O HOMEM QUE ENTERROU JESUS
Capítulo 35
Jerusalém, madrugada de 20 de julho de 200_
Precisamente às 02:37 horas, o caminhão virou na primeira curva e, ao mesmo momento que Omar viu a barreira, o veículo foi visto pelos policiais que a guardavam . O palestino não hesitou: acelerou o caminhão. Enquanto dirigia com uma das mãos, usava a outra para ajustar o dispositivo no acelerador. Um refletor iluminou o caminhão e uma voz, vinda de um megafone, ordenou que ele parasse. Um policial, emergiu de um dos sacos de areia e descarregou um rajada de metralhadora contra o veículo. Atingido por um projétil e por estilhaços de vidro, Omar, ainda assim, abriu a porta da boleia e se projetou para fora. O caminhão continuou avançando. Alguém gritou em hebraico:
- Dispersem, o veículo deve estar carregado com explosivos.
Atônitos. os israelesses tentaram dispersar, enquanto um deles atirava uma granada que alcançou o caminhão, uma fração de segundo antes dele colidir contra as barras de ferro da barreira. Uma tremenda explosão foi ouvida e foi tudo pelos ares, entre bolas de fogo e grossos rolos de fumaça. Omar, sufocado pelo deslocamento de ar e ferido no tórax por um pedaço de ferro incandescente, morreu instantaneamente. Seis dos sete homens que vigiavam a barreira tiveram o mesmo destino. Um policial que tinha se afastado do bloqueio, alguns minutos antes, à procura um banheiro, sobreviveu. Ele estava voltando quando a explosão aconteceu. Escapou ileso, viu tudo, mas não pode fazer nada para ajudar os companheiros. Os israelenses que estavam vigiando as outras barreiras também ouviram a explosão. Durante alguns minutos, eles ficaram imobilizados pela indecisão: deveriam ficar, guardando suas posições, ou deveriam se dirigir ao lugar onde, presumiam, algo terrível tinha acontecido?
* * *
Seis minutos tinham decorrido desde a explosão. Dimitrov, dentro do volks, tinha parado a 50 metros de distância dos escombros que ainda queimavam. Ignorando o calor que chegava até onde estava, olhou por um binóculo à procura de uma brecha pela qual pudesse penetrar com o carro. Em aproximadamente vinte segundos viu, entre dois sacos de areia estourados, um ponto onde o asfalto parecia relativamente intato e com espaço suficiente para o volks passar. Não hesitou. Em segundos, dirigindo a aproximadamente 60 km/h, ele alcançou o local e, rezando para que a alta temperatura não detonasse os 150 quilos de sentex, Dimitrov projetou o volks pela abertura. Apesar do calor quase insuportável, dos buracos no chão e do asfalto semi-derretido, o carro continuou avançando. Ultrapassou a curva e entrou na rua logo atrás do museu. O dominicano tinha estudado minuciosamente o mapa que Dante lhe tinha dado e identificou o lugar exato contra o qual teria de lançar o veículo.
* * *
Finalmente, os homens que vigiavam a barreira que bloqueava o acesso à extremidade sul da mesma rua que Dimitrov havia alcançado pelo norte, se movimentaram. Quando contornaram a curva, um deles viu o volks e gritou:
- Olhem, um carro está vindo nesta direção.
- Atirem nele- ordenou o agente da Shin Bet.
Mas já era tarde demais. Dimitrov, tendo alcançado a altura do seu alvo, virou o volks para a direita, colocando o veículo na direção exata para o impacto. Uma rajada de metralhadora atingiu o dominicano um décimo de segundo antes dos 150 quilos de sentex destruirem quase toda a ala arqueológica,transformando em cinzas o aposento qye contnha os pergaminhos escritos por Arimateia. Exatamente às 02:42 da madrugada de 20 de julho de 200_.
* * * * *
Capítulo 36
Jerusalém, madrugada de 20 de julho de 200_
Às 02:15, o agente que tinha perdido o rastto de Chiesa, comunicou o fato ao QG da Shin Bet.
* * *
Às 02:17, uma empregada do Hotel dos Reis, caminhando pelo 10º andar, notou que a porta de quarto 1004 estava entreaberta. Achando estranho, ela entrou e achou o corpo do agente. A informação foi passada a Uri, no QG da Shin Bet, às 02:35.
* * *
Às 02:40, a Shin Bet recebeu o fax de um "perito" em latim que tinha traduzido para hebraico a conversa entre Chiesa e Dimitrov. Uri leu e, somando todas as informações recebidas recentemente, pegou o telefone, acordou Zwi na residência dele e informou-o da situação. O diretor do serviço de segurança interna de Israel já havia removido as cobertas e saltado da cama, quando disse ao seu deputado:
- Esses padres miseráveis vão atacar o museu. Dê um alarme para todas as nossas unidades. Peça para o exército enviar mísseis portáteis e carros de combate para reforçar todas as barreiras. Eu estarei no QG dentro de alguns minutos.
* * *
A aproximadamente três quilômetros de distância do museu, Dante, dirigindo lentamente, ouviu a primeira explosão. Ele virou-se para Yussef e disse:
- O caminhão explodiu a barreira.
Seguiram-se seis minutos de uma espera ansiosa. Os seis minutos mais longos da vida do jesuíta. Então ele ouviu a segunda explosão. Sua face se iluminou.
- Dimitrov conseguiu. Nossa missão está cumprida. Vamos embora..
Ele acelerou o ford e partiu para a cidade velha. Alguns minutos depois, deixou Yussef nas proximidades da 'via dolorosa' e se diriigiu para a casa paroquial da Igreja de Pater Noster.
* * *
A modesta casa paroquial era composta de uma sala de estar, um quarto, um banheiro e uma "kitnet". Ficava situada atrás da igreja e era alcançada por uma entrada independente que terminava em uma garagem, onde Dante guardava o carro. O jesuíta vivia só, já que Genaro, o padre-auxiliar, um homem jovem de sexualidade duvidosa, depois dos deveres diários na Pater Noster, ia dormir em outra residência, pertencente à Catedral de St. James, onde ele compartilhava o quarto, e possivelmente a cama, com um outro jovem padre. Diariamente, uma senhora cristã que vivia no bairro armênio, ia à casa paroquial, para limpar o lugar, cuidar das roupas de Dante e preparar a comida para o monsenhor.
* * * * *
Capítulo 37
Jerusalém, casa paroquial, madrugada de 20 julho de d, 200_
Quando Dante voltou à casa, Chiesa ainda não tinha chegado. Ele pegou o celular e discou o número reservado do cardeal Vecelio. O jesuíta consultou a hora: 02:59. Em Roma seria agora 01:00 hora, mas não importava. O secretário de estado do Vaticano estava esperando a chamada e atendeu ao segundo toque.
- Estava aguardando esta chamada, Andrea. - disse o cardeal, tratando o jesuíta pelo seu verdadeiro nome. - Pode falar livremente. Este telefone está seguro. Conte-me tudo.
- Consummatum est, Eminência - disse Andrea Fontana.
O jesuíta deu um relato abreviado dos eventos e disse:
- Dimitrov está morto. Embora o corpo dele deva ter se transformado em cinzas, os israelenses têm meios para o identificar pelos testes de DNA. Chiesa está vivo, com a polícia na perseguição dele. Mas eu não acredito que eles já o tenham apanhado. Ele deve estar agora a caminho da minha residência.
- Escute, Andréa, você não pode permitir que Chiesa seja capturado pelos judeus. Se isso acontecer, ele confessará tudo o que sabe, ou debaixo de tortura ou sob o efeito de substâncias químicas. Os israelenses são peritos nessas coisas. E a Igreja não pode ser associada com a destruição da ala arqueológica. Os judeus certamente suspeitarão do nosso envolvimento, mas é importante que eles não tenham nada para provar. Assim que identificarem Dimitrov como o executor do ataque e publicarem o fato, nós daremos uma nota oficial, lamentando o ocorrido e declarando que, quando enviamos o dominicano para acompanhar as pesquisas arqueológicas, ignorávamos que ele era um furioso fanático que, em seu delírio paranóico, agiu sem nosso conhecimento. Certamente eles não acreditarão, mas não terão evidências para clamar que nós estamos mentindo. Por outro lado, embora o israelenses desconheçam a sua existência, há três pessoas capazes de lhe denunciar.
