A NOITE DOS FAVELADOS
Oliver Marti
EPÍLOGO
2020
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Dickens apertou o bot�o de "pausa" do gravador e olhou para o rel�gio. Mais de duas horas haviam se passado desde que come�ara a gravar. Foi at� a janela para respirar um pouco de ar fresco. Ainda estava relativamente claro, mas, l� na linha do horizonte, onde o c�u tocava o mar, os reflexos multicoloridos dos raios solares declinantes indicavam que a tarde ia chegando ao fim. S�rgio espiou � sua volta. Continuava s� na sala. E, se ningu�m havia at� ent�o aparecido para trazer-lhe not�cias, era porque tudo deveria estar correndo bem na "piscina de parto" e a crian�a ainda n�o tinha nascido. Teria tempo para terminar a grava��o. Na verdade, faltava apenas descrever o que se poderia considerar o EP�LOGO. Destravou o bot�o de "pausa" e recome�ou...
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Na manhã seguinte ao ataque à Rocinha, tão logo as notícias sobre a hecatombe chegaram à Brasília, o caos também tomou conta da capital federal. Os Presidentes da Câmara do Deputados e do Senado Federal convocaram uma reunião de emergência. Ao longo de uma série de discussões inócuas e pronunciamentos carregados de demagogia, alguém levantou a idéia de declarar o "impeachment" do Presidente da República, por não atendido ao telefonema de Steiner. O Presidente, a seu turno, mandava emitir uma Medida Provisória decretando a intervenção federal no Estado do Rio de Janeiro, cujo Governador deixara de atender à solicitação do brigadeiro, não enviando a Pol;cia Militar para defender São Conrado. O Governador, por sua vez, responsabilizava o Prefeito do Município do Rio por não haver este atendido ao pedido de Ítalo, para expansão da Rocinha . Todo mundo, enfim, procurava encontrar um "bode expiatório" para a tragédia.
Mas os membros do Ministério Público agiram com mais rapidez e eficiência. Dirigiram-se ao Ministério da Defesa e solicitaram que as Forças Armadas interviessem, de imediato, para evitar uma previsível situação de desordem, que poderia levar ao caos e comprometer a segurança nacional em todo o território brasileiro. Os militares não se fizeram de rogados: uma Junta Militar, formada pelos comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, asssumiu, de imediato, o poder, divulgando para todo o país, através de uma cadeia de rádio e televisão, uma proclamação justificando a decisão de ocupar temporariamente o poder, colocando sob o comando do Exército as policias rodoviárias, civis e militares, em de todos os Estados e estabelendo um período de exceção institucional para restabelecer a ordem, proteger a população e conceder ao Ministério Público carta branca para "varrer" a corrupção que, há muito, dominava a maioria das instituições públicas e inúmeros setores privados da nação. Aproveitava-se a situação para "passar a limpo o país". O Presidente da República foi retirado, à força, do Palácio do Planalto e os Governadores de todos os Estados foram prontamente substituidos por oficiais das três armas ou por membros dos Ministérios Públicos Federal e Estaduais. Os Prefeitos continuaram, provisóriamente, em seus cargos, tutelados pelos militares. O Congresso Nacional, as Assembleias Legislativas Estaduais e as Câmaras Municipais foram fechadas e o Supremo Tribunal Federal foi colocado em recesso.
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Durante as tr�s primeiras semanas que se seguiram ao bombardeio da Rocinha, todos os recursos p�blicos e privados dispon�veis na cidade do Rio de Janeiro foram direcionados para minimizar as consequ�ncias do dantesco acontecimento. Sentimentos generalizados de estupefa��o, incredulidade, revolta e medo confundiam-se com uma estranha sensa��o de al�vio, da parte dos que residiam em bairros que, se supunha, poderiam, por suas localizações, virem a ser alvo do ataque por parte de favelados que viviam em morros próximos.
Os meios de comunica��o de massa começaram dando informa��es nem sempre coerentes e muitas vezes controversas. Mas logo a censura oficial prevaleceu e as notícias passaram a minimizar os efeitos da trag�dia.
No entanto, o fato incontest�vel n�o podia ser ocultado: dezenas de milhares de homens, mulheres e crian�as haviam sido chacinados. A maioria tinha perecido carbonizada pelas bombas napalm ou vitimadas pelos petardos de fragmenta��o, pelo canhoneio e pelas rajadas de metralhadoras dos helic�pteros. Mas tamb�m in�meros tombaram sob o fogo da Pol�cia da Aeron�utica, ao tentarem escapar de seus guetos flamejantes. Alguns, simplesmente querendo fugir, outros, para combater, a qualquer pre�o, cheios de �dio e sedentos de vingan�a. Era o desespero dos coagidos. Mas os favelados da Rocinha estavam, �quela altura, desorganizados e praticamente desarmados. Assim, onde houve luta, ela foi sempre bastante desigual.
