A NOITE DOS FAVELADOS
Oliver Marti
PARTE 3
32
Duas pessoas, pelo menos, custaram a dormir naquela noite.
Ítalo não conseguia afastar Erika do pensamento um instante sequer. Regressando à Rocinha, teve uma longa conversa com António Maria a respeito dos próximos passos a serem dados. Agora que estavam de posse do dinheiro, havia que se levar avante a organização das unidades básicas como ponto de partida do planejamento da Operação Igualdade. O filho de Nair esforçava-se por se concentrar no assunto mas, a todo momento, sua atenção voltava-se para a lembrança dos olhos castanhos, das palavras trocadas, da corrida de moto pela Barra... Como também insistia em vir à mente o desagradável encontro com o brigadeiro.
Quando a conversa com Tonho terminou, a noite tinha chegado. Ítalo tomou a moto e foi lá para o alto da Estrada da Gávea, de onde podia ver o bairro do Leblon. E ficou um longo tempo olhando, como que buscando adivinhar, entre as miríades de luzes, qual era a da residência dos Steiners. Depois dirigiu-se à casa, tomou banho; jantou rapidamente, esquivou-se das tentativas de Nair de iniciar uma conversa e foi se deitar. Mas o sono não veio logo. Ele rolou na cama, acordado, por horas intermináveis. O martírio da insónia principiou pelo dilema: telefonar para Erika na tarde seguinte como prometera ou simplesmente esquecer tudo? Simplesmente? Não, não seria nada simples esquecê-la! E se ela tivesse dado um número qualquer, apenas para agradá-lo e se ver livre daquela situação em que se achava? Bem, então tudo terminaria ali mesmo... um sonho morto no nascedouro. Mas, e se fosse o número certo? Marcariam um encontro ou receberia apenas um "muito obrigada por tudo, sinto muito, não poderei mais vê-lo, meu pai..." E se saíssem de novo? Que rumo tomariam as coisas? Como enfrentar a ira de Steiner? Como contar para aquela moça rica do asfalto que ele não passava de um favelado? Deveria mentir, simular ser alguém diferente? Não, jamais faria isso. Ítalo se ergueu, foi até a cozinha, bebeu um copo d'água e voltou a se deitar. "Que loucura, meu Deus", pensou. Instintivamente seus dedos acariciaram a medalha de Ogum e de novo recordou as previsões de Deolinda. Sentiu a energia da esperança: "Nada é impossível, nem mesmo essa loucura! Se Erika faz parte do meu destino, nenhum poder humano irá se interpor entre nós". Ítalo acariciou a medalha e seu semblante foi serenando até que, por fim, adormeceu, envolto numa neblina pontilhada de olhos castanhos.
**
A tarde mostrou-se bastante agitada para Erika. O regozijo de Helena pela filha ter retomado sã e salva contrastava com o mutismo e a atitude distante de Marcos Fábio. Instada pela mãe, a jovem relatou diversas vezes a aventura vivida, mas sempre da forma combinada com Ítalo. Em nenhum momento, então ou no futuro, revelaria a participação dele no assalto. Tinha sido uma promessa feita de coração, a ser cumprida para sempre. Durante o jantar, após ter atendido a um telefonema, Steiner anunciou, contrariado, que ainda não havia pistas que conduzissem à identificação dos assaltantes.
- Mais cedo ou mais tarde descobrirão - comentou Helena.
Erika cruzou os dedos debaixo da mesa, torcendo para que nada fosse desvendado. Não podia sequer conceber aquele rosto risonho e moreno por trás das grades de uma prisão. Finalmente a moça despediu-se dos pais e subiu para o quarto, deitou-se para dormir, mas seus olhos permaneceriam abertos até a madrugada. Saboreando cada instante da reminiscência, pôs-se a lem- brar, como quem vê um filme, tudo o que se tinha passado, do momento em que ouviu a voz do homem sem nome dizendo "olá" até o derradeiro olhar furtivo que lhe lançou antes de correr para casa, tangida pela humilhação e vergonha impostas por Steiner. E a evocação trazia de novo o êxtase que o contato da mão do homem sem nome provocara. E se perguntava, no meio das recordações, se ele iria telefonar como prometera ou desistiria, ofendido com o comportamento arrogante e grosseiro do pai dela. A ideia de que talvez não mais voltasse a vê-lo causava tristeza e angustia. A ideia oposta criava intensa e deliciosa expectativa, Quem era aquela fascinante pessoa que lhe despertara reações nunca antes experimentadas? Como dobrar a hostilidade de Steiner?
Erika foi até a janela e ficou olhando a rua arborizada e, àquela hora, sossegada. "Não", disse consigo mesma, "se um dia eu achar o meu homem, a intransigência de meu pai não será uma barreira à minha felicidade", E, de repente, se deu conta de que colocava no futuro o que já poderia ser conjugado no passado: tinha achado o seu homem! Amanhã ele telefonaria e, em breve, voltariam a se encontrar. Então ele deixaria de ser um homem sem nome e ela passaria a ter um nome para murmurar nos momentos de saudade. E assim, com a mente povoada de sonhos quase adolescentes, Erika retomou à cama e ficou vendo, com os olhos da mente, dois outros olhos, muito negros e profundos, que a fitavam de um ponto distante e indefinido. Os olhos foram se aproximando e convergindo, transformando-se num imenso e aconchegante lago, onde ela ia aos poucos mergulhando, até que o pensamento acabou e Erika adormeceu nos braços da fantasia.
**
Ele ficara de ligar à tarde, mas Erika manteve-se na expectativa o dia todo. A princípio, cada soar do telefone era uma esperança que se desvanecia ao atender. Eliana tinha feito a notícia circular rapidamente e inúmeros amigos e conhecidos queriam saber das aventuras do sequestro. Lá pelas 17:00 horas, quando o telefone tocou pela enésima vez, Erika já se aprestava para repetir de novo a história toda.
- Alo! - disse ela, num tom resignado.
- Olá!
O coração da jovem disparou: a voz do homem sem nome. Ela respirou fundo e replicou, tentando disfarçar a ansiedade:
- Oi! Pensei que você não fosse mais ligar.
Ouviu um riso e imaginou o rosto moreno sorridente.
- Eu prometi, não foi? - uma pausa, depois: - Que tal uma volta de moto pela Barra?
- Quando?
- Agora.
Ela não hesitou mais que um segundo.
- Está bem, mas não venha até aqui. Podemos marcar um encontro noutro lugar.
- Ótimo, aonde?
- No estacionamento do novo shopping de São Conrado. Sabe onde fica?
- Hum, hum. Quando?
Ela deu uma espiada no relógio de pulso.
- Dentro de uns quarenta minutos. Você identificará logo o meu carro. É um esporte vermelho.
- OK., estarei esperando.
- Então, tchau... homem sem nome - uma risadinha.
Uma gargalhada se fez escutar da outra extremidade da linha.
- Tchau... Erika!
Ela desligou e correu a se aprontar. Um quarto de hora mais tarde passava como uma bólide pela sala, anunciando para a mãe:
- Vou dar um pulo até o "shopping-center" da Barra.
E saiu porta afora. Helena foi espiar da janela. Erika já havia ultrapassado o portão e dirigia-se apressada ao carro estacionado bem em frente. A esposa de Steiner ergueu as sobrancelhas. Seu instinto lhe dizia que, por alguma razão, a filha tinha mentido.
**
Foram parar bem longe, quase no Recreio dos Bandeirantes. Depois, caminharam pela praia, descalços, de mãos dadas, curtindo a brisa, até a beira d'água. A estrela do dia brilhava agora, um tanto esmaecida, já perto da curva do horizonte. Breve desapareceria, mas seus raios ficariam ainda por algum tempo compondo o cenário derradeiro do pôr-do-sol com o azul-acinzentado do Atlântico. Não havia muita gente por perto: dois garotos jogando bola, uma mulher correndo das ondas e um velho empunhando um longo caniço à espera do peixe que não chegava.
Erika e Ítalo sentaram-se na areia e ficaram vendo a tarde ir acabando. Quase não tinham conversado até então. Ela havia se desculpado um tanto desajeitadamente pelo comportamento do pai na véspera. Ele sacudiu os ombros e disse, enfeitando a frase com um sorriso cativante:
- Agora estamos juntos. O que aconteceu ontem não importa.
As palavras gratificaram-na. Mas a jovem ficou com a impressão de que elas visaram tranquilizá-la, porém, não expressavam o sentimento dele. Ítalo passou o braço em torno do pescoço dela, trazendo-a mais para perto. Erika estremeceu: lá vinha de novo aquela inebriante sensação. Voltou-se para ele:
- Chegou a hora de você cumprir sua promessa.
- Qual delas?
- O seu nome.
Ele correu as pontas dos dedos pelo rosto dela e disse:
- Ítalo.
Erika fechou os olhos e repetiu: Ítalo... Ítalo.
EIe riu.
- Gosta?
- Adorei!
- Pois eu não gosto nem desgosto. Minha mãe resolveu me chamar assim porque nasci no dia em que o Brasil venceu a Itália e ganhou o campeonato mundial de futebol, 21 de junho de 1970.
Ele afastou uma mecha de cabelo da testa de Erika e prosseguiu:
- Foi muito antes de você ter nascido.
- Sim, quase catorze anos. Nasci em 17 de março de 84.
- Nossa, como eu sou velho pra você - ironizou ele.
- Seu bobo - replicou Erika passando a mão pêlos cabelos dele e beijando-o suavemente no rosto.
Ítalo segurou-a pelo queixo e retribuiu. Primeiro numa das faces, depois na outra e, afinal, nos lábios, bem de leve. Erika estremeceu, virou-se e enlaçou-o com força pelo pescoço. E então as bocas se entreabiram e se colaram num beijo ávido, longo e profundo.
Nas semanas que se seguiram, Erika e Ítalo foram se deixando envolver numa paixão tão violenta que as horas de ausência eram sentidas como séculos de espera. Mas a jovem continuava conhecendo muito pouco sobre ele: apenas que tinha um intenso interesse por motocicletas, computadores e - o que era mais importante - por ela. A cada insistência da moça em querer saber onde ele morava, o porque do assalto ao Banco, em que lugar ela havia sido mantida prisioneira e outras coisas mais, Ítalo invariavelmente respondia, sempre com ternura:
- Um dia desses vou contar tudo pra você. Paciência, meu amor.
Ela suspirava resignada e aguardava. E ele hesitava, debatendo- se diante da dúvida: se contasse, qual seria a reação dela? Afinal decidiu. O amor tinha de passar pelo teste da verdade.
Assim, uma noite, num quarto de motel, após terem feito amor até o limite da exaustão, ele contou para a mulher amada tudo sobre a sua vida. E naquela noite Erika não voltou para casa. Insistiu em ficar com Ítalo até o amanhecer.
Estavam mais unidos do que nunca: o amor passara, com sobras, pelo teste da verdade...
33
Apenas à mãe, Erika confidenciou sobre seu namoro com Ítalo. Em princípio, Helena não levou muito a sério aquele namoro que a filha vinha mantendo às escondidas do pai. A seu ver, o caso não passava de uma extravagância, um entusiasmo por alguém diferente dos rapazes com quem Erika habitualmente convivia ou, talvez, um certo fascínio que algumas mocinhas parecem sentir pêlos aventureiros. Tinha visto Ítalo de relance, à distância, quando ele trouxera Erika para casa no dia do sequestro. Pareceu-lhe que ele era meio mulato, impressão essa confirmada pela própria filha, que abordou o fato com total naturalidade. Helena não se considerava racista. Na verdade, nunca antes se dera ao trabalho de pensar muito no assunto. Talvez isso agora, devido às circunstâncias, a incomodasse um pouco, mas o que mais a perturbava não era a cor de Ítalo e sim sua condição social e o fato dele morar numa favela. Para ela, Helena, que vivia num mundo tão diferente, favelado era sinónimo de marginal. Em sua imaginação já antevia a filha envolvida em alguma escusa atividade a que, supunha, Ítalo certamente deveria estar associado. Porém, o que mais receava era que Steiner viesse a tomar conhecimento daquele estranho romance. Suas reações seriam imprevisíveis, mas nenhuma delas, disso tinha certeza, agradável para ninguém.
