionar, com precisão, toda a máquina burocrática, conduzindo, com mão de ferro, as atividades dos funcionários da matriz carioca e da recém instituída filial paulista, sediada na cidade de Campinas.

Os negócios da COPMTEC tinham ido bem até, mais ou menos dez meses atrás. A partir daí, em decorrência da política de reserva de mercado, instituída pelo governo brasileiro na área de informática, sobretaxando a importação de "hards" e "softs", sob a justificativa de proteger "a emergente indústria nacional de computadores", as finanças da empresa começaram a declinar. Em setembro do ano anterior, constatado que o declínio se acentuava, Gilberto propôs ao grupo uma "jogada" financeira insólita, mas que, a seu ver, poderia compensar as perdas de capital que vinham sofrendo. A proposta, ao mesmo tempo simples e audaciosa, consistia no seguinte : A COMPTEC, dispunha ainda, no país e no exterior, de uma reserva beirando dez milhões de dólares. Pois bem, conservariam dois, para cobrir os encargos e dívidas mais imediatas da empresa e aplicariam os outros oito em investimentos, ditos de risco, mas com grande probabilidade de gerar altos lucros a curto prazo. Cada sócio faria uma retirada de dois milhões do fundo que a empresa tinha em Zurique, (cuja rentabilidade, conquanto segura, era muito pequena) e, para não colocarem "todos os ovos numa mesma cesta", cada um aplicaria sua parte em um mercado de capitais diferente, escolhidos, naturalmente, dentre os que, no momento, se mostravam mais promissores e menos arriscados. Também, a fim de preservar a COMPTEC de eventuais problemas fiscais, as aplicações seriam nominais.

Carlos, avesso a investimentos de risco, mostrou-se contrário, mas foi voto vencido. Alcino e Paulo Cesar apoiaram a proposta de Gilberto. Afinal, não era este, dos quatro, o que mais entendia de finanças internacionais ? Realizadas as aplicações, cada um aguardaria o momento em que suas ações alcançassem o patamar, presumivelmente, mais alto, para então fazer a retirada. Independentemente do que cada um obtivesse, em termos de lucro ou prejuízo (esta segunda possibilidade tida, pelo menos por Gilberto, como altamente improvável), o total realizado seria retransferido para o fundo na Suiça. Dessa forma, cada um continuaria, automaticamente, dono de 25% das ações da COMPTEC.

Dias depois, após uma escolha cautelosa, oito milhões de dólares foram transferidos de Zurique para as bolsas de Seul, Jacarta, cidade do México e Santiago do Chile. Dois milhões para cada uma. Durante o sorteio para determinar em qual local cada um aplicaria, quis o acaso que coubesse a Carlos a bolsa de valores da capital chilena.

Albuquerque viajou para Santiago, contratou os serviços de uma financeira local e o dinheiro foi investido em ações do que era, na ocasião, o mais promissor segmento da economia daquele país : as minas de cobre. Nos primeiros dois meses, as coisas seguiram a contento, as ações se valorizando e dando bons dividendos. Mas, subitamente, tudo mudou. No dia 4 de novembro de 1970, Salvador Allende assumiu a Presidência da República e instituiu, de pronto, a "experiência socialista chilena".

Carlos quis logo colocar as ações à venda, ainda que com certo prejuízo, uma vez que o valor delas havia caído bastante, da noite para o dia, diante dos rumores de que as minas de cobre seriam estatizadas. Mas Gilberto interveio : "Não seja tolo, Carlos, vender em baixa? Segura as pontas. Esse negócio de estatização é conversa fiada. Não dou um mês e os generais chilenos põem aquele comuna p'ra fora do governo à ponta-pés. As ações voltam a subir e você vende numa boa." Foi quando Albuquerque cometeu o maior engano de sua vida. Não vendeu. Allende não caiu no prazo previsto por Gilberto, as minas começaram a ser estatizadas, o valor das ações baixou a quase zero e, somente nos últimos dias do ano, Carlos conseguiu cair fora, ainda assim contabilizando um prejuízo de um milhão e novecentos mil dólares.

Quando da expansão de capital da COMPTEC, afim de garantir seus 25%, ele contraído elevados empréstimos, garantidos pela hipoteca do palacete e de dois apartamentos. Na ocasião, uma operação financeira sensata e correta, considerando-se as perspectivas do mercado de informática no país. A amortização da dívida vinha sendo efetuada, regularmente, sem dificuldades, graças ao elevado salário que percebia como diretor da empresa. E tendo ainda, como garantia adicional, dois milhões e quinhentos mil dólares em ações da COMPTEC. Isto, antes da derrocada especulativa no Chile. Agora, seu capital estava reduzido a 600 mil dólares, dos quais 500 mil faziam parte do fundo reservado para os gastos operacionais e dívidas a curto prazo, logo, praticamente intocáveis.

Disponíveis, ele contava apenas com os 100 mil que restaram da malfadada aventura. Enquanto sua atual dívida pessoal, relativa aos tais empréstimos, girava, no momento, em torno de uns 900 mil. Consequentemente, ver-se-ia numa situação financeira bastante desconfortável, não contasse com o compromisso que haviam estabelecido de se integrar as perdas e ganhos resultantes da operações nas bolsas. Felizmente, os outros três haviam auferido excelentes lucros, a soma representando uma quantia mais do que suficiente para compensar as perdas no Chile e ainda acrescentar, segundo seus cálculos, uns quatro milhões de dolares ao capital anterior da empresa. No todo, a operação fora bem sucedida. Apenas ele tivera prejuízos. Mas, se alguma culpa lhe cabia, foi a de ter dado ouvidos às errôneas previsões de Gilberto. Tivesse saído, logo após a subida de Allende, a perda teria sido infinitamente menor. E isso era algo que lhe martelava insistentemente a consciência. Confiava, porém, que as coisas em breve se acertariam : tão logo todo o dinheiro voltasse para o fundo na Suiça.

