A NOITE DOS FAVELADOS
Oliver Marti
Parte 5
54
Todo ser humano deve ter seu santuário. Não necessariamente um templo ou igreja, pois há muita gente que não comunga nenhuma religião. Mas sempre um lugar capaz de evocar alguma sensação profunda que atinja o âmago da nossa alma: beleza, amor, saudade... E lá, cada qual, à sua maneira, examina a consciência, reajusta valores, recompõe-se emocionalmente. Realiza, enfim, um encontro consigo mesmo. E, se bem sucedido, regressa em paz.
Foi exatamente isso que, em outras palavras, Ítalo explicou à Erika quando retornou à casa, já bem tarde da noite, na véspera do dia D. Enquanto os outros membros do grupo dos seis circulavam à procura dele, carregados de tensão, Ítalo mantivera-se ausente desde cedo.
- Pela manhã fui ao cemitério e fiquei horas pensando, junto ao túmulo de meu pai Libório - justificou ele. - Lá é o meu santuário. À tarde fui a um centro de umbanda pedir proteção a Ogum.
Abraçados pela cintura, foram até a porta do quarto da Pâmela. A menina dormia placidamente, protegida dos mosquitos por um cortinado de filó armado sobre o pequeno leito. Depois voltaram à sala e sentaram-se no sofá, para beber refrigerantes e comer os sanduíches que Erika havia preparado.
- O dia todo veio gente procurar por você - disse ela. - Ainda há pouco o Zuza esteve aqui para saber se já tinha voltado.
- Surgiu algum problema? - indagou Ítalo.
- Não, ele falou que tudo está em ordem. Apenas todos, inclusive o Tonho, parecem estar com os nervos à flor da pele. - Erika forçou um sorriso - até eu.
Ele aproximou-se, beijou-a carinhosamente no rosto e confessou:
- Acho que eu estava pior que qualquer um. Por isso saí para fazer o que lhe contei - os olhos negros refletiam serenidade. - Mas agora estou em paz e confiante, pronto para enfrentar o dia de amanhã.
- E foi nesse santuário, junto ao túmulo de Libório, que você encontrou paz e confiança?
Ítalo sacudiu a cabeça.
- Não, lá eu achei paz. A confiança fui buscar no terreiro.
Erika fitou-o bem dentro dos olhos.
- Você acredita mesmo nisso, não é?
Ele riu.
- Não é fácil explicar o que não tem lógica. É como qualquer outra religião - segurou a medalha de São Jorge. - Veja isto. Deolinda me deu, quando fui balizado. Uso desde que me entendo corno gente. Pra mim não é só uma medalha de ouro. É um amuleto que me protege.
Ítalo puxou Erika delicadamente pelo queixo e beijou-a de leve na boca. Em seguida, bocejou e concluiu, um tanto maliciosamente:
- Um homem, antes de ir para a guerra, precisa de três coisas: paz, confiança e amor.
Erika levantou-se sorrindo e puxou-o pela mão.
- Então venha - a voz emanava ternura e sensualidade. - Vamos para a cama. Você já recebeu sua dose de paz e confiança. Agora eu vou lhe dar amor.
**
Estavam deitados, saciados c exauridos. Ítalo, a expressão serena, logo mergulhou num sono profundo. Mas Erika não conseguia adormecer. O mostrador do relógio digital sobre a mesinha junto à cama cintilava na escuridão, mostrando a proximidade da meia-noite. Ela notou e teve um sobressalto. Os orgasmos tinham mitigado um pouco da tensão, mas a cabeça continuava cheia de maus augúrios, o pensamento voltado para as incertezas do dia que começava...
***
O Rio de Janeiro acordou no dia 24 do terceiro mês do ano 200_ coberto por uma tênue neblina que prenunciava sol e calor. Gustavo despertou pouco depois do alvorecer, sentindo a boca amarga e um nó na garganta. Tinha tido um sono inquieto, repleto de pesadelos mal definidos. Olhou para a cama ao lado, no quarto estreito que dividia com Zuza, no barraco pequeno e abafado. Eogo se deu conta de que o companheiro não havia dormido lá. Andava sumido desde a véspera quando denunciara, ingenuamente, o plano de invasão dos favelados. O falso Felipe pulou da cama, ficou alguns momentos no acanhado banheiro, vestiu-se às pressas e saiu. Impunha-se descobrir -e não tinha muito tempo a desperdiçar - maiores detalhes sobre a insídia concebida por Ítalo e Antônio Maria. Por breve instante ocorreu-lhe que, ao contrário do que sentia por Tonho, simpatizava com o marido de Erika. Lembrou-se também da filha de Steiner, de Nair e da menina. Uma família, como qualquer outra, no entanto... Tinha de se concentrar na missão e isso implicava neutralizar os planos de Ítalo, não obstante as consequências que pudessem advir e a despeito de suas simpatias e sentimentalismos.
Com os sentidos aguçados, foi até o botequim do Cardoso, subiu e desceu várias vezes a Estrada da Gávea, perambulou pelos becos e ruelas, parou nos pontos de jogo de bicho, sempre atento a algum comentário ou fato que sugerisse qualquer anormalidade. Nada. A vida na Rocinha parecia transcorrer dentro dos seus padrões habituais.
**
Erika e Ítalo também tinham se levantado cedo e tomavam agora o desjejum, em companhia de Pâmela. A mulher mostrava na face os sinais de uma noite malpassada e seus olhos se fixavam a todo instante no rosto do marido. Este mantinha uma expressão aparentemente serena, dividindo as atenções entre a filha e a xícara de café à sua frente. Foi ele quem acabou rompendo o silêncio da pequena refeição, até então só interrompido pelas insistências da garotinha em rejeitar o leite, em favor das migalhas de pão que ela mesma espalhara sobre a mesa.
- Onde você guardou aqueles papéis? - perguntou Ítalo referindo-se às cópias do Memorando e do Manifesto que entregara à esposa na antevéspera.
Ela passou a mão pêlos cabelos, afastando-os do rosto.
- No quarto, na segunda gaveta do armário ao lado da cama.
- Vou pegar algumas cópias do Memorando para distribuir aos chefes das unidades. Ele acariciou a cabeça da filha, levantou-se, foi até o quarto e logo voltou com os documentos.
- As outras cópias ficam lá na gaveta - comentou sorrindo. - Quem sabe um dia a gente põe uma moldura nelas e coloca na parede da União pra lembrar a nossa vitória?
Erika tentou também esboçar um sorriso. Não foi além da tentativa. O marido prosseguiu:
- Vou passar o dia checando as coisas e me reunindo com o pessoal. Mas volto lá pelas oito da noite pra jantar com você. Só nós dois, tá bem?
O líder favelado esforçava-se em procurar dar a impressão que aquele seria um dia igual aos outros. Foi até a porta da rua, jogou um beijo para a esposa, outro para a filha, deu um simples tchau e saiu. Erika ouviu o barulho da moto partindo, correu até a Pâmela, tomou-a nos braços e ficou lutando tenazmente para não extravasar em lágrimas a angústia que vinha lá do âmago da sua alma.
***
Às 08:00 horas, Steiner chegou ao Centro de Comunicações da Base e interpelou o major Garcia:
- Alguma notícia do capitão Gustavo?
- Por enquanto nada, senhor — respondeu o oficial pondo-se de pé.
- Fique atento - recomendou o brigadeiro e dirigiu-se ao aposento ao lado, a sala de Comando da Base, onde pretendia permanecer até que o agente do SISA restabelecesse contacto. O rosto do comandante do III COMAR revelava traços de fadiga. Passara parte da noite acordado, meditando sobre a situação. Curiosamente, ninguém, fora do seu círculo, parecia acreditar na ameaça que estava por vir dos morros, não obstante o trágico e recente exemplo do Sheraton Hotel. Pelo menos essa era a impressão colhida das conversas com o chefe do Estado-Maior da Aeronáutica e com o Secretário de Segurança do Estado. Mas o que dissera na véspera, na reunião com seus oficiais, prevalecia: confirmada a ameaça de invasão, algo teria de ser feito. Tentaria primeiro convencer outras autoridades, federais e estaduais, a agirem. Porém, conquanto não fosse dado a premonições, algo lhe dizia que elas iriam permanecer indiferentes. Então ele, Steiner, entraria em ação como antecipara aos seus comandados. E, lá no fundo - não podia deixar de admitir - talvez fosse isso o que realmente desejasse: a oportunidade, justificada pela omissão dos outros, de se vingar. Sim, porque, através desses três últimos anos, vinha-lhe sempre à lembrança a vergonha que aquele maldito Ítalo impusera ao nome dos Steiners.
Os olhos frios e azuis so brigadeiro se estreitaram. Quem sabe não estaria se aproximando a tão esperada hora do ajuste de contas? O pensamento, conquanto não causasse propriamente alegria, proporcionava a agradável sensação de quem vê enfim resgatada uma dívida ou reparada uma injustiça. Era assim que se sentia. Porém, havia no contexto um aspecto preocupante: Erika. Uma ação militar contra a Rocinha poderia pôr em risco a vida dela e da filhinha, a neta que nunca desejara conhecer mas que, afinal de contas, desgraçadamente ou não, era também sangue do seu sangue. Mas contava com um trunfo para conduzir os acontecimentos segundo os planos que concebera: Gustavo. Confiava na coragem e habilidade do agente para retirá-las da favela antes que as bombas dos helicópteros começassem a mandar para o inferno aquele bandido arrogante e toda aquela gente que habitava o imundo pardieiro que, como um câncer, parecia se espalhar a cada dia, pondo em risco a segurança e a estabilidade sociais.
Se tudo corresse como imaginava, possivelmente pagaria o preço da eterna incompreensão da filha. Talvez ela já estivesse irremediavelmente enfeitiçada pelo maldito sedutor, para aceitar o bom senso. Por outro lado ele, Steiner, não se perdoaria se deixasse de agir em consonância com os ditames da sua consciência. Ou estaria, na verdade, prisioneiro de uma obsessão, acobertada pelo pretexto do cumprimento do dever? Deu de ombros. De qualquer forma, os dados seriam lançados em breve. O próprio destino se encarregaria de definir os acontecimentos. O brigadeiro apertou o botão do interfone e chamou seu ajudante-de-ordens. Já era hora de verificar o estado em que se achavam os dispositivos que, talvez, dentro de muito pouco tempo, se visse na contingência de acionar.
55
Pouco depois do meio-dia, Gustavo foi até o galpão e testou o radiotransmissor. O aparelho estava em ordem. Suas sondagens continuavam vazias e o paradeiro de Zuza ignorado. Prosseguiu rondando, aqui e ali, cada vez mais atento e ansioso. Pelo meio da tarde viu Olímpio, Zé Augusto e Severino, no táxi deste último, subindo na direção do Laboriaux. Foi à sede da União para ver se encontrava Ítalo ou Antônio Maria. O local estava praticamente vazio. Parecia que o "grupo dos seis" tinha evaporado. O que Gustavo não podia imaginar era que, naquele instante, estavam todos eles reunidos com os chefes de unidades, na "fortaleza", ouvindo Ítalo anunciar que a Operação Igualdade seria desencadeada à meia-noite, entre os "vivas" e aplausos da sua reduzida mas entusiástica audiência.
***
Na Base Aérea de Santa Cruz a expectativa crescia, à medida que as horas passavam e Gustavo não se comunicava. Por duas vezes Steiner sentiu-se tentado a acionar o dispositivo eletrônico que aqueceria a medalha que o agente trazia, determinando que estabelecesse contato. Mas julgou por bem não o fazer. Se o capitão não havia voltado a transmitir era porque ainda não obtivera as informações relativas à hora do ataque e ao efetivo dos atacantes.
***
Lá pelas 17:00 horas, Gustavo começou a perceber certas mudanças no ambiente: os motoqueiros da "guarda pretoriana" principiavam a circular por toda a parte; ônibus e caminhões embrenhavam-se pelas ruelas, como a buscar locais mais discretos para estacionarem, fora dos olhos de quem usualmente transitava pela movimentada Estrada da Gávea. Resolveu então voltar à sede da União. Subia a Rua 5 quando deparou com Ítalo e Antônio Maria vindo em sentido oposto.
- Olá, Felipe - exclamou o líder favelado - estava mesmo à sua procura. Como está o radiotransmissor?
Ítalo sorria, como sempre, mas Gustavo julgou notar certa rigidez na sua fisionomia.
- Perfeito- respondeu, e fazendo um gesto na direção de Antônio Maria. - O Tonho tem testado. Tá funcionando cem por cento.
- Ótimo - ítalo pôs a mão no ombro do agente e fitou-o bem nos olhos. - Escute, Felipe, logo mais, à meia-noite, vamos fazer um teste definitivo no nosso sistema de comunicação. Tonho vai estar lá, mas como você é mais experiente, queria que estivesse junto.
O líder favelado fez uma pausa. Parecia indeciso quanto ao que dizer em seguida.
- Vamos tentar pôr os vinte minitransmissores se comunicando uns com os outros ao mesmo tempo. Só que alguns vão estar bem distantes...
- Não tem problema - interveio Gustavo, que já tinha percebido aonde Ítalo queria chegar. - O Cobra pode captar de qualquer distância e retransmitir para os outros. É só cada um dar seu prefixo e o daquele com quem quer falar. Cá de cima, a gente funciona como estação intermediária.
A fisionomia do líder favelado se descontraiu.
- Você pegou bem a coisa, Felipe - e dando uma palmadinha amistosa no ombro do outro: - Então dá pra ficar acordado e segurar a "barra"?
- Claro. Vou até lá agora dar mais outra checada no aparelho, só pra ter certeza.
- Ótimo.