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Mensagens de explica��es e justificativas eram a todo instante enviadas pelo Governo Provisório, em resposta as notas e manifesta��es de repulsa, protesto e condena��o, que chegavam de todas as partes do mundo. As manchetes internacionais, de Nova York a Moscou, concediam ao acontecimento os mais contundentes e negativos adjetivos.
Ainda o dia seguinte � hecatombe não havia terminado e já a Junta decretava o "estado de emerg�ncia" no Munic�pio do Rio de Janeiro e nos que lhe eram circunvizinhos, já sob o controle de interventores militares designados pelo Governo Provisório. Tais medidas visaram n�o s� demonstrar ao mundo que provid�ncias en�rgicas estavam sendo adotadas mas, principalmente, caracterizar a exist�ncia de uma situa��o de for�a para manuten��o da ordem p�blica. Temia-se que movimentos de revolta por parte dos moradores das outras favelas transformassem o Rio de Janeiro e adjacências num palco de sangue e destrui��o.
Mas, qualquer que fossem os sentimentos entre os favelados, predominou o medo diante do aparato militar e eles permaneceram em seus barracos e palafitas. Submissos e abalados com a chacina, nada lhes restou sen�o l�grimas, conformismo e a esperan�a de n�o virem a compartilhar do destino de seus irm�os da Rocinha. O fracasso da a��o abortada como que demonstrou a inutilidade de rebeli�es contra uma situa��o a que se sentiam inexoravelmente condenados. E muitos que antes exaltavam �talo, hoje amaldi�oavam a sua mem�ria.
� medida que o fogo ia sendo debelado na Rocinha - s� foi totalmente extinto no terceiro dia - contingentes das For�as Armadas, da Pol�cia Militar e dos Bombeiros, bem como unidades de sa�de e milhares de volunt�rios civis, penetravam entre os escombros para recolher os feridos e dar destino aos corpos dos que morreram. Os hospitais do Rio e das cidades vizinhas se superlotaram e dezenas de postos de socorro foram improvisados em barracas cedidas pelo Ex�rcito. Mas, em rela��o aos mortos, o problema era mais grave.
O n�mero de cadáveres, era demasiado alto para ser atendido pelos cemit�rios do Munic�pio, sem espa�o f�sico para receb�-los. A solu��o encontrada foi a constru��o de gigantescas valas, no pr�prio morro, onde se enterravam os corpos � medida que iam sendo encontrados. Por�m, em muitos casos, as cinzas da madeira dos barracos confundia-se com a cinza dos humanos. Foi um trabalho horr�vel e repugnante, mas eles o fizeram porque tinha de ser feito.
Os que ficaram ao desabrigo foram removidos, em carater transit�rio, para igrejas, parques, centros comunit�rios e pra�as de esportes, a fim de aguardarem destino definitivo.
Nos dois primeiros dias predominou no ar o cheiro de carne queimada mas, aos poucos, foi ele sendo substitu�do por um odor "adocicado" e f�tido, que os ventos levavam a toda parte, � medida que os corpos se decompunham rapidamente com o calor.
As primeiras estat�sticas anunciaram 30 mil mortos e 50 mil feridos, aproximadamente. Favelados sobreviventes falavam num total de 200 mil v�timas. Um levantamento realizado dois meses mais tarde pelo novo Governo Estadual avaliou em cerca de 70 mil o n�mero de mortos e entre 80 e 90 mil o de feridos. Um c�lculo aproximado. As cifras reais jamais seriam conhecidas. A verdade, a terr�vel verdade, � que nunca antes se constatara uma mortandade tão grande, numa �rea t�o reduzida, em t�o curto espa�o de tempo. Foi, certamente, o mais compacto genoc�dio do terceiro milênio e um dos maiores de toda a Hist�ria.
O inqu�rito inslaurado pelo Governo Provisório para apurar as responsabilidades concluiu, no prazo recorde de doze dias - (havia que se dar logo alguma explica��o � opini�o p�blica mundial) - que a trag�dia resultara de uma a��o, n�o autorizada, de um paran�ico: "O brigadeiro Marcos F�bio Steiner", dizia o relat�rio, "num gesto tresloucado, sem consultar o Comando Supremo da For�a A�rea, determinou o exterm�nio da Rocinha, como medida preventiva contra um iminente ataque, que grupos fortemente armados de favelados pretendiam executar, naquela madrugada, visando a ocupa��o de uma zona da cidade do Rio de Janeiro e a elimina��o f�sica de seus habitantes". Repare-se que, mesmo qualificando o ato como "um gesto tresloucado", o relat�rio habilmente justifica-o, at� certo ponto, ao assinalar a amea�a atroz que pairava sobre a popula��o da �rea a ser invadida. O suic�dio do brigadeiro e a carta por ele deixada (e prontamente divulgada), assumindo toda a responsabilidade pelo ataque, refor�avam o parecer da Comiss�o de Inqu�rito.