O primeiro incidente sério na família em relação ao romance de Erika ocorreu numa noite quente de fevereiro, na hora do jantar. Durante a refeição, Helena pressentiu no ar algo fora do habitual: Steiner não dissera uma só palavra o tempo todo, limitando-se a comer, quase mecanicamente, os olhos fixos no prato. Erika também se mostrava inusitadamente quieta, alheia, o pensamento vagando ao longe. Terminada a sobremesa, Steiner voltou-se subitamente para a filha e disse, num tom glacial:
- Hoje à tarde, regressando de Santa Cruz pela Barra, casualmente vi você na garupa de uma motocicleta. Pareceu-me que o motoqueiro era o mesmo homem do dia do sequestro. Cheguei a pensar em mandar parar o carro, mas julguei mais adequado esperar para falarmos aqui em casa - fez uma pausa e concluiu com deliberada agressividade: - Não achei conveniente dar, de novo, confiança àquele marginal negro.
Helena prendeu a respiração. Um leve rubor passou pelo rosto de Erika que logo em seguida empalidecendo, reagiu:
- Ele não é negro - retrucou ela erguendo o queixo em desafio - e quem lhe falou que é marginal?
Steiner sorriu com desdém.
- Muito bem, digamos que seja apenas mulato. Quanto ao fato de ser marginal, basta lembrar que seu amiguinho mora numa favela.
O espanto superou as outras emoções da jovem. Ela arregalou os olhos e a boca se entreabriu. O pai notou a reação e explorou o momento:
- Sem que ninguém tivesse percebido, ele foi fotografado naquele dia em que trouxe você para casa. O resto foi fácil. Os dados a respeito dele foram obtidos pelo SISA. O seu amiguinho chama-se Ítalo da Silva, lidera uma gang conhecida como "grupo dos seis" que domina a favela da Rocinha. Se isso não é marginalidade, que nome devemos dar a esse tipo de atividade? Liderança comunitária, por acaso?
Os dedos de Erika apertaram com força o guardanapo.
- Não é justo - disse ela revoltada. - O senhor não tem o direito de andar por aí mandando espionar as pessoas com quem saio.
Helena interveio, tentando contemporizar:
- Erika, acho que seu pai ficou apenas preocupado...
- Na verdade - prosseguiu Steiner, interrompendo o aparte da mulher, - não acreditei muito na história que você e esse indivíduo contaram naquele dia. A meu ver ele andou envolvido no assalto ao Banco e no seu sequestro. E, por alguma razão que não compreendi, mas agora vislumbro, você confirmou as mentiras dele.
Erika voltou a enrubescer. O pai continuou implacável:
- Sinceramente, não contava que vocês voltassem a se encontrar e estou decepcionado com a sua atitude. A voz de Steiner assumiu um tom mais enérgico: - Mas já que você não possui o bom senso de saber se conduzir, proíbo-a de tomar a ver esse indivíduo.
Erika balançou a cabeça. Não ia se limitar a apenas escutar:
- Papai, eu tenho o direito de escolher com quem ando. O senhor não pode...
O punho de Steiner se abateu sobre a mesa duramente.
- Posso - retrucou ele cortando a frase da filha. - Eu ainda dou as ordens nesta casa e não consinto que você jogue na lama o nome dos Steiners, relacionando-se com gente dessa laia.
O brigadeiro levantou-se, atirando o guardanapo sobre a mesa.
- Por favor, Marcos - pediu Helena insistindo em conciliar.
Ele lançou um olhar de advertência à esposa.
- Fique fora disso. Não há mais o que discutir. Enquanto estiver sob este teto, Erika não mais verá esse sujeito.
Steiner virou-se e deixou o aposento. As duas mulheres ficaram silenciosas por algum tempo. Helena, notando o esforço de Erika para não chorar, estendeu o braço e tocou- lhe de leve no ombro, num gesto consolador:
- Tenha calma, minha filha. Você conhece o génio de seu pai. Ele acha que isso não passa de um capricho seu.
Erika ergueu os olhos úmidos para a mãe.
- Aí é que está o problema. Vocês se enganam, não estão entendendo nada. Meu sentimento por Ítalo é sério, não tem a ver com nenhum capricho - a voz estava trémula mas o rosto expressava deter- minação. - Além do mais, eu já tenho idade suficiente para saber o que me convém. É bom papai compreender que não cederei às suas intransigências e preconceitos.
Helena teve de concordar, intimamente, que os argumentos da filha eram válidos, mas era seu dever tentar impedir que a situação se dete- riorasse ainda mais. Assim, julgou por bem aconselhar:
- Compreendo sua indignação, Erika, mas acho melhor a gente evitar aprofundar esse antagonismo que está se desenvolvendo entre você e seu pai. Já é a segunda vez que vocês se atritam por causa desse rapaz. Será que vale a pena? Pense bem no que vai fazer, minha filha.
Erika ergueu-se bruscamente. - Vou pensar, mamãe. Mas duas coisas eu posso adiantar: não possuo essa docilidade que você tem demonstrado a vida toda diante do autoritarismo de papai e não vou me afastar de Ítalo somente para resguardar o tradicional nome dos Steiners. Considero isso simplesmente ridículo. Boa-noite.
Em seguida beijou a mãe no rosto e saiu da sala. Helena foi até à porta e ficou olhando a filha subir a escada, a caminho do quarto. Sua sensibilidade - ou seria algo mais? - advertia-a que maus ventos começavam a soprar, ameaçando a estabilidade e a paz do seu lar.
34
Os barracos de madeira e as casas mal-acabadas de alvenaria não lembravam em nada as mansões de luxo e os imponentes edifícios do Leblon. Erika, na garupa da moto, acompanhava fascinada aquele mundo diferente de becos e ruelas que desfilavam diante dos seus olhos à medida que subiam a Estrada da Gávea. Ítalo conduziu o veículo pelo caminho de pedra que levava ao morro do Laboriaux e parou em frente à "fortaleza". Os dois rapazes que guardavam o portão voltaram para o jardim ao reconhecer o líder favelado.
- Foi aqui que você ficou presa naquele dia - disse ítalo virando- se para trás. - No quarto de empregada. Quer entrar pra ver?
Ela balançou a cabeça.
- Não, prefiro ir logo conhecer a sua casa.
Retomaram a Estrada da Gávea e partiram com destino à Rua 5.
Ítalo respirou aliviado ao perceber que entre Nair e Erika de pronto se estabeleceu um elo de simpatia. A moça se encantou com a mulher de meia-idade, de olhos verdes e cabelos crespos, cujo rosto ainda bonito irradiava bondade e compreensão. A senhora gostou da jovem alegre e simples, em cujo olhar viu força e amor.
Depois foi a vez do encontro com Deolinda. A mãe-de-santo levantou-se pesadamente da cadeira de balanço, segurou Erika pelas mãos e ficou longo tempo fitando-a bem dentro dos olhos. Em seguida, o olhar da velha se voltou para o neto-afilhado:
- Essa é a mulher da sua vida, meu filho - profetizou, espaçando as palavras.
Ítalo abriu um enorme sorriso. Erika corou ligeiramente.
De repente, o rosto da macumbeira ensombreceu como se tomada por algum mau pensamento ou premonição. Ela agitou os braços roliços e falou, a voz entrecortada pela respiração difícil:
- Vão... vão logo, aproveitem, amem bastante... a vida é curta.
Deixou o corpo cair sobre a cadeira, cerrou os olhos e se pôs a soluçar baixinho. Enquanto Erika assistia à cena, confusa e aturdida, Ítalo ajoelhou- se junto a Deolinda.
- O que há, avozinha? - perguntou apreensivo.
Ela reabriu os olhos e contemplou o neto-adotivo com um misto de ternura e tristeza. Ficou assim por um minuto, depois disse, já mais controlada:
- Não é nada meu filho. Bobagem de velha caduca.
Deolinda lançou um olhar para Erika.
- Eu posso ver dentro das pessoas - a voz era agora quase um sussurro. - Você é bonita no corpo e na alma. Seja boa pró meu Ítalo. Ele gosta muito de você, menina-branca...
Tornou a fechar os olhos.
- Agora vão. Eu preciso descansar.
Ítalo beijou a mãe-de-santo na testa. Erika pôs a mão de leve no braço dela e saíram. Do lado de fora, ele comentou:
- Não se aflija com Deolinda. Ela às vezes se comporta de modo estranho e, ultimamente, não vem dizendo coisa com coisa.
Mas no fundo, Ítalo tinha ficado impressionado. Supersticioso como era, sentiu-se duramente atingido. Acreditava que a mãe-de- santo possuía o dom de antever o futuro e as palavras dela haviam soado como uma espécie de aviso: "... a vida é curta". Ele estremeceu. Erika percebeu, tocou-lhe no braço e perguntou:
- O que houve?
Ítalo forçou um sorriso e uma mentira.
- Estou preocupado com Deolinda. Acho que ela está bastante doente.
- Por que não chama um médico?
Ele deu uma risada.
- Você não conhece a velha. Pra ela todo doutor é charlatão. Só confia nos seus "guias espirituais".
Erika sorriu. O sorriso afastou os maus pensamentos da mente de Ítalo. Ele abraçou-a pela cintura e começaram a caminhar em direção à moto.
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Dentro da casa, Deolinda principiou a sentir de novo aquela dorzinha apertada que a vinha incomodando nos últimos meses e que surgia quando fazia algum esforço ou se emocionava, como agora. Ela respirou fundo, ergueu-se com dificuldade, foi à cozinha e bebeu um certo chá que já tinha preparado para ocasiões como aquela. Depois, arrastou-se até a cama e ficou deitada, quietinha, esperando que a dor passasse.
**
Com o tempo e o convívio, a jovem foi, aos poucos, conquistando a amizade e a admiração dos companheiros de Ítalo. Somente António Maria guardari,a sempre, uma certa reserva nas suas relações com ela. Mas, naquele primeiro dia, Erika seria tida, por todos, como uma intrusa, uma moça do asfalto que havia "virado a cabeça" do seu líder. Porém, muito antes que viesse a superar a desconfiança e as resistências deles, Erika já tinha ganho duas importantes aliadas na luta silenciosa - e até certo ponto inconsciente - que travava para consolidar sua posição no estranho mundo do seu amado. Nair e Deolinda, a cada novo encontro, sentiam crescer a afetividade pela moça branca que o destino escolhera para companheira do homem que ambas idolatravam.
35
Na terceira semana de março, na véspera do vigésimo aniversário de Erika, a tempestade, tão temida por Helena, desabou sobre a mansão dos Steiners. O brigadeiro tinha partido no fim da tarde para Brasília a fim de participar de uma solenidade militar na capital. Ao cair da noite, a filha, que estivera ausente o dia todo, chegou, subiu as escadas e foi direto para o quarto, onde permaneceu, não aparecendo para o jantar. Preocupada, Helena foi até lá e encontrou-a deitada, pensativa, olhos fixos no teto.
- Algum problema? - indagou.
Erika virou-se, fitou a mãe e respondeu:
- Sim, de certa forma.
A mulher sentou-se ao lado da filha.
- Quer me contar?