Gustavo fez um gesto de despedida para os dois homens e se afastou lentamente, assobiando, como se nada no mundo o preocupasse naquele instante. Mas o coração batia mais forte e o cérebro fervilhava. Já sabia a hora da invasão. Com um pouco de sorte, se encontrasse Zuza, talvez ficasse também informado quanto aos objetivos da operação dos favelados e o efetivo dos invasores. Dois dados importantes para orientar a conduta de Steiner. Voltou ao botequim do Cardoso, depois foi até o casebre que compartilhava com o ex-companheiro de prisão: estava vazio. Fez perguntas pela vizinhança. Ninguém tinha ideia onde Zuza se encontrava. Nem poderiam adivinhar. Ele estava agora junto ao portão da "fortaleza", no Laboriaux, ajudando a transportar as armas e explosivos para os ônibus. Finalmente, Gustavo desistiu. Olhou para o relógio: eram quase 18:00 horas. Não podia esperar mais, tinha de comunicar a Steiner a hora da invasão. Apertou o passo e começou a andar na direção da Rua 6.
Minutos depois chegou ao galpão, abriu o cadeado, entrou e bateu a porta, ignorando o jovem "pretoriano" que, encostado num poste do outro lado da rua, vigiava o local. Sentou-se diante do Cobra, ligou o transmissor, ajustou a frequência para 180 megaciclos e começou a chamar, em voz baixa, o Centro de Comunicações da Base Aérea de Santa Cruz...
**
Quando Gustavo descia a Rua 5, Ítalo reparou que Antônio Maria acompanhava com o olhar penetrante o homem que se afastava e perguntou:
- Você não confia muito no Felipe, não é, Tonho?
O outro voltou-se para o amigo.
- Não. Tem alguma coisa nele que parece fora do lugar, entende?
- Mas você checou a respeito dele com os informantes de São Paulo, não foi?
- Eu sei, parece tudo legal e o cara também não fez nada errado até agora.
- Então qual o problema? - insistiu Ítalo. - Desconfia do Felipe porque ele parece entender demais de radiotransmissores?
- Não. Até que isso ele pode ter aprendido na tal empresa paulista onde trabalhou. É um troço esquisito, alguma coisa nos olhos dele, sei lá, não dá pra explicar.
Ítalo soltou uma gargalhada e ironizou.
- Depois eu é que sou supersticioso.
Antônio Maria deu de ombros e o outro então mudou o rumo da conversa:
- Bem, esquece. Temos pouco tempo e muito que fazer. Vou dar um pulo no Laboriaux pra ver como vai indo o carregamento das armas e depois vou até em casa. Prometi a Erika jantar com ela. Às dez e meia a gente torna a se encontrar aqui com o resto da turma para então dar a largada...
Ítalo subiu na moto e partiu, acenando ao passar pelo companheiro. Antônio Maria, por sua vez, começou a caminhar em direção à Estrada da Gávea. Dois rapazes da "guarda pretoriana" o aguardavam, próximo do Posto da P.M. Cada um portava um revólver por dentro do blusão de napa. Tonho fez um sinal para que eles o seguissem e os três entraram rapidamente na cabine policial. Os dois soldados, apanhados totalmente de surpresa, não ofereceram nenhuma resistência ao serem rendidos, amarrados e postos sentados no chão, de modo a serem vistos da rua. Um dos rapazes sentou-se também diante deles, arma em punho, acendeu um cigarro e se acomodou para esperar o tempo passar. Tonho deu-lhe rápidas instruções e saiu. O outro "preoriano" postou-se do lado de fora da cabine, com ar despreocupado mas vigilante, também preparado para um longo período de espera.
**
A luz do dia começava a se apagar. O veículo da Polícia Militar que fazia a patrulha da área subia lentamente a Estrada da Gávea, vindo de São Conrado. De repente, um mulatinho de uns dez anos presumíveis saiu de uma das ruelas, parou diante do carro e pôs-se a acenar freneticamente. O soldado Coimbra parou a viatura, enquanto seu colega, o cabo Leite, perguntava ao garoto qual era o problema.
- Tem uma mulher toda ensanguentada caída lá embaixo - disse o moleque, apontando para o beco de onde viera.
Coimbra encostou o carro junto ao meio-fío, desligou o motor, retirou a chave e perguntou para o companheiro:
- Vamos dar uma olhada?
O outro concordou e os dois saíram atrás do garoto. Entraram na ruela indicada e não viram ninguém caído. Também o moleque evaporara como por encanto. Passaram ao beco seguinte: nada. Interpelaram umas poucas pessoas que encontraram. Ninguém tinha visto nenhuma mulher ensanguentada em parte alguma. Lete acenou para o colega.
- Vamos embora. Aquele pivete sacana só queria nos fazer de palhaços.
Voltaram ao carro. Ao entrarem no veículo, Leite soltou uma exclamação:
- Filhos da puta! Veja: arrancaram o microfone do rádio.
- Quer dar uma batida por aí? - perguntou Coimbra, olhando indiferente para o pedaço de fio que pendia do aparelho transmissor.
O cabo balançou a cabeça.
- Não, vamos encontrar nada. Foi tudo arranjado. Usaram o moleque para nos afastar. A essa altura, quem levou o microfone já está bem longe.
- Por que fizeram isso? - perguntou Coimbra, pouco experiente em relação às manobras dos favelados, já que aquela era sua primeira semana de patrulha na área.
- Sei lá, esses putos roubam qualquer coisa - respondeu o outro mais acostumado com os hábitos locais. - Bem, não adianta continuar patrulhando por aí com o rádio inutilizado. É melhor a gente voltar para a Base.
O carro arrancou, fez a volta e seguiu em direção à autopista Lagoa-Barra, a caminho de Jacarepaguá, onde ficava o Quartel do 15° Batalhão de Patrulha Volante da P.M.
De um ponto não muito distante, no alto de um barranco, escondido entre dois barracos, Antônio Maria, com o microfone arrancado na mão, assistiu a partida do carro-patrulha. Esfregou a cabeça do moleque a seu lado, num gesto agradecido, e deu-lhe uma moeda pelo trabalho realizado. O lugar-tenente de Ítalo estava satisfeito: já não havia mais policiais por perto para detectar o intenso movimento de homens e veículos, durante a fase que precederia o desencadeamento da Operação Igualdade.
Tonho desceu o barranco. Foi até o lugar onde tinha escondido sua Honda, subiu nela e partiu. Seus pensamentos estavam agora voltados para Felipe. Em poucos minutos chegou ao galpão. A porta estava trancada com o cadeado. O rapaz da "guarda pretoriana" que, do outro lado da rua, cumpria seu turno de vigilância, informou que Felipe de fato tinha estado lá, mas já havia saído há algum tempo. Antônio Maria ficou um instante pensativo, depois acionou a moto e tornou a partir, agora tomando o rumo de São Conrado. Queria certificar-se de que no bairro, a ser em breve invadido, não havia nenhuma força policial, além da habitual guarnição de quatro homens do Posto da P.M. situado junto à Praia do Pepino.
***
Erika ligou em tomo das 18:00 horas, perguntando se haveria algum risco em enviar uma mensagem àquela hora. Helena respondeu que não. Steiner avisara que iria inspecionar umas Bases e só regressaria dentro de uns dois a três dias. A filha disse algumas palavras carinhosas e apressou-se em desligar. A esposa do brigadeiro ficou inquieta: tinha percebido urgência e tensão na voz de Erika. Foi até a janela do quarto e ficou espreitando a rua, à espera. O mensageiro chegou de moto vinte minutos depois. Depositou a carta na caixa de correio, deu três buzinadas e se foi. Helena desceu, recolheu o envelope e voltou ao quarto. Sentou-se na cama e começou a ler:
"Rocinha, 24 de março de 200_
Mamãe:
Há dias eu e Ítalo fomos ver a nossa futura residência no Recreio dos Bandeirantes. É um antigo sonho que principia a se concretizar. Não lhe contei antes para esperar o momento próprio da surpresa, porém acho que já lhe havia falado a respeito, naquele dia em que revelei que ia me casar, lembra? Pois é. Ítalo vendeu alguns imóveis herdados do Líbório e, com o dinheiro, comprou uma bonita casa, pertinho da praia e próxima ao local onde ele pensa montar uma firma de informática, com dois colegas da NETBRÁS. Planejamos mudar dentro de alguns meses e Naír ira morar conosco. Estou muito feliz com a ideia, principalmente porque será maravilhoso para a Pâmela crescer à beira-mar. Mas, antes que o sonho se realize, teremos de ultrapassar uma fase difícil, a qual, queira Deus, não se transforme em pesadelo. Breve, muito breve mesmo, meu Ítalo vai se lançar num sério empreendimento, até certo ponto perigoso.Porém, trata-se de uma missão a que há muito se propôs realizar: o resgate de uma dívida para com seu povo. E eu o apoio integralmente, não só por amor, mas pela convicção de que se trata de uma causa nobre e justa. Estou cometendo uma indiscrição ao escrever sobre isso, mas tinha de alertá-la afim de que os acontecimentos não a colham totalmente de surpresa. É provável que, a qualquer momento, Ítalo se torne uma notoriedade e que, em decorrência, sua imagem venha a ser, por alguns, denegrida e vilipendiada. Mas não se deixe ludibriar pelas notícias iniciais ou por falsas interpretações. Aguarde que todo o processo se complete e então reconhecerá a grandeza do gesto do meu marido. Perdoe-me expor o assunto assim tão vagamente, mas não posso ser mais precisa. E não permita que ninguém tome conhecimento do conteúdo desta carta. Quando a poeira assentar e se tudo transcorrer como esperamos e ansiamos, então Ítalo terá cumprido a promessa feita a sua gente e nós partiremos para iniciar uma nova vida. Reze por um desfecho feliz, e confie.
Mil beijos e até breve.
Com muito amor ,
Erika
P.S.: Este assunto não deverá sequer ser mencionado por telefone."
Helena foi até o pequeno cofre escondido por trás das roupas, dentro do seu armário, ajustou a combinação, abriu-o e guardou a carta. Depois dirigiu-se à janela e ficou olhando a rua com o coração apertado e o pensamento carregado de incertezas e maus presságios.
56
Às 18:15 horas o Major Alencar entrou na Sala de Comando da Base Aérea e anunciou:
- O capitão Gustavo está chamando pelo rádio.
Steiner e o coronel Veiga interromperam a conversa e se dirigiram rapidamente ao Centro de Comunicações.
- Ligue o gravador e instrua o capitão para enviar a mensagem - determinou o comandante da Base para o major Garcia que manipulava o potente receptor-transmissor.
Ele apertou um botão acionando o sistema de gravação ao mesmo tempo que falava ao microfone:
- Águia Um acusando recebimento de prefixo. Pode falar AE 2417?
A voz do agente do SISA encheu a sala:
"Confirmada invasão dos favelados da Rocinha. O ataque terá início à zero hora, repito, zero hora. São Conrado e, possivelmente, Barra da Tijuca e Recreio dos Bandeirantes, são os alvos do ataque. Impossível até o momento determinar os objetivos da invasão e o efetivo dos invasores. Talvez esses dados não possam ser apurados em tempo. Contudo, observa-se uma grande mobilização de ônibus e caminhões que, provavelmente, serão utilizados para transportar homens a partir de diferentes pontos de concentração na favela. Há também indícios de que pelo menos alguns favelados estão bem adestrados e portando armas automáticas. Aguardo instruções. Meu tempo é escasso. Câmbio."
O brigadeiro deu um passo à frente, tomou o microfone e disse:
- Gustavo, aqui é Steiner. Vamos estudar diversas opções de ação diante das suas informações. Mas a decisão final será tomada impreterivelmente até as 21:30 horas. Assim é imprescindível, repito, imprescindível - havia ansiedade na voz do brigadeiro - que você entre em contato conosco entre 21:15 e 21:30 horas. Caso não possa utilizar o rádio, comunique-se por telefone com o aparelho privativo do Comando. O número é 33770077, entendido? Repita. Câmbio.
- "Entendido, entrar em contatos entre 21:15 e 21:30 horas por rádio ou telefone, n°3 3770077. Câmbio."
- Muito bem, Gustavo, bom trabalho. Tente ainda obter novos dados sobre o plano deles, mas tome cuidado. Boa sorte, desligo.
Um estranho silêncio pairou no ar por incontáveis segundos após as últimas palavras do brigadeiro. Finalmente Steiner virou-se para o seu ajudante-de-ordens e disse:
- Alencar, providencie um contato telefónico urgente com o Governador do Estado. Em seguida, dirigiu-se a um jovem oficial da Polícia da Aeronáutica que, atento mas impassível, achava-se postado junto à porta.
- Tenente, avise os coronéis Jansen, Leozzine e Maciel para estarem na Sala de Comando dentro de 15 minutos - e voltando-se para o Coronel Veiga, concluiu: - Enquanto eu me comunico com o Governador, providencie para que um Tucano III (*) verifique imediatamente a situação na Rocinha e adjacências.
**
Após alguns minutos despendidos no processo de localizar o Chefe do Executivo Fluminense, começou o diálogo entre este e o comandante do III COMAR. Os dois homens conheciam-se apenas superficialmente - em decorrência das eventuais solenidades a que ambos tinham de comparecer - o que deu à conversa um aspecto formal, que se tornou ainda mais contraído pela natureza do assunto em questão. O brigadeiro, sem maiores preâmbulos, expôs ao governador, com clareza e objeividade, as informações de que dispunha sobre i plano de invasão dos favelados, bem como suas apreensões quanto às consequências que dela adviriam. Omitiu apenas sua determinação de agir por conta própria contra a Rocinha, caso não fossem encontradas soluções outras que frustrassem o intento de Ítalo e seu bando. A princípio, o governador mostrou-se céptico, chegando mesmo a pôr em dúvida, um tanto veladamente, a credibilidade da fonte de informações do brigadeiro. Mas, diante da pronta e enérgica reação deste, mostrou-se mais receptivo, embora continuasse evasivo quanto a se comprometer em decretar Estado de Emergência e mobilizar todo o dispositivo policial estadual, sugestões estas propostas pelo seu interlocutor. Não obstante, terminou prometendo que determinaria, de pronto, ao secretário de Segurança que enviasse uma unidade da Polícia Militar para proteger os bairros que o comandante do III COMAR dizia estarem ameaçados.