Dias ap�s, um Tribunal Militar de Emerg�ncia julgou os 17 pilotos dos helic�pteros que haviam participado da Opera��o. Considerados culpados de genoc�dio, foram expulsos da sua Corpora��o. Os participantes das a��es em terra (membros da Pol�cia da Aeron�utica), n�o foram sequer julgados. Sua atua��o foi considerada "uma medida defensiva para impedir a invas�o da cidade"...
Dois anos mais tarde, quando outros assuntos ocupavam as manchetes dos notici�rios e a preocupa��o das pessoas voltava-se para os novos problemas do dia-a-dia, o Superior Tribunal Militar, atendendo a um recurso, tornou sem efeito a puni��o imposta pelo Tribunal de Emerg�ncia. Os oficiais da FAB foram reintegrados ao servi�o ativo. O Juiz-Relator da mat�ria considerou que "os referidos militares haviam obedecido a ordem de um superior e agiram convencidos de que, ao cumpri-la, o faziam em defesa da vida e do patrim�nio de cidad�os inocentes, amea�ados por uma iminente invas�o de milhares de favelados, fortemente armados e dirigidos por um fan�tico homicida". Como prova, apresentaram fuzis, metralhadoras e granadas que haviam sido recolhidos dos escombros da favela.
Era a meia verdade fazendo-se passar pela verdade inteira. N�o h� como se afirmar que Steiner fosse um tresloucado, no sentido psiqui�trico da palavra. Ele estava realmente convencido, ao dar a ordem de ataque, que os favelados iriam descer para uma "noite de S�o Bartolomeu". � bem poss�vel que essa convic��o tenha sido influenciada - conscientemente ou n�o - pelo cego �dio que devotava ao homem que lideraria a invas�o e a quem atribu�a as mais perversas inten��es. Quanto �s verdadeiras raz�es que levaram o brigadeiro ao suic�dio, elas n�o foram reveladas na carta ao ministro. Ao ler o memorando que Gustavo lhe entregara, Steiner compreendeu que a viol�ncia por ele desencadeada fora demasiadamente excessiva, em rela��o �s inten��es reais de �talo e que a filha tinha morrido em consequ�ncia do seu ato. At� presumo que, tivesse Gustavo conseguido retirar Erika da favela, o brigadeiro n�o teria se suicidado. Seu gesto, creio eu, foi a �nica solu��o por ele encontrada para se retirar logo do cen�rio da vida, a fim de n�o prolongar uma crise de consci�ncia e uma dor insuport�veis. O remorso, n�o declarado, foi com Steiner para a sepultura. Isto ali�s, ele, de certa forma, admite na carta, embora, at� o final, seu orgulho o impedisse de confessar o tr�gico erro que cometera ao avaliar os prop�sitos do homem a quem odiava com tanta intensidade.
Por outro lado. �talo, ainda que fosse um homem que compactuara com o tráfico de drogas e fizera, algumas vezes, justi�a com as pr�prias m�os, sendo, por conseguinte, um "fora da lei", n�o era, de maneira alguma, um "fan�tico homicida", como comprova o memorando por ele enviado aos seus chefes de grupo, determinando que n�o se praticassem viol�ncias, sob pena de severas puni��es e que s� se usassem as armas se fossem atacados. Esse memorando e o manifesto ao Governo e � popula��o, documentos somente agora por mim revelados, absolvem �talo da acusa��o que lhe foi imposta, isentando-o da inten��o hedionda que se lhe atribuiu. E eles tamb�m constituem, de certa forma, uma justificativa para o movimento dos favelados.
No m�nimo, duas c�pias desses documentos se salvaram: as que Gustavo recebeu das m�os de Erika. E uma delas deve ter sido encaminhada pelo oficial ao SISA ou ao Alto Comando da Aeron�utica. Assim, n�o obstante a convic��o de que um exemplar dessa hist�rica documenta��o se encontra guardado nos arquivos confidenciais de algum dos servi�os secretos do Governo, nada a seu respeito jamais transpirou para fora do herm�tico c�rculo da comunidade de informa��es.
Colocada assim, oficialmente, toda a culpa da trag�dia da Rocinha sobre a mem�ria de dois homens, um "tresloucado" e um "fan�tico", omitia-se o verdadeiro respons�vel: nosso viciado sistema social e econômico do passado, que permitiu acumularem-se, durante dec�nios, os erros que induziram o crescimento desmesurado e desordenado das grandes cidades, esse enorme gerador de injusti�as, �dios e viol�ncias. E por qu�? Por falta de vis�o administrativa e por corrup��o, duas "primas-donas" da desgra�a dos pa�ses latino-americanos.
