O HOMEM QUE ENTERROU O JESUS
Capítulo 51
Cidade Vaticano, manhã de 06 de agosto de 200_
Paolo só conseguiu conciliar o sono perto do amanhecer. Assim, ele acordou mais tarde do que o habitual e, por conseguinte, chegou ao Vaticano depois da horário costumeiro. Às 10:00 horas, ele foi até o escritório do prefeito dos Arquivos Secretos, mas Silvia, a secretária, informou que o monsenhor estava em reunião com o cardeal Santini e só estaria de volta em torno do meio-dia. Paolo disse que era imperativo falar com o monsenhor e Silvia prometeu avisa-lo assim que o chefe voltasse.
* * *
Para chegar à Sala do Meridiano, Paolo tinha de passar, inevitavelmente, pelo corredor que dava acesso à Torre dos Ventos, onde Domenico trabalhava. Eles colidiram no corredor e Paolo notou imediatamente que o outro parecia nervoso e preocupado. Suspeitando o que estava se passando na mente do homossexual, ele perguntou:
- O que está acontecendo com você, Domenico? Algum problema?
O outro fez um gesto irritado com a mão e respondeu, asperamente:
- Não há nada errado, Paolo, nada, está me ouvindo? Eu só estou ocupado e cansado. Tenho muitos documentos para classificar. Isso é tudo. Assim, por favor, deixe-me em paz.
Ele se afastou e entrou na Torre.
- Ocupado, uma porra! - disse Paolo para si mesmo - Você está com mais medo que um coelho assustado. Eu sei o que pretende fazer e estarei de olho em você.
Paolo entrou no Quarto dos Pergaminhos, deixando a porta entreaberta. Ele se colocou em uma posição de onde podia ver a saída da Torre dos Ventos, sem ser visto por quem saisse de lá. Apanhou uma ficha do arquivo e, fingindo estar lendo, permaneu atento, espiando e esperando. Aproximadamente vinte minutos tinham decorrido, quando a paciência dele foi recompensada. Domenico apareceu na porta. Paolo recuou um pouco e continuou observando por uma fresta estreita entre a parede e a porta semi-fechada. O homossexual deu um passo para fora e olhou para ambos os lados do corredor. Ninguém à vista. Àquela hora, os padres e os empregados, ou estavam ocupados dentro de suas salas de trabalho, ou tinham se retirado para o almoço. Caminhando na ponta dos pés, Domenico se moveu, rapidamente, na direção da ala onde ficava a Seção "S". A suspeita de Paolo evoluiu para a certeza: o idiota ia pegar o dossier confidencial de Andrea Fontana, afim de leva-lo para o "Apolo".
* * *
Em todas as salas dos Arquivos Secretos há um telefone que, quando se disca um certo número, alguém responde na sede da guarda suíça. Paolo foi ao telefone, discou 177, identificou-se, explicou o que estava acontecendo e pediu que fossem enviados, imediatamente, dois guardas para a seção "S". Em seguida, quase correndo, dirigiu-se à Ala Belvedere. Ele e um dos guardas chegaram ao mesmo tempo à porta da seção. Quietamente, entraram no vasto aposento, cheio de estantes, e começaram a procurar. No quinto corredor, encontraram Domenico, removendo um envelope de uma das estantes. O "gay" notou a presença deles, derrubou o envelope e cobriu a face com as mãos, tremendo e chorando. Paolo olhou para o envelope no chão . Estava escrito: Andrea Fontana - Confidencial. O segundo guarda chegou no momento exato em que o primeiro algemava Domenico que, com lágrimas rolando pela face, foi levado para fora, sem resistência. O homossexual foi conduzido à sede da guarda suiça e colocado em uma cela. Na seção "S", Paolo apanhou o envelope e depositou-o em seu lugar na estante. Naquele momento, seu celular tocou. Era Silvia, informando que o prefeito o esperava no escritório dele.
* * *
Meia hora depois, Paolo havia terminado de informar monsenhor Francesco Montese, sobre tudo que aconteceu. O prefeito louvou a atitude do seu subordinado e prometeu sugerir ao secretário de estado que Paolo fosse devidamente recompensado. Em seguida, Montese pegou o telefone e fez uma ligação, solicitando uma audiência urgente com o cardeal Giovanni Vecelio.
* * * * *
Capítulo 52
Cidade Vaticano, tarde de 06 de agosto de 200_
Giovanni, sentado em sua cadeira giratória, por atrás de uma magnífica mesa de mogno, ouviu com atenção a dissertação do monsenhor. Dez minutos depois, chamado pelo prefeito, Paolo entrou no gabinete do secretário de estado. Ele beijou o anel do cardeal e sentou-se em uma cadeira perto de Francesco. Vecelio pediu que Paolo repetisse o que tinha contado a Montese. Embora um pouco nervoso por estar na presença de Sua Eminência, ele repetiu tudo, quase palavra por palavra. Quando Paolo terminou, o cardeal disse:
- Parabéns, Paolo. Você demonstrou uma mente afiada e sagacidade. Não é fácil ludibriar os agentes do Mossad. Prestou um grande serviço à Igreja e terá a recompensa que merece. Agora, vá com Deus. Eu preciso ter uma conversa privada com o monsenhor.
Paolo se ergueu, beijou o anel do cardeal e se foi. Quando estavam a sós, Vecelio perguntou a Montese:
- Onde está agora aquele pervertido?
- Em uma cela na sede da guarda suíça, Eminência.
- Ele nos traiu, Francesco.
O outro concordou, com um gesto da cabeça.
- Quem trai a Igreja não merece perdão.
- Naturalmente, Eminência.
- Porém, nós não podemos nos dar ao luxo de mais um escândalo envolvendo o Vaticano. O homossexual miserável tem de ir, mas deve parecer um acidente.
Francesco não disse nada. Giovanni pegou um telefone de cor verde e discou um número. Quando atenderam, ele falou:
- Piazza, eu tenho um trabalho para você.
E o cardeal disse o que desejava que fosse feito. Vecelio desligou, virou-se para o prefeito, encarou-o por um longo tempo e então perguntou:
- Francesco, até onde posso contar com a sua fidelidade?
Montese devolveu o olhar e disse, com naturalidade:
- Até a morte, Eminência.
- Obrigado, Francesco. Fidelidade é uma jóia rara nestes dias. Mas você não se arrependerá por ser fiel. Considerando o estado de saúde do nosso querido papa, não está distante o dia em que o Colégio dos Cardeais se reunirá para escolher o substituto dele. E como a Igreja está cansada de experiências estrangeiras, estou certo que um italiano, mais precisamente, um romano, subirá ao trono de Pedro.
- Eu não tenho nenhuma dúvida, Eminência, de quem será o próximo pontífice.
Vecelio deixou escapar um longo suspiro.
- Creio que nossos pensamentos são idênticos. Salvo algum acontecimento inesperado...
- Não haverá o inesperado, Eminência - Montese disse, com convicção.
Ele estava a par dos rumores que circulavam na cúria e, também, do que os cardeais visitantes comentavam. Por outro lado, Giovanni era o único cardeal vivo nascido em Roma...
Vecelio se ergueu, foi até a larga janela que se abria para a Praça de São Pedro e olhou para fora, em uma atitude meditativa. Durante alguns minutos ele se manteve silencioso, pensando: A cobertura de Dante havia explodido. Assim, Andrea tinha se tornado um risco para a Igreja e para o secretário de estado. Um sério risco, na verdade. Logo, ele teria de ser eliminado. Mas, como fazer isso? Ele pensou em várias opções e finalmente decidiu por um certo plano. Sim, ele sabia como poderia ser feito. Havia riscos, claro que havia. Mas o cardeal estava decidido a corre-los.
Ele deixou a janela, virou-se e disse:
- Francesco, eu preciso de um grande favor seu.
- Tudo que deseje, Eminência.
- O incidente com os israelenses me preocupa. Eles falharam nesta tentativa de obter o dossier secreto de Fontana. Mas não pararão por ai. O Mossad não mede recursos para adquirir o que quer. Dizem que a KGB tinha um lema: " nós nunca esquecemos ". O lema do Mossad é: "nós nunca desistimos". Você se lembra do seqüestro de Eichmann em Buenos Aires? É óbvio que remover alguém do Vaticano é muito mais difícil do que da capital argentina. Por outro lado, não será fácil convencer o ardoroso monsenhor Fontana a ficar limitado dentro dos muros da Santo Sé, para um longo período de tempo. E eu temo que, fora do Vaticano, ele poderá ser capturado pelos judeus. E se isso acontecer, ele lhes contará tudo o que sabe. Eles têm os meios para quebrar a resistência de qualquer um. Andrea se tornou um grande risco.
O secretário de estado fez uma longa pausa antes de dizer:
- Lamentavelmente, meu amigo, ele também terá de ir... E eu terei de cuidar disso pessoalmente. Então, quando ele sofrer um ataque cardíaco fatal amanhã, aqui neste gabinete, eu quero que você esteja presente para testemunhar o fato.
Montese fez uma expressão de total surpresa.
- Minha fidelidade está à sua disposição, Eminência. Mas perdoe-me se eu parecer incrédulo. Como pode saber que Andrea sofrerá um ataque do coração, em uma hora predeterminada?
Giovanni sorriu. Um sorriso frio e cínico.
- Meu caro Francesco, você ainda tem muito que aprender.
O outro abaixou a cabeça.
- É verdade, Eminência.
- Com o tempo você aprenderá muitas coisas. Amanhã, quem sabe?, talvez você tenha uma lição interessante.