***
Alguns minutos mais tarde, o governador relataria ao secretário de Segurança o teor de sua conversa com Steiner.
- Ele já me ligou ontem para falar desse assunto - informou o secretário. - Mandei verificar e nada havia de anormal na Rocinha.
A voz assumiu um tom confidencial:
- Acontece, Governador, que esse brigadeiro é um homem perigosamente obsessivo. Imagine o senhor que ele...
E o secretário contou tudo que sabia sobre o que considerava uma obsessão do militar em relação a Ítalo, consequente ao romance de Erika com o líder favelado. O chefe do executivo estadual deixou-se convencer, porém, mesmo assim, mais por desencargo de consciência do que por convicção, ainda argumentou:
- De qualquer forma, talvez fosse de bom alvitre, por medida de precaução, bloquear as saídas da favela e colocar alguma tropa na Barra e em São Conrado.
Os contra-argumentos do secretário não se fizeram esperar:
- Para isso precisaria mandar buscar em casa todos os policiais que estão de folga, o que seria praticamente impossível realizar em tão curto tempo. Ou então deslocar os batalhões de choque que estão em estado de alerta em Campo Grande para evitar os conflitos que julgamos possam sobrevir amanhã cedo, quando os grevistas começarem a fazer piquetes em frente das metalúrgicas. Uma terceira alternativa seria convocar as unidades de patrulha espalhadas pelos bairros, o que deixaria a cidade praticamente despoliciada.
O secretário calou e esperou que o governador se manifestasse, mas ele permaneceu silencioso, talvez ponderando sobre as palavras do seu auxiliar ou talvez aguardando que este oferecesse ainda algum argumento adicional que pusesse uma pá-de-cal definitiva no assunto. E foi precisamente o que aconteceu:
- Além do mais, senhor - lembrou astuciosamente o secretário - cercar, desnecessariamente a meu ver, a Rocinha e ocupar São Conrado e Barra durante a noite, decerto provocaria hostilidade e ressentimento entre os favelados e apreensão entre os não favelados. Seus adve sários políticos não deixariam de explorar o fato. Estamos a pouco mais de seis meses das eleições e naquela área existem cerca de 250 a 300 mil eleitores...
O tiro de misericórdia tinha sido disparado. O secretário ouviu o governador suspirar antes de dizer:
- É, talvez o melhor seja mesmo não fazer nada. Só espero que você esteja certo na sua avaliação a respeito da demência do brigadeiro.
- Não se preocupe, senhor - replicou o outro, tranquilizando - nada vai acontecer de sério por aquelas bandas, esta noite ou num futuro próximo. O caso do Sheraton foi um fato isolado e não envolveu ninguém da Rocinha. Amanhã de manhã, sim, pode haver problemas, mas lá para o lado de Campo Grande - o secretário deu uma risadinha de mofa. - E quanto ao nosso prezado brigadeiro Steiner, aposto que, a esta hora, sua alucinação já deve estar arrefecendo e ele entrará em período de acalmia por algum tempo, até que se instale uma nova crise. Não perca seu sono por causa dele, governador.
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* - Tucano III - avião de reconhecimento equipado com sofisticada aparelhagem capaz de fotografar no escuro com alto grau de definição.
57
Steiner sentou-se à cabeceira da comprida mesa de reuniões. À sua esquerda, os coronéis Túlio Veiga e Leozzine; à direita o coronel Lúcio Jansen e o tenente-coronel Ibsen Maciel. O brigadeiro correu o olhar penetrante pelos presentes. Depois começou a falar, pausadamente:
- Como ficou resolvido na reunião de ontem, estamos aqui para decidir o que fazer frente à confirmação, já recebida, de que um número não determinado de favelados da Rocinha, dezenas de milhares, provavelmente, invadirão a área sul da Grande Baixada de Jacarepaguá, à zero hora de amanhã, a partir de São Conrado. Telefonei há pouco para o governador e fiquei com a sensação de que ele, ou não acredita na eficiência dos nossos serviços de informação, ou prefere se omitir por razões políticas ou receio de assumir a responsabilidade que lhe compete. Prometeu enviar tropas da Polícia Militar do Estado para a área em questão, mas não estou certo que o faça. Como disse, achei-o por demais cauteloso e vacilante.
Steiner fez uma pausa, para logo prosseguir com metódica precisão:
- Um Tucano III está agora fazendo um voo de reconhecimento sobre a Rocinha, São Conrado e Barra, que passarão a ser considerados, a partir de agora, como "zona de operação em potencial". Dependendo do que venha a ser constatado, teremos de adotar uma decisão. Talvez a única alternativa viável para evitar a invasão dos favelados seja um ataque aéreo preventivo contra a Rocinha - o brigadeiro olhou para o relógio: faltavam sete minutos para as 19 horas. - E por não dispormos de muito tempo, considero imprescindível aprovarmos, agora, um plano para tal eventualidade. O coronel Jansen já fez um estudo preliminar da situação e vai apresentá-lo para nós. Por favor, coronel.
Lúcio Jansen ergueu-se e foi até uma tela na parede que ficava atrás da cabeceira da mesa. Dois soldados da Aeronáutica desdobraram sobre ela um mapa que mostrava a área que Steiner havia designado como "zona de operação em potencial". O coronel pegou um apontador e começou a falar:
- Do ponto de vista estratégico a coisa é muito simples: bloquear a Rocinha, impedindo que os favelados desçam em massa e bombardear os principais pontos de concentração de homens e armamentos. Esperamos identificá-los tão logo o Tucano III regresse com as fotos laser-infravermelho.
Jansen aproximou-se do mapa:
- Taticamente, a situação pode ser assim considerada: como não conhecemos o efetivo dos invasores e sendo escasso o número de homens da Polícia da Aeronáutica que deverá efetuar o bloqueio, impõe-se estabelece,r logo de saída, um cordão de isolamento intransponível que impeça a passagem dos favelados.
O coronel fez uma longa pausa, tomou fôlego e prosseguiu:
- E só vejo uma maneira de realizar isso: saturando com bombas napalm as áreas da Rocinha contíguas a São Conrado - o apontador indicou no mapa os pontos correspondentes - isto é, os bairros da favela conhecidos como Barcelos e Roupa Suja. E isso deverá ser executado imediatamente após as tropas do coronel Leozzine terem tomado posição, a algumas centenas de metros de distância, a fim de prenderem ou eliminarem os invasores que tentarem escapar na direção de São Conrado. Diante dessa situação, eles terão de se deslocar para o alto do morro onde deverão permanecer até que as coisas se acalmem. Após descarregarem os napalms, os helicópteros atacarão os pontos de concentração de armamentos. Em seguida, procederão a uma "operação de limpeza", a baixa altura, metralhando todos os homens armaos que forem localizados na Estrada da Gávea e nas ruas secundárias da favela. Dessa forma, elimina-se o poder de fogo do inimigo. Do contrário, haverá o risco de que eles consigam, em desespero, descer para dar combate às tropas da Polícia da Aeronáutica. Isso tem de ser evitado, não só para impedir baixas entre nossos homens, mas também porque alguns poderiam romper o bloqueio e espalhar o caos em São Conrado. É preciso ter em mente duas coisas: la) Não sabemos o efetivo dos favelados; 2a) Sabemos que eles dispõem de armas automáticas, granadas e explosivos plásticos.
O coronel Leozzine, um oficial corpulento, de ar sereno, interveio com sua voz grossa mas bem modulada:
- Sua colocação é perfeita, Jansen. Eu disponho apenas de 300 homens. Considerando que pelo menos uns 100 deverão ser empregados para isolar as entradas para São Conrado e a subida da Estrada da Gávea pelo lado da Marquês de São Vicente, só me restarão 200 homens para espalhar por toda a área que comunica o bairro com a favela. Um cordão de isolamento muito ténue, fácil de ser rompido. Dessa forma o seu, digamos assim, "bloqueio flamejante", conquanto impiedoso do ponto de vista humano, é, não só indicado, mas também imprescindíve,l do ângulo tático-militar.
O coronel Túlio Veiga fez sua primeira intervenção, tão tímida quanto o seu temperamento e sua aparência física:
- Por que não solicitar apoio do Exército? - perguntou, olhando de soslaio para o brigadeiro. - A Brigada de Paraquedistas, por exemplo, só ela, certamente desestimularia qualquer ataque dos favelados...
Steiner interrompeu-o com energia, porém sem elevar a voz. Suas palavras pareciam representar mais uma aula de tática e logística do que uma expressão de desagrado à sugestão do Comandante da Base:
- Há pelo menos três fatos a serem considerados em relação a esta sugestão. Em primeiro lugar, o comandante do Comando Militar do Leste é, como todos sabemos, um oficial competente mas um tanto vacilante em tomar decisões. Antes de agir, iria consultar todos os canais superiores e não moveria um só soldado sem a anuência do ministro do Exército, o qual, também, não faria nada sem a aprovação do presidente. E quando a autorização chegasse, se chegasse, de muito a invasão já se teria consumado.
O brigadeiro fez uma pausa, pigarreou e prosseguiu:
- Segundo: mesmo que, por milagre, o general Carneiro decidisse atender nosso apelo e mandasse logo os paraquedistas, como você sugere, se esles viessem por terra, certamente seriam detectados por observadores que os líderes favelados devem ter espalhados pelo alto do morro. Seria praticamente impossível que, mesmo à noite, o deslocamento de tropas do Exército passasse despercebido. Nesse caso, sentindo que iriam ser atacados, os bandidos tratariam de descer logo, para ocupar São Conrado e prender seus moradores, para usá-los como reféns. E você há de concordar, meu caro Veiga, que isso seria muito perigoso para os residentes da área e altamente desmoralizante para as Forças Armadas. Imagine só - a voz adquiriu um toque irónico - um grupo de negros favelados fazendo exigências aos comandantes militares da área.
Veiga corou e já ia tentando se justificar, quando Steiner deteve-o com um gesto da mão e continuou:
- Quanto à terceira hipótese que poderia ser aventada, a de que os paraquedistas fossem lançados sobre a área, esta seria uma ação temerária, considerando-se a enorme quantidade de edifícios e as condições do terreno. E, ainda assim, não creio que, não estando a Brigada de prontidão, fosse possível reunir o número necessário de homens no curto prazo de que dispomos.
Steiner parou, correu os olhos pela sala e concluiu:
- Não, senhores, esta é uma missão para a Força Aérea. Se as circunstâncias forçarem que venha a acontecer, como acho que acontecerá, a nós cabe executá-la.
Nesse instante, um capitão entrou na sala, dirigiu-se ao coronel Jansen e entregou-lhe um maço de fotografias. O comandante do I Esquadrão de Helicópteros de Combate examinou-as atentamente e depois anunciou com sua precisão habitual:
- São as fotos tiradas pelo Tucano III. Há três pontos a destacar: 1°) Não há nenhuma tropa da Polícia Militar do Estado na "zona de operação em potencial". 2°) Verifica-se um número anormal de ônibus e caminhões por toda a Rocinha. 3°) Foram identificadas, em muitos desses veículos e em dez outros locais da favela, imagens que correspondem a armamentos e explosivos.
Steiner levantou-se e disse:
- Bem, senhores, acho que isso elimina quaisquer dúvidas. Vou dar conta da situação ao chefe do nosso Estado-Maior, já que o ministro encontra-se no exterior. No entanto, fica decidido que agiremos, mesmo sem o respaldo dele. Eu assumo, pessoalmente, toda a responsabilidade pelo que venha a ser feito. Os senhores apenas cumprirão as minhas ordens. Alguma dúvida?
- Apenas uma ponderação, senhor - disse o coronel Ibsen, que até então não se manifestara - O ataque com napalms vai causar um morticínio indiscriminado, atingindo mulheres e crianças faveladas.
Steiner contemplou-o longamente com seus olhos frios e profundos:
- Tenho consciência disso, coronel. Mas lembre-se que, se não agirmos assim, também centenas ou milhares de crianças e mulheres de São Conrado e, talvez também, da Barra da Tijuca, poderão encontrar um destino não menos cruel nas mãos de bandidos sanguinários. É preciso não se esquecer o que ocorreu recentemente no Sheraton. Essa gente é bárbara, por índole ou por recalque. Trata-se de uma questão de escolher que inocentes deverão morrer: os nossos ou os deles. Mais alguma pergunta?
Dessa vez ninguém falou nada. Steiner então concluiu:
- Muito bem. Vou para o Centro de Comunicações a fim de videofonar para Brasília e dar conta do que se passa. Os senhores podem cuidar dos detalhes relativos ao ataque, segundo o plano do Jansen e do transporte da Polícia da Aeronáutica pelos Cegonhas. A decisão final será tomada às 21:30 horas e o ataque, se vier a se concretizar, deverá começar, pontualmente, às 22:45 horas. Por favor, levem em consideração esse cronograma.
Em seguida, o brigadeiro passou à sala ao lado e instruiu o major Garcia para que contactasse o chefe do Estado-Maior da Aeronáutica pelo videofone de intercomunicação reservada da Força Aérea.
