A NOITE DOS FAVELADOS

Oliver Marti

Parte 4

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Na manhã que se seguiu à ida de Steiner ao Distrito, o delegado Fernando Ribeiro reuniu seus auxiliares e deu-lhes determinadas instruções. Seis dias depois, mal acabara de chegar, um detetive entrou no gabinete e disse, com jeito descontraído, o cigarro apagado pendendo do canto da boca:

- Chefe, lembra do seu pedido para ser avisado se a gente pegasse algum amigo do Ítalo, da Rocinha? Pois é, acabaram de prender o Zuza que é "assim" com ele.

- Onde está o homem?

- Na cela grande com os presos que estão aguardando transferência para a colónia de Magé.

- Qual a acusação?

- Agressão. Esse Zuza é um sujeito metido a brabo. Já foi encanado antes, várias vezes.sempre por briga. Dessa vez bebeu e quebrou a cara de um outro malandro num bar da Praça do Jóque.

Ribeiro acendeu um cigarro (já era o quinto do dia, pensou com tristeza).

- Aquela cela dos fundos está vazia?

- Está.

- Então botem o Zuza lá. Sozinho. E não deixem que ele se comunique com nenhum dos outros presos.

- Tá certo - disse o detetive, arrancando da boca o cigarro apagado e saindo para executar a ordem recebida.

Fernando abriu uma gaveta da sua mesa de trabalho e apanhou o cartão que Steiner lhe havia entregue na semana anterior. Olhou o número, pegou o telefone e discou. Quando atenderam, identificou-se e pediu que avisassem ao brigadeiro que precisava falar com ele com urgência.

Dez minutos mais tarde, a campainha do aparelho soou. Ribeiro levou o fone ao ouvido e reconheceu de imediato a voz metálica do Comandante do III COMAR:

- Recebi seu recado, delegado. Alguma novidade?

- Sim. brigadeiro. Já tenho um esquema traçado para tentar infiltrar aquele seu agente. Para quando ele estará disponível?

Steiner não respondeu logo. Fernando teve o pressentimento que ele consultava o relógio. Não se enganou. Após algum tempo, o brigadeiro disse:

- São 8:35 agora. Acho que conseguirei localizá-lo até as l 1:00 horas. Presumo que deseja conversar com ele.

- Sim - confirmou o delegado. - Nosso plano consiste em pôr seu agente em contato com um elemento que faz parte da turma que parece estar controlando as coisas lá na Rocinha. E para isso preciso dar ao seu homem algumas instruções.

- Muito bem. Quando pretende vê-lo?

- O mais breve possível.

- Até que horas ele poderá se comunicar com o senhor aí na delegacia?

- Vou sair por algum tempo, mas estarei de volta em torno do meio-dia. Digamos entre 13:00 e 19:00 horas.

- Otimo. Meu agente identificar-se-á pelo nome de Felipe.

- O que, com toda a certeza, está longe de ser o verdadeiro - comentou Fernando, não conseguindo reprimir um tom de ironia.

- Dedução digna de um gênio - rebateu Steiner, dando o troco.

Seguiu-se um clique. O brigadeiro tinha desligado.

- Esnobe filho de uma puta - desabafou o delegado repondo o fone no gancho.

 

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"A mão dele empurrava o manche com energia mas o Araponga, rolando pelo asfalto a mais de cento e setenta quilómetros por hora, teimava em permanecer colado ao chão. A mureta que separava o fim da pista dos escolhos e do mar crescia diante dos seus olhos em assustadora velocidade. Usando agora as duas mãos, aplicou toda sua força sobre aquela peça de metal que deveria deslocar os "ailerons " das asas e da cauda para que a massa de ar impulsionasse o jato para cima. Aterrorizado, sentiu que dispunha de uma fração de segundo para decolar e impedir o desastre total. Não havia opção: aplicar os freios àquela altura significaria capotar ou rodar de lado e ir arrebentar-se, de uma ou de outra forma, de encontro ao muro de cimento. No último instante, como por milagre, o aparelho, ainda meio inclinado, ergueu-se afinal do solo. Mas não o suficiente. O eixo de uma das rodas partiu-se no choque com a parte superior da mureta. Desequilibrado pelo impacto, o Araponga rodopiou no ar como se propulsionado por um gigantesco centrifiigador, avançou ainda algumas centenas de metros pelo espaço e desabou nas águas escuras da baía de Guanabara."

O corpo de Gustavo projetou-se abruptamente e ele sentou-se na cama, as mãos crispadas no lençol, o coração a pular descompassado e a fronte encharcada de um suor frio e pegajoso. E assim permaneceu, semiaturdido, por um secular minuto, até que a claridade dos raios de sol que se infiltravam pelas frestas da janela, conscientizou-o que, mais uma vez, tudo não passara de um pesadelo. Aquele maldito e constante pesadelo, cópia fiel de um episódio real do seu passado.

Todo piloto de caça sabe que terá de parar um dia. Chega o momento em que os reflexos, os nervos e a acuidade visual já não se mostram adequados às acrobacias dos duelos aéreos, aos mergulhos fulminantes ou às velocidades supersônicas. Mas quando se tem de parar na flor da idade, aos vinte e seis anos, isto representa um rude golpe capaz de abalar o mais forte dos espíritos. E foi exatamente o que aconteceu com o tenente Gustavo Mendes, após aquela malfadada madrugada, em que ele sofreu o desastre que seus futuros pesadelos iriam tão bem reproduzir.

Gustavo ia decolar da Base do Galeão no Rio de Janeiro para um vôo de treinamento noturno que deveria terminar no campo de pouso da FAB, na cidade paulista de Pirassununga. Mas o destino quis diferente. Uma falha no sistema de compressão causou o acidente. Antes que o aparelho afundasse de todo, o tenente foi retirado de dentro dele pela tripulação de um barco-patrulha da Marinha que, providencialmente, passava por perto. Não sofreu ferimentos graves. Uma leve concussão cerebral e escoriações superficiais foi tudo que a equipe médica do Hospital da Aeronáutica detectou. Dez dias depois, porém, surgiram as tonteiras. Um exame mais minucioso revelou que Gustavo sofrera um distúrbio labiríntico permanente, com repercussões sobre o seu senso de orientação. E assim terminou sua carreira como piloto de caça. Foi um sério impacto emocional. Inconformado, o jovem aviador começou a entrar em depressão. O processo foi-se agravando, ele foi internado numa clínica de recuperação psiquiátrica e esteve prestes a ser reformado.

Mas, na ocasião do acidente, o tenente tinha por comandante o coronel Marcos Fábio Steiner, um profissional duro e exigente, porém reconhecidamente atento aos problemas dos seus comandados. Uma tarde, Steiner foi visitar Gustavo na clínica. Conversaram longamente. A partir daí, o tenente entrou em franca recuperação. O coronel havia logrado convencê-lo de que, para um brioso oficial, havia outros meios dignos e gratificantes de servir à sua corporação, além de pilotar os elegantes Arapongas, sucessores dos primeiros AMXs da EMBRAER. E Gustavo acabou encontrando um caminho adequado nos atalhos semiobscuros do SISA.

Nos anos que se seguiram dedicou-se com afinco às novas tarefas, terminando por se tornar um dos melhores agentes secretos da Força Aérea. Porém, lá no fundo do inconsciente, continuava ainda pilotando seus antigos jatos, ora sonhando com os Arapongas zumbindo velozmente pelos ares, ora vendo reproduzir-se, cm pesadelos, aquela última e desastrosa decolagem. Mas disso tudo resultou também um enorme sentimento de gratidão pelo ex-comandante que o arrancara do fundo do seu poço emocional. E uma rara, porém sincera amizade entre o ex-piloto de caça e Marcos Fábio Steiner.

**

Gustavo levantou-se e escancarou a janela do quarto. Seu apartamento de solteiro ficava bem na praia de Icaraí. Ele aspirou fundo a frescura da brisa que vinha do mar próximo e alongou a vista para o outro lado da baía. Àquela distância, os prédios da orla marítima do Rio pareciam edifícios de brinquedo, minimizados pelas montanhas que compunham o pano de fundo do cenário. Há dez dias aguardava novas notícias de Steiner. O brigadeiro havia lhe telefonado, comunicando ter solicitado ao Diretor do SISA que cedesse o capitão Gustavo Mendes para uma importante missão que interessava o III COMAR. E o chefe o tinha posto à inteira disposição do brigadeiro. Não sabia ainda do que se tratava, mas agradava-lhe a ideia de poder colaborar com seu antigo comandante. Consultou o relógio: um quarto para as dez. Deixou a janela e dirigiu-se para o banheiro quando o telefone tocou. Era Steiner, convidando-o para uma conversa reservada no seu gabinete, na sede do III COMAR. O encontro ficou acertado para as 11:30 horas. Gustavo des- pediu-se, desligou e correu para o banheiro.

 

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Trajando roupas civis, Gustavo apresentou-se na hora aprazada no gabinete do Comandante do III COMAR. Ele e Steiner cumprimentaram-se cordialmente e o capitão sentou-se numa poltrona bem de frente para o brigadeiro, que se postara por trás de sua mesa de trabalho. Os dois homens tinham certa semelhança física, embora Steiner fosse uns vinte e cinco anos mais velho. Ambos eram altos, magros e empertigados. Os cabelos de um amarelo-pálido, prateado nas têmporas, do brigadeiro, pareciam antecipar como seria, duas décadas mais tarde, a espessa cabeleira loura de Gustavo. A diferença maior entre eles residia nos olhos: enquanto os de Marcos Fábio tinham uma cor azul celeste, os do capitão eram de um castanho muito claro que, de acordo com as variações de tonalidade do ambiente, adquiriam coloração esverdeada. Poderiam passar por pai e filho. E era exatamente isso que Gustavo pensava fitando o brigadeiro enquanto esperava que este iniciasse a conversa.

Steiner tamborilou os dedos sobre a mesa, inclinou a poltrona ligeiramente para trás e começou:

- Tenho em mente confiar-lhe uma missão muito importante e delicada, mas antes devo prevenir-lhe que ela poderá tornar-se bastante perigosa.

O capitão sorriu.

- Quase todas são, brigadeiro.

- É verdade, mas, além disso, esta não é nada ortodoxa.

O outro limitou-se a aguardar a explicação que por certo se seguiria.

- A ideia básica consiste em infiltrar você numa favela aqui do Rio.

Gustavo tornou a sorrir.

- Já fiz isso uma vez em São Paulo, o senhor está lembrado?

Steiner assentiu.

- Sim, e você se saiu muito berm, mas só que, desta vez, não se trata de terrorismo internacional.

A única reação do agente do SISA foi um ligeiro franzir da testa. O brigadeiro levantou-se, contornou a mesa e foi até uma das janelas. Sem se voltar, perguntou, num tom propositadamente casual:

- Você chegou a conhecer minha filha Erika?

A pergunta pegou Gustavo de surpresa. Mas, numa fração de segundo, seus neurônios treinados estabeleceram a conexão... Favela, Erika. Então era isso. Estava tudo no dossiê do brigadeiro nos arquivos do SISA. E ele tinha lido. Não por mera curiosidade, mas porque fazia parte do seu trabalho. Quando a filha de Steiner saiu de casa para ir morar com um favelado, os rumores a respeito circularam por quase todas as unidades da Força Aérea. Certas coisas simplesmente não podem ser abafadas. O brigadeiro jamais foi interpelado sobre o assunto. Ninguém ousaria, nem mesmo o ministro. Todos conheciam e temiam o gênio do atual comandante do III COMAR. Mas o SISA investigou e as informações obtidas foram para o dossiê de Marcos Fábio.

