A NOITE DOS FAVELADOS
Oliver Marti
PARTE 2
17
Antônio Maria e Zuza pararam as motos a uma distância conveniente da mansão. Apearam e ficaram observando. Severino freou o táxi bem na frente do portão. Ouvindo o barulho do carro, um mulato alto espiou entre as grades, com ar desconfiado. Minhocão saiu do táxi com Olímpio bem atrás, o revólver oculto sob a camisa. Ao ver os dois homens acercando-se do portão. Nené recuou um pouco e já ia fazendo menção de sacar a arma, quando reparou que um deles era o Minhocáo. Aproximou-se de novo da grade e perguntou:
- Que é que há, rapaz, isso são horas?
Minhocão, de cara assustada, sentindo a proximidade de Olímpio e sabendo que Ítalo vigiava-o de dentro do carro, pronto a atirar ao menor gesto suspeito, esforçou-se para aparentar naturalidade:
~ Preciso falar urgente com o chefe. Abre esse portão. Nené.
- O homem tá dormindo, meu chapa. Se acordo ele à toa, vem bronca pra cima de mim.
O outro insistiu.
- E se você não chama é pior. É assunto sério.
Nené fez um gesto de resignação.
- Tá bem. Vou ligar pelo interfone. Mas olha lá, a responsabilidade e toda sua.
- Anda logo - replicou Minhocão, aflito, instado por uma catucada nas costas.
Dando duas voltas na fechadura com a chave que tirara do bolso da calça. Nené abriu o portão e disse:
- Entra, mas o amigo aí - apontou para Olímpio - fica esperando do lado de fora.
Numa incrível rapidez para alguém tão pesado, o gigante afastou Minhocão e empurrou Nené para o lado de dentro, atirando-o ao chão. Tomado de surpresa, o mulato abriu a boca e procurou proteger o rosto com o braço. No mesmo instante, Ítalo saltava do táxi e corria para a entrada da casa com o 38 na mão. Em menos de quinze segundos, os capangas de Vivinho estavam debaixo da mira de dois revólveres.
- O que é que...? - ia indagando o mulato alto, tentando se levantar, mas silenciou quando Olímpio aplicou-lhe um pontapé no peito, jogando-o de novo ao solo.
- Bico calado, meu chapa - disse Ítalo com autoridade.
Ruídos de passos apressados soaram na calçada. António Maria e Zuza chegavam correndo.
- Muito bem - voltou a falar Ítalo, dirigindo-se a Nené. - Tu agora pega naquele interfone e diz ao Vivinho que o Minhocão está aqui pra falar com ele - e apontando o cano da arma para a cabeça do homem: - Levanta e faz direitinho o que estou dizendo, entendeu?
Nené ergueu-se. Olímpio arrancou-lhe o revólver da cintura e passou-o ao Zuza. Olhando meio de banda e com expressão de raiva para o Minhocão, o mulato dirigiu-se ao interfone e apertou um botão. Ninguém respondeu. Ítalo fez um gesto com a arma e Nené tomou a chamar. Dessa vez uma voz aborrecida e sonolenta fez-se ouvir:
- Porra, que é que você quer a essa hora?
- Desculpe, chefe - balbuciou Nené - mas o Minhocão está aqui insistindo pra falar com o senhor. Eu disse a ele...
- Está bem - interrompeu a voz aborrecida.
Olímpio empurrou o Minhocão na direção da guarita. A voz aborrecida fez-se escutar de novo, irritada e impaciente:
- Qual é o problema, Minhocão?
- Foi... foi o negócio do Ítalo, chefe. Ele escapou e acho que me reconheceu.
Um momento de silêncio. Vivinho parecia estar digerindo a info mação.
- E por que você não se mandou pra longe, lá pra Baixada? E melhor sumir antes que o agarrem e você dê com a língua nos dentes.
- É... é o que vou fazer, chefe... mas estou sem nenhum dinheiro. Por isso vim aqui pró senhor me arrumar algum.
- Quem falha num contrato não merece receber nada. Em todo o caso, vamos ver - replicou Vivinho. - Mas primeiro quero saber direitinho o que aconteceu - a voz cresceu de tom. - Vou descer pra abrir a porta.
A voz calou. Ítalo desligou o interfone. A um gesto seu, Antônio Maria e Zuza levaram os dois homens de Vivinho para um canto do pequeno jardim entre o muro e a casa, as armas pressionadas contra as costas deles. Em seguida. Ítalo postou-se de um lado da imensa porta de madeira reforçada. Olímpio colocou-se do outro lado. Passou-se mais de um minuto. Então a porta se abriu. Vestindo um robe de seda, descalço, cabelos em desalinho, Vivinho estacou no patamar, estupefato: dois revólveres que pareciam ter surgido do nada apontavam para sua cabeça. Lívido, olhou rápido para um e para o outro lado. Ao reconhecer Ítalo, seus olhos esbugalharam. Tentou falar, mas a voz recusou-se a sair. Ficou apenas a boca enorme, grotescamente aberta, se mexendo sem produzir nenhum som.
- Surpreso, Vivinho? - indagou Ítalo, empurrando o traficante para dentro da casa.
Em poucos minutos, o grupo dos seis tinha a situação sob controle. Na sala de estar, Minhocão e Nené estavam amarrados em cadeiras e amordaçados. Vivinho, sentado num sofá, esfregava as mãos, assustado e suando frio, diante do cano da arma que Ítalo mantinha apontada para a sua cabeça. No andar de cima, no quarto de dormir do traficante, Neuzinha, sua amante, nem chegou a se dar conta do que acontecia. De sono pesado, quando afinal acordou já Olímpio a tinha bem amarrada no próprio lençol e um pedaço de pano tapou-lhe a boca antes que pudesse emitir qualquer protesto.
No andar de baixo, num pequeno quarto, ao lado da cozinha, a empregada não ofereceu nenhuma resistência quando Zuza entrou, amordaçou-a e amarrou-a pêlos pulsos e pêlos tornozelos.
As duas mulheres haviam sido surpreendidas no escuro e não conseguiram sequer vislumbrar o rosto dos invasores. Fora da mansão, após terem deixado o táxi junto às motos, a alguma distância do local, Zé Augusto e Severino postaram-se do lado de den- tro do portão, protegidos pelas sombras do jardim, aguardando a hora em que entrariam em ação.
Em rápidas palavras, Ítalo disse a Vivinho o que este teria de fa/er. O traficante não era tolo. Passada a estupefação inicial, compreendeu que se achava em sério perigo, não lhe restando outra saída senão obedecer e rezar para que Ítalo lhe poupasse a vida. Assim é que, sob o olhar vigilante do líder do grupo dos seis, Vivinho pegou o telefone e discou para Teobaldo.
- Teo - disse ele, procurando conter o tremor da voz - preciso que você e o Zequinha venham aqui imediatamente... É, agora. Não, não dá pra esperar até amanhecer... Aquele caso do Ítalo. Falhou... Sim, ele escapou. O Minhocão se mandou pra Baixada mas, não sei por que, foi agarrado pela polícia... O Biriba viu quando ele foi levado e acabou de ligar avisando... Sim, temos de pensar num jeito de calar o Minhocão antes que ele dê o serviço... Não, isso não é assunto pra discutir no telefone. Pegue o carro, apanhe o Zequinha no caminho e se mande pra cá. Depressa.
Vivinho repôs o fone no gancho, olhou para Ítalo e, abrandando a voz, disse num tom conciliatório:
- Pronto, fiz o que você mandou. Daqui a pouco os dois estarão aqui. Escute, Ítalo, reconheço que nós erramos, mas sempre se pode chegar a um acordo... O filho de D. Nair ergueu a mão interrompendo:
- Tudo a seu tempo, Vivinho - disse ele calmamente. - Vamos esperar até que estejamos todos reunidos. Aí então a gente acerta as coisas.
O traficante tentou identificar no olhar do outro algum indício das suas intenções. Não teve êxito. Os olhos de Ítalo mostravam-se indecifráveis. O lider do grupo dos seis fez um leve gesto com a cabeça. António Maria aproximou-se de Vivinho com um pedaço de corda na mão e apontou para uma cadeira vazia entre Nené e Minhocão.
- Vamos - disse ele num tom glacial que, em certas ocasiões, lhe era peculiar — agora é a sua vez.
Aparentemente resignado, Vivinho deu de ombros e caminhou para a cadeira vazia. Dois minutos depois estava também devidamente amarrado e amordaçado entre seus capangas.
Zequinha e Teobaldo desceram do carro e caminharam para o portão.
- Estranho - comentou o primeiro - está aberto.
- O Vivinho sabia que a gente estava pra chegar e mandou abrir. Não falei que ele estava todo agitado ao telefone?
Cinco minutos depois, ainda atordoados, o bicheiro e o "negociante de terrenos e imóveis" já estavam fazendo companhia aos outros prisioneiros. Severino e Zé Augusto não tiveram a menor dificuldade em rendê- los e desarmá-los tão logo passaram pelo portão. O fator surpresa fora decisivo e os dois "chefões" não esboçaram qualquer resistência.
18
E agora estavam todos ali, na ampla e luxuosa sala-de-estar da mansão do traficante. Minhocão, Vivinho, Nené, Teobaldo e Zequinha, amordaçados e amarrados em cadeiras dispostas uma ao lado da outra. De frente para eles, o grupo dos seis. Os prisioneiros revelavam, nos olhos muito abertos e no suor que escorria pêlos rostos, o terror de que se achavam possuídos. Estavam lívidos, com exceção de Teobaldo, cuja face exibia uma coloração vermelho-arroxeada, dando a impressão de que iria arrebentar a qual- quer momento.
Ítalo olhou demoradamente para cada um deles. Depois cruzou os braços e começou a falar, destacando cada palavra como se dispusesse todo o tempo do mundo:
- Há muitos anos vocês três vêm mandando e desmandando na Rocinha e impedindo a união dos favelados. Divididos, eles são explorados mais facilmente, não é? - Nós - fez um gesto largo, abrangendo os companheiros - resolvemos acabar com isso. Um dia ia acontecer, forçosamente, algum acerto de contas... Mas foram vocês que escolheram o meio de fazer esse acerto: homicídio.
Ítalo descruzou os braços, acariciou a medalha de São Jorge e prosseguiu:
- Só escapei por milagre, seus canalhas. Tiro de escopeta não livra a cara de ninguém.
Minhocão começou a grunhir, abafado pela mordaça. Ítalo apontou o dedo para ele e exclamou, agora num tom mais alto:
- Por isso você também vai morrer!