58
Terminaram de jantar pouco depois das oito horas. Na verdade, foi um simulacro de refeição. Os pratos permaneciam quase intocados. A tensão, já agora indisfarçável, não propiciava o apetite. Pâmela dormia, inocente e tranquila, no quarto ao lado. Ítalo - que se impusera esse interregno de reclusão familiar durante a agitação de todo o dia - amassava, distraidamente, fragmentos de pão espalhados sobre a mesa, repetindo o costume da filha. Erika permanecia abstrata, distante, o rosto apoiado nas mãos, o olhar vagando pela sala. Um momento difícil. Dentro em pouco viria a despedida que, só Deus o sabia, tanto poderia significar um simples "até logo" quanto um "adeus para sempre".
Ele ergueu os olhos e disse:
- Erika, eu queria que você e a Pam fossem agora pra casa de sua mãe e esperassem lá até tudo terminar.
Ela, despertando do estado de quase letargia, sacudiu a cabeça negativamente.
- Não, eu vou ficar aqui.
Ele insistiu:
- Escute, amor, se o plano falhar, talvez nos ataquem e tudo pode acontecer.
Erika fitou-o bem dentro dos olhos.
- Ítalo, se você morrer, de que me valerá a vida? Nada!
Ele permaneceu um instante pensativo.
- Sim, entendo, pois também não saberia viver sem você - e como se lhe tivesse ocorrido uma súbita lembrança, prosseguiu: - Sabe? É estranho. Outro dia, remexendo numa caixa de mamãe, procurando uns papéis de meu pai, que o Dr. Edgar me pediu, para resolver o problema de uma escritura, achei, por acaso, uma poesia. Não sei como foi parar lá, nem por que resolvi guardar comigo. Mas, agora, minha superstição diz que foi escrita pra nós dois. Fala de alguém que morre e deixa um grande amor. Quer ver?
Erika fez que sim.
Ítalo tirou do bolso da blusa um pedaço de papel, já desgastado pelos anos e passou-o à mulher. Ela leu:
Amo como nunca pensei amar pudesse. /
E tanto que se, porventura, amor, tivesse /
De partir, eu não sei, meu bem, por quanto tempo. /
Poderia viver a dor do sofrimento. /
E, não voltando, então por certo morreria. /
Mas um dia, de alguma parte do infinito. /
Eu gritaria por você e esse meu grito /
Transpassaria o próprio umbral da eternidade /
E eu voltaria, amor, em forma de saudade.
- É lindo... é triste mas é lindo - disse Erika sensivelmente comovida. - De quem é?
- Não sei, mas acho que foi escrito há muito tempo.
- Reflete um sentimento de amor tão intenso, que desafia a fronteira entre a vida e a morte.
- Sim, é muito bonito - concordou ele repondo o papel no bolso da blusa.
Erika suspirou fundo e comentou:
- Essa poesia me fez lembrar aquelas últimas palavras do padre quando nos casamos: "Até que a morte os separe". Para mim, isso é impreciso. Talvez sirva para outras pessoas para quem o amor, ou melhor dizendo, pseudo-amor, quando existe, é apenas uma parcela do contrato de casamento. Não tem nada a ver conosco - a voz dela baixou de tom e adquiriu um "que" de misticismo. - O padre deveria ter dito: "Até que a morte os leve juntos para a eternidade". Aí sim, realmente teria falado de nós dois.
Ítalo, sensibilizado, contemplou a esposa por algum tempo, como que absorvendo todas as implicações do que a mulher havia dito. Depois tomou-a nos braços e perguntou, talvez numa derradeira tentativa de dissuadi-la do propósito de ficar:
- E a Pam?
Erika libertou-se parcialmente do abraço, para poder fitar bem dentro dos olhos do marido.
- Se formos sacrificados - disse ela - Deus decidirá se nossa filha irá conosco ou sobreviverá para, quem sabe. encontrar também um dia uma grande paixão e, através dela, perpetuar o nosso próprio amor.
Ítalo capitulou. Passou a mão carinhosamente pelo rosto da esposa.
- Você tem razão, fique. Nada acontece por acaso, está tudo escrito.
Instintiva ou casualmente, seus dedos acariciaram a medalha de São Jorge à mostra pela blusa entreaberta. E aí ele se transformou: os olhos cintilaram e os lábios se abriram num sorriso longo, largo e descontraído: um sorriso de fé! Depois falou, convicto:
- Vai dar tudo certo e breve vamos começar uma vida nova lá no Recreio dos Bandeirantes.
Uma frase simples mas que valia por uma promessa de esperança, a que ambos necessitavam desesperadamente se agarrar no instante quase insustentável da despedida. E o fizeram. O rosto de Erika se iluminou.
- Mas é claro, amor - ela também sorria - os deuses seriam muito perversos se decidissem de forma diferente.
Ítalo foi até a geladeira e pegou uma garrafa de cerveja. Encheram os copos e brindaram:
- À vida - saudou ele.
- À vida - exclamou ela.
Em seguida, beijaram-se longamente. Depois, o líder da Rocinha saiu para o seu encontro com o imprevisível.
59
A conversa entre Steiner e Vasconcelos foi curta, seca e inócua. O chefe do Estado-Maior, indiferente aos argumentos de Marcos Fábio, insistiu na tese de que a Força Aérea deveria manter-se alheia a uma situação "da exclusiva competência do Governo Fluminense". O comandante do III COMAR desligou o videofone, refletiu um instante e determinou ao major Alencar que ligasse, pelo telefone privativo, para o Palácio da Alvorada em Brasília. Mas não conseguiu, como pretendia, falar com o presidente. Um zeloso assessor recusou- se a acordar o primeiro mandatário, alegando que S. Exa. estava acamado com muita febre e não poderia ser incomodado. E quando Steiner relatou ao assessor o que estava acontecendo e que, portanto, considerando-se a gravidade da questão, achava que somente o Presidente seria capaz de convencer o Governador a agir, teve como resposta : - "Definitivamente, Brigadeiro, não posso incomodar Sua Excelência, visto que a ordem para não incomoda-lo foi deveras categórica. Portanto, sugiro que o senhor volte a insistir com o Governador..." Irritado, Steiner não esperou que a frase terminasse e desligou o telefone. Em seguida, tomado de súbita inspiração, pediu a seu ajudante-de-ordens que telefonasse para o 15° Distrito Policial a fim de localizar o delegado Fernando. "Eis alguém que dará crédito às informações de Gustavo. Por que não pensei nele antes?", refletiu o brigadeiro, enquanto aguardava notícias sobre o paradeiro do delegado. Mas a esperança durou pouco: Alencar, que tinha saído para fazer a ligação por outro aparelho, voltou e disse:
- Nada feito, senhor. Da delegacia informaram que o homem está de férias, viajando pelo interior.
Steiner respirou fundo. Sentia-se, ao mesmo tempo desapontado e, de certa forma, aliviado. "Tentei tudo" disse para si mesmo, justificando-se. "Agora só resta uma opção." Consultou o relógio: 20:42 horas. Ergueu os olhos para o major e ordenou:
- Convoque os coronéis para uma reunião às 21:30 horas na Sala de Comando.
**
E, dessa vez, Steiner não perdeu tempo com preâmbulos. Ao entrar, precisamente às 21:30 horas, na Sala de Comando, foi logo anunciando, enfaticamente:
- Senhores, diante das informações recebidas de nosso agente na Rocinha, dos dados colhidos pelo Tucano III, da omissão do Governador do Estado, do desinteresse do Chefe do Estado-Maior da FAB e da impossibilidade de comunicação com o Presidente, minha decisão está tomada. O Primeiro Esquadrão de Helicópteros iniciará o bombardeio da favela às 22:45 horas.
Em seguida, os comandantes das unidades operacionais fizeram uso da palavra, de forma rápida e concisa: Leozzine falou que o Batalhão de Polícia da Aeronáutica estava pronto, aguardando a hora de embarcar e que, vinte minutos antes da partida, seus homens seriam informados sobre a missão. Ibsen Maciel deu ciência que 15 Cegonhas já se encontravam com suas tripulações a postos.
Steiner assentiu com a cabeça e virou-se para Jansen:
- E o Esquadrão I ?
- Os pilotos estão na Sala de Operações Táticas à espera de instruções.
- Muito bem, iremos ter com eles, assim que falarmos com Gustavo.
***
Naquela mesma hora, tendo se certificado de não ter sido seguido, o agente do SISA aproximava-se do Galpão. Um "pretoriano" atravessou a rua e veio em sua direção, como se quisesse interceptá-lo. Gustavo ofereceu-lhe um cigarro e comentou:
- Até que você é um cara atento. Ítalo vai gostar de saber disso.
O "pretoriano", bem preto aliás, mostrou os dentes alvos em sinal de reconhecimento e se afastou, feliz. O agente sorriu, deu uma espiadela para a lua-cheia que começava a despontar por cima dos barracos, abriu o cadeado e entrou no galpão, fechando a porta. Não precisou acender a luz. O luar que penetrava pela clarabóia era suficiente. Ele ligou o Cobra, ajustou a frequência e começou a chamar, à baixa voz, o Centro de Comunicações da Base Aérea.
Steiner estava a postos, junto ao aparelho de rádio quando veio o chamado. Garcia acertou os "diais" e passou o microfone para o brigadeiro. Este foi direto ao assunto, tão logo reconheceu o prefixo do agente.
- Gustavo, aqui é Steiner. Ouça com atenção. A decisão foi tomada. O Esquadrão I atacará às 22:45 horas, repito, 22:45 horas. Toda as saídas da Rocinha estarão bloqueadas pela Polícia da Aeronáutica. Saia antes da hora H, entendido? Câmbio.
- "Entendido, senhor. Alguma outra ordem? Câmbio".
Steiner pareceu hesitar. Apertou os lábios e disse:
- Não é uma ordem, Gustavo, mas um pedido pessoal. Tente tirar Erika e a menina daí antes que o bombardeio comece - fez uma pausa, indeciso, mas concluiu: - Boa sorte... desligo.
A voz voltou sem a firmeza habitual, denunciando o estado de emoção do agente do SISA:
- "Prometo-lhe que farei tudo que for humanamente possível, senhor... até breve... desligo".
Os oficiais presentes evitaram encarar o brigadeiro para não constrangê-lo. Pela primeira vez viam o chefe deixar transparecer um momento de fraqueza diante de seus comandados. Mas a recuperação de Steiner foi imediata. Voltando-se para Jansen, ele disse num tom firme e controlado:
- Venha, Coronel, é tempo de elucidar seus homens quanto à natureza da missão.
***
Gustavo deixou o galpão e começou a andar apressado em direção à Estrada da Gávea. A cabeça fervilhava. Dispunha de pouco mais de uma hora para tentar retirar Erika e Pâmela da favela. Mas como fazê- lo? Primeiro tinha de contar com a sorte: encontrar a moça e encontrá- la só. Se Ítalo ou qualquer outra pessoa estivesse junto, as chances seriam virtualmente nulas. Contudo, mesmo se a encontrasse sem ninguém por perto, como convencê-la? Poderia tomar a arma de um desses "pretorianos", apossar-se de um carro e obrigá-la, sob ameaça, a vir com ele. Mas e se ela resistisse e gritasse por socorro? Não, assim não daria certo. Teria melhores chances se contasse com a aquiescência de Erika. Porém, como conseguir isso? Havia apenas uma saída: contar a verdade e esperar que ela compreendesse a situação e não o denunciasse. Se Erika o fizesse, não só ele seria de pronto eliminado, como. certamente Ítalo anteciparia a invasão. Ruiriam por terra os planos de Steiner e os bairros de São Conrado, Barra e Recreio dos Bandeirantes ficariam à mercê dos favelados. Uma situação extremamente delicada, disse consigo mesmo, já principiando a subir a Rua 5. Por um instante chegou a pensar em desistir mas lembrou-se da promessa feita ao brigadeiro. Não, pelo menos tinha de tentar. Iria à casa de Ítalo e, caso Erika estivesse só, revelaria a ela a sua identidade e o que estava por acontecer. A partir daí, improvisaria segundo a reação dela e de acordo com as circunstâncias.
Erika de fato estava só. Ítalo achava-se, naquele momento, percorrendo a favela, indo de moto de um ponto de concentração para outro, assegurando-se que os homens já estavam reunidos e as armas escondidas nos locais previamente determinados. Pâmela já tinha ido dormir e Nair, embora estivesse por chegar para fazer companhia à nora, ainda não havia aparecido. A lua brilhava mais alto agora, no céu límpido e estrelado e a noite estava quente. A janela da sala fora deixada aberta para que a leve brisa que vinha do mar distante atenuasse o calor. Gustavo parou diante da porta, hesitou um segundo e bateu. Se Ítalo aparecesse, inventaria alguma desculpa com relação ao radiotransmissor. Mas foi Erika quem veio abrir.
- Oi, Felipe - disse ela, surpresa e um tanto sem jeito. - Está procurando pelo Ítalo? Ele saiu mas é capaz de andar lá pelos lados da União.
- Não vim à procura dele — replicou Gustavo, decidido a aproveitar aquela vantagem inicial. - Vim falar com você.
- Comigo? - a voz traduzia certa dose de desconfiança.
Ele respirou fundo. Agora ou nunca, pensou.
- Sim, tenho uma coisa muito importante para lhe dizer.
A expressão facial dela endureceu. Se aquilo fosse alguma "cantada" ou brincadeira de mau gosto...
- Escute, Felipe - falou a moça com rispidez, disposta a pôr logo um basta naquela estranha situação - Ítalo não vai gostar nada disso. É melhor você...
Ele interrompeu-a bruscamente:
- Meu nome não é Felipe...
Ela principiou a fechar a porta. O pé dele impediu-a.