- Chiesa, Abdula e Yussef - disse Dante
- Precisamente. Eles constituem uma ameaça séria para nós.
- Uma palavra deV. Eminência, será o bastante...
- Elimine-os. Depois deixe Israel e volte para o Vaticano. Mas não venha diretamente para Roma. Eles poderiam se interessar por um padre católico deixando o país e indo diretamente para a Cidade Eterna, logo depois de um ato terrorista ter destruido documentos que talvez a Igreja não gostasse ver revelados. Daria a impressão de que você estava vindo para fazer um relatório... seria um dado a mais para associar a explosão com a Santa Sé. Concorda?
- Completamente, Eminência. Seu raciocínio está perfeito.
- Muito bem. Então eu sugiro que você gaste algum tempo em outro lugar. Haverá um seminário em Nova Iorque, sobre " Coexistência Religiosa no Oriente Médio ". Um tema interessante, começando no próximo dia 22. Um tema apropriado para um monsenhor que trabalha em Israel. Seria conveniente você participar. Na realidade, é uma boa desculpa, se eles o interrogarem no aeroporto. Eu ligarei, imediatamente, para cardeal Sherman, notificando-o da sua participação no seminário. Quando ele terminar, volte para nós. Você ficará como meu auxiliar até que alguma outra situação requera o exercício de suas extraordinárias habilidades . Parabéns pelo sucesso da Operação José. A Igreja o recompensará. Recomendarei ao papa a inclusão de seu nome na lista dos padres que serão, em breve, promovidos a bispos.
- Sinto-me honrado, Eminência
- Agora vá e termine seu trabalho. - concluiu Vecelio.- Até breve, Andrea.
- Até breve, Eminência.
E desligaram.
* * * * *
Capítulo 38
Jerusalém, madrugada de 20 de julho de 200_
Dez minutos depois de deixar a casa, Zwi, dirigindo o próprio carro, corria pelas ruas de Jerusalém, a caminho do seu QG, carregado de pensamentos escuros: e se, realmente, esses padres amaldiçoados conseguirem explodir a ala arqueológica? Como ele justificaria te-los subestimado? Por que não tinha aceito a sugestão de Ariel para que a Shin Bet pedisse a cooperação do exército para defender o museu? Fez um esforço mental, tentando buscar pensamentos mais otimistas: os terroristas católicos certamente não dispunham helicópteros ou aviões. Então, eles só poderiam tentar um ataque por terra... e, com certeza, usariam um carro-bomba com os 200 quilos de sentex que tinham, supostamente, adquirido. Uma quantidade suficientemente grande para destruir uma parte do museu... se chegassem lá... Mas isso não aconteceria. O máximo que eles poderiam conseguir, se tentassem, seria gastar os explosivos contra uma das barreiras. Esse raciocínio lhe deu uma paz relativa. Foi quando o rádio do carro, que comunicava diretamente com o QG, tocou. Zwi pegou o microfone e apertou o botão.
- Diretor?
A voz de Uri parecia estar vindo de um velório. Zwi Rami sentiu o coração disparar, mas tentou fazer com que sua voz soasse calma:
- Sim, Uri, eu estou quase chegando.
O outro reagiu como se não tivesse ouvido a frase do chefe :
- Diretor ...eles conseguiram...
O coração de Zwi passou a bater ainda mais rápido.
- Conseguiram o que, Uri? Fale!
- Os malditos padres, director. Eles explodiram parte do Museu de Israel.
O coração de Zwi passou a bater fora de ritmo e uma garra invisível começou a comprimir o tórax dele. Instintivamente, ele removeu o pé do acelerador. O carro reduziu a velocidade. Quando conseguiu falar, a voz saiu com dificuldade:
- Como... eles... ultrapassaram a barreira ...como?
- Eles usaram dois veículos, Diretor.
Zwi parou o carro e seu peito se inclinou para a frente, de encontro ao volante. A garra invisível apertou com mais intensidade.
- Dois... veículos... nós não pensamos... nessa possibilidade. -Zwi estava quase balbuciando - Como você descobriu ...isso?
A voz de deputado voltou mais firme. Uri estava começando a se recuperar do choque inicial:
- Um dos policiais tinha se afastado, para procurar um banheiro. Quando estava voltando, viu a coisa toda. Um caminhão veio primeiro e explodiu a barreira na extremidade norte. Depois, um carro pequeno penetrou por uma brecha entre os escombros, contornou a curva e bateu de encontro a parte de trás do museu. No lugar certo: a ala arqueológica foi quase totalmente destruída.
Uri esperou por algum comentário do diretor. Ele esperou por alguns segundos e, finalmente, perguntou:
- Diretor, está me ouvindo?
Silencio ...Então, Uri começou a ouvir um barulho contínuo. Durante cinco ou seis segundos, não reconheceu o que era, mas, de repente, entendeu: era a buzina, tocando continuamente. Tomado do mais negro pressentimento, o deputado largou o microfone e saiu correndo em direção à rua. A três quarteirões de distância do QG da Shin Bet, a cabeça de Zwi tinha tombado em cima do volante, disparando a buzina. Mas ele não podia ouvir. Seu coração havia deixado de bater.
* * * * *
Capítulo 39
Jerusalém, madrugada de 20 de julho de 200_
Quando terminou de falar com o cardeal, Dante, ou melhor, Andrea, foi para o quarto e tirou, de debaixo do colchão, uma pistola .22 com um silenciador. Ele tinha optado pela pequena arma porque, embora sendo letal à curta distância , não causa nenhum grande dano visível. Calçou um par de luvas de borracha, voltou à sala de estar, apagou todas as luzes da casa e se postou atrás da porta de entrada. O relógio mostrava 03:27 a.m.. Chiesa deveria estar chegando logo. Quinze minutos se passaram e Andrea estava começando a ficar impaciente, quando ouviu o som de passos. Chiesa abriu a porta com a chave que Dante tinha lhe dado no hotel e entrou. A mão dele buscava o interruptor da luz, quando sentiu um objeto frio contra a nuca. E não sentiu mais nada. Uma bala tinha penetrado pela área occipital do crânio, alcançando o cerebelo e o bulbo cerebral. Ele morreu instantaneamente. Dante acendeu a luz e examinou a cabeça do defunto. A ferida causada pela bala era bastante pequena, sem perda de tecido e um mínimo de sagramento. Também não encontrou nenhum sinal de sangue em qualquer lugar do aposento. Não havia ferimento de saída, significando que a bala tinha permanecido dentro do crânio.
- Perfeito - disse ele consigo mesmo.
Convencido de não ter deixado qualquer vestígio do crime, arrastou o corpo até a garagem, abriu a mala do carro e depositou dentro os restos mortais de Chiesa. Então o jesuíta voltou à casa. Era hora de cuidar de Abdula e Yussef. Pegou o celular e discou o número do contrabandista. Sem dúvida, o árabe estava acordado. Embora ele já soubesse, por Yussef, o que tinha acontecido no museu, certamente estava esperando por notícias vindas de Dante.
Uma vez mais acertara: O árabe respondeu no terceiro toque e, reconhecendo a voz do jesuíta, disse:
- Eu já estou informado de nosso sucesso. Pelo qual, assim penso, nós merecemos uma recompensa melhor.
Ótimo, pensou Dante: a ganância do árabe tornaria as coisas mais fáceis.
- É exatamente por isso que estou ligando.
- Para nos Informar sobre o destino de Omar, ou para dizer que receberemos um bonus extra?