Os olhos castanhos da jovem se dilataram, assumindo aquela expressão de franqueza tão própria da juventude.
- Bem mamãe, espero que você não se choque demais com o que vou lhe dizer - fez uma pausa para avaliar a reação materna.
Como Helena continuasse aparentemente impassível, prosseguiu:
- Eu e o ítalo estamos mesmo apaixonados e, diante da intransigência de papai, decidimos nos casar logo. Resolvemos isso hoje.
A esposa de Steiner sentiu como se uma bomba houvesse explodi- do em seu cérebro, mas um riso nervoso foi tudo que os seus neurônios descontrolados pelo impacto da informação recebida conseguiram transmitir. É uma brincadeira, pensou, passando a mão na testa. Voltou a encarar a filha: os olhos castanhos continuavam firmes. Não, não se tratava de brincadeira. Num esforço de vontade, dominou-se e conseguiu falar:
- Está bem, Erika, vocês estão, ou pensam estar, apaixonados. Mas não acha que casar assim, tão de repente, pode ser uma precipitação?
A jovem afastou o cabelo que caía sobre o rosto e disse, com seriedade:
- Mãe, a existência é muito curta para se deixar passar uma oportunidade de felicidade. Se a gente hesita, ela pode esgueirar-se entre nossos dedos. E nem sempre retoma no período de uma vida.
O rosto de Helena ensombreceu.
- Essas não são palavras de alguém que apenas começa a viver.
- E quem conhece o tempo de vida que lhe cabe?
Helena suspirou e achou melhor conduzir a conversa para um terreno mais sólido, menos filosófico: Rocinha!
- Você ao menos conhece a família do rapaz?
- Claro. Ítalo já me levou diversas vezes à casa dele.
Dessa vez o suspiro foi mais fundo. Mas ela insistiu:
- Está mesmo segura dos seus sentimentos? Não será isso apenas uma empolgação passageira?
A jovem sentou-se na cama e segurou o rosto de Helena entre as mãos.
- Olhe bem para mim, mãe. Procure enxergar por trás do ar de preocupação em meu semblante, por saber o problema que a minha decisão vai criar para vocês. Não vê o quanto meus olhos transbordam de felicidade? Será que não reparou como eu mudei nesses últimos meses? Minha vida se modificou. Tudo adquiriu uma dimensão maior, todas as coisas se tomaram mais belas depois que eu conheci o Ítalo. Sei que argumentos você pode enumerar contra nosso relacionamento. Já refleti a respeito deles: que nos conhecemos há pouco tempo, que Ítalo não pertence à mesma classe social da nossa família, que a pele dele é bem mais escura que a minha, que ele mora numa favela, que eu não terei o mesmo conforto daqui. Tudo isso é verdade, mas, para mim, não tem a mínima importância. O que importa é que eu amo um homem cuja sensibilidade antecipa cada um dos meus desejos e que, ao simples roçar dos dedos dele, eu sinto a vida penetrando por todos os poros da minha pele.
Erika parou de falar abruptamente e beijou Helena no rosto, com ternura. Depois sorriu e disse, retomando sua costumeira jovialidade:
- É isso aí.
Helena levantou-se e ficou torcendo as mãos, à procura de algum argumento convincente. Afinal perguntou:
- E se esse amor acabar? O amor pode terminar um dia. Sabia?
Erika balançou negativamente a cabeça.
- Eu penso diferente, mamãe. O amor, quando existe mesmo, não acaba nunca. Há instantes, fases, às vezes, em que outras emoções se sobrepõem, os sentimentos se confundem e a gente pensa que não ama mais. Puro engano, pois lá no fundo o amor persiste. Na verdade ele continua existindo até mesmo depois da morte do objeto amado.
A jovem fez uma pausa, fitou longamente o rosto castigado mas ainda bonito da mãe e completou, com leve toque de tristeza na voz:
- Quando não é assim, então não houve amor, apenas a ilusão de amar ou ser amado.
Helena compreendeu que já não mais dialogava com uma adolescente. Sorriu um tanto desconcertadamente e exclamou, comovida:
- Minha filha me dando uma lição de vida!
Elas se entreolharam. Uma nova forma de entendimento parecia ter-se subitamente estabelecido entre as duas. E, em ambas, as lágrimas começaram a rolar lentamente. Erika recomeçou:
- Depois que eu partir, papai vai me desprezar, talvez até me odiar pelo meu gesto. Porque ele não vai conseguir compreender, e mesmo que o fizesse, seu orgulho o impediria de admitir a compreen- são. Mas vai continuar me amando para sempre, ainda que disso não se conscientize. E, quem sabe, um dia ele se liberta de seus absurdos códigos de conduta, doutrinas, radicalismos e preconceitos, apenas roupagens que compõem a imagem que desejamos mostrar ao mundo, mas que nada dizem do nosso interior.
Helena enxugou as lágrimas com as costas da mão e desabafou:
- Seu pai não vai mudar. Ele necessitaria viver mil anos para isso. Porém, em relação a você, passada a fase reacional de intolerância, penso que desejará tomar a vê-la, embora creia que jamais venha a aceitar esse seu casamento. E depois de uma breve pausa: - Você vai comunicar a ele a sua decisão?
A jovem balançou a cabeça.
- Pensei muito a respeito e concluí que seria contraproducente: haveria mais agressões de parte a parte. Prefiro partir levando menos um atrito. Não, não comunicarei nada a ele - pôs a mão sobre a de Helena e concluiu: - Vai caber à senhora a difícil tarefa de fazê-lo por mim. Diga-lhe que, qualquer que seja sua reação, eu continuarei a amá-lo muito, como sempre amei.
Helena permaneceu um instante calada, pensativa, as lágrimas querendo de novo aflorar. Controlou-se e perguntou:
- Quando vocês pensam em se casar?
- Ítalo sugeriu o dia do meu aniversário e eu concordei.
- Amanhã? - a pergunta saiu naturalmente. Já não havia muito espaço para surpresas.
- Sim, amanhã à tarde, na casa de D. Nair, a mãe dele. Um padre irá lá para a cerimônia.
- E depois?
- Iremos passar uns dias em Cabo Frio. Na volta, iremos morar com D. Nair até que nossa própria casa esteja arrumada e eu me sinta mais adaptada.
- Vocês pensaram em tudo.
- Sim, pensamos. Nós discutimos todas as coisas que nos dizem respeito e sempre decidimos de comum acordo - a frase foi dita com orgulho.
Helena caminhou uns passos pelo aposento.
- Você sabe que não há a menor hipótese de seu pai sequer imaginar comparecer ao casamento. E eu também não irei - o olhar dela fixou-se num ponto indefinido - Marcos sentir-se-ia duplamente atingido se eu o fizesse. Você entende isso, não entende?
Erika foi até a janela e, de costas, talvez para ocultar alguma expressão que denunciasse sua emoção, respondeu:
- Sim, entendo. No seu lugar agiria da mesma forma.
Helena voltou a torcer as mãos.
- Quando pretende partir?
- A que horas papai regressará de Brasília?
- Deve estar de volta para o almoço.
- Então partirei de manhã cedo, antes que ele chegue.
Helena fez uma derradeira tentativa:
- Você tem certeza que a sua decisão não representa uma revolta contra nós? Quem sabe uma contestação subconsciente contra a atitude autoritária, às vezes até repressiva, de seu pai, por todos esses anos...
Erika voltou-se e ergueu a mão, discordando.
- Por favor, mamãe, não queira se iludir tentando transformar um sentimento real em uma fantasia freudiana. Aceite esta verdade: eu amo Ítalo. Nossa roupagem pode parecer diferente, mas nossos "eus" interiores são muito semelhantes. É só isso, nada mais. Porém, é o bastante, não acha?
Depois num gesto apaziguador, foi até Helena, beijou-a na face e disse:
- Mamãe, eu exerci o direito de escolher meu destino. Mas não foi fácil. Entenda o quanto necessito da sua compreensão. Ela representa, no momento, a maior prova de amor que você poderia me dar. Foram palavras comoventes e convincentes.
Helena capitulou. Olhou bem de frente para a filha e prometeu.
- Você terá a forma de amor que deseja, mas, em troca, dê-me outra.
Erika arqueou as sobrancelhas.
- Como assim? - perguntou, já temendo que voltassem a argumentar.
- Tranquilidade - a expressão da mãe estava agora mais serena, os traços do rosto menos pronunciados. - Fale-me um pouco mais dos seus planos. Por exemplo, vocês pensam em morar a vida toda na Rocinha?
O entusiasmo voltou aos olhos de Erika.
- Não, mamãe, creio que só por uns dois ou três anos. Esse é o tempo que Ítalo diz necessitar para executar um projeto que tem sobre a favela. Eu não sei do que se trata ao certo, mas ele parece convencido que o realizará dentro desse prazo. Ítalo nasceu, cresceu e sempre viveu lá e é o líder da comunidade. Quer deixar alguma coisa que signifique uma melhoria para aquela gente. É um dos sonhos dele. Mas depois pretende dedicar-se a outra de suas aspirações: computadores. Ele é um excelente técnico em eletrônica de computação, sabia? Tem um cargo de responsabilidade na NETBRÁS, porém pensa em deixá-lo assim que esse outro projeto relativo à Rocinha esteja concluído. Então nós nos mudaremos para o Recreio dos Bandeirantes, próximo ao local onde Ítalo pensa abrir sua própria firma de Informática.
A medida que Erika falava, Helena ia formando uma nova imagem a respeito do homem que, ao que tudo indicava, viria a ser seu genro nas próximas vinte e quatro horas.
- É pena que você nunca tenha me contado antes essas coisas sobre o Ítalo.
- Eu sei, foi uma omissão. - admitiu a outra - Mas estava tão empolgada com o lado romântico do relacionamento que não me ocorreu falar a respeito dos planos e atividades profissionais de Ítalo.
- E você, o que pensa fazer lá por cima, durante esses anos, além de amar e ser amada? - a pergunta foi feita com seriedade, não havia ironia na voz de Helena.
O rosto de Erika se iluminou.
- Sou socióloga, lembra? Por enquanto apenas teórica, mas sou. Já imaginou o campo de estudo que essa comunidade oferece para mim? Estou pensando em desenvolver uma tese sobre o assunto. O Ítalo achou a ideia formidável.
Helena era uma mulher de sensibilidade. Passado o impacto inicial, principiava a notar certos indícios positivos no relacionamento entre Erika e Ítalo. Um romance, certamente insólito se julgado à luz dos padrões ultraconservadores dos Steiners, mas que parecia conter algo além de uma simples empolgação entre dois jovens. Percebeu, por exemplo, que em tudo que se referia a um, havia a participação do outro. Um par estranho, talvez, mas... um par. Não pôde reprimir uma pontinha de inveja, porém começou a se sentir mais aliviada. Quem sabe não estaria Erika achando mesmo, a seu modo, a sua felicidade? Escapando ao momento de reflexão, volveu os olhos para a filha que a fitava curiosa querendo adivinhar-lhe os pensamentos. Então perguntou:
- E quanto a nós duas?
Erika afagou a mão da genitora, num gesto tranquilizador.
- Telefonarei para você sempre. E, um dia, virei aqui e Ítalo virá comigo. Você gostará de conhecê-lo...
Helena deu nova prova de compreensão, ao dizer, com sinceridade:
- Estou certa que sim.
Depois, não contendo a emoção, puxou a filha para si e ficaram abraçadas pela eternidade de um minuto. Afinal a mulher de Steiner recompôs-se intimamente, tomou Erika pela mão e disse:
- Agora venha. Vamos comer alguma coisa. Depois eu ajudo você a preparar as malas.