- ... Sou o Capitão Gustavo Mendes, agente do SISA. Esta palavra significa alguma coisa para você?
Erika pôs a mão na testa e arregalou os olhos. Teria ouvido bem? Ele percebeu a confusão no rosto dela e prosseguiu, falando rapidamente:
- Estou aqui cumprindo uma missão de infiltração por ordem do seu pai e estou a par de tudo sobre os planos de Ítalo para a invasão desta noite.
- Oh, meu Deus! - exclamou ela, atónita, recuando instintivamente para dentro da sala.
Gustavo entrou e fechou a porta atrás de si.
- Isso é uma brincadeira, não é? - a voz dela transformou-se numa súplica quase inaudível.
O agente do SISA sentiu que devia continuar pressionando, enquanto dispunha da iniciativa.
- Não - disse ele com energia - é sério, muito sério. E eu estou aqui para levar você e Pâmela para fora da Rocinha, agora, sem perda de tempo.
Os olhos dela se arregalaram ainda mais.
- Você está doido. Acha que abandonaria Ítalo numa hora dessa?
- Erika, por favor, ouça: dentro de uma hora a Força Aérea vai bombardear esta favela- a voz dele cresceu em intensidade e veemência. - Prometi a seu pai retirar você e a menina antes que este lugar vire um inferno. É a sua vida e da garota que estão em jogo, entende?
Erika pareceu não atentar para a última frase. Como um autômato, deixou-se arriar numa cadeira, murmurando:
- Eles não fariam isso... seria um massacre.
Gustavo contra-atacou de imediato:
- E o que você acha que aconteceria se toda essa gente, chefiada por seu marido e armada até os dentes, descesse para ocupar aqueles bairros lá embaixo? Eu lhe digo: estupros, saques, assassinatos. Lembra do que se passou no Sheraton?
Os olhos de Erika tinham perdido todo o brilho, as mãos estavam caídas, inertes, sobre o colo. Ela sacudiu a cabeça.
- Papai... papai não pode fazer isso. A gente daqui nada tem a ver com o que houve no Sheraton.
De repente, Erika levantou-se e correu em direção à porta.
- Tenho de avisar o Ítalo.
Gustavo foi mais ligeiro. Barrou-lhe a passagem e segurou-a firme pêlos ombros.
- Não. Se fizer só vai piorar as coisas. Mesmo que os favelados desçam antes da hora planejada, isso não impedirá o ataque aéreo contra a Rocinha. E, então, o pessoal daqui perderia totalmente o controle e massacrariam aquela gente lá embaixo. O que você está querendo, uma chacina dos dois lados?
Ela encarou-o e disse:
- Felipe, Gustavo, qualquer que seja seu nome, escute você também: meu pai vai cometer um erro monstruoso. Ítalo não planeja descer para nenhum banho de sangue. Ele quer apenas ocupar São Conrado, pacificamente, a fim de negociar com o Governo sobre as terras do Laboriaux.
Gustavo largou os ombros dela.
- Erika - ponderou ele - use o bom senso, pelo amor de Deus. Depois do que ocorreu no Sheraton, ninguém vai acreditar que milhares de favelados armados até com explosivos vão invadir um bairro rico como São Conrado, apenas visando usar a área ocupada como trunfo para negociações.
Ela passou a mão pêlos cabelos. Um lampejo de esperança surgiu nos olhos castanhos.
- Espere, eles acreditariam se você lhes dissesse.
Ele fitou-a, intrigado.
- Talvez, mas como poderia ter certeza disso?
Erika animou-se um pouco mais.
- Ítalo preparou um Memorando e um Manifesto que revelam os propósitos da Operação Igualdade e determinam a conduta a ser adotada pêlos homens.
- Operação Igualdade?
- É o nome que deram à ação que pretendem executar - ela se tornava cada vez mais ansiosa - ... e eu tenho cópias desses documentos.
Uma ideia começou a esboçar-se no cérebro de Gustavo: sim, talvez esse novo e inesperado fato pudesse mudar todo o contexto evitando que um morticínio se consumasse. O agente olhou para o relógio: 22:55 horas.
- Então, por Deus, Erika, apanhe esses papéis, rápido. Dentro de meia hora os Serpentes estarão decolando de Santa Cruz. Ela virou-se e correu para o quarto.
***
De São Conrado, Antônio Maria dirigiu-se à casa de sua amante, em Botafogo, para uma ligeira refeição e uma conversa descontraída que aliviasse a tensão que se acumulava dentrodele, em função da contagem regressiva para a hora H. Saiu de lá, em torno das nove e meia e foi direto à Rocinha. Quando a moto passou pelo Posto da P.M., o "pretoriano" do lado de fora da cabine ergueu o polegar num sinal de que tudo ia bem. Tonho acenou em resposta e subiu a Rua 5. A sede da União estava fechada. Ainda era cedo. O encontro do grupo dos seis tinha sido marcado para as 22:30 horas. Ele amarrou a moto a um poste, com uma corrente, e passou o cadeado. "Talvez Ítalo esteja em casa", pensou. "Não custa conferir." E começou a andar na direção da residência do amigo, a uns quinhentos metros de distância.
**
Erika voltou do quarto com o rosto afogueado, trazendo cópias dos documentos.
- Leia - disse ela ansiosa. - Tem duas cópias de cada.
Gustavo, habituado à leitura dinâmica, não precisou mais de cinco minutos para inteirar-se do conteúdo do Manifesto e do Memorando.
- Você tinha razão - admitiu ele ao terminar. - Olhe, talvez ainda haja uma chance de evitar o ataque. Vou até o galpão para transmitir o teor desses documentos ao Centro de Comunicações da Base Aérea.
Ele dobrou os papéis e guardou-os no bolso esquerdo da camisa, abotoando-o em seguida.
- Você acha que vai dar certo? - havia um misto de dúvida e esperança na pergunta. - Papai é difícil de convencer.
- A transmissão é automaticamente gravada e ouvida por quem estiver presente no Centro de Comunicações - explicou o agente. - Logo, os comandantes do Esquadrão de Helicópteros e da Polícia da Aeronáutica tomarão conhecimento dela. São homens sensatos e sensíveis e compreenderão que, diante do que pretendem os favelados, um ataque aéreo significaria uma ação desproporcional e se oporão a ele. E sem o apoio desses dois, seu pai, mesmo que ainda persista em sua intenção, nada poderá fazer. Além disso, sendo eu o "agente no local", sou o mais qualificado para emitir um julgamento. E depois de ter lido esses documentos, convenci-me que o bombardeio da Rocinha não mais se justifica.
Gustavo dirigiu-se à porta. Ao abri-la voltou-se e disse:
- Ainda assim, seria melhor que você e Pâmela saíssem da Rocinha... Eu posso falhar.
Erika sacudiu a cabeça.
- Você não falhará, mas se isso acontecer, eu e minha filha compartilharemos do destino de Ítalo.
O agente sentiu um nó na garganta, acenou com a mão e saiu apressado, quase às carreiras. Tinha um bom caminho a percorrer e muito pouco tempo disponível.
**
Tonho chegou em frente à casa de Ítalo, andando pela calçada oposta. A janela estava aberta. Viu Erika de pé no meio da sala conversando com um homem. Já ia atravessando a rua quando reconheceu Felipe. "Estranho", pensou, e movido por uma espécie de sexto sentido, recuou para um local menos iluminado e aguçou a vista. Foi aí que viu a esposa de Ítalo entregar a Felipe umas folhas de papel. E ficou observando o homem ler e depois guardar os documentos no bolso da camisa. Intrigado, assistiu Erika e Felipe conversarem por alguns instantes mais e, em seguida, ele encaminhar-se para a porta. Rápido, Antônio Maria deslocou-se para a entrada de um beco escuro, alguns metros adiante e aguardou. Felipe saiu e pôs-se a descer a rua num passo acelerado. O primeiro impulso de Tonho foi ir até Erika e exigir-lhe explicações. Mas logo mudou de ideia: isso ficaria para mais tarde. Levou a mão à cintura para assegurar-se da presença do punhal que costumava carregar e então, silenciosa e cuidadosamente, começou a seguir o agente do SISA. Uma tarefa fácil, não só porque esgueirar-se entre as sombras era algo que Tonho sabia fazer bem desde a infância, mas também porque a Gustavo, preocupado em chegar logo ao galpão, nem sequer ocorreu a ideia de se precaver contra eventuais seguidores.
***
Nair chegou à residência do filho cinco minutos após a saída de Gustavo. A nora pareceu-lhe extremamente nervosa; mas não estava também ela, Nair, cheia de apreensões? Ítalo falara-lhe à tarde sobre o que iriam fazer naquela noite e havia pedido que fosse fazer companhia à esposa, durante as horas difíceis que estariam por vir. Mas ela não podia adivinhar que Erika travava, naquele instante, um intenso conflito interior: teria agido corretamente confiando em Gustavo? Ou não estaria incorrendo numa traição, deixando de informar o marido sobre o que se passava? Recordou a lógica dos argumentos do agente do SISA: se Ítalo soubesse que iriam ser atacados, quem poderia prever a sua reação? Ou a de Antônio Maria? Tonho, este sim - ela o pressentia - era um homem perigoso, de instinto sanguinário. Diante de uma tal situação poderia até se insurgir contra alguma atitude mais moderada por parte de Ítalo, assumir o comando com a ajuda de sua "guarda pretoriana" e lançar os favelados num ataque alucinado. Aí sim, São Conrado mergulharia num mar de sangue e a represália de Steiner seria ainda mais impiedosa. Erika estremeceu com o pensamento e então concluiu que tinha optado pela solução mais ponderada. Agora só restava rezar para que Gustavo conseguisse convencer os homens em comando na Base a cancelarem o bombardeio.
A filha de Steiner pegou um lenço e pôs-se a torcê-lo, enquanto andava de um lado para o outro, sob o olhar também angustiado mas, por índole, mais resignado, de Nair.
60
A porta da Sala de Operações Táticas se abriu e Steiner entrou, seguido pelo coronel Jansen. Em uníssono, os vinte oficiais que compunham o I Esquadrão de Helicópteros de Combate puseram-se de pé, em posição de sentido.
- À vontade - disse o brigadeiro, acenando para que se sentassem.
Os oficiais acomodaram-se em suas cadeiras enquanto Steiner subia à plataforma. O comandante do III COMAR parecia mais erecto e imponente do que nunca, impecável em seu uniforme, com as quatro estrelas de tenente-brigadeiro cintilando nas golas da túnica cinza e o bastão de comando firme entre os dedos da mão esquerda.
Ele se pôs de frente para os pilotos e seus olhos passearam longamente pelo comprido auditório, como que perscrutando a fisionomia de cada um. Em seguida falou:
- Senhores, inicialmente desejaria que ouvissem uma gravação.
Jansen colocou um pequeno gravador sobre uma mesa num dos cantos da plataforma e apertou um botão. A voz de Gustavo fez-se ouvir no anfiteatro. A fita retransmitia as duas mensagens nas quais ele informava sobre os planos de invasão dos favelados. No mais rígido silêncio, os pilotos escutaram, atentos e estupefatos. Dramática e inteligentemente, Steiner havia logrado causar o impacto que premeditara. Quando terminou a gravação, o brigadeiro anunciou, com estudada gravidade:
- Esta voz é de um dos mais eficientes agentes do SISA. Meus senhores, estamos diante de uma séria ameaça. Sabíamos há tempos que alguns líderes favelados, fanáticos e ardilosos, vinham adquirindo armamentos e explosivos e treinando homens segundo normas de guerrilha, constituindo unidades para-militares, já agora, ao que tudo indica, plenamente adestradas para uma ação eficiente. Como acabaram de escutar, tencionam invadir, à zero hora, São Conrado, Barra e adjacências, só Deus sabe com que objetivo. Envidei, e o coronel Jansen é testemunha disso, todos os esforços, para sensibilizar o Governo do Estado em relação ao risco a que a cidade está exposta, mas, é lamentável dizer, inutilmente. Fizeram ouvidos de mercador. A Secretaria de Segurança não tomou a mínima providência para proteger os bairros ameaçados.
Steiner parou um instante para sentir a audiência. A atenção e o interesse eram absolutos. Em alguns rostos já se vislumbravam sinais de apreensão. O brigadeiro prosseguiu:
- Constitucionalmente, os Governos Estaduais cuidam da segurança pública, ficando a cargo das Forças Armadas as seguranças interna e externa. Mas onde se traça a linha divisória entre elas? Nosso compromisso de soldado é garantir a estabilidade do Estado e da Nação. Mas essas são também expressões abstratas. O que existe de concreto são as comunidades, estas sim, células vivas e atuantes. Quando sua segurança é atingida, comprometem-se também o bem comum e a estabilidade do conjunto, ou seja, da Nação. Por outro lado, nós existimos para combater qualquer inimigo. E nem sempre ele vem de fora, ou se apresenta como um movimento ideológico subversivo. Às vezes, como agora, ele sai do lamaçal da marginalidade para desafiar as instituições, implantar a violência, o terror e a desordem. Não sabemos, repito, os objetivos dessa gente. Tanto podem estar planejando descer para um banho de sangue, ou para ocuparem os bairros, visando utilizar seus habitantes e moradores como reféns, para obscuras negociações.
Steiner pôs-se a bater com o bastão de encontro à perna esquerda.
- Mesmo que seus líderes desejem apenas "ocupar para negociar", ainda assim, dificilmente, conseguiriam controlar dezenas de milhares de homens que ignoram a disciplina e o respeito pela pessoa humana. Muitos deles, a maioria talvez, são marginais, criminosos habituados a roubar e matar. Não consigo sequer imaginar a intensidade da onda de estupros, saques e assassinatos que poderiam advir, se essa invasão se consumasse.