Vecelio deixou de sorrir e o tom de sua voz e ficou duro e autoritário:
- Francesco, ponha a mão direita em seu crucifixo.
Mesmo sem entender a razão da ordem, Montese obedeceu.
O cardeal continuou:
- Agora, faça o juramento, por Deus e pela Igreja, de que manterá segredo, até mesmo em seu leito de morte, do você virá a testemunhar amanhã, aqui, neste gabinete.
O monsenhor hesitou não mais que alguns segundos: - Eu juro, por Deus e pela Santa Igreja .
Vecelio dirigiu-se para a porta. Montese fez o mesmo. A reunião havia terminado.
- Muito bem, então - disse Giovanni - você deve estar aqui, amanhã, às 10:00 horas. Eu convocarei Andrea para vir ao gabinete às 10:15.
* * * * *
Capítulo 53
Cidade do Vaticano, noite de 06 de agosto de 200_
Às 23:00 horas, o soldado suíço que estava de serviço no posto da guarda, recebeu ordem de um auxiliar do secretário de estado, determinando que Domenico fosse escoltado até a saída do Vaticano e informado que ele estava livre, mas jamais deveria por os pés no território da Santa Sé.
O homossexual saiu e começou a andar, desanimado, pela Praça de São Pedro, quase totalmente deserta àquela hora. Um carro preto apareceu, vindo de trás do obelisco e parou junto dele. Dois homens, encapuçados e armados, forçaram Domenico a entrar no assento da parte de trás do veículo. Logo, o carro partiu à alta velocidade e foi engolido pela escuridão da noite romana.
* * *
Era quase meia-noite quando Ari entrou no quarto do seu chefe.
- Como foi? - perguntou Gabriel, pondo de lado o jornal que estava lendo.
- Ruim - respondeu o "Apolo", visivelmente decepcionado.
- Eu cheguei ao edifício onde Domenico vive às 22:00 horas. O porteiro interfonou para o apartamento dele mas ninguém respondeu. Fui embora, voltei uma hora depois e ele não havia voltado. Fui até aquele bar na ‘via della Conciliazione e o botequineiro disse que nem Domenico nem Paolo apareceram por lá. Então eu tomei um táxi e vim para cá.
Daniel, que tinha acabado de entrar, sugeriu:
- A bicha deve ter se encagaçado na hora de pegar o dossier e, temendo sua reação, decidiu desaparecer por algum tempo.
- Talvez você esteja certo - disse Ari , sem muita convicção, antes de se dirigir a Gabriel:
- Talvez você tenha mais sorte.
- Não sei, não. Na verdade, não estou gostando nada desse desaparecimento do Domenico. Mas como não há nada que a gente possa fazer a respeito, vamos ver o que Paolo me reserva para amanhã à noite.
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Capítulo 54
Roma, manhã de 07 de agosto de 200_
Como fazia todos os dias, Daniel se levantou cedo e foi até uma banca de jornal, há alguns quarteirões do hotel. Na volta, passando os olhos na Gazzetta del Popolo, sua atenção foi despertada por uma pequena notícia, acompanhada de uma foto, na primeira página, no canto de baixo, à esquerda. Ele parou, leu o texto e disparou na direção do hotel. Tocou a campainha de quarto 307, insistentemente. Gabriel abriu a porta, sonolento e de mau humor.
- Que porra é essa de vir me acordar a esta hora? - perguntou ele, se afastando para permitir a entrada de Daniel.
O outro passou-lhe o jornal e disse:
- Leia o que está escrito no canto de baixo, à esquerda.
Gabriel pegou o jornal, começou a ler e o sono evaporou.
- Volte para o seu quarto e faça as malas. - ordenou ele - não sei o que está acontecendo exatamente, mas sei que nós temos que deixar a Itália imediatamente. Usaremos os passaportes alternativos. Cada um pega um vôo para um país europeu diferente e, de lá, segue direto para Israel.
Daniel partiu. Gabriel chamou o quarto de Ari, falou sobre a nota no jornal, repetiu as instruções que tinha dado a Daniel e desligou. A caminho do banheiro, deu uma última olhada na notícia. Dizia: "Funcionário doVaticano morre atropelado por um carro desconhecido na rua Cavour ". Debaixo da nota, estava o retrato de Domenico Santini.
* * * * *
Capítulo 55
Cidade do Vaticano, manhã de 07 de agosto de 200_
Imediatamente depois de ter feito sua higiene matinal, Vecelio pôs um par de luvas de plástico e afastou o espelho acima da pia do luxuoso quarto de banho, exibindo um pequeno cofre. Ele girou o disco, ajustou a combinação e, depois de abrir a porta, retirou dois frascos sem rótulo e os levou para a kitnet. Lá, abriu a porta do frigobar e apanhou uma garrafa de champanhe, um balde com gelo e duas taças de cores diferentes,: uma verde e uma vermelha. Então abriu os frascos e, cuidadosamente, depositou uma boa quantidade de cada pó na taça verde. Em seguida, o cardeal derramou champanhe nas duas taças e as pôs para gelar dentro do balde. Depois saiu e, no banheiro, recolocou os frascos no cofre. Finalmente, levou o balde para o gabinete, depositando-o em cima de uma mesa em um dos cantos do aposento. Consultou o relógio de pulso: 06:45. Havia tempo de sobra. Giovanni voltou ao quarto, retirou as luvas, guardou-as em uma gaveta e sorriu: a primeira etapa do show fora corretamente montada. Agora, era esperar que os figurantes desempenhassem seus papéis na peça que ele tinha escrito em sua mente privilegiada. Vecelio pegou uma bíblia, escolheu um dos salmos de David e se pôs a ler, à espera que seu criado particular lhe trouxesse o desjejum.
* * * * *
Capítulo 56
Cidade do Vaticano, gabinete do secretário de estado, manhã de 07 de agosto de 200_
Quinze minutos antes das 10:00 horas, Giovanni apertou o botão do interfone e falou com o padre que, na sala de espera, controlava a entrada dos visitantes.
- Padre Amato, eu estou esperando os monsenhores Montese e Fontana, para uma conversa reservada. Enquanto eles estiverem no gabinete, eu não quero ser interrompido por ninguem. Esta claro?
- Sim, Eminência.
- Quando eles chegarem, mande que entrem imediatamente.
- Sim, Eminência.
* * *
Pontualmente às 10:00 horas, monsenhor Montese entrou no escritório, curvou-se para beijar o anel do cardeal e foi se sentar em das poltronas de couro. Vecelio, em um tom que não admitia nenhuma contestação, disse:
- Francesco, observe em silêncio tudo que em breve acontecerá aqui, e não se permita ficar perturbado. É de extrema importância que todo o mundo na sala de espera saiba que, durante a estadia de Andrea neste gabinete, você estava também aqui o tempo todo. No momento certo, eu lhe direi o que deverá fazer. Entendeu bem?
- Sim, Eminência.
Por algum tempo eles permaneceram quietos. Montese acariciava o crucifixo, com a cabeça baixa, o queixo quase tocando o tórax, enquanto Giovanni folheava, distraidamente, alguns documentos dispersos sobre mesa, olhando, de vez em quando, para o local em que estavam as duas taças. Exatamente um minuto antes das 10:15, Amato anunciou que monsenhor Fontana havia chegado. Vecelio se levantou e disse, com tranqüilidade:
- Mande-o entrar.
Andrea entrou, foi até o secretário de estado, curvou-se e beijou o anel cardinalício. Depois, vendo Montese, que já havia se erguido, o jesuíta apertou-lhe a mão e disse:
- É um prazer encontra-lo aqui, monsenhor.
- O prazer é meu, monsenhor - respondeu Francesco, com a voz ligeiramente trêmula e evitando olhar diretamente para o outro.
Enquanto Montese voltava a se sentar, Giovanni e Fontana permaneceram parados, um diante do outro, a roupa preta do jesuíta contrastando com o vestuário vermelho do cardeal. Vecelio foi direto ao assunto:
- Meu caro Andrea, tenho duas revelações para você. A primeira é que, ontem, agentes do Mossad tentaram subornar funcionários dos arquivos secretos para obter seu dossier confidencial. Eles não foram bem sucedidos, mas isso prova que os judeus suspeitam que você é o misterioso Dante que eles estão ansiosos para capturar. E eu temo que os israelenses vão continuar tentando, até conseguirem por as mãos em você e depois, provarem seu envolvimento no ataque contra o museu deles. Eles vão tentar lhe sequestrar, como fizeram com Eichmann em Buenos Aires, muitos anos atrás. Evidentemente, o Vaticano é um lugar mais seguro que a capital argentina. Mas, para sua total proteção, nós teremos que lhe manter dentro dos muros da Santa Sé, por muito tempo, talvez para sempre.
Giovanni fez uma pausa, enquanto notava que o rosto de Fontana tinha ficado pálido e endurecido. O cardeal sorriu intimamente e continuou:
- Eu receio que, considerando seu temperamento, não será fácil para você aceitar uma tal situação...
- Tem razão, Eminência. Eu não acredito poder suportar isso. Vossa Eminência sabe que eu preciso de ação. Nasci para viver lá fora, agindo como agente de campo, não como um burocrata, sentado atrás de alguma escrivaninha. Espero que uma outra solução possa ser encontrada para esta desagradável situação.
Sem saber, com essas palavras, Fontana assinava, definitivamente, seu atestado de óbito. O cardeal deu um passo à frente e colocou a mão no ombro direito do jesuíta.
- Eu sei disso, Andrea. Também não consigo imaginar você limitado dentro do Vaticano. Seu lugar é, como você disse, lá fora, lutando contra os inimigos da Igreja. Você tem razão, nós acharemos uma outra solução.