Gustavo percebeu que Steiner tinha-se voltado e o olhava atentamente. Apressou-se em responder:

- Pessoalmente não, só por fotografia. Quando eu servia com o senho,r ela estava estudando no estrangeiro, na Suíça, se não me engano.

Os olhos do brigadeiro se estreitaram. Ele voltou a se sentar.

- Então está bem. Se ela conhecesse você, a missão estaria de saída prejudicada. Teria de mandar outra pessoa.

O capitão mexeu-se na cadeira.

- Não acho que esteja entendendo bem, senhor.

Steiner encarou-o e disse, sem tergiversar:

- Você sabe que Erika casou-se com um marginal há uns três anos e desde então vive com ele na favela da Rocinha, não sabe?

Gustavo engoliu em seco. O brigadeiro era imprevisível: reconhecidamente pouco afeito a discutir ou comentar assuntos de sua vida particular, de repente fazia-o com uma objetividade quase contundente. Uma resposta lacónica pareceu-lhe a mais apropriada para a ocasião.

- Sim, brigadeiro, eu sei.

Os olhos azuis de Steiner passearam momentaneamente pelo aposento e depois tornaram a se fixar nos do oficial.

- A sua missão será infiltrar-se na Rocinha, mais precisamente no bando de marginais chefiado pelo marido de Erika.

Em seguida, o brigadeiro tirou da gaveta a fotografia obtida pela Polícia Federal e passou-a ao capitão.

- Esses três homens fazem parte do chamado grupo dos seis, que controla todas as atividades dessa favela. O primeiro da esquerda é o tal líder e atende pelo nome de Ítalo. Existem fortes indicações que eles se preparam para algum tipo de ação armada contra uma área ainda não determinada desta cidade.

A seguir, Steiner relatou ao agente o teor das conversas que havia tido com Selasco e com o delegado e da informação que obtivera de sua sobrinha Eliana. Quando terminou a exposição, o brigadeiro discou para a delegacia da Gávea. Após uma rápida troca de palavras com Fernando passou o fone para Gustavo. O delegado e o oficial, então, marcaram um encontro para aquela mesma noite.

***

 

Gustavo desceu do táxi a um quarteirão do local onde combinara encontrar-se com Fernando. Olhou para os lados, ajeitou o cabo da pistola que trazia na cintura e abriu o blusão de modo a poder sacar com rapidez, em caso de necessidade. Andar aquela hora, sozinho, pelas ruas do Leblon, não deixava de ser um risco. É verdade que já fora pior. Nos últimos tempos, assim diziam as estatísticas da Polícia e confirmavam os noticiários dos jornais, a incidência de crimes havia diminuído naquele e em outros bairros da Zona Sul. Lembrou-se de ter lido uma reportagem a respeito, segundo a qual essa redução da criminalidade se devia ao fato de que a grande favela da Rocinha já não era o mesmo santuário de marginais de antes. A se crer no que pensava o jornalista, imperava agora uma espécie de "nova ordem" naquela favela, do que resultara, entre outras coisas, um grande êxodo de marginais que praticavam assaltos na Zona Sul do Rio e depois iam abrigar-se na Rocinha. Ainda assim, havia centenas de outros santuários de criminosos espalhados pela cidade e o perigo continuava a rondar a existência dos assustados cariocas.

Pontualmente às 22:00 horas, Gustavo postou-se junto a uma árvore, na calçada em frente ao supermercado do Leblon, acendeu um cigarro e aguardou. Não teve de esperar muito: um carro de luxo aproximou-se lentamente, piscando os faróis e parou diante dele. O oficial abriu a porta do carro e sentou-se ao lado do homem que ia ao volante. Este estendeu a mão, sorrindo:

- Muito prazer, capitão, sou o delegado Fernando.

Gustavo percebeu que a voz era agradável e o dono dela um homem de compleição mediana, que deveria estar, como ele, em tomo dos trinta e cinco anos. O rosto, ainda que mostrando indícios de fadiga, era jovial. Apertou a mão estendida e retribuiu o sorriso.

- O prazer é todo meu, delegado e, por favor, trate-me por Felipe.

Fernando assentiu com a cabeça e olhou bem para o militar. Depois disse:

- Sabe, você não tem a menor aparência de marginal.

Gustavo soltou uma gargalhada.

- Espere até você me ver enfiado numas roupas surradas, despenteado e com a barba por fazer. Garanto que mudaria logo de opinião.

- Então espero que essa seja a sua aparência amanhã à noite.

O oficial passou a mão pelo rosto e comentou:

- Minha barba cresce rápido, o resto é fácil. Quer me falar dos seus planos?

- Claro. Que tal darmos uma volta por aí enquanto conversamos?

 

47

Deitado no catre estreito, coberto por um lençol cuja cor já se tornara indefinida, as mãos cruzadas por trás da cabeça, olhar fixo no teto sujo,. Zuza pensava nas explicações que teria de dar a Ítalo assim que o soltassem daquela maldita cadeia. Tinha feito uma grande besteira mesmo, refletiu, "enchendo a cara" daquele jeito. Acabou se descontrolando e quebrando o nariz do tal sujeitinho impertinente, por causa de uma discussão à toa. E logo agora quando se aproximava o grande dia e Antônio Maria tinha recomendado a todos os "chefes" favelados que evitassem se envolver em complicações. Particularmente os que, como ele, Zuza, faziam parte do grupo dos seis e estavam a par dos detalhes da "Operação Igualdade".

De repente, a porta da cela se abriu e um policial empurrou um homem para dentro do recinto, trancando-o em seguida. O recém-chegado avançou dois passos e disse, sorrindo:

- Olá!

Zuza fitou-o meio de banda: o sujeito era branco e os cabelos louros desarrumados, quase caíam sobre os olhos. Uma calça desbotada, uma camisa velha aberta no peito mostrando um medalhão pendurado no pescoço e um par de sandálias surradas. Mas o sorriso era largo e simpático.

- Oi - respondeu o favelado sentando-se na cama de ferro e estendendo a mão. - Meu nome é Zuza, e o seu?

O outro sentou-se ao lado, apertou a mão oferecida, tirou um maço amarrotado de cigarros do bolso da calça e ofereceu um ao novo companheiro.

- Felipe - respondeu. - Tem fogo?

Zuza apanhou o isqueiro de plástico na mesinha de metal ao lado do catre e acendeu os dois

- Por que te encanaram? - perguntou o favelado.

Felipe passou a mão pêlos cabelos, afastando-os da testa.

- Estava dando uma olhada numa joalheria, namorando umas pedras bonitas na vitrine, quando um carro-patrulha passou. Acho que os homens desconfiaram das minhas intenções. E como eu estava sem documentos, resolveram que eu deveria pegar umas férias neste "hotel".

Zuza riu.

- Até que você conta uma história interessante, meu chapa, mas dá pra sentir que não é daqui do Rio.

- Acertou. Sou de São Paulo.

- O que é que fazia por lá?

- Era técnico em eletrônica. Rádios, transmissores, televisores, videofones, coisas assim. A firma era boa e até que ganhava bem, mas um dia tive um atrito com o chefe e puseram-me no olho da rua. Aí a barra ficou pesada, como dizem vocês cariocas, e eu tive de me virar. Fiz um "trabalhinho" numa joalheria e consegui algum dinheiro. Mas a polícia paulista começou a dar em cima de mim. Então fui passar uns tempos, meio escondido, na favela do Canindé. Fiquei alguns meses, mas também não deu. Um dos chefões de lá não foi com a minha cara e achei melhor sumir de uma vez. Tomei um ônibus e vim tentar a sorte aqui no Rio com a grana que restava. Mas. por enquanto, nada de emprego. Não está fácil, não.

- E teus documentos? - perguntou Zuza, já começando a simpatizar com o outro.

Felipe fez um gesto desconsolado.

- Ontem à noite fui dormir com uma puta num hotel por aí. Quando acordei de manhã ela tinha levado minha carteira com o dinheiro e os documentos. Só não houve mais confusão porque havia pago o quarto adiantado.

Zuza deu-lhe uma pancadinha amistosa no ombro e disse em tom de gozação:

- Tá se vendo que é mesmo paulista. Deixar uma vagabunda te depenar.

Felipe sorriu meio sem jeito.

- É isso aí - e mudando bruscamente de assunto: - E você, é daqui do Rio?

- Sou. nascido e criado na Rocinha. Já ouviu falar?

- Claro. É a maior favela da cidade, não é?

Zuza soltou um suspiro nostálgico.

- O melhor lugar do mundo, meu chapa. Você precisava ver a vista que a gente tem lá de cima do morro!

Durante mais três dias os dois continuaram compartilhando da mesma cela e uma boa camaradagem foi-se formando entre eles. Sutilmente, Gustavo, isto é, Felipe, ia conquistando a confiança do parceiro, um homem decerto tarimbado pelas agruras da vida na favela, mas simplesmente ingénuo. Zuza, compadecido das dificuldades que Felipe iria enfrentar logo que saísse da prisão, já que pouco conhecia da cidade, propôs levá-lo para ficar uns dias na Rocinha, assim que fossem libertados.

- Quanto tempo você acha que ainda vamos ficar presos? - perguntou Gustavo.

Zuza adotou um ar de entendido.

- Você só foi preso por vadiagem. Não pega mais que três dias. Eu também devo sair logo, pois como malandro não gosta de confusão com a Lei, o cara em quem eu bati não vai apresentar queixa.

Gustavo assentiu com a cabeça. Depois fez a pergunta que de fato importava:

- Será que vão me aceitar lá na Rocinha?

- Eu converso com o Ítalo. Ele é quem manda, mas acho que vai concordar. Você não falou que é técnico em negócios de radiotransmissores?

- Sim - concordou Gustavo sem atinar com o propósito da indagação. - Por quê?

- Antônio Maria, um companheiro nosso que é encarregado da segurança interna da favela, anda tendo trabalho com um desses aparelhos que temos lá. Quem sabe você não ajeita o troço?

O agente do SISA agradeceu intimamente o treinamento que recebera a respeito de eletrònica e radiotransmissores. Talvez isso representasse o fator decisivo para conseguir infiltrar-se na Rocinha.

Zuza prosseguiu:

- O Antônio Mana e o Ítalo andam muito preocupados cm pôr esse aparelho para funcionar logo.

Na sua ingenuidade de homem rude. Zuza começava a falar demais, sem que disso se desse conta, pensou Gustavo. Seu companheiro de cela, desde que manipulado com habilidade, poderia vir a ser um poço de informações. Adotou uma expressão de surpresa e indagou, com ar inocente:

- Mas o que é que tem a ver segurança de favela com radiotransmissor?

Zuza soltou uma gargalhada. Aquele paulista estava mesmo por fora... Mas como é que ele poderia imaginar que se montava na Rocinha uma... como era mesmo a frase que ítalo costumava usar? Ah, sim: estrutura pára-militar? "Como deveriam ser atrasadas as favelas de São Paulo" - pensou. E sentiu-se orgulhoso ao fazer mentalmente a comparação. Cheio de si, resolveu dar uma "aula" ao companheiro de cela:

- Bem - disse ele, enchendo o peito - nós da Rocinha somos bastante organizados. O pessoal está treinando com aqueles tais de "uolque- tolques", é um nome americano, para poder falar uns com os outros. Acho que o Antônio Maria quer ligar o tal receptor a esses aparelhos.