Carlos fez uma pausa em suas reflexões e olhou para o relógio de pulso : 10:30. Alcino telefonara na véspera, sugerindo um encontro dos quatro, para as 11:00 horas do dia seguinte. Alegou que, em se tratando de um domingo e acontecendo na "mansão da Gávea", (assim se referia à casa de Carlos, sempre com um leve toque ironia - ou seria de inveja?), a reunião ficaria mais informal e todos se sentiriam mais descontraídos, "o que" - assim dissera - "suavizaria a aridez do assunto. Falar de assuntos financeiros é sempre árido, não acha ?" Albuquerque concordou prontamente. Ninguém mais que ele queria acertar logo a situação. Somente com a reintegração total do capital da COMPTEC voltaria a respirar aliviado. E então poderia contar tudo para a esposa. Era-lhe penoso ter mantido Cristina na ignorância dos fatos por todo aquele tempo. Nada dissera sobre a aventura financeira, não só para evitar preocupá-la, mas por saber que ela se opunha, tenazmente, a qualquer empreendimento que não se cercasse da mais completa segurança. Convencê-la de hipotecar os imóveis, tinha sido, na ocasião, uma batalha difícil e desgastante. Porém, uma vez que tudo estivesse favoravelmente resolvido, contava que a inevitável discussão que se seguiria à revelação da aventura chilena, não passaria de uma pequena tempestade de verão.

** * * *

Capítulo 4

24 de janeiro, 10:50

Jerônimo fechou, pela terceira vez, em uma hora, o livro de matemática. Não estava dando...A pestinha da Alicinha continuava circulando dentro da cabeça. Tinha de fazer uma última tentativa para conquistá-la. Considerou as opcões... quem sabe algo poético ? Estalou os dedos. Era isso, uma poesia. Compor uma ? Nem pensar. Porque não copiar uma de um poeta romântico? Quem? Deu tratos à bola e acabou lembrando que, nas aulas de literatura, falavam muito de Fernando Pessoa. Aliás, um favorito de sua mãe. Logo, era provável que houvesse algum livro dele na biblioteca. O jeito era dar um pulo lá, discretamente, pegar o exemplar e copiar um dos poemas. O que fosse mais carregado de romantismo... Deu uma olhada no relógio : 10:55. O pai lhe havia dito, logo cedo, que iria receber os sócios para uma reunião, exatamente às onze. E, de certo iriam para o escritório, justo onde ficava a biblioteca. Ficara combinado que, quando o tal encontro acabasse, ele e o pai sairiam para almoçar fora. Depois daria um pulo até a lanchonete perto do cine Leblon, onde a patota da escola costumava se encontrar aos domingos. Com sorte, Alicinha estaria por lá. Lanchonete era o "forte" dela. Entregaria a poesia. Se não surtisse efeito.., ,bem, então o jeito era desistir e tratar de arrumar outra paixão. Sim, porque sem paixão a vida fica muito chata. Duas imagens desfilaram rapidamente pela mente : Débora e Tatiana. Ambas também colegas de sala e, pensando bem, tão bonitas quanto Alicinha.

Pulou lépido da cama. Tinha que ir logo ao escritório. Antes da chegada dos tais sócios. Desceu rápido as escadas, e inspecionou o ambiente : a sala de estar estava vazia. Deu uma espiada pela janela: o pai andava de um lado para outro no jardim. Ótimo, o caminho estava limpo. O escritório ficava bem ao lado. Entrou, fechou a porta sem fazer barulho e correu os olhos pelo imenso aposento.recinto. Junto à janela, na extremidade oposta à porta, a mesa de trabalho do pai, uma cadeira de espaldar alto, atrás e duas outras, menores, na frente. Num dos cantos, um pequeno frigo-bar e, aleatoriamente espalhadas pelo recinto, quatro poltronas, cada uma tendo, ao lado, uma mesinha. E, naturalmente, as imensas estantes de madeira maciça, recobrindo as paredes, até o teto. Nossa, como tem livro! As estantes, no entanto, não eram continuas. Havia espaços entre elas; vãos, tão fundos que até davam para esconder uma pessoa. Desde que não fosse uma jamanta, é claro. Já uma vez havia se ocultado em um deles. No dia em que a mãe entrara inesperadamente no escritório e quase o pegara, deleitando-se com um livro repleto de figuras de mulheres nuas, uma das fontes de inspiração para suas ocasionais masturbações. Facilitando o acesso às prateleiras mais altas, havia uma escada, que deslizava por um trilho de aço. Sabia que poesias ficavam bem em cima, na penúltima estante. Puxou a escada para o local certo e começou a subir. Levou uns dois minutos para encontrar o Pessoa. Recolheu o livro e começou a descer a escada, quando ouviu vozes e passos.

Os sócios haviam chegado. Não queria ser apanhado ali pelo pai, para não ter de explicar porque não estava no quarto, concentrado nos malditos livros de francês e matemática, as duas pragas da sua provação. E não dava tempo de escapulir pela porta sem ser visto. Mas a solução veio, numa fração de segundo. Uma autêntica reação "pavloviana" : impulsionado pelo reflexo da experiência anterior, enfiou-se, rápido, em um dos vãos. No exato instante em que a porta se abriu e os quatro homens entraram no recinto.

"Sentem-se, por favor" disse Carlos, apontando para as poltronas. "Ponham-se à vontade. Querem beber alguma coisa?"

Alcino foi o único a responder :

"Um uisque puro, sem gelo, cai bem. Mas só dois dedos. Ainda é cedo, o álcool tolda um pouco o raciocínio e vamos precisar ter a cabeça fria e a mente clara durante nossa conversa".

Carlos franziu a testa e dirigiu-se ao bar, para preparar a bebida, enquanto sua mente fervilhava. As palavras de Alcino não lhe soaram bem. Pareciam de mau prenúncio. Afinal, o assunto a ser tratado era, ou deveria ser, bastante simples : acertar os detalhes para a recomposição do fundo na Suiça. Também estranhara a fisionomia fechada dos sócios, tão logo lhes abrira o portão. Apenas Alcino esboçara um sorriso, ainda assim com jeito de ironia. Gilberto murmurara um "bom dia" quase inaudível, enquanto Paulo Cesar, usualmente tão falante, entrara de cabeça baixa, sem dar, sequer, um "alô". A razão dizia que estava extraindo deduções negativas a partir de sinalizações insignificantes. Mas a intuição advertia que uma ameaça pairava no horizonte.

Carlos entregou o uisque a Alcino, acomodou-se em uma das poltronas, de frente para os outros e disse, tentando dar à voz um tom de tranquilidade :

"Suponho que vamos falar sobre a reintegração do fundo. Bem, meus cem mil dólares estão prontos para serem transferidos pela via habitual. Se vocês me disserem, agora, o exato valor do lucro de cada um e em que financeira o dinheiro se encontra, poderei providenciar, ainda amanhã, a remessa do total para o Credit Suisse. Assim, em quarenta e oito horas, o capital da COMPTEC estará recomposto".