- Não, não é sobre Omar. Ele certamente está morto. Estou ligando porque acabei de falar com meu chefe em Roma e ele acha que você e Yussef merecem uma gratificação adicional, não só pelo sucesso da operação, mas porque, sentindo-se bem recompensados, vocês manterão suas bocas fechadas sobre o meu envolvimento no ataque contra o museu.
Embora exultante, já prevendo uma gratificação significativa, o palestino fingiu ter-se sentido ofendido. Era parte do jogo.
- Ora, Dante, você sabe que nós, árabes, levamos nossos segredos para a sepultura.
" Você não imagina como suas falsas palavras são proféticas" - pensou o jesuita, sorrindo ligeiramente. Mas ele deu a Abdula uma resposta diferente:
- Não obstante, eu recebi ordem para dar uma certa quantia aos dois.
O árabe não conseguiu se controlar:
- Quanto?
- Você saberá quando ver - disse Dante em um tom autoritário - Mas deve ser hoje e, preferivelmente, agora.
Oscilando entre ganância e o sono, o palestino tentou argumentar:
- Dante, são quatro e quinze. Não pode ser em torno das oito? Estamos exaustos, nós precisamos dormir...
O jesuíta foi categórico e irredutível. Ele sabia ser este o melhor modo para se lidar com os árabes.
- Não, Abdula. Eu não posso me expor à luz do dia. Por causa do Dimitrov, todo padre é agora um suspeito em potencial. Minhas ordens são terminar este assunto imediatamente e deixar Israel. É pegar ou largar. Decida-se!
A ganância prevaleceu.
- OK, então. Você pode trazer o dinheiro agora. É em dólares, certo?
- Certamente. Onde vamos nos encontrar?
- Estamos na loja de Yussef.
- Estarei ai dentro de quinze a vinte minutos - respondeu o jesuíta.
E desligou antes do árabe poder dizer qualquer coisa.
* * *
Dante chegou na loja dezoito minutos depois. Novamente, Yussef abriu a porta. Mas. desta vez, Abdula não estava sentado. Ele estava parado, perto do blacão, com um sorriso nos lábios, e um brilho nos olhos: a expectativa de pôr as mãos nos dólares prometidos. "Ganância, usura, um pecado grave que merece ser punido". - pensou Andrea.
- Bem padre, trouxe o dinheiro? - perguntou o árabe, esfregando as mãos.
O jesuíta fez um gesto afirmativo com a cabeça.
- Quanto?
- Dez mil para você e cinco mil para Yussef.
- Excelente. Já posso até sentir as notas nas minhas mãos.
Yussef, cujos olhos também tinham adquirido um certo brilho, tinha se movido para junto de Abdula. "Ótimo, isso facilitará o meu trabalho " - pensou Dante.
O jesuíta pôs a mão no bolso interno do casaco, sacou a beretta e, com extraordinária rapidez, sem dar aos palestinos qualquer chance de reagir, deu um tiro na testa de cada um. Ambos estavam mortos antes mesmo dos corpos alcançarem o chão. Não houve nenhum barulho. O som dos tiros tinha sido amortecido pelo silenciador. O jesuíta deixou a loja e, certificando-se não haver ninguém à vista, retirou o corpo de Chiesa da mala do ford. Logo em seguida, entrou na loja e depositou o cadáver ao lado dos corpos dos dois árabes. Depois, partiu, fechando a porta. Entrou no carro e rumou para a casa paroquial. De lá, o jesuíta discou para o aeroporto Ben Gurion e após falar com três companhias aéreas, adquiriu reserva para um vôo da Air France que deixaria Israel para Nova Iorque às 9:00 da manhã.
Antes de deixar a casa paroquial, ele escreveu uma carta para Genaro e outra para a empregada, comunicando que, devido a uma ordem inesperada do Vaticano, estava partindo, a fim de participar de um seminário nos Estados Unidos e que, breve, enviaria notícias.
Alguns minutos depois, Andrea estava em um táxi a caminho do Ben Gurion.
* * * * *
Capítulo 40
Tel Aviv, aeroporto Ben Gurion, manhã de 20 de julho de 200_
-Às 08:00 horas, Dante apresentou o passaporte ao inspetor do ministério do interior de serviço no aeroporto. Quando ele viu a cruz na lapela do casaco de Dante, os olhos se estreitaram. Tinha recebido ordens para investigar, cuidadosamente, padres, diáconos ou quaisquer outras pessoas associadas à Igreja Católica Romana. O inspetor perguntou, em inglês:
- Você é padre?
- Monsenhor, inspetor. - respondeu Dante, calmamente, no mesmo idioma.
Ele já esperava passar por uma investigação meticulosa.
- O que é quase a mesma coisa que padre. Eu sou o vigário da Igreja de Pater Noster.
- Está sabendo o que aconteceu esta madrugada em Jerusalém?
- Acontecem tantas coisas...a que está se referindo, especificamente ?
- Ao ataque terrorista contra o Museu de Israel. A polícia descobriu que um de seus colegas está envolvido no atentado.
- Meu colega? - perguntou o jesuíta, adotando uma expressão de surpresa - O que quer dizer com isso?
- Um dominicano chamado Dimitrov. Você o conhece?
- Não. A que igreja ele pertence? - perguntou Dante, com o ar mais inocente que pode simular.
O inspetor decidiu mudar de assunto.
- Padre, você conhece alguém chamado Dante?
- Dante?
O jesuíta sentiu o coração acelerar. De onde eles obtiveram o seu pseudônimo? Quem falou demais? Ele fez uma pausa, como tentando puxar pela memória, mas, de fato, para se tranquilizar. Então disse:
- Dante ..sim, eu me lembro de um Dante ...mas foi há muito tempo atrás, tem mais de vinte e cinco anos, quando eu ainda cursava o primeiro grau em Florença... Ele era um menino da minha idade. Além dele, não consigo lembrar de ninguem mais com esse nome. Lamento não poder ajudar.
O israelense suspirou. Ele continuou folheando o passaporte.
- Eu vejo aqui que você esteve recentemente em Nicósia e voltou a Israel no mesmo dia.
- Sim. Eu fui discutir um certo assunto com o patriarca da ilha de Chipre, mas ele não estava se sentindo bem. Então, tivemos que adiar nossa reunião. Mas espero retornar para dar continuidade ao projeto de uma troca religiosa e cultural entre...
O inspetor levantou a mão, interrompendo o que parecia ser uma dissertação longa e desprovida de importância. "Ou este padre é um idiota inocente ou um grande artista " - pensou.
- Uma última pergunta, padre. Por que você está indo para Nova Iorque hoje?
- Para participar de um seminário sobre Coexistência Religiosa no Oriente Médio. Para quem trabalha em Jerusalém, você tem que concordar, é um assunto importante. É patrocinado pelas Nações Unidas e pela Arquidiocese de Nova Iorque e começará no dia 22, depois de amanhã.
O inspetor não achou nenhum argumento para contradizer o padre. Mas teve uma inspiração: estaria ele contando a verdade sobre a viagem? Não levaria muito tempo para descobrir.
- Monsenhor Andrea, - disse ele, olhando para o nome no passaporte e apontando para uma série de cadeiras em um dos cantos do salão. - Por favor, sente-se lá e espere. Eu voltarei logo.
O inspetor saiu e entrou em outra sala. "Ele vai verificar se o seminário existe mesmo ou é uma invenção minha", pensou Dante, sorrindo intimamente. O inspetor pegou um telefone na sala onde tinha entrado e fez uma ligação. Quando alguem atendeu, ele disse:
- Você pode descobrir, e depressa, se vai haver um seminário em Nova Iorque, patrocinado pelas Nações Unidas sobre Coexistência Religiosa no Oriente Médio?
- Espere - disse quem estava do outro lado.
- Esperarei. Mas não demore, porque eu tenho de decidir sobre um passageiro que vai embarcar daqui a pouco.