A expressão de dureza na face de Fontana se desfez.
- Eu agradeço sua compreensão, Eminência.
Andrea tentou sorrir e perguntou:
- E o qual é a outra revelação que tem para mim?
Vecelio abriu um largo sorriso, foi até a mesa, pegou as taças e deu a verde para o monsenhor.
- A segunda revelação é muito mais agradável: sua santidade assinará hoje sua promoção a bispo.
O cardeal recuou um passo, ergueu a taça vermelha e disse:
- Brindemos com champanhe esse momento tão importante da sua vida.
- Um convite de Vossa Eminência é uma ordem - respondeu Andrea.
Eles tocaram as taças e beberam, debaixo dos olhos horrorizados de Montese. O prefeito teve uma suspeita terrível a respeito do que o secretário de estado acabara de fazer. Em um gesto rápido mas delicado, Giovanni retirou a taça verde da mão do jesuíta.
Um longo minuto passou. Então, Andréa deu um passo atrás, levou as mãos ao pescoço, sentindo a respiração lhe faltar, atordoado e percebendo que suas pernas pareciam estar se desmanchando. Por uma fração de segundo, seus olhos cruzaram com os do cardeal e sua mente lhe informou que tinha sido envenenado. Fontana fez um enorme esforço para falar, mas a voz não saiu. A face dele se tornou cianótica e, lentamente, ele foi caindo até o chão. Por um momento, o corpo de Fontana entrou em convulsão, mas logo os movimentos cessaram, ao mesmo tempo que os olhos se arregalaram, exibindo as pupilas irem se dilatando.
A um gesto de Vecelio, o semi-atônito Francesco veio se postar ao lado do cardeal. Um cheiro forte de amêndoas amargas começou a se propagar pelo gabinete. Giovanni foi para a janela e abriu-a totalmente, enquanto ordenava a Francesco quw ligasse os três potentes ventiladores de teto.
- Cianeto - balbuciou Montese.
- Sim. - confirmou Vecelio, sem qualquer rastro de emoção na voz. - Mais cocaína pura. Em doses altas, ambos fazem uma combinação extremamente letal, o efeito se assemelhando ao de um ataque cardiovascular agudo. Mas não se preocupe. O cheiro de amêndoas desaparecerá dentro de alguns minutos.
Apontando para as taças, a garrafa de champanhe e o balde de gelo, o cardeal disse:
- Agora, ajude-me a remover essas coisas daqui.
Parcialmente recuperado, Francesco obedeceu. Juntos, cruzaram uma porta e foram para à kitnet, situada atrás do gabinete. Giovanni limpou as taças cuidadosamente, enquanto Montese punha o balde de gelo e a garrafa de champanhe no frigobar. Então, eles foram ao banheiro, lavaram e secaram as mãos e voltaram ao gabinete. O corpo de Andrea estava deitado sobre um tapete, de barriga para cima, a menos de um metro da mesa de trabalho do cardeal. Giovanni fechou a janela e desligou os ventiladores. Ele cheirou o ar: o odor de amêndoas amargas havia desaparecido. Certo que não havia nenhum vestígio do plano macabro que tinha executado, Vecelio olhou para Francesco e disse:
- Agora é a sua vez.
E explicou o que o monsenhor teria de fazer.
* * * * *
Capítulo 57
Cidade do Vaticano, gabinete do secretário de estado, 06 de agosto de 200_
Montese deixou o gabinete, entrou na sala de espera, e, simulando uma expressão de pavor, começou a gesticular e a falar para Amato:
- Algo terrível aconteceu ... Foi monsenhor Fontana... subitamente, ele colocou a mão sobre o peito e caiu no chão... parece que sofreu um ataque de coração... eu temo que até já esteja morto. Ajude, por favor... o cardeal... também não está bem... penso que ele está em estado de choque. Por favor ...venha ajudar.
Enquanto Amato empalidecia e entrava correndo no gabinete, algumas pessoas que estavam na sala de espera e ouviram as palavras proferidas por Montese, também entreram. Para ajudar ou por simples curiosidade . Em segundos, o gabinete estava em confusão total, todo o mundo falando ao mesmo tempo. A cena poderia ser descrita como cômica se não fosse trágica: o corpo inanimado de Andrea estirado no chão, enquanto Vecelio, desempenhando seu papel, estava jogado em uma das poltronas, balbuciando, repetidamente:
- É horrível...horrível...inacreditável.
Amato lhe ofereceu um copo d'água. Ele bebeu e depois continuou:
- Foi terrível. Andrea parecia tão cheio de vida ...ele ia ser promovido a bispo... e agora está morto... Deus meu, como isso pode ter acontecido?... tão subitamente...
Alguém se lembrou de chamar um médico. Amato foi ao telefone e discou. Em menos de cinco minutos, doutor Donato, o médico pessoal do cardeal, entrou no recinto. Com a calma de uma pessoa acostumada a enfrentar situações trágicas, ele foi logo ordenando:
- Todo o mundo fora, imediatamente. - Só ficam Sua Eminência, padre Amato e monsenhor Montese.
Quando a pequena multidão tinha evaporado, o médico se ajoelhou junto ao corpo, procurou o pulso no pescoço do jesuíta, auscutou o coração, observou as pupilas dilatadas e proferiu o óbvio:
- Ele está morto.
Então, o médico foi até o cardeal, tonou-lhe o pulso e a pressão sanguínea, auscutou o coração e disse:
- Vossa Eminência está bem, apenas um pouco abalado. Eu vou lhe aplicar um sedativo.
Vecelio fez um gesto negativo.
- Não, doutor. Eu estou me sentindo bem agora e tenho de assumir o controle da situação. Magicamente recuperou, ele se levantou e disse a Francesco:
- Conte ao doutor o que você testemunhou.
Montese então disse que, quando o cardeal estava informando a Andrea da decisão do papa de nomea-lo bispo, o jesuíta empalideceu, colocou a mão no peito e caiu sem emitir um único som.
- Acho que a notícia causou uma emoção demasiadamente forte ao monsenhor. Talvez ele já tivesse problemas cardíacos por nós ignorados, - sugeriu o cardeal, olhando firme para Donato.
- É possível - admitiu o doutor.
Vecelio falou novamente:
- Donato, monsenhor Fontana prestou grandes serviços ao Vaticano e se tornou um herói da Igreja. Eu estou seguro que sua santidade não gostaria que o corpo de Andrea fosse profanado por uma autópsia. Não há duvida que ele sofreu um infarto fulminante. Eu e Montese somos testemunhas oculares do fato. Assim, eu lhe peço, em meu nome e no do papa, que você assine, agora, a certidão de óbito, de forma que nós possamos dar a Fontana um funeral com as honras que ele merece.
Foi uma fala comovedora, com um leve toque de imposição. Que não passou desapercebido ao médico. Mas Donato não viu nenhuma razão para contradizer o cardeal. Ele olhou para o rosto de Giovanni e sentiu a forte determinação nos olhos de sua eminência. Donato abriu uma maleta, pegou a certidão de óbito, foi até a mesa do cardeal, apanhou uma caneta, escreveu durante alguns minutos e, então, entregou o documento ao secretário de estado. Vecelio virou-se para seu assistente:
- Amato, procidencie os arranjos necessários, de forma que o corpo de monsenhor Andrea seja imediatamente embalsamado e, depois, removido para a capela principal do Vaticano, onde será velado até o funeral.
Giovanni fez uma pausa, respirou fundo e concluiu:
- Eu sinto-me um pouco fatigado e preciso descansar por algum tempo em meu quarto. Depois irei ver o pontífice para informa-lo do trágico evento desta manhã.
Ele acenou para os presentes, fez o sinal da cruz e se retirou do recinto.
* * * * *
Capítulo 58
Cidade do Vaticano, aposentos do papa, 07 de agosto de 200_
O pequeno, astuto e fiel monsenhor Baudolino, já chegando aos oitenta anos de idade, combinava, com eficiência, a dupla função de secretário particular e mordomo do pontífice, desde o tempo em que sua santidade era bispo em um país da Europa Oriental. Além de ser o confessor do papa, ele era a única pessoa na cúria em quem o descendente de Pedro confiava de forma absoluta e irrestrita. Alguns minutos antes do meio-dia, Baudolino foi até o santo padre e lhe falou sobre os rumores de que algo muito sério tinha acontecido no gabinete do secretário de estado: um monsenhor tinha sofrido um ataque cardíaco fatal. O pontífice ordenou-lhe que mandasse chamar Giovanni. Mas antes que Baudolino pudesse partir para transmitir a ordem, uma freira entrou e anunciou que o cardeal Vecelio estava na ante-sala, solicitando uma audiência urgente e privada com sua santidade.
* * *
Assim que entrou, o cardeal notou que o papa parecia ter encolhido ainda mais, em relação à última vez em que o vira. O corpo semi-rígido estava reclinado na poltrona e a face parecia desprovida de qualquer expressão. O pontífice apontou, com a mão trêmula, para uma cadeira próxima.
- Sente-se, Giovanni. Vecelio inclinou a cabeça, se sentou-se e disse:
- À sua disposição, Santidade.
O papa estreitou os olhos para ver melhor e falou:
- Tomei conhecimento de um fato desagradável que aconteceu esta manhã em seu gabinete.
Giovanni adotou um ar de tristeza.
- É verdade, Santidade, uma ocorrência muito lamentável.
- Fale-me sobre ela.
- Vossa Santidade se recorda que, algumas semanas atrás, eu indiquei o nome de monsenhor Andrea Fontana para ser promovido a bispo? Infelizmente, foi ele quem morreu esta manhã.