"Um sistema integrado de comunicações" - disse Gustavo com seus botões. "É, isso dá no que pensar. Se o grupo do Ítalo realmente planeja algum tipo de ação armada como Steiner imagina, por certo não estão se descuidando de um de seus aspectos essenciais". Um tanto intrigado, o oficial lançou um olhar furtivo para o companheiro. Zuza podia ser mesmo o simplório que aparentava, mas, ao que tudo indicava, pelo menos Ítalo e Antônio Maria deveriam ser bem mais preparados e sutis e, conseqüentemente, bem mais perigosos. Teria de ter muito cuidado se, e quando, viesse a entrar em contato com eles. Um gesto em falso, uma palavra errada poderiam liquidar com a missão... e com ele próprio.

A porta da cela se abriu interrompendo a corrente de pensamentos de Gustavo. Um policial dirigiu-se a ele e falou:

- Venha comigo. O delegado quer lhe ver.

- Vou ser solto? - perguntou o agente do SISA, simulando um ar esperançoso.

- Não sei. Mas você deu sorte, meu velho - respondeu o outro. - Acharam seus documentos na bolsa da puta com quem você andou trepando. Ela foi presa ontem à noite quando tcntava roubar outro trouxa, no mesmo hotel em que bateu sua carteira.

Gustavo sorriu, deu uma piscadela para Zuza e acompanhou o policial para fora da cela.

*

- Então - perguntou o delegado, quando se viram a sós no gabinete deste - deu certo?

Gustavo sorveu um gole do café que Fernando lhe oferecera e respondeu:

- Parece que sim. O Zuza convidou-me para ficar uns dias na Rocinha até que eu arranje algum trabalho por aqui ou resolva voltar para São Paulo. Disse que vai falar com Ítalo a esse respeito.

- Você precisa arrumar um jeito de ficar por lá o máximo de tempo possível.

- Talvez consiga. A julgar pelo que Zuza me contou, eles estão tendo dificuldades em ajustar as frequências de alguns "walkie-talkies" com o que, suponho, seja um potente aparelho receptor-transmissor.

O delegado assobiou baixinho.

- Com que então os nossos amiguinhos lá da favela estão ficando sofisticados, hein?

Gustavo assentiu.

- É, acho que o sexto sentido do brigadeiro funcionou. Metralhadoras, granadas, explosivos plásticos e agora esse sistema integrado de comunicações. Tudo isso leva a gente a pensar que eles estejam realmente se preparando para algum tipo de operação para-militar. Será que não tem nenhum remanescente de guerrilheiros do passado entre eles?

Fernando riu.

- Acho que não. Se algum dos subversivos dos anos setenta estivesse vivo por lá, eu já teria sabido. Porém eles não precisam disso para montar uma operação do tipo guerrilha. Não faltam livros e manuais sobre o assunto. O Ítalo é um homem relativamente instruído, e, segundo estou informado, um assíduo leitor de assuntos militares. E, além do mais, o seu lugar-tenente, um tal de Antônio Maria, é bem capaz de ter boas noções sobre essa matéria.

- O Zuza falou sobre ele - interveio Gustavo. - Disse que o Antônio Maria é o encarregado da segurança interna da favela.

- E deve ser mesmo. Vou dizer-lhe algo sobre o Tonho.

- Tonho?

- É assim que o tratam na intimidade.

Fernando ficou um momento pensativo e depois continuou:

- Estou me lembrando, agora, de um detalhe que talvez tenha relevância no nosso caso

- OK, fale.

- Ele deve estar agora com uns trinta e seis anos. Um pouco mais velho que o Ítalo. Mas, ao contrário deste, já esteve preso. Há muito tempo atrás. Um granfino de Copacabana, "currou" a irmã do Tonho, a qual era, na época, assim dizem, quase uma menina.

O delegado fez nova pausa e sorriu.

- Como você vê, também tem bandido do lado de cá. Bem, o Antônio Maria pegou o sujeito dois dias depois da "curra". Foi um ato de vingança premeditada, porém compreensível. Atacou-o na saída de um cinema em Ipanema. O rapaz sobreviveu mas ficou cego de um olho, arrancado a faca. O estupro da irmã serviu de atenuante. Ainda assim, o Tonho pegou dois anos de cadeia. Foi para um dos antigos presídios da Frei Caneca. Durante o tempo que passou lá, andou metido com presos enquadrados na Lei de Segurança Nacional que vigorava naquela época. Era um pessoal com alto "know-how" em assuntos de guerrilha, assalto a banco e organização para-militar. E, vivo como era e ainda é, de certo Antônio Maria aprendeu tudo.

- Então as coisas começam a fazer sentido — comentou o agente do SISA. - Acho que terei de tomar especial cuidado em relação a ele.

Fernando acendeu um cigarro.

- Também acho. Não se descuide com o Tonho, meu amigo. Sua vida não valeria um centavo se ele viesse a saber quem você é.

O delegado foi até a mesa e pegou um envelope.

- Aqui estão os seus novos documentos. Identidade em nome de Felipe Santoro, trinta e cinco anos, solteiro, paulista. E carteira profissional mostrando que você trabalhou como especialista em tele-vídeo-comunicação na Eletrônica Paulicéia S.A., durante quatro anos, tendo sido despedido há onze meses. Está bem assim?

- Perfeito. Coincide com a história que contei ao Zuza.

- Então, ótimo. Volte para a cela e daqui a pouco um policial irá lá informar aos dois que serão logo soltos. Nesse ínterim você e o Zuza combinam um encontro fora da delegacia a fim de irem juntos para a Rocinha. Mando soltá-lo na hora do almoço e liberto o Zuza uns vinte minutos depois, após passar-lhe um dos sermões habituais.

Fernando fez uma pausa e, em seguida, mudou de assunto:

- Já acertou com o brigadeiro o meio de manter contato com ele?

Gustavo apontou para o medalhão.

- Dentro disso aqui tem um receptor de quartzo. Sempre que o brigadeiro acionar um "bip" o medalhão se aquece e eu sei que ele deseja comunicar-se comigo. Para falar com Steiner, estou pensando cm duas alternativas: telefone publico ou o próprio aparelho transmissor deles. Mas só poderei decidir sobre essa segunda opção depois de conhecer o equipamento e se, como espero, venham a me da a chance de manipulá-lo, para ajustar as frequências. Por enquanto, a possibilidade do uso do transmissor é pura especulação. Nem sei se o que Zuza falou corresponde à realidade. Vamos esperar para ver.

O delegado fitou o agente do SISA com admiração.

- Você é um homem inteligente e corajoso, Felipe, mas tenha cuidado, muito mesmo. Não gostaria que viesse a ter o mesmo destino dos alcagüetes da polícia que foram recentemente eliminados. A tu ma do Ítalo parece estar particularmente atenta em relação à presença de informantes dentro da favela.

- Eu me cuido - retrucou Gustavo com convicção.

Trocaram um firme aperto de mão. Em seguida, o oficial da FAB foi conduzido de volta à cela onde Zuza o aguardava ávido por notícias.

 

48

Zuza apareceu na sede da União dos Moradores da Rocinha lá pelas 15 horas. Se Ítalo e Antônio Maria já não estavam satisfeitos com o companheiro por este ter sido preso, ficaram ainda menos quando ele anunciou ter trazido para a favela um companheiro de prisão.

- Não é hora de ter estranhos rondando por aí - lembrou Antônio Maria com rispidez.

Zuza ergueu a mão.

- Deixa eu explicar, Tonho. O cara é legal, não tinha pra onde ir e acho que ele vai ser útil pra gente.

- De que jeito? - indagou Ítalo.

- O homem é especialista em rádios, transmissores, receptores e coisas desse tipo - e virando-se para Antônio Maria: - Você não está tendo problema com aquele aparelho de rádio complicado? Vai ver o Felipe acerta isso.

Ítalo e Tonho se entreolharam.

- E se esse cara for algum policial colocado na cela pra fazer camaradagem com você, com o fim de vir depois pra cá espionar? - indagou António Maria, desconfiado.

Zuza ia dando uma gargalhada. Mas de repente ficou sério, assumiu um ar ofendido e disse:

- Escuta aqui, eu não sou nenhum trouxa. Conheço um "tira" só pelo cheiro. O cara é um pobre coitado que deu azar em São Paulo. Andou até uns meses escondido na favela do Canindé e teve que se mandar pra não ser preso. Por que não levam um papo com ele e verificam vocês mesmos?

Ítalo e Antônio Maria voltaram a se entreolhar. O Zuza parecia realmente ofendido e, quem sabe, talvez esse tal de Felipe fosse autêntico e pudesse mesmo ajustar o sistema de comunicações, um quebra-cabeças que os dois lideres não tinham ainda conseguido resolver. Tomadas as devidas precauções, era válida a tentativa. Ítalo lançou um olhar amistoso para o Zuza.

- Tá legal, vamos conversar com ele. Onde está o homem?

A expressão do outro desanuviou.

- Lá fora. Já trago ele aqui.

Felipe entrou com ar descontraído como se nada no mundo o preocupasse. Mas o ar de tranquilidade acobertava uma aguçada atenção, visando formar de pronto um conceito sobre os dois homens que o observavam cuidadosamente. Reconheceu-os logo: o moreno forte, de estatura média e simpático era Ítalo, tal qual nas fotografias. O outro, claro, alto e magro, por certo seria Antônio Maria. Mas, se dúvidas houvessem, teriam sido desfeitas de imediato. O líder do grupo dos seis adiantou-se e disse:

- Eu sou Ítalo e esse aqui é o Antônio Maria.

O recém-chegado fez um gesto de saudação.

- Muito prazer, meu nome é Felipe.

Os olhos astutos de Tonho escrutinaram-lhe o rosto.

- O Zuza disse que você veio fugido de São Paulo.

"Começa a inquisição" - pensou Gustavo.

- É - respondeu - as coisas ficaram pretas por lá.

- Também falou que você entende de rádios transmissores.

- Hum, hum - Gustavo continuava mantendo uma aparência displicente. Ítalo interveio, perguntando, também num tom casual:

- Onde você trabalhou em São Paulo? Quero dizer, antes de se meter em encrencas com a polícia.

"Uma dupla de interrogadores astuciosos" - disse Gustavo consigo mesmo, mas que não pareciam dispor de muito tempo para circunlóquios. Se essa era a regra do jogo, tudo bem, não iria dificultar-lhes a tarefa".

- Na Eletrônica Paulicéia. Quatro anos. Fui despedido há onze meses, mais ou menos.

- Zuza não nos disse o seu sobrenome - agora foi Tonho quem fez a pergunta.

Gustavo sorriu intimamente... "Com que então eles vão verificar a minha história. Otimo!"

- Santoro. Sou neto de italianos - respondeu, e mudando o tom: - Escuta, Ítalo, o Zuza falou que talvez vocês pudessem arranjar alguma coisa pra mim por aqui. durante uns dias. Vou tentar conseguir trabalho em uma firma de eletrônica. Mas com todo esse desemprego - fez um gesto vago com a mão - talvez leve algum tempo e eu estou completamente duro.

Ítalo já ia respondendo qualquer coisa quando percebeu um sinal de advertência nos olhos de Antônio Maria. Virou-se então para o com panheiro:

- O que você acha, Tonho?