**
Tão logo Steiner regressou de Brasília, Helena comunicou-lhe a decisão de Erika. Ele ouviu tudo, sem interromper, lívido, o olhar fixo num ponto distante, indefinido, por cima e além do ombro da mulher. Quando ela terminou, os olhos azuis fitaram-na, penetrantes. Estavam mais frios e metálicos do que nunca.
- E você não conseguiu dissuadi-la! - as palavras escaparam dos lábios dele como uma acusação.
Helena sacudiu a cabeça, tristemente.
- Tentei todos os argumentos possíveis, mas no fim tive de curvar- me diante da vontade dela.
O rosto do brigadeiro assumiu uma expressão de desprezo. Ele ergueu-se do sofá onde estivera sentado durante todo o tempo que durara a exposição da esposa e disse, duramente:
- Então agora respeite também a minha. A partir deste instante o nome dela não deverá ser mais pronunciado nesta casa... pelo menos na minha presença.
Os olhos de Helena encheram-se de lágrimas.
- Mas, Marcos, ela é sua filha.
Steiner pegou o quépi de cima do sofá e começou a caminhar em direção à porta.
- Era - contestou ele, sem voltar o rosto. - Agora ela é apenas a mulher de um marginal.
E a passos lentos deixou a sala, atravessou o hall e principiou a subir a escada que levava ao andar superior.
36
"Rocinha, 24 de abril de 200__
Mamãe:
Faz hoje um mês que estou aqui. E até que venho me adaptando bem ao novo ambiente. Nossa casa é modesta mas confortável e fica do lado da residência de Nair. Deolinda, a avó adotiva de Ítalo, está agora morando com ela. Todos procuram me cercar de tanta atenção e cuidados que chega, às vezes, a ficar sufocante. Deolinda e Nair, principalmente, tentam adivinhar meus mínimos desejos, temerosas que eu me sinta vazia ou infeliz.
Vez por outra vem alguém perguntar se eu necessito de alguma coisa. Talvez o fato de ser eu a mulher do líder da comunidade contribua para que me torne o alvo de um tratamento especial. Tem uma mocinha, chamada Lena, parente de um amigo do Ítalo, que passa o dia inteiro cuidando dos afazeres da casa, o que me dá a estranha sensação de estar recebendo mordomia numa favela. Na verdade, também aqui há uma espécie de estratificação social. Você ficaria espantada em saber quanta gente na Rocinha dispõe de substanciais recursos financeiros. Meu querido amor é um desses privilegiados: além de auferir um bom salário, tem rendimentos provenientes dos negócios deixados pelo seu pai adotivo.
Não posso negar que existem ainda momentos em que me sinto um pouco perdida, mas, de pronto, me recomponho ao lembrar que, ao fim do dia, Ítalo estará de novo junto a mim. Sei que você se preocupa, imaginando que riscos eu não poderia estar correndo numa favela. Mas garanto-lhe que estou bem mais segura na Rocinha do que andando pelas ruas de Ipanema ou Leblon.
A maioria dos favelados é gente humilde e trabalhadora com pouca ou nenhuma chance de desenvolvimento. Se ha bandidos aqui em cima, também existem malfeitores aí embaixo, mesmo nas camadas mais privilegiadas da nossa sociedade. Tenho pensado muito se esses "plays-boys" do asfalto, arrogantes e arruaceiros, são, na verdade, menos criminosos que os pivetes sujos e maltrapilhos. Existe gente boa e ruim por toda parte. Talvez o que falseia a interpretação dos fatos é que quando pegam um favelado - ou mesmo um pobre de outros bairros - ele vai logo parar na cadeia, enquanto rico só cumpre pena se não se dá o "jeitinho " de esconder o crime e, ainda assim, quantos escapam...
Bem, é melhor eu parar por aqui esse ensaio sociológico, senão acabo também caindo no maniqueísmo. Estou muito saudosa. Nossas rápidas conversas telefónicas não aplacam a saudade, mas por enquanto prefiro não aparecer aí em casa. Seria horrível se papai chegasse de repente e tivéssemos alguma cena desagradável. Conto que o tempo abrande o ressentimento dele e que o amor prevaleça sobre os preconceitos. Mas por que não marcamos um encontro em algum lugar para um chá ou um almoço? Pense nisso e me telefone.
Mil beijos,
Erika"
**
"Rocinha, 5 de maio de 200_
Mamãe:
Puxa, como foi bom aquele nosso encontro na semana passada. Ainda assim fiquei com a sensação de que estivemos juntas apenas alguns minutos quando, na verdade, conversamos por quase quatro horas. Acho que já disse isso pelo telefone, não foi? Penso também que, me vendo, você se convenceu definitivamente do quanto eu estou feliz e realizada.
Bem, agora a novidade: Estive no médico e o que vinha há dias suspeitando está definitivamente confirmado: estou grávida, mamãe. No meu útero já está se formando uma nova vida, metade minha, metade do meu homem. A eternização do nosso amor. Como eu, Ítalo resplandece de felicidade.
Esta carta tão cheia de minhas emoções chegará ainda hoje às suas mãos. Um mensageiro irá depositá-la dentro em pouco na sua caixa de correio. Assim que terminar de ler, enxugue as lágrimas e me telefone. Estarei esperando.
Um beijo grande... vovó!
Erika"
37
Pouco depois das doze horas do último dia do ano 200_, Erika começou a sentir as dores do parto. Lena foi chamar Nair na casa ao lad,o enquanto Ítalo ligava para a Maternidade João Paulo II e avisava o obstetra. Às 13:00 horas já estava tudo acertado. Nair e Ítalo seguiriam com Erika para a maternidade no táxi de Severino. A jovem futura mãe alternava expressões de dor com sorrisos de felicidade pela antecipação do nascimento da filha. Sim, há meses, os exames ultra-sono- gráfícos já tinham indicado que o feto era do sexo feminino. Também o nome da criança já fora escolhido, de comum acordo, pelo casal: Pâmela. Erika, pronta para ir, usando uma bonita camisola azul recoberta por um robe da mesma cor, pediu ao marido, cujo rosto estampava indisfarçável ansiedade:
- Amor, ligue para mamãe. Prometi avisá-la quando chegasse a hora. Ela vai querer ficar comigo.
Ítalo assentiu e dirigiu-se ao telefone. Foi um diálogo curto. Ele informou à Helena que estariam chegando na maternidade dentro de uns quarenta e cinco minutos. Ela, certificada de que a filha passava bem, anunciou que logo também seguiria para lá.
Apressavam-se para sair. Severino, avisado, já estacionava em frente da casa. Encaminhavam-se para a porta, quando uma pretinha chegou, afobada:
- D. Nair - disse ela com os olhos esbugalhados - vem depressa. D. Deolinda tá passando muito mal. Teve uma dor no peito e caiu no chão.
Mãe e filho se entreolharam.
- Vai ver o que há, mamãe - falou Ítalo. - Eu levo a Erika pra maternidade. Chame o Dr. Vieira e, se for preciso, transporte Deolinda para o Hospital.
Nair, procurando conter a aflição, beijou Erika no rosto:
- Boa sorte, minha filha. Vou correndo ver a velha e assim que ela melhorar irei pra maternidade.
- Não se preocupe, eu estarei bem - respondeu Erika. - Vá atender Deolinda. Ela é quem inspira cuidados.
Nair saiu apressada acompanhada da pretinha. Ítalo e Erika seguiram-nas com os olhos e depois entraram no táxi de Severino. A jovem colocou a mão sobre a do marido.
- Vai dar tudo certo - disse ela, percebendo a expressão de angustia estampada no rosto do marido. Ítalo tentou sorrir. Ficou na tentativa.
- Com você é claro que vai dar certo - respondeu. - Mas... com Deolinda, não sei não..
Acariciou a medalha de São Jorge e prosseguiu:
- Uma coisa aqui dentro me diz que ela não verá o novo ano.
- Você quer passar por lá um instante antes de irmos para a maternidade? Dá tempo.
Ítalo olhou para a mulher, viu as gotas de suor se formando na testa e imaginou que ela deveria estar com dores. Hesitou um breve momento, depois balançou a cabeça.
- Não adiantaria nada, meu bem. Não posso mudar o que está escrito. Mamãe está com ela e eu tenho de pensar primeiro em você e na criança.
R dirigindo-se a Severino que aguardava, calado como sempre:
- Vamos, companheiro, toca pra Lagoa.
**
Com muito esforço, Deolinda tinha conseguido se levantar do local onde havia caído quando sentiu a pontada no peito e a tonteira e agora jazia, prostrada, na cama desfeita. O rosto estava lívido, o corpo alagado de um suor frio e pegajoso e a dor continuava aumentando: era como uma prensa esmagando mais e mais. Nair entrou, ajoelhou-se ao lado dela, tornou-lhe a mão gelada e perguntou:
- Como está, madrinha?
A mãe-de-santo pousou os olhos esmaecidos na filha adotiva. A voz saiu difícil, fraca:
- Tou ruim, Nair. Minha hora tá chegando
.- Não diz bobagem, madrinha. Olha, vou chamai- o Dr. Vieira e não adianta dizer não.
A velha fez um gesto indiferente.
- Não adianta nada... hoje é a noite de lemanjá, não é? Ela tá me esperando...
Nair deixou passar a observação e disse para a pretinha:
- Fica de olho nela. Vou lá em casa telefonar pró médico e volto já.
**
O Dr. Vieira chegou, examinou Deolinda, fez um eletrocardiograma e aplicou uma injeção contra a dor. Em seguida, levou Nair para um canto e com uma expressão séria no rosto empapuçado e inchado de quem come e bebe muito e dorme pouco, sussurrou num tom semiapocalíptico:
- É infarto e dos graves. Ela está entrando em choque. Acho melhor chamar o Pronto-Socorro de Cardiologia e remover D. Deolinda para o Hospital.
Guardou o estetoscópio na maleta, colocou o traçado eletrocardiográfico sobre uma mesinha e profetizou:
- Pode ser que numa unidade coronária, com cuidados especiais, ela ainda possa ser salva. Mas, mesmo assim, acho difícil. Para mim, a velha não passa de hoje.
E diante do olhar sofrido de Nair, entregou-lhe um cartão e arrematou:
- Este é o número do telefone do Pronto-Socorro. Ligue logo. A injeção que apliquei deverá mante-la aliviada das dores por mais umas duas horas. Depois... bem, espero que até lá ela já esteja internada.
E dando uma palmadinha consoladora no ombro da mulher, o Dr. Vieira bateu em retirada, fugindo de uma batalha que sabia de antemão perdida. A ambulância chegou lá pelas 16 horas. O médico, ainda bastante jovem, examinou a velha e aconselhou levá-la logo para o Hospital, já que o caso era de extrema gravidade. Realmente, conquanto Deolinda não mais se queixasse de dor, seu aspecto havia piorado sensivelmente: respiração difícil, olhos escavados e sem brilho, apatia, corpo esfriando e as extremidades começando a roxear. Mas ainda restava um pouco de energia e lucidez na velha mãe-de-santo. O suficiente para que ela recusasse, num sussurro já difícil de ser ouvido, a sugestão médica.
- Não vou pra lugar nenhum... quero morrer aqui.
De nada valeram as súplicas de Nair. O médico deu de ombros e se retirou. Com as lágrimas rolando pelas faces, a mãe de Ítalo ficou segurando a mão da madrinha que ia aos poucos se apagando, enquanto seu pensamento se dividia entre a tragédia que enfrentava naquele quarto da favela e o que estaria se passando na maternidade da Lagoa.
**
Àquela hora, Erika, sob o efeito de medicamentos e a vigilância de uma enfermeira, aguardava o seu momento mais sublime, à medida que aumentava a frequência das contrações uterinas.