Ao contrário do corpo, a mente do pontífice estava bem firme e a memória bastante preservada.
- Isso é muito triste. Mas, sim, eu me lembro perfeitamente. Você justificou a indicação alegando que ele, enquanto em Israel, tinha prestado um serviço inestimável à Igreja. Na ocasião, não perguntei, mas faço isto agora: o que fez este jovem padre para justificar tal invejável distinção?
O papa não empregava o tradicional "nós", tanto do gosto de Paulo VI, ao se referir à própria pessoa.
O cardeal hesitou um momento para conectar as idéias. Afinal de contas, o papa estava informado do envolvimento de Dimitrov no ataque contra o museu no Israel. Mas, como tinha dito o Osservatore romano, o pontífice acreditava que o dominicano, movido por um fanatismo louco, tinha agido independentemente, sem o conhecimento do Vaticano. O papa também estava sabendo da descoberta, em Israel, de certos documentos que talvez revelassem fatos relacionados com os cristãos do primeiro século e que, imaginando serem eles potencialmente prejudiciais para a Igreja, Dimitrov tinha se sacrificado para destrui-los. Mas ele não sabia que os pergaminhos eram um testemunho de Arimateia, nem que, para garantir o sucesso e o segredo da operação para destruir tais documenros, vários crimes foam cometidos, e pelo mesmo homem que tinha morrido menos de duas horas atrás. E que Dante, o assassino frio e misterioso, procurado pelo Mossad e pela Interpol, tinha agido por ordem dele, Vecelio, o secretário de estado. Mas, agora, questionando Giovanni, o papa parecia suspeitar que algo muito sério tinha sido feito sem o seu conhecimento e, muito menos, sem a sua aprovação. Se Vecelio não revelasse um pouco de informação que satisfizesse a inteligência dele, o pontífice poderia tentar investigar através de outros curialitas, alguns dos quais inimigos disfarçados do secretário de estado. E tal investigação, se levada ao extremo - como poderia acontecer, se dela participassem seus desafetos no Vaticano -, talvez fizem vir à tona certos fatos comprometendores para ele, Giovanni. Vecelio decidiu, então, contar uma versão que, embora aceitável, conteria apenas uma parte da verdade, mas não a verdade inteira e inconveniente.
- Não fosse pela astúcia e coragem de Andrea, - começou o cardeal, em um tom quase solene - a Igreja estaria enfrentando, hoje, uma crise sem precedentes. Eu ouso dizer que, possivelmente, a doutrina cristã poderia estar, agora, seriamente comprometida.
O papa empalideceu - O que você quer dizer com isso, Giovanni? O que você sabe que eu não sei?
- Antes de responder, imploro perdão à Vossa Santidade por não lhe ter falado, na ocasião, o que vou dizer agora. Mas saiba que eu assim agi, movido pela intenção de poupar o Santo Padre, já sobrecarregado com problemas de saúde, de mais uma séria preocupação.
- Meu corpo está abatido, Vecelio, mas minha mente ainda é forte - respondeu o papa
- Estou contente em ouvir isto, mas me perdoe dizer que, o que preocupa a mente, também pode afetar o corpo...
- Concordo, - o pontífice interveio, com um toque de irritação na voz - mas agora pare com seus circunlóquios e conte-me tudo.
- Muito bem, Vossa Santidade se lembra que, quando eles começaram a cavar nas ruínas do Santo Sepulcro, nós enviamos dois religiosos para descobrir o que seria eventualmente encontrado ?
- Muito claramente, o jesuita Chiesa e o dominicano Dimitrov - respondeu o descendente de Pedro, mostrando quanto afiada estava sua memória.
- Exatamente. Acontece que Chiesa e Andrea são velhos amigos ...ambos são jesuítas. Bem, em um certo momento das escavações, os arqueologistas acharam um pote de barro com uma indicação de ter sido enterrado na basílica pelo imperador Constantino. O vaso continha pergaminhos e tinha uma inscrição em grego antigo. Os arqueólogos tentaram impedir que Chiesa e Dimitrov vissem o que estava escrito. Mas eles viram. A inscrição dizia: Testemunho de José de Arimateia.
- O que? - perguntou o papa, surpreso - ...Você se refere,... àquele José...
- Sim, Santidade, o que, de acordo com os Evangelhos, removeu Jesus da cruz e o enterrou.
- Meu Deus? - exclamou o pontífice - o que teria escrito Arimateia? Ou, quem sabe, não se trata de um documento falso?
- Se era falso ou verdadeiro, nós não sabemos - disse Giovanni, suavemente - Mas sabemos, pelo menos, uma parte do que foi escrito.
- Conte-me.
- Eu imploro que Vossa Santidade seja paciente. Eu contarei, mas, antes, tenho de explicar como nós descobrimos isso, de forma que a coragem de monsenhor Fontana seja compreendida.
- Muito bem, - disse o papa, com resignação - prossiga.
- Dimitrov e Chiesa foram procurar Andrea, na Igreja de Pater Noster onde ele era o vigário, e lhe contaram o que tinham visto. Depois de discutirem sobre o que fazer, optaram por informar o fato ao cardeal Moroni que passou a informação para mim. Eu então determinei que Andrea ou Chiesa tentassem se apossar dos pergaminhos ou, pelo menos, fotografà-los.
- Por que você não me falou disso na ocasião ?
- Porque não desejei preocupar Vossa Santidade antes de sabermos qual era o conteúdo dos pergaminhos.
O papa apenas disse:
- Continue.
"Agora é o momento de começar a distorcer a verdade" - disse Giovanni consigo mesmo, antes de continuar:
- Como acontece em qualquer sítio arqueológico, além dos especialistas, há trabalhadores que executam tarefas adicionais. Como cavar, colocar estacas, remover entulhos, limpar equipamentos, etc.... Naquele sítio, a maioria dos trabalhadores eram árabes. Foi quando a Andrea teve uma idéia brilhante: por falar árabe quase fluentemente, ele foi até a cratera e, fingindo ser um dos trabalhadores, desceu ao sítio. Quando a noite chegou, Fontana não subiu à superfície com os outros. Ele se escondeu em um das galerias subterrâneas e permaneceu lá até que todo o mundo tivesse se retirado. Então, ele foi até o local onde o pote estava guardado, colocou luvas para não deixar impressões digitais, removeu a cera protetora do vaso, afastou a tampa, retirou várias folhas de pergaminhos e, usando uma míni máquina fotográfica com flash embutido, as fotografou. Depois, ele repôs os pergaminhos no pote, recolocou a tampa e, aquecendo a cera com o fogo de um isqueiro, recompôs a a proteção do vaso. Só uma inspeção muito meticulosa poderia revelar que o ele tinha sido violado. Mas como os judeus não tinham nenhuma razão para suspeitar que o pote pudesse ter sido manipulado, nada aconteceu. Andrea ficou escondido o resto da noite e, quando os trabalhadores voltaram na manhã seguinte, Fontana se misturou com eles. Na hora do almoço, quando todos subiram à superfície, ele subiu junto e se foi. Na mesma tarde, Chiesa levou o filme para ser revelado por um árabe conhecido dele . À noite, Fontana que também entendia grego antigo, leu para Dimitrov e Chiesa os pontos principais do que Arimateia tinha revelado.
O secretário de estado parou, olhou para o papa e perguntou:
- O Santo Padre sente-se preparado para uma revelação chocante?
As mãos do pontífice começaram a tremer ainda mais. Ele encarou o cardeal e disse, com determinação:
- Você pode falar.
Então, por uma irônica coincidência, Giovanni contou a mentira que tinha elaborado, sem saber que estava revelando a própria essência do testemunho de Arimateia:
- De acordo com o que estava escrito nos pergaminhos, Jesus não morreu na cruz. Ele sobreviveu. Então, a ressurreição não aconteceu.
O pontífice fez um esforço, pôs-se de pé e clamou, com veemência:
- Uma blasfêmia, Giovanni, uma blasfêmia. Arimateia nunca poderia ter escrito tal infâmia. Esses pergaminhos são falsos, apócrifos...ou tudo é parte de um enredo sórdido tramado pelos judeus para arruinar nossa doutrina ou tentar nos chantagear.
Giovanni se levantou e segurou o papa pelo braço.
- Acalme-se, Santidade. Por favor, sente-se. Eu vou buscar um copo d'água.
O pontífice se sentou e fez um gesto negativo com a mão.
- Fique, eu não preciso de água. Já estou me acalmando. Foi apenas um momento de surpresa e revolta. Estarei bem dentro de mais alguns segundos.
Eles se mantiveram silenciosos durante algum tempo e, finalmente, o papa disse, com a voz já em seu tom normal:
- Continue, por favor.
- Bem, então, considerando-se a situação, nossos religiosos se viram dainte de duas opções: roubar os pergaminhos ou destrui-los. Mas logo ficou evidente que era impossível tomar posse deles. O pote tinha sido transferido para o Museu de Israel, situado em um lugar isolado e a severa segurança israelense desafiava qualquer tentativa de alguem chegar, sequer, próximo do local. E, oh, talvez, nessa ocasião, eu haja excedido minha autoridade ou até mesmo pecado, não sei, por não ter consultado Vossa Santidade. Uma vez mais, me perdoe. E, por favor, entenda que eu assim procedi, temendo que, se fosse colocada nas mãos do pontífice a decisão para ordenar que se fizesse o que tinha de ser feito, a fim proteger a Igreja, talvez essa decisão poderia ter sido uma carga demasiadamente pesada para a saúde do papa.