Houve um longo silêncio. Paulo Cesar continuava de cabeça baixa. Gilberto e Alcino trocaram olhares. Por fim, este, depositando o copo sobre a mesinha, falou :

"Não vai haver mais COMPTEC, Carlos, nós decidimos terminar com a empresa"

O sangue fugiu do rosto de Albuquerque. A voz saiu cheia de indignação :

"O que ? Vocês ficaram doidos ? E como é que tomam um decisão dessa sem me consultar? Meus direitos na firma são iguais aos de cada um de vocês."

A resposta veio de Gilberto. Inclinando o corpanzil para a frente, falou :

" Não estamos loucos, Carlos, muito pelo contrário. A COMPTEC vinha caindo e a tendência é que essa queda continue, cada vez mais acelerada. As empresas de computadores estrangeiras vão parar de mandar componentes, por causa dessa nossa estúpida lei de reserva de mercado. E seria muita ingenuidade pensar que repassariam o 'know-how' indispensável para se construir, no Brasil, equipamentos de última geração. Em dois anos ou até menos, nossos computadores estarão tão defasados, que não venderemos mais nenhum, nem aqui nem no exterior. Os americanos vão dominar totalmente o mercado internacional, com modelos cada vez mais modernos e a um preço relativamente baixo. Podem fazer isso porque montaram suas fábricas em países asiáticos, onde o custo da mão de obra é insignificante. Nossa decisão é correta. E se não consultamos você antes, foi para evitar um discussão inócua. Você se mostraria contrário, mas perderia no voto. Nós três" - fez um gesto circular com o braço e concluiu : "estamos no firme propósito de cair fora...enquanto ainda é tempo."

Carlos não se conteve :

"O que você me impediu de fazer, aconselhando a não vender as ações das minas de cobre, quando Allende subiu"

"É verdade, ali eu errei em minhas previsões. Mais uma razão para fazermos, agora, o que manda a prudência. Seria tolice errar pela segunda vez."

Enquanto Gilberto perorava, Carlos ia se recuperando do impacto inicial. A cor do rosto retornava ao normal. Talvez eles tivessem razão, pensou. Ainda assim, fez nova tentativa, dirigindo-se a Paulo Cesar:

"E você Paulo, não abriu a boca desde que chegou. Acha que devemos acabar mesmo com a empresa ?"

O outro ergueu lentamente os olhos. Estavam vermelhos e inchados e, quando respondeu, a voz saiu lenta e arrastada. Paulo Cesar estava semi-embriagado. A resposta, contudo, foi precisa :

" No princípio achava que não, mas os argumentos de Gilberto e Alcino me convenceram que sim."

Carlos ficou um tempo pensativo. A COMPTEC estava acabada e nada podia fazer para evitar. Mas faltava decidir aquela que era a questão essencial e, para ele, crucial : a integralização das perdas e lucros para que o total arrecadado fosse igualmente repartido entre todos. Conquanto houvesse um compromisso nesse sentido, não existia nenhum documento que o comprovasse. Foi tudo acertado verbalmente, na base da confiança. A razão ainda insistia que o combinado seria cumprido, mas a intuição continuava enviando sinais negativos para a mente: não lhe tinham consultado sobre o fechamento da empresa. Talvez tivessem reservado uma outra surpresa, bem mais desagradável. Estivesse certa a razão ou a intuição, aquele era o momento da decisão.

* * *

Capítulo 5

24 de janeiro, 12:00

Agachado em seu esconderijo Jerônimo acompanhava a conversa. Não havia compreendido, exatamente, tudo. Como aquele palavrão, como era mesmo? Reintração ... reintegração? Mas tinha dado para entender que iam fechar a firma, contra a vontade do pai e que este estava bastante aborrecido. Sentou no chão e se acomodou para continuar escutando... pelo jeito ainda tinha muito papo pela frente. O que podia atrasar o almoço. E ele ia acabar se desencontrando da Alicinha. Que droga, porra !

Carlos respirou fundo, pôs os nervos sob controle e retomou a palavra, falando pausadamente :

"Muito bem, adeus COMPTEC. Mas há outro assunto, muito importante, a ser resolvido. Imagino que, com as reservas que dispomos aqui e na Suiça, mais o que se deve arrecadar com a venda do patrimônio da empresa, haverá dinheiro suficiente para se acertar todas as dívidas, pagar os impostos, as obrigações trabalhistas e os custos com o processo de baixa da firma. E é até possível que ainda reste alguma coisa. Logo, fica sobrando o montante resultante das operações nas bolsas. Como havíamos combinado, as perdas e lucros das operações nas bolsas seriam integralizadas e o total reinvestido no fundo, continuando cada um com seus 25%. Contudo, já que, a partir do fechamento da empresa, iremos, provavelmente, seguir por caminhos diferentes, apreciaria que cada um me informasse, agora, o quanto lucrou. Assim, avaliamos o total e providenciamos, logo, como realizar a divisão equitativa entre os quatro. Foi esse o compromisso assumido e espero que seja respeitado."

Alcino passou os dedos pelos lábios e falou :

"Há um pequeno problema neste seu raciocínio, Carlos."

"Como assim?"

" O compromisso era válido em se tratando do fundo da COMPTEC. Mas, como já foi dito, ela vai deixar de existir."

"Mas ela ainda existe."

"Para você, talvez, mas não para nós. Para mim, ela deixou de existir no momento em que deliberamos terminá-la."

Carlos começou a ter a estranha sensação de que paredes invisíveis iam-se fechando ao eu redor, a fim de pulverizá-lo.

"Aonde você quer chegar, Alcino?"

Julgando, pelo tom da voz de Carlos, que este se sentia acuado e fragilizado, Alcino achou oportuno desfechar o golpe de misericórdia :

"A uma conclusão bastante simples, Carlos. Como você mesmo disse, o que está depositado na Suiça, acrescido do que esperamos obter com a venda do patrimônio, deve cobrir todas dívidas e obrigações da empresa e, segundo uns cálculos, que eu e o Gilberto andamos fazendo, deve sobrar ainda entre 100 e 150 mil dólares. Um quarto dessa quantia lhe será entregue. Agora, quanto as aplicações nas bolsas, das bolsas, nós três decidimos que cada um fica com o que apurou. É isso aí."

"Mas eu nada lucrei, Muito pelo contrário, saí perdendo." argumentou Carlos.