Oito minutos depois a resposta veio. O inspetor escutou cuidadosamente. Então, ele perguntou:
- E vai começar no dia 22?
Ouviu a resposta e disse:
- Muito obrigado. Shalom.
O inspetor voltou ao salão e fez sinal para Dante se aproximar. Olhou longamente para a face do padre e, finalmente, carimbou o visto de saída. Então disse:
- Shalom, monsenhor Andrea. Tenha uma viagem agradável.
Dante recebeu o passaporte e respondeu:
- Obrigado, inspetor. Shalom.
O jesuíta entrou na linha para a revista pessoal e das bagagens de mão. Não teve qualquer problema. Alguns minutos depois, o autofalante solicitava que os passageiros do vôo da Air France se apresentassem para o embarque. Dante caminhou tranquilamente para o portão oito.
*****
Capítulo 41
Jerusalém, manhã de 20 de julho de 200_
A mídia tinha chegado ao local do ataque meia hora depois do fato ter acontecido. E, agora, jornais, rádios e televisões anunciavam, insistentemente, a audaciosa ação terrorista. E o mundo inteiro, pela BBC e pela CNN, começavam a tomar conhecimento de mais uma agressão contra o Estado de Israel. Em Jerusalém e ao longo de todo território israelense, a opinião geral era que, uma vez mais, os palestinos tinha sido os responsáveis. E apelos populares começaram a ser ouvidos, exigindo uma enérgica retaliação. Mas, como veremos, a nível de governo prevalecia uma opinião diferente.
* * *
Um pouco depois das 08:00 horas, enquanto Charles, Irma e eu estávamos tomando o café da manhã no restaurante de hotel, a televisão anunciou a destruição da ala arqueológica do Museu de Israel por um grupo terrorista. O anunciador atribuiu o ataque aos palestinos. Ele também falou que o corpo de um padre católico, chamado Chiesa, tinha sido achado ao lado dos cadáveres de dois árabes, em uma loja na ‘via dolorosa '. Que os três homens tinham sido mortos por tiros de pistola. Que a polícia ainda não tinha qualquer pista dos assassinos, nem sabia se os assassinatos teriam relação com o ato terrorista.
- Foram eles que fizeram isso! - exclamou a Irma.
- Não "eles" - corrigiu Charles - Talvez Dimitrov. Mas não o Chiesa. Ele foi encontrado morto longe do museu e as pessoas mortas não costumam praticar atos terroristas.
- Mais dois mistérios a ser desmascarados - disse eu, tentando superar o impacto do anúncio e coordenar as idéias. - Que foi Dimitrov quem explodiu a ala, eu não tenho a menor dúvida . Ele era suficientemente fanático para cometer suicídio pela Igreja. O problema é saber como ele chegou lá e quem o ajudou. E o outro mistério é: quem matou Chiesa e por que?
- Parece que o testemunho de Arimateia permanecerá para sempre desconhecido. Tanto trabalho para nada - lamentou a Irma.
Eu concordei e, sem que ela notasse, pisquei o olho para o Charles. O inglês respondeu com um sorriso ligeiro e enigmático.
* * * * *
Capítulo 42
Jerusalém, gabinete do primeiro-ministro, 20 de julho de 200_
Às 11:00 horas, o primeiro-ministro reuniu Simon Goldsmith, chefe da polícia de Jerusalém, o inspetor Chaim Zeller, Nathan Perez, Moshe Feldman, ministro do interior, Ariel Polanski e Uri Lebel, substituindo Zwi Rami que tinha morrido de um ataque de coração, de madrugada, quando se dirigia para o QG da Shin Bet. David Berger tinha uma expressão dura e os olhos dele estavam vermelhos e inchados. Ele havia sido acordado às 03:50, pelo ministro do interior, informando sobre o ataque contra o Museu de Israel e a morte de Zwi.
Virando-se para o diretor do museu, ele perguntou:
- Nathan, qual a extensão do prejuizo?
- A ala arqueológica ficou bastante destruída. Perdemos muitas coisas, além do pote e dos pergaminhos recentemente achados. Felizmente, os manuscritos do Mar Mortos e algumas outras raridades não foram afetadas.
David olhou para o ministro do interior:
- Quem são os prováveis suspeitos ?
- Todas as evidências apontam para uma conspiração tramada pelos dois religiosos que o Vaticano enviou como observadores das escavações. Parece que o dominicano Dimitrov foi quem lançou o carro-bomba contra a parede do museu. O outro, o jesuita Chiesa, foi achado morto junto aos corpos de dois árabes, em uma loja na ‘via dolorosa.
O primeiro-ministro ergueu as sobrancelhas.
- Chaim?
- O dois palestinos foram assassinados no lugar onde foram achados. Cada um levou um tiro na testa. Balas de uma automática 7.65. De acordo com a balística, elas vieram da mesma arma que matou o agente da Shin Bet no Hotel dos Reis. Provavelmente por um homem disfarçado como garçon que deixou o hotel com outra pessoa vestindo um disfarce idêntico., Certamente Dimitrov, porque o frade desapareceu do quarto 1004, onde o corpo do agente foi achado. Um dos árabes assassinados foi identificado como Abdula Kamal, contrabandista, suspeito de pertencer aos "Guerreiros de Alá ", uma organização terrorista incipiente, O outro, mais jovem, Yussef Nagib, era o dono da loja de souvenir onde os corpos foram achados. Chiesa foi morto em outro lugar e levado para a loja.. Ele levou um tiro na área occipital do cérebro. O assassino usou uma arma diferente, uma automática .22.
David virou-se para o deputado da Shin Bet:
- Uri?
- Eles usaram dois veículos. Um caminhão carregado com sentex destruiu a barreira. Então, por uma brecha entre o escombros, penetrou um volkswagen, cheio de explosivos, e foi lançado contra a aia arqueológica.
- Lamentável, mas temos de admitir: foi uma tática brilhante - disse o primeiro-ministro.
Ninguém comentou. David virou-se novamente para Uri e ordenou:
- Prossiga.
- Nós temos fortes razões para acreditar que uma terceira pessoa, conhecida pelo nome de Dante, está por atrás do ataque ao museu. Duas vezes, disfarçado de garçon, ele visitou o quarto 1004 no Hotel dos Reis. Não tenho nenhuma dúvida de que ele matou nosso agente e eliminou Chiesa e os dois árabes.
- Queima de arquivo- sugeriu Ariel.
Foi a hora do chefe da polícia de Jerusalém falar:
- Sem nenhuma dúvida. O caminhão foi dirigido por um palestino que pertencia aos "Guerreiros de Alá ", controlados por Abdula. O corpo dele ficou desfigurado , mas nós conseguimos identifica-lo. Ele já tinha sido preso duas vezes por tráfico de drogas. O nome dele é Omar Nagib. Quanto a Yussef, ele provavelmente estava no lugar errado na hora errada.
David perguntou, para ninguém em particular:
- E com respeito a Dimitrov? Nós temos evidência concreta que foi ele quem dirigiu o volkswagen?
O ministro do interior respondeu:
- Sim. Embora o corpo dele estivesse bastante carbonizado, foi possível adquirir uma amostra de fragmentos ósseos para o teste de DNA. Eles combinaram perfeitamente com uma amostra de pele, retirada do barbeador achado no banheiro do apartamento 1004.
- Ótimo! - exclamou David - No momento certo, apresentaremos essas conclusões para o mundo. E vamos ver como o Vaticano reage ...E, sobre esse tal de Dante? Que ele tem alguma conexão com a Igreja é indubitável. Alguma pista?
- Nada até agora. - falou Uri - mas estamos tentando. Interrogamos o pessoal que trabalha no Hotel dos Reis e descobrimos que o falso garçon tinha subornado o homem encarregado serviço de atendimentos aos quartos. Ele é um árabe chamado Jebel Al-Kailani e tem cidadania israelense. Está preso em nosso QG, junto com um cozinheiro que testemunhou quando Dante e Dimitrov cruzaram a cozinha, fugindo pela saída de serviço. Um desenhista está agora com eles, tentando obter o retrato falado desse Dante. Deve estar pronto em breve.