- Você está se referindo à ordem para explodir o Museu de Israel.
- Sim. Uma decisão muito difícil.
O pontífice fixou o olhar na janela que dava para os jardins e assim ficou por um bom tempo. Finalmente, ele desviou os olhos para Vecelio e disse:
- Talvez você esteja certo. Embora eu não tenha nenhuma dúvida que os documentos são falsos, concordo que seria um grande risco se eles permanecessem nas mãos dos israelenses. Só Deus sabe o que poderiam fazer com eles. Porém, tenho, também, de admitir que eu não estou seguro se, na ocasião, teria tido a coragem para dar a ordem que você deu.
Giovanni respirou fundo, aliviado. O papa contemplou o cardeal durante alguns segundos antes de dizer:
- Prossiga.
- Bem, naquele momento aconteceram dois fatos. Primeiro: convencidos da impossibilidade de remover o pote do museu, só permaneceu para nós a opção de destrui-lo. E tão depressa quanto possível, antes dos israelenses traduzirem os pergaminhos. Assim, eu enviei dinheiro do banco do Vaticano para André, mas de forma que sua fonte não pudesse ser identificada. Assim, Fontana adquiriu os veículos e os explosivos para a operação e também comprou o apoio de um grupo árabe denominado "Guerreiros de Alá". Segundo: algumas horas antes daquela programada para o ataque contra o museu, Chiesa, Andrea e três árabes se encontraram em uma loja na ‘via dolorosa', para discutir os detalhes finais da operação. Dimitrov tinha ficado no hotel, se preparando espiritualmente para a missão. A nteligência israelense descobriu parte da trama e cercou o lugar da reunião. Os palestinos reagiram e tiros foram trocados . Chiesa e dois dos árabes foram mortos no confronto. Andrea e o palestino Omar conseguiram escapar. Então, eles foram buscar Dimitrov no hotel e, em seguida, levaram a cabo a operação como fora planejada. Os judeus foram apanhados de surpresa. Omar, dirigindo um caminhão carregado com sentex, destruiu uma das barreiras que impediam o acesso ao museu. Em seguida, tirando proveito de uma brecha entre o escombros, Dimitrov penetrou com um míni veículo, também cheio de explosivos, e lançou-o contra o lugar onde o pote estava guardado, destruindo parte da ala arqueológica e incinerando os pergaminhos. E, no processo, ele foi também incinerado.
- Então Dimitrov não cometeu um ato de loucura mas de coragem.
- Exatamente. Mas, infelizmente, nós não podemos proclamar isto.
- Naturalmente - concordou o papa. - E depois, o que aconteceu depois?
- Andrea destruiu o filme, temendo ser revistado no aeroporto, e deixou Israel. Ele passou alguns dias nos Estados Unidos e então veio para cá. Eu o coloquei na secretaria de estado, como meu assistente, até que Vossa Santidade confirmasse a promoção dele a bispo.
Houve um longo momento de silêncio, finalmente quebrado pelo pontífice:
- É deveras lamentável que um homem tão fiel e valente ttivesse de morrer tão jovem. Às vezes, fica difícil entender os desejos de Deus.
- Sim, foi um fato profundamente lamentável.
- Conte-me como aconteceu.
- Eu não sei ao certo. Andrea parecia muito nervoso desde que voltou. Afinal de contas, ele havia passado por momentos muito difíceis em Israel. Havia rumores que Fontana estava fazendo uso de tranqüilizantes e de anti-depressivos. Eu o chamei, pensando melhorar-lhe o humor com a notícia da promoção. Mas talvez eu tenha cometido um grande engano: a emoção deve ter sido muito forte para o coração dele. Quando ouviu a notícia, Andrea ficou pálido, pôs a mão sobre o peito e simplesmente caiu, sem emitir um único som. Monsenhor Montese estava presente e viu tudo. Enquanto ele partiu à procura de ajuda médica, eu me inclinei e tentei massagear o tórax de Andrea, mas foi em vão. Creio que ele já estava morto antes de seu corpo atingir o chão. Depois, Donato chegou e confirmou que tinha sido um infarto do miocardio violento e letal. E, já que nós tinhamos um diagnóstico indiscutível, decidi não submeter o corpo de um herói à desonra de uma autópsia.
O pontífice contemplou o cardeal por muito tempo. Sem saber por que, a morte misteriosa de João Paulo I lhe veio à mente. ComoAndrea, o papa tinha sofrido um ataque de coração súbito, inesperado e fatal. O pontífice sacudiu a cabeça para afastar essa indesejável e absurda comparação e disse:
- Que Andrea Fontana receba as honras de bispo no funeral. Eu assinarei hoje a sua promoção "postmortem".
- Será feito como Vossa Santidade deseja.
- E agora, Giovanni, voltando aos pergaminhos, o que vai acontecer?
- Absolutamente nada. Eles estão destruídos, os judeus não têm nada para mostrar e o Cristo continua ressuscitado.
Mas o Papa ainda tinha uma dúvida:
- E se os judeus também fotografaram os pergaminhos antes deles terem sido destruídos?
- Filmes sem originais para provar a veracidade deles, não significam nada. Não obstante, se os israelenses os tiverem e ousarem divulga-los, nós não teremos nenhuma dificuldade em alegar que eles estão mostrando uma falsa e espúria documentação. Não se preocupe, Santidade, este assunto está definitivamente encerrado.
- " Gracia Dei " - exclamou o ocupante do trono de Pedro.
- Amém! - disse o secretário de estado.
* * * * *
Capítulo 59
Jerusalém, sede do Mossad, 08 de agosto de 200_
Gabriel voou de Roma para Zurique. Depois, de Zurique para Londres e, na manhã seguinte, tomou um vôo da El Al para Tel Aviv. Do aeroporto, seguiu diretamente para a sede do Mossad onde, já informado, Ariel o aguardava. Gabriel entrou no escritório, sentou-se de frente para a mesa do chefe e disse:
- Nós falhamos. Eu não sei como, mas os católicos descobriram tudo e neutralizaram nosso plano. Nem sequer conseguimos chegar perto do dossier do Andrea.
Ariel pegou uma cópia do Jerusalém Post, datado daquele mesmo dia, e passou-o a Gabriel.
- Leia o artigo que está na quarta página - ordenou o diretor do Mossad.
O agente foi até página quatro e leu:
" Ontem de manhã, no Vaticano, quando estava sendo recebido em audiência pelo secretário de estado, monsenhor Andrea Fontana, ex-vigário da Igreja de Pater Noster, localizada aqui, em Jerusalém, sentiu-se repentinamente mal e faleceu. O médico que atestou o óbito declarou à imprensa que o monsenhor sofreu um infarto do miocardio fulminante. Presume-se que, ao receber a notícia de que seria promovido a bispo...."
Gabriel ergue os olhos para Ariel e perguntou:
- O que pensa disso, chefe?
- Eu penso que, quando vocês começaram a fazer perguntas sobre Andrea, o nosso Dante, vocês abriram uma "caixa de Pandora ": alguém ficou alarmado no Vaticano. decidiu que Fontana era um risco e teria de ir. Mas, mesmo não conseguindo o dossier, de um certo modo vocês vingaram o Zwi, o agente da Shin Beth morto no hotel e os israelenses que tombaram durante o ataque contra o museu.
- Como assim? O homem sofreu um ataque de coração. Eu não sabia que indagar sobre uma pessoa provocasse infartos fatais.
- Gabriel, você é velho bastante para continuar acreditando em Papai Noel. Quer que eu esclareça?
- Por favor, chefe. -
- Andréa não teve nenhum ataque de coração. Se eu não estou errado sobre o eminente cardial Giovanni Vecelio, o monsenhor foi a última vítima no processo de "queima de arquivo" da operação que destruiu os pergaminhos misteriosos, supostamente escritos, dois mil anos atrás, pelo fariseu Arimateia.
* * * * *
Capítulo 60
Londres, 18 de agosto de 200_
Ontem, entreguei a van Heusing uma cópia da revelação do filme contendo o testemunho de Arimateia. O holandês prometeu que, hoje, nos traria a tradução em inglês. E cumpriu a promessa. E, agora, nós quatro: Charles, Hezi, Daniele e eu, estávamos sentados em meu apartamento no Mayflower, ansiosos para, finalmente, conhecer as revelações do homem que, dois mil anos antes, tinha removido da cruz o corpo de Jesus de Nazaré. Todos os olhares convergiam para as folhas de papel nas mãos de van Heusing. Ele se fez confortável no sofá, respirou fundo e começou a ler o que havia traduzido:
* * * * *
Capítulo 61
Jerusalém, 16 de julho de 36 DC
Meu nome é José de Arimateia. Estou consignando nestes pergaminhos o meu testemunho sobre a conspiração para eliminar Jesus de Nazaré, o que aconteceu quando ele foi crucificado e os eventos que se seguiram.
No domingo antes da páscoa judáica, Caifas, sabendo que o Nazareno tinha entrado em Jerusalém, convocou o Sinédrio para notificar sua intenção de pedir a Pôncio Pilatos a prisão e condenação de Jesus, sob a acusação de blasfêmia e conspiração contra o poder romano. O que implicaria, se a solicitação fosse aprovada, na imediata crucificação do nosso mestre. Nicodemus e eu, membros da poderosa instituição teocrática judaica, também éramos discípulos secretos do Nazareno e, imediatamente, decidimos adotar nossas próprias medidas para impedir a morte do mestre. Ao amanhecer de 07 de abril, nos encontramos em uma mansão de minha propriedade, situada perto do Gólgota, para uma última avaliação da situação. Sentamo-nos na sacada e eu comecei o diálogo, dizendo:
- A decisão foi tomada. Jesus será crucificado no Gólgota em torno das nove horas.