Estas últimas palavras fizeram com que os rostos dos prisioneiros ficassem ainda mais lívidos e os olhos mais dilatados. Apenas Teobaldo reagiu diferente: a face arroxeou de vez, o corpo se sacudiu todo e a cabeça pendeu para a frente. António Maria foi até ele e empurrou-lhe o queixo para cima. Os olhos do homem estavam exageradamente arregalados, porém eram agora olhos desprovidos de vida. Tonho encostou o ouvido no peito de Teobaldo. Depois, virou-se para os companheiros e disse:
- Esse nos economizou uma bala.
Severino, meio perplexo, perguntou, com o sotaque nordestino mais carregado do que o habitual:
- Tá morto?
- Mortinho - respondeu Antônio Maria com desprezo - o coração não aguentou o cagaço; pifou.
Ítalo puxou Antônio Maria para um canto e murmurou:
- Vamos acabar logo com isso, Tonho. Apenas não estou certo se devemos liquidar também o tal de Nené. Não temos nada contra ele.
- Não tínhamos - contestou Antônio Maria, pragmático como sempre - mas agora temos. Não podemos deixar uma testemunha ocular. Além do mais, esse cara não é nenhuma flor que se cheire.
O outro ponderou por um breve instante. Depois deu de ombros e disse:
- Tem razão, execute todos eles.
Severino, Zuza e Zé Augusto trataram de ir saindo. Eram homens valentes, habituados à violência e não discordavam do que ia acontecer em seguida, mas não tinham muito estômago para execuções a sangue frio. Ítalo foi até a porta e ficou olhando para o portão, acariciando a medalha de São Jorge, um ar de tensa expectativa no semblante. Olímpio simplesmente veio postar-se a seu lado como se nada de excepcional fosse ocorrer. António Maria, com o rosto inexpressivo, tirou da cintura a pistola munida do silenciador e começou a caminhar lentamente em direção aos prisioneiros...
19
Pouco antes do amanhecer, Sebastiana, a empregada de Vivinho, conseguiu finalmente libertar-se das cordas. Correu para a sala e, deparando-se com os cinco homens mortos presos às cadeiras, desmaiou. Minutos depois recobrou os sentidos e saiu gritando histérica pelas ruas. Lá na Estrada da Gávea alguém a socorreu, e depois de ouvir o relato confuso da negrinha, foi até a mansão para ver o que de fato tinha acontecido. Viu e ligou para a polícia. Tavares e Moreira, os dois detetives de plantão na Delegacia da Gávea chegaram à casa do traficante lá pelas 7:00 horas, já encontrando dois PMs que mantinham uma multidão curiosa do lado de fora da propriedade. Logo depois apareceram os homens do Departamento de Homicídios. Aí, começaram as investigações. Em relação ao que teria ocorrido na mansão pela madrugada, não se encontrou ninguém que admitisse ter visto ou ouvido qualquer coisa. Sebastiana limitava-se a contar que alguém a atacara no escuro, amarrando-a e amordaçando-a sem que tivesse a chance de vislumbrar o atacante. Neuzinha informou ter passado por idêntica experiência e, após ver o corpo do amante ser levado pelo rabecão da polícia, teve uma crise nervosa e foi conduzida para uma clínica de recuperação.
A investigação apurou também que o barraco do Minhocão tivera a porta arrombada e que havia indícios que o sarará tinha sido arrancado de lá à força. Interrogados, os vizinhos disseram não terem ouvido ou visto nada. Como comentaria mais tarde o detetive Tavares: "Êta gente de sono pesado!". As diligências constataram ainda que. horas antes do momento em que se presumia tivesse ocorrido a chacina na mansão, alguém tentara alvejar Ítalo, disparando um tiro de escopeta através da janela da sua casa. O fato foi confirmado pelo líder favelado, o qual declarou não ter visto o atacante. Os policiais encontraram na sala as evidências do atentado e apuraram que na ocasião lá se encontravam, além da mãe e da avó adotiva de Ítalo, Zuza e António Maria. Instados a relatar suas atividades após o atentado, os três homens afirmaram ter dado uma volta de moto por uns quinze minutos, pelas redondezas, procurando alguma pista do atirador. Nada encontrando, voltaram à casa de Ítalo e lá permaneceram jogando cartas até o amanhecer. As duas senhoras confirmaram o depoimento deles. Depois os investigadores saíram à cata dos outros membros do grupo dos seis. Olímpio, Zé Augusto e Severino afirmaram não ter saído de seus lares após a meia-noite. Os vizinhos, também inquiridos, nada disseram que os contradissessem.
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À noite saíram os laudos cadavéricos: Teobaldo havia morrido "em consequência de hemorragia cerebral maciça por rutura da artéria cerebral média direita". A "causa-mortis" foi a mesma para os outros quatro: "Ferimento perfurante na região ocipital por projétil de arma de fogo. Morte devida à extensa destruição do tecido cerebral". O serviço de balística informava, pouco depois, que os tiros foram dados por uma pistola de 9mm, a qual possivelmente estava adaptada um silenciador. De manhã, no dia seguinte, na Delegacia da Gávea, Fernando Ribeiro contemplava com ar aborrecido os quatro detetives à sua frente. Sobre a mesa, os jornais mostravam as manchetes: "Chacina na Rocinha". "Massacre na Mansão do Traficante Deixa Cinco Mortos". "A Polícia ainda Sem Pistas para Deslindar os Crimes".
Fernando havia assumido o posto de Delegado Titular dois meses antes, mas, como já havia trabalhado naquela jurisdição, estava bem a par da luta de bastidores entre os líderes da favela. Conquanto ao Depar- tamento Especial de Homicídios coubesse a responsabilidade última na elucidação dos crimes, o próprio Secretário de Segurança determinara que ele, Fernando, assumisse a direção das investigações. O delegado acendeu um cigarro, apontou para as manchetes e disse, contrariado:
- Cinco corpos. Quatro assassinados com tiro na nuca e um morto de apoplexia. E duas mulheres presas em suas camas. Todos amarrados e amordaçados. E, quando dos interrogatórios, ninguém viu ou ouviu coisa alguma.
Fernando virou-se para Moreira e perguntou: - O que dizem seus alcagüetes? Quais os rumores que correm peia favela?
O detetive alisou o bigode antes de responder:
- O que era de se esperar. Abertamente, ninguém se atreve a acusar o Ítalo. Fazem questão de dizer, em alto e bom som, que o assassinato na mansão foi trabalho de fora. Mas, à boca pequena, a conversa é outra: todo mundo está convencido que o grupo dos seis fez o serviço para vingar o atentado contra Ítalo, atentado este que teria sido praticado pelo Minhocão por ordem dos três "chefões".
- Acho que ninguém aqui também duvida que o atentado contra o Ítalo e a matança da mansão são dois acontecimentos interligados - afirmou Fernando.
- É como somar dois e dois - filosofou Tavares.
- E vocês do Departamento de Homicídios, o que acham? - indagou o delegado, dirigindo-se a um homenzinho cujo rosto lembrava uma coruja.
Avelino, assim se chamava o detetive, respondeu numa voz ligeiramente anasalada:
- Foi um crime meticulosamente planejado e com todas as características de vingança. O detalhe do tiro na nuca sugere um "ato de execução". Como disse aí o colega, é somar dois e dois.
- Então vocês também estão convencidos que foi mesmo o Ítalo?
- Sim - confirmou Avelino - mas até agora não dispomos de nenhuma prova que permita uma acusação formal contra ele e seus comparsas.
- Ítalo tem um álibi confirmado pela mãe e a avó - lembrou Tavares - e segundo o depoimento que prestaram, os três homens estiveram ausentes apenas durante quinze minutos. Assim, não teriam tido tempo suficiente para praticar os crimes.
- Estou certo que estão todos mentindo - afirmou Avelino, - não só o pessoal do Ítalo, mas a favela inteira.
- Sabemos disso - retrucou Moreira. - mas como provar?
Fernando levantou-se e começou a folhear distraidamente as páginas de um dos jornais. - Bem, - disse ele - o que se poderia esperar daquela gente? Com a eliminação dos três "chefões", o grupo dos seis passa a dar as ordens na Rocinha. Somente um imbecil iria denunciá-los e correr o risco de represálias, apenas para incriminar alguém que, afinal de contas, livrou os favelados de cinco marginais temidos e odiados por todos eles. Milonga, o mais jovem dos detetives presentes e que fora recém-transferido para aquela Delegacia, perguntou:
- E se prendêssemos o Ítalo e déssemos um bom aperto nele?
Fernando sorriu, condescendente.
- Está se vendo que você não conhece o homem. Ele é duro de roer. Não confessaria nada. E, sem provas, qualquer advogado de meia-tigela conseguiria soltá-lo em menos de 24 horas.
O delegado deu de ombros e voltou a sentar-se.
- Não - prosseguiu ele - a menos que surja algum fato novo, o que duvido, esse caso vai acabar sendo rotulado como mais um daqueles homicídios praticados por elementos não identificados. Aguardaremos mais uma semana e, se até lá não acontecer um milagre, vou sugerir ao Secretário o arquivamento do caso.
Fazendo um gesto vago com a mão, Fernando concluiu:
- No fundo, no fundo, não perdemos nada. Com a morte desses cinco, vamos ter menos problemas na Rocinha.
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Sete dias depois, como o delegado havia previsto, o caso da "chacina da mansão" foi oficialmente arquivado.
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Se a população da Rocinha já vinha antes mostrando uma tendência em preferir uma única Associação, essa preferência se acentuou depois da eliminação dos três "chefões". A prova disso foi o resultado do plebiscito: 86 % a favor da unificação. Com a morte de Teobaldo, a chapa encabeçada por Natalino concorreu sozinha, obtendo uma esmagadora votação. A posse da diretoria da União dos Moradores da Rocinha (UMR) foi marcada para cinco dias após a apuração do pleito. Mas a emoção da vitória foi demais para o coração cansado do velho Natalino e ele morreu, durante o sono, na antevéspera de ser empossado, tendo sido enterrado com todas as honrarias e demonstrações de apreço a que fazia jus: os blocos e a Escola de Samba da favela compareceram ao cemitério de Irajá e ele baixou à sepultura ao som das baterias, o caixão coberto com a bandeira do Flamengo do qual havia sido fanático torcedor.
E, em obediência ao regulamento que regia o processo eleitoral e ao regimento da entidade. Ítalo tornou-se o novo presidente da UMR, passando António Maria a ocupar a vice-presidência. O grupo dos seis chegava assim ao poder na maior favela do Rio de Janeiro, com seus dois líderes dispostos a cumprir a principal promessa feita durante a campanha pelas eleições: obter das autoridades competentes espaço para a construção de milhares de novas moradias. Era o "LEBENSRAUM" da Rocinha.