Tinham chegado à maternidade em tomo das 14 horas e enquanto a jovem parturiente era levada para o quarto a fim de se submeter à inexorável "toilette" que sempre antecede os procedimentos obstétri- cos, ítalo permaneceu no saguão à espera de Helena. A esposa de Steiner chegou dez minutos depois. Já se conheciam por fotografia. Erika tinha se encarregado disso. Os olhos negros de Ítalo pousaram com meiguice e curiosidade no rosto nobre e delicado de Helena, cuja suavidade não escondia de todo as marcas do tempo, agora acentuadas pela ansiedade. O reconhecimento foi imediato de ambas as partes. Por um breve momento ficaram parados, de frente um para o outro, sem dizer nada. Afinal, o rosto moreno se abriu no sorriso cativante. Ítalo estendeu as mãos e segurou as da sogra. A ansiedade se apagou no semblante de Helena e ela retribuiu o sorriso. Ele curvou-se e beijou-a na face. Depois conduziu-a até um sofá.
- Como está Erika? - indagou ela, esfregando as mãos.
- Muito bem. Estão cuidando dela no quarto. Daqui há pouco nós vamos poder ir até lá.
Helena respirou fundo, aliviada e perguntou:
- Sabe onde tem um telefone por aqui? Saí tão apressada de casa que nem liguei para o Marcos.
Ítalo apontou para um canto do saguão onde havia uma série de cabines telefónicas.
- Vamos - disse ele - eu também preciso fazer uma ligação.
**
- Mracos, a Erika entrou em trabalho de parto. Estou aqui na Maternidade João Paulo II, na Lagoa. Vou ficar até a criança nascer... Na verdade, acho que passarei a noite aqui.
Seguiu-se um longo silêncio. Helena ficou refletindo que somente uma enorme obsessão pelo trabalho poderia justificar que o marido estivesse ainda àquela hora no seu Gabinete no III COMAR, na véspera de Ano Novo. Afinal, do outro lado do fio, chegou a voz metálica de Steiner:
- Muito bem. Há alguma coisa que eu possa fazer... financeiramente?
Por um momento ela permaneceu calada. Depois respondeu com altivez e indignação:
- Eu julguei estar ligando para um pai, não um gerente de banco. Não, Marcos. Realmente não há nada que você possa fazer!
E depositou o fone no gancho.
**
- Oh! mãe, quer dizer que o estado dela é assim tão grave?
- Infelizmente é, meu filho. Os médicos acham que Deolinda não vai escapar.
Ítalo ficou um instante calado, aturdido, arrumando as ideias.
- Você não acha que eu devia dar um pulo rápido até aí?
- Não. Você tem de estar perto de sua mulher quando a criança nascer. E eu não estou só. Tem muita gente comigo: Zuza, Tonho e Olímpio também estão aqui.
Ítalo tentou ainda argumentar:
-Mas dizem que o parto ainda vai demorar.
- A primeira vez engana muito. Quando menos se espera a hora chega. Fique aí. Depois que a criança nascer, se tudo estiver bem, então venha. Mas não agora.
Ele capitulou diante do argumento da mãe:
- Então está bem, mas assim que tudo termine por aqui, eu vou. Por favor, avise se... se acontecer alguma coisa e peça a um dos rapazes para trazer minha moto para cá.
Ítalo deu a Nair o número do telefone do Hospital e desligou. Depois, conduziu Helena aré o quarto para onde Erika seria levada após o parto.
**
Erika foi conduzida à sala de parto às 20:15 horas. Deolinda perdeu a consciência dez minutos depois. As 21:25 horas o Dr. Baibi erguia no alto, pelas pernas, uma robusta recém-nascida. Na mesma hora a mãe-de-santo exalou o último suspiro.
**
Uma enfermeira entrou risonha no quarto onde Ítalo e Helena aguardavam e anunciou:
- Parabéns, é uma linda menina! E a mãe está passando muito bem. Daqui a pouco vocês poderão ir ver as duas. A avó da recém-nascida tomou as mãos do líder favelado e bei jou-o carinhosamente na face, dizendo com emoção:
- Obrigada por todo amor que você tem dado a minha filha e por esse maravilhoso presente de fim de ano.
Os olhos dele encheram-se de lágrimas. Ia dizendo alguma coisa quando outra enfermeira apareceu e falou:
- Seu Italo, um homem chamado Antônio Maria quer lhe falar ao telefone. Pode atender nesse aparelho aí em cima da mesinha de cabeceira. E só apertar a tecla Z.
Lentamente, Ítalo retirou o fone do gancho e levou-o ao ouvido...
**
Quando Ítalo chegou ao cemitério, a noite já avançava. Lá estavam seus companheiros e algumas outras pessoas da Rocinha. Falou com todos rapidamente e foi ao encontro da mãe, abraçando-a por um longo tempo. Olhos inchados, semblante marcado pela dor e pela fadiga Nair quis saber sobre Erika e a criança. Ítalo tranqüilizou-a e depois foi até o caixão beijar a testa fria de Deolinda. E lá ficou, por um longo tempo, contemplan- do o rosto lívido da mãe-de-santo. Mais tarde, postou-se com Antônio Maria num dos cantos do recinto, próximo a uma janela.
- Como essa vida é estranha, Tonho — comentou Ítalo, amargurado - Deus me dá com uma das mãos e tira com a outra. Ganho uma filha e perco a avó na mesma hora. Fico dividido entre a alegria e a tristeza. Sabe, me sinto um boneco jogado de um lado para o outro por forças que não conheço.
- Coincidência. É só isso, Ítalo, coincidência - disse Antônio Maria com sua habitual incredulidade.
O outro sacudiu a cabeça.
- Não sei não. Deolinda dizia que sou um predestinado, que meu destino está traçado e não posso fazer nada pra mudar.
- Pois eu acho que a gente é que faz uma parte do destino e o resto fica por conta do acaso.
Ítalo pôs a mão no ombro do amigo e contestou:
- Não, Tonho, já está tudo escrito lá em cima antes da gente nascer.
Em seguida, voltou para junto do caixão onde Deolinda jazia, coberta de flores e imagens de seus orixás.
- Falta pouco prô Ano Novo - murmurou Nair ao seu ouvido - vai passar com sua mulher e sua filha.
Ítalo hesitou. Ela insistiu:
- Vai, meu filho - olhou para o esquife. - Se pudesse, Deolinda te diria a mesma coisa.
Ele beijou o rosto da mãe, lançou um derradeiro olhar para o corpo da avó adotiva e disse: - Estarei de volta quando amanhecer, antes da hora do enterro.
Ítalo saiu da capela, pegou a moto e partiu. No exato momento em que chegava à maternidade, as buzinas dos carros soavam, os foguetes espocavam e os fogos de artifício transformavam o céu num palco de resplandecente coreografia. Ele olhou para o relógio: meia-noite, a hora de lemanjá! O instante em que um ano morre para abrir caminho para o que nasce. Ítalo afastou do pensamento a lembrança da morte e caminhou na direção da vida...
38
À medida que os meses passavam, evoluía o preparo dissimulado dos favelados. Os mais habilitados eram encorajados a permanecer, enquanto os menos capazes ou aqueles cuja fidelidade fosse duvidosa iam sendo desestimulados e acabavam por se afastar. E assim, lentamente, começavam a se formar as unidades idealizadas quando da elaboração do plano da Operação Igualdade.
Enquanto as unidades de favelados se desenvolviam, certas precauções eram tomadas por Antônio Maria, visando salvaguardar o sigilo da Operação. Assim é que Tonho foi aos poucos formando uma espécie de "tropa de choque", constituída por rapazes da favela que ele selecionava a dedo e remunerava com o rendimento obtido da aplicação de parte da quantia roubada do Unibrasco. O que, aliás, não representou problema algum, já que as instituições financeiras não cuidavam de indagar a respeito das qualificações do aplicador nem da origem do dinheiro.
Os membros dessa "guarda pretoriana", como Ítalo a denominava, mostraram-se decididos e eficientes. E, aos poucos, inúmeros marginais especializados em assaltos a mão armada e que usa- vam a Rocinha como refúgio, foram "convidados" a procurar outros "santuários". A maioria achou por bem aceder ao convite. Afinal de contas, a eliminação dos três chefões estava ainda bem viva na memória dos favelados. Alguns, no entanto, mostraram-se, a princípio, recalcitrantes, mas mudaram de ideia quando os corpos de quatro de seus companheiros foram encontrados com um tiro na nuca nos chamados pontos de "desova" da Baixada Fluminense, fato esse atribuído, pela Polícia, a uma guerra entre quadrilhas da região.
Quando, certa vez, Ítalo questionou Antônio Maria a respeito da conveniência dessas medidas, obteve por resposta:
- Sempre que um crime é praticado por alguém que mora ou se esconde na Rocinha, a polícia aproveita pra dar batidas e fazer averiguações. As vezes, vêm detetives experientes que podem acabar "cheirando" alguma coisa. Quanto menos eles andarem por aqui, menor o risco de suspeitarem da nossa Operação. Já basta o cuidado que a gente tem de ter com os soldados do Posto da P.M., não acha?
E Ítalo, comvencido pela lógica do raciocínio do outro, passou a fazer "vista grossa" às medidas preventivas de Tonho e não mais tocou no assunto, nem mesmo quando reconhecidos ou suspeitados alcagüetes também começaram a sumir...
39
Na sede da União, Ítalo debatia com alguns representantes de bairros assuntos relativos ao dia-a-dia da favela. Antônio Maria entrou e ficou afastado, espiando de longe, indiferente à conversa. Quando o pessoal se foi, ele se aproximou da mesa onde estava o amigo, sentou- se na borda, acendeu um cigarro e disse:
- Tou chegando agora da Baixada.
- E então?
- Tudo arranjado.
- Em quanto ficou? - indagou Ítalo. - Não foi barato - respondeu o outro, soltando a fumaça em espirais - mas afirmam que o material é da melhor qualidade. Pediram 400,000 reais. Tenho a relação aqui, quer que leia?
Ítalo fez que sim. Tonho tirou do bolso da calça um pedaço de papel que mais parecia uma lista de supermercado e passou a ler:
- 300 revólveres calibre 38, 200 escopetas, 100 pistolas de 9mm, 50 submetralhadoras, 30 granadas e 10 explosivos plásticos de 20 quilos.
Ítalo assobiou.
- Dá pra tomar a cidade toda - pilheriou. - E a munição?
- Suficiente. Pelo menos duas cargas para cada arma.
- Quando entregam?
- Em uns dez dias. Mas seria melhor a gente examinar tudo antes de soltar o dinheiro - aconselhou Antônio Maria.
- Os contrabandistas de armas têm fama de ser honestos nos negócios, mas nunca se sabe.
- Que tal então a gente ir até lá depois de amanhã?
- Por mim tá bem.
- Podemos levar o Olímpio junto - Ítalo piscou o olho - o negão impressiona pelo tamanho.
***
Ninguém sabia ao certo a idade de Ramiro, mas a maioria achava que ele já havia, há muito, passado dos cinquenta. Mas ninguém desconhecia que o "sargentão" - assim o chamavam - tinha sido sargento paraquedista e era um armeiro de mão cheia. Por isso, após terem comprado os armamentos e decidido ter chegada a hora de formar a unidade especial, Ítalo e Antônio Maria resolveram levar uma longa conversa com o "sargentão". E ele aceitou, satisfeito, a incumbência de cuidar do adestramento do pessoal. Era uma oportunidade de reviver velhos tempos. Igualmente satisfeitos ficaram os dois líderes favelados em contar, a partir daí, com a ajuda de um experiente profissional em cuja lealdade e discrição podiam confiar cegamente. Tão discreto era Ramiro que assumiu a tarefa sem indagar por que desejavam formar uma autêntica tropa para-militar na favela. Sabia que, no momento que julgasse oportuno, Ítalo lhe informaria as razões. E dessa forma, a três meses do dia D, 120 jovens favelados, cuidadosamente selecionados, passaram a receber, em certa área da floresta do Laboriaux, longe dos olhos de curiosos, um treinamento todo especial: enquanto Ramiro os adestrava no uso de explosivos plásticos e armas automáticas, Tonho iniciava-os em táticas de guerrilha urbana.