- Isso já era esperado - respondeu Nicodemus - mas nosso plano está pronto para ser executado.
Ele tirou de um bolso da túnica um pequeno recipiente e continuou:
- Aqui está o elixir que Diogenes, o alquimista grego sobre quem lhe falei, me deu antes de eu vir para cá. Basta misturar o líquido com água. Quando Jesus beber, o efeito será imediato.
- Não há risco de falhar? - perguntei, não me sentindo muito confiante.
- Diogenes garante que não. Assim que o mestre ingerir a mistura, ele perderá a consciência e entrará em um estado de morte aparente, a que Hipócrates chamava de transe. A respiração e as batidas do coração ficarão imperceptíveis e ele será dado como morto. Titus, o centurião cujo criado o mestre curou, dará a mistura a Jesus no momento certo. Já está tudo acertado com ele.
Eu insisti, ainda um pouco cético.
- E se Jesus não pedir por água? Afinal de contas, ele não sabe nada sobre o nosso plano.
- Ele pedirá. Todo crucificado pede. Depois de algumas horas, a crucificação provoca uma sede intolerável. E, mesmo que Jesus não peça, Titus levará a concha até os lábios dele e ele beberá, por reação reflexa.
- E quando isso deverá acontecer?
- Ao redor das três da tarde.
- E depois?
- Titus declarará que Jesus está morto. E, como ficou decidido, você irá até Pilatos e pedirá que o "corpo" seja liberado imediatamente para ser devimente preparado e sepultado antes do iníco do sabat.
- Estou convicto que Pilatos não me negará a permissão. o procurador fez tudo para evitar a execução do mestre. Não fosse a pressão dos sacerdotes sobre essa estúpida gentalha.... Bem, tão logo Pilatos autorize, nós removeremos o "corpo" da cruz e o sepultaremos dentro da tal caverna sobre a qual já lhe falei, e que fica dentro desta propriedade. Quando a noite cair, nós levaremos Jesus para um lugar secreto, aqui na mansão.
- Quem sabe sobre a existência desse esconderijo?
- Só eu. Ele foi construído muitos anos atrás.
- Existe alguem que possa nos ajudar a transportar o mestre da sepultura para o recinto secreto ?
- Sim, Filomenus, meu jardineiro, que também é um seguidor de Jesus. Ele nos ajudará.
- Ótimo. Diógenes estará aqui à espera e começará imediatamente o tratamento para reavivar o mestre.
Nicodemus ajeitou a túnica, se levantou e disse:
- Eu preciso ir agora, meu amigo, para cuidar dos últimos detalhes do plano. Tenha fé e confie, José, nós seremos bem sucedidos.
* * * * *
Capítulo 62
Jerusalém, 17 de julho de 36 DC
Continuando com a minha narrativa, sinto-me feliz em dizer que, graças ao bom Deus, tudo saiu como Nicodemus tinha previsto. Em um dos quarto da mansão há um alçapão, escondido debaixo de um tapete, que, quando levantado, põe à mostra uma escada que termina em um quarto subterrâneo, um lugar secreto que eu construí, há muito tempo atrás, para esconder a mim e alguns amigos, no caso de uma revolta judia encabeçada pelos zelotes contra os conquistadores romanos.
Naquela noite de sexta-feira, assim que a escuridão permitiu, removemos o corpo inconsciente de Jesus da caverna-sepultura para o quarto secreto. Diógenes provou ser, de fato, um mágico na arte de curar. As ervas misteriosas dele logo secaram as feridas do mestre. Felizmente, a lança que tinha penetrado no tórax não afetou nenhum órgão vital. Jesus recuperou os sentidos na manhã de sábado, mas custou a entender o que tinha acontecido. Quando falamos sobre o elixir, ele abraçou Diogenes longamente e lágrimas correram por sua face. Em seguida, ele permaneceu por muito tempo com os olhos fechados, orando. O mestre murmurava as orações em um tom tão baixo que mal podíamos ouvir a sua voz.. Mas algumas frases, pronunciadas com mais energia, foram captadas por nós. Assim, Jesus murmurou:
- Meu Deus, não me abandonastes. Eu entreguei meu espírito em vossas mãos e, por vosso desígnio, ele foi devolvido ao meu corpo. Agradeço-vos por ter-me concedido mais tempo, para que eu possa realizar ainda qualquer missão que podeis ter para mim.
* * *
E, enquanto Jerusalém enxameava de rumores e medo, devido ao desaparecimento do corpo de Jesus da caverna, ele convalescia aos cuidados de Diógenes. Depois de quatro semanas, o mestre já estava quase totalmente recuperado.
* * *
Pilatos ordenara uma autêntica caçada para prender os discípulos, suspeitando serem eles os responsáveis pelo seqüestro do corpo. Em vão: todos já tinham fugido de Jerusalém para se esconderem nas colinas de Galileia. Caifas, confuso, vivia tremendo de ódio e, ao mesmo tempo, temeroso que Jesus tivesse realmente ressuscitado, como se murmurava nas ruas de Jerusalém.
* * *
O Nazareno ficaria conosco durante ainda mais duas semanas, para recuperar toda sua força e energia. Então, ele partiria. Jesus cortou o cabelo e removeu a barba, para dificultar ser reconhecido. Quando o momento chegasse, nós o proveriamos com um cavalo e tudo mais necessário para a viagem. Uma vez, ele mencionou estar esperando alguma manifestação do Pai, para então partir.
* * * * *
Capítulo 63
Jerusalém, 18 de julho de 36 DC
Meus dedos estão inchados pela degeneração das juntas que freqüentemente afeta as pessoas idosas como eu. Assim, sou forçado a escrever um pouco a cada dia. Ficamos sabendo, em 19 de maio passado, que o dia seguinte seria o último da permanência do mestre em nossa casa. Jesus tinha jejuado na véspera e, quando veio ao nosso encontro, de manhã, parecia mais magro, a face pálida e os olhos descorados. Nós nos sentamos à mesa para o desjejum. O mestre disse uma oração e nos servimos. Jesus comeu com um soberbo apetite e logo a cor voltou à face dele. Mas, embora parecesse agora fisicamente bem, tinha um ar de intensa preocupação. Logo, ele foi para o seu quarto a fim de meditar.
À tarde, Jesus reapareceu no salão e se fez confortável em um das cadeiras, perto da sacada que se abria para os jardins, e nos convidou a fazer o mesmo, já que tinha algo muito importante a revelar. Nós obedecemos e ficamos atentos. Eu logo fui tomado por uma forte apreensão, sentindo que íamos ouvir coisas que talvez não gostaríamos de escutar. Jesus encarou cada de nós com seu olhar penetrante, agora cheio de vitalidade, e começou a falar:
- Meus queridos irmãos. Eu lhes falei, quando recuperei a consciência, que o Pai tinha me preservado para que eu cumprisse uma nova missão, mas não imaginei, então, o que ela seria. Porém, nesta madrugada, isto me foi revelado, bem como muitas outras coisas mais. Um pouco antes do galo anunciar o começo do amanhecer, em um estado oscilando entre o sono e o alerta, eu ouvi a poderosa voz de Deus. Disse Ele:
- "Meu amado filho, o tempo chegou para tomares conhecimento de tua nova missão. Quando eu criei os homens, dei-lhes consciência e livre arbítrio, de forma que pudessem escolher entre o bem e o mal, o amor e o ódio, a caridade e a usura e entre a verdadeira fé e o fanatismo religioso. Assim, quando o tempo deles na Terra terminasse, poderiam entrar na casa do Criador ou cair nos braços de Satanás. Milhares de anos se passaram e mais humanos têm trilhado as estradas da escuridão do que os caminhos da luz. Assim, a humanidade determinou, por sua própria escolha, o seu destino final, o qual já está escrito no Livro da Vida e não poderá ser alterado. Mas antes do fim do mundo e do dia do julgamento final, muitas almas poderão ainda ser salvas. Foi para isso, filho, que te enviei à Terra: afim de ensinar minha palavra e a trilha da salvação. E, durante o curto tempo que te foi permitido, transmitiste bem a minha mensagem àqueles que ouviram tuas palavras nos campos e cidades da Palestina. E quando foste programado para morrer, eu determinei que deverias viver, para completar o teu trabalho. Agora, terás de ir para as mais diferentes regiões do planeta, a fim de que muitos outros humanos possam ouvir a essência da tua mensagem: fé, amor, esperança e caridade. Mas não mais usarás o nome de Jesus. Deixa teus inimigos acreditarem que estás morto. Embora não possas enganar Satanás, os homens que te procuram, por te temerem, não mais te procurarão. De agora em diante adotarás o nome "Issa".
- O Pai fez uma pausa e então continuou:
" Agora, fecha teus olhos e eleva teu espírito até o céu. E tua mente captará as visões do que está por vir".
- A voz silenciou e eu comecei a ver:
Eu vi, primeiro, meus discípulos, humilhados e envergonhados, escondidos em um aposento fechado, temerosos dos homens de Caifas e dos romanos. Mas já me transportei até eles em espírito, materializei-me e, através do Espirito Santo, passei-lhes a força e a coragem de que necessitavam.