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A sede da entidade situava-se no prédio que abrigara, no passado, a Escola Paula Brito, a qual, dois anos antes, tinha sido transferida para instalações mais amplas e adequadas, no alto da Estrada da Gávea. E foi naquele local, no dia seguinte à posse, que ítalo se reuniu com a diretoria e com o Dr. Edgar Soares, um velho advogado que há muito tempo funcionava como uma espécie de consultor jurídico das Associações de Moradores. Elaboraram um documento a ser encaminhado ao Prefeito da cidade, no qual se expunha a crise habitacional na favela-bairro e se solicitava a cessão de uma área de 600.000 m2 no morro do Laboriaux para a construção de 15.000 moradias a serem financiadas pela Caixa Econômica Federal.
- Já não há lugar pra mais nada - comentou Ítalo enquanto assinava o documento. - Sem esse espaço a vida aqui vai virar um verdadeiro inferno. Acaba explodindo.
- E se não atenderam a solicitação? - perguntou António Maria.
O líder do grupo dos seis alongou a vista para um ponto distante, indefinido. Em seu olhar havia agora um brilho diferente: o brilho do poder.
- Nesse caso - disse ele, num tom firme mas sem afetação - a gente pensa noutro jeito de arrumar o espaço. A Rocinha tem 400.000 pessoas e agora tem também uma liderança pra valer. Já imaginou a força que isso representa, Tonho? Se não nos dão legalmente o direito de viver com um mínimo de dignidade, então vamos conseguir na astúcia ou na marra.
Antônio Maria limitou-se a sorrir. O que acabava de ouvir ajustava-se perfeitamente à sua maneira de pensar.
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Naquela mesma noite, na casa de Ítalo, enquanto tomavam cerveja, Antônio Maria apresentou ao amigo a seguinte sugestão:
- Você não acha que seria bom a gente arrumar algum outro lugar mais reservado, fora da sede da União?
Ítalo encarou o companheiro.
- Explica melhor, Tonho.
- Hoje você falou que, se recusarem nosso pedido, vamos tentar resolver na astúcia ou na marra, lembra? Isso pode significar muitas coisas, Ítalo. A gente talvez precise de um local discreto, pra reunir nosso grupo s fim de traçar certos planos, sem chamar a atenção, traçar planos... e, quem sabe, até mesmo pra esconder algumas armas. Mais vale prevenir, não acha?
Ítalo ficou pensativo por algum tempo e depois disse:
- Tem razão, Tonho. A coisa pode chegar a um ponto em que tudo pode acontecer. E penso que sei qual o lugar ideal pra o que você sugere.
- Onde?
- A mansão do Vivinho, a "fortaleza".
- Seria perfeito — concordou Tonho - mas como e que a gente pode conseguir?
Ítalo bebeu um largo gole, removeu a espuma da boca com as costas da mão e respondeu:
- Andei sabendo pelo Dr. Edgar que o Vivinho tinha título de propriedade da mansão. E tudo que ele possuía ficou pra mulher, uma tal de D. Rita. Não viviam mais juntos mas ainda estavam casados. Quem sabe ela não aluga a "fortaleza" pra gente?
- É uma boa.
- O Dr. Edgar conhece bem a mulher. Vou amanhã falar com ele.
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A mansão foi alugada dez dias depois. Olímpio foi instalado na residência e três rapazes da confiança de Tonho - que já andava recrutando certo tipo de pessoal - foram contratados para tomar conta da "fortaleza". Como disfarce, colocaram uma placa enorme junto ao portão com os dizeres: "CENTRO COMUNITÁRIO - BIBLIOTECA" e. do lado, uma outra menor, onde se lia: "EM OBRAS".
Ítalo e Antônio Maria começavam a pôr em prálica o que seria uma das principais táticas que empregariam no futuro: a dissimulação.
21
Cinco dias após a posse de Ítalo, os novos governantes da Rocinha começaram a adotaram algumas medidas práticas e objetivas que viriam repercutiu positivamente e aumentar, ainda mais, a gratidão e a confiança que os favelados depositavam em Ítalo e em seus colaboradores:
Todos os aluguéis ou prestações devidas por moradores da favela e que Teobaldo recolhia em nome da UMR e embolsava, foram canceladas. Agora, cada um era dono "quitado" da sua moradia.
Os pontos de de jogo do bicho, anteriormente controlados por Zequinha passaram ao controle de Zé Augusto e 50% do lucro obtido, em cada mes. passaria a um fundo destinado a atender às necessidades dos moradores de menor renda, sempre que tais necessidades fossem devidamente comprovadas.
Antônio Maria convocou a sua presença Pedro Oliveira, o "Cävadinho", um mulato alto e magro, na casa dos quarenta, com o rosto todo marcado por "bexiga" - daí o apelido - e que vinha sendo, há anos, o "gerente" de Vivinho na compra, venda e distribuição de drogas na favela e em vários bairros da zona sul. Conversaram à portas fechadas por mais de uma hora. No final, várias decisões foram acertadas: "Cavadinho"continuaria a frente dos negócios relacionados com o narcotráfico e prestaria contas exclusivamente ao Tonho. A "turma" da Rocinha continuaria distante e neutra em relação às disputas e lutas entre as outras quadrilhas existentes na cidade. Qualquer grupo de fora que tentasse estabelecer pontos de drogas na favela seria imediatamente exterminado. E que 20% dos lucros auferidos seriam entregues à UMR para ações de caráter social.
O grupo dos seis se firmava, assim, como uma sólida liderança, não só pelos votos recebidos na eleição mas, principalmente, pelas medidas que tomava em favor da população favelada.
22
Trinta e dois dias após a solicitação de Ítalo às autoridades municipais, Edgar apareceu na sede da Associação, no início da tarde, trazendo a resposta. Ela veio sob a forma de um ofício, dirigido ao Presidente da UMR, que dizia:
"Rio de Janeiro, 22 de dezembro de 200_
Ilmo Sr. Presidente da UMR:
Em nome do Sr. Prefeito, comunico a V. Sa. a impossibilidade do Município atender à reivindicação da União dos Moradores da Rocinha referente à cessão de uma área do morro do Laboriaux para os fins explicitados em documento datado de 20 de novembro próximo passado. Não obstante, consciente do problema habitacional da Rocinha, o Sr. Prefeito obteve do Sr. Governador a promessa da cessão de uma área de 900,000 metros quadrados, pertencente ao Estado, na região da Baixada, para a construção em três anos, pela Caixa Económica Federal, de 20,000 moradias. Isto permitirá a remoção de um número equivalente de famílias da Rocinha, com o que obter-se-á o desafogo demográfico solicitado pela sua entidade.
Aguardamos a anuência de V. Sa. a fim de desenvolvermos os estudos para a pronta viabilização do projeto.
Atenciosamente,
Luís Carlos Ladanho
Chefe de Gabinete Prefeitura do Município do Rio de Janeiro"
Ítalo acabou de ler o documento e atirou-o bruscamente sobre a mesa. Edgar movia-se inquieto na cadeira, talvez contrafeito por ter sido o portador da desagradável notícia.
- Recusaram, não foi? - indagou António Maria, a mão repousando de leve sobre o ombro do velho advogado.
Ítalo empurrou o papel.
- Leia você mesmo.
Tonho apanhou o documento e leu. Ao terminar, comentou friamente:
- Já esperava por isso.
- Pois é - disse Ítalo, que não compartilhava da tranquilidade do seu lugar-tenente. - São mesmo uns corruptos, filhos da puta.
Ítalo ergueu-se e caminhou para a porta.
- Vou dar uma volta por aí pra esfriar a cabeça - anunciou ele e saiu.
Pegou a moto e partiu para a Estrada da Gávea. Parou lá em cima no Laboriaux, num local ermo, não muito longe da "fortaleza", de onde podia visualizar os edifícios de São Conrado e, mais além, o azul-esverdeado do Atlântico. Contemplou a floresta ao seu redor. Uma área de cerca de 100.00 m2 já estava ocupada, desde os anos 80, por favelados removidos do Campo do Esperança. Estender essa ocupação seria uma decorrência lógica e natural. Ao contrário, o deslocamento de 20.000 famílias para um local longínquo constituiria uma violência. Num sentido figurado, seria o mesmo que desmembrar um corpo, uma espécie de esquartejamento e isso era inaceitável. Recu- saria a contra-proposta da Prefeitura. Afinal de contas, havia lutado para unificar a Rocinha, transformando-a numa grande comunidade e não poderia permitir que sua gente se dispersasse. Mas isso não bastava. Tinha prometido que se a solicitação não fosse atendida, iria conseguir seu objetivo "na astúcia ou na marra". Mas como concretizar a promessa? Precisava de algum trunfo para negociar, algo a oferecer em troca do morro do Laboriaux.
Ouviu um estrondo vindo do alto e ergueu os olhos para o céu. Um enorme jato de passageiros havia decolado do Aeroporto Internacional e ganhava altura rapidamente, movido por suas potentes turbinas. A visão da aeronave deflagrou um inesperado mecanismo de associação, fazendo brotar, dos recônditos do subconsciente, um mosaico de ideias fragmentadas que logo o consciente começou a arrumar sob a forma de pensamento. E, então, Ítalo lembrou-se das histórias de sequestros de aviões, raros hoje, mas tão frequentes no passado e cujas insólitas cenas o telejornalismo havia fixado na sua memória infantil. Eram atos de terrorismo em que, às vezes, um único indivíduo assumia o controle do aparellio e usava passageiros, tripulantes e a própria aeronave como reténs para negociar; em troca de alguma coisa. E aí veio o "estalo": sequestro ! Os olhos do líder favelado voltaram-se de novo para São Conrado e ele ficou meditando por umt empo muito, muito longo. Já começava a escurecer quando subiu na moto c voltou para casa.
António Maria esperava-o no portão.
- Foi ótimo você estar aqui - disse Ítalo, o rosto afogueado pela excitação. - Vamos lá pra dentro, tenho um assunto importante pra gente conversar.
*
- Sequestrar São Conrado? - indagou António Maria incrédulo. - O que é que você andou bebendo?
Ítalo não sorriu.
- Estou falando serio, Tonho.
- Mas como? Você simplesmente não pode pegar o lugar e levar ele pra longe daqui.
- Correto - admitiu o outro. - Mas se a gente isola São Conrado, ocupa o bairro e usa a população e todas aquelas casas luxuosas, hotéis e "shopping-centcrs" como reféns, então vamos ter nas mãos alguma coisa pra negociar com o Governo, em troca do Laboriaux.
Os olhos frios de António Maria fitaram o amigo, sondando-lhe a fisionomia.
- Você está mesmo falando pra valer, não está?
- Estou. Pensei nisso a tarde toda.. Pode ser feito, Tonho.