****
O ANO DA GRAGÉDIA
200_
Ao anoitecer do dia 24 de fevereiro de 200_, Antônio Maria chegou à casa de Ítalo para jantar. Lá pelas oito horas, os dois saíram e puseram-se a caminhar até uma curva na Estrada da Gávea, de onde se descortinava uma parte do bairro de São Conrado. Aí pararam e ficaram observando as luzes daquele mundo rico: as casas elegantes, os edifícios suntuosos e a louca coreografia que os faróis dos veículos produziam ao se entrecruzarem nas ruas e auto-pistas. Mais ao longe, a Lua-cheia, grande e amarela, começava a subir no céu, dardejando raios prateados sobre as águas escuras do Atlântico. No todo, uma magnífica visão. Sem tirar os olhos do cenário, António Maria disse:
- Estamos quase prontos, Ítalo. Só falta resolver aquele proble minha de ajustar o aparelho de rádio com os minitransmissores. Depois é só traçar o plano final para o ataque.
- Eu podia arranjar alguém do setor de radiocomunicações da NETBRAS para vir aqui dar uma olhada nisso, mas acho perigoso. Ele ia ficar intrigado e acabaria comentando sabe Deus com quem.
O outro concordou:
- É, Ítalo, não vale a pena arriscar. Eu conheço um tal de Betinho que manja desse assunto, mas ele anda sumido. Vou ver se descubro onde se meteu - e deu de ombros. - Mas isso é um detalhe que acaba sendo acertado. O principal é que já temos as armas e os explosivos e as unidades estão prontas.
Antônio Maria fez uma pausa, encarou o companheiro e sugeriu:
- Que tal marcarmos logo o dia D?
Ítalo refletiu por um longo instante. Depois seus olhos pousaram na Lua. Em vez de responder, perguntou: - Quando será a próxima lua-cheia, Tonho?
O outro fez cara de espanto, suspirou, tirou do bolso uma pequena agenda, consultou um calendário numa das páginas e respondeu:
- 24 de março.
- Em que dia da semana cai?
- Sábado. -
Então será nessa noite que vamos descer - afirmou Ítalo.
- Mas por que tem de ser numa Lua-cheia? Para aproveitar a claridade durante a invasão? E se o céu estiver nublado?
Ítalo sacudiu a cabeça.
- Sempre ajuda se houver luar. Mas não é por isso. É por superstição mesmo.
Antônio Maria voltou de novo a vista na direção de São Conrado.
- Sabe, Ítalo - disse ele - a gente se conhece desde que éramos crianças, e você ainda consegue me surpreender.
- Por quê?
- Pelas suas contradições. Veja só: prepara um plano como se fosse um frio estrategista e no fim escolhe a data do ataque por superstição.
Ítalo sorriu, mas foi um sorriso curto, quase amargo.
- Eu sou assim, Tonho, contraditório como a própria vida. Será bom ou mal? Não sei, só que não dá mais pra mudar.
Foi a vez do outro sorrir, um sorriso de quem se desculpa.
- Tudo bem, companheiro. Mas diga: de que maneira a Lua-cheia entra na sua superstição?
A expressão de Ítalo se transformou. O rosto moreno se iluminou e os olhos negros cintilaram ao luar. Ele apontou o dedo para a Lua.
- Olhe para ela, Tonho. Aquelas manchas não dão a impressão de São Jorge montado no cavalo e atacando a serpente?
Antonio Maria concordou um tanto vacilante:
- A gente aprende essa fantasia desde garotinho.
- Pois é. Fantasia ou não é aí que está a superstição. Afinal, eu sou afilhado de Ogum, não sou? Não dá pra perceber o simbolismo? Nós vamos descer pra incomodar uma serpente. Uma serpente que vem acuando nosso povo nesta favela há quase meio século.
41
O Diretor do SISA, brigadeiro Onaldo Selasco, tinha a pose de um aristocrata ressaltada pelos traços finos do seu rosto. Sua fisionomia raramente mostrava sinais de apreensão. Não que delas estivesse isento - muito pelo contrário - mas porque, via de regra, conseguia guardá-las internamente, sem deixar que elas lhe comprometessem a serenidade facial. Isso e o cachimbo que invariavelmente enchia com calculada lentidão, conferiam ao brigadeiro uma quase lendária ima- gem de tranquilidade, mesmo nas mais difíceis situações. E foi assim, sereno e levando debaixo do braço um envelope pardo, que ele entrou naquela manhã de janeiro no gabinete do Comandante do III GOMAR. Onaldo e Marcos Fábio eram amigos há mais de quarenta anos, desde os idos dos anos 60, quando ambos cursaram a Escola de Cadetes da Força Aérea.
Steiner saudou-o com um efusivo aperto de mão e foram sentar-se num sofá próximo à ampla janela de onde se descortinava uma bonita vista da baía de Guanabara. O primeiro gesto do Diretor do SISA foi tirar do bolso um dos seus famosos e elegantes cachimbos e começar a enchê-lo com o mais fino tabaco diretamente importado da Inglaterra. O Comandante do III COMAR, para quem o fumo, sob qualquer forma, era um vício incompreensível e desagradável, recuou discretamente para a extremidade do sofá, já buscando guardar certa distância entre si e a fumaça que, em breve, começaria a poluir a atmosfera do seu austero gabinete. O gesto não escapou ao visitante o qual sorriu intimamente mas prosseguiu na tarefa, sem dar sinal de que iria iniciar a conversa. Steiner, contudo, rompeu o silêncio:
- Meu caro Onaldo, confesso que seu telefonema de ontem, marcando este encontro para falarmos de um assunto que, como você fez questão de frisar, tem uma conotação pessoal, deixou-me curioso e intrigado. Ainda que me considerem uma pessoa fria, não possuo na verdade essa sua imensa reserva de paciência e tranquilidade. E como sei que você não se abalaria em vir até aqui à toa, eu lhe peço, mesmo correndo o risco de parecer indelicado, que me diga logo do que se trata.
O outro tirou um isqueiro do bolso da túnica do uniforme e acendeu o cachimbo. Depois, olhando para Steiner, sorriu e disse, com toda a naturalidade:
- Marcos, sei muito bem o quanto você é sensível em relação a fatos relacionados com sua vida particular.
O Comandante do III COMAR ergueu as sobrancelhas.
- Não obstante - prosseguiu o outro sem mudar de tom, - acho que você vai se interessar pelo que eu tenho a lhe dizer.
- E por que então não vai direto ao assunto? - indagou Marcos Fábio, a quem os rodeios de Selasco já começavam a causar certa irritação.
- Muito bem - replicou o Diretor do SISA, tirando o cachimbo da boca, - nesse caso, iniciemos pelo princípio. Há dias, um agente da Polícia Federal fotografou três elementos que negociavam a compra de metralhadoras, escopetas, granadas e até explosivos plásticos, no mercado negro de armas da Baixada Fluminense. Como é de praxe nesses casos, e você sabe disso tão bem quanto eu, eles nos enviam cópias dos dados que obtêm.
Onaldo fez uma pausa, bateu a cinza do cachimbo num cinzeiro de pé ao lado do sofá e prosseguiu:
- Por uma questão de rotina, mandamos a cópia da tal foto para ser examinada pelo Computador de Análises Fotográficas, o qual indicou que outra fotografia de um dos três sujeitos já existia em nossos arquivos.
O Diretor do SISA recomeçou a colocar, meticulosamente, mais tabaco no cachimbo. Fitou Steiner e continuou:
- Há uns três anos, quando sua filha foi sequestrada, um dos nossos agentes fotografou o tal rapaz que a trouxe para casa, lembra? Na ocasião você até nos pediu que levantássemos informações sobre ele...
Steiner encarou o outro e respondeu num tom propositadamente casual, tentando disfarçar um grau de crescente ansiedade:
- Sim, lembro. E daí?
- Lamento reabrir feridas - havia um leve toque de constrangimento na voz de Onaldo.
- Não há feridas para serem reabertas - retrucou Marcos Fábio secamente. - Continue, por favor.
O outro decidiu abandonar os circunlóquios.
- Está bem, - disse incisivo - esse tal de Ítalo que casou com a sua filha é um dos três homens que negociaram as armas na Baixada. Achei que deveria dar-lhe conhecimento do fato. Veja você mesmo, compare as fotografias.
Abriu o envelope pardo, tirou as fotos e entregou-as a Steiner. Os olhos deste se estreitaram. Ele examinou demoradamente as fotografias e acenou com a cabeça.
- Não há dúvida, é ele mesmo.
Selasco ergueu-se, alisou a túnica e pôs-se a caminhar pelo aposento, soltando longas baforadas.
- Todas essas armas e explosivos decerto custaram muito dinheiro. E como poderia essa gente ter conseguido uma soma tão vultosa? Roubando, naturalmente. Pensei então se esse Ítalo e seus sequazes não estariam também envolvidos no assalto àquele Banco em Ipanema. Afinal, foi lá que sequestraram Erika e foi ele quem levou-a para casa. Uma sucessão de coincidências como essas contraria a lei da casualidade, não lhe parece?
Os olhos de Steiner faiscaram. O rosto pareceu adquirir uma nova vitalidade.
- Eu pensei nisso na ocasião, Onaldo, e depois quando soube que Erika estava se encontrando com esse marginal, então passei a ter certeza.
O Comandante do III COMAR ficou um instante meditando, depois recomeçou:
- Metralhadoras, explosivos, granadas... O que estarão planejando esses marginais?
Selasco deu de ombros e voltou a sentar-se no sofá.
- Não sei. Talvez estejam se preparando para uma guerra entre quadrilhas.
- Talvez - concordou Steiner sem muita convicção.
- É pena - lamentou o Diretor do SISA - não termos como provar a participação de Ítalo no assalto ao Banco de Ipanema.
E baixando a voz:
- Creio que sua filha jamais o acusaria.
O rosto de Steiner tomou-se sombrio.
- Não, ela não o faria.
- Quem sabe se mostrássemos a foto ao pessoal do Banco - sugeriu Onaldo. - Talvez alguém se lembre... ou talvez não. Afinal, já se vão quase três anos..
Steiner pôs a mão no braço do outro.
- Espere - exclamou ele como se lhe houvesse ocorrido uma súbita inspiração. - Minha sobrinha estava com Erika na hora do assalto. Ela é formada em Programação Visual e tem uma memória impres- sionante.
- Então, ótimo, mostre-lhe a foto - disse Selasco, levantando-se.
Steiner também se ergueu. Num gesto raro, colocou a mão afetuosamente sobre o ombro do colega.
- Obrigado, Onaldo. Tentarei falar com Eliana ainda hoje. É possível que ela possa nos dar alguma informação útil. E depois vou meditar cuidadosamente sobre toda essa nossa conversa. Sabe? Tenho em mim que Ítalo e sua "gang" estão planejando algo bem mais sinistro e audacioso do que um simples conflito entre quadrilhas de marginais. E se a minha intuição estiver correta...
Naquela mesma tarde, a pedido de Steiner, Eliana compareceu ao Gabinete do Comandante do III COMAR. Depois de olhar demoradamente a foto que o tio lhe entregara, declarou categórica:
- Foi este aí. - ela apontou para o maior dos três homens na fotografia. - Foi ele quem sequestrou Erika. Ela arrancou-lhe o capuz e pude vê-lo bem.