"São os azares da fortuna, meu caro. Quem ganhou, ganhou, quem perdeu, perdeu. Lamento, mas é assim que tem de ser. Nosso ponto de vista a esse respeito está firmado e nada vai nos demover dessa decisão"

O rosto de Carlos tornou-se mais lívido do que uma folha de papel. No primeiro instante, sua mente rejeitou o que seus ouvidos haviam captado. Devia estar sofrendo um pesadelo. Passeou o olhar pelos três homens. Gilberto, jeito efeminado, respirando pela boca semi-aberta, olhos miúdos e traiçoeiros, o corpanzil balofo, obcenamente afundado na poltrona. Paulo Cesr, rosto avermelhado coberto de desenhos aracnóides causados pela bebida, matinha os olhos fechados e a uma expressão de total indiferença como se nada tivesse a ver com o que estava acontecendo. Por último, Alcino, magro e ossudo, um ridículo bigodinho plantado na cara cheia de marcas de bexiga, a frieza emanando dos olhos de falcão, e o eterno sorriso de ironia, nos cantos dos lábios finos e cruéis. Era como se os tivesse vendo pela primeira vez. Não, eles sempre foram exatamente assim. Apenas ele, Carlos, não havia se apercebido antes. Não, não era nenhum pesadelo, o que estava acontecendo era real mesmo. A intuição é que estava certa. Os canalhas o tinham traído, miseravelmente, rompendo o compromisso assumido. Armaram tudo direitinho, para caírem fora, carregando seus lucros, sem se importar com o fato de lhe estarem arruinando. Mas não podia se deixar bater tão facilmente.

Tinha de reagir :

"Não, Alcino, não pode ser assim. Vocês sabem o prejuízo que sofri. Também sabem que, por causa do que investi em nossa sociedade, eu tenho, hoje, uma dívida pessoal de quase um milhão de dólares. Não dispondo mais do salário da COMPTEC, sem a garantia de encontrar logo um emprego que me proporcione uma remuneração adequada, dentro de algum tempo, minha reserva de 100 mil dólares acabará, consumida pelas parcelas de amortização daquela dívida e eu não terei como fazer face ao débito restante. O resultado final não é difícil de se prever. Os banqueiros são tão impiedosos como vocês. Logo, logo, irão cobrar a hipoteca. Esta casa e meus dois outros apartamentos irão a leilão e eu estarei arruinado. Pior ainda, meu casamento acabará se desfazendo. Cristina jamais me perdoará, talvez não pela perda patrimonial, mas, certamente, por eu ter escondido dela a desastrosa aventura no Chile. Que me causou tão imenso prejuízo, o qual poderia ter sido muito menor" - apontou o dedo para Gilberto -"não tivesse esse obsceno pederasta dado o conselho que deu."

Gilberto fez menção de quem ia dizer alguma coisa, mas Carlos logo abortou a tentativa :

"Fica calado, seu filho da puta."

* * *

Capítulo 6

24 de janeiro, 12:30

Tendo ouvido tudo, do fundo de seu esconderijo, Jerônimo já tinha uma exata idéia do que a discussão significava : o pai havia sido traído e enganado pelos sócios e estava tão desesperado que chegara até a apelar para o palavrão. Mas não era para menos. Ele ia ficar desempregado e os bancos iam tomar a casa. E a mãe ia endoidar quando soubesse da história. Tudo por culpa daqueles miseráveis. Sentiu-se tomado por um imenso ódio contra os sócios. Se tivesse, agora, ali, o revolver que o pai guardava no cofre, lá em cima, no quarto de dormir, sairia do vão e mataria todos eles. Como tinha visto um menino fazer, numa reportagem mostrada na televisão : foi na América. O garoto entrou armado na escola, abriu fogo e matou dois professores de quem não gostava. Só que o revolver do pai não estava a mão. Mas, graças ao que ouvira e às furtivas espiadelas que dava de quando em vez, já tinha gravados, na memória, o nome e a cara de cada um dos traidores. Se alguma coisa ruim acontecesse ao pai, um dia, quando crescesse, iria se vingar de todos eles.

"Nossa, Carlos" - interveio Alcino - "não vamos baixar o nível."

"O nível já baixou há muito tempo. Ou você pode conceber um nível mais baixo do que o da traição?"

"Você está levando a coisa muito para o lado pessoal, Carlos. Não é por aí. É apenas uma questão de negócios..."

"Nos quais somente eu saí perdendo..."

"Já disse e repito, a fortuna tem seus azares. Mas veja, você é ainda muito novo. Quantos anos, trinta e quatro, trinta e cinco? E com sua inteligência, competência e imaginação, você acaba dando a volta por cima."

"Ora, Alcino, deixa de cinismo. Sempre lhe achei o maior patife do grupo e não tenho dúvida que a idéia de toda essa traiçoeira articulação saiu daí, de dentro de seu odioso e asqueroso cérebro. Você nunca conseguiu ocultar, por traz de suas ironias, a frustração que sente, por eu possuir este palacete e, principalmente, por eu ter uma família linda e um lar feliz, enquanto você, ao que se sabe, não tem ninguém com quem partilhar coisa alguma, nem mesmo o dinheiro que guarda com tanta sovinice. E por ter uma vida vazia, você, por inveja, quer destruir a minha, a qual, pelo menos até hoje, vinha sendo repleta de amor e de beleza."

A expressão facial de Alcino não se alterou mas os olhos faiscaram por traz das grossas lentes.

"Carlos, é melhor você botar um freio nesses insultos..."

"Porque? O que acham que podem fazer contra mim, além do que já fizeram? Eu, sim. Eu tenho meios de atingir vocês."

Os lábios de Alcino se entreabriram num sorriso irônico.