Antônio Maria sentou-se no sofá, acendeu um cigarro e ficou meditando, Ítalo foi até a geladeira, encheu um copo d'água e bebeu sofregamente. Premaneceram calados por alguns minutos. Então Tonho rompeu o silêncio:
- Talvez você tenha ra/ão - disse ele. agora serenamente, já refeito da surpresa. - Mas vai ter de ser uma coisa muito bem planejada ou vamos todos pras profundas dos infernos.
Ítalo assentiu com a cabeça. O brilho no seu olhar denotava a ansiedade de que se achava possuído.
- Venha - convidou ele. - Vamos dar uma volta de moto por São Conrado. Quero ver bem os pontos de acesso ao bairro. Depois a gente senta e planeja com calma a coisa toda.
O outro pareceu ainda hesitar, mas Ítalo insistiu:
- Tonho, nós assumimos o compromisso de conseguir aquela área do Laboriaux e eu estou disposto a tudo pra cumprir a promessa - encarou o amigo e perguntou num tom de desafio: - Será que vou ter de entrar nessa sozinho?
Antônio Maria sustentou o olhar e o repto.
- Não - respondeu com determinação. - Nós estamos nesse negócio juntos e ficamos juntos até o fim... qualquer que seja ele.
Em seguida, pôs a mão no ombro de Ítalo e concluiu:
- Vamos lá, irmão, vamos examinar o nosso futuro campo de operações.
23
Durante as quatro noites que se seguiram, Ítalo e Tonho atravessaram a madrugada debatendo, vendo e revendo o plano para a futura ocupação de São Conrado, com uma meticulosidade e senso de antecipação impressionantes. "Experts" em logística e estrategistas militares talvez não se tivessem mostrado mais inspirados. Era um plano ao mesmo tempo simples e ambicioso, que compreendia um longo período de preparo, na verdade uma prolongada fase de dissimulação. Lento no início, o processo se acelerava progressivamente, à medida que atingia suas etapas derradeiras. No todo ele abrangeria um período de cerca de três anos. Não é possível descrevê- lo em todas as suas minúcias, ainda mais porque nunca se encontrou documento algum a respeito (mas alguma coisa deve ter sido ao menos colocada no papel). O plano foi reconstituído a partir de informações obtidas de alguns dos homens que ajudaram Ítalo e António Maria a desenvolverem a ideia que haviam concebido.
Mas, em sua essência, ele pode ser apresentado da seguinte forma:
OPERAÇÃO IGUALDADE
O plano compreendia quatro etapas:
la - Obtenção de rccursos - O método mais simples, conquanto perigoso, seria o assalto a um banco.
2a - Seleção dos locais para as reuniões dos grupos que participarão da execução do plano - foram selecionados escolas, centros comunitários e clubes recreativos espalhados por toda a favela, para evitar grandes concentrações em um só lugar, o que poderia levantar suspeitas e comentários.
3a - Treinamento do pessoal (para, no devido momento, cumprirem as seguintes tarefas):
1) Bloqueio das vias de acesso a São Conrado; 2) Tomada de assalto do Posto Policial daquele bairro; 3) Corte dos cabos telefónicos da área e bloqueio dos demais meios de comunicação dos moradores de São Conrado com o exterior; 4) Colocação de explosivos em locais chaves como hotéis, super mercados, "shopping-centers" e usinas de luz e força.
4a - Aquisição de material necessário à execução da operação:
1) Motocicletas - Esses veículos são considerados essenciais para uso durante a operação, pela sua grande maneabilidade; 2) Aparelhos de comunicação individual (minitransmissores do tipo "walkie-talkie") e um rádio receptor-transmissor de alta potência, para constituir um sistema integrado de comunicação, a fim de sincronizar as atividades das diversas unidades, durante as fases de invasão e ocupação de São Conrado.
Após reler, pela enésima vez, o plano que haviam elaborado, António Maria dirigiu a Ítalo o seguinte comentário:
- É uma senhora cartada, meu amigo!
O outro concordou:
- Eu sei, Tonho, mas é a única de que dispomos. Se não colocarmos todos os trunfos na mesa de uma só vez, eles vêm em cima da gente e nos devoram. É tudo ou nada.
24
Numa noite, um mês após a elaboração do plano da futura Operação Igualdade, Antônio Maria foi, novamente, à casa de Ítalo. Sentaram-se na sala e após Nair ter-lhes servido um cafezinho e os deixado a sós, puseram-se a conversar. Tonho informou ao amigo ter surgido a oportunidade. ansiosamente aguardada, de levarem a cabo, com grande chance de sucesso, o assalto a uma agência bancária a fim de conseguirem os recursos necessários à Operação. Através de um ex-companheiro dos tempos de penitenciária, Antônio Maria travara conhecimento com um guarda da agência de Ipanema do Consórcio Bancário Unibrasco, organização resultante recente da fusão do Bradesco com o Unibanco. Geraldo, assim se chamava o rapaz, fazia parte da equipe que respondia pela segurança da caixa-forte e trabalhava em dias alternados, no turno das 10:00 às 16:00 horas. Sucedia que Geraldo parecia estar em sérias dificuldades finan- ceiras - dívidas de jogo - e a honestidade não era um dos traços marcantes da sua personalidade. Cuidadosamente, Tonho havia feito algumas sondagens, depois insinuações, que evoluíram para promessas e terminaram num compromisso: em troca de informações e certa dose de colaboração, Geraldo receberia uma razoável quantia.
E, assim, Antônio Maria ficou sabendo que os cofres da caixa-forte abriam e fechavam automaticamente, através de um sistema eletrónico e que o horário e o tempo do processo variavam, à cada dia, segundo uma programação predeterminada. Soube também que no dia 27 de cada mês um dos cofres permanecia aberto das 10:00 as 10:40 horas para a retirada de dinheiro, a ser logo depois transportado. em carro blindado, para uma importante organização do mercado de capitais.
Adicionalmente, Tonho tomou conhecimento que, nesse dia, o cofre costumava conter cerca de 400,000 reais, uma quantia certamente apreciável. O suficiente, pensou ele, para atender às despesas previstas no planejamento da Operação Igualdade. Conquanto o dinheiro somente deveria vir a ser usado bem mais tarde - 2 a 3 anos - a atual estabilidade financeira do país, rigidamente controlada pelo novo modelo econômico, não fazia prever que ele viesse a sofrer nenhuma desvalorização significativa. Por último, ainda segundo o Geraldo, no dia e horário mencionados, só estariam na agência bancária, além dos eventuais clientes, nove funcionários, o gerente e ele próprio. Apenas lá pelas 10:40 horas, quando chegava o carro blindado, a guarda seria reforçada com mais três ou quatro patrulheiros. Assim o assalto, se realizado entre as 10:00 e 10:30 horas, teria grandes probabilidades de êxito.
Obviamente, Geraldo, "tomado de surpresa", não ofereceria resistência a três homens armados, ainda mais porque, no momento do assalto, ele se encontraria, "por infeliz coincidência", fora da cabine de segurança. Afinal de contas, as exigências de certas funções fisiológicas não poderiam ser adequadamente atendidas dentro da referida cabine. Ele disse também que, provavelmente, conseguiria desligar o sistema de alarme, tão logo os assaltantes entrassem na agência.
E assim, satisfeito com as demarches até agora realizadas, Tonho levou a ideia a Ítalo naquela noite de 23 de janeiro.
- Então, o que acha? - indagou ele, terminada a explicação.
- Se as coisas são como esse tal de Geraldo diz e se ele vai mesmo topar, acho que dará certo - respondeu Ítalo.
- Ele topa - falou António Maria com convicção. - O homem está necessitando de dinheiro e entra na jogada desde que as coisas sejam feitas sem despertar suspeitas contra ele.
Ítalo soltou uma risada marota.
- Isso é fácil. É só na hora alguém dar uma coronhada na cabeça dele. Assim ninguém vai responsabilizar o coitado por não ter reagido.
- Não creio que o Geraldo vá gostar da ideia - retrucou Tonho. sorrindo pelos cantos da boca - mas, se é para o bem dele só tem mesmo é que ficar agradecido.
- Você acha que dá tempo da gente preparar tudo para agir logo nesse próximo dia 27?
- Daqui a quatro dias - Antônio Maria passou a mão pela testa, pensativo - talvez. Vamos tentar?
Ítalo assentiu. Tonho estendeu duas folhas de papel sobre a mesa: uma era uma planta interna da agência bancária, fornecida pelo Geraldo e a outra uma página do Guia de Ruas da Cidade, focalizando a área em que se situava a agência. Debruçaram-se sobre os papéis e discutiram durante quase uma hora. No fim, um esquema havia sido montado. Ficou logo acertado que nenhum dos dois participaria do assalto. Ocupando cargos relevantes na Associação dos Moradores, Ítalo e Antônio Maria não poderiam se expor. Se fossem apanhados em tal delito, isso poderia representar o fim da entidade. A consequência seria também o fim de uma Rocinha unificada e a favela voltaria a ser um conjunto de bairros desarticulados entre si e sujeitos às influências de demagogos e aproveitadores de toda a sorte. Tal qual no passado. Mas também não poderiam confiar a tarefa à gente de fora. Assim, algum risco teria de ser corrido. Decidiram então que o assalto ficaria a cargo dos outros quatro membros do grupo dos seis. Definiram ainda que o dinheiro roubado seria escondido sob o chão da cozinha da "fortaleza".
- A gente prepara o lugar em dois dias - disse Ítalo, confiante. - As notas ficam em sacos plásticos por causa da umidade. Recolocado o piso dá um esconderijo perfeito. O que acha?
Antônio Maria concordou e completou:
- Otimo. E que tal mandar o Zé Augusto liderar o assalto?
- De acordo. Ele é o mais sensato de todos. O Olímpio e o Zuza cuidam da cobertura armada e o Severino guia os carros que forem usados na operação.
Tonho assentiu e arrematou:
- Roubaremos um carro na madrugada do dia 27 - fez uma pausa e sorriu. - O Zuza é bom nisso. Trocam as placas e, chegada a hora, estacionam aqui - apontou para um local no mapa que correspondia a uma esquina a meio quarteirão da agência bancária.
Depois do assalto - prosseguiu o Tonho - seguem até a Praça Santos Dumont. E aí, se a "barra" estiver limpa, trocam de placas de novo e vão direto prô Laboriaux. Ou então passam pra uma Minivan que uma amiga minha vai nos emprestar. No dia, lá pelas 10:00 horas, eu deixo a Van em frente ao Jóquei Club. A decisão de seguir direto ou mudar de carro fica por conta do Zé.
- Perfeito - concordou ítalo, satisfeito com a meticulosidade demonstrada pelo outro. - Agora, é preciso que eles não se esqueçam de usar luvas e capuzes assim que entrarem no Banco.E, fora a tal coronhada no Geraldo, nada de violências.
- É bom deixar isso bem claro com o Olímpio e o Zuza - advertiu Tonho - os dois adoram arranjar encrenca.