Os olhos frios de Steiner voltaram-se para um mapa que havia sido pregado a um painel num dos extremos do tablado. Ele apontou com o bastão de comand.
- Na Barra e em São Conrado vivem milhares de famílias respeitáveis. Alguns dos senhores residem na área, outros têm parentes e amigos naqueles bairros. Seria uma omissão imperdoável, que pesaria para sempre em nossas consciências, permitir que lá ocorresse, em muito maior escala, os trágicos eventos do Sheraton Hotel. Quis o destino que um agente nosso descobrisse a trama dessa súcia de miseráveis. Quis também o destino que, pelo descaso ou descrença de outro, cou- besse à Força Aérea a missão de fazer abortar os planos dos invasores. Sei que não será uma tarefa agradável. Por motivos de ordem estratégica que o coronel Jansen explanará para os senhores, a tática a ser adotada implica no maciço bombardeio de uma parte da favela. Não será possível discriminar: haverá baixas entre mulheres e crianças. Mas esta é a lei da guerra. De uma guerra que eles pretendem iniciar. Nossa ação é de caráter preventivo e eu assumo, pessoalmente, toda a responsabilidade por quaisquer consequências que possam advir.
Steiner colocou o bastão debaixo do braço e amaciou a voz:
- Compreendo que alguns dos senhores, por questão de foro íntimo, não queiram participar da missão. A esses, peço que se levantem agora e recolham-se a seus alojamentos, até segunda ordem.
Por alguns segundos ninguém se moveu. Então, lentamente, um major alto e moreno ergueu-se e ficou em posição de sentido. Logo em seguida, dois outros oficiais também puseram-se de pé. Steiner dirigiu-se a eles, com indiferença:
- Muito bem, considerem-se dispensados. Queiram se recolher aos seus alojamentos.
Os três homens saíram de cabeça baixa. O brigadeiro acompanhou-os com o olhar e depois voltou-se para o auditório, passando a falar agora em um tom nitidamente marcial.
- O I Esquadrão de Helicópteros iniciará o ataque contra a Rocinha precisamente às 22:45 horas. Os Cegonhas decolarão vinte minutos antes dos Serpentes, a fim de que os destacamentos de Polícia da Aeronáutica estejam ocupando suas posições predeterminadas, quando do início do bombardeio.
E fazendo um gesto na direção de Jansen:
- Seu comandante cuidará agora dos detalhes táticos da operação. Boa sorte e até breve.
Os oficiais se ergueram enquanto Steiner, a largas passadas e olhando em frente, deixou a sala. Em seguida, Jansen foi até o mapa.
- Bem, rapazes - disse ele, com naturalidade - se agirem conforme as determinações e se não houver nenhuma falha mecânica, não deveremos sofrer qualquer baixa. Eu mesmo comandarei o ataque. Fechem as suas mentes para o que vai acontecer lá embaixo durante o bombardeio. Como disse o brigadeiro, isto é uma operação de guerra. E agora aproximem-se aqui do mapa, por favor. O plano tático é o seguinte...
***
A noite estava iluminada pelo luar. Os Cegonhas partiram às 22:10 horas. Os Serpentes alçaram voo, como previsto, vinte minutos mais tarde. Com o major Alencar a seu lado, Steiner assistiu à decolagem das 17 unidades do I Esquadrão de Helicópteros de Combate. Mas o cérebro do brigadeiro não captava a cena registrada pelos olhos. Seus pensamentos estavam distantes: o que estaria Gustavo fazendo agora? Teria conseguido retirar Erika e a menina da favela? Dentro de quinze minutos a Rocinha iria se transformar num mar de chamas. Se o agente falhasse...
Steiner apertou os lábios e procurou afastar a ideia da mente. Virou-se para seu ajudante-de-ordens e disse:
- Vamos para o Centro de Comunicações. Logo, Jansen começará a enviar mensagens sobre o progresso da Operação.
***
Sem se preocupar agora se havia ou não algum "pretoriano" vigiando, Gustavo destrancou o cadeado e entrou no galpão, batendo a porta. Acendeu a luz - dessa vez precisava de mais iluminação para ler os documentos. Sentou-se na cadeira de ferro, ligou o Cobra e começou a ajustar o "dial" da frequência.E tão absorto e ansioso se encontrava, que não percebeu a porta se abrir às suas costas. No momento em que pegava o microfone, sentiu um objeto pontudo espetando-lhe o pescoço, bem à altura da carótida e ouviu uma voz familiar soprar por trás do seu ombro.
- Quieto, seu filho da puta, ou então enterro esta porra na tua garganta.
Uma mão ossuda passou junto ao braço esquerdo do falso Felipe e desligou o aparelho. Depois ela se moveu para cima na direção do bolso da camisa do oficial. Tonho queria apanhar os documentos que Erika tinha dado ao agente. Gustavo sentiu o suor frio formar-se na testa. Sabia que Antônio Maria iria matá-lo de qualquer jeito, mais possivelmente depois que o interrogassem e arrancassem dele, por tortura certamente, o que tivesse para lhes confessar. A qualquer instante, algum "pretoriano" entraria por aquela porta e as coisas se tomariam ainda mais complicadas, pensou. Mas também Tonho poderia Iiquida-lo agora, se fizesse algum movimento em falso. No entanto, tinha de reagir, de lutar... Não estava em sua melhor forma física, mas conhecia o suficiente sobre combate pessoal para arriscar...
Num movimento rápido, jogou o corpo para a esquerda, livrando o pescoço, a mão direita subindo para pegar o pulso de Antônio Maria. Mas não escapou ileso da tentativa. Sentiu a ponta do punhal rasgar o lado direito do rosto, perto do malar, sem, contudo, registrar nenhuma dor. Evitou a queda, apoiando-se na mesa com a palma da mão esquerda, enquanto a cadeira tombava para trás. Simultaneamente, recuou o braço direito, aplicando violenta cotovelada bem na boca do estômago de Tonho. Este soltou um gemido e deixou cair a arma. Gustavo rolou para o chão e apanhou o punhal. Antônio Maria agarrou a cadeira de ferro. O agente do SISA levantou-se rápido e colocou-se de costas para a mesa onde estava o Cobra, já então empalmando a arma branca com a mão direita. Porém, Tonho não se intimidou. Com o olhar reluzindo de ódio, o favelado ergueu a peça de ferro e arremeteu, visando partir a cabeça do adversário. A cadeira desceu com incrível violência, mas Gustavo arrefeceu, parcialmente, a intensidade do golpe, levantando o braço esquerdo contra o antebraço de Tonho, ao mesmo tempo que projetava o braço direito para a frente, fazendo com que o punhal penetrasse entre as costelas de Antônio Maria. Mas um dos pés da cadeira ainda bateu contra a testa do agente. Ele desequilibrou-se, escorregou para trás, deu com a nuca na quina da mesa, viu tudo escurecer e desabou no chão. Tonho, a faca enterrada no peito, vacilou, deu um passo à frente, estendeu a mão procurando algo sólido para se sustentar e tombou ao solo, arrastando na queda o aparelho radiotransmissor.
61
Voando no sentido Barra-Leblon, a 500 metros de altitude e ocupando uma frente de l km de largura, os helicópteros convergiam sobre a Rocinha. Da cabine do Serpente que ia na vanguarda, Jansen olhou para baixo. O luar proporcionava uma visibilidade perfeita: os Cegonhas já haviam descido em vários pontos de São Conrado e homens e veículos podiam ser vistos, tomando posição ao longo de uma linha que ia do início da Estrada da Gávea até a Avenida Niemeyer. O coronel consultou o relógio: 22:45 horas. Hora de atacar. Seu alvo, um conjunto de casas de alvenaria e barracos situados à esquerda da entrada do Túnel Dois Irmãos, aparecia bem no centro do osciloscópio. Ao mesmo tempo que deu pelo rádio ordem de fogo às outras unidades, ele disparou dois dos mísseis carregados com bombas napalm.
***
Ítalo foi o primeiro a chegar na porta da sede da União. Passavam vinte e três minutos das 22:00 horas. Pensou em dar um pulo até em casa, mas sentiu que seria um erro dar a Erika mais um desgastante momento de despedida. Olímpio, Zuza, Severino e Zé Augusto foram logo aparecendo, nessa ordem. Todos portavam submetralhadoras. Ítalo trazia ainda um binóculo pendurado ao pescoço.
- Só falta o Tonho - comentou Olímpio.
- Deve andar por perto - sugeriu Severino, que tinha visto a Honda de Antônio Maria amarrada ao poste.
- Então, tudo em ordem? - a pergunta partiu dos lábios do lídrr favelado.
- Sim - respondeu Zé Augusto - as sete unidades dinteiras já estão reunidas nos pontos de concentração, junto aos veículos que irão transporta-las. Dois caminhões estão estacionados um pouco acima da sua casa. Chama menos atenção do que aqui. Às onze horas serão trazidos pra cá - apontou para a sede da União - para apanhar o resto das armas que estão lá dentro. Tá tudo acertado com os motoristas e com o "pretoriano" que está com a chave do prédio.
Ítalo fez um gesto de assentimento e disse:
- Tudo bem. Só falta saber onde o Tonho se meteu.
- Deve ter ido ver se tá tudo OK. no Posto da P.M. - sugeriu Zuza.
- Pode ser - admitiu o líder, mas quero que você e o Zé Augusto saiam à procura dele. Depois vão para o galpão. Felipe vai cuidar das comunicações, mas é bom vocês estarem perto para ajudar o Tonho. Pode surgir algum problema se a gente tiver de remanejar os homens de um ponto para outro, lá embaixo. Nunca se sabe.
Ítalo fez uma pausa e olhou as horas.
- Faltam dezoito para as onze, é melhor vocês irem agora. E não se esqueçam de verificar, pelos minitransmissores, a saída das unidades na hora marcada. Não pode haver atraso.
Zuza sentiu-se decepcionado em não participar da invasão: como gostaria de ver a cara assustada daqueles ricaços nas residências de luxo e nos hotéis! Mas calou. Sabia que de nada valeria argumentar com Ítalo. Ele e Zé Augusto subiram nas motos e partiram. Ítalo voltou-se para os outros dois companheiros:
- Esquisito esse negócio do Tonho não ter aparecido.
Voltou a consultar o relógio: 22:45 horas.
- Bem, não dá mais para esperar. Vamos embora. Eu mesmo quero ler o Memorando para os rapazes da unidade especial.
Nesse momento os ouvidos aguçados de Severino se aperceberam de um estranho ruído que parecia vir lá das bandas de São Conrado. Eram as turbinas dos Serpentes. Olhou na direção do barulho e viu clarões e rolos de fumaça na parte baixa da favela.
- Tem alguma coisa pegando fogo no Barcelos - anunciou.
- Também parece um incêndio lá na Roupa Suja - exclamou Olímpio.
Ítalo olhou para os locais indicados e notou que os clarões se multiplicavam. Teve ainda a impressão de vislumbrar algumas formas escuras deslocando-se pelo céu. Adiante do prédio da sede da União havia uma elevação, cujo topo podia ser alcançado por uma espécie de picada. Ele apontou para o local.
- Vamos subir pra ver melhor.
Subiram correndo. Ítalo espiou pelo binóculo e logo compreendeu o que se passava. Sentiu como que uma agulhada no coração.
- São helicópteros - disse - estão arrasando tudo lá embaixo.
- Olhe, alguns estão vindo pra cá - avisou Severino.
Ítalo baixou o binóculo, ergueu a cabeça e correu os olhos ao derredor. Vários Serpentes começavam a se deslocar para o miolo da Rocinha.
- Fomos traídos, alguém nos denunciou. Souberam dos nossos planos e atacaram - a voz de Ítalo não revelava medo, mas amargura, frustração e derrota.
- São da Polícia? - perguntou Olímpio ingenuamente.
- Não - respondeu Ítalo - são da Força Aérea. Só uma pessoa no mundo seria capaz de mandar fazer uma barbaridade dessa.
Sacudiu a cabeça como se compartilhasse da culpa.
- Estão queimando a nossa gente.
Dos recônditos da sua memória ressurgiu a lembrança dos olhos frios e metálicos de Steiner..
**
. Erika ouviu o estranho ruído que vinha dos céus e prontamente entendeu do que se tratava. Quantas vezes, quando Marcos Fábio comandava o I Esquadrão de Helicópteros de Combate, tinha escutado o barulho que os Serpentes faziam voando em formação. Gustavo tinha falhado, pensou ela horrorizada. Correu para a porta, gritando para Nair que, aturdida, fitava-a sem compreender:
- Estão bombardeando a Rocinha. Tome conta da Pâmela. Eu vou atrás de Ítalo.
E, desesperada, odiando o pai, Gustavo, o mundo, Deus e a si mesma, saiu porta afora à procura do homem a quem amava acima da própria vida.
Assim que Erika desceu a rua correndo, o piloto de um helicóptero que rumava para o Laboriaux, viu os dois caminhões estacionados um pouco acima do local em que ficava a casa de Ítalo. Ele fez uma curva rápida para a esquerda, a fim de ganhar distância, depois outra em sentido contrário, enquadrou os veículos no osciloscópio e disparou um míssil carregado de explosivos. Em seguida, retomou seu rumo original.
Vindo do Leste, o Serpente do capitão Figueiredo, após lançar três mísseis com bombas incendiárias sobre os bairros Roupa Suja e Barcelos, ultrapassou a Estrada da Gávea e desviou-se bruscamente para o Norte. Seu próximo objetivo era a sede da União dos Moradores da Rocinha, um dos locais em que as fotos tiradas pelo Tucano III haviam revelado a presença de armas e explosivos. A pouco mais de l km de distância, o prédio visado surgiu no centro do osciloscópio. O oficial apertou o 4° botão do painel inferior à sua direita e um míssil destacou-se do lado do helicóptero, partindo como um raio para o alvo.