"Como, Carlos, botando a boca no mundo? Falando de operações em bolsas estrangeiras, ou que transferimos dólares para a Suíça durante cinco anos, sem prstar conta de nada disso ao imposto de renda ? Claro que você pode fazer isso e complicar a vida da gente. Pode ser até que, com a denúncia, você consiga que todos nós percamos muito do que ganhamos. Mas e o escândalo do processo, Carlos, quem perde mais com isso ? Paulo César ? Para ele a coisa pode até ser lucrativa. Quem sabe se, arruinado, não consegue livrar do pagamento das pensões as suas 'ex' ? Gilberto, o que ele pode perder? A admiração dos seus garotinhos ?" - O obeso 'gay' fez menção de protestar mas parou diante do olhar que Alcino lhe lançou. - "E quanto a mim, o que tenho a perder? Como você mesmo afirmou, há pouco, sou um solteirão enrustido, sem família, cujo único herdeiro é um irmão perdido em algum ponto da Itália. Mas quanto a você? Não lhe ocorre que a perda maior seria a sua ? Você tem mulher e três filhos. Está esquecido que a Cristina é uma acadêmica. Já pensou o estrago que um escândalo, envolvendo o nome dos Albuquerque, poderia fazer na carreira dela ? Não, Carlos, você não vai abrir o bico. E qual seria a alternativa? Tentar nos matar ou contratar um assassino de aluguel para fazer o trabalho ? Lembre-se que somos três e você é apenas um. Que, hoje, nós temos muito dinheiro enquanto você está reduzido a muito pouco. E dinheiro é poder. Quem tem mais pode mais. E tem mais, atentando contra a gente você também estará expondo sua mulher e seus filhos aos riscos de um revide. Pense nisso."

Carlos ergueu-se da poltrona. Seu rosto agora, estava quase roxo de raiva e suas mãos tremiam.

" Canalha, você está ameaçando minha família ?"

O outro permaneceu sentado, impassível.

"Não. Estou apenas lhe mostrando as eventuais consequência se você partisse para a violência. Sabe, Carlos, no fundo, nós, que vivemos no mundo dos negócios e das especulações, somos todos mafiosos. E a máfia tem um código de honra, a ometa, a lei do silêncio. E quem a transgride, costuma pagar um preço muito alto."

Carlos voltou a se sentar. Estranhamente, a raiva arrefeceu, deixando, em seu lugar, um sentimento de ódio, algo mais frio, mais moderado, permitindo que raciocinasse com mais clareza. As mãos pararam de tremer e, quando falou, as palavras foram saindo mais baixas e mais lentas:

"Prestem bem a atenção. Sempre tive dúvida sobre a existência de um Deus e, agora, tenho motivos para duvidar ainda mais. Mas, hoje, estou convicto que o demônio existe. O fato de vocês terem nascido é a melhor prova disso. Um dia, todos três irão pagar por essa traição. Talvez não pelas minhas mãos, temporariamente atadas, mas por outras. Hoje vocês ganharam, mas há sempre um futuro, um futuro cheio de imprevistos. E, se não for aqui na terra, será nas profundezas do inferno, se o inferno existir. Mas, de alguma maneira, em algum tempo, em algum lugar, os três irão pagar. Esta é a praga que lhes rogo. A praga de um traído."

Lentamente, Carlos começou a se erguer .

"E, agora, seus miseráveis, ponham-se para fora desta casa. Antes que eu perca o resto do controle que ainda tenho. Sumam da minha vista, para sempre."

Gilberto se levantou e foi saindo, rápido. Logo, seguiu Paulo Cesar e, por último, Alcino. Nenhum disse nada, nenhum olhou para traz. Carlos, qual uma estátua, ficou parado, atento, esperando. Instantes depois ouviu o ruído característico do portão do palacete se fechando. Então, vagarosamente, saiu do escritório, sem se incomodar em fechar a porta.

Do esconderijo, atônito e cheio de ódio e preocupações, Jerônimo escutou os passos lentos do pai, subindo as escadas, a caminho do quarto de dormir.

* * *

Capítulo 7

24 de janeiro,13: 35

Passados alguns minutos, Jerônimo saiu do esconderijo. O Pessoa ficou esquecido. Deixou o escritório, subiu, célere, as escadas, entrou no seu quarto e fechou a porta. Recostou-se na cabeceira da cama e se pôs a pensar. O que fazer? Ir logo ao quarto de Carlos para mostrar solidariedade ? "Pai, fica tranquilo, a gente não vai perder a casa, não. Vamos dar a volta por cima. Sebastian e Antônio ainda são pequenos, mas eu já sou quase um homem feito. Dá p'ra sair por aí e arranjar um emprego. Mamãe vai entender e também vai colaborar.. O senhor tem muito valor e, logo, logo, arruma uma boa posição. E, um dia, eu lhe juro, quando estiver mais crescido vou pegar aqueles três miseráveis, um a um e fazer com que paguem, bem caro, toda a maldade que fizeram com o senhor". Ou não seria melhor dar um tempo, para que ele se acalmasse. Quem sabe, a essa altura, o pai já tivesse encontrado uma solução, para resolver, a contento, a situação. Quem sabe se, de repente, não ouviria a voz dele, vindo do corredor, dizendo "Filho, está na hora da gente sair para almoçar." O que fazer? Acabou optando por dar um tempo. Olhou para o relógio : faltavam cinco muitos para as 14:00 horas. Vou aguardar mais uns vinte minutos, pensou. Pegou o livro de matemática e fez um esforço para se concentrar nas benditas equações. Tinha dormido pouco na noite anterior e os olhos estavam ficando pesados. Quanto mais tentava se fixar nos números, mais as pálpebras insistiam em fechar. O pensamento começou a confundir tudo : formas geométricas teimavam em assumir os contornos do rosto da Alicinha, O livro caiu das mãos e o corpo foi escorregando pela cama. Jerônimo pegou no sono...

* * *

Capítulo 8

24 de janeiro, 13:35

Carlos Albuquerque sentou-se na beira da cama e ficou, durante muito, muito tempo, em marasmo , com o olhar vazio e a mente paralisada, sem conseguir concatenar os pensamentos. Depois, pouco a pouco, as idéias foram voltando, até que, afinal, o raciocínio voltou e ele recomeçou a pensar. Tinha que encontrar uma solução. Olhou a hora :14:50. Sim, e antes que a noite caísse e Cristina voltasse. Seria difícil encará-la na situação em que encontrava : encarcerado na próprio fracasso, sem divisar nenhuma luz no fim do túnel. Fracassara por não ter reconhecido o caráter dos homens a quem se associara. Fracassara ao confiar nas palavras de um pederasta inescrupuloso , de um boêmio irresponsável e beberrão e de uma invejosa ave de rapina. Fracassara porque, quando a sorte se mostrou adversa, acatara os conselhos do maldito Gilberto. E, acima de tudo, fracassara quando não teve coragem de por a esposa a par da operações nas bolsas chilenas. chilena. Se tivesse feito, ela, certamente, o teria persuadido a desistir. Jogara fora tudo que, durante anos, haviam acumulado. À vergonha de ter sido passado para traz, por três vigaristas, juntava-se a ruína : com os olhos da mente, já podia ver a casa sendo leiloada e a tristeza e a decepção estampada nos rosto dos quarto pessoa que mais amava. Que exemplo lhe restava para passar aos filhos ? Se ao menos pudesse salvar o palacete, o lar da família! Mas como obter o recurso para fazer face a uma dívida tão volumosa ? De súbito, um lampejo, quem sabe?, a luz no fim do túnel : seu seguro de vida. No valor de 500.000 dólares, que seria pago em dobro se a morte resultasse de um acidente...Seu olhar dirigiu-se para o quadro na parede , atrás do qual estava o cofre, em cujo interior havia um revolver 38, carregado. Chegou a fazer menção de se erguer, quando a voz da razão falou "Idiota, seguro não paga prêmio em caso de suicídio". É, a solução não era por aí...a menos que, ... a menos que o ato suicida pudesse passar morte acidental. Isso ele conseguiria fazer. Sim, Já havia espaço para um novo fracasso. Mas, morrer, aos 34 anos ? Hesitou, mas, numa fração de segundo, veio-lhe à mente um antgo ditado dos samurais - "a morte é mais leve que uma pena mea s honra é mais pesada que uma montanha."