- Eu falo com eles.
- E é melhor encarregar o Zé Augusto de cuidar do Geraldo - aconselhou Tonho. - Se deixar por conta dos outros, quebram de vez a cabeça do coitado.
Ítalo soltou uma leve gargalhada, foi até a porta da cozinha e chamou por D. Nair.
- Mãe - pediu ele - será que a senhora arruma duas cervejas pra gente?
E voltando-se para o amigo:
- Então amanhã de noite a gente se reúne aqui como resto do pessoal e traça o plano definitivo. Depois você acerta os detalhes com o Geraldo e, se ele topar, vamos pegar o dinheiro no dia 27.
Nair trouxe a cerveja, estalando de gelada, e se retirou. Os dois homens beberam com visível satisfação. De súbito. Ítalo franziu a testa como se um pensamento preocupante lhe houvesse ocorrido.
- Escute, Tonho, o que é que esse Geraldo sabe a seu respeito?
Antônio Maria depositou o copo sobre a mesa e respondeu, como quem reage a uma ofensa não intencionada, num tom meio hostil e meio condescendente:
- Há quanto tempo você me conhece, ítalo? É claro que ele não sabe nada a meu respeito. Mas a história que contei deixou o cara convencido que eu faço parte de alguma quadrilha de assaltantes do morro do Cantagalo.Ïtalo olhou de banda para o outro, encabulado.
- Desculpe, irmão - disse ele tocando de leve no braço de Tonho - foi bobagem minha.
O rosto de António Maria desanuviou. Eles tornaram a encher os copos e ergueram um brinde ao sucesso e ao futuro.
25
Erich Steiner desembarcou no Novo Mundo quatro anos após o armistício de 1918. De uma rica família da Pomerânia, chegou ainda a participar dos últimos combates do fronï ocidental, como cadete do 4" Batalhão de Granadeiros da Pràssia Oriental. Inconformado com o colapso do Império do Kaiser e antecipando tempos humilhantes para a Alemanha, decidiu, aos 22 anos de idade, emigrar para bem longe. Com a bênção e compreensão dos pais partiu para o sul do Brasil onde, desde o final do século XIX, a imigração germânica vinha florescendo. Além de uma pequena fortuna em moedas de ouro e bastante talento e disposição, Erich trouxe também consigo a herança de várias gerações de arrogância prussiana.
De início, instalou-se com um tio, o qual havia se tornado, em menos de duas décadas, de simples colono a proprietário de uma enorme fazenda, no norte do Rio Grande do Sul. Erich começou a adquirir terras e a cultivá-las; depois montou uma cervejaria e foi prosperando. No verão de 1938 casou-se com a filha de um casal de imigrantes bávaros, uma bonita moça chamada Ilse, cujos olhos azuis e louros cabelos, longos e trançados, evocavam a lembrança das lendárias Valquírias. E os negócios continuaram a prosperar. A ambição de Erich abrira um vasto leque de atividades: criação de gado. plantações de trigo, indústria de cerâmica e fábrica de bebidas. Tornou-se ainda proprietário de alguns prédios na então incipiente Florianópolis e de vastas áreas de terra no litoral sul de Santa Catarina.
Quando eclodiu a IIa Guerra Mundial, em setembro de 1939. Erich já era senhor de um pequeno império. Não obstante, na ocasião, chegou a considerar a possibilidade de se desfazer de tudo e regressar à pátria. Aos 40 anos, forte e vigoroso, sentiu reacender o fogo bélico de seus teutônicos ancestrais. Imaginava a Alemanha marchando para gloriosas e permanentes conquistas. Vingando-se das humilhações impostas pelo Tratado de Versalhes. Mas, por outro lado, a ideia de vir a servir sob as ordens de um cabo austríaco, ex-pintor de paredes, não condizia com a sua sensibilidade aristocrática. E vacilava. Um acontecimento de natureza familiar, entretanto, foi decisivo para que Erich desistisse de voltar à Europa: Ilse engravidara e o tão ansiosamente esperado herdeiro - sim, porque ele não podia sequer admitir a hipótese de que nascesse uma menina - estava a caminho, para assegurar a continuidade da clã dos Steiners. E a mulher mantivera-se irredutível: não iria se arriscar a criar o primeiro filho (ou filha) num clima de guerra. E assim ficaram.
No dia 16 de abril de 1943, Ilse deu à luz a um saudável menino que recebeu o nome de Marcos Fábio. Em agosto de 1942 o Brasil declarou guerra às potências do "Eixo", o que criou no país um clima de antipatia, quando não de hostilidade, contra os residentes alemães. Não obstante, Erich conseguiu manter-se à tona durante o curto período da tormenta e seus negócios não chegaram a ser prejudicados. A guerra acabou, a antipatia cessou, a prosperidade evoluiu e Marcos Fábio foi crescendo. E à medida que os anos passavam, ele ia revelando certos traços marcantes da personalidade paterna: auto-disciplina, arrogância, orgulho e uma inequívoca paixão pelas artes bélicas, características essas que Ilse nunca logrou modificar. Dela, o filho herdara apenas os olhos muito azuis...
Na década de sessenta, Marcos Fábio ingressou na Academia da Força Aérea. Com a morte dos pais, no início da década de 70, ele entregou a um primo, sobrinho de sua mãe, a incumbência de gerir o império que havia herdado. Assim, continuaria a beneficiar-se dos lucros auferidos, sem permitir que os negócios desviassem sua total atenção, concentrada na carreira militar. Aos 38 anos, já major, assumiu o comando de uma esquadrilha de Mirages em Anápolis. Foi quando conheceu, namorou e casou com Helena Lenègre, uma neta de franceses pelo lado paterno, pertencente a tradicional família goianense. Um casamento ideal para Steiner. Helena era uma mulher atraente, bonita e de natureza conservadora. Ela soube criar a harmonia doméstica de que tanto o marido necessitava para recarregar-se cmocionalmente. Sim, porque aquele homem de olhar frio, magro e empertigado, ia se revelando um dos mais ambiciosos oficiais da FAB. E a ambição é sempre um processo desgastante que exige hiatos de tranquilidade, senão o estresse contínuo acaba deixando o ambicioso prostrado no meio do caminho! Assim, o lar dos Steiners tinha de ser um relicário sereno e repousante. Mas como a vocação de Marcos para o absolutismo não ficava do lado de fora da soleira da casa,
Helena teve aos poucos de renunciar a muitas de suas próprias ambições e convicções, para evitar confrontos. Ao fim de certo tempo, ele fixava as regras do convívio e ela as aceitava. Mas, por trás dessa docilidade, havia em Helena uma imensa força interior, dessas que se revelam nos momentos difíceis e sustentam paredes contra rajadas dos furacões da vida enquanto tudo desaba ao derredor. E Steiner sabia disso e por isso a respeitava. Como também tinha a consciência de que a esposa fazia concessões por amor e compreensão, não por subserviência. Helena era, na realidade, o ponto de equilíbrio da sua existência, a guardiã do santuário do guerreiro.
Em março de 1984 nasceu a única filha do casal: Erika. A escolha do nome tinha sido uma reverência à memória do pai, mas ao fazê- la, Steiner não imaginou que a filha herdaria também o espírito aventureiro, a obstinação e o sentimento independente do avô e ele nunca encontraria nela a docilidade complacente de Helena. E, como o pai, Erika era dona de uma férrea força de vontade.
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A carreira de Marcos Fábio Steiner foi esfusiante: coronel aos 44 anos, teve a honra de ser um dos primeiros oficiais a pilotar os novos jatos AMX da Embraer. Na década de 90 foi promovido a general-brigadeiro, e os anos que se seguiram foram os mais profícuos de sua vida profissional. Depois de Comandante da Academia da Força Aérea, liderou o Io Esquadrão de Caças de Interceptação e Ataque, os famosos Arapongas, orgulho da indústria bélica nacional. Em seguida criou os Esquadrões de Helicópteros de Combate que vieram dar uma nova dimensão tática ao poder aéreo brasileiro. Estrategista brilhante e eficiente organizador, Steiner gozava da admiração e respeito dos seus pares. Duro, arrogante, colocava o dever e a disciplina acima de tudo, mas nunca lhe faltava uma palavra de conforto ou um gesto de apoio para um subordinado que dele necessitasse. Por isso, inspirava em seus comandados emoções que iam do temor à dedicação e lealdade. E finalmente, nos primeiro anos da década de 2000, Marcos Fábio recebeu a quarta estrela e a chefia do III COMAR (Comando Aéreo Regional).
**
E assim era, na época, a família Steiner: um austero, competente e arrogante brigadeiro, uma esposa aristocrata, reservada e bonita, e uma filha, rebelde e independente, cujas ideias muito próprias sobre a vida nada tinham em comum com os preconceitos do pai ou com os valores conservadores da mãe. E, desde a adolescência, a rebeldia de Erika se atritava com o autoritarismo de Marcos Fábio, enquanto Helena interpunha-se entre eles e, com sutilexa e habilidade, ia mantendo a paz e a tranquilidade do seu lar.
***
A casa de dois andares, uma das poucas ainda existentes no bairro do Leblon, era o reflexo do tradicionalismo dos Steiners. Tudo ali, com uma única exceção, fazia lembrar os idos serenos dos anos cinquenta: os móveis coloniais, os lustres de cristal, os quadros de artistas clássicos, o jardim bem cuidado em que predominavam as rosas, a pequena biblioteca... A exceção, evidentemente, era o quarto de Erika. Ali nada recor- dava o passado: desde a cama de acrílico com colchão de espuma siliconizada, até o videocomputador tridimensional, passando pelo microtelefone sem fio e pelo papel de parede, cuja tinta especial de fosfotungstênio fazia com que mudasse de cor conforme as oscilações da temperatura ambiental.
Naquela manhã de 27 de janeiro de 200_, enquanto o brigadeiro e a mulher atendiam ao desjejum, Erika, ainda deitada, conversava com sua prima Eliana. Tinham ido a uma festa na noite anterior e agora teciam comentários sobre o evento.
26
Embora amigas desde a infância, as duas primas se diferenciavam como água do vinho. Formada em Programação Visual, dona de uma prodigiosa memória, Eliana era, aos vinte e dois anos, uma jovem sofisticada que não chegava a ser bonita, mas possuía traços fisionómicos harmoniosos e um corpo desejável. Preconceituosa, mundana por natureza e profissão, volúvel, cultivava a luxúria, os relacionamentos superficiais e os prazeres fáceis, sempre compartilhados com parceiros das "altas rodas". Erika, na véspera dos seus vinte anos, era uma moça atraente, esguia, com o porte elegante dos Steiners e os olhos castanhos e sonhadores dos Lenègres. Rccém-graduada em ciências sociais, não tinha planos profissionais definidos para o futuro imediato. E mesmo sendo alegre e jovial, dona de um sorriso fácil e cativante, mostrava-se reservada c arredia em questões de sexo. Não por preconceito. mas porque o entendia como parte de uma forma mais abrangente de relacionamento. Relacionamento que não conseguia estabelecer com os rapazes do seu círculo de amizades. Os magníficos físicos queimados de sol que muitos deles exibiam agradavam-lhe a vista mas não lhe diziam nada em termos emocionais. Tinha a impressão de que toda aquela aparente "maeheza" exterior não correspondia a uma virilidade autêntica. Era como olhar para um quadro bonito sem nele identificar a sensibilidade do pintor.