**
- Vamos para o Laboriaux - disse Ítalo com firmeza, despertando da apatia inicial. - Talvez ainda dê para descer alguns homens - o olhar dele encheu-se de ódio. - Isso muda tudo. Estão nos massacrando. Temos de ir também atrás do sangue deles.
Os três homens correram ribanceira abaixo.
Quatro helicópteros eram bem visíveis contra o luar, voando para a parte mais alta da favela. Mais ao longe, outros Serpentes pareciam afastar-se a caminho do mar. Subitamente, o líder favelado, que ia na frente dos outros, viu um vulto de vestido branco, os cabelos esvoaçando, vindo na direção deles e gritando, a voz abafada pelo ruído das turbinas dos helicópteros e por explosões que, agora, pareciam vir de vários lugares.
-Ítalo, Ítalo!
Ele reconheceu a mulher e pôs-se também a gritar, em pânico:
- Erika, volte, pelo amor de Deus, volte!
O míssil disparado pelo capitão Figueiredo atingiu a parte lateral do prédio, fazendo com que as paredes ruíssem em pedaços no meio de uma fragorosa explosão. Horrorizado, Ítalo viu Erika ser projetada para o alto pelo deslocamento de ar, logo despencar sobre o solo e ficar imóvel. O capitão Figueiredo reduziu a velocidade, baixou o Serpente a uma altura pouco acima dos tetos das casas e continuou avançando para a parte alta da favela. Com as explosões, quase todas as lâmpadas da Rocinha tinham se apagado, mas o luar c os óculos infravermelhos especiais permitiam-lhe enxergar tão bem como ã luz do dia. E assim ele viu, bem à sua frente, três homens armados correndo na direção de um vulto caído próximo aos escombros do prédio destruído. Lembrou-se das ordens, ajustou o sincronizador das metralhadoras ao visor e abriu fogo.
Olímpio viu o Serpente vindo. Apontou a submetralhadora, mas antes que conseguisse puxar o gatilho recebeu uma rajada no meio do peito, rodopiou no ar e tombou sem vida sobre o chão de pedra.
Severino, estarrecido, parou de correr, ergueu os braços corno numa súplica e caiu morto. Uma única bala tinha-o alcançado bem no centro da testa.
Ítalo corria desesperadamente para Erika, alheio a tudo mais e nem deu conta da aproximação do helicóptero. De repente, sentiu uma sucessão de impactos interromperem o ímpeto da corrida. Era como se forças invisíveis o tivessem detido bruscamente em pleno ar: inúmeros projéteis tinham-no atingido, penetrandopelo tórax e abdomem c saindo pelas costas. Ele cambaleou, escorregou... apoiou-se nas mãos mas prosseguiu avançando, de joelhos, lutando contra o torpor que ameaçava imobilizá- lo, os olhos arregalados, sempre fixos na mulher caída a alguns metros adiante. Os joelhos por fim também cederam, ele arriou de bruços e, por um instante, ficou imóvel. Num imenso esforço, ergueu ligeiramente a cabeça, porém as pupilas, já se dilatando, não captavam mais nada. Mas uma força sobre-humana fez com que Ítalo continuasse, agora rastejando às cegas, centímetro por centímetro. Afinal, uma última percepção chegou ao seu cérebro, quase totalmente paralisado pela anóxia: a de que sua mão estendida tocava algo delicado e familiar. E aí ele parou de rastejar...
62
O bombardeio havia terminado e a maioria dos helicópteros iniciavam o retomo à Base. Ainda se ouviam tiros esparsos, disparados a esmo, por um ou outro favelado, contra o inimigo que mal chegaram a perceber... Mas deve ter sido principalmente o calor emanado dos barracos em chamas que trouxe Gustavo de volta à consciência. Tonto, confuso, coberto de suor, a cabeça doendo intensamente, ele foi, aos poucos, se dando conta de onde estava e do que tinha acontecido. Sentiu uma ardência no lado direito do rosto. Passou a mão: o sangue escorria de um corte perto do malar. Começou a se erguer quando a perna esbarrou em algo sólido. O local, esfumaçado, esta- va fracamente iluminado por uma estranha claridade que penetrava pela clarabóia e pela porta entreaberta. Olhou e reconheceu Antônio Maria, estirado de bruços. Pôs os dedos no pescoço do homem à procura dos batimentos da carótida. Não os encontrou. Virou o corpo e viu a faca mergulhada até o cabo, bem na altura do coração. Teve a impressão que ia vomitar. Respirou fundo, levantou-se e correu os olhos ao redor. O aparelho radiotransmissor estava no chão, quebrado.
Saiu para a rua. Por toda a parte, até onde alcançava a vista, as chamas se erguiam dos barracos. Fumaça e poeira dificultavam a visão. O ar estava pesado, difícil de respirar. Ele tossiu e começou a caminhar na direção da Rua 6. Ouviu um ruído característico e espiou para cima: um helicóptero passava ao largo, voando lentamente. À medida que descia para a Estrada da Gávea, o espetáculo tomava-se mais dantesco. Gritos de pavor e gemidos de dor pareciam vir de todos os lados. O vento quente trazia o cheiro nauseante de carne queimada. Ao chegar à estrada, principiou a subir, penosamente. Teve de contornar um ônibus, enegrecido e com as ferragens retorcidas. No interior, inúmeros corpos carbonizados. Perto, um enorme caminhão, com a carroceria perfurada de balas, tinha entrado por dentro de um prédio, arrebentando toda a fachada. O motorista estava morto, debruçado sobre o volante.
Praticamente, todas as luzes da Rocinha tinham se apagado, mas a claridade do luar e das chamas permitiam visualizar, naquela parte do morro e, mais abaixo, na área plana que dava para São Conrado, vultos correndo desordenadamente: eram homens, mulheres e crianças, aterrorizados e atônitos, tentando escapar do inferno escaldante. Ouviu apelos de socorro à sua esquerda. Uma mulata jovem tentava afastar uma viga de ferro atravessada entre amontoados de tijolos e pedaços de madeira queimada.
- Ajuda, pelo amor de Deus - implorou ela - minha filha está presa aí debaixo.
Gustavo conseguiu, com esforço, levantar a pesada trave. A cena que se seguiu foi devastadora: o que antes fora o rostinho, bonito talvez, de uma garota de uns quatro anos, não passava agora de uma massa disforme e avermelhada, num corpo sem vida. Ele virou-se, rápido, sem saber ao certo se o fazia para escapar ao horror visual ou para consolar a mãe da criança. Mas esta, milagrosamente, tinha desmaiado, libertando-se assim, por instantes, de uma dor que transcende qualquer tentativa de descrição.
E foi então que Gustavo sentiu culpa e frustração. Falhara na tentativa de se comunicar com Steiner e impedir o ataque. E ali estava o resultado do fracasso: horror, morte e destruição. Mas logo reagiu. Não havia por que se culpar pela falha involuntária. Tentara. Nada mais poderia ter feito. O destino quis que Antônio Maria se interpusesse no seu caminho, no momento crítico. E, afinal de contas, refletiu, ele, Gustavo, não passava de um simples peão no jogo. Ítalo e Steiner tinham sido as peças principais num tabuleiro montado pela fatalidade. Porém, restava-lhe um consolo: tentar encontrar Erika e a menina e retirá-las do morro. Havia prometido ao brigadeiro e era a única coisa que, com sorte, podia ainda realizar.
Alcançou afinal a Rua 5. Ali não se viam tantas casas incendiadas, mas não era pequeno o número de moradias atingidas por, assim julgou, tiros de canhão e bombas de fragmentação. A cada passo, tropeçava em corpos caídos, queimados os dilacerados. Alguns, estranhamente, pareciam intactos. A maioria, mortos; uns poucos feridos. Estarrecedor, ainda mais por haver muitas mulheres e crianças. Ele fez esforço para não pensar no que deveria existir entre os escombros dos barracos. Olhava rapidamente para as vítimas, buscando identificar alguém, mas logo seguia em frente. Finalmente, à cerca de uns cinquenta metros da sede da União, reparou num homenzarrão estendido no solo, ainda segurando uma metralhadora na mão direita e a cabeça estranhamente virada para trás, como se o pescoço tivesse sofrido uma rotação de 180 graus. Reconheceu Olímpio. A seu lado, de costas, com um orifício bem no meio da testa, o paraibano Severino, fitando o infinito. Um pouco além, não mais que dez a doze passos, deparou, então, com a cena que se incrustaria para sempre na lembrança: Erika, caída meio de lado sobre o chão de pedra, um filete de sangue ressecado no canto da boca. O vestido estava parcialmente rasgado, mas não se viam sinais de ferimentos externos. Contudo, a lividez do rosto atestava a ausência de vida. E, em ângulo reto com o corpo da jovem mulher, jazia Ítalo, de bruços, numa imensa poça de sangue, as costas mostrando incontestáveis buracos de balas. Os olhos dele estavam exageradamente arregalados, como se tivesse tentado retratar, para a eternidade, uma derradeira visão de horror e desespero. Mas o que mais impressionou e emocionou Gustavo, foi ver o braço estendido na direção de Erika, a mão grande e morena tocando a mão branca e delicada: uma última comunhão na hora do adeus! O oficial reclinou-se e procurou, ainda, num ato puramente reflexo, algum indício de vida nos pulsos do casal. Nada. Ouviu novamente o ruído seco das turbinas dos Serpentes. Dois deles passavam devagar, a baixa altura, verificando os resultados do ataque. Por mais alguns segundos, o agente do SISA ficou contemplando, com tristeza, os restos de Ítalo e Erika.
De repente, lembrou-se de Pâmela. Tinha de encontrá-la. Correu a vista em volta. O local estava deserto. O calor aumentava e a fumaça crescia. Ele reprimiu um acesso de tosse e tomou o rumo da casa do ex-líder favelado. A fachada estava apenas parcialmente danificada, o que permitiu a identificação. A porta linha sido arrancada e Gustavo entrou rapidamente. Um pedaço do teto havia desabado e a luz da lua penetrava no aposento. Ele viu as telhas partidas espalhadas sobre os móveis destruídos e, num, dos cantos da sala, identificou Nair, deitada de lado, o corpo virado para a parede e os braços estendidos para diante, como se, no ato de cair, tivesse procurado proteger alguém ou alguma coisa. Ele agachou-se e virou-a. Ela estava morta, o crânio aberto, deixando à mostra pedaços do cérebro. De novo, lutou contra a náusea. Afastou a mulher para o lado e deparou com Pâmela, sentada no chão, pálida, lábios cerrados, olhos arregalados mas enxutos, porém aparentemente ilesa. O corpo da avó tinha servido de escudo contra os estilhaços de bomba, os tijolos e as telhas... Gustavo tomou a menina nos braços e sentiu que ela respirava normalmente e o coração batia rápido e forte contra o peito. Tentou falar-lhe, duas, três vezes, mas não obteve resposta. Ela parecia indiferente a tudo, quase catatônica. Ele imaginou que a menina deveria estar sofrendo alguma espécie de choque emocional. Afagou-lhe os cabelos e saiu com ela para a rua.
Alguns metros adiante, parou e lançou um olhar para o local onde jaziam Ítalo, Erika, Olímpio e Severino. Então estremeceu. A cena, agora vista daquele ângulo, compunha uma imagem sinistra e perturbadora: aluz trêmula que vinha das labaredas distantes fazia com que as sombras dos corpos oscilassem lentamente, como se fossem silhuetas de dançarinas, protagonizando um macabro ritual. Gustavo virou-se rapidamente e se afastou. Não havia porque submeter a menina a um quadro que poderia talvez traumatizá-la para sempre.
Com Pâmela nos braços, começou a descer a Estrada da Gávea na direção de São Conrado. À medida que progrediam, diminuíam os gemidos e lamentos. Porém, à sua esquerda, o bairro Barcelos era um imenso mar de chamas! No meio da descida, depararam com dois mulatos e um branco que corriam em sentido oposto, voltando para o morro. No rosto dos três a mesma expressão de pavor e estupefação. O branco sangrava abundantemente na cabeça. Ao se cruzarem, um deles gritou, sem interromper a corrida:
- Volte, estão atirando lá debaixo em quem desce.
O agente do SISA prosseguiu,
mais cautelosamente. Ouviu uma rajada de metralhadora e um grito de dor. Jogou-se
ao solo, sobre o lado esquerdo, de modo a evitar que a Pam se machucasse.
Ela permanecia muda, "imperturbável" à toda aquela confusão. Continuou
rastejando, mantendo a menina bem junto dele. Um outro favelado subiu, cambaleando,
as mãos apertadas de encontro
- Ei, vocês aí embaixo. Não atirem. Sou o capitão Gustavo Mendes, da FAB. Tenho uma criança comigo e estou descendo.
Uma voz grossa e enérgica, respondeu:
- Capitão da FAB aí em cima?! Quem você pensa que engana, homem? Trate de voltar. Se tentar descer leva tiro. Por aqui não passa ninguém antes do amanhecer. Entendeu?
Gustavo tomou a gritar:
- Posso provar a minha identidade.
- Pois tente, mas daí mesmo - replicou a voz, entre incrédula e sarcástica.
- Muito bem. Então ouçam: repito, sou o capitão Gustavo Mendes, do SISA. O ataque à Rocinha foi ordenado peio brigadeiro Marcos Fábio Steiner, comandante do III COMAR e executado pelo I Esquadrão de Helicópteros de Combate, sediado em Santa Cruz e comandado pelo coronel Lúcio Jansen. E se vocês são da Polícia da Aeronáutica, como suponho, seu chefe é o coronel Airton Leozzine - fez uma pausa c perguntou: - Chega?