David insistiu:
- Estou convicto que esse Dante é um agente do Vaticano, possivelmente padre e, talvez, trabalhando em um das igrejas católicas existentes em Israel.
- Nós temos o registro deles todos. - disse Uri - não há ninguém com esse nome. Ele poderia ser qualquer um dos 176 da lista.
- Ou talvez ele não pertença à Igreja e seja um desses terroristas profissionais independentes, cumprindo um contrato com a Santa Sé - sugeriu Ariel.
- O chacal do Vaticano - disse Chaim.
- Algo assim - confirmou o diretor do Mossad.
- Eu mantenho a ideia de que ele é um padre. - insistiu David - Alguns deles são agentes secretos, capazes de executar qualquer espécie de atividade espúria, como explodir edifícios e matar testemunhas. Minha única dúvida é se ele ainda está em Israel ou já deixou o país.
Ariel expôs sua opinião:
- O lógico seria ele tentar deixar Israel, o mais rápido possível. Dante sabe que, não importa quanto cauteloso tenha sido, sempre há a chance de ter deixado algum vestígio. Então, o melhor para ele seria correr para Roma onde estaria debaixo da proteção do Vaticano. E, se ele fugiu ou está fugindo, os caminhos óbvios são a Allenby Bridge ou o Ben Gurion.
- Bem lembrado, Ariel - disse o primeiro-ministro - e virando-se para o ministro do interior, ordenou:
- Descubra se qualquer padre católico deixou Israel nas últimas horas e, nesse caso, verifique a razão que ele deu para partir. Consiga, também, uma cópia da fotografia do passaporte dele, para ser comparada com o retrato falado que o artista de Uri está tentando construir.
Moche se levantou e disse:
- Você terá todas essas informações dentro de uma hora.
E deixou o gabinete. O primeiro-ministro voltou a falar:
- Cavalheiros, que tal um adiamento? A viida continua e acredito que todos aqui estão cansados e famintos. Reiniciaremos a sessão dentro de duas horas.
* * * * *
Capítulo 43
Jerusalém, gabinete do primeiro-ministro, tarde de 20 de julho de 200_
A reunião reiniciou ao redor das 14:00 horas. O ministro do interior abriu uma pasta, retirou dela inúmeros papéis, selecionou alguns, olhou para David, recebeu um gesto de aprovação e disse:
- Muito bem, vamos aos fatos: um padre realmente deixou Israel esta manhã, em um avião com destino à Nova Iorque. Trata-se do monsenhor Andrea Fontana, vigário da Igreja de Pater Noster. O inspetor de serviço no Ben Gurion o submeteu a uma severa interrogação, mas não notou nada suspeito nas respostas que o padre deu. Ele também verificou que a razão alegada para a viajem era verdadeira: um seminário promovido pelas Nações Unidas sobre Coexistência Religiosa no Oriente Médio. Irônico, não acham? Aqui está a fotografia de Fontana.
Moshe parou de falar e fez passar cópias da fotografia. Então, continuou:
- E aqui está o retrato falado de Dante feito pelo artista, de acordo com a descrição dos empregados de hotel.
Distribuiu novas cópias e prosseguiu:
Observem que Dante tem cabelo vermelho, olhos azuis e um rosto roliço. Por outro lado, as fotografias de Andrea, tanto a do passaporte, quanto uma outra de nossos arquivos, revelam um homem de cabelo escuro, olhos marrons e uma face escavada. Mostramos o retrato falado ao inspetor do aeroporto. Ele declarou que as características faciais do padre que interrogou eram muito diferentes. Mostramos as fotografias de Andrea aos empregados do hotel. Eles não as reconheceram como sendo do misterioso Dante.
- Não obstante, o Andre pode ser o Dante, usando um disfarce sempre que ia ao hotel. - argumentou Ariel.
- Sim, é possível, - admitiu Moche - mas como podemos provar isto? A realidade é que continuamos não sabendo, na realidade, quem este enigmático Dante e qual a sua verdadeira face.
- Ariel, - disse David - use todos os recursos do Mossad para descobrir tudo que for possível sobre este Andrea Fontana. Bem, cavalheiros, resumirei o que eu penso e vamos ver se você concordam ou não. Primeiro: dispomos de prova irrefutável que Dimitrov dirigiu o carro que explodiu a ala arqueológica. Segundo: também sabemos que a ordem para atacar o museu veio do Vaticano, visando destruir documentos que poderiam afetar o cristianismo. Mas, se nós declararmos isto abertamente, eles negarão, acusando o dominicano de ser um lunático que agiu em parceria com os palestinos, sem o conhecimento deles. Terceiro: minha intuição continua dizendo que Andrea Fontana é o nosso homem. Cabelo tingido, lentes de contato, silicone ou borracha dentro das bochechas e... Tchan!: Andrea se torna Dante. E, quase certamente, foi ele quem comandou a operação inteira e matou Chiesa os dois árabes, porque eles eram capazes de o identificar. É assim que vejo esse caso. O que acham vocês?
Todos acenaram concordando.
- Muito bem, então. - continuou David - Agora, o que deveremos declarar oficialmente? A mídia está apertando e o público está ansioso para saber a opinião do governo. Eu convoquei a imprensa para uma entrevista coletiva hoje, às 20:00 horas. O que devo dizer?
* * * * *
Capítulo 44
Jerusalém, tarde e noite de 20 de julho de 200_
Em torno das 15:00 horas, Chaim ligou para informar que, devido aos recentes eventos,o inquérito final sobre o assassinato dos dois policiais havia sido adiado "sine diae". Assim, eu estava livre para deixar Israel quando quisesse, contanto que desse uma referência para contato, no caso das autoridades israelenses desejarem meu testemunho. Eu agradeci, e forneci endereço, telefones e e-mail da sede do nosso instituto em Londres. Trocamos "shalom" e desligamos, Em seguida, eu fui ao escritório da El-Al e comprei uma passagem para o vôo que deixará o Ben Gurion às 08:00 (hora local) de amanhã, chegando em Nova Iorque às 16:00 (horário do leste americano). Depois, liguei para a Daniele no Four Stars Hotel e falei que jantaríamos juntos no dia 21. Após várias promessas de amor, dissemos "até amanhã " e desliguamos.
* * * * *
Capítulo 45
Jerusalém, noite de 20 de julho de 200_
David Berger não contou tudo que sabia, mas disse o bastante para satisfazer a sêde por informação da imprensa e do povo de Israel. Ele começou revelando que arqueólogos tinham achado, na cratera do extinto Santo Sepulcro, um pote de barro, do primeiro século, contendo pergaminhos escritos pelo fariseu José de Arimateia, o homem que, segundo o novo testamento dos cristãos, enterrou Jesus Christo. Depois, contou que o Vaticano tinha enviado dois padres para acompanhar as escavações, mas que, na realidade eles tinham vindo a fim de espionar e tentar tomar se apossar dos pergaminhos ou destrui-los, já que a Igreja temia que eles contivessem informações capazes contradizer algum dos dogmas do cristianosmo/ Disse, ainda, que o secretário de estado da Santa Sé lhe escrevera uma carta, solicitando que Israel não publicasse o conteúdo dos pergaminhos sem o conhecimento e aprovação do Vaticano. E revelou tambem que a Igreja Católica, não tendo tido uma resposta de compromisso de parte do governo israelense e percebendo a impossibilidade de roubar os documentos, decidiu desrui-los, explodindo o Museu de Israel, através da ação de seus próprios agentes com a ajuda de três palestinos. Contou que o frade Dimitrov, morreu enquanto perpetrava o ato terrorista e o outro, padre Chiesa, foi achado morto junto dos corpos de dois dos árabes que tinham participado da conspiração. Que o terceiro árabe tinha sido morto durante o ataque ao museu. O primeiro-ministro admitiu que, até o momento, a polícia não tinha nenhuma pista relativa ao assassinato de Chiesa e dos dois árabes. Que, naquele exato instante, o Governo de Israel acusava os homens da hierarquia católica de serem os mentores de um ato criminoso, executado em território israelense e contra um patrimônio inestimável do povo judeu. Que uma carta de protesto seria enviada ao Vaticano, com cópia para o Secretário Geral das Nações Unidas. E que, oportunamente, Israel apresentaria, ao Tribunal Internacional de Haia, um pedido de reparações pelas perdas sofridas. Mas o primeiro-ministro não disse uma única palavra sobre o enigmático Dante...