Arriscara alguns namoros, chegara mesmo a consentir certas intimidades. mais para se testar do que por desejo, porem elas nada lhe proporcionaram, além de leves e fugidias excitações. E parava no meio, e continuava virgem, condição que horrorizava a pnmmha Eliana. As vezes, Erika inaginava se não seria uma mulher frígida, em outras, pensava que, na verdade, estava mesmo à espera de um homem bem diferente daqueles que conhecia. De alguém que a fizesse realmente vibrar, despertando-lhe corpo e alma para o amor. E ficava refletindo se esse alguém - caso existisse - chegaria a tempo de evitar que ela acabasse decidindo ir definitivamente para a cama com um desses "manequins de praia" simplesmente para passar pela experiência.
***
Quando as duas primas desceram para o desjejum, o brigadeiro já tinha saído. Helena juntou-se a elas e ficaram, por algum tempo, entretidas em assuntos ligeiros e triviais. Depois as jovens apressaram- se em sair.
- Vou à Fundação Castelo Branco - anunciou Erika - ver quando começa o tal curso de antropologia, mas antes quero dar uma passadinha na agência do Unibrasco de Ipanema. Eliana vai até lá comigo. Depois ela me deixa no Flamengo e segue para o centro.
Despediram-se de Helena e, alegres e despreocupadas, as moças partiram na Toyota Sport de Eliana, sem o menor pressentimento de que estranhas surpresas lhes estavam reservadas. Para Erika, então, aquele dia iria significar um verdadeiro encontro com o destino.
27
O assalto transcorreu exatamente como havia sido planejado... ou quase.
Às 10:05 horas, o carro roubado de madrugada parou na frente da agência bancária. Zé Augusto, Olímpio e Zuza desceram rápido, colocaram os capuzes e entraram. Severino deu marcha à ré e foi estacionar, com o motor ligado, a alguns metros de distância, em um local de onde podia observar a entrada do Banco. Não havia muita gente na agência: apenas oito clientes - cinco homens e três mulheres, os seis caixas e mais três funcionários reun dos em torno da mesa do gerente. Os assaltantes agiram com presteza. Prontamente imobilizaram todos sob a mira dos revólveres. Uma senh ra desmaiou. Os demais ficaram imóveis diante da ameaça:
- É um assalto! Todo mundo quieto!
Como combinado, Geraldo, o guarda, estava no momento fora da cabine de segurança e também não ofereceu qualquer resistência. Zé Augusto levou-o até o lavatório e aplicou-lhe uma coronhada na nuca - sem muita força, na verdade, mas o suficiente para deixá-lo inconsciente. Simultaneamente, Olímpio reunia clientes e funcionários num canto, arrastando para lá a mulher desacordada, enquanto Zuza vigiava a entrada. Em seguida, Zé Augusto conduziu o gerente até a Caixa- Forte que ocupava um recinto no fundo da agência, apontou para um dos cofres e ordenou:
- Abra!
O homem obedeceu. Como esperado, o sistema eletrônico estava desligado. Bastou torcer a alavanca e o cofre se abriu. Zé Augusto pôs- se então a jogar, rapidamente, as notas de 500 e l,000 reais nas duas sacolas que trazia a tiracolo. Em menos de três minutos tinha transferido todo o dinheiro. Foi quando o gerente, num gesto inesperado e corajoso, correu para o saguão, passou por Olímpio e entrou na cabine de segurança. Zuza, lépido, foi no seu encalço e alcançou-o antes que ele conseguisse fechar a porta do recinto, mas não a tempo de impedir que apertasse o botão de alarme que ficava dentro da cabine.
A sirene disparou, um ruído ensurdecedor que podia ser ouvido a centenas de metros de distância e que, possivelmente, também devia ter acionado algum dispositivo de alerta na Delegacia mais próxima. Zuza aplicou um soco no gerente, prostrando-o inconsciente. Zé Augusto veio correndo lá do fundo.
- Vamos embora. - disse ele - Com essa merda tocando, daqui a pouco a área vai ficar cheia de policiais.
Olímpio pegou uma das duas jovens clientes pelo braço e falou:
- Vou levar esta pequena com a gente. Serve de refém se a polícia nos cercar.
Até então, como os demais, semiparalisada pela surpresa, Erika tinha-se mantido obediente diante da arma que o preto gigante conservava apontada para eles. Mas agora, ao se sentir puxada com força pelo brutamonte, foi tomada de um acesso de raiva que superou tudo o mais. Olímpio arrastava-a pelo braço direito. Ela virou-se e num movimento felino ergueu a mão esquerda e puxou o capuz que cobria a cabeça do assaltante. O tecido rasgou expondo o rosto negro e redondo aos olhos de todos. Mas Olímpio também reagiu com rapidez: pegou Erika pela cintura, jogou-a sobre o ombro direito como se erguesse uma criança e correu para a porta da agência, precedido por Zé Augusto. Eliana deu um passo à frente, como que tentando ir em socorro da prima, mas Zuza, que também se encaminhava às pressas para a saída, empurrou-a para o lado.
- Quieta aí - advertiu ele brandindo o revólver. Vocês todos ficam onde estão. Quem seguir a gente leva chumbo.
Eliana estancou e, como ela, nenhum dos outros ousou desobedecer.
Assim que o alarma soou. Scverino avançou o carro até a poria do Banco. Algumas pessoas que passavam pelo local puseram-se a olhar enire intrigadas e receosas, na direção da agência, Foi quando os assaltantes saíram para a rua de armas em punho. Olímpio carregando Erika que se debatia e esmurrava as costas do gigante, na vã tentativa de se livrar. À vista dos revólveres os transeuntes debandaram. A jovem foi jogada no banco traseiro entre Olímpio e Zuza. Zé Augusto sentou-se ao lado de Severino e ordenou:
- Te manda daqui!
O carro saiu em disparada. Quando uma rádio-patrulha chegou, cinco minutos depois, já estavam longe, na pista que beirava a Lagoa, a caminho da Praça do Jóquei, já fora do cerco que a polícia começava a fechar em torno da agência assaltada. Assim que saíram do quarteirão onde ficava o Banco, Zé Augusto tirou o capuz e virou-se para trás, dirigindo-se a Zuza:
- Amarra os pulsos da moça com um lenço, coloca seu capuz na cabeça dela e senta a pequena no chão pra não ser vista da rua.
Os olhos de Erika cintilaram de raiva mas ela não disse nada. Enquanto cumpria a ordem recebida, Zuza comentou com Olímpio:
- Ideia besta a tua de trazer a garota. Só serviu pra complicar. Ela já viu a cara de nós todos. E agora?
Olímpio deu de ombros.
- Se a polícia tivesse cercado a gente, ajudava ter uma refém. E quem garante que ainda não vamos encontrar patrulhas pela frente?
Zé Augusto voltou a falar, dessa vez para Erika:
- Olhe aqui, moça, ninguém vai lhe fazer mal, mas não podemos correr o risco de soltar você agora. Se ficar quieta vai dar tudo certo, mas se começar a gritar, então botamos uma mordaça na sua boca. Entendeu?
Erika, a essa altura sentada no chão do carro, espremida entre as pernas de Zuza e Olímpio, limitou-se a assentir com a cabeça. A raiva principiava a ceder lugar à sensação de que estava tomando parte numa inesperada aventura e, estranhamente, não tinha, até então, sentido medo. Surpresa, indignação e raiva, sim, mas medo, não. E as palavras do homem que parecia estar no comando tinham sido tranquilizadoras. Na verdade, afora o desconforto, o que sentia no momento era curiosidade sobre o que ainda estaria por acontecer. Ao que tudo indicava, tinham-na levado para usá-la como refém, caso a polícia os alcançasse. Se isso não viesse a ocorrer, o mais provável era que a largassem em algum ponto pelo caminho, quando já se considerassem a salvo. Não obstante... Seus pensamentos foram interrompidos pela voz de Severino:
- Não tem ninguém seguindo a gente - disse ele para Zé Augusto - e já estamos quase na Praça. Trocamos de carro ou vamos em frente?
O outro meditou um instante antes de decidir:
- Pare em algum local deserto por aí e troque as placas. Depois toca pra frente, vamos direto pra fortaleza. Mudar de carro com a garota amarrada e encapuzada vai chamar a atenção.
"Fortaleza, devem ser bicheiros" - disse Erika consigo mesma -"Na certa assaltaram o banco para reforçar a caixa". Mas, ao mesmo tempo, conscientizou-se que não iria ser libertada no caminho. Iam levá-la até a tal fortaleza. As coisas estavam piorando. E se chegassem lá e resolvessem que era mais seguro liquidá-la? Afinal de contas ela não só lhes tinha visto o rosto como iria ficar conhecendo o esconderijo deles. Todas as violências que lia diariamente nos jornais afluíram-lhe ao pensamento. O coração dela acelerou e a filha de Steiner se apercebeu que não estava suando apenas por causa do calor. Pela primeira vez, desde que toda aquela loucura começara, ela deu-se conta de estar realmente com medo.
28
Ítalo não pode deixar de comparecer à NETBRÁS na manhã do assalto ao Banco. Uma reunião programada à última hora pela Diretoria da Empresa obrigava a presença de todos os técnicos da Seção de Montagem de Computadores, de que o líder favelado fazia parte. Mas ele se manteve o tempo todo alheio, o pensamento distante, voltado para o que poderia estar ocorrendo com seus companheiros. Olhou para o relógio: 11:00 horas. A essa altura, se tudo tivesse ocorrido a contento, eles já estariam a salvo na "fortaleza", com o dinheiro. Mas se algo errado houvesse sucedido, bem, então poderiam estar presos, feridos ou mesmo mortos. Fez um imenso esforço para se concentrar no que se passava no recinto. Finalmente a reunião acabou. Ítalo saiu esbafo- rido e, em poucos minutos, sua moto voava em direção à Rocinha.
**
Quando a moto parou em frente à "fortaleza", António Maria e Zé Augusto estavam à espera junto ao portão. Pelo semblante deles Ítalo percebeu que o assalto tinha sido bem sucedido. Ainda assim sua voz revelava ansiedade:
- Então, como é que foi?