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N�o obstante, a trag�dia sacudiu consci�ncias e deu for�a a novas ideias. Sentia-se que algo deveria ser feito para alterar o rumo das coisas, atacando-se as causas e n�o os efeitos. O holocausto da Rocinha e o temor que novos conflitos, talvez ainda mais graves e extensos, pudessem vir a ocorrer futuramente, fizeram com que certas medidas fossem preconizadas e implementadas. Foram medidas dr�sticas, que contrariaram vontades e feriram direitos individuais, mas justific�veis, considerando-se o interesse maior da sociedade como um todo. Elas n�o visaram apenas resultados imediatistas, mas, principalmente, respostas positivas a m�dio e longo prazos.
Os que, por interesses políticos-eleitoreiros ou financeiros, defendiam a manutenção e consolidação das favelas, transformando-as em autênticos bairros, foram derrotados pelos que pugnavam por sua extin��o. Estes, alegando serem elas, n�o s� um sistema habitacional subumano, mas tamb�m "bols�es de ref�gio" da marginalidade, encontraram no tr�gico acontecimento o pretexto e o respaldo para uma solu��o definitiva do problema.
E, dessa vez, suas vozes ganharam for�a e os ouvidos do Poder. Decretos-leis nesse sentido foram expedidos pela Junta. A f�rmula adotada foi a remo��o maci�a dos favelados da �rea metropolitana do Rio de Jabeiro e das outras grandes metrópoles brasileiras. Eles foram compulsoriamente desalojados. Muitos dentre os que, realmente, trabalhavam nessas cidades, foram transferidos para resid�ncias pr�-fabricadas, simples mas decentes, constru�das em tempo recorde, em vilas populares, na periferia das referidas metrópoles. A maioria, no entanto, partiu para o interior, a fim de participarem dos trabalhos de irriga��o do Nordeste, da prospec��o dos campos petrol�feros rec�m-descobertos no Amap�, da coloniza��o dos espa�os vazios da Amazônia, da explora��o das riquezas do sul do Par� e, principalmente, da ampliação das vastas �reas agr�colas do Centro-Oeste. Deslocados, enfim, para atividades economicamente produtivas.
Homens de vis�o, alheios �s tenta��es demag�gicas, e que insistiam numa real solu��o para as distor��es sociais brasileiras, obtiveram, dessa forma, uma significativa vit�ria. A "desfaveliza��o" representava uma etapa no processo de remo��o dos excedentes humanos, alienados nos grandes centros, para os campos, onde poderiam desenvolver o imenso potencial "agricultur�vel" do pa�s. Assim, uma a uma, as favelas do Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Porto alegre, Recife, Salvador e de outras cidades foram se esvaziando. Foi um processo lento mas ininterrupto.
Via de regra, os favelados sa�ram sem oferecer resist�ncia. Muitos at� apressaram-se em se retirar voluntariamente, tangidos pelo medo. A lembran�a da Rocinha estava presente em todos. Quem poderia garantir que o ocorrido na maior favela da cidade n�o se repetiria, mais cedo ou mais tarde, nas demais? Um número razoável, principalmente entre os jovens, tentou escapar a essa migra��o for�ada. Alguns conseguiram e se perderam no anonimato dos grandes centros. E houve ainda aqueles - e n�o eram poucos - que se encontravam na mira da Lei, por fazerem parte do crime organizado, vivendo do tráfico de drogas e armamentos. Estes foram sumariamente enviados para "colônias de recupera��o" instituidas em vastas clareiras, abertas bem no interior da Amazônia, cercadas de muros e arame farpado e vigiadas por unidades do Batalhão das Selvas. Isolados na gigantesca floresta, distantes dos seus campos de atuação, sem meios de se comunicarem com seus parceiros de crime, esses marginais tiveram suas nocivas atividades totalmente anuladas.
Paralelamente, medidas complementares foram adotadas pelo Ministério Público e pela Junta, no intuito de desmantelar, definitivamente, o crime organizado no país: 1 - maior vigilância das fronteiras e da imensa orla marítima brasileira, para coibir a entrada de armas e narcóticos; 2 - "depuração das polícias" de elementos que faziam parcerias com os delinquentes; 3 - remoção, para as referidas colônias, dos poderosos e "ïnvisíveis" barões do tráfico de drogas e de armamentos, até então intocáveis, já que protegidos por políticos, policiais, juízes e outras autoridades inescrupulosas e que viviam, nababescamente, nos bairros luxuosos das metrópoles. Dessa forma, os níveis de criminalidade baixaram acentuadamente e as grandes cidades brasileiras passaram a ser locais onde a população voltou a viver com relativa tranquilidade.
A migra��o dos moradores das favelas levou mais de dois anos, e foi uma gigantesca opera��o de log�stica, sem precedentes em nossa hist�ria. E, assim, aconteceu o �xodo de quase dois milh�es de favelados cariocas. Alguns ficaram pelo caminho. Mas a imensa maioria, longe ou perto, de uma ou de outra forma, foi encontrando seu novo destino.