* * *
Uma hora depois, no Knesset, David Berger não acrescentou nada ao que tinha revelado à imprensa. A existência do misterioso Dante permaneceria um segredo compartilhado apenas por alguns poucos, para não perturbar as investigações do Mossad, em sua tentativa para descobrir tudo que fosse possível em relação ao monsenhor Andrea Fontana.
* * * * *
Capítulo 46
Nova Iorque, 24 de julho de 200_
Depois de três noites de intenso amor e dois dias de caminhada por Manhattan, tendo se encantado com os espetáculos da Broadway, jantado em Greenwich Village, visitado a Estátua da Liberdade e assistido um recital de Plácido Domingues no teatro do Lincoln Center, Dani e eu, na manhã do quarto dia de minha estadia em Nova Iorque, caminhavamos de mãos dadas no Central Park . A princípio, eu tinha planejado voar no dia seguinte para Londres, mas um fato inesperado nos forçou a adiar a viagem.
- Amor, - disse eu - vamos ter de passar mais algumas semanas aqui.
- Por que? Eu estou ansiosa para saber o que o homem que enterrou o Jesus escreveu.
Sorri e expliquei:
- Eu também. Mas hoje cedo, enquanto você ainda estava dormindo, liguei para a residência do van Heusing em Amsterdã e ele me falou ser impossível ir agora à Inglaterra, pois tinha de seguir, imediatamente, para o Cairo, a fim de traduzir os hieroglifos de alguns papiros recentemente descobertos nas proximidades de Alexandria. Mas que estaria a minha disposição depois de 15 de agosto. Eu notifiquei o Charles e o Hezi e decidimos nos encontrar em Londres no dia 17 de agosto.
Convidar o inglês e o israelense era, para mim, uma obrigação e um reconhecimento, porque, sem a colaboração deles, eu não estaria, agora, de posse dos filmes que continham o testemunho de Arimateia. Daniele apertou o corpo dela contra o meu e disse:
- Está bem. Desfrutemos, então, um pouco mais de Nova Iorque.
Eu a beijei ligeiramente nos lábios e ela perguntou:
- Onde iremos nos encontrar em Londres, no Instituto?
- Não, a presença de van Heusing daria origem a comentários e eu quero evitar que o Vaticano e o Mossad suspeitem que estamos de posse do filme. Teríamos sérios problemas se isso acontecesse. A Igreja já causou muitas mortes e danos materiais, destruindo o testemunho de Arimateia. Eu estou seguro que a cúria romana não hesitaria e tentar roubar os documentos. Por outro lado, o governo israelense nos processaria por remover o filme do país sem o conhecimento deles. Não, minha querida, nós nos encontraremos em um lugar seguro e tranquilo: o Hotel Mayflower. É discreto e confortável. Lá, van Heusing fará a tradução e então nós finalmente saberemos o que Arimateia escreveu nos pergaminhos.
Fiz uma pausa e continuei:
- Charles já está em Londres e Hezi cuidará da sua própria passagem. Eu já fiz a nosso reserva. Deixaremos o JFK, pela British Air Line, na noite de 14 de agosto, chegando em Londres às 10:00 horas do dia seguinte. Isso nos dará algum tempo para passear pela cidade antes do encontro com os outros.
* * * * *
Capítulo 47
Roma, 24 de julho de 200_
O Osservatore Romano, o jornal oficial do Vaticano, publicou hoje a resposta da Santa Sé ao governo israelense, negando qualquer participação no ataque ocorrido em Jerusalém e afirmando que frade Dimitrov agiu loucamente, sem o conhecimento do Vaticano. A carta também sugere que o governo de Israel deveria considerar a possibilidade do dominicano ter sido usado por terroristas palestinos, os quais, tirando proveito da perturbação mental do frade, convenceu-o a praticar o ataque suicida. Também solicitava que a policia de Jerusalém agisse com mais empenho para descobrir o assassino do padre Chiesa.
Deste modo, o Vaticano tentava passar da condição de vilão à de vítima inocente. Se Israel realmente decidir "abrir fogo" contra a Santa Sé, então há que se prever uma longa e dolorosa batalha judicial no Tribunal de Haia...
*****
Capítulo 48
Roma, primeiros dias de agosto de 200_
Uma vez, o diretor do Mossad fez um comentário sobre a fama que a sua organização tinha de ser um dos mais eficientes serviços secretos do mundo.
- Isto se deve- disse ele - ao fato de que todo judeu, onde quer que esteja, sempre será um espião em potencial para Israel. Esses possíveis agentes, - ele continuou - espalhados pelo planeta, é um dos frutos da diàspora.
E o mesmo acontece com a Igreja Romana. Controlada pela cúria, existe uma vasta rede de informantes, composta de padres, bispos, católicos laicos e funcionários das embaixadas da Santo Sé, em países com os quais o Vaticano mantém relação diplomática. Todos os dados enviados por esses informantes são analisados e, depois guardados, com outros documentos importantes, nos Arquivos Secretos, situado na ala Belvedere, em uma imensa biblioteca . Nessa ala há uma área não reservada, onde é permitido, a qualquer um, consultar sobre bulas papais, códigos canônicos, resumos de conselhos, biografias de papas, livros sobre a vida de santos, a história da Igreja (uma versão censurada, naturalmente), os escritos famosos de São Agostinho e de São Tomàs de Aquino e muitos outros inocentes documentos. Nos Arquivos Secretos, porém, são mantidos todos os documentos que a Igreja quer manter em segredo, como a verdadeira razão para as cruzadas, atrocidades executadas pelo Inquisição que nunca vieram a público, a libertinagem e os negócios sujos de papas e curialistas, o destino do dinheiro coletado pelas indulgências, os acordos entre Pio XII e os nazistas, a passividade relativa do Vaticano em relação ao holocausto e, finalmente, as atividades da rede de espionagem e de "execução" comandada pela hierarquia clerical.
* * *
E era precisamente este último item que interessava à equipe de agentes do Mossad que tinham chegado na Itália,um dia depois de David Berger ter ordenado que Ariel vasculhasse a vida e as atividades de monsenhor Andrea Fontana. Eles eram três, tinham vindo de diferentes países na Europa, e, agora, estavam acomodados no discreto Hotel Anglo-Americano, sob falsas identidades.
* * *
O Ofício dos Arquivos Secretos é dirigido por um prefeito. O atual, monsenhor Francesco Montese, é um homem de idade madura e de boa memória, mas dono de um personalidade fraca, e que já tinha servido a cúria em várias funções. Ele foi designado para a tarefa atual, quatro anos antes, pelo cardeal Giovanni Vecelio, a quem dedicava a mais absoluta fidelidade. Montese tinha, sob seu comando, cinco padres auxiliares e nove empregados, distribuidos entre as várias seções dos Arquivos.