- Positivo. - respondeu Zé Augusto sorridente. - Pegamos 470,000 reais, não fomos seguidos e ninguém se machucou.
- Isso é ótimo! - exclamou Ítalo dando um tapinha amistoso nas costas do acreano.
António Maria pigarreou:
- Mas tem um pequeno problema - disse ele - trouxeram uma refém...
- O quê? - interveio Ítalo e, virando-se para Zé Augusto, disse: - Eu não falei pra vocês evitarem violências?
- Bem... - o outro tentou justificar - a gente já ia saindo da agência quando o gerente fez soar o alarme. Aí o Olímpio pegou uma moça pra servir de refém caso a polícia cercasse nosso carro. Depois eu achei perigoso soltar ela pelo caminho. Podia chamar a atenção.
- Estávamos esperando você pra decidir o que fazer com ela - falou António Maria.
Ítalo suspirou.
- OK. Onde está a moça?
- No quarto de empregada. Encapuzada e amarrada numa cadeira - respondeu Tonho. - E nem faz ideia onde se acha.
- E o carro roubado?
- O Severino deixou numa estrada deserta no Recreio. O Zuza seguiu de moto e trouxe ele de volta na garupa.
- E o dinheiro?
- No esconderijo de cimento debaixo do piso da cozinha. Está seguro - garantiu António Maria.
- Ótimo.
- O que vamos fazer com a moça? - insistiu Tonho. - O Zé acha que ela podia ser levada no táxi do Severino até algum ponto na Barra e deixada lá.
Ítalo sacudiu a cabeça.
- Não. - disse ele categórico. - A polícia na certa já tem uma descrição dela e deve haver carros-patrulhas por toda parte. Podem cismar de parar o táxi e ai a vaca vai pró brejo. Vamos resolver isso de outro jeito. Eu mesmo cuido da garota.
- Você não vai deixar ela ver seu rosto, ou vai? - perguntou Tonho.
Ítalo deu de ombros.
- E qual o risco? Tenho uma cara comum e não creio que exista nenhuma foto minha nos arquivos da polícia.
- Nunca se sabe - argumentou António Maria. - Além disso, eles podem fazer um retraio falado com a ajuda dela.
- Bobagem. Tem muita gente parecida comigo por aí. E se não estão suspeitando de nós, por que iam pensar logo em mim?
Foi a vez de Tonho dar de ombros. Ítalo abriu o portão e dirigiu-se para a mansão.
**
Erika, amarrada à cadeira pêlos pulsos e tornozelos e com o capuz colocado ao contrário (de modo que os buracos para os olhos ficassem virados para trás), começava a achar a situação mais humilhante e desconfortável do que propriamente perigosa. Poucos minutos após ter sido levada para o local onde agora se encontrava, alguém entrou no recinto. Ela nada podia perceber através do capuz além de sombras vagas mas, pela voz, percebeu que não se tratava de nenhum dos homens que tinham vindo no carro. O tom, ainda que frio e metálico, possuía uma firmeza convincente. E ele se expressava bem melhor que os outros.
- Moça - falou a voz metálica - não estava em nossos planos trazer você pra cá. Foi uma decisão de momento. Não vai ficar presa aqui por muito tempo. Estamos só esperando alguém que vai decidir de que forma você será solta.
Erika entendeu que o homem falara com o propósito de tranquilizá-la. E se era essa a intenção, fora bem sucedido. Se quisessem matá-la ou mante-la como refém para exigirem algum resgate, não haveria por que dar explicações.
- Será que pelo menos vocês podem tirar esse maldito pano da minha cabeça? - pediu ela.
- Não. Não podemos correr o risco de você identificar o lugar. Tenha paciência, breve estará livre.
Erika suspirou resignada e António Maria deixou o quarto. Ela ouviu a chave girando na fechadura e o ruído dos passos se afastando.
29
Erika cochilava quando a porta voltou a se abrir. Ela sobressaltou- se ao sentir que lhe tocavam no ombro.
- Olá! - era uma voz morna, descontraída.
Erika estreitou os olhos tentando divisar alguma coisa através do capuz. Um vulto estava parado diante dela.
- Olá! - respondeu. - Será que não dá pra tirar esse troco da minha cara? - tornou a apelar.
Ouviu uma risada. Pareceu-lhe franca e divertida.
- Está bem.
Ítalo retirou o capuz. Ela piscou, procurando acomodar-se à claridade. O líder favelado recuou um passo e contemplou o rosto da moça. O coração dele acelerou. "Nossa", disse consigo mesmo, "que carinha linda!" Erika fixou o olhar e viu, à sua frente, um homem forte, trajando calças jeans e uma camisa branca, aberta no peito, deixando à mostra uma corrente de ouro com uma medalha. Moreno bem queimado, rosto atraente e um sorriso largo que parecia ir de uma a outra orelha, deixando à mostra os dentes alvos. E, em cima disso tudo, os olhos grandes, negros e profundos, onde se discernia um leve brilho de ironia. "Nossa, que homem!", pensou ela, respirando fundo. E ficaram assim, se encarando, em mútuo embevecimento. Ítalo foi o primeiro a sair do transe. Deu a volta por trás da cadeira e desamarrou os pulsos da moça. Enquanto libertava também os tornozelos, falou:
- Desculpe o mau jeito do pessoal. Pronto, agora você está livre.
Erika massageou os pulsos sem tirar os olhos do rosto de Ítalo que voltara a se postar diante dela. Ele pegou-a delicadamente pelos braços e ajudou-a a se erguer. Ela sentiu a pele se arrepiar ao contato dos dedos dele. Uma onda de calor assomou-lhe o rosto. Estavam agora de pé, a menos de um passo de distância. Ítalo era apenas um pouco mais alto do que a jovem. Os olhos negros fitaram bem dentro dos olhos castanhos. A pele dela se arrepiou ainda mais. O coração dele bateu mais forte: a química das epidermes!
Erika teve a súbita sensação de que tudo ia começar a rodar ao seu redor. Levou a mão à testa.
- Está se sentindo mal? - perguntou Ítalo percebendo que ela empalidecera.
Erika esboçou um sorriso.
- Só um pouquinho tonta, mas passa logo.
Ele fez com que ela voltasse a se sentar.
- Quer beber um copo d'água?
- Não, já estou melhor.
A cor voltava ao rosto de Erika.
- Sabe - continuou ela, ligeiramente irónica - não é sempre que assisto a assaltos e sou sequestrada.
Ítalo sentou-se no chão de frente para ela.
- Imagino que não - disse ele.
- Quem são vocês afinal, bicheiros?
Ele soltou uma gargalhada.
- Não, nada disso. E juro que foi também a única vez que assaltamos um Banco.
Erika olhou-o incrédula, mas o semblante dele refletia sinceridade.
- Você é o chefe da turma, não é?
Ele deu de ombros.
- De uma certa forma, sim.
- E o que vai acontecer comigo? - não havia medo na pergunta.
- Vou levá-la até sua casa.
Foi a vez dela dar uma gargalhada.
- Me levar pra casa? Você está é doido.
- Por quê? Por acaso é casada?
- Claro que não, mas você nem faz ideia quem seja meu pai.
Ele sacudiu a cabeça.
- Nem sei quem é você, quanto mais seu pai. A propósito, qual é o seu nome?
- Erika. Erika Steiner. E o seu?
Ítalo sorriu. De novo aquele sorriso aberto, contagiante.
- Sinto muito, mas não posso revelar nada. Nem nossos nomes nem o lugar em que estamos.
- Tem medo que eu os denuncie?
- Não sei, mas é uma possibilidade.
Erika meditou um instante.
- Tem razão, mas não vou fazer.
- Você diz isso agora - retrucou Ítalo - mas depois de solta pode mudar de ideia.
Ela olhou bem dentro dos olhos dele.
- Não, eu não faria isso. E sabe por quê? Porque no fundo não acredito que você seja um bandido, mas uma pessoa meiga, boa, carente... sei lá - Erika fez uma pausa e sacudiu a cabeça. - Acho que estou bastante confusa com tudo isso que está me acontecendo, mas mesmo assim garanto que não sinto o menor desejo de denunciar vocês. Até aquele brutamonte que me arrastou do Banco não parece mau sujeito.
Subitamente os olhos de Erika umideceram e o rosto assumiu um ar quase infantil.
- Por favor - pediu ela. - Preciso ir embora. Minha mãe deve estar morrendo de preocupação e papai na certa está mobilizando meio mundo para me encontrar. E também estou cansada...
Os olhos de Ítalo encheram-se de ternura. Ele tomou-a pelo braço e disse:
- Está bem, venha, vou levar você agora.
Ela se ergueu.
- É melhor deixar-me em algum lugar onde eu possa pegar um táxi. Não estou muito longe do Leblon, estou?
- Não muito - admitiu Ítalo. - Só que eu insisto em levá-la. O pessoal errou sequestrando você e eu quero ter a certeza que vai voltar direitinho pra casa.
Erika percebeu que não ia ser fácil demovê-lo.
- Ouça, homem sem nome - disse ela. - Meu pai é o Comandante do III COMAR. Além disso, é uma pessoa por demais geniosa e severa. No mínimo mandaria prender você no momento em que aparecesse comigo.
Ítalo ficou um instante pensativo.
- Talvez não - falou ele tranquilamente. - Se você concordar com uma mentirinha.
- Como assim? - a curiosidade feminina tinha sido despertada.
- Basta dizer que eu achei você vagando por aí e, como um bom cidadão, ofereci uma carona.
Erika riu.
- Você é um cínico.
Ele piscou o olho.
- Admito. Então, topa?
Erika não levou mais que um momento para responder:
- Está bem, topo.
"Na verdade,", pensou ela, "não lhe desagradaria nada desfrutar por mais algum tempo da companhia daquele homem tão estranhamente fascinante, que parecia mexer com o seu eu."
- Só tem uma coisa - disse Ítalo. - Vou pôr uma venda nos seus lindos olhos até a gente estar longe deste local.
- Continua não confiando? - indagou ela com ligeira ponta de ressentimento.
- Não é por mim - justificou ele. - Se fosse, não iria até sua casa. Você pode chegar lá e gritar: "Este homem é o chefe dos assaltantes, prendam ele." Não pode?
Ela assentiu com a cabeça.
- Posso, mas você sabe que eu não faria isso.
- Acho que sei, porém tenho de pensar nos meus companheiros. Um dia, talvez, quem sabe, eu conto toda nossa história pra você. É até possível que você compreenda porque fizemos o assalto.
- No momento me contentaria em saber seu nome.
- Se nos encontrarmos de novo, eu direi - prometeu Ítalo.