- Tem certeza? - indagou o brigadeiro.
- Absoluta - respondeu ela dando uma risadinha irónica. - Um negro desse tamanho e com essa cara de idiota a gente não esquece com facilidade.
42
O telefone tocou no Distrito Policial da Gávea em tomo das 10:00 horas. O detetive de plantão atendeu e pigarreou quando informaram, do outro lado do fio, que a chamada era do III COMAR. O comandante da FAB solicitava uma entrevista reservada com o delegado, para aquele mesmo dia, se possível. Após uma rápida troca de palavras com seu chefe, o detetive respondeu que o Dr. Fernando Ribeiro teria todo o prazer em receber o brigadeiro às 15:00 horas, se esse horário atendesse à conveniência do comandante. Atendia. O delegado ficou intrigado. Não era raro oficiais de alta patente telefonarem solicitando providências quando algum militar ou seus fami- liares eram roubados ou assaltados. Mas uma entrevista reservada...
Na hora precisa, um policial abriu a porta do gabinete e disse:
- Doutor, está aí um senhor que diz ter audiência marcada.
- Faça-o entrar - respondeu o delegado levantando-se.
Contornava a mesa no exato instante em que entrava no recinto um senhor alto e magro, de porte marcial, trajando impecavelmente um temo cinza-escuro. Apertaram-se as mãos.
- Delegado - falou o recém-chegado entregando ao outro um cartão plástico de identificação, - sou o brigadeiro Marcos Fábio Steiner, comandante do III COMAR. O senhor poderia conceder-me um pouco do seu tempo?
A maneira educada de falar não escondia o tom de autoridade. O delegado olhou de relance para o cartão de identidade e devolveu-o ao dono. Em seguida respondeu, sorrindo de leve e apontando para um sofá de couro:
- É claro, brigadeiro. Sente-se, por favor. Em que posso servi-lo?
Os dois homens acomodaram-se, cada um num dos extremos do sofá, um pouco de lado, ficando quase de frente um para o outro.
- Delegado - disse Steiner com tranquilidade, - imagino que o senhor esteja estranhando esta visita.
Ribeiro fez um gesto vago com a mão, como a indicar que, estranhando ou não, tratava-se de um fato consumado. O brigadeiro prosseguiu:
- Pelo que estou informado, o morro da Rocinha fica dentro da sua jurisdição.
- Exatamente - confirmou o outro, voltando a pensar se, na verdade, o militar não teria mesmo vindo apenas para apresentar queixa contra algum crime cujo autor suspeitava fosse lá do morro. Mas, surpreendentemente, Steiner deu à conversa um rumo inesperado:
- Delegado, certamente o senhor não ignora o enorme crescimento demográfico das favelas em geral e da Rocinha em particular. Não lhe parece que isso possa levar a uma situação explosiva, principalmente se considerarmos o recrudescimento das dificuldades económicas?
O militar fez uma pausa, talvez esperando a resposta. Mas Fernando, sem ter a mínima ideia até onde o outro queria chegar, limitou-se a um gesto da cabeça. O brigadeiro continuou:
- Uma explosão social, melhor dizendo, uma revolta por parte dos favelados, se bem organizada e em larga escala, poderia levar esta cidade ao caos, da noite para o dia. Não concorda?
Agora não havia como deixar de responder.
- Sim, mas o que o leva a crer que algo assim esteja por ocorrer?
- Eu não disse que está por acontecer - corrigiu Steiner. - Apenas que pode acontecer.
- Bem, não deixa de ser uma hipótese, mas, a meu ver, bastante remota - comentou Fernando. - Pode-se teorizar da mesma forma a respeito da possibilidade da ocorrência de convulsão em outras regiões. Sempre que há dificuldades financeiras e desemprego, periga a estabilidade social. No entanto, o país já atravessou crises económicas e sociais muito mais graves e não aconteceu nenhuma revolta séria que ameaçasse a segurança nacional.
O brigadeiro sentiu a "alfinetada" mas não se perturbou.
- Seu raciocínio é correto, delegado, porém eu não estou no momento pensando em termos do país como um todo e sim desta cidade. Para ser objetivo, diria que me preocupa, especificamente, uma explosão dos favelados da Rocinha.
O delegado acendeu um cigarro e sorriu condescendente.
- Eu lido com essa gente há vinte anos, brigadeiro. As favelas existem há mais de século e nunca houve um conflito social importante por causa delas. Reconheço que elas abrigam muitos marginais e que delas se originam os responsáveis pela maioria dos crimes e assaltos que ocorrem por aí. Mas isso não é um fenómeno exclusivo do Rio. O mesmo tem lugar em quase todas as grandes metrópoles do mundo, em que existem focos populacionais de baixa renda e desníveis sócio- econômicos acentuados.
Steiner contemplava o outro, indiferente à pejoração, aguardando uma oportunidade para intervir. Assim que Fernando fez uma pausa para tomar fôlego, ele perguntou:
- O senhor sabe quantos favelados existem atualmente na área metropolitana do Rio?
- Dois, três milhões, algo por aí.
- Para ser exato, são três milhões e seiscentos mil, ou seja, aproximadamente a metade dá população total da cidade. E, só na Rocinha, o número está em tomo de quatrocentos e vinte mil.
Fernando começou a imaginar se aquela conversa tinha de fato algum propósito ou se Steiner não passava de um "milico de miolo mole". Afinal de contas, era de se esperar que o responsável pelo III COMAR tivesse outras coisas com que se preocupa,r dentro da esfera de suas atribuições específicas. E nunca lhe ocorreria imaginar que a problemática social dos favelados fosse uma delas. Steiner como que lhe adivinhou o pensamento. Pela primeira vez um sorriso discreto desanuviou a expressão "prussiana". Ele cruzou as pernas e disse:
- Entendo que o senhor talvez ache que nada disso é da minha conta e que eu estou sendo um tanto impertinente.
Fernando desviou o olhar para não se comprometer. O sorriso desapareceu do rosto de Steiner.
- Mas o senhor já se deu conta do que poderia acontecer se surgisse uma liderança capaz de disciplinar e organizar toda essa massa favelada? E se eles fossem armados e adestrados para uma determinada ação hostil contra a sociedade? Já pensou nas consequências que poderiam advir?
Os olhos de Fernando piscaram duas, três vezes. Na verdade, nunca lhe ocorrera imaginar que os favelados pudessem constituir uma força organizada apta a por em risco a paz social. Contudo, pensando bem, não era uma impossibilidade. Fitou Steiner: a fisionomia era indecifrável. Seria ele um homem de visão privilegiada ou um sonhador de pesadelos? Ou disporia o brigadeiro de informações que ele, Fernando, desconhecia? O mais provável, teve de admitir. De qualquer forma, a conversa tinha tomado uma direção imprevisível e aguçado a sua curiosidade. Steiner sentiu a reação do outro e aproveitou para avançar:
- Delegado, asseguro-lhe que há fortes indícios, segundo os quais existe um grupo na Rocinha se preparando para executar alguma ação capaz de pôr em sério risco a paz social nesta cidade.
A expressão do delegado tomou-se séria.
- Quais indícios, brigadeiro? - perguntou.
Steiner respondeu, mantendo a serenidade na voz:
- Dois acontecimentos, aparentemente isolados, mas que, na verdade, formam os elos de uma corrente.
O outro ergueu as sobrancelhas. O militar explicitou:
- Um assalto a um Banco em Ipanema, há três anos, e uma compra de armamentos, há mais ou menos dois meses, no mercado negro da Baixada.
Steiner fez uma pausa permitindo que Ribeiro assimilasse o que acabava de ouvir. Depois prosseguiu:
- Um agente da Polícia Federal descobriu a transação. Viu quando os compradores chegaram para fechar o negócio com os traficantes de armas. Eram três e vieram em motocicletas. Usando uma microcâmera, ele conseguiu fotografá-los.
Steiner tirou uma fotografia do bolso e passou-a ao delegado. Este olhou-a atentamente. O brigadeiro perguntou:
- Conhece esses homens?
- Sim - admitiu Ribeiro assentindo com a cabeça. - São três dos mais importantes líderes da Rocinha: Ítalo, Antônio Maria e Olímpio. Posso saber como essas fotos chegaram às suas mãos, brigadeiro?
- Sim, não há nenhum mistério nisso. Em casos de armamentos ou outros fatos que possam eventualmente interessar à segurança nacional, a Polícia Federal notifica os órgãos de informações das Forças Armadas. Assim, uma cópia dessa fotografia foi entregue ao SISA e porque o caso ocorreu em zona sob a jurisdição do III COMAR, veio parar em minhas mãos.
- Mas como foi que a partir daí o senhor concluiu que esses elementos estariam também envolvidos no assalto ao Banco de Ipanema?
Steiner ficou olhando algum tempo para as unhas bem polidas antes de responder, sempre com a mesma serenidade:
- Digamos que foi uma espécie de sexto sentido, delegado. Mostrei a foto a uma pessoa que tinha estado no Unibrasco na hora do assalto. Ela reconheceu o mais alto dos três.
- O Olímpio - disse Fernando quase sem querer.
- Precisamente.
- Posso perguntar quem é essa testemunha?
- Perguntar pode, é claro - respondeu o militar. - Mas é uma informação que não posso lhe fornecer. Sinto muito. No entanto, garanto-lhe que essa pessoa tem uma excelente memória e esse tal de Olímpio não é uma figura fácil de ser esquecida.
Fernando não insistiu. Sabia que não adiantaria nada. Steiner continuou:
- As coisas ficam agora mais claras, não lhe parece? Esse grupo da Rocinha tem um plano que vem sendo traçado há muito tempo. Estão se armando. E para quê? A ideia de que estejam preparando alguma ação violenta contra a cidade não pode ser desprezada.
Fernando sentiu um gosto amargo na boca. Por que aqueles cretinos da Polícia Federal não lhe tinham dito nada?
- Talvez o senhor esteja certo, brigadeiro - disse ele, - mas não lhe parece que este caso é mais da alçada policial que militar?
Steiner percebeu que o outro fora ferido em seu orgulho profissional. Resolveu ser solícito com o delegado. Afinal de contas, ia precisar da colaboração dele. Acomodou-se melhor no sofá e res- pondeu:
- Em tese, sim. Mas nós, militares, não gostamos de ser apanhados desprevenidos. E uma das funções de Estado-Maior é manter-se adiante dos acontecimentos, prevendo-os para preveni-los ou neutralizá-los, se necessário. Em casos de convulsão social grave, cada uma das forças singulares deve estar preparada para intervir. E, do ponto de vista da Força Aérea, em se tratando da cidade do Rio de Janeiro, recai sobre mim essa responsabilidade. Não é nossa intenção fazer o papel de polícia na manutenção da ordem pública. Mas cumpre estarmos prontos para agir se as forças policiais do Estado se mostrarem incapazes de controlar a situação. E, às vezes, delegado, é muito pequena a margem entre a desordem social e a segurança nacional. Talvez o assunto em pauta possa vir a se constituir num exemplo disso.
- O senhor realmente está convencido que a Rocinha representa uma grave ameaça, não está?
- Sim - confirmou Steiner.
Seguiu-se um breve silêncio. Depois o brigadeiro retomou a palavra:
- Bem, delegado, após todas essas considerações, creio que já é tempo de expor-lhe o motivo maior da minha visita. Certamente eu poderia ter-me dirigido a alguma autoridade acima da sua, mas, no fim, a coisa acabaria mesmo nas suas mãos. E como, quanto menos gente tomar conhecimento do assunto, maior a chance de que o sigilo seja preservado, resolvi vir diretamente ao senhor para solicitar a sua colaboração.