Seguiu-se um curto silêncio. Depois a voz voltou, agora respeitosa:
- Claro que chega, Capitão. Desculpe, mas é difícil imaginar um oficial da FAB vindo aí de cima. Por favor, desça. Dois homens estão subindo para ajudá-lo.
Instantes após, Gustavo passava a menina para os braços de um dos soldados que vieram ao seu encontro. Logo em seguida, um oficial, moreno e baixinho, acercou-se dele, fez continência e disse:
- Tenente Junqueira. As suas ordens, Capitão - e notando o ferimento no roslo de Gustavo - O nosso sargento-enfermeiro vai cuidar desse corte.
- Mais tarde, Tenente. Antes preciso enviar uma mensagem para o brigadeiro Steiner, Como posso fazer isso?
O outro respondeu, solícito:
- Falaremos pelo microrádio com um dos helicópteros que ainda estão na área e ele retransmite para a Base. Qual é a mensagem, senhor?
- Informe ao brigadeiro Steiner que necessito vê-lo urgentemente. Use meu código como referência: AE 2417,
O tenente deu rápidas instruções a um cabo, enquanto um sargento -enfermeiro se aproximava com a maleta de curativos.
Dez minutos mais tarde, uma viatura conduzia Gustavo e Pâmela até a Praia do Pepino, onde um helicóptero aguardava para levá-los à Base de Santa Cruz.
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Desde a decolagem dos helicópteros, Steiner mantivera-se atento, recebendo, através do Centro de Comunicações, as informações enviadas pelo coronel Jansen que liderava o ataque à Rocinha. Ao alívio provocado pelo evidente êxito da missão, logo anunciado, crescia a preocupação sobre o destino de Erika. Embora o brigadeiro não tocasse no assunto, nenhum dos presentes ignorava o fato e todos imag navam o drama e a angústia que seu chefe deveria estar vivenciando. Assim, quando minutos após a meia-noite, chegou a notícia que Gustavo restabelecera contato e estava a caminho da base, trazendo conm ele apenas uma criança, todos entenderam a solicitação do brigadeiro para que o deixassem a sós.
Steiner era por demais orgulhoso para permitir que outros partilhassem de seus problemas e emoções pessoais. Portanto, quando o ajudante-de-ordens abriu a porta para Gustavo, que trazia pela mão uma garotinha de olhar assustado, não havia ninguém, além do brigadeiro, na Sala de Comando. Por um longo momento, os dois homens permaneceram imóveis, sem dizer nada. O capitão, à procura das palavras apropriadas para o que se seguiria, enquanto o olhar de Steiner vagava, altemadamente, do rosto do oficial para a neta, a quem via pela primeira vez. Por fim. Marcos Fábio indagou, cautelosamente:
- E Erika?
O agente do SISA permaneceu mudo. O outro insistiu, com mais vigor:
- E Erika, Gustavo?
O capitão respirou fundo e respondeu, depressa, as palavras saindo quase aos borbotões, na ânsia de se livrar logo da trágica informação que não mais poderia ser postergada:
- Ela morreu. Morreram muitos, milhares talvez. Também o Ítalo.
O oficial fez uma pausa e, parecendo agora mais senhor de si, concluiu, mais devagar:
- Sinto imensamente, senhor, mas só pude salvar a menina.
O rosto de Steiner empalideceu, os olhos se estreitaram e os músculos da face se contraíram. Mas foi tudo. Ele não disse nada, limitou-se a assentir, de leve, com a cabeça. Gustavo tentou uma explicação:
- Brigadeiro, os fatos fugiram inteiramente ao meu controle...
Um gesto da mão espalmada do outro interrompeu-o:
- Não precisa justificar-se. Sei que fez o que foi possível.
O oficial tirou umas folhas de papel do bolso da camisa c passou- as ao seu superior.
- Erika deu-me isso - explicou. - Trata-se de documentos sobre os planos dos favelados. Tentei comunicar-me para contar a respeito, mas não consegui. Creio que, se o senhor tivesse tomado conhecimento do seu conteúdo, o ataque à Rocinha não teria acontecido.
As palavras pareceram soar como um misto de culpa e acusação. Os olhos de Steiner ensombreceram.
- Agora é tarde demais para esse tipo de especulação.
A voz demonstrava admoestação, mas havia um "que" de tristeza no tom enérgico. O brigadeiro foi até sua mesa, acendeu um foco de luz e orientou-o para que pudesse ler melhor os documentos. Gustavo continuou de pé, sempre segurando Pâmela pela mão. Ela permanecia quieta, mas agora, seu olhar passeava pelo aposento, observando as paredes cheias de mapas, retratos, gravuras e trofeus. Ficaram no mais completo silêncio por alguns minutos. Afinai Sieiner dobrou as folhas de papel e devolveu-as ao oficial, dizendo com firmeza:
- Tanto o Memorando quanto o Manifesto devem ser entregues ao SISA. E, se você os leu, como acho que o fez, certamente compreende que seu conteúdo deverá ser mantido em absoluto sigilo.
O frio pragmatismo do brigadeiro chocou Gusiavo. "Talvez", pensou, "o veiho conseguisse aceitar, naturalmente, toda aquela tragédia, até mesmo a morte da única filha, como uma dessas inevitáveis fatalidades de uma operação de guerra". Ou, então, quem sabe,"talvez ele não tivesse alma!" Mas, logo em seguida, Steiner teve um gesto que fez com que o oficial do SISA vacilasse em seu julgamento: o brigadeiro foi até à criança, tomou-a nos braços e ficou olhando o rostinho moreno e inexpressivo, por um longo minuto. Pam fitava-o também, indiferente.
- Ela está fisicamente bem - Gustavo apressou-se em explicar - mas creio que sofreu alguma espécie de choque emocional diante do que aconteceu.
O brigadeiro fez um gesto compreensivo, beijou a menina na testa e recolocou-a no chão, O agente vislumbrou um lampejo de ternura no rosto tenso, duro e amargurado de Steiner. E então entendeu o quanto deveria estar padecendo aquele homem, cujo incrível autocontrole não deixava transparecer a imensidão da sua dor e talvez nem o remorso pela chacina que havia desencadeado. Marcos Fábio ficou pensativo, distante, a cabeça abaixada, mão no queixo. Depois aprumou-se e falou, num tom mais suave que o habitual:
- Gustavo, gostaria que me prestasse um derradeiro favor.
- Pois não, senhor.
- Leve a menina para minha casa e conte a Helena o que se passou. Porém, faça-o com cuidado, de modo a abrandar, ao máximo, o impacto da notícia. Ela é uma mulher forte, mas mesmo assim...
- Brigadeiro, desculpe, mas não seria melhor o senhor ir para a sua residência?
Steiner afastou a sugestão com um gesto brusco da mão.
- Mais tarde, mais tarde. Antes tenho de acertar algumas coisas por aqui. Depois irei. Por favor, vá na frente e fale com Helena.
O capitão deu a impressão que ia de novo argumentar, mas o misto de suplica e autoridade nos olhos azuis, detiveram-no.
- Por favor, Gustavo... vá agora.
O agente do SISA engoliu em seco.
- Está bem, senhor.
Depois virou-se e deixou a sala com a menina. O brigadeiro ficou parado por um momento, voltou à mesa, sentou-se e premiu o botão do interfone. Seu ajudante-de-ordens atendeu.
- Pronto, senhor.
- Como estão as coisas, Major ?
- Continuam chamando pelo videofone. De Brasília e do Comando Militar do Leste. Também os telefones não param de tocar. Mas, seguindo as suas instruções, não estamos respondendo a ninguém.
- Muito bem, mantenhiim tudo assim, até.segunda ordem.
- Perfeitamente, Brigadeiro.
- E quanto aos Serpentes, já regressaram todos?
- Já, o senhor deseja falar com o coronel .lanscn?
- Por enquanto não. Tenho antes de preparar um relatório. Faça com que não me interrompam. Quando terminar, eu aviso.
- Certo, senhor - respondeu Alencar -, providenciarei para que não seja incomodado.
- Obrigado - disse Steiner, desligando.
Marcos Fábio então pegou uma caneta e algumas folhas de papel e começou a escrever, pausadamente.
Base Aérea de Santa Cruz, 01:45hs, 25/03/200_
Ao Exmo. Sr. Ministro da Aeronáutica
Sr. Ministro:
Considere esta exposição não como um relatório oficial e sim uma prestação de contas particular a quem sempre me distinguiu com sua amizade e confiança. Às 14:40 horas do dia 23, um agente do SISA deu ciência ao III COMAR da existência de fortes indícios, segundo os quais milhares de favelados da Rocinha preparavam-se para invadir, no dia seguinte, os bairros de São Conrado, Barra e adjacências, notificando, ainda, que esperava obter, a curto prazo, informações mais concretas que definissem os ohjetivos e a hora da invasão. Sabendo que V. Exa. encontrava-se no exterior, videofonei para o Chefe do Estado-Maior da Aeronáutica, pondo-o a par dos aconte- cimentos. S. Exa. disse-me que, a seu ver, o assunto era da competência exclusiva do Governo Estadual e que qualquer ação das Forças Armadas significaria uma intervenção federal não autorizada e, por- tanto, politicamente inviável. Comuniquei-me, então, com o secretário de Segurança do Estado do Rio de Janeiro, tendo dele recebido a lacónica resposta que "iriam investigar".
Às 18:00 horas do mesmo dia, por medida de precaução, transferi meu Cornando para a Base de Santa Cruz, a fim de ficar mais próximo das unidades operacionais da Força Aérea. Ontem, às 18:15 horas, nosso agente confirmou a informação anterior, avisando que a invasão seria desencadeada à zero hora de hoje. Liguei para o Governador. Ele mostrou-se incrédulo, chegando mesmo a questionar a veracidade da nossa fonte, mas prometeu que enviaria contingentes da Policia Militar para ocupar a Rocinha e os bairros que "nós julgáramos ameaçados". Apreensivo, reuni os meus assessores e os comandantes das un dades operacionais para discutirmos o que eu considerava uma situação de emergência na área do III COMAR. Temia uma repetição, em larga escala, dos trágicos eventos recentemente ocorridos no Sheraton Hotel. Foram então traçados planos para uma eventual ação preventiva. Imediatamente, um aparelho decolou para um voo de reconhecimento. Fotos tiradas com filmes laser-infravermelhos revelaram uma inusitada concentração de ônibus e caminhões na Rocinha, bem como a existência de imagens sugestivas de armamentos, no interior desses veículos e em várias instalações em pontos diversos da favela. Por outro lado, nenhuma tropa da Polícia Militar do Estado foi detectada, nem no morro, nem nos bairros adjacentes.
Às 20:32 horas voltei a videofonar para o Chefe do nosso Estado-Maior reiterando minhas apreensões. Ele apresentou-me os mesmos argumentos de antes e nada ficou resolvido. Fiz então uma última tentativa: liguei para o Palácio da Alvorada para falar com o presidente. Um assessor recusou-se a chamá-lo, alegando que S. Exa. não tinha passado bem à tarde e já havia se recolhido, tendo dado ordens expressas para não ser incomodado. Sugeriu-me, em troca, que voltasse a falar com o Governador do Estado.Às 21:30 horas, sentindo que o tempo se escoava e a ameaça crescia e diante da omissão das autoridades consultadas, decidi então agir por minha conta e risco. Não foi uma decisão fácil, mas era a única compatível com meu senso de responsabilidade.
Determinei o envio de tropas da Polícia da Aeronáutica para bloquearem as saídas da Rocinha e ordenei que unidades do I Esquadrão de Helicópteros de Combate efetuassem, às 22:45 horas, um ataque maciço contra os locais da favela onde se concentravam armamentos e sobre as áreas que davam acesso direto a São Conrado. Há pouco, tomei conhecimento do pleno êxito da Operação. Mas, como era de se esperar, do ataque resultou a morte de um número ainda não determinado de favelados. Conquanto tais mortes tinham necessariamente de acontecer, para que outros inocentes não viessem a sucumbir nos bairros que seriam invadidos, elas pesam, inexoravelmente, sobre os meus ombros e atingem a minha consciência.
Portan to, resta-me apenas um caminho. Não se interprete, contudo, esta minha derradeira decisão como atitude de arrependimento. Apenas inclino-me diante da fatalidade. Nas mesmas circunstâncias, voltaria a agir do mesmo modo. Permito-me, a propósito, citar um velho provérbio dos Samurais: "A vida é mais leve que uma pluma, mas o dever e a honra são mais pesados que uma montanha. "
Reitero a V. Exa. que, somente a num cabe toda a responsabilidade pelo acontecido. Assim, considere como meu último pedido, que nenhuma punição seja imposta aos oficiais e soldados da Força Aérea que participaram da Operação. Eles impediram que milhares de cidadãos ordeiros ficassem à mercê de um bando de marginais liderados por um fanático homicida. Obedeceram a uma ordem superior e cumpriram-na, colocando o dever e a disciplina acima de quaisquer sen- timentos pessoais. Ciente das razões e das consequências do meu ato, entrego-me ao julgamento da posteridade.
Atenciosamente
Marcos Fábio Steiner"
O brigadeiro releu a carta que escreveu e guardou-a num envelope timbrado da Força Aérea. Depois rabiscou umas palavras numa folha de bloco e colocou-a noutro envelope, endereçado a Sra. Helena Steiner. Era um simples bilhete. Dizia apenas:
"Tente compreender.
Adeus,
Marcos "
Em seguida, Steiner retirou da gaveta sua Beretta de 9mm, apontou o cano para o ouvido direito e, sem a mínima hesitação, acionou o gatilho...
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