- E há alguma chance disso acontecer? - perguntou ela, sabendo que a razão ditava que a pergunta não fosse feita mas que algo mais forte determinara que fizesse.
- Depende de você - respondeu ele.
- Como assim?
- Dê o número do seu telefone e eu ligo pra você.
- Está bem. No caminho pra casa eu lhe darei - afirmou ela.
Ítalo pegou um lenço e vendou, cuidadosamente, os olhos da jovem. Ela sentiu o contato dos dedos dele e de novo se arrepiou.
- Tem medo de andar de moto? - indagou o líder favelado.
- Não, adoro - respondeu Erika, refletíndo que, muito mais do que andar de moto, adorava era a sensação que as mãos daquele homem lhe proporcionavam.
- Então vamos - disse Ítalo, apanhando o blusão de napa sobre uma cadeira e guiando a jovem para a saída.
Dois minutos depois eles partiam na moto, com Erika na garupa, os olhos vendados cobertos por um par de óculos, para disfarçar o lenço e abraçando Ítalo pela cintura, sob os olhares estarrecidos de António Maria e Zé Augusto, os quais foram contemplados com um simples:
- Tudo bem, volto daqui a pouco.
E logo a moto desapareceu, ladeira abaixo, a caminho da Estrada da Gávea.
30
A primeira parte do trajeto foi percorrida em silêncio, Ítalo conduzindo a moto para longe, para o final da Barra da Tijuca. E pelo cami nho ia pensando: "Essa moça virou minha cabeça. É um risco ir até a casa dela. Estou agindo contra os mesmos princípios de segurança que exijo dos outros. Se ela me denunciar, nossos planos estarão per- didos e meus companheiros também pagarão caro pelo meu erro. O certo é deixá-la por aí e esquecer...". Mas ele sabia que não iria proceder segundo as regras do bom senso. Uma voz interior, mais forte que a razão, dizia-lhe para confiar em Erika. A moça não o trairia e eles voltariam a se encontrar. Sim, no fundo era isso que importava, ele tinha de tomar a vê-la.
Erika seguia também mergulhada em reflexões: "Devo ter ficado inteiramente doida: dar o telefone e me empolgar por um assaltante de quem sequer sei o nome! Não consigo nem imaginar o que papai faria se viesse a saber. Um marginal... Não, aquele homem não podia ser um bandido comum. Por certo era uma espécie de Robin Wood moderno ou um idealista motivado por alguma ideologia, quem sabe até mesmo um guerrilheiro. Quanta gente, por razões políticas, já havia assaltado tantos Bancos por esse mundo afora. Sim, só pode ser algo desse gênero. Garanto que existe alguma causa nobre por trás dos atos dele". E assim, usando os recursos da imaginação, Erika aplacava a cons- ciência e justificava para si mesma seu impulsivo comportamento.
Atingiram a estrada que leva a Jacarepaguá. Ítalo parou a moto, desceram e ele retirou a venda dos olhos dela.
- Assim é bem melhor - disse Erika aliviada.
- Hum, hum. E agora, que tal combinarmos a nossa mentirinha?
- O que devo dizer exatamente?
- Que os assaltantes vendaram seus olhos e ficaram rodando de carro por um longo tempo. Depois deixaram você na Barra. Eu vinha passando casualmente, vi você vagando, ofereci carona e você aceitou. Isso é tudo. E só sustentar a história.
- Tudo bem. Farei direitinho como você disse.
Ítalo sorriu e perguntou. - E o seu telefone?
- Você vai ligar mesmo?
-Claro!
- Quando?
- Que tal amanhã de tarde?
- Está bem, vou ficar esperando.
Erika deu o número do seu telefone particular e o endereço da residência dos Steiners.
- Então vamos - disse ele.
Voltaram a subir na moto que partiu na direção ao Leblon. Ítalo achava-se agora em total estado de graça: um dia perfeito. O assalto havia rendido algo bem mais precioso que todos aqueles 750,000 reais: Erika. Ele sentia-se qual um adolescente, inteiramente apaixonado. Mas um súbito pensamento ameaçou esfriar sua emoção: "Isso tudo é uma loucura impossível. Essa moça não é pra mim". Porém, de imediato, a lembrança das previsões de Deolinda vieram em seu socorro e ele prontamente aceitou a ideia de que, afinal de contas, a loucura não era assim tão impossível!
Erika, apesar do cansaço e dos contratempos sofridos, estava possuída de um estranho contentamento. Aquele homem misteriosamente sedutor tinha despertado nela - e não havia como negar isso a si mesma - uma inesperada e violenta paixão. E o mundo parecia perfeito naquele instante: agarrada a Ítalo pela cintura, a moto zunindo sobre o asfalto, o vento morno esvoaçando seus cabelos, tudo isso fazia com que se sentisse muito, muito feliz. Num ímpeto que não quis conter, encostou o rosto no ombro dele. Ítalo virou-se, sorriu e passou de leve a ponta dos dedos pelo braço dela. Erika estremeceu toda e se apercebeu, confusa mas exultante, que seu êxtase estava a um passo do orgasmo.
31
Tão logo os assaltantes deixaram o Banco, Eliana disparou rua afora atrás de um telefone público e ligou para a residência dos Steiners. D. Helena recebeu a notícia com apreensão mas soube manter-se suficientemente calma para avisar o marido. Em seu gabinete no III COMAR, o brigadeiro reagiu como era de se esperar: contendo a raiva e o receio interiores, ordenou a um de seus ajudantes que mobilizasse a Polícia Especial da Aeronáutica e o SISA*, enquanto ele próprio telefonava para o Secretário de Segurança do Estado exigindo que todas as providências fossem tomadas de pronto para a captura dos assaltantes e a libertação de Erika. Em seguida, o carro oficial levou-o à sua residência. Encontrou Helena aos prantos e tratou de tranquilizá-la, informando-a que tudo estava sendo feito para o resgate da filha. Logo chegaram oficiais do SISA e uma escolta de soldados, bem como um inspetor da Divisão de Sequestros, a fim de coordenar o trabalho da polícia com o dos agentes da FAB. No início da tarde, pouca coisa tinha sido apurada. O carro usado no assalto fora roubado de madrugada em frente a um prédio de Copacabana e encontrado vazio, pouco depois do meio-dia, numa rua deserta, no Recreio dos Bandeirantes. A perícia identificou cinco diferentes impressões digitais no veículo: as do proprietário, de sua esposa e de um dos filhos, bem como as do garagista do prédio e as de Erika. Isso confirmava a informação das testemunhas do assalto de que os bandidos, além de mascarados, usavam luvas. E era tudo. Nenhuma pista sobre o dinheiro roubado e a filha do brigadeiro.
Lá pelas 13:30 horas o inspetor da Polícia resolveu ir até a Delegacia do Leblon para solicitar uma intensificação nas diligências. Steiner, acompanhado de dois agentes do SISA, levou-o até o portão. Já se despediam quando se ouviu o barulho característico de uma moto se aproximando. A Honda parou junto à calçada oposta, bem defronte da residência. O brigadeiro estarreceu: ao volante, trajando o blusão de napa peculiar aos motoqueiros, um homem moreno escuro e, na garupa, Erika. Quatro soldados acorreram e cercaram a moto enquanto o brigadeiro, recuperando-se da surpresa, atravessou rapidamente a rua. Erika desceu do veículo e correu ao encontro do pai. Ele abraçou-a por um breve momento. Depois perguntou:
- Você está bem?
Ela acenou que sim. Os olhos de Steiner dirigiram-se a Ítalo. Este havia puxado os óculos escuros para cima da testa e contemplava impassivelmente a cena. O brigadeiro voltou-se para a filha:
- Quem é esse homem?
Erika fitou Ítalo e sorriu.
- Um rapaz que me encontrou vagando pela Barra pouco depois que os assaltantes me deixaram lá. Ele foi muito atencioso oferecendo-se para me trazer até em casa.
Steiner fitou de novo o homem na moto, dessa vez mais atentamente. Depois disse, dirigindo-se à filha, mas de modo a ser ouvido por todos:
- Acho que você deveria ter procurado um telefone público ou um carro-patrulha em vez de se expor a uma carona com esse tipo esquisito. Afinal...
- O que tem meu tipo a ver com isso? - interveio Ítalo, correndo os olhos do rosto de Steiner para a túnica cheia de condecorações. Havia um leve toque de altivez na voz.
O brigadeiro empalideceu. Não estava acostumado que lhe inter- rompessem.
- Escute aqui rapaz - retrucou com energia. - Não estou falando com você...
- Papai - foi a vez de Erika intervir em tom de súplica - ele só quis me ajudar.
Os olhos azuis contemplaram-na friamente.
- Vá para dentro, Erika - ordenou ele. - Sua mãe está angustiada por sua causa.
A moça se empertigou.
- Eu vou, mas acho que o senhor poderia ser mais delicado com quem se deu ao trabalho de me socorrer.
Os olhos do brigadeiro ficaram ainda mais frios.
- Discutiremos isso mais tarde, Erika. Agora faça o que lhe digo: vá ver sua mãe.
A jovem enrubesceu. Ia dizendo qualquer coisa, mas se conteve. Balançou a cabeça, lançou um furtivo olhar de desculpa para Ítalo, que continuava aparentemente impassível e, para que ninguém notasse as lágrimas que começavam a surgir, correu em direção da casa. Steiner deu um passo à frente e encarou o lider favelado. Este sustentou o olhar. Uma intensa antipatia formou-se de imediato entre os dois. O brigadeiro enfiou a mão no bolso, tirou algumas notas de dinhei- ro e estendeu-as para o rapaz.
- Tome - disse com arrogância - o pagamento pelo seu trabalho.
O rosto de Ítalo endureceu. Ele pegou as notas, amarrotou-as e atirou-as no chão. Em seguida, cuspiu em cima. Steiner ficou lívido. Agarrou o guidon da moto e falou, trémulo, o olhar faiscando:
- Seu moleque, como se atreve?... Eu poderia matá-lo por isso.
A mão de Ítalo fechou-se como uma garra sobre o pulso do militar obrigando-o a soltar o guidon. Surpreso, o brigadeiro recuou. O líder favelado pisou no arranque e exclamou, num tom onde havia mais desafio do que raiva:
- Pois tente!
A moto arrancou. Foi tudo muito rápido. Os soldados olharam indecisos para o brigadeiro, que fitava, estarrecido, a motocicleta desaparecer na curva no fim da rua. Steiner praguejou e, sem olhar para ninguém, atravessou para o outro lado, empurrou o portão e avançou rápido pelo jardim na direção de casa.
Não o sabiam então Ítalo e Marcos Fábio, mas o mútuo sentimento de hostilidade surgido naquele instante os acompanharia até a morte!
- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -
* SISA - Serviço de Informações e Segurança da Aeronáutica.
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