- Bem, por enquanto não temos nada pra ele fazer, mas daqui a uns quatro ou cinco dias pode ser diferente - e voltando-se para Felipe: - Nós temos um aparelho de rádio-amador. Só que uma peça quebrou e estamos esperando outra para substituí-la. Deve chegar em breve de Manaus. Então é possível que você possa ajeitar o rádio para nós. Por aqui ninguém manja muito do assunto. Vamos ver.

- Tudo bem - replicou Gustavo num tom resignado e depois, adotando um ar de súplica:

- Será que dá pra eu ir ficando por aqui até essa peça chegar?

Ítalo respondeu:

- Tá certo. Você pode ficar com o Zuza. Nesse meio tempo ele mostra pra você como é a vida aqui na Rocinha.

Gustavo escancarou um sorriso.

- Puxa, vocês estão sendo bastante legais. Espero poder ajudar em alguma coisa.

- Quem sabe, Felipe? Talvez você possa mesmo - disse o líder do grupo dos seis abrindo a porta e chamando pelo Zuza.

**

Depois que Gustavo saiu na companhia de seu ex-companheiro de cela, Ítalo virou-se para Antônio Maria:

- Entendi seu sinal e a balela da peça quebrada. Você está querendo tempo pra verificar se a história dele é verdadeira, não é?

O outro fez um gesto positivo com a cabeça.

- Certo. Se vamos usar esse Felipe para ajustar o rádio aos mini- transmissores, devemos ter certeza de que ele é o cara que diz ser.

- Tem como checar isso?

- Acho que sim. Conheço um escrevente da polícia paulista que vende informações de qualquer tipo por algumas notas de cinquenta reais. Tenho até o telefone dele. Ele pode verificar toda a história desse Felipe.

- Então faça isso logo, Tonho - havia um leve toque de ansiedade na voz de Ítalo. - Faltam três semanas para o dia D e a comunicação entre as unidades é importante para o sucesso da operação. Talvez esse Felipe tenha caído do céu.

Antônio Maria sorriu imaginando se o amigo não estaria intimamente atribuindo o aparecimento inesperado de um especialista em eletrônica a alguma força sobrenatural. Mas, quando falou, disse apenas:

- Sei disso. Ítalo. Vou ligar agora mesmo para São Paulo.

 

49

Dois dias depois, no fim da tarde, Gustavo, isto é, Felipe, jogava cartas com Zuza e outros dois favelados, no Botequim do Cardoso, quando sentiu o medalhão esquentar a pele. Levando a mão à testa num gesto de quem subitamente se lembrou de algo importante, perguntou onde havia um telefone que pudesse usar. Um dos jogadores apontou para um aparelho público do outro lado da rua. Um garoto que fazia às vezes de garçom vendeu-lhe uma carteia. Gustavo murmurou qualquer coisa como "se não ligar agora acabo perdendo aquele mulheraço" e dirigiu-se ao orelhão.

Certificando-se de que ninguém lhe devotava qualquer atenção, discou o número especial de Steiner. Trinta segundos depois conversava com o brigadeiro.

- Como já prevíamos - disse o Comandante do III COMAR - alguém em São Paulo andou indagando a seu respeito. O delegado Fernando telefonou informando. A "cobertura" que preparamos funcionou a contento. O curioso ficou sabendo que um certo Felipe Santoro havia realmente trabalhado na Eletrônica Paulicéia e passou uns tempos escondido da polícia na favela do Canindé.

O brigadeiro fez uma pausa e prosseguiu.

- O pessoal aí na Rocinha está se cercando de todo cuidado, o que parece significar que há mesmo qualquer coisa sendo tramada.

Gustavo concordou e pôs Steiner a par da sua conversa com Ítalo e Antônio Maria.

- Você talvez possa vir a usar esse transmissor deles para se comunicar com nosso Centro de Operações - sugeriu Steiner.

- Foi o que pensei. Se conseguir, transmitirei na frequência de 170 megaciclos usando por prefixo o código AE 2417.

- Passarei a informação para o Centro de Operações. Boa sorte, tome cuidado e até breve.

- Até breve, brigadeiro. O agente do SISA ia repondo o aparelho no gancho quando Steiner subitamente perguntou:

- E... e a Erika? - a voz parecia um tanto acanhada - você já a viu?

- Não, senhor. Tenho sido mantido esses dias numa espécie de quarentena. Mas agora que já confirmaram a minha história, decerto vão me deixar circular mais. Aí então é bem provável que eu tenha a chance de encontrá-la.

Seguiu-se um breve momento de silêncio. Depois o brigadeiro disse, um tanto apressadamente.

- Então, obrigado e até breve - e desligou.

Quase na mesma hora Antônio Maria entrava na sede da União e comunicava a Ítalo que as notícias recebidas de São Paulo confirmaram a história contada pelo homem que Zuza trouxera para a favela.

- Otimo, Tonho. Talvez esse Felipe consiga acertar de vez a questão do radiotransmissor. Leve ele pra jantar lá em casa logo mais - Ítalo piscou o olho. - Vamos conquistar o homem e botar ele pra trabalhar pra gente.

*

Se a casa de Ítalo era modesta, a mesa era farta e variada. "Favelado quando tem algum dinheiro passa bem" - disse Gustavo consigo mesmo, olhando para os pratos à sua frente: arroz à Ia grega, feijão, carré de porco e batatas coradas. Chegara um quarto de hora antes acompanhado de Zuza. Ítalo recebeu-os, abraçando pela cintura uma jovem alta, branca e bonita.

- Felipe - disse ele com visível orgulho - esta é Erika, minha mulher.

Os olhos castanhos da moça sorriram ao responder ao cumprimento e a reverência de Gustavo. Logo depois apareceu Nair, trazendo no colo uma menina de uns dois anos presumíveis, morena, o rostinho ligeiramente bochechud,o emoldurando os olhos redondos mais negros que Gustavo havia visto. No conjunto, a garota era uma cópia fiel do líder favelado, mas o narizinho fino e a covinha no queixo tinham a marca dos Steiners.

- Minha mãe, Nair - Ítalo fez uma pausa e beijou a criança - e... esta é a Pâmela.

Gustavo apertou a mão que a senhora lhe estendia e acariciou de leve a cabecinha da menina, dizendo:

- Oi,boneca!

Pâmela sorriu. O sorriso aberto do pai. Ítalo comentou:

- Só tá faltando o Tonho, mas ele já está chegando por aí. Que tal uma cerveja? E sem esperar pela resposta foi abrindo uma garrafa e enchendo os copos dos recém-chegados.

Gustavo começou a sentir um certo constrangimento, mesmo vergonha, diante da situação em que se achava. Ali estava, num feliz ambiente doméstico, como convidado para jantar e fazendo-se passar por outra pessoa. E, a grande ironia, para espionar o genro e, de certa forma, também a filha do homem que o incumbira do que agora lhe parecia uma desagradável e acanhada missão. Porém, logo se lembrou que não atendia a um convite por amizade mas porque Ítalo e Antônio Maria pretendiam usá-lo em suas escusas atividades. Não poderia se deixar iludir pela placitude do ambiente. Estava no meio de marginais. O que aqueles líderes favelados tramavam, por trás da máscara de seus sorrisos, talvez fosse uma séria ameaça à segurança da comunidade. E a ele, Gustavo, competia descobrir os fios dessa trama para que se pudesse neutralizá-la.

Assim restaurada a paz da consciência, o agente do SISA tomou um largo gole da cerveja gelada, no preciso instante em que Antônio Maria dava entrada no aposento. Durante o jantar ficou acertado que Felipe tentaria ajustar o aparelho de rádio aos vinte minitransmissores, os quais, justificou Ítalo. destinavam-se a facilitar a comunicação entre os grupos de favelados nas campanhas de mutirão que a União dos Moradores iria executar em breve. Gustavo fingiu aceitar a explicação e ficou também saben do que o tão falado radiotransmissor estava instalado e guardado "a sete chaves" num pequeno galpão na Rua 7. e que, no dia seguinte, Tonho o levaria ao local. Em troca de seus serviços, Felipe receberia uma quantia a ser ainda estipulada e poderia permanecer na favela pelo tempo que desejasse.

**

Antônio Mana abriu o cadeado c entraram. Era um galpão de pequenas dimensões, com uma janela reforçada por grades e uma clarabóia no teto por onde passava o fio de uma antena. A mobflia se resumia a uma cadeira e uma mesa de ferro sobre a qual se achava um aparelho de radiotransmissão, protegido da poeira por um envólucro de plástico. Tonho virou-se para Gustavo e disse secamente:

- E isso ai, examine a coisa.

O agente do SISA retirou o plástico e pôs-se a estudar o aparelho minuciosamente. Em pouco tempo compreendeu porque Antônio Maria não estava conseguindo adaptá-lo aos minitransmissores. Tratava-.se de um cobra 2XZ-2000, um potente modelo de 100 watts, altamente sofisticado, dotado de um sistema de codificação e decodificação por meio de um osciloscópio embutido, constituído de microlascas de cristais em circuito fechado. Somente através de um computador poder-se-ia ajustar o código para as frequências desejadas, o que Tonho parecia ignorar.

De pronto, o agente do SISA vislumbrou a possibilidade de estabelecer um canal de comunicação com o Centro de Operações do III COMAR, atendendo, ao mesmo tempo, ao desejo de Antônio Maria de adaptar o aparelho aos minitransmissores. O processo seria relativamente simples: com um microcomputador, ajustaria o código do Cobra em duas frequências: 170 megaciclos para o rádio do III COMAR e 120 megaciclos para os minitransmissores. O que fosse emitido numa frequência não poderia ser captado por aparelhos sintonizados na outra faixa. Gustavo estava certo de que, localizado naquela altura e com uma boa antena, o cobra alcançaria qualquer ponto da cidade.

- O que acha? - perguntou Tonho.

O pseudo Felipe respondeu com outra indagação:

- Que tipo de antena vocês têm?

- Uma tripular.

Gustavo assentiu com a cabeça.

- Isso é bom. Dá pra fazer o que você quer, mas vamos precisar de um microcomputador.

- Pra quê'.

"Otimo". pensou o agente, "Tonho realmente não conhece bem o equipamento". Explicou:

- Porque este aparelho tem um sistema codificado pra garantir o sigilo das transmissões. Só com computador a gente pode identificar e ajustar o código para a frequência que vamos usar.

Antônio Maria ficou um tempo pensativo, absorvendo a informação.

- E o que devemos fazer?

- Arranjar um microcomputador. Um Pentium.

O outro refletiu por um momento.

- Está certo. Eu arrumo o dinheiro e nós vamos juntos comprar. Assim você escolhe o que achar melhor.

- Tudo bem - concordou Gustavo, displicentemente, sem deixar transparecer sua satisfação interior.

***

Chovera intensamente do fim da tarde até perto da meia-noite. Desde então, o temporal abrandara mas continuava caindo uma chuvinha fria e persistente, dessas que dão a impressão que vão durar eternamente. Na cabine da P.M, bem diante do Sheraton Hotel, dois soldados, mal acomodados em cadeiras semi-inclinadas contra a parede, esforçavam-se para permanecer acordados. Era agora três da madrugada e eles só seriam rendidos às sete. Mais quatro horas de uma vigília que lhes parecia inútil, já que até o movimento de carros na Avenida Niemeyer estava, àquela altura, bastante reduzido. Um dos policiais chegou mesmo a observar que no último quarto de hora ninguém havia entrado ou saído do luxuoso hotel. Realmente, tudo levava a crer que o período de guarda que lhes restava seria apenas monótono e sonolento.