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Um ano após a instalação da "fase de transição", uma nova constuição foi promulgada, dentro de critérios mais propícios ao desenvolvimento tecnológico e cientítico do país e segundo um modelo político mais compatível com a nossa realidade, acabando com as distorçõs do modelo anterior. Uma eleição geral, em 200_, elegeu os novos representantes dos Poderes Exectivo e Legislativo. O Poder Judiciário, também obedecendo às novas diretrizes, tornou-se menos poderoso, porém bem mais ágil e eficiente.
A NOITE DOS FAVELADOS, apezar de ter sido uma triste hecatombe, parecia ter deflagrado, ao longo do tempo, um movimento que ensejou a criação de uma nação mais justa e mais digna!
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A Lei de Migra��es Internas, promulgada, ainda no ano da tragédia, restringiu o fluxo de migrantes para as maiores metr�poles, ao mesmo tempo que se criavam est�mulos para a fixa��o de popula��es nas �reas rurais. Dessa forma, já dois anos mais tarde, a redistribui��o populacional proporcionava o início de um equil�brio socio-econ�mico bastante promissor: o crescimento demogr�fico dos campos favorecia o desenvolvimento da agricultura e a explora��o de mat�rias-primas, e o "desincha�o" dos grandes centros fazia cair a n�veis m�nimos os �ndices de mis�ria e marginalidade urbanas. Outra Lei, obtida gra�as � intensa press�o dos defensores do meio ambiente, proibiu qualquer tipo de constru��o nos morros cariocas. Uma grande vit�ria dos ecologistas. E, aos poucos, a paisagem do Rio se modificava e o "verde" se espalhava pelas encostas... E assim, tudo levava a crer que se iria seguir um novo rumo, que a dura li��o tinha sido bem aprendida e assimilada e que, no contexto da demografia urbana, os erros do passado n�o mais se repetiriam.
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Nos �ltimos tr�s anos, entretanto, as coisas come�aram a mudar. No Rio de Janeiro, principalmente, obras fara�nicas, t�o nefastas no passado � nossa economia, principiaram a ressurgir: abriram-se t�neis e ergueram-se supermercados gigantescos e hot�is de luxo e grandes escava��es surgiram para ampliar o metrô por toda a cidade. E, mais oneroso ainda, era o plano de montagem de outra usina nuclear. Por todos os lados proliferava a febre das constru��es. E tudo isso exigindo m�o-de-obra, imensa e barata, n�o dispon�vel no Munic�pio. Os rob�s que vinham sendo empregados em larga escala e com evidente sucesso na ind�stria, em linhas de montagem e outras atividades sofisticadas, não aprovaram no terreno da construção civil. Assim, os recursos teriam de ser, necessariamente, humanos.
A solu��o seria, disseram imobili�rios, construtores, engenheiros e empres�rios (e repetiam certos pol�ticos) modificar-se a Lei em vigor que restringia o fluxo migrat�rio para os grandes centros. Em nome do progresso... (ou n�o seria em nome dos interesses financeiros?).
A mem�ria dos homens era curta, principalmente a dos inescrupulosos, �vidos p�los lucros f�ceis e imperme�veis �s li��es da Hist�ria. O dinheiro correu... dizem. O fato � que o Congresso votou emendas � Lei das Migra��es Internas e o Executivo as sancionou.
E foi assim que, do Norte, do Nordeste e do Centro-Oeste, fam�lias de migrantes come�aram a chegar atra�das pela promessa de bons sal�rios e pelas luzes do Rio de Janeiro. E foram chegando, cada vez em maior n�mero. Mas onde aloj�-los? L� longe, para al�m do Grande Rio, distante dos locais de trabalho? N�o, isso criaria dificuldades de transporte e encareceria os custos. Por que n�o permitir, lembrou algu�m, que os migrantes se instalassem nas encostas dos morros? Afinal, eles n�o iriam ficar para sempre. Cinco, dez anos no m�ximo, quando ent�o todas as obras estariam conclu�das. E, com suas poupan�as nos bolsos, os migrantes voltariam felizes às suas terras de origem... Por que n�o? Afinal o progresso...
A Assembleia Estadual tornou sem efeito a Lei 7.314 que proibia a constru��o de habita��es nos morros cariocas. Os ecologistas protestaram. Protestaram tamb�m os estudantes e in�meras Associa��es de Moradores. Tudo em v�o. O Governo Federal calou diante da polêmica. O progresso - e o lucro - acima de tudo! Um editorialista lembrou, num artigo apaixonante, a trag�dia da Rocinha. Foi despedido no dia seguinte. Alguns universit�rios e intelectuais organizaram uma passeata de protesto contra o ato da Assembleia. A maioria terminou na cadeia. E, em pouco tempo, nos morros do Rio, começaram os desmatamentos e, logo depois, os barracos recome�aram a surgir...