* * *
Depois de seguirem, durante duas semanas, os passos e estudado os hábitos dos empregados que trabalhavam nos Arquivos Scretos (cujos nomes e retratos foram providos pelo homem encarregado de chefiar as operações do Mossad na Europa meridional), os agentes de Isreal escolheram dois, que pareciam ser mais facilmente abordáveis, porque, após sairem do Vaticano, ao redor das 18:00 horas, iam para um bar, no Via della Conciliazione, onde ficavam, durante algum tempo, conversando e bebendo vinho ou cerveja. Posteriormente, eles se separavam, cada um tomando o seu destino. O mais velho dos dois, Paolo Rossini, era de meia idade, face inteligente, magro, parecendo estar em boas condições físicas e, de acordo com o dossier dele, casado e pai de três. O mais jovem, Domenico Santini, 23 anos, de aparência frágil, parecendo mover excessivamente os quadris ao caminhar, era solteiro e vivia só, em um apartamento na rua Cavour.
* * *
O time israelense era comandado por Gabriel, um sabra na casa dos quarenta, de média estatura, ágil e musculoso, um veterano agente de campo, que falava italiano fluentemente e se fazia passar por um sociólogo grego chamado Dimitri. Depois, vinha Ari, grande e forte, 24 anos, loiro, olhos azuis, um autêntico 'Apolo', falando italiano com acento de francês e fingindo ser diretor de uma empresa cinematográfica, à procura de locais adequados, para o fime que a companhia dele pretendia rodar em Roma. E, finalmente, Daniel, o mais jovem do grupo, com apenas 20 anos ; sem experiência de campo, mal "arranhando" o italiano, ele era um gênio em eletrônica e trabalhva dando cobertura às atividades dos companheiros. Ele também tinha a mania de tentar adivinhar o caráter das pessoas, agindo como um psicólogo amador e tendo ganho, por isso, o apelido de "caçador". E foi precisamente Daniel quem, na quarta ida ao bar, falou que o tal de Domenico era gay e não tirava os olhos do Ari. Em relação a Paolo, deduziu Daniel que ele era um sujeito sovina e, como tal, possivelmente interessado em ganhar um dinheiro fácil, sempre que possível. Baseava esta suposição no fato de que, quando o italiano saia do bar , - e ele já não era um homem jovem - sempre caminhava quinze quarteirões até o lugar onde morava, em vez de pegar um dos incontáveis ônibus que o dexariam, virtualmente, na porta de casa. Mas se ‘o caçador " acertara em cheio a respeito de Domenico, falhara totalmente em relação a Paolo. O italiano ia a pé, pela simples razão de gostar de caminhar. Não constava no dossier do Mossad a informação de que Paolo tinha sido, no passado, um fervoroso maratonista.
* * * * *
Capítulo 49
Roma, 05 de agosto de 200_
Seguindo a intuição de Daniel, o time montou um plano, aparentemente simples, para obter o dossier de Andrea Fontana: Ari tentaria seduzir Domenico e Gabriel tentaria subornar Paolo. A aproximação se faria no bar onde os italiano iam depois de deixaemr o Vaticano. Nas primeiras quatro noites, os israelenses beberam e conversaram em voz alta, tentando se fazerem conhecidos e aceitos com naturalidade pelos outros clientes. Na quinta noite, já não se considerando estranhos, eles partiram para a abordagem. Ari não teve dificuldade, porque, desde a primeira noite, Domenico lhe lançava olhares bem sugestíveis. Entabolaram uma conversação e, ao redor das 22:00 horas, o ‘Apolo' israelense e o alegre italiano sairam juntos do bar.
Gabriel usou a "tática de colisão": em um determinado momento, quando Paolo estava passando perto da mesa ocupada pelo israelense, Gabriel se levantou, de repente, e colidiu com o italiano. Desculpas foram seguidas de conversas. De forma que, quando o italiano saiu, Gabriel o acompanhou e eles começaram a caminhar, enquanto davam continuidade à conversa banal iniciada no bar. No princípio, prosseguiram com as banalidades. De repente, o israelense perguntou:
- Paolo, você trabalha no Vaticano, não é?
O outro, um homem experiente que trazia no seu sangue siciliano uma desconfiança inata por estrangeiros, parou, ergueu uma das sobrancelhas e respondeu com outra pergunta:
- O que o faz pensar assim?
Gabriel também parou e sorriu.
- Eu fui visitar, hoje à tarde, a Basilica de São Pedro e, quando estava deixando o local, tive a impressão de ver você saindo por uma das saídas laterais e sendo cumprimentado por um guarda suíço.
O desconfiado italiano fez outra pergunta:
- A que horas?
- Oh, eu penso que foi em torno daas 18:00 horas, mas talvez esteja enganado. Poderia ter sido outra pessoa parecida com você. - respondeu Gabriel , tentando mostrar indiferença, e voltando a caminhar.
A atitude do israelense desmantelou a desconfiança. Paolo também começou a caminhar e disse: - Não, Dimitri, você tem razão. Era eu mesmo.
- Então talvez você conheça um padre que eu encontrei, recentemente, em um seminário em Nova Iorque. Nós comparecemos juntos a algumas reuniões e ele disse que logo estaria volta ao Vaticano.
- Qual é o nome dele? - perguntou Paolo
- Andrea. Não consigo recordar exatamente o sobrenome, mas pareceu algo assim como Pantana ou Santana. Não, estou lembrando agora: era Fontana. Sim, monsenhor Andrea Fontana. se não me falha a memória. Um homem muito inteligente.
O nome "Andrea Fontana " fez soar uma campainha de alarme na mente de Paolo. Por coincidência, no dia anterior, seu chefe, o prefeito dos Arquivos Secretos, lhe dera um envelope lacrado onde estava escrito: "Andrea Fontana - Confidencial ", recomendando que fosse arquivado na Seção "S", onde eram mantidos documentos que só poderiam ser consultados a pedido do papa ou do secretário de estado. O fato trouxe de volta a desconfiança de Paolo. E, sem saber, Gabriel passava da condição de interrogator a de interrogado.
- Andrea Fontana, não foi mesmo esse o nome que você mencionou? - insistiu o italiano
- Sim, foi.
- Eu sei quem ele é. Chegou de Nova Iorque três dias atrás. Mas como você disse, ele deve ser mesmo muito inteligente, para ter sido logo designado para servir como assistente do cardeal Vecelio.
Gabriel fingiu ignorância
- Vecelio? Quem é ele?
Paolo abaixou o tom da voz:
- O secretário de estado. Um homem muito poderoso...
- Nossa! - exclamou o israelense, fingindo surpresa - Como eu poderia adivinhar que monsenhor Andrea era tão importante? Aflige-me não ter tido a chance de o conhecer melhor. Mas você é um homem do Vaticano, Paolo, e sabe das coisas. Fale-me um pouco sobre o monsenhor.
A desconfiança do italiano evoluiu para a suspeita. Mas a curiosidade também tinha crescido. Ter o nome na seção "S" significava que alguma coisa muito séria ou extremamente importante estava assinalada no dossier de Fontana. Por que aquele estrangeiro estava tão interessado? Só por curiosidade ou existia outra intenção? Foi quando outro pensamento estourou na mente de Paolo: ele tinha certeza de ter visto, no passado, o nome de Andrea associado a outro assunto. Mas qual? Ao mesmo tempo, Paolo começou a ver uma oportunidade de crescer diante do seu chefe. Se ele conseguisse descobrir as reais intenções do sociólogo grego - se ele fosse o que dizia ser- em relação a Andrea e passasse a informação ao prefeito dos arquivos secretos...talvez... uma promoção.., E só havia um modo de descobrir: dar bastante ‘corda' ao Dimitri e ver até onde ele iria. Enquanto puxava pela a memória, Paolo começou a pesquisar:
- Sim, eu penso que posso lhe contar algumas coisas sobre monsenhor Fontana. Mas, Dimitri, por que você está tão interessado nele?