Depois eu vi um homem que caiu da sela de um cavalo na estrada para Damasco. Ele, que até então perseguia os que começavam a espalhar minha mensagem, anunciará ter-se convertido à nova fé. Ele imaginará que sua conversão foi um desejo do Pai. Realmente foi, porque este homem estava destinado a propagar nossa religião entre os gentios. Porém, na verdade eu lhes digo, Satanás, sutilmente, intreveio no processo, E esse homem, um orador loquaz, falará sobre Cristo, um Cristo que ressuscitou, porque ele ignora que eu sobrevivi. Ele falará de Cristo, mas ignorará muitos dos ensinamentos de Jesus. Ele falará em nome do Pai, mas a doutrina que ele expressará, servirá tanto a Deus quanto ao Demônio. Porque, embora ele a chame de cristã, ela será, na verdade, uma teologia de domínio. E ele criará uma Igreja. Não a que eu imaginei que pudesse surgir um dia, mas uma organização imperial que ficará tão forte que reinará por mais de dois mil anos. Essa Igreja, com o passar do tempo, fragmentar-se-á em seitas e cultos incontáveis. E muitos de seus sacerdotes e pastores usarão meu nome, não só para evangelizar, mas também para enriquecer e dominar os ingênuos e os fanáticos que aceitam tudo sem pensar. E seus líderes praticarão atos abomináveis, como guerras, torturas, chantagens, roubos e traições.
Em seguida, eu vi surgirem os Evangelhos, os quais, por sofrerem tantas alterações, irão se contradizer em seus textos finais. Eles atribuirão a mim palavras que eu nunca disse e ações que eu nunca executei. Por outro lado, silenciarão sobre coisas que eu disse e fiz. E formarão, com o Torah dos hebreus, um livro que será chamado "A Bíblia". Um livro que servirá como inspiração para homens de bem ensinarem fé, amor e caridade. Mas que, por não ter sido totalmente inspirado pelo Senhor, não representará a verdade absoluta, posto que crivada de distorções, falhas e mitos. E que, lamentavelmente, também será um instrumento para pessoas más encherem os bolsos de moedas e dominarem o pensamento dos ingênuos.
Depois, eu vi os séculos passarem e as injustiças continuarem proliferando entre homens ricos e poderosos, os quais, sob a inspiração de Satanás, continuarão dominando milhões de pobres e marginalizados, famintos e humilhados.
Eu vi o aparecimento e progresso de uma organização denominada "Santa Inquisição" que, sob as ordens de um demônio chamado Torquemada, torturará e enviará à fogueira, em nome de Deus e da Igreja, milhares de pessoas inocentes.
Eu vi os líderes da Igreja conspirarem com os reis da Europa, para criarem as Cruzadas. Aventuras malditas que separarão, para sempre, os seguidores de Jesus dos filhos de Maomé, um profeta que virá à Terra daqui a seis séculos.
Eu vi pestilências, fome, escravidão, matanças e perseguições.
Eu vi, com o transcurso dos séculos e dos milênios, o aparecimento de enormes cidades, com casas gigantescas que subirão mais e mais alto, como que querendo atingir o céu.
Eu vi carruagens metálicas voarem mil vezes mais rapidamente que a mais rápida das águias.
Eu vi coisas maravilhosas, feitas por homens para promover o bem-estar da humanidade. Mas eu também vi armas terríveis, também construídas por homens, para matar milhares de milhares de seres humanos.
Eu vi as guerras mais terríveis, ceifando as vidas de milhões.
Eu vi a Terra ser destruída lentamente pelo envenenamento do ar, dos mares e das terras, por homens que, para acumularem riquezas, devastam a natureza criada pelo Pai.
Eu vi quando Deus começou a castigar os humanos, fazendo surgir doenças que a ciência não podia curar.
Eu vi o terrorismo destruir as torres gigantescas da Nova Babilônia, sinalizando o começo do tempo das grandes tribulações que estavam por vir.
Eu vi quando Lucifer trouxe do Leste legiões de demônios fanáticos, para espalhar o caos e a destruição nas terras do Oeste. E eu vi, quando o Oeste, também inflamado pelo Diabo, retaliou, massacrando milhões nas terras do Leste.
Eu vi Satanás se apossar das mentes dos líderes mundiais, gerando intolerância e ódio entre todos os povos.
E eu vi, finalmente, a chegada do Grande Apocalipse, quando as nações começaram a lutar, umas contra as outras.
Eu vi milhões de bolas incandescentes atearem fogo nos campos e nas cidades e fazer ferver a água dos mares.
Eu vi montanhas de gelo se desmancharem e, como conseqüência, os oceanos cobrirem todas as terras.
E eu vi quando todos os seres vivos foram exterminados, queimados pelo fogo, afogados pelas águas ou congelados pelo frio terrível que desabou sobre o planeta, quando o Sol ficou invisível e seu calor deixou de chegar à Terra.
Jesus fez uma pausa e terminou, com um sussurro:
- É assim que tudo terminará e a primeira humanidade se extinguirá .
O silêncio reinou por muitos minutos. O tempo tinha passado rapidamente. A noite estava começando a cair sobre Jerusalém. Nicodemus perguntou:
- Mestre, se o mundo vai terminar, por que o senhor deverá empreender essa nova e tão árdua missão ?
- Porque o fim ainda está muito distante, mas as almas estão por toda parte, agora e amanhã e pelos séculos por vir antes do Apocalipse. Uma vez, na Galileia, chamei Simon Pedro e André e disse- lhes: venham comigo, vamos pescar gente. Agora chegou o tempo de ir mundo afora, formar uma legião de discípulos e lhes falar: venham comigo, vamos salva almas.
Tristes, pensamos ter ouvido tudo sobre as previsões terríveis relativas ao futuro do nosso planeta e da nossa espécie. Mas Jesus tinha nos reservado outras surpresas. Ele voltou a falar:
- Sucede, meus irmãos, que o desaparecimento da vida na Terra não seria definitivo.
Nós olhamos para ele sem entender e Jesus explicou:
- Eu não contei ainda a parte final da visão que o Pai me mostrou. Depois da vida terrestre ter sido extinta, os demônios ocuparam o planeta. Durante um tempo muito longo. Porém, um dia, Deus decidiu que a Terra deveria ser reconquistada. E, assim, Ele determinou que um gigantesco exército de anjos, comandado pelo Arcanjo Miguel descesse do céu. Miguel teve, como chefe de operações, o espírito de Alexandre o Grande e Lucifer teve a Besta como o seu comandante-em-chefe. Foi uma guerra terrível. Os dois lados lutaram com espadas de fogo e setas de laser: uma nova e terrivel arma. Satanás resistiu tenazmente, mas o Arcanjo, apoiado pelos grandes poderes que o Senhor tinha lhe concedido, saiu vitorioso. Os demônios foram quase totalmente eliminados. Os poucos que sobreviveram, fugiram, com Lucifer e a Besta, para a escuridão eterna, muito além deste universo.
Jesus fez uma nova pausa. Nós escutávamos surpresos e pasmos, mas com a alegria de volta aos nossos corações. O mestre continuou:
- Quatro séculos depois, o Pai tomou outra decisão. Ele convocou o arcanjo Miguel e disse: "Eu decidi recriar todas as formas de vida que existiram na Terra antes do Apocalipse. E tu, Miguel, que reconquistaste o planeta, serás o primeiro homem dessa segunda fase da humanidade. Ajoelha-te".
- O arcanjo se pôs de joelhos diante de Deus, que colocou a mão no ombro dele e comandou: "Eu te faço homem".
- E Miguel se tornou o novo Adão. Então, ele foi conduzido para a Terra por um contingente de anjos. Eles o depositaram em uma planície, entre os rios Tigre e Eufrates. Logo, Miguel entrou em sono profundo. Os anjos removeram um pedaço da sua pele e, dela, fizeram uma mulher. Quando acordou, Miguel, o homem, tomou a companheira pela mão e disse: "Venha, Michele, vamos reconstruir a espécie humana ".
Jesus fez uma nova pausa, e, virando-se para Nicodemus, disse:
- As almas que, no Dia do Julgamento, receberão a benção do Pai, serão incorporadas aos corpos dos que nascerão nessa segunda fase de vida na Terra.A qual, portanto, será povoada por homens e mulheres redimidos e abençoados, tornando-se seres de uma natureza melhor, que viverão com e pelo amor. Então, quando vierem a morrer, eles e elas irão para Deus, não para Lucifer. Entende agora a importância da minha nova missão: salvar tantas almas quanto possível?
Nicodemus concordou com um movimento da cabeça e fez uma pergunta inesperada:
- Mestre, o que fazer para adquir a salvação? Adorar a Deus?
Jesus sacudiu a cabeça. A resposta dele novamente nos surpreendeu:
- Não. Claro que o Criador deve ser amado, louvado e respeitado e, até mesmo adorado, porque isso faz bem à alma. Mas a salvação não está relacionada à idolatrias, orações ou a prática de qualquer religião específica. Depende de como a pessoa se conduz. Priorizando, acima de tudo, o amor e a caridade. Assim, até mesmo um ateu, se ele tem amor no coração, leva uma vida digna, se importa com seus semlhantes e é caridoso para com os outros seres, humanos ou não, ele está, mesmo sem disso saber, servindo a Deus. Logo, poderá receber a graça da salvação eterna.
Então o mestre se ergueu e disse:
- Queridos irmãos, devo ir para o meu leito. Meu corpo pede repouso. Amanhã começarei a minha longa viagem.
Jesus nos abençoou e deixou o recinto.
* * * * *
Capítulo 64
Jerusalém, 19 de julho de 36 DC
Antes do sol aparecer na manhã de 21 de maio, Jesus rezou conosco pela última vez, subiu no cavalo e partiu. E, em Jerusalém e ao longo de toda a Judeia, o Nazareno se tornou lenda. Muitos dias depoi, eu fui informado por Tiago que ele tinha se encontrado, novamente e por poucas horas, com os discípulos, em um lugar reservado na Galileia. E, em seguida, Jesus foi embora. Com destino desconhecido, Issa desapareceu na neblina do tempo e na névoa de história...