E, de repente, tudo ficou claro e definido. As mãos de Carlos pararam de tremer. Sentiu-se tomado por imensa onda de paz. O olhar adquiriu um brilho de confiança e determinação. A morte lhe traria de volta a honra e a tranquilidade. Só esperava que Cristina e os filhos soubessem superar, logo, uma perda que, na verdade, embora jamais soubessem, era um ganho.

Ergueu-se e, com passos firmes foi até a mesinha onde guardava a chave do carro. Apanhou-a, deixou o quarto, atravessou cautelosamente o corredor, desceu as escadas, saiu da casa e dirigiu-se à garagem, ao lado do jardim. Parou por um momento, contemplando o velho Buick amarelo, companheiro de muitos anos e que seria agora. seu derradeiro amigo. Na verdade, mais que isso : juntos, mergulhariam para a morte.

Alguns minutos mais tarde, o Buick começou a subir a avenida Niemayer. O movimento do tráfico era pequeno. À altura do Hotel VPI, Carlos reduziu a velocidade, permitindo que os carros que vinham atrás o ultrapassassem e se distanciassem. Quando a pista adiante ficou livre, ele acelerou ao máximo. Ao chegar na curva seguinte, constatando que nenhum veículo se aproximava no sentido contrário, girou bruscamente o volante para a esquerda. A sólida frente do velho Buick arremeteu contra a muralha, esfacelando-a . O auto projetou-se no espaço e logo desceu, batendo com violência nas pedras. Deu uma cambalhota e se precipitou no mar. Em menos de dois minutos, sob os olhares atônitos de dois homens que pescavam perto do local, ele desapareceu, tragado pelas águas esverdeadas do atlântico.

Domingo, 24 de janeiro, 15:37, hora brasileira de verão.

* * * * * * 

Capítulo 9

1998 - 26 de dezembro, 23:16

Jerônimo parou de falar. O irmão escutara, em ininterrupto silêncio, quase todo o tempo de cabeça baixa, o queixo apoiado nas mãos, em nenhum momento interrompendo a narração. Já perto do fim da narrativa , a emoção tornou-se manifesta : lágrimas rolavam, lentamente, pela face. Passou a mão no rosto para enxugá-las, ergueu a cabeça e disse :

"Meus Deus, como deves ter sofrido, assistindo papai ser moral e emocionalmente pulverizado pelo tal de Alcino. E como deve ter sido difícil guardar, por tanto tempo, um segredo tão pesado." Jerônimo fitou longamente o irmão e, carregando um traço de tristeza na voz, falou:

"Sim, Antônio, sofri bastante, por muito tempo, mas existe algo que ainda me atormenta até hoje".

O outro lançou-lhe um olhar benevolente..

"O que, irmão?"

"Se eu não houvesse pegado no sono naquela tarde e tivesse ido ao encontro do pai, permanecendo junto dele, talvez, quem sabe, ele não se mataria."

"Só Deus pode saber. Mas não tiveste culpa em adormecer. Tinhas apenas onze anos e te encontravas debaixo de uma enorme tensão. E, se papai estava, com disseste, tão determinado a se matar, ele o faria de qualquer maneira, naquela hora ou depois. Portanto, irmão, tira da tua consciência o peso desta culpa que não te cabe. Quanto àqueles desgraçados traidores, concordo que devem ser punidos pela maldade praticada. Mas não por tuas mãos, como imagino que pretendas. O Senhor se encarregará de fazê-lo. Contudo, acho que uma duvida persistirá para sempre : o desastre com o carro do pai foi deliberado ou acidental ?"

"Que diferença faz ? O homem que saiu dirigindo o Buick, naquela tarde fatídica, ou era alguém que tinha o propósito determinado de se matar, mas de forma a que parecesse um ato acidental, ou então era alguém buscando, desesperadamente, fugir da cena do seu sofrimento e com a mente tão confusa, que dificilmente teria condições de raciocinar com precisão. Portanto, altamente suscetível a se envolver em um algum tipo de acidente grave. Quando no momento em que decidiu sair guiando, papai se tornara um morto em potencial."

Jerônimo fez uma breve pausa, umedeceu os lábios e continuou :

"Antes da maldita reunião, ele tinha traçado outros planos para aquela tarde. Como já falei, nós iríamos almoçar fora. Tudo se alterou em decorrência do que se passou no tal encontro. Logo, não importa, repito, se ele se atirou o carro, deliberadamente, contra a muralha, lá na Niemeyer ou se a batida e o que se seguiu foi acidental. Tudo aconteceu porque aqueles miseráveis traíram o pai. Para mim, eles são assassinos. Mas, quanto ao desastre, continuo achando que o que o pai fez, foi um ato deliberado : simular um acidente fatal, para garantir que mamãe recebesse o dinheiro do seguro, sem o qual teríamos ficado numa situação desesperada. Ele se matou pensando na gente e, pensando nele, é que eu, dentro em breve, matarei os responsáveis por sua morte."

Antônio sentiu, na determinação do irmão que adiantaria, pelo menos naquele momento, insistir em dissuadi-lo de seus propósitos. Mas havia um ponto na história. que o intrigava.

"Porque não revelaste, na época, o que tinha acontecido na tal reunião? "

"Pensei nisso, mas conclui que seria tolice fazê-lo. "

"Como assim?"