**

Eles chegaram sorrateiramente, acobertados pela escuridão e o mau tempo. Pareciam seis manequins saídos de uma mesma forma, tão parecidos se mostravam, tanto no físico - eram todos de compleição média, quanto no trajar - calças escuras e blusões de couro marrom. A semelhança se acentuava ainda mais porque os seis vestiam idênticos capuzes pretos que lhes ocultavam totalmente os rostos, ficando visíveis apenas as escleróticas que refletiam a luz, através dos dois buracos redondos feitos para os olhos. Um deles bateu na porta da cabine. Resmungando, um dos soldados se levantou e foi abrir. Um tiro de pistola, abafado pelo silenciador, fez com que seu rosto se transformasse numa massa disforme e sanguinolenta. Antes que o segundo policial atinasse com o que se passava, um violento pontapé acabou de abrir a porta da cabine e duas balas de 9mm penetraram no seu tórax. prostando-o,já sem vida, junto ao cadáver do colega, que mal tinha acabado de cair.

Os seis homens encapuzados entraram, em seguida, pela porta do hotel, golpearam dois porteiros na cabeça e mataram a tiros o encarregado da recepção, que cometera a infeliz imprudência de tentar se esconder por trás do balcão. Depois, foram até o centro telefónico, degolaram a telefonista e arrancaram os cabos, interrompendo a comunicação com o exterior. Subiram, por um dos elevadores, desceram no quinto andar e aí começou a chacina:

Batiam na porta de um apartamento e logo fuzilavam quem os atendesse; em seguida entravam e iam ferindo ou matando a golpes de faca, coronhadas ou a tiros quem encontrassem, para depois roubar dinheiro, jóias e tudo o mais que julgassem valioso e possível de carregar.

E, assim, foram de um apartamento para outro, repetindo o processo. Se não abriam, a fechadura era arrebentada a tiros de escopeta. E a chacina prosseguia. Ao todo, 12 apartamentos foram invadidos e seus ocupantes mortos ou feridos, sempre com requintes de crueldade.

Mas quis o acaso que uma jovem arrumadeira que descia pelas escadas visse os homens mascarados e, antes que estes pudessem agarrá- la, ela escapou, rolando pelos degraus e gritando desesperadamente.

À essa altura, despertados pêlos tiros de escopeta e pelos gritos da moça, todo o hotel havia entrado em polvorosa. Alguns hóspedes saíam para os corredores, outros trancavam-se nos banheiros, enquanto uns poucos, mais espertos, buscavam fugir pelas escadas de incêndio. Os criminosos perceberam então que era hora de se retirarem. Armas em punho, carregando bolsas e sacolas com os produtos do saque, desceram as escadas, disparando contra quem tivesse a ousadia ou infelicidade de aparecer pelo caminho.

Mas quis o destino que uma viatura da Polícia Civil, com quatro detetives bem armados, que regressavam de uma diligência frustrada na Barra, passasse na hora pelo local e seus ocupantes dessem conta de que algo de anormal estava acontecendo. No exato instante em que o carro parou junto a cabine da P.M. para investigar, os seis bandidos encapuzados saíram do hoïel, atirando. Os detetives portavam metralhadoras. Foi um confronto desigual: de pronto, três dos assaltantes tombaram cravejados de balas. Os outros tentaram voltar para dentro do hotel, mas alguém - nunca se apuro quem - trancara as portas por dentro.Encurralados, os fascínoras remanescentes, não tendo como fugir, lutaram até o fim,

Foi um saldo trágico: entre hóspedes e funcionários do hotel, vinte e três mortos e dezoito feridos.As baixas dos policiais incluíram os dois PMs mortos e um detetive gravemente ferido. Dentre os assaltantes, cinco morreram de imediato. O sexto viveu o suficiente para chegar até o hospital onde, não resistindo aos ferimentos, exalou o último suspiro.

No dia seguinte as manchetes estampavam mais um trágico e doloroso exemplo da violência que assolava o Rio de Janeiro. E a Polícia identificava os bandidos como membros de uma quadrilha que se refugiava na favela do Vidigal, e cujo chefe, um tal de Gandula, era um dos que agora jaziam no necrotério municipal. Houve protestos e pronunciamentos: uns responsabilizavam a crônica deficiência do aparelho policial. Outros, ao contrário, argumentavam que, desta feita, a Polícia "lavrara um tento", já que todos os assaltantes haviam sido liquidados. Mas a "chacina do Sheraton" chocou a opinião pública e, por toda a parte, cresceram o medo e a insegurança. Milhares de turistas que desfrutavam o famoso verão carioca arrumaram as malas e partiram. Os donos dos grandes hotéis se reuniram e resolveram constituir uma polícia particular para a garantia futura dos seus hóspedes e funcionários.

**

Na Rocinha, ao saber do acontecimento, Ítalo disse para Antônio Maria:

- Sanguinários imbecis. Isso vai tornar as coisas mais difíceis para nós. Quando desencadearmos a Operação Igualdade, vão achar que também vamos sair para um banho de sangue e, aí, vêm com tudo pra cima da gente.

Tonho coçou o queixo.

- Não sei não, Ítalo. Pode até ser que, com medo que se repita em São Conrado o caso do Sheraton, o Governo fique mais disposto a negociar.

O líder da Rocinha fez um gesto impaciente com a mão.

- Você sabe que a gente nunca faria uma coisa dessa.

Antônio Maria sorriu, um sorriso cínico, e retrucou:

- Nós sabemos, Ítalo... mas eles não.

 

50

No dia primeiro de março, Ítalo e Antônio Maria, como tinham há muito premeditado, entraram em férias em seus respectivos empregos. Impunha-se que ambos se dedicassem integralmente aos preparativos que antecederiam o lançamento da Operação Igualdade. Logo em seguida, o líder favelado assumiu a supervisão do treinamento da unidade especial, cuidando particularmente em orientar os homens sobre como proceder em relação aos moradores de uma hipotética zona da cidade a ser eventualmente ocupada por eles. Era o preparo psicológico destinado a assegurar aquilo que Ítalo considerava de capital importância: a ocupação pacífica, não-violenta, do bairro de São Conrado.

Na tarde do dia 5, Zé Augusto foi até uma fábrica de confecção de tecidos na zona norte da cidade e voltou trazendo 5.000 braçadeiras azuis para serem usadas pelos participantes da Operação Igualdade. Trouxe ainda outras 130 braçadeiras vermelhas (destinadas aos membros da unidade especial) e vinte uniformes, que eram cópias perfeitas daqueles usados pelo Batalhão de Trânsito da Policia Militar do Estado. Os pequenos detalhes não haviam sido esquecidos!

Naquela mesma noite. Ítalo determinou aos chefes de unidades que instruíssem seus comandados para que, no dia 24, todos se apresentassem nos pontos de concentração pontualmente às 22:00 horas. Como a unidade especial seria a peça fundamental no esquema de ocupação de São Conrado, Ítalo julgou de bom alvitre informar Ramiro sobre os objetivos da Operação Igualdade, uma semana antes do dia D. Assim, o "sargentão" poderia melhor avaliar as aptidões de seus homens para as tarefas que caberiam a eles, corrigindo, em tempo, eventuais deficiências ou distorções. Ficou então definitivamente acertado que a unidade de elite - como Ramiro a ela se referia orgulhosamente - se encarregaria das seguintes atribuições:

1a - Bloquear as seis vias de acesso a São Conrado, 48 homens seriam usados para esse fim, alguns deles disfarçados em guardas de trânsito, para maior efeito de dissimulação.

2a - Tomar de assalto o posto da P.M., próximo à Praia do Pepino.

3a - Cortar os cabos telefónicos da área.

4a - Colocar explosivos (e detoná-los, caso viesse a ser necessário) em três hotéis, dois "shopping-centers" e um supermercado.

5a - Atuar como "tropa de choque" na eventualidade - pouco provável, admitiam - de um confronto com a Polícia ou com as Forças Armadas.

6a - Executar as sanções punitivas determinadas pelos líderes da Operação, contra quem, porventura (ou desventura!) quebrasse as normas disciplinares a serem estabelecidas no Memorando.

**

O dia 20 de março amanheceu nublado. Lá pelas 07:30, o sol começou a desmanchar a neblina e, do alto da Estrada da Gávea, já se distinguiam os contornos dos prédios de São Conrado, cinquanto o mar permanecesse invisível. Mas, do outro lado, nuvens baixas ocultavam quase completamente a Lagoa. Até a estátua do Cristo permanecia escondida pelos cúmulos-nimbos: um prenúncio de chuva.

Às 08:00 horas, numa sala da União dos Moradores da Rocinha, Ítalo e Antônio Maria sentaram-se para delinear as diretrizes do plano operacional do dia D. Ele compreenderia todas as etapas, desde a comunicação dos objetivos da Operação Igualdade aos chefes das unidades, até, como previam e esperavam, o momento do encontro de Ítalo com o Governador do Estado, quando seria entregue ao chefe do Executivo Estadual o Manifesto com os termos da negociação, documento este ainda por ser elaborado.

O plano operacional foi dividido em etapas, dentro de uma sequência cronológica:

1a) Dez horas antes da Hora "H " - os chefes das unidades são informados sobre a natureza da Operação e recebem instruções quanto aos objetivos a serem alcançados por cada unidade.

2a) Uma hora antes da hora H - Os participantes reúnem-se nos pontos de concentração para ouvirem dos seus chefes a leitura do Memorando, assinado por ítalo, explicando as razões da ação. Em seguida, são estabelecidas as diretrizes operacionais de cada unidade.

3a) 20 minutos antes da hora H - A unidade especial é deslocada para os locais a serem bloqueados.

4a) Hora H - Procede-se ao bloqueio das vias de acesso e o corte dos cabos telefónicos de São Conrado.

5a) Dez minutos após a hora H - Todas as unidades deslocam-se para São Conrado. O Posto Policial da Praia do Pepino é ocupado. Grupos volantes, com a utilização de megafones, dão ciência aos moradores do que está acontecendo, informando-os que não serão molestados, desde que permaneçam em suas residências, sem tentarem qualquer resistência à ocupação do bairro e sem fazer uso de seus celulares.

6a) Trinta minutos após a hora H - Destacamentos da unidade especial colocam cargas explosivas em hotéis, "shopping-centers" e supermercados.

7a) Uma hora após a hora H - Ítalo regressa à Rocinha e estabelece contato com o Governador.

8a) Entre 60 e 90 minutos após a hora H - Ítalo vai ao encontro do Governador para apresentar-lhe o Manifesto com os termos de negociação.

 

51

Cedo, na manhã do dia 23, ítalo e António Maria reuniram-se com o Dr. Edgar, na sede da União, para redigirem o Memorando (destinado aos participantes da Operação Igualdade) e o Manifesto (às autoridades e à população). Os dois líderes idealizaram o conteúdo e o velho advogado encarregou-se da gramática e da retórica. Após inúmeros reparos e acertos, chegaram aos textos definitivos. O próprio Edgar, penosamente, datilografou os documentos e, em seguida, Zé Augusto foi requisitado para tirar xerox. Foram feitas vinte cópias do Memorando e oito do Manifesto.

Quando estava tudo terminado, lá pelas duas horas da tarde, Tonho saiu para se entender com os homens encarregados de trazerem os ônibus e caminhões que seriam usados para transportar armas e pessoal na noite do dia D. Ítalo, por seu lado, foi ao encontro de Ramiro e seguiram ambos para reprisarem as instruções à unidade especial, "acantonada" nas matas do Laboriaux.