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Dickens apertou de novo o bot�o de "pausa" do gravador e olhou para o rel�gio: 17:35 horas. Estava quase terminando. Faltava apenas registrar a sua odisseia em busca dos dados e elementos que o ajudaram a elucidar os acontecimentos que culminaram com a NOITE DOS FAVELADOS... Ent�o destravou o bot�o de pausa e continuou...
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P�mela, a pequena �rf� de pouco mais de dois anos, tinha sido criada pela av� materna, com muito amor e compreens�o. No dia do seu 14� anivers�rio, a senhora contou-lhe tudo sobre seus pais. As l�grimas que ela derramou, assim entendeu a av�, foram de tristeza mas tamb�m de orgulho. E, a partir da�, tornou-se uma jovem mais resoluta e desprendida. E foi precisamente aquela brava e sofrida mulher, D. Helena Steiner, j� nos seus l�cidos setenta anos, quem primeiro interessou-me nessa hist�ria, narrando muitos dos fatos sucedidos, com min�cias que conhecia como poucos. E foi tamb�m gra�as a ela e atrav�s dela, que logrei entrevistar o ex-capit�o Gustavo Mendes, o agen- te do SISA que se infiltrara no grupo liderado por �talo e que salvara P�mela naquela noite de terror. Ele recebeu-me, no in�cio do ano passado, em sua resid�ncia na praia de Ícara�, do outro lado da ba�a.
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Gustavo � hoje um coronel reformado, magro, cabelos rareando, e que traz no rosto marcas por demais profundas para uma pessoa de 50 anos. Na face direita, perto do malar, destaca-se uma cicatriz: a "lembran�a" do punhal de Antônio Maria. O coronel � um homem reservado e estou certo que s� aceitou falar comigo em aten��o à D. Helena. A princ�pio, mostrou-se reticente, cauteloso, mas, aos poucos, foi-se soltando. Acabamos conversando longamente e ele terminou por responder a todas as minhas indaga��es, com sobriedade mas com impressionante exatid�o. No fim, tive a impress�o que, a seu modo, Gustavo desabafava. At� ent�o, confessou-me, afora o depoimento prestado ao Tribunal Militar de Emerg�ncia, logo ap�s a trag�dia, n�o havia discutido o assunto com ningu�m. Um longo sil�ncio de muitos anos! Quando j� me levantava para ir embora, ele deteve-me com um gesto, foi at� um cofre na parede, abriu-o e dele retirou v�rias folhas de papel grampeadas e j� amareladas pelo tempo. Olhou-me longamente e disse:
- Suponho que pretende publicar um livro a respeito disso tudo, n�o �?
- Sim, pretendo - confirmei.
- Ent�o leve isso. S�o documentos que nunca foram divulgados, mas são essenciais � fidelidade do seu trabalho.
Agradeci, peguei os pap�is e, sem os ler na ocasi�o, guardei-os na minha pasta. Em seguida, despedimo-nos com um aperto de m�o e eu parti, sem saber que levava comigo c�pias do Memorando e do Manifesto preparados por Ítalo e Antônio Maria.
A leitura desses documentos foi de inestim�vel valor para estabelecer certas verdades, mas ainda permaneciam muitos espa�os a serem preenchidos, muitas duvidas a serem desfeitas.
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Seguiram-se meses de pesquisas, revolvendo os jornais da �poca e entrevistando algumas testemunhas dos acontecimentos e que ainda viviam no Rio de Janeiro. E os espa�os foram sendo preenchidos e as d�vidas elucidadas. Mas eu n�o estava satisfeito: faltavam ainda informa��es que me fizessem compreender melhor a personalidade de �talo. A quem apelar? Conseguiria achar um dos membros do grupo dos seis? Quatro estavam comprovadamente mortos, mas quanto a Zuza e Z� Augusto? Talvez tivessem sido cremados naquela noite ou enterrados dias depois numa das valas comuns. Ou talvez houvessem escapado, mas falecido posteriormente. Mas quem sabe? Talvez...