* * *
Este é o meu testemunho. Somente Nicodemus o leu e colaborou para aprimora-lo. Sua memória excepcional foi bastante útil, principalmente na hora de lembrar da longa narrativa de Jesus sobre o futuro da Terra e do gênero humano. Por isso, eu acredito ter reproduzido, com precisão quase absoluta, as palavras usadas pelo mestre. Meu velho amigo e companheiro nesta aventura fantástica, achou estranho que eu não tivesse escrito o testemunho em hebreu ou grego clássico, como, de acordo com ele, seria de se esperar de um fariseu educado. Eu concordo. Porém, uma força superior, acima do meu raciocínio, fez-me escolher, sem saber por que, o dialeto Coiné. Agora, vou esconder os pergaminhos em um local onde não serão achados pelos homens de Caifas ou de Pilatos. Talvez um dia, no futuro distante, meu testemunho venha ser descoberto e, então, o mundo inteiro conhecerá a verdade sobre o destino daquele maravilhoso Nazareno . Amém!
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Capítulo 65
Londres, 19 de agosto de 200_
A noite estava se aproximando quando as únicas cinco pessoas no mundo que sabiam o que José de Arimateia escreveu em seu testemunho, reuniram-se no meu apartamento no Hotel de Mayflower. Cada um havia reagido ao que van Heusing relatara na véspera, de acordo com as suas convicções filosóficas e religiosas. E, agora, tinha xhegado o momento das despedidas. Eric van Heusing foi o primeiro a falar. Olhando para mim, ele disse:
- Se você publicar esse documento, como um fato histórico e real, certamente será processado pela Igreja Católica e terá de enfrentar o poder, a riqueza, a astúcia e a falta de escrúpulo da cúria romana. E como os israelenses nada têm para mostrar, eles manterão suas bocas fechadas. Sem os pergaminhos originais, duvido que, em qualquer tribunal, os filmes sejam aceitos como prova irrefutável. Pessoalmente, penso que o testemunho de Arimateia é autêntico, que Jesus não morreu na cruz e, portanto, a ressurreição é um mito. Assim como, acredito eu, todas as religiões são de natureza mitológica. Logo, continuarei a ser um ateu convicto, que nunca admitirá ter visto ou traduzido esses manuscritos.
Eric apertou a mão de todos e, virando-se para mim, disse:
- Olivieri, a oportunidade de traduzir o documento, uma preciosidade histórica, foi uma grande experiência. Por isso, não lhe cobrarei mais que cinco mil dólares pelo meu trabalho. Quaando for possível, deposite-os em minha conta no Banco Real de Amsterdã. Está de acordo?
Eu respondi que eu sim. Em seguida, nos abraçamos e ele partiu.
Depois foi a hora de Hezi falar:
- Bem, Toni, aparentemente arriscamos nossos pescoços só por uma satisfação acadêmica, já que eu concordo com van Heusing sobre a impropriedade de publicar os pergaminhos. Eles tiveram um aspecto negativo, porque causaram mortes e a perda de valiosos documentos. Mas houve o lado positivo: a aventura que nós vivemos e o desafio que enfrentamos. Se necessário, eu faria tudo novamente . Quem sabe, um dia, acharemos outra preciosidade, que possa ser publicada sem despertar a ira do fanatismo religioso. E quando você aparecer de novo em Israel, venha me ver.
Eu abracei meu amigo israelense e, depois, ele apertou a mão de Charles, deu um beijo afetuoso no rosto da Daniele e se foi.
Meu amigo inglês foi o último a dizer adeus e ele quebrou sua característica tradicional de economizar palavras. Na verdade, Charles falou muito mais do que a gente podia esperar, Disse ele:
- Em relação à publicação do documento, acho que Eric e Hezi disseram tudo o que tinha a ser dito. Eu concordo que o testemunho é autêntico, mas, como van Heusing, continuarei ateu. Para mim, Jesus foi um homem cheio de amor e bondade que se considerava o filho predestinado de um Deus enigmático e duvidoso. Mas apenas um homem. A meu ver, o universo e a vida são o resultado de fenômenos físicos, químicos e biológicos espontâneos. E o gênero humano é a conseqüência de uma evolução randomizada e não de uma hipotética predestinação divina. Bem, meu prezado Olivieri, quando houver outra escavação interessante e você sentir falta de um arqueólogo-fotógrafo, pode contar comigo. E se você concordar, contarei à Irma sobre o conteúdo do documento.
Eu respondi que concordava. Trocamos um longo abraço e Dani ganhou o segundo beijo fraternal naquela noite londrina.
- Charles - disse ela - seja bom para a Irma.
Ele piscou o olho e respondeu:
- Serei. A propósito, vocês dois cuidem bem um do outro, OK?
E ele foi embora
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Epílogo
Em algum lugar acima do Oceano Atlântico, 21 de agosto de 200_
Dois dias depois, ao redor das 11:00 horas, nós estávamos a bordo de um avião rumando para Nova Iorque. Como tínhamos decidido na noite anterior, de lá seguiremos logo para Cleveland onde eu serei apresentado aos parentes de Dani e, depois, nos casaremos na velha igreja, perto de Lago Eirie, onde ela tinha sido batizada. O gigantesco jato já estava chegando em Nova Iorque, quando Daniele, com a cabeça apoiada em meu ombro, disse:
- Toni, nossos amigos foram unânimes em que o testemunho de Arimateia não deve ser publicado.
- Acredito - respondi - que, acima de qualquer outro motivo, eles querem nos preservar, temendo que, se publicarmos, teremos muitas dores de cabeça.
- Eu entendo, - continuou ela - mas eu quero que você saiba que, embora o documento desestabilize, de alguma forma, as bases doutrinárias do cristianismo, isso não afeta meus sentimentos em relação a Jesus. Pelo contrário. Sabendo o que sei agora, meu apreço pelas mensagens que ele nos delegou, ficou ainda mais intenso. Eu discordo do Charles quando ele diz que Jesus era um homem comum. Não, ele era uma pessoa dotada de uma espiritualidade muito superior a de qualquer outro ser humano. E alegra-me saber que ele não morreu na cruz, mas sobreviveu para continuar sua pregação pelo mundo afora. De um certo modo, amedronta-me a visão apocalíptica que ele descreveu para nossa espécie, em sua primeira fase no planeta Terra. Porém, talvez seja isso o que ela merece. Nós tivemos tudo para ser grandes, mas, infelizmente, a grandeza só ocorreu em termos de ciência e tecnologia. Nós continuamos a ser intolerantes, discriminativos e tão selvagens quanto nossos antepassados pré-históricos.
Dani calou por um momento. Eu olhei para ela com orgulho e admiração. Ela continuou:
- E agora, é sua vez, Tony. Fale como você realmente se sente em relação ao testemunho.
Respirei fundo antes de responder:
- Não acredito que pudesse me expressar melhor do que você. Ratifico tudo o que você disse. Sobre o fato de seus sentimentos por Jesus não terem sido afetados pela verificação de que a ressurreição física é apenas outro mito cristão, você está em boa companhia . Um eminente teólogo, o bispo episcopal John Shelby Spong diz, no livro "Salvando a Bíblia do Fundamentalismo ", que ele aceita Jesus como seu salvador, embora não acreditando que ele tenha sobrevivido fisicamente. Agora, em relação à opinião manifestada por van Heusing e Hezi, contrária à publicação do testemunho de Arimateia, eu discordo. Acho que devemos publicar sim, e não só o documento, mas também todos os fatos a ele relacionados.
- Você realmente está pensando em fazer isso? - Dani perguntou, com uma expressão mista de medo e surpresa.
- Sim, estou.
- Mas eles lhe processarão!
- Não necessariamente.
- Como assim?
- Eles não poderão fazer isso se eu descrever os eventos sob a forma de um romance. Como se tudo fosse apenas uma ficção criada pela minha imaginação.
- Mas muito do que você descreverá, será identificado como fatos que realmente aconteceram.
- Não importa, Dani. Antes de começar a narrativa, basta que eu escreve a seguinte frase: "Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas ou com acontecimentos recentes ou antigos, é mera coincidência".
Dani sorriu e disse:
- Um truque semântico.
- Hum, hum. Mas que funciona. Se eu fizer isso, não haverá nenhum argumento jurídico para me processarem.
Daniele removeu a cabeça de meu ombro e beijou-me ligeiramente nos lábios.
- É como eu sempre disse, Toni: você é maravilhosamente diabólico.
Eu me limitei a sorrir. Ela perguntou:
- Você já tem um nome para o romance?
- Acredito que assim.
- Qual?
- Que tal "O Homem Que Enterrou o Jesus"?
Dani suspirou, afastou uma mecha de cabelo que teimava em cair sobre a testa e perguntou:
- Querido, você acha que algum de nossos filhos herdará essa sua astúcia admirável?
- Um? Por que não todos eles, meu amor?
- Quantos você tem em mente?
- Uns quatro ou cinco.
Daniele descansou a cabeça novamente em meu ombro e murmurou:
- Nossa, Toni! Só de pensar nisso me dá arrepios.
- De pensar na possível sagacidade de nossos futuros filhos? - perguntei com um leve toque de malícia na voz.
- Não, amor. - respondeu ela, num tom ainda mais malicioso - De pensar nas coisas maravilhosas que nós faremos para os conceber...
FIM
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