Quanto a Edgar, dois jovens "pretorianos" conduziram-no à "fortaleza", onde ele deveria permanecer como "hóspede" até que a Operação fosse deflagrada. Uma medida cautelar, já que o velho causídico, dado de quando em vez a tomar "umas e outras" poderia, inadvertidamente, revelar certas inconfidências...

**

Naquela noite, depois de terem posto Pâmela para dormir, Ítalo contou para Erika tudo sobre a Operação Igualdade e pediu-lhe que guardasse as cópias do Memorando e do Manifesto. Ela permaneceu um longo tempo calada, pensativa, enquanto ele aguardava, ansioso, que ela traduzisse em palavras o que ia pelo pensamento. Afinal, a mulher indagou:

- Por que você guardou esse segredo de mim por tanto tempo, amor? - na voz não havia repreensão, mas ternura e apreensão.

Ele deu de ombros.

- Não foi por falta de confiança. Só quis evitar que você se preocupasse com o assunto. Mas agora, faltando apenas dois dias... você tinha de ficar sabendo.

Erika tocou no braço do marido e perguntou, apontando para os documentos que lhe dera para guardar:

- Posso ler?

- Claro.

E durante muitos minutos, a filha de Steiner mergulhou, absorta, na leitura.

MEMORANDO

Aos chefes das Unidades

Para ser lido às 23:00 horas, nos pontos de concentração, a todos os participantes da Operação Igualdade.

"Companheiros da Rocinha:

Não dá mais para continuar como estamos: mais de quatrocentas mil pessoas apertadas numa área tão restrita. Precisamos de espaço. Já tentamos obter isso antes. Pedimos uma parte do morro do Laboriaux. Negaram porque querem construir lá hotéis de luxo e supermercados. Em troca nos ofereceram um local além da Baixada Fluminense. Recusamos. Por vingança, ou para forçar a gente a sair daqui, diminuíram o tal "programa de urbanização". Há quanto tempo não colocam novos canos de água e tubos de esgoto na favela? Para pôr fim a essa situação, formamos um grupo que preparou, meticulosamente e em segredo, a ação desta noite. Muita gente na Rocinha deve vir suspeitando, há algum tempo, de que alguma coisa estaria por acontecer. Mas só agora é que vocês vão saber ao certo do que se trata. Esta noite nós vamos descer para uma ação a que demos o nome de Operação Igualdade. Mas prestem muita atenção no que vou dizer: nós não vamos descer para um "banho de sangue". Vamos descer para ocupar, sem violência, o bairro de São Conrado. Estaremos bem armados, mas só lutaremos se não der para evitar. É importante que todo o mundo saiba que somos civilizados. Mas como muita gente não consegue se controlar em certas situações, selecionamos com cuidado os que merecem nossa confiança, para tomar parte nessa operação: Vocês! Podíamos usar setenta ou oitenta mil homens, mas preferimos contar só com os quase quatro mil que foram escolhidos, por questão de segurança e para evitar violências desnecessárias. Esta é uma operação de tipo para-militar. Logo, exige sigilo e disciplina. Os que serviram no Exército sabem disso. O sigilo foi mantido: até agora só uns poucos conheciam os planos e os preparativos foram bem disfarçados. Mas a disciplina ainda me preocupa. E ela terá de ser seguida, custe o que custar. Se sairmos por aí como um bando de desordeiros, assaltantes e assassinos, o mundo todo vai ficar contra nós e seremos destruídos. Mas se a gente for firme e decente, então ganhamos a simpatia geral. E isso vai ajudar para conseguirmos o que queremos. Logo, quem sair da linha será punido. Os habitantes de São Conrado ficarão prisioneiros, reféns, mas bem tratados. Assim, quem causar estupro, saques ou homicídio, será fuzilado pela nossa unidade especial. Não gosto de ter de falar dessa forma com meus irmãos, mas essa ordem é para valer. Quem não estiver de acordo que fique aqui em cima. As unidades começarão a se deslocar às 23:40 horas e a operação terá início à meia-noite, com o fechamento das estradas e o corte dos cabos telefónicos da área. A ocupação de São Conrado deverá estar concluída até às duas da madrugada, quando então eu irei procurar as autoridades do Estado para negociar. Os chefes das unidades vão dar as instruções sobre as tarefas de cada um.

Coragem, disciplina e boa sorte.

Ítalo da Silva

Comandante da Operação Igualdade

Rocinha, 24 de março de 200_

 

M A N I F E S T O

Às autoridades e ao povo

"Todos os seres humanos são iguais perante Deus, mas não diante dos homens que detêm as riquezas e o poder. Atos de injustiça continuam a ser praticados hoje, tal como nos tempos medievais. A despeito de todos os estudos sociológicos, as comunidades chamadas de favelas ainda são consideradas, por muita gente, como uma espécie de sub-mundo, habitado quase exclusivamente por foras-da-lei. Na verdade, nós, favelados, não desfrutamos das oportunidades dos que vivem em zonas mais prósperas das cidades e, talvez por isso, as favelas apresentem um percentual maior de doentes, analfabetos, desempregados, viciados e marginais. Mas isso não se. deve a uma condição de nascimento e sim à subnutrição, baixa escolaridade e discriminação, fatores que nos privam da chance de competir em igualdade de condições por um lugar ao sol. Não obstante, milhares de favelados, conquanto exercendo atividades mal remuneradas, labutam arduamente, constituindo importante contingente de mão-de-obra do mercado de trabalho. Muitos outros, infelizmente, desamparados e desesperançados desde cedo, são atraídos pelos aliciadores do vício e do crime - que também existem, e quantos! fora das favelas - e caem na marginalidade. No entanto, apesar de todos esses fatores adversos, houve progressos. E a Rocinha tem sido, nas últimas décadas, um exemplo de que podem evoluir socialmente classes economicamente menos favorecidas. Já vão longe os tempos malditos das bicas d'água, dos dejetos lançados nas ruas, da comercialização da luz elétrica, da exploração pelos políticos e das estéreis disputas internas. Hoje, a Rocinha está unida e consciente da sua força coletiva. E já existem água, esgoto e iluminação na maior parte da favela, embora milhares de barracos estejam ainda privados dessas condições mínimas de urbanização. Mas é outro o nosso maior problema: espaço. Com o crescimento demográfico, a população da Rocinha já se aproxima de meio milhão. Não obstante a criação de novos bairros e do máximo aproveitamento da área existente, não há mais como construir moradias e minguam os espaços para o lazer. A vida vai-se tornando insuportável e a superconcentração populacional acabará gerando conflitos intoleráveis, passíveis de extravasarem para além da favela. Há três anos vimos alertando as autoridades para o fato. A União dos Moradores da Rocinha solicitou ao Governo a cessão de uma área no morro do Laboriaux, para atenuar a gravidade do problema. A solicitação foi rejeitada. Em contraposição, propuseram um plano de remoção gradual dos nossos moradores para além da Baixada. Recusamos. Em represália foram suspensas as obras de urbanização na Rocinha. E por que nos recusaram a área solicitada? Para manter a integridade da floresta, em nome da Ecologia? Não. Isto porque a área em questão já está quase toda desmatada para a construção de uma cadeia de hotéis de luxo e supermercados, a fim de se atender à fome de lucro das firmas imobiliárias e dos monopólios de distribuição de alimentos nesta cidade. E por acharmos que o direito do humilde de morar com dignidade é mais importante que os interesses supérfluos dos gananciosos, optamos por uma ação enérgica: a "Operação Igualdade". Assim é que, desde a zero hora de hoje, todo o bairro de São Conrado encontra-se em nosso poder. Todas as suas vias de acesso acham-se bloqueadas, porém não se cogita qualquer violência contra os moradores. Não se trata de um ato desvairado mas de uma operação cuidado- samente planejada e executada, com ordem e disciplina. Desejamos, neste momento, entabular negociações com o Governo do Estado no sentido de serem atendidas nossas justas reivindica- ções. Tão logo isso ocorra, nos retiraremos de São Conrado sem que aconteçam - assim esperamos - perdas humanas ou danos materiais. São as seguintes as nossas exigências:

1) O Governo do Estado deverá dar, de imediato, conhecimento ao público do conteúdo deste documento, pela imprensa escrita, falada e televisada. 2) Deverá também o Governo do Estado assumir, publicamente, através dos meios de comunicações mencionados, os seguintes compro- missos: 1°) Ceder oficialmente à U.M.R. todo o morro do Laboriaux; 2°) Completar, a curto prazo, a urbanização da Rocinha; 3°) Assegurar que não serão adotadas, em tempo algum, medidas punitivas ou represálias contra os participantes da Operação Igualdade.

Se as exigências acima referidas não forem atendidas até as 14 horas do dia 25 de março do ano 2007, o Comando da Operação Igualdade procederá da seguinte forma:

l) Evacuará determinados prédios nos quais cargas e explosivos foram previamente colocados.

2) Fará explodir, a cada hora, um dos referidos prédios, até que as exigências sejam cumpridas.

No caso de tentativa de ação armada contra as unidades de ocupação ou contra a favela da Rocinha, o Comando da Operação Igualade se exime de qualquer responsabilidade em relação à segurança e à vida dos moradores do bairro de São Conrado.

Estamos certos de que milhões de indivíduos que sofrem como nós aplaudirão a nossa causa e talvez identifiquem nela um raio de esperança. Quanto aos demais, esperamos que compreendam que somente pleiteamos o direito de existir com dignidade. E aos que desejarem nos rotular de chantagistas, sugerimos uma reflexão: haverá, por acaso, maior chantagem contra um ser humano do que mantê-lo num estado permanente de desesperançada miséria?

Rocinha, 25 de março de 200_

Ítalo da Silva

Antônio Maria de Oliveira"

**

Ao terminar de ler os dois documentos, Erika ergueu os olhos para o esposo:

- Ítalo, os dois documentos, principalmente o Manifesto, são textos bastante eloquentes e revelam o mérito da sua luta e sua determinação em evitar, ao máximo possível, atos de violência. Não obstante, amor, você vai desafiar e incomodar os poderosos e isso é sempre perigoso. A causa que você defende é nobre mas não sei se o caminho escolhido é o mais certo. Porém, não tenho condições de julgar.

Ela falava com uma impressionante maturidade para alguém tão jovem:

- Você, melhor que ninguém, conhece as necessidades da sua gente e do que eles são capazes. É um plano audacioso e, se der certo, você terá mais do que justificado a sua liderança. Mesmo temendo o que possa acontecer, sinto-me orgulhosa de ser sua mulher.

Ele foi até ela e beijou-a docemente.

- Obrigado pelo apoio e pela compreensão. Na verdade, o que mais me preocupa nisso ludo é envolver você numa... - ele hesitou um instante - numa luta que não é sua.

Erika sacudiu a cabeça.

- Não, Ítalo, ela também é minha, porque é sua. Escolhi meu destino quando deixei tudo pelo nosso casamento. Agí por paixão e amor e sinto-me plenamente compensada, porque recebo o que dou, com igual intensidade. Meu mundo não se prende a um determinado bairro, cidade ou país. Meu mundo é onde você estiver e eu permanecerei sempre ao seu lado, contra tudo e contra todos. - a voz de Erika cresceu com orgulho - Um amor como o nosso não admite meio-termo.