Finalmente, um incr�vel bafejo da sorte premiou a persist�ncia: h� seis meses, indo ao Acre para uma inexpressiva reportagem com um inexpressivo pol�tico, candidato ao Governo do Estado, deparei-me, por mero acaso, com um velho capataz de uma fazenda nos arredores de Rio Branco, conhecido como Z� Augusto. Incrivelmente, tratava-se daquele mesmo Z� Augusto que havia conhecido �talo na intimidade por tantos anos e talvez o �nico sobrevivente do grupo dos seis. De in�cio, ele n�o queria falar, mas quando expliquei-lhe as raz�es do meu interesse em conhecer com exatid�o a saga dos favelados da Rocinha, admitiu colaborar. Foram duas longas noites de evoca��es do passado, registradas pelo meu fiel gravador. Valeu! Afinal, eu conseguia entender �talo, sentir suas motiva��es, rea��es, ansiedades e paix�es, como se o tivesse conhecido de perto. Impressionou-me, sobremodo, como ele e Ant�nio Maria, dois homens rudes, com apenas n�veis m�dios de instru��o, mas por certo dotados de alto grau de intelig�ncia e sensibilidade, pudessem ter concebido um plano t�o audacioso. Estou seguro de que, n�o fora a informação que Steiner recebera do brigadeiro Onaldo, do seu sexto sentido, de sua obsess�o e da sua decis�o de infiltrar Gustavo na Rocinha, o plano teria funcionado: S�o Conrado teria sido ocupado e �s autoridades n�o restaria outro recurso sensato sen�o negociar com os favelados.
E � também poss�vel que isso estimulasse outras revoltas contra o sistema social vigente, com consequ�ncias e desdobramentos imprevis�veis.
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Quanto ao que teria feito o brigadeiro, caso houvesse tomado conhecimento, em tempo, dos verdadeiros objetivos da a��o liderada pelo genro, pode-se apenas especular. Mas � razo�vel admitir-se que ele e os membros do seu "staff" teriam buscado alguma outra alternativa menos dr�stica e contundente. Por�m, o destino ou aqueles fatores aleat�rios que regem os acontecimentos n�o quiseram que assim fosse, e a Hist�ria foi escrita de forma diferente...
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Dickens desligou o gravador. J� nada restava a registrar. O trabalho do jornalista estava conclu�do. Retirou a fita e colocou-a no bolso interno do blus�o de pl�stico siliconizado. Depois, levantou-se da poltrona e foi, mais uma vez, at� a janela. Alongou o olhar. Agora come�ava realmente a escurecer: o c�u e o mar se confundiam l� longe, na linha do horizonte.
- Seu S�rgio, seu S�rgio.
A voz interrompeu-lhe os pensamentos. Dickens virou-se. Uma enfermeira baixa, gordinha e j� de meia-idade, caminhava em sua dire��o. Ele afastou-se da janela.
-Sim!?
A mulher aproximou-se mais e colocou a m�o sobre o bra�o do jornalista.
- Parab�ns - disse ela com entusiasmo, como se fosse a primeira vez que iria dar uma tal not�cia. - O senhor � pai de um belo menino.
O cora��o dele acelerou.
- E ele... ele � perfeito?
Ela soltou uma risada:
- Claro, perfeito e bastante robusto. Nasceu com mais de quatro quilos.
Dickens sorriu:
- Isso � �timo. E como est� minha mulher?
- Muito bem. J� saiu da piscina de parto. Est� no quarto, repousando. Tudo transcorreu normalmente.
Ele finalmente relaxou. Uma onda agrad�vel de calor percorreu- lhe o corpo.
- Gostaria de v�-los agora. � poss�vel?
- Certamente. Vamos primeiro ao Centro de Rec�m-nascidos - respondeu a enfermeira, encaminhando-se para a porta de onde tinha vindo.
S�rgio seguiu-a. Percorreram um longo corredor, no fim do qual havia uma escada. Desceram at� o andar inferior e foram dar num recinto que lembrava um daqueles anfiteatros de cirurgia, onde se assiste, de cima, �s opera��es cirúrgicas. Pararam diante de uma parede de vidro. Um metro abaixo, numa sala redonda, de um azul bem claro, viam-se, dispostos em duas fileiras paralelas, cerca de uma d�zia de pequenos colch�es d'�gua, de forma retangular, sobre o que parecia ser uma plataforma de acr�lico. Apenas cinco estavam ocupados. Uma mo�a de uniforme verde, usando toca, m�scara e luvas, circulava, vigilante, entre os "bercinhos".
- Seu filho é o terceiro da primeira fila a contar da esquerda - indicou a enfermeira.
S�rgio aproximou-se mais e colou o rosto no vidro.
- Com isso ver� melhor - voltou a falar a mulher, passando-lhe um pequeno par de bin�culos.
Ele agradeceu, ajustou o foco e espiou, timidamente. Ent�o viu o bebê, com o tronco enfaixado pelo que julgou ser uma atadura de crepom ou algo semelhante, agitando os bra�os e as pernas, um tanto desordenadamente. Observou melhor c notou que o recém-nascido tinha a pele clara e rosada e era bastante cabeludo. Encheu-se de orgulho. Afinal, tinha "feito" aquela criaturinha. Era uma obra sua. Mais que isso, um prolongamento de si mesmo. Ser pai era ser um pouquinho Deus!