- E de que forma posso fazer isso?
Os olhos de Steiner vagaram pela sala.
- Eu preciso saber com exatidão o que está se passando na Rocinha. Por isso necessito da sua ajuda para infiltrar um agente nosso na favela.
O delegado fez um gesto afirmativo com a cabeça.
- Isso não será difícil. É apenas uma questão de oportunidade. Porém, não estou certo que um oficial de informações tenha a experiência adequada para se fazer passar por marginal, sem despertar suspeitas. Até mesmo o mais treinado policial às vezes se deixa trair.
Fernando fez uma pausa e prosseguiu, pouco a vontade:
- E em relação à Rocinha a coisa fica ainda mais difícil. Devo confessar que, recentemente, não temos conseguido colher muitas informações sobre o que anda se passando por lá. Nossos alcagüetes na favela têm-se mostrado evasivos e reticentes. Não será uma tarefa fácil para seu agente.
Os olhos de Steiner cintilaram.
- O que o senhor acaba de me dizer confirma a minha ideia de que estão tramando algo sério por lá. O insucesso de seus alcagüetes sugere que as medidas de segurança e vigilância deles foram reforçadas. Não lhe parece?
Um tanto contrafeito, Fernando viu-se forçado a concordar. O brigadeiro persistiu:
- Mas quanto ao meu agente, não se preocupe. O homem que pretendo mandar à Rocinha conhece o assunto. Passou seis meses infiltrado numa das mais perigosas favelas de São Paulo, vigiando as atividades de um terrorista internacional. E nunca ninguém desconfiou dele.
Sentindo-se vencido, Fernando bateu com as mãos nos joelhos e disse:
- Então está bem. Verei o que posso fazer. Assim que surgir uma oportunidade avisarei o senhor.
Steiner ergueu-se e entregou um cartão ao delegado.
- Quando chegar o momento, ligue para esse número. Quem atender o colocará em contato comigo, a qualquer hora do dia ou da noite, onde quer que eu me encontre.
Apertaram-se as mãos em despedida. Fernando fez uma última tentativa para não ficar à margem dos acontecimentos:
- Brigadeiro, espero que o senhor mantenha-me informado a respeito do que seu agente venha eventualmente a descobrir.
- Claro, delegado - replicou Steiner, concluindo com malícia - na medida do possível.
E com essa frase evasiva, o comandante do III COMAR virou-se e deixou a sala, enquanto Fernando o contemplava através da fumaça do cigarro que acabara de acender.
43
Ao passar pela ante-sala do Distrito Policial, Steiner cruzou com um homem em traje esporte que conversava com o detetive de plantão. O homem acompanhou o militar com o olhar até que ele deixou o recinto. Depois, com a testa franzida de quem está puxando pela memória, comentou:
- Já vi essa cara antes, Tavares. Sabe o nome dele?
- Não sei não, delegado. Só sei que é um militar de alta patente. Passou um tempão lá dentro trancado com o Dr. Fernando.
O delegado Daniel Martins, ex-detetive do Departamento de Sequestros da Secretaria de Segurança, ficou ainda alguns instantes parado, pensativo. Em seguida, abriu a porta do gabinete e entrou. Fernando ergueu-se para cumprimentar o colega.
- Olá, Daniel, como vão as coisas?
- Mais ou menos. Escuta, quem é esse senhor que acabou de sair?
O outro soltou um suspiro.
- O brigadeiro Steiner, Comandante do III COMAR, nem mais nem menos.
Martins assobiou baixinho.
- Pareceu-me que era ele, mas fiquei na dúvida. Nunca o tinha visto à paisana. Linha dura, da pesada.
Fernando deixou passar a ultima observação.
- Você o conhece?
Martins atirou-se no sofá e afrouxou o nó da gravata. - Encontramo-nos uma vez, há uns três anos, quando assaltaram um Banco em Ipanema. Na hora do assalto a filha dele estava lá descontando um cheque. Os assaltantes levaram-na como refém. Uma prima que estava junto presenciou o fato e comunicou-se com o tio. Esse Steiner virou fera. Mobilizou a Polícia da Aeronáutica e agentes do SISA para localizar os seqüestradores.
- E como é que você ficou sabendo disso tudo? - Fernando Ribe ro começava a se interessar.
- Eu tinha ido à casa dos Steiner no Leblon, para articular a caçada com o pessoal da Aeronáutica. Já estava de saída junto ao portão, despedindo-me, quando uma motocicleta parou e a filha do brigadeiro desceu tranquilamente da garupa.
Martins fez uma pausa e soltou uma gargalhada.
- Agora, vê se adivinha quem dirigia a moto. O Ítalo, aquele líder favelado da Rocinha. Você sabe quem é.
Fernando se engasgou na fumaça do cigarro. Tossiu e exclamou, excitado:
- O quê? Você está me dizendo que o Ítalo... vamos, homem, conte-me essa história direitinho.
Martins espantou-se com a reação do colega.
- Mas por que toda essa agitação?
- Depois explico, Daniel. Agora, ande, desembuche tudo.
- Está bem. Quando Steiner viu a filha na garupa, agarrando por trás, pela cintura, aquele sujeito meio mulato, de casaco de couro surrado e com toda a pinta de marginal, ficou lívido. Fez um sinal e quatro soldados armados que estavam próximos cercaram a moto. Eu tinha reconhecido logo o Ítalo, mas, a essa altura, sem saber ao certo o que tinha acontecido, achei prudente não revelar quem ele era. Acho que se o tivesse feito o brigadeiro teria mandado fuzilá-lo ali mesmo. A jovem contou que os assaltantes tinham-na largado na Barra e que o rapaz ofereceu-lhe carona e trouxe-a para casa. Sinceramente, na hora tive a sensação que ela estava mentindo. Foi quando o brigadeiro advertiu-a severamente por ter aceito carona de "um tipo esquisito". Ela correu envergonhada para a casa e eu afastei-me para atender a um chamado de rádio do carro-patrulha que se encontrava estacionado perto dali. Por isso não ouvi o que se seguiu, mas deu pra perceber que Ítalo e Steiner trocaram ásperas palavras. Depois o rapaz acelerou a moto e partiu, enquanto o brigadeiro se encaminhava furioso para a residência. A essa altura, ele já tinha até esquecido da minha existência. Foi isso.
- E você não soube mais nada depois disso?
- Sim, meses mais tarde. Um dos diretores de um bloco carnavalesco da Rocinha foi me procurar para ver se eu dava um "jeitinho" de relaxar a prisão de um sobrinho dele que havia sido apanhado assaltando uma joalheria. A mesma história de sempre: o rapaz tinha chegado do Nordeste, estava passando necessidades, fora induzido por outros, era primário...
- E o que é que isso tem a ver com o caso do Steiner? - interrompeu Fernando, impaciente.
- Calma, tem sim, escute só. Conversa vai, conversa vem, o homem acabou contando que Ítalo tinha se casado dias antes com uma moça da alta, branca e bonita que havia fugido de casa para ir morar com ele na favela.
Dessa vez o cigarro caiu da boca de Ribeiro.
- Você não está que- rendo dizer...?
- Precisamente. A filha de Steiner. Erika, este é o nome dela, e Ítalo se apaixonaram e, menos de dois meses depois daquele incidente que lhe narrei, ela se mandou para ir viver com ele na Rocinha.
Fernando acendeu outro cigarro e foi até a janela, pondo-se a olhar para fora, pensativo. Martins bocejou e já ia fazendo algum comentário quando o outro voltou-se e disse:
- Foi Deus que enviou você aqui esta tarde, para elucidar algumas das minhas dúvidas.
- Até então tinha pensado ter sido a Interpol - ironizou Daniel. - Vim procurá-lo para pedir sua ajuda na captura de um ladrão internacional que dizem estar escondido em alguma parte deste bairro.
Fernando reagiu com um gesto impaciente da mão.
- Estou falando sério, Daniel. O que você acaba de me dizer clareou a minha mente. Agora estou começando a entender o por que dessa estranha visita que o brigadeiro me fez há pouco.
- Quer me contar? - indagou Martins, já sério e com a curiosidade despertada.
O outro assentiu com a cabeça, pegou uma cadeira e sentou-se mais perto do colega. Em seguida, relatou, nos mínimos detalhes, a sua conversa com Steiner. Quando Fernando terminou a exposição, Daniel coçou o queixo e disse:
- Pede um café pra gente.
Ribeiro foi até o interfone e fez o pedido. Não demorou quase nada. Um homem de face escavada, com jeito de contínuo, entrou carregando uma bandeja com um bule e duas xícaras e colocou-a sobre uma mesinha junto ao sofá.
- Já tem açúcar - anunciou secamente e se retirou.
Ribeiro serviu o café e comentou:
- Agora dá para entender a obsessão do brigadeiro nesse caso. Há um envolvimento pessoal. Mas, afinal, o que você acha? Steiner está realmente convencido que a turma da Rocinha esteja a ponto de aprontar algo grave ou quer infiltrar um agente só para saber o que está se passando com a filha e, talvez, quem sabe, até mesmo para tentar eliminar o ítalo? Aquele velho me pareceu capaz de tudo.
Daniel sorveu lentamente o café antes de responder:
- Não há dúvida que Steiner odeia ítalo profundamente e possivelmente deseja saber como a filha vai indo. Mas se fosse só por essas razões, por que iria esperar três anos? Acho que ele está mesmo convicto que existe uma trama lá no morro e talvez veja nisso também uma chance de se vingar do genro que Erika lhe impôs.
- Faz sentido - concordou Fernando.
- Por que você não aperta seus alcagüetes para eles verificarem o que de fato está se passando na Rocinha?
Ribeiro fez um gesto desconsolado.
- No momento não vejo como. Não forneci ao Steiner detalhes sobre o que vou dizer a você, mas sucede que, dos cinco homens que tínhamos no morro, dois foram liquidados nos últimos três meses. Apareceram na Baixada, crivados de balas. Talvez a eliminação deles nada tenha a ver com as suspeitas do brigadeiro. Pode ter sido mera coincidência, mas os outros sumiram e ninguém mais, desde então, tem topado trabalhar para a gente lá em cima.
- Não creio que tenha sido coincidência - ponderou Martins. - A meu ver, alguém na Rocinha parece realmente empenhado em manter certas coisas em segredo. Acho que as suspeitas de Steiner são procedentes.
- Você está começando a me convencer disso - admitiu Fernando. - Quem anda dando as cartas no morro atualmente? Ainda é o Ítalo?
- Ele c um tal de Antônio Maria. Os dois são ''unha e carne". Controlam a União dos Moradores e ninguém lhes contesta a liderança. De uns tempos para cá essa dupla eliminou ou expulsou da favela todas as outras facções rivais. Se há mesmo alguma trama sendo articulada, os dois certamente se encontram por trás dela.
Martins refletiu um pouco enquanto se servia de outra xícara de café.
- A Rocinha está sob a sua jurisdição. Se der algum galho sério por lá, você pode "dançar" feio.
- Sei disso - concordou Fernando, contraindo os músculos da face.
- E o que pretende fazer? Não vai alertar o Secretário de Segurança sobre essas suspeitas?
Ribeiro balançou a cabeça.
- Por enquanto não. Só quando tiver algo de concreto. Mas, de imediato, vou tratar de dar um jeito de infiltrar o tal agente do Steiner no quartel-general do Ítalo. Quem sabe o homem é bom mesmo como o brigadeiro diz e acaba descobrindo o que andam tramando?
- Pode ser - disse Daniel, levantando-se. - Mas também pode ser - concluiu, apontando o indicador para a têmpora direita - que o tal agente do brogadeiro acabe por se tornar mais um "presunto" nos matagais da Baixada.
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