"Por três motivos. Primeiro : nenhum deles estava com o pai quando o acidente aconteceu. Logo não poderiam ser jamais acusados de homicídio. Segundo : revelando que o pai estava arruinado, estaria fortalecendo a tese da companhia de seguros de que ele havia deliberadamente se matado, para garantir que a família recebesse prêmio. Eles poderiam ganhar a questão e o sacrifício do pai teria sido em vão. Terceiro : os canalhas ficariam sabendo que eu sabia Manter-se-iam sempre atentos, prevenidos contra mim. O que tornaria mais difícil o ajuste de contas. Em situações como esta, a surpresa é um fator decisivo."

Antônio fez um gesto de assentimento.

"Concordo, de fato foi melhor que nada tivesses contado, principalmente em relacão à disputa com a companhia de seguro. Mas depois, Jerônimo, o que se passou depois ?"

"Quatro meses após os funerais do pai, eles conseguiram vender o patrimônio e desfizeram-se da COMPTEC. Tudo direitinho, rigorosamente dentro da lei. O advogado que cuidava do caso, procurou nossa mãe e entregou-lhe um cheque equivalente a vinte mil dólares. Era, segundo ele, a quantia que cabia a papai, do que havia sobrado depois de atendidas as despesas referentes ao destrato da empresa. E, pouco depois, com os bolsos abarrotados do dinheiro que haviam obtido com a operação das bolsas, os três bandidos desapareceram. Deixaram o Rio e cada um tratou, a seu jeito, de buscar novos empreendimentos.

Por muito tempo, fiquei sem saber por onde andavam e o que faziam. Sob a severa vigilância da mãe, está lembrado como ela era intransigente a esse respeito?, nós três passamos muitos anos concentrados apenas nos estudos. Você entrou o para o seminário em 76. Em 80, Sebastian foi para a escola de artes dramáticas e, em 84 eu me formei em biologia. No início, dediquei-me à botânica e andei uns tempos percorrendo o norte e o nordeste, interessado na flora brasileira. Depois encontrei minha real vocação : fui para os Estados Unidos, estudar genética. Em 87, no ano em que você se ordenou padre, comecei a trabalhar na Fundação Instituto Oswaldo Cruz."

"Onde acabaste ficando famoso, por tua contribuição no projeto genoma."

Jerônimo sorriu.

"Mas, em nenhum momento, esqueci a promessa que fiz a mim mesmo, naquela tarde, em 1971. Quando voltei dos Estados Unidos, comecei a pesquisar, a fim de determinar o paradeiro daqueles três bandidos. Uma notícia de jornal aqui, a de uma revista ali. O resto ficou por conta da Internet. A gente consulta um banco de dados, digita um nome e, com sorte, recebe uma torrente de informações. Levou tempo, mas, aos poucos, após muito trabalho, consegui formar um dossier completo a respeito de cada um. Está interessado em saber como estão, atualmente, e a que se dedicam?"

O outro assentiu com um gesto da cabeça.

"Claro."

"Comecemos por Paulo Cesar. Está com 57 anos, mora em Curitiba, goza de boa saúde e não voltou a casar. Seus ímpetos boêmios arrefeceram com a idade, mas continua o mesmo mulherengo, pelo menos em teoria. É o maior acionista brasileiro de uma indústria farmacêutica multinacional. Possui uma respeitável fortuna. Gilberto, aos 56 anos continua gay. Reside em São Paulo e é 'habitué' de uma dessas casas de modelos masculinos, onde escolhe, por um bom preço, é claro, os parceiros para suas atividades homossexuais. É dono de uma vasta cadeia de rádios e pequenas estações de TV, espalhados pelo Brasil afora. Está imensamente rico. E, finalmente, temos Alcino. O mais canalha de todos. Com 61 anos, sempre solteirão, gozando de boa saúde, tem, como principal domicílio, uma gigantesca mansão no bairro do Morumbi, em São Paulo, embora possua mais uns cinco ou seis luxuosos apartamentos em diversas cidades, um deles em Roma. É um dos donos da firma Ariana, um consórcio ítalo-brasileiro, fabricante de armas de pequeno e médio porte. Não se sabe ao certo o valor do seu patrimônio, mas deve estar em torno dos 90 a 100 milhões de dólares. Como vê, todos ricos, todos na faixa dos peso-pesados do mundo industrial. Enquanto o quarto sócio, o nosso pai...É isso aí, Antônio"

"Sabes bastante a respeito deles, mas serás capaz de reconhecê-los, passados todos esses anos?"

Jerônimo sorriu

"Tenho fotografias atualizadas de todos os três."

"E como conseguiste isso?"

"Persistência, paciência, uma máquina fotográfica e uma filmadora, equipadas com lentes zoom de longo alcance."

Seguiu-se um prolongado silêncio. O padre estava indeciso, enfrentando uma batalha interior : se tomasse conhecimento dos planos, possivelmente ficaria a par de detalhes terríveis. Mesmo reconhecendo que Jerônimo tinha sobejos motivos para odiar os ex-sócios do pai, descobrir, no irmão, uma faceta cruel e diabólica, seria um rude golpe para ele, Antônio, que tinha, como uma das missões de seu sacerdote, combater sentimentos que contrariassem a pregação cristã, de caridade e perdão. Por outro lado, a curiosidade é uma característica atávica do ser humano e ele, conquanto padre, continuava sendo homem. Milhões de neurônios se debateram, durante segundos, em busca da decisão : a curiosidade emergiu vencedora.

Curvou-se para a frente e perguntou, num tom quase conspiratório :

"E que planos já elaboraste para levar a cabo o que intentas fazer ?"

Jerônimo olhou fixamente para o irmão e, após algum tempo, respondeu :

"A partir de agora, o que quer que venha a dizer sobre esse assunto, quero fazê-lo como um ato de confissão. Assim, mesmo que venha a se sentir tentado a me denunciar, julgando que, em o fazendo, salvaria a vida daqueles três e, talvez, também a minha, você não o fará, porque o segredo de confessionário terá um peso maior"

Desta vez, Antônio não hesitou :

"Tens razão" - ergueu-se, disse "Não demoro" - e deixou o aposento.

Quando voltou, minutos após, trazia, em torno do pescoço, uma estola sacramental. Sentou-se de novo, de frente para o irmão, fez o sinal da cruz e falou :

"Estamos agora em estado de confissão. Podes dizer tudo que desejares."