Subitamente, no entanto, no meio da exalta��o, assaltou-o uma sensa��o de inquietude em rela��o ao bebê. Tentou apelar para a raz�o: n�o seria essa, refletiu, uma rea��o natural aos pais, principalmente aos novatos como ele? N�o, n�o era isso. Tinha de admitir que se tratava de algo diferente: medo de ser o pai de uma crian�a marcada por um estigma, portador de alguma saga maldita, inexoravelmente acoplada ao seu padr�o gen�tico... Mas existiria tal coisa? Bobagem, pensou, saga � pura supersti��o. A recente evoca��o de todos aqueles tr�gicos eventos e a tens�o da espera pelo nascimento do filho haviam mexido com seus nervos. Nada al�m disso. Num esfor�o da vontade procurou expulsar o pensamento inquietante.
Uma voz veio em seu socorro e o mau momento passou.
- Ent�o, ele n�o � mesmo uma belezinha? - indagou a enfermeira.
- De fato - respondeu S�rgio devolvendo o bin�culo. - um lindo garoto. Agora, por favor, leve-me at� minha esposa.
A mulher sorriu compreensivamente. Ele lan�ou mais um olhar na direção do filho e seguiu a enfermeira para fora do "anfiteatro". Tomaram um elevador e subiram tr�s andares. Pararam diante do n� 604. Ela abriu a porta e disse:
- Bem, podem conversar um pouco, mas n�o demore muito. Sua esposa ainda precisa de descanso.
Ele agradeceu e a enfermeira afastou-se, bamboleando o corpo pequeno e pesado.
**
S�rgio entrou no quarto. Ela estava deitada de costas numa cama ampla, o corpo quase todo coberto por um len�ol extremamente alvo, deixando � mostra apenas o rosto e os bra�os morenos. Os olhos estavam fechados. Os cabelos negros e longos deslizavam por cima do len�ol, fazendo com que a face bonita e pequena parecesse ainda menor. Ele aproximou-se e sentou-se numa cadeira ao lado do leito. Tocou-lhe de leve a m�o e murmurou:
- Oi, amor!
Ela abriu os olhos negros e os l�bios se entreabriram num largo sorriso.
- Voc� est� bem? � perguntou ele.
- Sim - ela fez uma leve pausa e indagou: - Voc� j� o viu?
- J�. Um garot�o.
Ela soltou um longo suspiro.
- Estou t�o feliz... diga-me, S�rgio, com quem ele se parece?
Dickens respondeu em tom de brincadeira:
- Comigo, � claro.
- Seu bobo - retrucou ela com ar de mofa. - Perguntei s� de goza��o. Rec�m-nascidos se parecem com todo o mundo e, ao mesmo tempo, n�o se parecem com ningu�m.
Ele acariciou o rosto da esposa. Ela adotou uma express�o seria.
- Meu bem, tenho um pedido a lhe fazer.
- O qu�?
- Quero que nosso filho receba o nome do meu pai.
O pedido colheu S�rgio de surpresa. Quando, durante a gravidez, ele trazia o assunto � baila, ela se esquivava, argumentando, supersticiosamente, que escolher o nome da crian�a antes do nascimento trazia azar. Dickens sentiu um n� na garganta c ficou olhando, a boca entreaberta, sem responder. Ela olhou-o com uma express�o estranha.
- Voc� � contra? - indagou a mulher.
A voz tinha um toque de decep��o.
- Claro que n�o - replicou ele, um tanto apressadamente.
Ela continuou fitando-o, intensamenle. Havia um qu� de acusa��o no olhar. S�rgio percebeu que a esposa esperava mais do que aquela resposta, que soara como uma esp�cie de concess�o. Sentiu vergonha e remorso. Afinal, de certa forma, o sogro fora um homem excepcional. Respirou fundo, sorriu e falou, sentindo ent�o um esbo�o de entusiasmo.
- �talo Steiner da Silva Dickens! Sabe. Pam, at� que fica um nome bastante imponente, n�o acha?
A express�o dela desanuviou e a m�o morena apertou a dele em reconhecimento. Depois ela sorriu e virou o rosto para o lado, na dire��o da janela aberta. S�rgio acompanhou o olhar da mulher e, numa fra��o de segundo, o entusiasmo incipiente desapareceu. Um calafrio percorreu-lhe a espinha.
A cena que se deparava diante dos seus olhos e, quem sabe, tamb�m o nome sugerido para o filho, trouxeram de volta, implacavelmente, aquelas apreens�es malditas que o haviam acometido l� no Centro dos Rec�m-nascidos. Dominou-o uma inexor�vel sensa��o de fatalismo. Sensa��o que n�o poderia transmitir a ningu�m, muito menos à Pâmela, embalada pelos sonhos felizes da maternidade.
E assim, angustiado e s�, ele ficou
vendo se acenderem, l� adiante, no morro em frente, uma ap�s outra, no lusco-fusco
da noite que chegava, as primeiras luzes dos barracos da NOVA ROCINHA...
FIM
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