 

52

O botequim do Cardoso ficava num local privilegiado - bem na esquina da Rua 6 com a Estrada da Gávea - e era um ponto de reunião de toda a gente, bem como o centro dos boatos da favela. Gustavo logo farejou a potencialidade do lugar como fonte de informações e passou a frequentá-lo todas as noites. Até então nada conseguira colher de significativo. Apenas vagos rumores de que o grupo dos seis vinha se reunindo diariamente, a portas fechadas, na sede da U.M.R. o que, segundo alguns, era indício de que algo estaria por acontecer. A maioria imaginava que Ítalo e seus companheiros iriam novamente solicitar ao Prefeito e ao Governador a expansão do bairro do Laboriaux para a construção de mais moradias. Num canto, junto ao balcão e procurando passar o mais desapercebido possível, Gustavo estava terminando seu segundo copo de cerveja. Olhou as horas: quase meia-noite. O dia 22 de março chegava ao fim. Começou a pensar em ir embora quando um mulato meio gordo, que bebia com dois crioulos numa mesa próxima, elevou a voz, despertando a atenção geral:

- Se não quiserem acreditar, que se fodam! - exclamou num tom vacilante, já bastante alcoolizado. - Mas é verdade. Meu moleque estava escondendo umas muambas na mata do Laboriô e viu os homens.

- Fala baixo, cara - advertiu um dos crioulos.

- Fala baixo uma porra! Tavam lá sim e armados - o mulato se balançou na cadeira, os olhos vermelhos querendo fechar- tinham até metralhadora. O sacana do meu filho manja dessas coisas - bateu no peito - saiu ao pai.

Um dos companheiros deu-lhe uma pancadinha no ombro.

- Ô Tião, deixa de história. Tu tás é bêbado ou então o teu garoto andou puxando maconha e alucinou.

O mulato protestou com ar de ofendido:

- Juro que é verdade. Deve ser alguma quadrilha nova se formando por lá, morou?

O outro crioulo, para apaziguá-lo ou porque estivesse mesmo dando crédito às palavras de Tião, perguntou:

- E o teu filho reconheceu algum dos caras?

O mulato se levantou, apoiando-se nos ombros dos companheiros e apontou o dedo vacilante para ninguém em particular.

- O moleque reconheceu o Ramiro, aquele cara que foi sargento no Exército.

Os dois crioulos se entreolharam. Alguém em outra mesa pigarreou. Um dos companheiros do mulato aconselhou:

- Olha, cara, se era mesmo o Ramiro, o melhor é a gente esquecer esse papo, tá? Se o sargento tá nessa, então é a mando do Ítalo, e ninguém deve meter o bedelho.

Tião resmungou qualquer coisa e tomou outra dose de cachaça. Depois ergueu a cabeça num gesto de desafio e falou, bem alto, para ser ouvido por todo mundo:

- Vocês se borram todos só de ouvir o nome do Ítalo, mas eu não tenho medo dele nem de ninguém. E isso aí... tem nego armado, escondido lá no Laboriô e o Ramiro tá metido na coisa.

Tião empurrou a cadeira para trás, levantou-se e começou a caminhar, ziguezagueando na direção da saída. Nisso, dois jovens de porte atlético, um branco e um preto, ambos trajando idênticas jaquetas de couro, entraram no botequim e, sem dizer palavra, agarraram o mulato pelos ombros, ergueram-no do chão e levaram-no para fora. Tião, tonto e surpreso, esbravejou e tentou se livrar, mas em vão. Os dois rapazes musculosos carregaram-no como se fosse um simples saco de penas e sumiram com ele dentro da noite. Ninguém no botequim se mexeu ou protestou. Todos limitaram-se a olhar a cena e depois voltaram às bebidas e aos jogos de cartas, sem emitirem qualquer comentário. Apenas o crioulo que antes advertira Tião murmurou para o companheiro:

- Eu bem que avisei pra ele...

Gustavo botou o copo sobre o balcão e saiu. Tinha reconhecido um dos seqüestradores de Tião: ele fazia parte do grupo de motoqueiros que pareciam acompanhar Ítalo e Antônio Maria por toda parte. A guarda-pretoriana. disse consigo mesmo. As coisas se encaixavam: Tião não havia mentido e, por revelar algo que deveria permanecer sigiloso, foi retirado de circulação. No mfniino, iria ficar desaparecido por um longo tempo. Ramiro estava mesmo treinando homens no uso de armamentos nas matas do Laboriaux. Steiner tinha razão: o grupo dos seis se aprontava para uma ação armada. Mas quando e com que objetivo? Era isso que teria de apurar, o mais rapidamente possível e a qualquer custo.

**

As respostas começariam a surgir mais cedo do que Gustavo poderia ter antecipado. Ele passara a manhã inteira do dia seguinte no galpão, aproveitando estar sozinho para testar o equipamento na frequência do Centro de Operações do III COMAR. E, agora, estava apto a receber e transmitir mensagens, sem que elas fossem captadas pêlos mini-receptores, os quais ele próprio sintonizara numa frequência diferente, exatamente para evitar qualquer possibilidade de interceptação por parte do pessoal de Ítalo, quando estivesse estabelecendo contacto com Steiner. Sentiu o estômago contrair e olhou para o relógio: 13:10 horas. Era fome mesmo. Estava na hora de ir até o botequim do Cardoso comer alguma coisa e, quem sabe, descobrir alguma notícia sobre o paradeiro de Tião.

Levantou-se no exato instante em que a porta se abriu e Zuza entrou com uma expressão aborrecida.

- O que é que há, companheiro? - perguntou Gustavo.

O outro explicou que todo mundo estava à procura de Ítalo mas este saíra cedo de casa e nem Erika sabia do seu paradeiro.

- Logo agora, bem na véspera, ele some e deixa a gente só pra resolver os problemas.

- Véspera de quê? — indagou o agente do SISA, sentindo o coração acelerar.

Zuza pareceu hesitar mas depois disse:

- Olha, eu não devia contar nada, mas você tem sido tão legal com a gente, que é sacanagem ficar por fora. O trabalho que você fez com esse troço - apontou para o radiotransmissor - deixou o Ítalo satisfeito. Ele até me deu parabéns por ter trazido você pra ca.

- Estou contente em saber disso - interveio Gustavo, tentando disfarçar a ansiedade. - Mas conte lá, homem.

Zuza deu uma risadinha. Era sempre agradável mostrar ao paulista o quanto estava por dentro das coisas. Afinal, o cara só entendia mesmo de equipamentos eletrônicos. Pigarreou e disse:

- Vamos dar uma volta. Vou mostrar uma coisa pra você.

Saíram e foram para a Estrada da Gávea. Em seguida, caminharam até um local de onde se avistava São Conrado. Pararam. Zuza apontou com o dedo.

- Tá vendo lá embaixo, Felipe? Nós vamos descer pra ocupar tudo aquilo. Aqueles ricaços vão tomar uma lição daquelas.

Gustavo arregalou os olhos.

- Você está de brincadeira, Zuza. Não acredito que tenham força pra isso - disse ele, provocando a vaidade do outro.

Deu certo. Zuza ergueu o queixo e replicou, cheio de empáfia:

- Como não? Temos unidades de combate treinadas e bem armadas. Vai ser um golpe de mestre, companheiro.

Gustavo insistiu na provocação. Era a melhor maneira de fazer o outro soltar a língua.

- Você ficou maluco. Em São Conrado e na Barra mora muita gente importante. Se vocês invadirem os bairros, vão ter de enfrentar a polícia e talvez até o Exército. Será um banho de sangue.

Zuza sorriu. Um sorriso de superioridade.

- Nada disso, meu chapa. Um ataque de surpresa. Ítalo e Antônio Maria têm a coisa toda planejada. Quando as autoridades acordarem já vai estar tudo acabado. Mas se correr sangue, não será só o nosso, companheiro.

Gustavo fez um gesto de quem se dava por convencido e, confiando na indiscrição do outro, arriscou a pergunta decisiva:

- Quantos vão descer, amigão?

Zuza fitou-o por um momento, indeciso, e sacudiu a cabeça.

- Sinto muito, Felipe, mas não posso dizer mais nada. Já falei demais. Se o Ítalo ou o Tonho sonham que contei essas coisas pra você, me arrancam o couro.

E, diante do ar de desapontamento no semblante de Gustavo, completou:

- Mas quando chegar a hora você vai saber de tudo. E agora, que tal uma cervejinha?

A caminho do botequim do Cardoso, enquanto Zuza relatava sua proeza sexual na noite anterior com uma passista do Bloco Sangue Jovem, Gustavo pensava num jeito de voltar logo ao galpão, a fim de alertar Steiner, antes que Antônio Maria, como fazia todas as tardes, aparecesse por lá para treinar no manuseio do radiotransmissor.

***

"AE 24 J 7 chamando Águia Um... responda Águia Um. Câmbio."

Não houve resposta. Gustavo consultou o relógio: 14:35 horas. Antônio Maria podia aparecer a qualquer momento. Não trancara a porta porque, se o fizesse, decerto levantaria suspeitas. Verificou a frequência: 170 megaciclos. Correto. Tornou a tentar:

"AE 2417 chamando Águia Um... responda Águia um. Câmbio".

Um ruído de estática, depois:

"Águia Um respondendo... pode falar AE 2417. Câmbio".

Gustavo soltou um suspiro de alívio e reduziu o volume por precaução.

"Atenção, Águia Um, mensagem para Scorpio, repito, mensagem para Scorpio. Câmbio."

"Pode enviar AE 2411... estamos gravando. Câmbio."

"Fortes indícios de invasão das áreas de São Conrado e Barra por grupos favelados, amanhã. Hora indeterminada. Também não há informação quanto ao número de invasores. Fim da mensagem. Câmbio."

"Mensagem recebida e gravada. Aguarde. Câmbio."

"Disponho de pouco tempo. Câmbio."

Seguiu-se quase um minuto de silêncio. Gustavo começou a sentir o suor escorrendo pela testa. Lançou um olhar furtivo para a porta do galpão.

"Atenção AE 2417, Scorpio informa mudança do Comando para a Base de Santa Cruz após as 18:00 horas de hoje. Transmitir em frequência de 180 megaciclos. Enviar detalhes da invasão o mais rápido possível. Importante saber hora do ataque e efetivo dos invasores. Entendido? Câmbio."

"Entendido, Desligo."

Gustavo respirou fundo, girou o "dial" para a frequência de 120 megaciclos e desligou o aparelho. Em seguida, levantou-se e ia se encaminhando para a porta quando esta se abriu.

- Tudo bem? - perguntou Tonho com aparente naturalidade.

- Cem por cento. Este "cobra" é uma jóia. Quer dar uma testada nele?

Tonho sacudiu a cabeça.

- Hoje não, passei só pra ver como iam as coisas.

O agente do SISA julgou notar um leve tom de advertência na voz do outro. Era como se este lhe quisesse lembrar que estava sendo, de alguma forma, controlado.

- Bem, então já vou indo - disse, passando por Antônio Maria e saindo do galpão.

Tonho seguiu-o. Gustavo trancou o cadeado, guardou a chave no bolso e anunciou:

- Amanhã volto para ligar o aparelho algumas vezes. Sempre aquecidos, os eletródios do osciloscópio se conservam por mais tempo.

Tonho limitou-se a um vago gesto de assentimento. Começaram a caminhar na direção da Rua 6. Um dos rapazes da "guarda pretoriana" saiu de trás de um poste e foi se sentar na calçada, bem em frente do galpão. Gustavo viu e imaginou que Antônio Maria deveria manter o rádio-transmissor sob permanente vigilância. "Uma medida compreensível", pensou, ao mesmo tempo que se interro- gava se ele próprio não estaria, também, sendo alvo da mesma atenção. Afinal, sentia que o lugar-tencntc de Ítalo depositava nele um grau de confiança bastante limnado.