Gabriel sentiu, pelo tom da voz do italiano, uma mistura de desconfiança e astúcia. Mas ele estava acostumado com aquele tipo de jogo. Se mostrasse, agora, desinteresse pelo assunto, certamente acabaria com a desconfiança de Paolo. Porém, agindo assim, deixaria passar uma oportunidade que talvez não se repetisse. E embora o italiano estive tentando descobrir algo a seu respeito, Gabriel resolveu correr o que considerava um risco calculado. Afinal de contas, a missão dele era se informar, o máximo possível, sobre Andrea. Assim, decidiu sustentar a história que tinha construído:
- Bem, eu não gosto de falar muito sobre isso, já que se trata de um projeto que ainda está na fase inicial.
Agora, foi Paolo que se sentiu confundido.
- Projeto? Eu não estou entendendo.
- Eu explicarei. Como lhe falei antes, eu sou sociólogo e professor na Universidade de Atenas. Acontece que estou pensando em preparar uma tese sobre o papel da Igreja Católica no terceiro milênio. É um projeto audacioso, que exige conhecer o modo de pensar de padres que, amanhã, poderão se tornar líderes da Igreja e conduzi-la à novos caminhos, mais adequados com a realidade do mundo globalizado do nosso tempo.
- E você pensa que Andréa Fontana pode ser um deles...
- Considerando a inteligência e perspicácia que ele demonstrou no seminário em Nova Iorque, eu diria ‘sim'.
- E eu acredito que você tem razão, - disse Paolo, dando continuidade ao plano que tinha imaginado: descobrir o real interesse do outro em relação ao monsenhor.
- O que você quer dizer com isso? - perguntou Gabriel, sentindo que estava ganhando terreno.
- Vou lhe confiar uma notícia que, pelo menos durante alguns dias, não deveria ser revelada.
- Não se preocupe. Eu ainda estou longe da fase de escrever a tese. Por enquanto, estou apenas coletando material.
- Muito bem. Dentro de uma semana, monsenhor Fontana será promovido a bispo.
Gabriel fez um ar de surpresa.
- Bispo? Mas ele ainda é tão jovem. Andrea deve ter feito algo muito importante para a Igreja a fim de merecer tamanha promoção.
Foi exatamente nesse momento que a memória de Paolo detonou. Ele acabara de se lembrar quando e onde tinha visto, anteriormente, o nome de Andrea: há quatro anos atrás, em um ato baixado pelo çardeal Vecelio, nomeando-o vigário da Igreja de Pater Noster... em Jerusalém. E Paolo começou a reunir certos fatos: o que o grego - ele realmente seria grego? - dissera há pouco ?: " ele deve ter feito algo muito importante para a Igreja "... o ataque contra o Museu de Israel; o envolvimento do frade Dimitrov; as acusações do primeiro-ministro israelense contra o Vaticano; a resposta do Osservatore Romano... Poderia Andrea estar envolvido na ação terrorista? Seria esta a razão para a promoção do monsenhor? Seria esta a razão para o estrangeiro desejar obter informações relativas à Fontana? E veio à mente o inevitável corolário : quase certamente, o homem que lhe havia dito chamar-se Dimitri não era nenhum sociólogo grego e sim um agente da inteligência israelense. E havia uma única maneira de ter certeza absoluta: fingir inocência e dar ao outro a chance de tentar lhe subornar, revelando, assim, a sua real intenção. Tudo isso passou pela mente de Paolo durante apenas alguns segundos. Ele reiniciou o diálogo:
- Concordo. Eu também acredito que o monsenhor deve ter feito algo muito importante. Mas ...você sabe como são as coisas no Vaticano... eles mantêm tudo no maior segredo.
Gabriel simulou um ar de decepção.
- É uma pena. Eu daria qualquer coisa para começar minha tese falando sobre um clérico tão promissor como Andrea.
Paolo entrou no jogo:
- Talvez haja um meio... mas é difícil e perigoso.. Como disse, todas as informações secretas são muito bem guardada. Tentar obte-las é sempre é muito arriscado.
Gabriel pôs as cartas na mesa:
- Difícil não significa impossível, meu caro Paolo. E grandes riscos merecem grandes recompensas...
Paolo simulou uma retirada:
- Por acaso você está pensando em me subornar?
- Subornar não é a palavra certa... recompensar é mais apropriado. Resta saber se você tem mesmo condição de obter o que eu desejo.
- Eu trabalho nos arquivos secretos do Vaticano...
- Eu quero o dossier confidencial do monsenhor Fontana .
- Por quanto?
- Dez mil dólares.
Paolo abriu um sorriso irônico:
- Desse jeito a sua tese vai ficar bastante cara.
O israelense sorriu.
- Eu posso pagar.
- Se você realmente pode, então dobre a oferta.
- Pelo dossier completo?
- Sim.
- Uma cópia não será uma prova concreta da autenticidade do documento. Eu quero um microfilme do dossier inteiro.
- Você o terá ...por vinte mil dólares.
- Ok. Quando?
- Depois de amanhã, às 21:00 horas. No banheiro dos homens, no bar que nós frequentamos. Em notas de vinte e de cinquenta.
- Negócio fechado.
Paolo deixou de caminhar e disse:
- Eu moro aqui perto. Nss veremos depois de amanhã. Ciao!
Trocaram um aperto de mão. O italiano cruzou a rua, entrou em um corredor escuro e desapareceu. Gabriel esperou por alguns minutos e pegou um táxi para o hotel.
* * *
Meia hora depois, no quarto 307 do Hotel Anglo-Americano, os três agentes trocaram informações. Gabriel dirigiu-se a Ari:
- Como foi?
- Um pouco difícil. O "gay" admitiu ter acesso aos arquivos secretos, bem como ter a possibilidade de remover o dossier de monsenhor Andrea. Mas, ao mesmo tempo, tem medo de enfrentar os riscos. No fim acabou por concordar. Contanto que eu copie ou fotografe o dossier na presença dele. Ele quer devolve-lo na manhã seguinte. Marcamos um encontro para amanhã, às 22:00 horas, no apartamento dele. Decorei o endereço.
- E para adquirir o dossier você prometeu enfiar o pau no rabo dele a noite inteira, não foi esse o trato? - disse Daniel, sacaneando o colega.
O "Apolo" não pareceu gostar da piada.
- Vá se foder, Daniel. E virou-se para Gabriel:
- E você, como foi?
- Não estou certo, Ari. No princípio, Paolo foi um osso duro de roer, mas quando cheirou dinheiro, o italiano começou a amaciar. Prometeu entregar um microfilme do dossier completo de Andrea, depois de amanhã, em troca de vinte mil dólares. Mas minha intuição continua dizendo que, talvez, ele tenha fingido aceitar o suborno, enquando, de fato, só pretendia conhecer a minha intenção. Nesse caso, Paolo me denunciará aos chefes dele no Vaticano, e, quando eu entregar o dinheiro, serei preso em flagrante. Então, devemos estar atentos e preparados para tudo...inclusive ter de sair às pressas da Itália. Logo, cuidado quando se encontrar com a "bicha" amanhã de noite.
- Não preocupe. Gabriel, eu estarei alerta.
* * * * *
Capítulo 50
Roma, noite de 05 de agosto de 200_
Católico fervoroso, Paolo era totalmente fiel à Igreja e jamais trairia o Vaticano, aceitando o suborno daquele homem que, agora não tinha a menor dúvida, era um agente do Mossad. Ao se deitar, depois de ter decidido a maneira de como abordar seu chefe, a respeito da proposta que recebera do estrangeiro, Paolo se lembrou, de repente, que Domenico tinha deixado o bar na companhia do "Apolo", o qual, certamente, também era um agente israelense.
Até então, o fato de Domenico ser um homossexual assumido não o tinha incomodado. Mas, agora, isto passara a ser motivo de sérias preocupações. Ele conhecia a fragilidade inerente aos homossexuais e sabia que Domenico "perdia a cabeça" quando se apaixonava. Paolo começou a temer que, seduzido pela beleza do gigante "Apolo", Domenico se submeteria a qualquer demanda do outro, em troca de favores sexuais. Incluindo, por que não?, a entrega do dossier confidencial de Andrea Fontana.
* * * * *
Clique Aqui para continuar