Jerônimo se abaixou, apanhou a pasta de documentos que havia deixado no chão, a seu lado, abriu-a, retirou duas folhas de papel e passou uma delas para o irmão. Era um recorte de um jornal do Rio, com a data de 17 de dezembro.

"Leia isso."

Antônio correu os olhos pelo recorte e começou pelo título : " CONFEDERAÇÃO NACIONAL DA INDÚSTRIA (CNI) PROMOVE ENCONTRO SOBRE 'O PAPEL DA INFORMÁTICA NA EVOLUÇÃO INDUSTRIAL NO TERCEIRO MILÊNIO'." Em seguida, leu o texto : "Nos dias 4 e 5 de janeiro de 99, vai acontecer um encontro, sobre o papel que a informática deverá desempenhar na tecnologia industrial do próximo milênio. O evento terá lugar no Hotel Meridien, onde, deverão ficar hospedados os expositores convidados pela entidade. Na véspera, domingo, dia 3, às 20 horas, haverá, no salão do eventos, a sessão de instalação do encontro e, a seguir, um coquetel. Entre os especialistas estrangeiros convidados estão : o famoso Bill Gates, Steven Jones, presidente da Mackintosh, o magnata alemão, Henrich von Koller, vice-presidente das indústrias Krupp e o francês Jean Jacques Debonet, presidente do Aeroespaciale. Entre os brasileiros, destacam-se os empresários Antônio Ermirio de Moraes, Aluízio Meirelles, Alcino Moroni, Júlio Ferreira Vasconcelos, Gilberto Gomes Netto, Heleno de Castro Neves, Mário Klabin, Paulo Cesar Nogueira, José Luiz Barros de Almeida e Jacob Rosemberg. A audiência será limitada a 200 pessoas e os convites serão expedidos pela secretaria da CNI, até o dia 2 de janeiro."

Antônio terminou a leitura, fez uma breve pausa e disse :

"Suponho que pretendes estar lá."

"Só para a sessão de instalação.e o coquetel"

"Faltam apenas sete dias"

"Sim, Antônio, sete longos dias."

O padre olhou de novo para o recorte e comentou :

"Muito conveniente. Os três juntos num mesmo evento e, possivelmente, hospedados no mesmo hotel. Embora lamente ver-te envolvido nisso tudo, devo admitir que as circunstâncias se mostram bastante favoráveis aos teus planos, dos quais, espero, venhas ainda a desistir".

"Acho melhor você desistir de tentar me fazer desistir. Esperei muitos anos por uma oportunidade como esta. Não posso nem devo perdê-la, pois dificilmente se apresentará outra igual"

Jerônimo fez uma pausa, retirou outra folha da pasta e entregou-a ao irmão.

"Já que você falou em conveniência, leia isso. É o programa das palestras. Veja a ordem das exposições : na Segunda, falarão os empresários e, na terça, os especialistas em informática. E repare noutro detalhe : os patifes estão escalados para falar na segunda de manhã."

Antônio passou os olhos pelo programa e disse:

"Sim, e daí ?"

"É simples. Os três já não são jovens. Se vão se apresentar para expor na manhã de segunda, é quase certo que, no domingo, não irão ficar zanzando até de madrugada. Aposto que todos estarão em seus quartos, preparando-se para dormir, no máximo, lá pelas 23 horas."

Antônio devolveu os papeis ao irmão e comentou :

"Jerônimo, tu não te tornaste um grande cientista por acaso. És, realmente, dotado de uma inteligência e de uma sagacidade excepcionais. Lamentavelmente, estás usando os dotes que o Senhor te concedeu para planejar e executar um horroroso crime, movido por uma sede de vingança."

"Esse é o seu lado de ver as coisas. Mas, que tal encararmos a situação sob um outro prisma ? Eu não creio em Deus, porém você, obviamente, sim. E, sendo um padre católico, esse Deus certamente se enquadra dentro do contexto bíblico. Correto?"

O irmão assentiu com a cabeça.

"Pois bem, se a gente atenta para a bíblia, percebe, nitidamente, uma distinção entre o Jeová do velho testamento e o pai de Jesus, o Senhor do novo testamento. Enquanto o segundo é apresentado como uma figura tolerante e bondosa, o primeiro, e estou me baseando em exemplos bíblicos, é severo, justiceiro e. até mesmo, em certos momentos, vingativo."

O padre engoliu em seco: não conseguia encontrar, pelo menos no momento, um argumento, suficientemente forte, para contestar. Por uma fração de segundo, um sorriso cintilante iluminou o rosto de Jerônimo. O mesmo sorriso que costumava mostrar, quando, num jogo de xadrez, ao dar o que seria o último lance da partida, dizia para o adversário : cheque...cheque mate!

"Pois bem, Antônio, necessitasse eu de alguma justificativa religiosa ou teológica, o que não é o caso, diria que o que pretendo fazer, não deve ser visto como homicídio comum, e sim como ato de justiça, talvez guiado pelas mãos do próprio Jeová."

O padre ficou, por um longo instante, contemplando o rosto do geneticista e, depois, disse :

"Irmão, estás obcecado, diabolicamente obcecado. Que o outro Deus que não consideraste em teu inteligente arrazoado, o pai de Jesus, se apiade da tua alma."

* * *

Capítulo 10

28 de dezembro, 5:24

Antônio olhou as horas, levantou-se da poltrona e prosseguiu :

"Como tinhas previsto, foi uma noite bastante longa. O amanhecer se avizinha. Vem, vamos fazer o nosso desjejum. Depois, levar-te-ei ao aeroporto. Mas, antes, devo lembrar-te que, além da punição divina, possivelmente serás também punido pelas leis humanas. Os homens que intentas liquidar são pessoas importantes, aos olhos do mundo dos negócios e da sociedade. Logo, é de se esperar que a polícia envide todos os esforços para descobrir o criminoso. É quase certo que chegarão a ti e te prenderão."

Jerônimo também se levantou e encarou longamente o irmão, antes de responder :

"Não será como você prediz. Pode ser até que eu venha a sofrer um punição divina se o seu Deus e o além de fato existirem. Porém, quanto aos homens, eles não me punirão. Admito haver uma alta probabilidade de que me identifiquem, como o responsável pela morte dos canalhas. Mas um coisa eu lhe garanto, irmão : eles jamais me prenderão."

Em seguida, o geneticista colocou, carinhosamente, a mão sobre o ombro do padre e, a passos lentos, os dois se retiraram da sala de estar da casa paroquial.

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