Um profético pensamenio...

 

53

Recebida a mensagem de Gustavo, Steiner videofonou para o Chefe do Estado-Maior da Aeronáutica em Brasília. Foi uma conversa curta e pouco produtiva. Ao desligar, o comandante do III COMAR, visivelmente irritado, comentou com o Major Alencar, seu ajudante-de-ordens:

- Incrível. O brigadeiro Vasconcelos acha que nada temos a ver com esse caso que, segundo ele, é de exclusiva competência do Governo Estadual. Chegou a insinuar sua estranheza pelo fato de um agente do SISA estar envolvido.

Sacudindo os ombros, disse num tom que tanto podia ser de resignação quanto de desprezo:

- Vamos ver. Ligue para o Secretário de Segurança do Estado.

Dez minutos depois, Steiner repunha o fone no gancho e anunciava, ainda mais contrariado:

- O idiota parece pensar que estamos vendo fantasmas. Acabou prometendo que iria investigar o assunto, mas não estou muito certo que o fará - e após um momento rápido de reflexão: - Tome as providências necessárias, Major, desejo estar na Base de Santa Cruz às 18:00 horas.

Mas Steiner errara parcialmente em suas previsões. O Secretário de Segurança realmente investigou, porém da maneira mais cômoda e ineficiente possível. Mandou ligar para o posto da P.M. na Rocinha e indagou se havia indícios de qualquer movimento anormal. E diante da resposta de que "não há nada fora do habitual, só os casos de rotina", acendeu um cigarro e comentou com seus auxiliares:

- Era o que imaginava. Esse brigadeiro é mesmo matusquela. Ainda bem que eu conheço a história dele. Tem uma verdadeira obsessão em relação a favelados. E sabem por quê? Há uns dois ou três anos a filha dele fugiu de casa para ir morar com um tal de Ítalo, o cara que é hoje o presidente da União de Moradores da Rocinha.

- Não seria bom falar com o pessoal da 15a D.P. e perguntar se sabem de alguma coisa? - indagou, cautelosa e sensatamente um dos assessores. - Eles conhecem bem a Rocinha...

O Secretário interrompeu-o com um gesto impaciente.

- Bobagem. Temos assuntos mais sérios a cuidar do que os delírios paranóicos desses aviadores - e virando-se para um delegado: - Diga-me, Hermes, em que pé está a greve dos metalúrgicos de Campo Grande? Você acha que vai acabar mesmo em confusão?

***

A Base de Santa Cruz era uma das mais importantes instalações da Força Aérea Brasileira. Além de abrigar inúmeros aparelhos de treinamento, carga e transporte, sediava quatro grupos operacionais de elite: as esquadrilhas de jatos de interceptação (F-19) e de caças-bombardeiros (Arapongas), o I Esquadrão de Helicópteros de Combate (Serpentes) e o IV Esquadrão de Helicópteros de Apoio (Cegonhas). Os Serpentes eram de fabricação nacional, modelo avançado dos Cobras americanos da década de 80. Empregados como helicópteros de ataque ar-terra e ar-mar, possuíam grande maneabilidade, podendo desenvolver altas velocidades. Seu armamento consistia em oito mísseis carregando bombas napalm ou petardos de fragmentação, um canhão de 20mm e duas metralhadoras de médio calibre. Os mísseis eram orientados por computadores acoplados a um sistema de radar-sonar, o que lhes permitia atingir, com rigorosa precisão, alvos a até dez quilôme- tros de distância e de uma altitude de 700 metros. Dispositivos óticos laser-infravermelhos possibilitavam a esses aparelhos aluarem também à noite, com total eficiência. Os Cegonhas eram gigantescos helicópteros de transporte, com capacidade para conduzir até vinte homens portando equipamento leve e dois pequenos veículos, do tipo "jipe", armados com bazuca e metralhadora pesada. A esses dois Esquadrões de Helicópteros estava reservado um importante papel no desenvolver dos eventos que teriam lugar na noite de 24 para 25 de março do ano 2007.

***

Pontualmente às 18:00 horas do dia 23, Steiner chegou à Base Aérea de Santa Cruz acompanhado do major Alencar, sendo recebido pelo Coronel Túlio Veiga. Às 21:00 horas o brigadeiro reuniu um grupo de oficiais e deu-lhes ciência do teor da mensagem enviada pelo agente do SISA e das conversações mantidas com o Chefe do Estado-Maior da FAB e com o Secretário de Segurança Pública do Estado. Estavam presentes à reunião: Coronel Túlio Veiga - Comandante da Base. Coronel Airton Leozzine - Comandante da Polícia da Aeronáutica. Coronel Lúcio Jansen - Comandante do I Esquadrão de Helicópteros de Combate. Tenente-Coronel Ibsen Maciel - Subcomandante do IV Esquadrão de Helicópteros de Apoio. Major Dalmo Alencar - Ajudante-de-Ordens de Steiner. Major Danilo Garcia - Responsável pelo Centro de Comunicações da Base.

Após uma análise da situação e dos possíveis desdobramentos, ficou decidido que os dois Esquadrões de Helicópteros e um Batalhão da Polícia da Aeronáutica permaneceriam em regime de prontidão na Base, aguardando até que o capitão Gustavo Mendes enviasse mais informações sobre os planos dos favelados, quando então seriam traçadas novas diretrizes. Steiner deixou claro aos seus comandados que, se a ameaça de invasão fosse confirmada e nenhuma providência vies- se a ser adotada por outras autoridades, estaduais ou federais, ele pretendia agir conforme ditassem as circunstâncias.

- O Rio de Janeiro - disse ele categórico e solene - está dentro da área de responsabilidade do III COMAR e eu não me omitirei diante de uma situação que ponha em risco a segurança da cidade. Não assistirei impassível a uma invasão por parte de uma súcia de marginais.

Encerrada a reunião, enquanto os demais se retiravam, o coronel Jansen aproximou-se de Steiner, com o semblante carregado.

- Brigadeiro - indagou ele - o senhor acha que corremos o risco de uma repetição dos acontecimentos ocorridos no Sheraton? - mordeu os lábios e justificou sua apreensão. - Meus filhos estão passando férias na casa de uma tia em São Conrado.

O comandante do III COMAR contemplou o rosto do outro. Jansen era um oficial rígido, modelar. Como ele, incapaz de transigir com a desordem e a indisciplina. Havia mesmo certa semelhança física entre os dois e também uma mútua admiração. Steiner sabia que, caso tivessem de atuar contra Ítalo e seu bando de renegados, poderia contar inteiramente com o coronel, ainda mais estando ele motivado por receios de natureza familiar.

- Impossível dizer o que essa corja pretende, Jansen, mas não podemos correr o risco de esperar para ver. Pelas informações que dispomos, e nem todas eu revelei na reunião, eles estão fortemente armados, até com explosivos plásticos. E como já disse, se outros não agirem, nós o faremos... preventivamente - os olhos azuis cintilaram. - Vamos destruí-los lá em cima, naqueles pardieiros, antes que tenham a chance de atacar.

O coronel se empertigou e seu rosto endureceu.

- O I Esquadrão de Helicópteros de Combate pode cuidar disso, senhor - havia orgulho e determinaçãü na voz.

- Seus homens não hesitariam em participar desse tipo de missão? - indagou Steiner, sondando.

Jansen pensou um instante antes de responder:

- Alguns talvez se deixem tomar por crises de consciência, mas estou certo que a maioria dos rapazes não hesitarão em cumprir as suas ordens.

O brigadeiro tornou a argumentar, fazendo o papel de advogado do diabo mas que, no fundo, torcia pelo sucesso do seu opositor:

- Mesmo considerando que causaríamos uma chacina...

- Ainda assim — confirmou o coronel — eu não sou o único no Esquadrão com familiares na área ameaçada. Além disso, já é tempo de se dar um "basta" nessa ralé, senão um dia acabaremos todos mortos em nossas camas e a cidade será deles.

Steiner pôs a mão sobre o braço do oficial. -

É confortante constatar que alguém pensa como a gente. Estou certo que seus rapazes não nos faltarão.

- Sem dúvida - reafirmou o coronel. - Mas ainda assim seria bom que o senhor falasse com eles se e quando chegar a hora. As palavras de um líder são sempre mais convincentes.

A expressão do rosto de Steiner não se alterou mas os olhos frios sorriram. Ele bateu distraidamente com o bastão de comando de encontro à perna e disse, enfaticamente:

- Eu o farei. Jansen... quando o momento chegar, eu o farei! A propósito, seria bom você levantar uma análise preliminar da situação, incluindo um plano de ataque, para a reunião que realizaremos assim que Gustavo confirmar a invasão.

***

Os majores Garcia e Alencar eram colegas de turma e antigos camaradas. Terminada a reunião, dirigiram-se à cantina dos oficiais. A noite estava quente, convidativa para uma cerveja gelada.

- Você acredita mesmo que Steiner se dispõe a atacar a Rocinha? - indagou Garcia. - Ouvi falar que a filha dele está vivendo lá com o líder da favela.

Alencar, que há muito servia com o brigadeiro e julgava conhecer bem o seu superior, respondeu prontamente:

- Steiner é mais duro que uma rocha, Danilo. Se ficar confirmado que os favelados vão descer e não houver outra forma de impedi-los, ele não hesitará - o ajudante-de-ordens do brigadeiro fez uma pausa, como que tentando ajustar o pensamento. - Mas acho que buscará um meio de retirar a filha lá de cima antes do ataque.

O outro sacudiu a cabeça, duvidando.

- Não vejo como. A menos que planeje mandar um grupo de comando sequestrá-la.

- É uma hipótese — admitiu Alencar — mas não muito viável. Dificilmente conseguiriam entrar e sair da Rocinha sem serem descobertos. Não, uma ação dessas certamente anularia o fator surpresa e Steiner vai querer apanhá-los desprevenidos, no momento em que estiverem se concentrando para a invasão.

- De que forma então?

- Através do Gustavo. Esse capitão é quase legendário. O SISA têm-no como um agente excepcionalmente sagaz e corajoso e Steiner deposita uma enorme confiança nele. Sou capaz de jurar que o "velho" conta com ele para salvar a filha, se as coisas esquentarem. A propósito, você o conhece?

- Quem, o Gustavo? Não, só ouvi falar dele muito vagamente.

- Pois muito em breve terá a oportunidade de trocar mensagens com ele. Gustavo já foi avisado para se comunicar aqui com a Base. Ele dispõe de um potente radiotransmissor Cobra instalado bem dentro da favela. Nas próximas horas seu Centro de Comunicações estará recebendo notícias dele.

Os olhos de Garcia se arregalaram.

- Incrível - comentou ele, tomando um gole de cerveja - introduzir um Cobra na Rocinha e transmitir clandestinamente, sem ser apanhado pela turma de lá.

O outro sorriu.

- Nada disso, meu caro. O rádio é dos próprios favelados. Montaram um sistema de comunicações para coordenar a invasão. E quanto a Gustavo, não usa o aparelho clandestinamente. É ele quem manipula o Cobra para eles.

O coronel Danilo Garcia arregalou ainda mais os olhos. Esvaziou o copo de cerveja em dois longos goles e exclamou, semi-incrédulo:

- Fantástico!

*****

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